Prólogo.
1. Tendo visto vossa pertinente indagação, e
resolvendo dar uma resposta adequada, tanto em função de vossa indagação,
quanto em função da importância deste assunto, decidi escrever um breve escrito
(ou tratado) sobre a cultura ocidental; pois, tendo tantas críticas e loucuras
sendo afirmadas sobre a cultura do Ocidente como um todo, decidi escrever-te e
explicar-te, e quem sabe, a todos quantos possam ter algum interesse, a
respeito da forma da cultura ocidental.
2. A cultura ocidental, em suma, diz respeito a tudo
quanto foi importante para a formação do Ocidente; não do Ocidente que se fala
nas propagandas midiáticas, mas do Ocidente como um todo; pois, o que se fala
da cultura ocidental em tempos hodiernos é apenas um dos aspectos constituintes
da mesma, a saber, do ocidente latino, isto é, o que concerne a latinidade e a
cristandade latina.
No entanto, o Ocidente não é apenas isso; este é
apenas um traço da cultura ocidental; a cultura ocidental em si mesma, acopla
outros aspectos, tanto em suas formas gerais fundantes, o helenismo e a
latinidade, quanto em sua forma mais apurada a partir da influência da religião
cristã.
Outrossim, é que nem mesmo estes três aspectos resumem
toda a cultura ocidental, já que se tem em parte do ocidente a influência
islâmica (apesar de ser uma religião oriental) a partir do séc. VII, e a
influência da ciência a partir do séc. XIII (e mais visivelmente a partir do
séc. XVI), mesmo que a ciência dita ocidental tenha se desenvolvido bem menos
do que a ciência islâmica; etc.
Assim, portanto, compete explicar esta tríade que dá
sentido a cultura ocidental, para entender a própria natureza da cultura
ocidental, bem como para se compreender os caminhos do Ocidente.
Parte I: O Helenismo.
3. A primeira base da cultura ocidental é o helenismo;
a formação da cultura helênica, a partir dos grandes cantores e poetas do final
do período da religião primeira, outorgou a antiga civilização cretense o
ímpeto para a elucubração racional; os grandes poetas, como Homero e Hesíodo,
eram, no dizer de seus contemporâneos e das gerações seguintes, mensageiros das
divindades, posto expressarem os oráculos dos deuses de forma racional e
entendível; e o desenvolvimento da consciência mítica é o que abaliza o posterior
desenvolvimento racional, outorgando ao desenvolvimento da cultura o próprio
modo da mente funcionar; por isso, a cultura helênica é tida como cultura por
excelência.
Por esta razão, a cultura grega possui tanta força e
importância à racionalidade; já antiga sabedoria judaica, embasada nos altos
desenvolvimentos da cultura do crescente fértil, evocava a beleza e o fulgor da
reta razão (cf. Jó 6.25a), mas somente a cultura helênica conseguiu dar forma e
ímpeto à racionalidade de modo a esta por si se desenvolver além da consciência
mítica (ou imaginário mítico) e além do “mundo” da revelação (Israel do Velho
Testamento); portanto, o helenismo desenvolveu-se como fruto da perfeita
consciência mítica, dando a entender que a formação do imaginário mítico
antecede a formação da elucubração racional.
4. E o helenismo, após a formação da perfeita
consciência mítica, desenvolveu-se em três partes: primeiro, com os filósofos
da natureza; segundo, com os três grandes filósofos; terceiro, com as escolas
filosóficas.
5. Ora, quanto ao primeiro, os filósofos da natureza
ou físicos, foram os que primeiro receberam propriamente o designativo de
filósofos; Tales, Anaximandro, Anaxímenes, Heráclito, entre outros, foram
filósofos que elucubraram sobre a realidade a partir dos fenômenos naturais;
elucubraram sobre as causas da natureza e descobriram algo sobre a própria
ordem da realidade; a amplidão de saberes é o que mais interessa nestes
filósofos; o dito de Heráclito bem explica isso: “é preciso que de muitas
coisas sejam inquiridores os homens amantes da sabedoria” (DK 22 B 35);
ora, o que primeiro precisa ser inquirido é sobre os fenômenos naturais, posto
a consciência mítica ter formado sobre eles várias sentenças e ditos, tal como
se mostra nas grandes epopeias; e assim, se consegue extrair dos mesmos suas
causas naturais e investigá-las racionalmente através do método dialético.
