Nota Inicial.
O texto bíblico utilizado nesta exposição foi a versão
ARC (Almeida Revista e Corrigida [4ª ed. Sociedade Bíblica do Brasil,
2009]); esta versão da tradução de Almeida em relação a língua portuguesa é boa
em muitos dos textos sagrados, entre os quais, o texto da saudação angélica.
Proêmio.
1. “Mulher virtuosa, quem a achará? O seu valor
muito excede o de rubis” (Pv 31.10); ora, estas palavras competem a matéria
e ao assunto desta saudação; pois, a Virgem Maria é a mais preciosa entre as
mulheres, tanto por sua virtude quanto por sua santidade; a nobreza de caráter
e a vida santa da Virgem Maria a tornam a mais venturada e abençoada entre as
mulheres: “Muitas filhas agiram virtuosamente, mas tu a todas és superior.
Enganosa é a graça, e vaidade, a formosura, mas a mulher que teme ao Senhor,
essa será louvada” (Pv 31.29-30).
2. A virtude da Virgem Maria a fizeram ser objeto da
eleição divina para a mais preciosa de todas as tarefas que foram incumbidas a
uma mulher, a saber, ser mãe do Filho de Deus. Ora, a saudação angélica
demonstra a revelação de Deus quanto a eleição da Virgem Maria para ser mãe do
Redentor; o anjo foi enviado na plenitude dos tempos para saudá-la e para
anunciar tudo quanto sucederia no maior dos milagres, de quando ocorreria a
humanidade de Deus, tal como o profeta houvera anunciado: “Portanto, o mesmo
Senhor vos dará um sinal: eis que uma virgem conceberá, e dará à luz um filho,
e será o seu nome Emanuel” (Is 7.14).
3. Portanto, a preciosidade da Virgem Maria desvelada
na saudação angélica se demonstra de três maneiras: primeiro, por sua eleição
para este divino propósito. “Antes que eu te formasse no ventre, eu te
conheci; e, antes que saísses da madre, te santifiquei e às nações te dei por
profeta” (Jr 1.5). Segundo, pela santidade e imaculação de sua vida. “Mas
uma é a minha pomba, a minha imaculada, a única de sua mãe e a mais querida
daquela que a deu à luz; vendo-a, as filhas lhe chamarão bem-aventurada, as
rainhas e as concubinas a louvarão” (Ct 6.9). Terceiro, pela formosura de
sua virtude e pela graça de seu testemunho. “Jardim fechado és tu, irmã
minha, esposa minha, manancial fechado, fonte selada” (Ct 4.12).
Assim, pois, é totalmente entendível o modo, a razão e
a causa da saudação angélica; analisemos, pois, o texto para compreender as
benditas verdades reveladas sobre a Virgem Santa.
Lição 1 - Lucas 1.26-28
(26) E, no sexto mês, foi o anjo Gabriel enviado por
Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, (27) a uma virgem desposada com
um varão cujo nome era José, da casa de Davi; e o nome da virgem era Maria.
(28) E, entrando o anjo onde ela estava, disse: Salve, agraciada; o Senhor é
contigo; bendita és tu entre as mulheres.
1. O autor do terceiro evangelho, querendo, pois,
inspirado pelo Espírito Santo, anunciar o que concerne ao nascimento do
Salvador, tratou de explicar, em detalhes, a anunciação da concepção de Cristo
a Virgem Maria; e isto, por sua vez, é um artigo fundamental da fé, posto ser
parte da fé a confissão de que Cristo nasceu como verdadeiro homem de mulher,
tal como o Apóstolo diz: “mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu
Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei” (Gl 4.4); e isto também é
anunciado pelos principais documentos credais da fé cristã.
2. A saudação angélica é um dos textos mais
importantes do Santo Evangelho, pois versa sobre os principais aspectos de no
que consiste as glórias humanas e a missão da Virgem Maria; pois, o cronista da
atividade apostólica querendo, pois, munir a Igreja no entendimento sobre a
virtude da Virgem Santa, tratou de evocar a anunciação angélica logo no início
do Santo Evangelho a fim de designar a importância da encarnação de Deus; ora,
a saudação angélica apresenta três aspectos: primeiro, a demonstração da dignidade
da Virgem Santa (v. 26-28); segundo, o anúncio da maternidade divina (v.
29-33); terceiro, a concepção do Filho de Deus (v. 34-38).
