Capítulo I: A análise do propósito do eurasianismo.
1. “Fugi pois destas plantas parasitas, que
produzem fruto mortífero. Se alguém provar delas morre na hora. Não são pois eles
plantação do Pai. Se o fossem, apareceriam como rebentos da cruz, e seu fruto
seria imperecível” (Ad Tral., 11.1-2); ora, esta sentença de Santo
Inácio de Antioquia, não somente se aplica a questões propriamente ditas
teológicas ou religiosas, mas também deve ser observada como princípio
impreterível para se analisar toda e qualquer filosofia que se apresente como
perigo para a fé; não somente filosofias racionais, mas também doutrinas e
ideologias políticas que são verdadeiras parasitas infernais para a fé.
2. Ora, tendo como princípio esta sentença de Santo
Inácio, e defrontando-me com a mais terrível ideologia que surgira nos últimos
40 anos, resolvi analisar o propósito do eurasianismo tal como está disposto no
livro “A Quarta Teoria Política” de Alexander Dugin[1]; este
livro é um dos marcos teoréticos da doutrina eurasiana ou nacional-bolchevismo –
na verdade, esta obra é o manifesto filosófico da doutrina eurasiana; assim, ao
se analisar o eurasianismo, se faz necessário refutar esta ideologia política
de acordo com sua base teorética, que apesar de se desenvolver em outros
livros, tem neste livro de Dugin sua mais conhecida expressão e descrição
filosófica.
3. Portanto, tendo em vista a necessidade de sempre se
apologizar em favor da verdade contra os parasitas da reta razão e os destruidores
da ordem social, escrevo esta análise do propósito do eurasianismo, a partir da
descrição de seu principal artífice em seu livro doutrinário fundamental; a
morte racional e a morte espiritual que emana do eurasianismo é mais do que
evidente em toda a Rússia e onde se tem influência da Rússia; mas, não somente
na cultura russa, pois também a Igreja Ortodoxa Russa se submeteu a esta infame
ideologia e a acolheu de modo apostasioso como parte da vida interna da Igreja;
isto por si demonstra todo o parasitismo espiritual do eurasianismo, que em
suma é uma ideologia política anticristianismo, tal como é próprio de qualquer
ideologia histórica; a Ortodoxia Russa ao se deixar dominar pelo eurasianismo
se tornou uma “igreja” sob o poder de mando humano e não mais sob o senhorio de
Cristo.
4. Deste modo, ao se apologizar contra o eurasianismo
também se tem em vista a defesa da fé ortodoxa contra as infames práticas
ideológicas que voltaram a circular na Ortodoxia, agora não mais na sé de
Constantinopla, mas na sé de Moscou; de fato, a sé de Moscou é assolada por
domínio ideológico desde a Revolução Russa; e após a Queda da União Soviética,
o Patriarca Alexei II conseguira em parte evitar esta manipulação ideológica –
pelo menos quanto a aceitação de práticas hediondas -, mas já havia uma construção
ideológica em andamento para voltar a colocar a Rússia em estado de sonho, o
que recebeu de início o nome de nacional-bolchevismo, que aos poucos foi sendo
estruturado; assim, a partir da publicação deste livro de Dugin se tem o marco
da estruturação final do eurasianismo, o qual cristaliza a teoria e a práxis da
doutrina eurasiana, os quais, mesmo que indiretamente, tem por mote dominar a
Santa Igreja - e que infelizmente já conseguiu dominar a hierarquia da Igreja
Ortodoxa Russa.
5. Portanto, a doutrina eurasiana é uma terrível
parasita que atina contra a reta razão e contra a revelação, e é uma doutrina
que só produz fruto mortífero; o Senhor Jesus houvera dito: “Pelos frutos os
conhecereis” (Mt 7.21); ora, os frutos do eurasianismo são todos eles
terríveis, o que é um fato inegável; logo, são frutos mortíferos; pois, o
eurasianismo se assenhora da verdade, a transmuta em preceitos ideológicos, bem
como perverte a ordem social a partir do endeusamento de uma figura
carismática, de um suposto líder enviado por Deus[2]; o
eurasianismo promove o culto a personalidade de um líder carismático; etc. Por
esta e outras razões, o parasitismo do eurasianismo é tão terrível quanto o de
qualquer ideologia carniceira; portanto, o eurasianismo é uma doutrina nefasta,
já que é sincretismo entre comunismo, fascismo e nazismo.
6. Além do que, o eurasianismo assim como qualquer
ideologia é permeado pela obstinação contra a autoridade da Sagrada Escritura e
contra a autoridade da Sagrada Tradição[3];
na verdade, o eurasianismo institui poderes de mando humano contra a autoridade
divina para a Santa Igreja. Em sentido teológico, o eurasianismo promove o
etnofiletismo; logo, o eurasianismo é anátema; além do que, que se afirme e
reafirme não existe Igreja Eurasiana: ou se é Igreja de Cristo ou então não se
é Igreja; outrossim, é que a chamada Igreja Eurasiana não é parte da fé
ortodoxa; na verdade, a propagação de uma Igreja Eurasiana[4],
com preceitos etnofiletistas, é obra de Satanás; e os “cristãos eurasianos”
não são cristãos verdadeiros.
7. Ora, não se precisa de um conhecimento aprofundado
das ideologias históricas para se perceber a perdição que é inerente ao
eurasianismo; apenas bastaria explicar no que consiste o eurasianismo, e
mencionar os propósitos do mesmo, que já se teriam razões mais do que
suficientes para se apologizar contra o eurasianismo do ponto de vista da fé;
pois, o Espírito Santo que habita nos fiéis, os ensina e mostra os inimigos da
fé, os que buscam modificar ou mudar a fé em função de propósitos ideológicos
nefastos, a partir dos mais variados sofismas, entre os quais estão aqueles que
buscam para si ou para outrem o assenhorar-se da Santa Igreja com poderes de
mando e o rejeitar deliberadamente a reta razão.
8. Todavia, como também se faz necessário uma apologia
filosófica contra esta nefasta doutrina ideológica, considerei necessário elaborar,
a guisa de apresentação geral, uma análise filosófica sobre o propósito do
eurasianismo, sem deixar de lado os princípios teológicos, já que o
eurasianismo, inconscientemente, assim como toda ideologia histórica pós-Hegel,
busca ser um substituto para a teologia cristã; e o faço para expor e iniciar a
refutação das entranhas nefastas e demoníacas do eurasianismo. E aqueles que
por si puderem compreender o eurasianismo, perdoem-me pela simplicidade desta
análise, mas aqueles que não puderem por si estudar o eurasianismo, encontrarão
nesta análise um guia eficaz para se entender as razões do porque se deve
apologizar contra esta nefastíssima doutrina ideológica.
9. Que o Deus Altíssimo nos oriente e nos conduza nesta
análise, a fim de honrá-Lo, a fim de ensinar o bem e para testemunhar da
verdade para todos os homens de boa vontade; pois, o testemunho da verdade
também requer que se debele o erro, principalmente em se tratando das infâmias
das doutrinas ideológicas; pois, o perigo moral, intelectual e espiritual que
provém de uma ideologia nefasta, tal como o eurasianismo, é de uma gravidade
tão grande que afeta não só somente a sociedade e os indivíduos que a compõem,
mas atenta contra a própria liberdade do Santo Evangelho. E se se atenta contra
a liberdade do Santo Evangelho, seja de maneira direta seja de maneira
indireta, então se tem a anunciação da vituperação da dignidade humana.