Além do que, ao elucubrar sobre os fenômenos naturais,
os primeiros filósofos obtiveram princípios sobre o ser; e ao elucubrarem sobre
o ser descortinaram todo o amplo escopo da ordem ontológica da realidade; o
núcleo do helenismo é fundamentalmente ontologia, expresso em várias formas e
raramente com caracteres puramente metafísicos; com isso, se tem que a cultura
helênica compendiou o saber proveniente da realidade a partir de uma busca
ontológica, expressa primeiramente em caracteres físicos ou naturais.
A busca por um único princípio aclarou aspectos sobre
os próprios princípios constitutivos da ordem ontológica da realidade através
de sua esfera natural. Pois, a busca pela natureza era tida como a busca pelo
próprio ser, e vice-versa - isso é mais evidente, por exemplo, a partir de
Melisso de Samos (cf. DK 30 B 2), mas é pressuposição inerente aos primeiros
filósofos.
6. Ora, quanto ao segundo, os três grandes filósofos,
Sócrates, Platão e Aristóteles, foram estes que elevaram a elucubração racional
aos seus maiores cumes; os três grandes filósofos abalizaram tudo quanto
concerne a reflexão filosófica; Sócrates desenvolveu o método filosófico;
Platão aplicou o método filosófico e aprendeu a como extrair o saber da
realidade; Aristóteles sistematizou este saber numa ordem extraída da própria
realidade; com isso, o que os filósofos da natureza e outros formularam de
sentenças racionais, fora burilado por estes a fim de se ter um escopo
abalizado da elucubração racional.
Pois, a medida que Sócrates ensinou a diferenciar o
saber da mera opinião, através da maiêutica, Platão desenvolveu uma apurada
análise da realidade e conseguiu se aperceber da constituição ontológica da
realidade, ao passo que Aristóteles sistematizou este saber a fim de
compendiá-lo, não simplesmente por preocupação sistêmicas, mas para melhor
organizar tal saber em função da educação e do ensino das gerações futuras.
Além disso, os três grandes filósofos também foram
grandes educadores, diferentemente dos primeiros filósofos; Sócrates era
eminentemente um educador; para Platão, a filosofia era propriamente educação;
e para Aristóteles, a filosofia se desenvolvia a medida que acoplava
corretamente os ideais da educação; assim, com os três grandes filósofos a
filosofia passa a significar também educação; logo, se extrai uma glosa, a
saber, de que onde se tem verdadeiramente um filósofo ai se tem um educador; a
filosofia é educação, e a educação tem a ver com a filosofia.
7. Ora, quanto ao terceiro, com as escolas
filosóficas, já que após os três grandes filósofos, as escolas filosóficas
atinaram uma ebulição de possibilidades de reflexões filosóficas; o platonismo,
o aristotelismo, o estoicismo, o epicurismo, os eleatas, os atomistas, os
cínicos, os céticos, os pitagóricos, etc., enfim, todas as escolas filosóficas
que antecedem e sucedem o período dos três grandes filosóficos, desenvolveram
vários aspectos do que concerne ao saber racional; num geral, estas escolas
filosóficas acoplaram um aspecto da filosofia, como por exemplo, ética, ou
retórica, ou doutrina, e desenvolveram vários preceitos e observações; em
alguns casos houvera algum equilíbrio, noutros não houvera equilíbrio, e estas
escolas se tornaram um modo de compreender o mundo e a vida, e em muitos casos,
passaram a deificar um único aspecto da realidade e/ou do próprio saber.
Por isso, no que estas escolas filosóficas
desenvolveram em ordem ao saber, trouxera muitas coisas excelentes; mas no que
deificaram de um único aspecto, tornaram estas escolas quase em doutrinas
religiosas, exigindo daqueles que as seguisse quase que uma iniciação
religiosa, o que fez com que estas escolas definhassem e fizesse com que a
cultura grega aos poucos fosse se auto-implodindo e se secularizando da própria
razão; a consequência disso é óbvia, a cultura helênica se tornou sincrética e
acoplou elementos de outras religiões, e aos poucos foi se dissolvendo, e, com
isso perdeu o ímpeto do desenvolvimento cultural, que só se recuperaria com os
romanos; e embora em seu núcleo fundamental tenha permanecido intacto em suas
expressões na vida social fora totalmente corrompida pelo desequilíbrio
ontológico das escolas filosóficas.