3. Ora, em relação ao primeiro se fazem três coisas:
primeiro, o envio do anjo: “E, no sexto mês, foi o anjo Gabriel enviado por
Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré” (v. 26); ora, o Deus
Altíssimo enviara o mensageiro angelical, o anjo Gabriel (homem forte de Deus),
para Nazaré (broto), para anunciar o nascimento do broto de Jessé, tal como
houvera sido profetizado: “Porque brotará um rebento do tronco de Jessé, e
das suas raízes um renovo frutificará” (Is 11.1); o anunciador da vontade
de Deus foi a Nazaré para anunciar o maior dos milagres e o maior dos
acontecimentos à Virgem Santa.
4. Segundo, aquela a quem o anjo Gabriel é enviado, a
saber, Maria: “a uma virgem desposada com um varão cujo nome era José, da
casa de Davi; e o nome da virgem era Maria” (v. 27); ora, o anjo Gabriel,
anunciador da vontade de Deus, é enviado a alguém específico, a uma Virgem
desposada com um homem chamado José; o mensageiro angelical foi enviado para
anunciar as boas-novas, a maior das boas-novas, a uma Virgem, cujo nome é
Maria, que significa senhora pura, aquela que é profetiza; o anjo foi enviado a
uma Virgem Santa, cujo testemunho de santidade é de igual aos dos antigos
profetas e profetizas.
5. Terceiro, a saudação angelical direcionada a Maria:
“E, entrando o anjo onde ela estava, disse: Salve, agraciada; o Senhor é
contigo; bendita és tu entre as mulheres” (v. 28); ora, após se designar o
envio do mensageiro angelical por Deus e a quem o mensageiro angelical é
enviado, se tem a saudação do anjo a Virgem Maria; o homem forte de Deus,
aquele que anuncia a vontade de Deus, cumpriu as ordens de Deus e saudou a
Virgem Santa de modo a demonstrar-lhe a dignidade para a missão para a qual ela
fora eleita.
6. Por isso, a saudação angelical direcionada a Virgem
Maria tem três aspectos: primeiro, a reverência do anjo para com Maria: “Salve,
agraciada”; pois, a Virgem Maria foi agraciada de tal modo que Deus a
encheu de tanta graça que ela pode ser intitulada pelo mensageiro de Deus de “agraciada”
- literalmente, aquela que foi plenamente enchida de graça; portanto, a Virgem
Maria é recebedora da graça, mas não é a fonte da graça.
Pois, a Virgem Maria achou graça diante de Deus porque
tinha os mandamentos de Deus escritos nas tábuas de seu coração. “Filho meu,
não te esqueças da minha lei, e o teu coração guarde os meus mandamentos.
Porque eles aumentarão os teus dias e te acrescentarão anos de vida e paz. Não
te desamparem a benignidade e a fidelidade; ata-as ao teu pescoço; escreve-as
na tábua do teu coração e acharás graça e bom entendimento aos olhos de Deus e
dos homens” (Pv 3.1-4).
Por isso, a Virgem Maria fora agraciada com uma honra única e
especial. A saudação, “Salve, agraciada” (κεχαριτωμένη), é única em toda a Escritura;
portanto, nesta saudação se desvela no que consiste a honra e a glória da
Virgem Maria.
7. Segundo, a mensagem do anjo à Virgem Maria: “o
Senhor é contigo”; pois, somente aqueles com quem Deus se faz presente,
isto é, com os contritos e humildes de espírito (cf. Sl 51.17; Is 57.15), é que
são cheios de sua graça e que são agraciados com o desvelar de Sua vontade boa,
perfeita e agradável. “Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que
ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos”
(Mt 11.25).
8. Terceiro, a proclamação pelo anjo da dignidade da
Virgem Maria: “bendita és tu entre as mulheres”; ora, a Virgem Maria
possui uma dignidade que lhe é própria e que é manifesta em todas as épocas e
para todos os fiéis; a Virgem Maria é a mais venturada e a mais abençoada entre
as mulheres, pela sua virtude e santidade, mas principalmente por ter sido
eleita para ser a mãe do Filho de Deus. “Sessenta são as rainhas, e oitenta,
as concubinas, e as virgens, sem número. Mas uma é a minha pomba, a minha
imaculada, a única de sua mãe e a mais querida daquela que a deu à luz;
vendo-a, as filhas lhe chamarão bem-aventurada, as rainhas e as concubinas a
louvarão” (Ct 6.8-9).