Capítulo II: A Dialética das Ideologias Históricas.
10. Ao se iniciar esta análise do propósito do
eurasianismo, se deve, a guisa de introdução, analisar o eurasianismo enquanto
ideologia histórica; e, para compreender no que consiste uma ideologia
história, se deve evocar a proposição do sistema da ciência de Hegel sobre a
dialética das ideologias históricas; ora, Hegel propugnara na Fenomenologia
do Espírito algumas observações sobre como as ideologias se encarnam no
solo da história, não somente no domínio das funções seculares, mas
principalmente nas ações humanas; as ideologias não querem simplesmente domínio
público visível, mas buscam fundamentalmente dominar o modo como os seres
humanos pensam e agem.
11. Deste modo, as ideologias históricas, segundo
Hegel, possuem as seguintes características: primeiro, o desejo anterior a luta
pelo reconhecimento, ou seja, as manifestações sem luta nem labor (cf. Ph VII,
A); por isso, as chamadas sociedades primitivas são a primeira manifestação de
ideologia histórica, que toma forma a partir de Hegel pelo denominativo comum
evocado no sistema da ciência de pacifismo; a primeira forma das ideologias
históricas é o pacifismo.
Segundo, o desejo da luta pelo reconhecimento, ou
seja, as manifestações com luta e com labor (cf. Ph VII, B); por isso, as
chamadas sociedades mais desenvolvidas, a partir da Grécia Antiga, são a
segunda forma de manifestação das ideologias históricas, que toma forma a
partir de Hegel pelo denominativo comum evocado no sistema da ciência como a
ação e o destino épico.
Terceiro, o desejo posterior a luta pelo
reconhecimento, ou seja, as manifestações após a luta e o labor (cf. Ph VII,
C); por isso, após as sociedades mais desenvolvidas surge o mundo burguês, que
é a terceira forma de manifestação das ideologias históricas, que toma forma a
partir de Hegel pelo denominativo comum evocado no sistema da ciência como a “verdade”
do cristianismo; e isto em Hegel significa a saída da sabedoria revelada para a
sabedoria ateia.
12. Assim, na dialética das ideologias históricas se
tem três estágios que a ideologia histórica se utiliza para procurar se
estabelecer, os quais estão em concórdia com as características das ideologias
ao longo da história; por isso, toda ideologia histórica vai evocar alguma
indolência ou inatividade, ou passividade, para com isso atinar algum erro ou
problema que supostamente precisa ser resolvido; ao fazer isso, a ideologia
histórica transmuta o pacifismo em necessidade de ação e destino épicos, para
instaurar nas sociedades pacíficas a necessidade da guerra e/ou da revolução;
e, por fim, chega-se as sociedades pacifistas, que buscam evitar a guerra, mas
ao fazê-lo não o fazem porque são pacíficos, mas porque voltaram de alguma
forma ao pacifismo anterior, gerando assim o ímpeto social para o secularismo.
13. Portanto, se se analisar com cuidado, toda
ideologia histórica busca estas três coisas, e busca instaurar um modus
operandi a fim de alcançar o pleno domínio através da manipulação social
destes três estágios, que de certa forma estão imbuídos nas ações humanas; o
eurasianismo busca instaurar estes três estágios, embora com ordem e disposição
distintas: o eurasianismo propaga a ideia de uma “indolência” e corrupção geral
da cultura europeia, o que em parte está correto, mas não para vencer e retirar
esta indolência e corrupção, mas para arrolar para a doutrina eurasiana o mote
para dominar sobre a cultura europeia; além disso, o eurasianismo propaga a
necessidade de guerra para retirar o domínio da corrupção que tomou conta da
Europa; e o eurasianismo diz buscar uma “paz duradoura”, um pacifismo ao
estilo kantiano, como “promessa” de aceitação do eurasianismo, ou seja,
trabalham com a coação hegemônica para angariar adeptos (tantos indivíduos
quanto nações).
14. Assim sendo, o eurasianismo é uma nova espécie de
ideologia histórica, sem os erros visíveis das ideologias históricas
anteriores, mas com o mesmo propósito, a saber: dominar o modo de pensar e de
agir de todos os homens; o eurasianismo é um parasita mortífero do ponto de
vista sócio-histórico; nem mesmo o esquema geral das crises históricas é
argumento para as nefastisses propagadas pelo eurasianismo; o eurasianismo é
apenas uma nova forma de “ressuscitar” os problemas que deram “origem” e “justificativa”
ao modo de ação dos fascistas e dos nazistas; na verdade, o eurasianismo é
apenas uma semente para plantar novamente no solo da sociedade o destino final
das crises históricas engendrado pelas ideologias históricas, a saber, conduzir
a sociedade para total destruição.
Aliás, aquilo que Pio XI, papa de Roma, houvera dito
sobre o nazismo, também pode ser aplicado inteiramente ao eurasianismo já que
os propósitos finais assustadoramente são os mesmos: “A experiência dos anos
passados põe em claro as responsabilidades, e revela as maquinações que já
desde o começo nada intentavam senão uma luta até ao aniquilamento”[5]. O
eurasianismo busca uma luta até o aniquilamento, não para se instaurar
plenamente, mas para cumprir seu propósito como doutrina adjutora da ideologia
histórica dominante da contemporaneidade, o marxismo-comunismo; o eurasianismo
tem por natureza e propósito ser mais um “navio quebra-gelo” para o
comunismo – tal como fora o nazismo.
Em suma, nisto consiste o eurasianismo a partir de uma
análise da natureza e do propósito das ideologias históricas.
15. Além disso, a proposição de Alan de Benoist de que
existe um pensamento político que está além da direita e da esquerda, que rompe
esquemas[6], é
um sofisma; pois, um pensamento político, no sentido ideológico contemporâneo,
está sujeito, sem exceção, aos ditames do sistema de Hegel; o próprio Marx
houvera dito que todos estão submersos em Hegel[7],
isto é, todos estão sujeitos absolutamente a Hegel – especialmente, em sentido
ideológico.
Portanto, não existe pensamento político além da
direita e da esquerda hegelianas (e isso é um fato apodítico); além do que, a
partir da dialética das ideologias históricas se constata que nenhum pensamento
político rompe esquemas, principalmente se for os esquemas inerentes as crises
históricas; pois, é justamente a deformação causada pelas ideologias históricas
que germina muitas das sementes das crises históricas.
Assim sendo, a designação de Alan de Benoist é uma
junção de imbecilidade, desconhecimento filosófico e cegueira ideológica; o
eurasianismo não é um pensamento político além da direita e da esquerda, mas é
um pensamento político que orbita de maneira desordenada entre a direita e a
esquerda hegelianas, e é mais um fruto que encarna ainda mais o esquema das
crises históricas transmogrifado por Hegel.
A lixaria eurasiana é tão medonha como qualquer outro
dos frutos da direita e/ou da esquerda hegelianas. E isto é o que se diz a
guisa de introdução desta análise.
Capítulo III: A falsa universalidade do eurasianismo.
16. Após estas breves perspectivas introdutórias, se
pode prosseguir para a análise do propósito do eurasianismo tal como delineado
no prefácio do livro de Dugin (cap. 1 da edição brasileira); todavia, existe
uma peculiaridade que deve ser evocada que é a introdução que Dugin escreveu
para a edição espanhola[8];
uma introdução muito útil para se entender não somente o livro em si, mas para
compreender o propósito global do eurasianismo; por isso, se inicia
propriamente dito esta análise a partir desta introdução[9].