8. Em suma, esta é a história do helenismo; pois,
conquanto o helenismo tenha se desenvolvido, e em seu núcleo fundamental seja
sempre metafísico, em suas expressões na cultura nem sempre o helenismo
permaneceu helênico; embora as sociedades helênicas tenham sido corrompidas, o
helenismo continuou vivo nas obras dos grandes filósofos, e continuou a
influenciar o pensamento posterior; no entanto, no âmbito da vida
sócio-política, o helenismo fora desfigurado, sendo depois acoplado por outros
aspectos; mas, o helenismo enquanto doutrina filosófica permanece inalterado
até os tempos atuais, apenas se amalgamou aos mais diversos ímpetos culturais,
em alguns aspectos benéfico em outros não; etc. O helenismo, em si mesmo, é a
primeira base da cultura ocidental, e é o fundamento à elucubração racional.
Parte II: A Latinidade.
9. A segunda base da cultura ocidental é a latinidade;
ora, após a corrupção do helenismo no tocante a vida sócio-política, a Grécia
antiga perdeu sua ênfase na “democracia”, e os antigos imperialismos orientais
se acoplaram novamente na cultura ocidental, mas com outra forma; e como a vida
sócio-política estava totalmente degradada, a mesma foi dominada por antigos
impérios orientais, e teve sua derradeira corrupção com o império romano; no
despontar mundial do império romano, surge a segunda base da cultura ocidental,
a latinidade; e a latinidade, diferentemente do helenismo, surge num mundo
dominado pela barbárie; por isso, a latinidade não surge na dialógica entre os
saberes, ou entre utopismo e realismo, mas na busca dialética por uma ordem
social que está sempre em constante tensão; embora tenha o ímpeto do
desenvolvimento cultural, não têm o núcleo ontológico do helenismo.
10. Ademais, se pode compreender a latinidade através
de dois aspectos: primeiro, o núcleo prático da latinidade; segundo, os mestres
da latinidade.
11. Primeiro, o núcleo prático da latinidade; enquanto
o helenismo tem um núcleo teorético abalizado, a latinidade é eminentemente
prática; a rapidez e a praticidade da cultura romana moldaram a praticidade da
latinidade; portanto, o núcleo prático da latinidade desenvolve-se tendo em
vista tanto a organização da vida pública, quanto em relação a vida ética; por
esta razão, na latinidade o direito se desenvolve a níveis mais perfeitos e as
escolas filosóficas práticas, como por exemplo o estoicismo, se desenvolvem de maneira mais abalizada; o
direito e a ética estóica-latina se tornam faces da latinidade; e, certamente
estes dois aspectos delineiam o que é a latinidade.
O direito no que concerne a vida pública, a
organização da coisa pública e a natureza das leis; a ética estóica no que
concerne a vida na virtude diante de uma sociedade não dada a elucubrações
metafísicas, mas a necessidades cotidianas; para os romanos as elucubrações
metafísicas eram apenas utópicas; por isso, dificilmente se tem reflexões
metafísicas nos intelectuais romanos, mas sempre se tem ponderações éticas e
descrições sobre questões ética (seja em relação a virtudes, seja em relação a
vícios, etc.).
Por isso, num sentido a intelectualidade da latinidade
acopla o instrumento da descrição sob a ótica platônica, mas sem o utopismo; e
acopla o realismo aristotélico, mas sem o logicismo; assim, filosoficamente, a
latinidade é uma amalgama de descrição real platônica com a precisão
aristotélica, mas sem os aspectos ontológicos do platonismo e do aristotelismo.
Com isso, a latinidade se cristaliza na busca por
precisão, sem as buscas metafísicas; em relação as descrições, a latinidade
alcança muitos frutos salutares, e estabelece uma ampla gama de observações
sobre a vida cotidiana, que vão da psicologia ao direito, bem como pressupõe
uma ampla gama de princípios que dominam a ordem social a partir dos atos e das
ações dos habitantes de uma sociedade.