Lição 2 - Lucas 1.29-33
(29) E, vendo-o ela, turbou-se muito com aquelas
palavras e considerava que saudação seria esta. (30) Disse-lhe, então, o anjo:
Maria, não temas, porque achaste graça diante de Deus, (31) E eis que em teu
ventre conceberás, e darás à luz um filho, e pôr-lhe-ás o nome de Jesus. (32)
Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo; e o Senhor Deus lhe dará o
trono de Davi, seu pai, (33) e reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu
Reino não terá fim.
1. Em relação ao segundo, o anúncio da maternidade
divina, se explicam quatro coisas: primeiro, narra-se a atitude da Virgem Maria
com relação a saudação do anjo; por isso, o evangelho diz: “E, vendo-o ela,
turbou-se muito com aquelas palavras e considerava que saudação seria esta”
(v. 29); a turbação da Virgem Maria era devido a dignidade da presença do
mensageiro celestial e pelo teor da mensagem, pois quanto mais importante a
mensagem de maior dignidade era o mensageiro; e como o mensageiro fora o anjo Gabriel,
aquele que anunciara ao profeta Daniel o fim dos tempos (cf. Dn 9.21ss), então
a mensagem se revestira de maior solenidade e importância.
2. Ora, a atitude da Virgem Maria em se turbar
demonstra duas coisas: primeiro, humildade; pois, a humildade é inerente a quem
vive em santidade. “A soberba do homem o abaterá, mas o humilde de espírito
obterá honra” (Pv 29.23). Segundo, meditação, a atitude de quem ouve e
entende as Palavras de Deus; pois, somente quem ama e tem reverência pela
Palavra é que medita na Palavra. “Oh! Quanto amo a tua lei! É a minha
meditação em todo o dia!” (Sl 119.97).
3. Segundo, narra a ação angelical ao ver Maria
turbada com a saudação; e, quanto a isso, logo trata de animá-la fazendo três
coisas: primeiro, ordenando, como mensageiro de Deus, a não temer: “Disse-lhe,
então, o anjo: Maria, não temas” (v. 30); ora, os anjos são ministros de
Deus em favor dos fiéis. “Não são, porventura, todos eles espíritos
ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a
salvação?” (Hb 1.14). Por isso, a dignidade da saudação é demonstrada por
saúda e por quem é saudado: da parte de quem saúda, devido a Aquele que envia,
para anunciar o nascimento do Salvador; da parte de quem é saudado, devido a
dignidade que lhe é conferida, a saber, ser mãe do Deus encarnado.
4. Segundo, declarando que ela achou graça diante de
Deus: “porque achaste graça diante de Deus”; ora, a Virgem Maria achou
graça diante de Deus não somente pela eleição soberana de Deus, mas também por
sua vida santa e virtuosa; Deus concede graças aos fiéis a medida que estes
vivem em santidade; por isso, quanto maior a retidão maior é a graça que Deus
dispensa ao coração. “Porque o Senhor Deus é um sol e escudo; o Senhor dará
graça e glória; não negará bem algum aos que andam na retidão” (Sl 84.11).
5. Terceiro, anunciando Sua missão maternal: “E eis
que em teu ventre conceberás”; ora, a maior dignidade que é conferida a
mulher é ser mãe, pois é sendo mãe que a mulher se salva: “Salvar-se-á,
porém, dando à luz filhos, se permanecer com modéstia na fé, no amor e na
santificação” (1Tm 2.15). Agora, quanto maior dignidade tem a que fora
achada digna de ser escolhida para ser a mãe do Filho de Deus; a dignidade da
Virgem Maria supera a de todas as mulheres em todas as épocas; por isso, Isabel
ao encontrá-la houvera afirmado em devoção: “E de onde me provém isso a mim,
que venha visitar-me a mãe do meu Senhor?” (Lc 1.43).
6. O anúncio do nascimento do Filho de Deus foi o
maior dos anúncios, a maior das boas-novas já anunciadas aos homens; e a Virgem
Maria é a mais venturada das mulheres e a mais abençoada entre todos os santos,
tanto porque foi a primeira a saber do nascimento do Filho de Deus, quanto
porque fora eleita para ser a mãe de Cristo, a mãe do Emanuel. “Eis que a
virgem conceberá e dará à luz um filho, e ele será chamado pelo nome de
Emanuel. (Emanuel traduzido é: Deus conosco)” (Mt 1.23).