17. Eis a primeira sentença de Dugin nesta introdução:
“A quarta teoria política não tem um destinatário sócio-cultural definido”;
ora, isto é um sofisma; pois, a quarta teoria política é uma doutrina
etnofiletista; pois, é uma doutrina que propaga sem rodeios a superioridade
racional e étnica dos russos, conduzindo-os para o sonho do “mundo russo”;
portanto, ainda a quarta teoria política afirme que é algo que tem propriedade
universal, e embora busque um domínio universal, a quarta teoria política é
exclusivista e particularista ao extremo quanto a suas doutrinas e a seus
propósitos; a quarta teoria política propaga a superioridade racial.
O destinatário sócio-cultural do eurasianismo é a
Rússia e tudo aquilo que os russos puderem dominar em função da formação do “mundo
russo”; pois os destinatários da quarta teoria política são os que são
permeados pela insatisfação russa, ou melhor, pelo tédio russo; o eurasianismo
é um divertimento evocado a partir do estado de tédio em que fora submetida a
cultura russa - aliás, o estado de tédio da cultura russa fora descrito com
maestria por Dostoiévski em suas obras inigualáveis.
18. Depois, ao seguir sua argumentação, Dugin afirma: “que
todos nós devemos contestar a pergunta principal: ser ou não ser?”; ora, a
suposta universalidade do eurasianismo é em função de uma crítica ontológica; e
toda crítica ontológica geralmente esconde por detrás a canalhice do filósofo
que assim a propõe; na verdade, a pressuposição de uma crítica ontológica é
formulada como axioma por Martin Heidegger em sua obra “Ser e Tempo”[10];
assim, toda crítica ontológica está sujeita as canalhices de Heidegger.
Assim, a ideia de universalidade do eurasianismo é
embasada em Heidegger, a partir do que Heidegger designa como a ideia da busca
pela verdade (da verdade como desvelamento); para Heidegger a verdade está
encoberta, e somente uma crítica ontológica é que pode desvelá-la - no caso, a
filosofia do próprio Heidegger; em suma, o eurasianismo é isso, só que do ponto
de vista sócio-político.
Ao invés de ter Hegel como base, como fizeram Marx e
Engels na formação do marxismo, Dugin tem Heidegger como base para gestar e
formar o eurasianismo. O teórico do partido nazista é a base filosófica do
eurasianismo.
19. A contestação que Dugin evoca como obra de todos,
na verdade, é permeada pelo princípio heideggeriano; o “ser ou não ser?”,
lembrando a sentença de Shakespeare, não é uma indagação sobre a possibilidade
do ser ou do não-ser, pois o ser é evidente e o não-ser não existe; mas, esta
indagação é proposta para induzir à quem revela o suposto estado de não-ser e
quem aponta para o ser; no caso, a partir das sentenças de Dugin, quem promove
isso é a quarta teoria política; ou seja, uma ideologia política se coloca como
a desveladora do ser; ora, quem desvela o ser é a verdade, e vice-versa; logo,
quem assim propõe fazer usurpa o lugar da verdade e/ou do próprio ser. Por
isso, a quarta teoria política assume uma posição arquimédica ao se colocar
como a desveladora do ser; na verdade, a quarta teoria política se torna como o
demiurgo platônico. A quarta teoria política, nas pressuposições de Dugin, se
torna por assim dizer, o meio instrumental para a revelação da verdade e do
ser.
20. Depois de prosseguir a explicação da sentença
evocada anteriormente, Dugin prossegue em sua argumentação, e explica qual o
sujeito do eurasianismo, ao afirmar: “o sujeito da quarta teoria política é
o Dasein”; ora, o Dasein, ou ser-aí, tal como evocado por Heidegger,
e utilizado por Dugin, na verdade não é um vocábulo para simplesmente evocar a
existência, ou o ser-existente, tal como querem os existencialistas e outras
escolas filosóficas do séc. XX, e o próprio Dugin; o Dasein
heideggeriano, na verdade, é um amontoado de erros filosóficos sobre a
existência e a essência; a quarta teoria política se baseia na ideia do Dasein,
mas no ser-aí que contém erros filosóficos pueris, os quais se tornam grandes
erros após terem sido iniciados - lembrando o dito do Filósofo de um erro
pequeno no início se torna grande no final (cf. De Cael. 271b9-10).
O sujeito da quarta teoria política é um tótem; pois,
o Dasein heideggeriano desfigura o preceito sobre a existência
desfigurando a ideia de essência; a ideia de essência de Heidegger está sujeita
ao conceito de essência da lógica hegeliana; por isso, o que Heidegger propõe,
e Dugin segue a risca, é a ideia de que a essência dos entes está tão velada
que não pode ser conhecida sem aquilo que dá a conhecer o ser; além do que, a
busca pela essência determinada por Heidegger na verdade diz respeito a
purificação racial[11], e
não em relação a definição intelectual; por isso, a ideia heideggeriana de
existência e essência saem do campo epistemológico-metafísico, para o campo
praxeológico em nome de uma ideologia histórica - no caso de Heidegger, o
nazismo[12],
e no caso de Dugin, o eurasianismo.
Em suma, nisto consiste a busca pela essência
designada pelo Dasein heideggeriano e pelo Dasein eurasiano, a
saber, o ser-aí que desvela a existência e a essência através da ideologia
histórica - a partir da perspectiva de Dugin através do eurasianismo.
21. E Dugin prossegue e assevera: “O Dasein é
plural a nível de fenômeno”; ora, tendo Dugin designado o Dasein
como sujeito do eurasianismo, Dugin também trata de evocar a pluralidade do Dasein
que utiliza; a descrição de Dugin a partir do termo fenômeno para designar a
pluralidade do Dasein, na verdade não é porque o Dasein tenha
pluralidade fenomênica, mas porque o Dasein heideggeriano se dá numa
pluralidade de fenômenos específicos que o permitem ser deste modo elucubrado.
Ou dito em outros termos, a pluralidade fenomênica do Dasein
não se dá porque o Dasein é assim de fato, mas porque ao instituir um Dasein
plural no sentido fenomênico, se o encaminha para a necessidade histórica
evocada pela ideologia histórica; pois, se se propaga certos fenômenos que
atinam para a ideologia histórica, então o Dasein é plural em função da
ideologia histórica e não em si mesmo.
Assim, o Dasein heideggeriano e o Dasein
eurasiano não dizem respeito ao que está manifesto na realidade, mas sim no que
se torna manifesto a partir da ideologia histórica; o Dasein eurasiano é
um Dasein ideológico; logo, tudo o que é manifesto no ou pelo
eurasianismo será algo totalmente ideológico.
22. Além disso, Dugin especifica que o caminho da
quarta teoria política se faz segundo uma linha dialética tríplice: “(1) a
unidade na negação; (2) o pluralismo na afirmação; (3) a pergunta aberta sobre
o horizonte superior da unidade eventual das afirmações”; ora, sendo o
sujeito da quarta teoria política o Dasein, então, Dugin evoca um modo
para instaurar este sujeito na mentalidade eurasiana; e o faz através do que
ele chama de linha dialética; o eurasianismo tem uma linha dialética tríplice,
pela qual instaura o modo eurasiano de pensar, e pela qual açambarca todas as
coisas pelos critérios eurasianos; não é apenas uma linha dialética, é um plano
de ação que se instaura através da parafernalia dialética.