12. Segundo, os mestres da latinidade; ora, a
latinidade encontra expressão maior em seus mestres maiores; e, embora existam
muitos, se pode evocar três entre os mestres da latinidade, a saber: primeiro,
o literato da latinidade, Virgílio; segundo, o intelectual da latinidade,
Cícero; terceiro, o filósofo da latinidade, Sêneca.
13. Primeiro, o literato da latinidade, Virgílio; ora,
o literato maior da latinidade, e quanto a isso não há dúvidas, é Virgílio; o
mestre da poesia latina soube concatenar não apenas a precisão poética que
legaram a língua latina seu maior monumento, mas também soube como analisar e
descrever toda a cultura latina em suas poesias de modo que nenhum intelectual
ou filósofo latino fizera; por isso, ler Virgílio não apenas é se encantar com
a beleza da poesia latina em seu maior representante, mas também é conhecer e
compreender as nuances e perspectivas da cultura latina.
Deste modo, ao se ler, por exemplo, a “Eneida”,
se compreende duas coisas: primeiro, a maestria na arte poética, numa precisão
matemática, onde as nuances e formas da língua latina ganham expressões
imorredouras; e, segundo, a cirúrgica capacidade de análise cultural, na qual
se descreve os erros e acertos da latinidade, ao mesmo tempo em que aponta os
erros e acertos que virão e suas respectivas consequências.
Portanto, se pode compreender em Virgílio não somente
o literato da latinidade, mas o profeta da cultura latina e de toda a
influência da latinidade nos tempos posteriores; tudo quanto concerne a
latinidade, em seus altos e baixos, bem como o que emana da latinidade, em
todos os seus aspectos, está disposto nas magníficas poesias virgilianas.
Em Virgílio se tem a compreensão de tudo o que foi, o
que é e o que será da cultura latina em todos os tempos e em todas as épocas.
14. Segundo, o intelectual da latinidade, Cícero; ora,
o intelectual maior da latinidade, sem dúvida, foi Cícero; o mestre romano, por
assim dizer, conseguiu concatenar o espírito prático da cultura romana com o
instrumento da descrição platônica, e, com isso, escreveu obras grandiosas,
imprescindíveis até os tempos atuais; Cícero amalgamou as grandes questões
comuns a cultura latina, e procurou dar uma solução a estas questões de forma
racional, seja em relação ao direito, já que a sociedade romana era obstinada
pelo direito, seja em relação a tópicos filosóficos, nos quais, Cícero, imbuído
de um espírito ético-moral, procurou explicar as virtudes e/ou os vícios da
sociedade em que vivia.
Por isso, o legado de Cícero continua imorredouro,
pois os problemas da latinidade em sua época continuam a ser os problemas de
todas as épocas; na verdade, o que Cícero pontuou dos problemas da sociedade em
que vivia prediz os problemas de nossa sociedade; não somente no que diz
respeito a ética individual em meio a uma sociedade plural, o que é comum na
latinidade, mas principalmente no que diz respeito aos valores eternos em meio
a comutação de princípios na degeneração cultural; neste sentido, Cícero foi um
dos maiores, senão o maior, que contribuíram para a análise do estado da
cultura. Portanto, o intelectual maior da latinidade.
Em Cícero se tem a compreensão de que o que emana da
cultura latina, tanto no sentido das virtudes e/ou vícios no indivíduo, quanto
no sentido das virtudes e/ou vícios na sociedade, bem como destes aspectos
aferidos na ciência do direito; por isso também, Cícero é o jurista por
excelência; etc.
15. Terceiro, o filósofo da latinidade, Sêneca; ora,
um dos maiores filósofos da latinidade fora Sêneca; na verdade, em certo
sentido se pode evocar Sêneca como o maior filósofo da latinidade antiga; pois,
Sêneca, ao desvelar, racionalmente e moralmente, o estado de degeneração da
latinidade, com sua própria vida se tornou em confronto com tais erros
deploráveis; por isso, Sêneca sofreu dos líderes latinos o mesmo que Sócrates
sofrera dos líderes atenienses; a vida e a obra de Sêneca testemunharam da
sabedoria racional, da luz interior, de modo grandiloquente diante das loucuras
insanas das consequências da degeneração da latinidade.