7. Terceiro, dá a entender quem será o filho que ela
dará a luz, o Filho do Deus Altíssimo: “e darás à luz um filho, e pôr-lhe-ás
o nome de Jesus”; ora, a maternidade da Virgem Maria será a maternidade de
Cristo, o Filho do Deus Altíssimo; o anúncio a Virgem Maria é que ela será mãe
do Deus encarnado; este filho será chamado de Jesus, porque livrará o seu povo
dos seus pecados. “E ela dará à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus,
porque ele salvará o seu povo dos seus pecados” (Mt 1.21).
8. Portanto, tanto a dignidade quanto a glória da
Virgem Maria se demonstram em ordem a sua maternidade divina; a Virgem Maria
tem sua dignidade não por si mesma, como ela mesma declara no Magnificat,
mas a suma dignidade da Virgem Maria está no fruto de seu ventre, a saber, em
Cristo; a Virgem Maria é cheia da graça não porque ela é a fonte da graça, mas
porque em seu ventre será concebido Aquele que é fonte da graça. A Virgem Maria
recebera graça sem medida porque iria conceber a fonte infinita donde provém a
graça. “a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1.17b).
9. Quarto, explica a substância e a natureza deste que
será concebido: “Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo; e o
Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai, e reinará eternamente na casa de
Jacó, e o seu Reino não terá fim”; ora, o que a Virgem Maria conceberá não
é apenas um homem, mas o Deus feito homem; a graça que a Virgem Maria recebeu
foi tão grande, que a preparou não somente nos momentos anteriores a concepção,
mas desde sua infância a encaminhando a virtude e no temor do Senhor, na vida
em santidade diante de Deus; a Virgem Santa não progrediu penosamente na
virtude, não porque não era humana, mas porque escolheu a vida santa e
irrepreensível, a qual houvera visto em seus pais, e em sua prima Isabel e seu esposo
Zacarias (cf. Lc 1.6).
10. Ora, sendo anunciado a Virgem Maria a dignidade de
quem ela conceberia, o mensageiro de Deus também trata de anunciar os títulos
do Filho de Deus que a Virgem Santa conceberá, em concórdia plena com as
profecias do Antigo Testamento, tal como se diz no livro do profeta: “Porque
um menino nos nasceu, um filho se nos deu; e o principado está sobre os seus
ombros; e o seu nome será Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da
Eternidade, Príncipe da Paz” (Is 9.6).
11. E em concórdia com a profecia, o anjo Gabriel
anuncia os seguintes títulos, os quais demonstram a substância e a natureza do
Filho do Deus Altíssimo: primeiro, que ele será grande: “Este será grande”.
“Grande é o Senhor e mui digno de louvor na cidade do nosso Deus, no seu
monte santo” (Sl 48.1). Segundo, que ele será chamado Filho do Altíssimo: “e
será chamado Filho do Altíssimo”. “Recitarei o decreto: O Senhor me
disse: Tu és meu Filho; eu hoje te gerei” (Sl 2.7). Terceiro, que ele
receberá o Trono de Davi, pois é descendente de Davi: “e o Senhor Deus lhe
dará o trono de Davi, seu pai”. “O Senhor jurou a Davi com verdade e não
se desviará dela: Do fruto do teu ventre porei sobre o teu trono” (Sl
132.11). Quarto, que seu reino não terá fim: “e reinará eternamente na casa
de Jacó, e o seu Reino não terá fim”. “Do incremento deste principado e
da paz, não haverá fim, sobre o trono de Davi e no seu reino, para o firmar e o
fortificar em juízo e em justiça, desde agora e para sempre; o zelo do Senhor
dos Exércitos fará isto” (Is 9.7).
Lição 3 - Lucas 1.34-38
(34) E disse Maria ao anjo: Como se fará isso, visto
que não conheço varão? (35) E, respondendo o anjo, disse-lhe: Descerá sobre ti
o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; pelo
que também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus. (36) E
eis que também Isabel, tua prima, concebeu um filho em sua velhice; e é este o
sexto mês para aquela que era chamada estéril. (37) Porque para Deus nada é
impossível. (38) Disse, então, Maria: Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em
mim segundo a tua palavra. E o anjo ausentou-se dela.
1. E, em relação ao terceiro, se expõe o modo como o
filho de Deus fora concebido no ventre da Virgem Santa; ora, quanto a isso se
afirmam cinco coisas: primeiro, a indagação de Maria sobre como se daria tal
concepção: “E disse Maria ao anjo: Como se fará isso, visto que não conheço
varão?” (v. 34); ora, sendo evidentemente Virgem, e estando desposada com
José, Maria indagou como se daria a concepção do Filho do Altíssimo em seu
ventre já que não conhecia varão, isto é, já que era virgem; a profecia diz que
uma Virgem conceberia, mas não diz como; Maria trata de indagar para saber como
se daria a concepção mesmo com ela sendo Virgem.