Outrossim, é que esta linha dialética tríplice é
resquício da dialética hegeliana (tese, antítese e síntese); em primeiro lugar
se tem a tese, (1) a unidade na negação; depois se tem a antítese, (2) o
pluralismo na afirmação; e, por fim, se tem a síntese, (3) a pergunta aberta
sobre o horizonte superior da unidade eventual das afirmações; e isto, pois,
perfaz a estrutura de dialetização da lógica hegeliana, que Dugin acopla muito
bem, já que assim coloca a implementação do eurasianismo sob a parafernalia dialética
hegeliana.
A síntese (o terceiro aspecto [3]) sempre é o
propósito final do eurasianismo, a qual sempre conduz à algum dos preceitos do
sonho do “mundo russo”; por isso, a linha dialética da quarta teoria
política sempre é em função dos grimórios do sonho do “mundo russo” -
que é a aplicação e a instauração de um sonho particular para uma mentalidade
coletiva.
23. E, para alcançar esta linha dialética tríplice,
Dugin propõe o seguinte pressuposto: “pode ser que tenha que acomodar este
unidade máxima com termos apotemáticos, no estilo da ‘henologia’ de Plotino ou
da teologia negativa de Dionisio Areopagita”; ora, para Dugin a linha
dialética serve para conduzir a unidade máxima, isto é, a perfeita concreção e
o perfeito alinhamento da quarta teoria política; por isso, Dugin propõe que a
quarta teoria política tenha termos apotemáticos, isto é, termos precisos e
matemáticos; isto não é apenas uma busca por precisão, mas busca por
absolutismo.
O eurasianismo busca termos apotemáticos, não apenas
no sentido matemático ou científico, e não para dar precisão a sua linguagem e
termos, mas para instaurar o eurasianismo tanto no sentido metafísico, tal como
a “henologia” de Plotino, quanto no sentido teológico, tal como a
teologia negativa de Pseudo-Dionísio; ou seja, para Dugin o eurasianismo deve
ter termos iniciáticos (no sentido esotérico), tanto henológicos quanto
apofáticos; e para cristalizar estes termos utilizam o elemento da crítica do
que já está estabelecido (isto em parte lembra o princípio da dialética
negativa da Escola de Frankfurt).
Os apótemas do eurasianismo são para uma plena
instauração do sonho do “mundo russo”, tanto no sentido filosófico
quanto no sentido teológico; o eurasianismo busca ser uma cosmovisão total, que
açambarca o lume da luz interior e o lume da luz superior, isto é, a partir da
quarta teoria política se estabelece a doutrina eurasiana como o princípio
orientador tanto para o modo filosófico de pensar quanto para o modo teológico
de pensar; ou seja, a doutrina eurasiana se coloca como a fonte tanto para a
filosofia quanto para a teologia. Com efeito, a busca do eurasianismo é uma
busca por se tornar uma religião. A Eurásia propagada por Dugin e por outros,
não apenas é uma localidade geográfica com princípios geopolíticos próprios,
mas é o projeto de uma nova religião unificada; em suma, isto é o espírito
religioso do anticristo.
24. Ora, com isso se dá para entender o propósito da
quarta teoria política; não somente de Dugin, mas de todos os teóricos do
eurasianismo; o propósito do eurasianismo, para além da Rússia, é o que Dugin
descreve nesta introdução; alguns aspectos evocados nesta introdução são em
específico para o contexto dos povos de língua espanhola, especialmente a
Espanha; mas, a falsa universalidade do eurasianismo, ou mesmo sua falsa
particularidade, já são mais do que evidentes nas poucas páginas desta
introdução; o propósito universal do eurasianismo desembocará no mesmo destino
das outras ideologias ou teorias políticas; e o propósito particular do
eurasianismo colocará a Rússia em um estágio de secularidade ainda maior do que
aquele descrito por Dostoiévski no séc. XIX.
Capítulo IV: A política, o ser e o não-ser do
eurasianismo.
25. Tendo, pois, analisado o que concerne as ideias
gerais da introdução que Dugin escreveu para a edição espanhola do livro “A
Quarta Teoria Política”, se pode prosseguir e adentrar propriamente nas
teses que Dugin evoca sobre o propósito do eurasianismo, tal como está no primeiro
capítulo, o prefácio da obra, onde Dugin estabelece a interrogativa: ser ou
não-ser? O capítulo se inicia assim: “No mundo atual, a política parece ter
acabado, pelo menos como nós a conhecemos” (cap. 1); isto, em suma, é
iniciar evocando o ceticismo político; embora, seja clarividente que não deva
se ter fé em políticos, por várias razões, a evocação de um ceticismo político
retira a responsabilidade dos políticos, e a busca pela causa da deplorável
condição dos políticos, e busca um algo que retire este ceticismo; ora, o
ceticismo só é vencido se enfrentado de frente em suas causas e raízes; do
contrário, será necessário criar um estado de sonho no qual o sonhador se livra
do ceticismo sem fazer nada - em suma, é isto que buscam fazer as ideologias
históricas.
26. O ponto de partida de Dugin, uma indagação
existencial, não é posto a partir das perguntas fundamentais da reta razão, mas
sim a partir da política; portanto, já de início a política passa a ocupar um
lugar preponderante, acima das indagações fundamentais da vida; por isso, ao
evocar o fim da política, Dugin na verdade está evocando a deificação da
política; pois, somente assim a resposta para o fim da política recebe o escopo
da própria política; ao descrever o fim da política, busca evocar um novo tipo
de política - na concepção eurasiana, a política ideal; por isso, na dialética
eurasiana o ceticismo político só é vencido com uma teoria política que supere
as anteriores; a indagação existencial - ser ou não-ser? - é posta não
mais do ponto de vista moral e intelectual, mas do ponto de vista
sócio-político; e aqui está o problema maior das ideologias históricas, a
saber: tirar os problemas individuais da esfera individual e colocá-los na
esfera social; ao que parece isto gera alguma solução, mas na verdade apenas
agrava ainda mais os problemas sociais; pois, a raiz do desencantamento não é
algo exterior ao homem, mas algo que emana do interior do homem, mesmo em se
tratando da política. A causa do desencantamento não está nas misérias sociais,
mas sim nas misérias pessoais.
27. Assim, Dugin vai propondo de maneira sintética uma
análise histórica das três teorias políticas anteriores, e chega a conclusão de
que a única teoria política que sobreviveu foi o liberalismo; por isso, para
Dugin, a teoria política que sobreviveu, o liberalismo, assumiu o controle da
política; por esta razão, Dugin afirma: “O liberalismo, que sempre havia
insistido na minimalização da política, tomou a decisão de abolir a política
completamente após seu triunfo”; isso, por sua vez, demonstra que aquilo
que Dugin compreende como o triunfo do liberalismo, na verdade, não é triunfo,
antes é a abolição da política; o triunfo do liberalismo, para o eurasianismo,
representa o fim da política; esta tese de Dugin tem vários erros filosóficos,
o que será melhor explicado em outros escritos; no entanto, esta tese demonstra
um princípio basilar do eurasianismo, que é atribuir ao liberalismo o fim da
política[13].