Por isso, as elucubrações de Sêneca, ao invés de
buscarem solucionar problemas teoréticos, buscou ensinar a virtude ao combater
os vícios, e vice-versa; Sêneca, neste sentido, seguiu o caminho platônico, a
explicação da virtude como preceito propedêutico ao saber, já que só quem
possui virtude consegue alcançar o saber; e, em meio as terríveis vicissitudes
que vivenciou, testemunhou do consolo da sabedoria através de seus escritos,
naquilo que séculos depois Boécio conseguiria demonstrar de maneira
grandiloquente; a filosofia de Sêneca fora temperada em meio a aflição, mas
mesmo assim ele não perdeu de vista o ideal do saber, a vida na virtude.
Em Sêneca se tem a compreensão de que mesmo em meio a
uma sociedade utilitarista e empírica, se deve caminhar em busca do saber por
meio da virtude, a qual é indispensável a todos quantos buscam enfrentar as
vicissitudes da degeneração cultural; disto Sêneca testemunhou de maneira
grandiosa.
16. Ora, a partir dos mestres da latinidade que foram
evocados, se compreende que a latinidade, seja no sentido literário, seja no
sentido jurídico, seja no sentido filosófico, tem os mesmos caracteres; seja na
poesia, seja em reflexões jurídicas, seja em reflexões filosóficas, a
latinidade sempre demonstra-se em função da razão prática; o que o helenismo
desenvolveu na razão pura, a latinidade desenvolveu na razão prática; o
helenismo tem um núcleo metafísico e a latinidade tem um núcleo ético.
E a eticidade da latinidade, seu caractere
indissolúvel, demonstra duas coisas: primeiro, o mundo ético, isto é, a
distinção entre lei humana e lei divina, e as respectivas ações dos seres
humanos em função disso; segundo, a ação ética, isto é, a ação humana em
relação ao imperativo ético. Em suma, isto se constitui o espírito da
latinidade, mundo ético e ação ética - embora, isto seja efetivado na
latinidade sem a perspectiva de uma revelação divina, o que compreendendo a
vida no mundo romano se dá para entender sem muita dificuldade.
17. Ademais, a latinidade, em si mesma e no que
produz, é a segunda base da cultura ocidental, e é o que dá forma ao ímpeto do
desenvolvimento sócio-político da cultura ocidental; por isso, a vida
sócio-política do Ocidente, em seus altos e baixos, é expressão precisa do que
é a latinidade, que é uma amalgama de xamanismo no sentido social com razão
prática no sentido intelectual. Na verdade, a latinidade transmogrifou o antigo
xamanismo e o inoculou na ordem social, na tentativa de o domesticar; e
realmente na latinidade o xamanismo foi domesticado até certo ponto, todavia a
latinidade assomou parte da desordem inerente do xamanismo do período da
religião primeira; no entanto, esta desordem não tem mais caracteres puramente
xamânicos, mas transmutou-se em um tipo de desordem inerente a latinidade (a
desordem sócio-política); etc.
Parte III: O Cristianismo.
18. A terceira base da cultura ocidental é a religião
cristã; a formação da cultura cristã, com a vida e obra de Jesus Cristo, o
testemunho dos apóstolos, etc., permeou o helenismo e a latinidade; tanto o é,
que formou-se uma cristandade que seguiu a linha helênica, a cristandade grega,
e formou-se uma cristandade que seguiu a linha latina, a cristandade latina ou
romana; embora nos primeiros séculos seja uma única e indivisa cristandade, já
dá para se perceber dois princípios distintos na formação da religião cristã.
Assim, o cristianismo se tornou a terceira base da
cultura ocidental, permeando o helenismo e a latinidade, dando-lhes outras
perspectivas, e levando adiante o que havia de melhor tanto na cultura helênica
quanto na cultura latina. O cristianismo foi o fermento que levedou a boa massa
do helenismo e da latinidade.