2. Segundo, a resposta do anjo sobre o modo da
concepção: “E, respondendo o anjo, disse-lhe: Descerá sobre ti o Espírito
Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; pelo que também o
Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus” (v. 35); ora, o
anjo Gabriel responde a Virgem Maria sobre o modo como ela concebera: primeiro,
pela descida do Espírito Santo sobre ela: “Descerá sobre ti o Espírito Santo”;
pois, a promissão do Espírito Santo cumpre-se primeiro na Virgem Santa, já que
em seu ventre imaculado é concebido Aquele que é a fonte da graça.
Segundo, pela virtude de Deus: “e a virtude do
Altíssimo te cobrirá com a sua sombra”; pois, a virtude de Deus é
suficiente para operar qualquer milagre ou maravilha, mesmo se for para fazer
uma virgem conceber. “operando eu, quem impedirá?” (Is 43.13c).
Terceiro, pela imaculada conceição do fruto de seu
ventre: “que também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de
Deus”; pois, sendo ela santa e imaculada, e tendo descido sobre ela do
Espírito Santo, e tendo a virtude do Altíssimo a coberto com glória e poder,
ela concebe milagrosamente Aquele que é Santo, o Filho de Deus. A conceição
imaculada de Cristo se dá pela santidade e virtude da Virgem Maria, amparada
soberanamente pela descida do Espírito Santo e efetivada de modo eficaz pela virtude
do Altíssimo que a cobriu com seu inefável poder.
3. Terceiro, o anúncio a Virgem Maria da concepção de
Isabel: “E eis que também Isabel, tua prima, concebeu um filho em sua
velhice; e é este o sexto mês para aquela que era chamada estéril” (v. 36);
ora, a anunciação a Virgem Maria não somente é a anunciação da concepção do
Filho de Deus, mas também a anunciação da concepção de Isabel; pois, do mesmo
modo o anjo a fizera saber do mistério altissonante da concepção do Filho de
Deus em seu ventre também a fizera saber da gloriosa concepção de João Batista
no ventre de Isabel, o precursor do Messias. “E tu, ó menino, serás chamado
profeta do Altíssimo, porque hás de ir ante a face do Senhor, a preparar os
seus caminhos” (Lc 1.76). O anúncio da concepção de Isabel para a Virgem
Maria desvela a consumação da Velha Aliança e o raiar da Nova Aliança.
4. Quarto, a declaração sobre o poder de Deus: “Porque
para Deus nada é impossível” (v. 37); ora, o poder de Deus é sua infinita
majestade para operar como quer e quando quer, pois o poder pertence a Deus,
isto é, o poder é de Deus e é exercido soberanamente por Deus. “Uma coisa
disse Deus, duas vezes a ouvi: que o poder pertence a Deus” (Sl 62.11).
Além disso, o poder de Deus se mostra eficaz para a salvação. “O Senhor, teu
Deus, está no meio de ti, poderoso para te salvar” (Sf 3.17a). Portanto, na
concepção do Salvador no ventre da Virgem Maria se mostra uma gloriosa
manifestação do poder de Deus.
5. E o anjo declara para Maria que para Deus nada é
impossível por três razões: primeiro, para fortalecê-la na fé; pois, a fé é
fortalecida na força do poder de Deus. “No demais, irmãos meus,
fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder” (Ef 6.10). Segundo, para
fortificá-la em sua esperança; pois, a esperança faz abundar em virtude do
Espírito Santo. “Ora, o Deus de esperança vos encha de todo o gozo e paz em
crença, para que abundeis em esperança pela virtude do Espírito Santo” (Rm
15.13). Terceiro, para ensiná-la na caridade; pois, a Virgem Maria ao ser
envolta pelo Espírito Santo ela fora revestida de Amor; e assim na concepção de
Cristo se mostra o vínculo da perfeição. “E, sobre tudo isto, revesti-vos de
amor, que é o vínculo da perfeição” (Cl 3.14).
6. Além do que, o poder de Deus manifesto na concepção
de Cristo no ventre da Virgem é manifestação singular de fé, esperança e
caridade. A concepção de Cristo é artigo principal da fé; a concepção de Cristo
é o raiar da esperança áurea entre os homens (cf. Is 9.2); e a concepção de
Cristo é manifestação singular do amor de Deus para com os homens, pelo fato do
próprio Deus ter se feito homem.