28. Todavia, mesmo ao errar sobre as causas
filosóficas da abolição da política clássica, o que não é fruto apenas do
triunfo do liberalismo - na verdade, o liberalismo não obteve nenhum triunfo no
sentido que Dugin propugna -, Dugin acerta no que a sobrevivência do
liberalismo se transformou, ao afirmar: “O conservadorismo, o fascismo e o
comunismo, junto com suas variações secundárias perderam a batalha e o
liberalismo triunfante transmutou-se em um estilo de vida: consumismo,
individualismo e uma interação pós-moderna do ser fragmentado e subpolítico”;
ora, realmente, após o conservadorismo, o comunismo e suas variações como o
fascismo e o nazismo, terem sido deixados de lado pela grande elite global (com
a exceção da China, que é plenamente comunista), o velho liberalismo
transmutou-se de teoria política para estilo de vida; por isso, os erros das
outras teorias políticas que se assomaram no liberalismo, passaram ser tidos
como culpa do próprio liberalismo, embora em grande parte não sejam.
Entretanto, Dugin tem razão quanto a transmutação do
velho liberalismo para um estilo de vida tedioso; pois, o liberalismo que atina
estes aspectos a nível social, se tornou algo que se impregnou na vida
individual: o consumismo, o individualismo, etc., que não são apenas fruto do
liberalismo, mas que foram nas sociedades liberais transmutados deste modo; por
isso, tal como Dugin afirma: “A política se tornou biopolítica, passando ao
nível individual e sub-individual”; pois, ao liberalismo se transmutar em um
estilo de vida, chamado pelo eurasianismo de estilo de vida norte-americano,
transformou a política em biopolítica, ou seja, ao invés do laissez-faire
da política clássica se criou uma biopolítica que busca regular a vida biótica
das sociedades.
A guerra não se torna mais pelo poder público visível,
mas por quem consegue regular a vida biológica das populações; por isso, temas
como aborto, eugenia, eutanásia, etc., se tornaram parte do itinerário da vida
liberal. Dugin se apercebe disso com certa propriedade, mas o problema que não
foi a política que tornou biopolítica, mas sim que o ímpeto da manipulação
deixou a política clássica para interferir na vida biológica; a guerra pelo
poder se transmutou na guerra pela vida biológica; a guerra bélica se tornou em
guerra biológica.
Isto, por sua vez, evoca o problema das teorias
políticas anteriores; pois, não é só consequência do triunfo do liberalismo,
mas consequência das teorias políticas anteriores. E o problema que disto emana
exige uma solução, dado a gravidade da situação.
29. Mas, qual a solução para isso? Simples, Dugin ao
evocar este problema, também propõe a solução: “Há apenas uma saída –
rejeitar as teorias políticas clássicas, tanto vitoriosas como derrotadas,
empenhar a imaginação, tomar a realidade do novo mundo global, decifrar
corretamente os desafios da Pós-Modernidade, e criar algo novo – algo para além
das batalhas políticas dos séculos XIX e XX”; para Dugin, há apenas uma
única saída, isto é, há apenas um único caminho para solucionar este problema
que acima fora evocado; na verdade, este caminho segundo Dugin é o
eurasianismo; na verdade, na inculturação do eurasianismo se demonstra que este
caminho é unicamente manifesto através da Rússia; para Dugin, apenas a Rússia
irá vencer as consequências do triunfo do liberalismo.
Ora, a saída para se vencer as consequências do
triunfo do liberalismo, segundo Dugin, é manifesta em cinco etapas: primeiro,
em rejeitar as teorias políticas clássicas (conservadorismo, liberalismo e
comunismo), isto é, rejeitar as doutrinas e as práticas das teorias políticas
clássicas; segundo, empenhar a imaginação, ou seja, retirar a imaginação do
ceticismo político, e colocá-la engajada na doutrina eurasiana, no sonho do “mundo
russo”; terceiro, tomar a realidade do novo mundo global, isto é, estabelecer
como pressuposto a chamada nova geopolítica que tem como artífice a Rússia;
quarto, decifrar corretamente os desafios da pós-modernidade, ou seja,
descortinar os desafios que impedem a formação do “mundo russo”; quinto,
criar algo novo, isto é, evocar um outro algo além das teorias políticas
clássicas que consiga acoplar os outros aspectos e levá-los adiante em função
dos propósitos do sonho do “mundo russo”.
30. Deste modo, a questão existencial do “ser ou
não-ser?”, se põe diante da Rússia, e daqueles que compreendem o estado
caótico do mundo atual; todavia, o “ser ou não-ser?” do eurasianismo não
é puramente uma questão existencial e/ou metafísica, mas sim uma questão
política; assim, os problemas existenciais no eurasianismo se tornam em
problemas sócio-políticos; na verdade, é uma transmutação da vida individual
para a vida política, e não o contrário como Dugin propusera; o “ser ou
não-ser?” da Rússia, do eurasianismo, está diante de uma encruzilhada
política; assim, a indagação existencial do eurasianismo se transforma num
ímpeto sistêmico; pois, o eurasianismo se torna na encarnação da solução da
questão existencial do “ser ou não-ser?” diante da atual crise histórica,
a qual Dugin soube muito bem engendrar para seus propósitos na doutrina
eurasiana.
Capítulo V: Os cinco estágios para o desenvolvimento
da quarta teoria política.
31. A perspectiva de Dugin a respeito do “ser ou
não-ser?” da Rússia, desemboca na solução que o próprio Dugin propõe para
encaminhar a Rússia diante da crise histórica que a assola e que assola toda a
pós-modernidade; assim, a solução é descrita por Dugin a partir da quarta
teoria política; e, para desenvolver a quarta teoria política, Dugin pressupõe
cinco estágios; no primeiro estágio, Dugin afirma que é necessário, “reconsiderar
a história política dos últimos séculos desde novas posições para além das
estruturas e clichês das velhas ideologias”; ora, segundo Dugin o primeiro
é a reconsideração da história política além das velhas ideologias, isto é,
para além dos efeitos históricos das três teorias políticas anteriores;
evidentemente, Dugin delimita esta história política em relação a modernidade a
partir de Maquiavel.
A solução para Dugin é iniciar pela reconsideração da
história política, tanto para delinear os erros das velhas ideologias, quanto
para que ao demonstrar estes erros propor o caminho da nova teoria política, a
quarta teoria política; na verdade, esta proposição institui, a medida duginiana,
o princípio da observação da dialética histórica; ao Dugin estabelecer um
princípio histórico para análise, e ao estabelecer este princípio de acordo com
a quarta teoria política, ele estabelece a razão histórica eurasiana na crítica
da história política da moderna; ou dito em outros termos, Dugin assim procede
para colocar o eurasianismo como a única saída para a crise histórica da
política.
A razão histórica do eurasianismo é pressuposta na
crise política e partir da crise política como solução para a crise política;
no entanto, de fato o eurasianismo apenas agrava esta crise política para
níveis ainda mais terríveis.
32. No segundo estágio, segundo Dugin é necessário “perceber
e se tornar consciente da estrutura profunda da sociedade global
emergindo diante de nossos olhos”;
ora, a conscientização da estrutura da sociedade global é a fim de indicar o
plano de ação do eurasianismo; Dugin quere que se entenda não a real estrutura
da crise histórica, mas os estereótipos criados sobre a mesma; pois, os
estereótipos criados sobre a crise histórica vela os reais causadores desta
crise; além do que, não existe nenhuma sociedade global emergindo atualmente,
antes é a velha estrutura histórica, apenas com aparências e estereótipos
diversos; a solução para Dugin é se perceber da estrutura da sociedade global,
não para reformar ou melhorar esta estrutura, mas para destruí-la.