Ora, se faltava no helenismo um padrão que desse forma
adequada as descobertas filosóficas, esse padrão foi encontrado no
cristianismo, a religião do Logos, da razão; e se faltava a latinidade
uma moral sóbria, essa moral foi desvelada no cristianismo, a religião da vida
correta, a religião da verdadeira razão prática.
Portanto, o cristianismo surgiu como cumprimento tanto
para o helenismo quanto para a latinidade, utilizando-se do que a cultura grega
e a cultura latina tinham de melhor e burilando isso para o bem comum.
19. Ademais, se pode compreender o cristianismo
através de três aspectos: primeiro, o cumprimento da cultura hebraica; segundo,
o cumprimento da cultura helênica; terceiro, o cumprimento da cultura latina.
20. Primeiro, o cumprimento da cultura hebraica; ora,
o cristianismo é a religião do cumprimento da cultura hebraica; a cultura
hebraica, que Deus estabeleceu para outorgar ao mundo Sua revelação, era
fragmentária e parcial; por isso, necessitava e apontava para um cumprimento
perfeito e completo; este cumprimento perfeito e completo se consumou em Jesus
Cristo; portanto, sendo a religião cristã a religião da revelação, e sendo
Cristo o zênite da revelação, em Cristo e na fé n’Ele se cumpre a cultura
hebraica; de fato, Cristo é o testador de uma cultura superior a cultura
hebraica (cf. Hb 7.22, 8.6).
Além disso, a cultura hebraica reclamava e apontava
para um cumprimento por três razões: primeiro, porque as cerimônias judaicas
eram sombras de coisas futuras, pois necessitavam de aperfeiçoamento (cf. Hb
7.18-19); segundo, porque a lei cerimonial e a lei judicial são em si mesmas
caudatárias, isto é, necessitam de algo maior e superior (cf. Hb 7.28);
terceiro, porque a revelação divina na cultura hebraica foi a preparação para
algo mais perfeito, isto é, a lei mosaica é o pedagogo que conduz a Cristo (cf.
Gl 3.24).
Deste modo, tendo como base a premissa voegeliana, a
cultura hebraica foi o primeiro princípio rumo a uma ordem revelacional
outorgada pelo próprio Deus como expressão de Sua vontade soberana; em busca da
ordem, de uma ordem plena e humana, os homens tiveram na cultura hebraica uma
primeira manifestação do que Deus quisera revelar aos homens de boa vontade.
O cristianismo é o cumprimento da cultura hebraica a
fim de cabalmente instituir uma ordem revelacional de acordo com aquilo que
Deus estabeleceu para o todo da vida humana. Em sentido teológico, isto é o que
significa o cristianismo no plano da revelação divina, conquanto a revelação de
Deus seja a abolição das falsas religiões para a demonstração racional da
religião verdadeira (cf. Tg 1.27).
21. Segundo, o cumprimento da cultura helênica; ora, o
cristianismo é o cumprimento da cultura helênica; pois, do mesmo do que o
cumprimento religioso em relação a cultura hebraica, a fé cristã também é o
cumprimento do pensamento racional; a cultura helênica, a do pensamento
puramente racional, tem seu cumprimento na Razão Divina, Cristo; o helenismo é
o cume da elucubração puramente racional; e o cristianismo eleva isso, tanto
porque é o cumprimento da cultura hebraica, quanto porque é a religião da reta
razão; no cristianismo, a racionalidade ganha expressão plena na elucubração
religiosa.
Outrossim, é que no cumprimento da cultura helênica, o
cristianismo torna-se também ímpeto para a edificação cultural; por isso, o
fermento da cultura ocidental foi mistura sob a massa social a partir da
religião cristã, onde a questão religiosa e a questão racional se amalgamaram
de forma a religiosidade se mostrar racional e a racionalidade se mostrar com
alcance metafísico; com efeito, o cristianismo cumpre a cultura helênica ao
mostrar a excelência da racionalidade manifesta no Logos, Aquele do qual
todos os filósofos falaram e elucubraram.