7. Quinto, a atitude de humilde obediência de Maria: “Disse,
então, Maria: Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua
palavra. E o anjo ausentou-se dela” (v. 38); ora, ao ter o mensageiro de
Deus revelado a Virgem Maria o mistério altissonante da encarnação de Deus, a
Virgem Maria, em meio aos seus temores, rompeu em efusiva confiança a Deus; e
após ter sido agraciada com uma honra única e especial, afirma de si mesma: “Eis
aqui a serva do Senhor”, isto é, eis-me aqui, Senhor, “cumpra-se em mim
segundo a tua palavra”. Ou seja, a Virgem Santa se entregou aos propósitos
divinos segundo a Palavra pronunciada por Deus através de Seu mensageiro.
8. A fé e a obediência de Maria a tornaram
bem-aventurada, tal como dissera Isabel: “Bem-aventurada a que creu, pois
hão de cumprir-se as coisas que da parte do Senhor lhe foram ditas!” (Lc
1.45). Pois, a ventura da fé está na obediência, e o deleite da obediência se
manifesta pela fé; e tanto o é, que após sua atitude de humilde obediência e
após ter ido até Isabel, Maria irrompe em efusivo louvor a Deus como expressão
do deleite da obediência que se manifesta pela fé; o hino de Maria é singular
expressão da fé preciosa que se evidencia pela obediência. Portanto, a atitude
de humilde obediência da Virgem Maria demonstram a graça que lhe fora outorgada
para uma honra única e exclusiva.
9. Depois, Maria vai até Isabel, e ao chegar na casa
de Zacarias, Isabel a saúda com a mesma saudação angelical, ao declarar: “Bendita
és tu entre as mulheres, e é bendito o fruto do teu ventre!” (v. 42). Ora,
a saudação fora duplicada duas vezes; e na Sagrada Escritura tudo o que é
duplicado duas vezes é para designar algo que fora determinado por Deus e
porque Deus se apressa em fazer este algo. “E o sonho foi duplicado duas
vezes a Faraó é porque esta coisa é determinada de Deus, e Deus se apressa a
fazê-la” (Gn 41.32). Assim, a dupla saudação a Virgem Maria, a do anjo
Gabriel e a de Isabel, demonstra no que consiste as glórias de Maria: de ser a
mais abençoada e venturada entre as mulheres, e de que em seu ventre fora
concebido Aquele que é Bendito. Como diz Tomás de Aquino, a Virgem é bendita,
mas muito mais bendito é o fruto de seu ventre (cf. Exp. Salut. Ang., art. 3).
10. Ademais, na saudação de Isabel também se delineia
um dos mais importantes títulos da Virgem Maria, quando Isabel declara: “E
de onde me provém isso a mim, que venha visitar-me a mãe do meu Senhor?” (v.
43); ora, quando Isabel chama a Virgem Maria de “mãe do meu Senhor”, é o
mesmo que ela dizer “mãe do meu Deus”; pois, o título Senhor utilizado
nesta passagem (Κυρίου),
e em outros lugares na Sagrada Escritura, refere-se exclusivamente a Deus; na
verdade, aquele que chama Cristo de Senhor também o chama ao mesmo tempo de
Deus. “Tomé
respondeu e disse-lhe: Senhor meu, e Deus meu!” (Jo 20.28).
11. Portanto, a Virgem Maria é mãe de Deus (Θεοτόκος); e este é
um dos mais importantes títulos da Virgem Santa, porque refere-se não somente a
sua maternidade divina, mas principalmente porque se refere a própria glória do
Filho de Deus em ser verdadeiro homem e verdadeiro Deus. No mais, é parte impreterível
e irrevogável da fé verdadeira a atribuição do título de mãe de Deus à Virgem
Maria, o que é plenamente e cabalmente comprovado na saudação de Isabel, o que
por sua vez confirma a saudação angelical com duplo testemunho, tal como fora
evocado a partir do princípio de Gn 41.32, etc.; pois, afirmar que a Virgem
Maria é mãe de Deus é o mesmo que afirmar que Jesus Cristo é verdadeiro Deus e
verdadeiro homem em uma única Pessoa, e vice-versa. De fato, as glórias da Virgem Maria
demonstradas na saudação angelical foram algo determinado por Deus, o qual é
bendito eternamente. Amém.
Em fevereiro de 2018.
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