O
propósito do eurasianismo é destruir a estrutura da sociedade global em todos
os aspectos; não para tirar o liberalismo de cena ou triunfar sobre o mesmo,
mas para ser o “navio quebra-gelo” para o domínio comunista. A estrutura
profunda da sociedade global é construída pelo comunismo, mas nas aparências e
estereótipos parece que é formada pelo liberalismo; todavia, o comunismo constrói
esta estrutura profunda da sociedade global não porque realmente buscar
edificar esta sociedade, mas para gerar um ímpeto de ação contra esta
sociedade, através de alguma ideologia auxiliar, para de fato culpar as outras
teorias políticas e impregnar ainda mais o domínio comunista pela dialética da
contradição.
33.
No terceiro estágio, segundo Dugin é necessário “decifrar
corretamente o paradigma da Pós-Modernidade”; ora,
após se compreender a estrutura profunda da sociedade global, obviamente Dugin
pressupõe o próximo estágio para se decifrar corretamente o paradigma da
pós-modernidade; este paradigma esta intimamente ligado a profunda estrutura da
sociedade global; na verdade, a estrutura da sociedade global é permeada pelo
paradigma da pós-modernidade.
E que quer dizer Dugin com pós-modernidade? O mundo
pós-soviético; a utilização do conceito de pós-modernidade pela doutrina
eurasiana diz respeito ao mundo após a queda da União Soviética; é uma espécie
de saudosismo do comunismo soviético, e não só crítica das características
camaleônicas da pós-modernidade. Aliás, as características da pós-modernidade
advêm do secularismo da secularização promovida pelo comunismo soviético.
Entretanto, a crítica de Dugin não é para reaver
propriamente a União Soviética entre os russos e os balcãs, embora existam
entre os eurasianos muitos saudosistas soviéticos que procuram isso; mais
propriamente, é a crítica para reaver o “espírito soviético” de domínio russo;
a doutrina eurasiana, em suma, é a retomada do “espírito soviético” sem os
espectros do comunismo leninista ou stalinista - no entanto, sob os princípios
do comunismo maoísta.
Por isso, para o eurasianismo quem edificou a
sociedade global, dominada pelos paradigmas pós-modernos, são os culpados da
crise histórica e da crise política. No entanto, quem a edificou não está
visível, pois os estereótipos criados “substituem” a responsabilidade de quem
edificou a sociedade global. Os estereótipos da sociedade global atinam para
algo, enquanto quem criou esta sociedade continua com a “mão-invisível”
dominando a sociedade.
Ora, isto fora feito deste modo sob os critérios da
engenharia social, os quais foram aperfeiçoados pela Escola de Frankfurt;
assim, a sociedade global pós-moderna tem por artífices os comunistas, embora
os estereótipos e aparências indiquem que quem a domina são os liberais; na
verdade, até mesmo muitos dos comunistas na “nova-esquerda” manifestam
estereótipos liberais para apresentarem-se como liberais ou conservadores; mas,
de fato os artífices da sociedade global são os comunistas e suas ideologias
auxiliares, tal como por exemplo o próprio eurasianismo.
34. No quarto estágio, segundo Dugin é necessário “aprender
a se opor não à ideia, programa ou estratégia política, mas ao status quo ‘objetivo’,
o aspecto mais social da (pós-) sociedade fraturada e apolítica”; ora, após
se decifrar a pós-modernidade, ou mais propriamente, após o eurasianismo se
colocar como única saída para a fragmentação doentia da pós-modernidade, é
necessário o aprendizado a respeito do que se deve se opor da sociedade global;
para Dugin, é necessário aprender a se opor não à ideia, isto é, não a
formulações conceituais sobre a pós-modernidade, sejam elas de programas ou
estratégias políticas, as quais são inúmeras, mas sim ao que o eurasianismo
considera como o “status quo” objetivo da pós-modernidade, ou seja, a
real situação, o real estado da sociedade.
Este “status quo” evocado por Dugin, e que é
imbuído na compreensão eurasiana, se dá em torno do aspecto mais social da
sociedade global, uma sociedade fraturada e apolítica; ora, este aspecto mais
social diz respeito aos princípios que guiam a sociedade; como Dugin critica os
paradigmas da pós-modernidade, evidentemente para a doutrina eurasiana são
estes paradigmas que envolvem os aspectos sociais da sociedade global; no
entanto, os paradigmas pós-modernos apenas são o agravamento de alguns sintomas
de uma doença social que não fora adequadamente tratada; os paradigmas
pós-modernos não a causa da doença social, mas sim alguns efeitos mais
agravantes de outros efeitos que já estavam manifestos muito antes do emergir
da pós-modernidade.
Deste modo, a busca pelo se opor ao “status quo”
da sociedade pós-moderna, ao aspecto mais social da sociedade fraturada, tem a
ver com o princípio objetivo que move esta sociedade; para Dugin é a
fragmentação social e a atitude apolítica; assim, a doutrina eurasiana busca
compreender as causas da fragmentação social e da atitude apolítica, embora de
fato o eurasianismo não consiga compreender realmente estas causas; o
eurasianismo toma os efeitos pós-modernos da crise histórica e os estabelece
como as causas da sociedade fragmentada e apolítica; isto, por si, apenas
agrava a crise, pois tomar efeito como causa impede a compreensão do que é
necessário fazer para se tratar a verdadeira causa.
Analogamente, o eurasianismo identifica uma doença e
propõe a cura para esta doença, mas o que o eurasianismo toma como doença na
verdade é apenas outro efeito da doença real. Com isso, o próprio eurasianismo
também é outra teoria política ineficaz para lidar com a crise histórica;
aliás, a crise histórica não será solucionada por teorias políticas, pois a
crise política é apenas um dos efeitos da crise histórica e não sua causa.
35. No quinto e último estágio, segundo Dugin é
necessário “construir um modelo político autônomo que ofereça um caminho e
um projeto no mundo de encruzilhadas, becos sem saída e reciclagem infindável
das mesmas coisas ‘velhas’ (pós-história, segundo Baudrillard)”; ora, para
Dugin não só é necessário aprender o “status quo” do aspecto mais social
da sociedade pós-moderna, mas em consonância com isso, construir um modelo
político autônomo; na doutrina eurasiana, um “modelo político autônomo”
diz respeito a um modelo político que não esteja sujeito as outras teorias
políticas - principalmente, um modelo político que não esteja sujeito ao
liberalismo ou ao mundo liberal, que na perspectiva eurasiana é encarnado
totalmente nos EUA.
Deste modo, o “modelo político autônomo” é a
fim de oferecer um caminho para solucionar as encruzilhadas formadas na
pós-modernidade, que criara becos sem saída e reciclagem infindável das mesmas
coisas, dando forma ao que Dugin evocara como pós-história; a definição de
pós-história, evocada por Dugin, diz respeito a estrutura histórica que é
formada pelos paradigmas pós-modernos; a pós-história formada pelos paradigmas
pós-modernos é uma história dominada pelo eterno retorno na vida social; a “reciclagem”
infindável das mesmas coisas “velhas” não é propriamente reciclagem no sentido
correto, mas apenas a mudança de roupagem ou aparência para os mesmos erros e
paradigmas; ou dito em outros termos, nada muda para melhor na pós-modernidade,
antes tudo muda para pior, num estágio de erro e degeneração muito mais abrupto
do que o anterior.