22. Terceiro, o cumprimento da cultura latina; ora, o
cristianismo é o cumprimento da cultura latina; pois, se em sentido teológico o
cristianismo é o cumprimento da religião hebraica, e em sentido filosófico o
cumprimento da cultura helênica, em sentido social e cultural o cristianismo é
o cumprimento da cultura latina; o cristianismo é o cumprimento do núcleo
social da cultura ocidental; a cultura latina fermentou o ímpeto da vida social
e cultura com o viés prático para a vida; por isso, o cristianismo ao ser o
cumprimento da cultura latina, tornara-se o fermentador do verdadeiro humanismo
em vista do bem de todos os homens.
Portanto, ao ser o cumprimento da cultura latina, o
cristianismo ganhou expressão social, não no sentido político, mas em função de
aplainar o núcleo da vida social sem a perversão da deificação da algum “eu” em
detrimento do todo da pluralidade da vida; o cristianismo cumpriu a cultura
latina em vista de proporcionar à humanidade aquilo que é próprio da
humanidade, a saber, a multipluralidade de manifestações da vida e do viver; a
uniteralidade do paganismo total foi vencida pela multilateralidade da fé
humanizadora (fé cristã); em suma, nisto constitui o cristianismo enquanto
cumprimento da cultura latina; etc.
23. Ora, a partir da compreensão sobre estes três
concernentes a religião cristã, se entende as razões do porque o cristianismo
permeou tão bem as culturas antigas e as deu nova forma e seguimento, sem se
deixar moldar por elas e sem sincretizar religiosamente com os preceitos
religiosos das culturas pagãs; por isso, o cristianismo foi a religião que deu
o ímpeto necessário para que todo o saber antigo se desenvolvesse, e se tornou
o pilar, o guardião vertical da cultura, a fim de que a cultura não sofra a
invasão vertical dos bárbaros; embora sempre se tenha crises na cristandade, a
mesma deve continuar a servir como este guardião, a fim de que o múnus da
cultura não seja trucidado pelo bárbaros - em tempos modernos, não só os
invasores horizontais, mas também os invasores verticais.
24. E, por fim, se compreende que num todo a cultura
ocidental é uma cultura formada em tríplice perspectiva; para me utilizar de um
termo do barroco alemão, uma cultura triadosófica; a tríplice
perspectiva que fermentou a cultura ocidental é uma cultura em tríplice
sabedoria, e em tríplice estruturação: religião, cristianismo; pensamento
racional, filosofia grega; estamento jurídico, direito romano. Em todas as
outras grandes culturas se tem o mesmo estilo de estruturação, mas apenas a
cultura ocidental o tem com estes três princípios em conjunto.
A religião cristã, a filosofia grega e o direito
romano formaram o núcleo e o múnus da cultura ocidental; na verdade, como já
fora muitas vezes afirmado, a filosofia, a teologia e o direito são os três
pilares da cultura ocidental. Num geral, este é o escopo da cultura ocidental;
mas também é bom que se saiba que haveria de se falar sobre o islamismo e a
ciência, que também influenciaram e influenciam a cultura ocidental.
Outrossim, é que se deve ponderar sobre a cultura
ocidental a partir dessa tríplice perspectiva para se entender que a cosmovisão
ocidental foi moldada em três perspectivas que açambarcam o todo da vida.
25. Por isso, onde houvera a corrupção do cristianismo,
principalmente por causa de usurpação praticada, surgira o islamismo; onde
houvera a corrupção da filosofia racional, surgira o cientificismo; e onde
houvera a corrupção do direito romano, surgira o juspositivismo. A face
ocidental em tempos hodiernos é oriunda da corrupção dos três pilares fundantes
da cultura ocidental; nesta corrupção surgiram os substitutos para estes três
pilares; o cientificismo hodierno, a secularização da religião cristã, o
justiçamento juspositivista, etc., se tornaram a face ocidental por causa da
desfiguração desses três pilares, e assim criou-se uma cultura com um núcleo
corrompido e corruptor, mas que mantém o invólucro dito clássico. Este é um
grande problema da cultura ocidental: perdeu-se a essência, mas manteve-se uma
forma vazia e opaca; etc. E o que fora dito basta para uma explicação sobre a
cultura ocidental.
26. E termina aqui esta explicação. Bendito seja Deus por todas as
coisas. Amém.