Este é o núcleo da pós-história segundo a doutrina
eurasiana; e neste sentido, há algo que está correto, pois a pós-modernidade é
um ciclo vicioso dos mesmos erros, com a transmutação enlouquecedora dos mesmos
erros; todavia, o eurasianismo não consegue explicar e apurar a compreensão
sobre o que causa este eterno retorno na vida social; o eurasianismo não
explica a causa da crise histórica que também tem como efeito a pós-história.
36. Após descrever os cinco estágios para o
desenvolvimento da quarta teoria política, ou mais propriamente para o
desenvolvimento da “consciência eurasiana”, Dugin estabelece uma
convocação a todos aqueles que se sentem “atraídos” pelas propostas eurasianas,
ao asseverar: “A Quarta Teoria Política não nos parece como a obra de um
único autor, mas como uma tendência de um amplo espectro de ideias, pesquisas,
análises, prognósticos e projetos. Qualquer um que pense nessa veia pode
contribuir com algumas de suas próprias ideias. Não obstante, mais e mais
intelectuais, filósofos, historiadores, cientistas, estudiosos e pensadores
responderão a esse chamado”; ora, Dugin evoca a quarta teoria política não
como obra de um único autor, mas como uma tendência histórica que tende à esta
veia de ideias, pesquisas, análises, etc. Por isso, para Dugin todos aqueles
que tendem para este tipo de conscientização devem atender ao chamado da
necessidade de ser da quarta teoria política.
Ora, isto, por si, demonstra duas coisas: primeiro,
que a quarta teoria política se instaura a partir de uma insatisfação geral; e
fora assim que se instauraram o comunismo, o fascismo e o nazismo; no entanto,
a insatisfação geral quanto a política não produz nenhuma melhora para a
política. Segundo, que a quarta teoria política busca ser uma virada histórica,
ao evocar a todos que se apercebam dos problemas da sociedade pós-moderna, uma
espécie de “chamado”, ou convocação, para seu desenvolvimento e aplicação. Por
isso, esta sentença de Dugin se assemelha ao antigo leitmotiv dos comunistas: “Trabalhadores
do mundo, uni-vos!”. No entanto, Dugin aplica seu “chamado” em primeiro
lugar, ao estilo tradicionalista guenoniano, aos “intelectuais, filósofos,
historiadores, cientistas, estudiosos e pensadores”, etc.; a busca primeira
do eurasianismo é dominar as esferas intelectuais, para depois dominar as
massas - tal como, por exemplo, fizeram Guénon e Schuon com relação ao
tradicionalismo islâmico.
Capítulo VI: O ser ou não-ser da Rússia e a quarta
teoria política.
37. Outro aspecto diante da evocação da razão da
quarta teoria política por Dugin, é obviamente, a aplicação desta teoria à
Rússia; a quarta teoria política não surge do nada, e tem um destinatário
específico, a saber, a Rússia; por isso, Dugin assevera: “Para meu próprio
país, a Rússia, a Quarta Teoria Política, entre outras coisas, possui uma
significância prática imensa”; ora, Dugin descreve que a quarta teoria tem
um significado específico para Rússia, ao ponto desta teoria política ter uma
significância prática imensa; na verdade, esta significância prática foi a
busca por sentido depois da secularização ocasionada pelo comunismo e pela
rejeição que os russos demonstraram para com a ideologia liberal desde sempre.
No entanto, apesar dos russos terem sido imbuídos
nesta “significância prática imensa”, tal significância apenas vela a
real causa da secularização; com efeito, na cultura russa a quarta teoria
política é um divertimento: trouxe para Rússia algum sentido, mas não
solucionou a causa do real problema russo, pois a secularização da Rússia, pasme-se,
não fora causada pelo que os russos chamam de “influência ocidental”,
mas pelo comunismo. Aliás, Dugin e os eurasianos atribuem a causa desta
secularização ao triunfo do liberalismo, e com isso descrevem uma “suposta”
necessidade da Rússia de uma nova teoria política.
38. E esta necessidade é manifesta, segundo Dugin,
porque “a maior parte do povo russo sofre sua integração na sociedade global
como uma perda de sua própria identidade”; ora, diante de uma sociedade
global fragmentada, uma nação que perdeu sua própria identidade, como no caso
de Rússia, certamente sofre com a integração no meio global; mas isso se dá não
somente com a Rússia, mas com qualquer sociedade desencantada; por isso, os
russos ao terem enfraquecido sua própria identidade após décadas de domínio comunista,
ao defrontarem-se com uma sociedade global fragmentada e ainda mais
secularizada, isso gera um confronto de princípios e de valores indissolúvel:
tanto porque a sociedade global é fragmentada quanto porque a sociedade russa
fora secularizada.
A sociedade global cada vez mais busca esta
fragmentação, e a sociedade russa ao buscar identidade diante da sociedade
global não encontra solução para os problemas sócio-culturais da própria
Rússia; antes, ao buscar isso na sociedade global, acabam por agravar ainda
mais os problemas russos. Nisto, Dugin busca apresentar a quarta teoria
política como uma necessidade da Rússia; mas também a quarta teoria política
não soluciona este problema, apenas deixa de lado a busca da Rússia por
integração diante de uma sociedade global fragmentada; todavia, o eurasianismo,
conscientes os russos ou não, também é parte inalterável da sociedade global
fragmentada; na verdade, qualquer teoria política que surja no mundo
contemporâneo é totalmente açambarcada por esta fragmentação e secularização.
39. Após isso, Dugin evoca a necessidade que a Rússia
tem de uma nova ideia política, ao declarar: “Portanto, de modo a preencher
esse vácuo político e ideológico, a Rússia necessita de uma nova ideia
política. Para a Rússia, o liberalismo não se encaixa, mas o comunismo e o
fascismo são igualmente inaceitáveis. Consequentemente, nós precisamos de uma Quarta
Teoria Política. E se para alguém essa é uma questão de liberdade de escolha, a
realização da vontade política, que sempre pode ser dirigida tanto a uma
asserção e sua negação, então para a Rússia – essa é uma
questão de vida e morte, a eterna questão de Hamlet”; ora,
diante desta “necessidade” da Rússia, tal como se afirma na doutrina eurasiana,
Dugin trata de delinear que a quarta teoria política é a solução para esta
necessidade; mas, ao evocar esta “solução” para a Rússia, Dugin não a propõe,
mas busca impor a doutrina eurasiana; no dizer de Dugin, se para outros a
teoria política é uma questão de escolha, para a Rússia esta é uma questão
existencial no sentido mais absoluto do termo, ou seja, é a “eterna questão
de Hamlet”: “ser ou não-ser?”; na doutrina eurasiana o “ser”
da Rússia se dá na quarta teoria política, enquanto que o “não-ser” é a
não-aceitação da quarta teoria política. Dugin põe a Rússia numa encruzilhada
existencial sem solução: ou continuar sem estar integrada na sociedade global
ou aceitar a quarta teoria política que por sua vez acaba por produzir
consequências ainda piores do que a perda de identidade do povo russo.
40. Depois, Dugin evoca a decisão da Rússia pelo “ser”,
ao afirmar: “Se a Rússia decidir ‘ser’, então isso significa automaticamente
a criação de uma Quarta Teoria Política. Do contrário, para a Rússia resta
apenas a opção de ‘não ser’ e então deixar o palco histórico e mundial, e se
dissolver no mundo global, nem criado ou governado por nós”; ora, a
aceitação da quarta teoria política pelos russos é a decisão da Rússia pelo “ser”
evocado por Dugin; o “Dasein” da Rússia como existência encarnada na
história é evocado pela quarta teoria política; todavia, nenhuma teoria
política conduz corretamente a existência de uma nação; depender de uma teoria
política para integrar uma nação na sociedade global, na verdade é sujeitar a
nação a fragmentação secularista; o verdadeiro “Dasein” da Rússia não
está na quarta teoria política, mas em a Rússia recuperar sua identidade
histórica retirando da sociedade russa a inculturação ideológica que fora
impregnada pelo hegelianismo e pelo comunismo ao longo de décadas. E isto não é
um caminho fácil para a Rússia, mas este é o início da solução para a perda de
identidade dos russos, o que o eurasianismo não propõe de forma eficaz.
41. E assim conclui-se a análise do propósito do
eurasianismo de acordo com prefácio original do livro “A Quarta Teoria
Política”, que se tornara o capítulo 1 na edição brasileira; num geral,
apenas a análise do prefácio já é por si suficiente para demonstrar as razões
do porque a doutrina eurasiana é um mal sem-par, tal como foram o comunismo, o
fascismo e o nazismo; isso também se evidencia pela base teórica do
eurasianismo, a filosofia de Heidegger, que fora o teórico do partido nazista;
os pressupostos filosóficos do eurasianismo são os mesmos que deram forma a
doutrina nazista[14];
estes e outros aspectos são aclarados a partir do prefácio deste livro, no qual
Dugin apresenta o objetivo da quarta teoria política e descortina seus
principais aspectos. Portanto, a rejeição ao eurasianismo, tanto
filosoficamente quanto teologicamente, é algo premente, seja para a defesa da
reta razão seja para defesa da Santa Igreja que tem sido impregnada no leste
europeu e ao redor do mundo com esta doutrina infame.
42. E termina aqui a análise do propósito do eurasianismo de acordo com o prefácio do livro de Dugin (ou cap. 1 na edição brasileira). Bendito seja Deus por todas as coisas. Amém.
[1] cf.
Alexander Dugin, A Quarta Teoria Política [1ª ed. Curitiba, PR: Editora
Austral, 2012]. Este é o livro utilizado nesta análise; as referências diretas
ao eurasianismo são provenientes desta edição.
[2] cf. Alexander Dugin, Rusia: El
Misterio de Eurasia [1ª ed. Madrid: Grupo Libro 88, 1992], pág. 99-100.
[3] Toda ideologia vitupera o conceito
racional-revelacional de autoridade; e em tempos hodiernos o conceito de
autoridade é transmutado por Friedrich Engels no escrito “Sobre a Autoridade”
(1873); toda a vituperação de autoridade no mundo contemporâneo, em qualquer
esfera que for, é permeada pela doutrina marxista propugnada por Engels neste
escrito e assomada totalmente na camada nuclear da cultura.
[4] cf. Dugin, Op. Cit., 1992, pág. 101-120.
[5] Pio XI, Mit
Brennender Sorge, n. 5.
[6] cf. Alan de
Benoist, Más Allá de la Derecha y de la Izquierda: El pensamiento político
que rompe esquemas [1ª ed. Barcelona: Áltera, 2010].
[7]
cf. Karl Marx e Friedrich Engels, Marx-Engels Collected Works Vol. 1: Karl
Marx 1835-1843 [Lawrence & Wishart, 1975], pág. 577.
[8] cf.
Alexander Dugin, La Cuarta Teoría Política [Barcelona: Ediciones Nueva
República, 2013], pág. 11-22.
[9] Evidentemente, não analisar-se-á linha a linha toda esta introdução, mas
apenas as principais ideias.
[10] cf. Martin
Heidegger, Ser e Tempo Parte I [15ª ed. Petropólis, RJ: Vozes, 2005],
pág. 27ss.
[11] cf. Martin
Heidegger, Cuadernos Negros (1938-1939): Reflexiones VII-XI [Madrid:
Editorial Trotta, 2017], VII, prol., pág. 9.
[12] A luta pela essência de Heidegger se concretizou na purificação racial
promovida pelo nacional-socialismo, e culminou na ideia de “solução final”.
Por isso, a falsa universalidade do eurasianismo tem imbuído a ideia de
purificação racial. E de fato os russos estão promovendo isso ao matarem de
maneira cruenta os ucranianos; e, provavelmente, os russos ainda vão promover
outros tipos de purificação racial, principalmente contra aqueles que são
“inimigos” do eurasianismo ou dos povos da chamada “Eurásia” que não se
renderem ao eurasianismo.
[13] A ideia do “triunfo do liberalismo” como propugnado por Dugin é
um sofisma de princípio; pois, não há de fato o “triunfo do liberalismo”,
embora os estereótipos do liberalismo tenham sobrevivido; na verdade, a única
teoria política que sobreviveu, e mudou boa parte de seus estereótipos, foi o
comunismo; o liberalismo não triunfou como teoria política, mas o comunismo
propagou isso, e criou estereótipos liberais, para colocar como culpa do
liberalismo todos os erros que os próprios comunistas cometeram. No entanto,
como os estereótipos liberais se impregnaram passivamente na cultura, parece
que o liberalismo triunfou, quando na verdade o liberalismo fora totalmente
derrotado; o que restou do liberalismo foram apenas suas velhas estruturas e os
estereótipos instituídos pela impregnação passiva de hábitos. Com efeito, o que
de fato ocorrera fora o triunfo do comunismo.
[14] Alguns afirmam que isso é uma crítica fantasiosa, que é mentira que
Heidegger apoiou o nazismo já que sua filosofia não menciona diretamente o
nacional-socialismo, etc.; outros afirmam que a filosofia de Heidegger fora
tomada de forma errada pelos nazistas; etc. Embora os nazistas tenham se
utilizado de filosofias para seus propósitos, as distorcendo, como fizeram com
a filosofia de Nietzsche, com Heidegger isso não ocorre; a práxis da filosofia
de Heidegger fora inteiramente acoplada pelos nazistas, e isso com total
consciência e aquiescência de Heidegger; Heidegger sabia das consequências de
sua filosofia e viu o encarnar de sua filosofia nos propósitos do partido
nazista, como se desvela cabalmente nos Cadernos Negros; a diferença é
que Heidegger não “rebaixou” suas reflexões filosóficas a ditames do partido
nazista, mas se estabeleceu os ditames do partido nazista a partir de suas
reflexões. A teoria filosófica do partido nazista emana da filosofia de
Heidegger, e Heidegger sabia muito bem disso e aceitou isso cabalmente;
inclusive, Heidegger era um dos membros mais respeitados do partido nazista; de
fato, Heidegger, intelectualmente, era uma “autoridade” para os nazistas - e
como todo intelectual propriamente dito, Heidegger permaneceu nos bastidores,
mas sua influência é cabal e permeia os principais aspectos do aperfeiçoamento
da doutrina nazista nos anos de 1930.