I
A dualidade, ou o dualismo, entre imaginação e
realidade é algo que se manifesta naqueles que foram assomados por alguma
doença mental, seja de doenças graves seja de doenças que num primeiro momento
são imperceptíveis; esta dualidade, por sua vez, é assaz prejudicial para a
saúde psíquica de um indivíduo, e por consequência, da sociedade.
Esta dualidade cria uma falsa imagem mental a respeito
do que o indivíduo diz e o que o indivíduo faz; isto é chamado em relação a
conduta de hipocrisia, ou em casos mais abruptos de descaro; mas, a gravidade
do problema vai muito além das máscaras da hipocrisia ou dos males do descaro;
a gravidade da dualidade entre imaginação e realidade é a calcificação de uma
doença que afeta todo o ser do indivíduo e não apenas sua mente.
E isto afeta tudo no indivíduo, até mesmo a concepção
religiosa; na verdade, essa dualidade entre imagem mental e realidade é a causa
de muitas pessoas professarem a fé cristã e não viverem de acordo com a fé
professada; as mais das vezes, fala-se que isso é hipocrisia ou algo similar;
em alguns casos, este juízo de valor está correto; mas na maior parte das
vezes, o que ocorre é justamente a dualidade entre imaginação e realidade;
pois, se se coloca a imaginação sob o que é irreal, o indivíduo passa a
imaginar tudo o que quer como se fosse algo real mesmo se não houver fundamento
real.
Por isso, muitos cometem as mais terríveis abominações
e ainda se dizem “cristãos”, porque imaginam algo irreal como se fosse real:
isto é, imaginam que são cristãos quando a conduta que possuem diz totalmente o
contrário. E isto é algo aterrador do ponto de vista da fé, pois a
esquizofrenização da relação entre imagem mental e realidade, não só destrói a
inteligência, mas putrifica a personalidade. Além do que, isso é a base donde
se desenvolve as várias espécies de esquizofrenia psíquica. Pois, o esquizofrênico
não só é aquele que diz ser outrem, mas aquele que diz ser algo quando a
própria conduta diz totalmente o inverso.
Deste modo, a dualidade entre imaginação e realidade é
a causa das pessoas pensarem o irreal, e viverem o irreal como se fosse algo
real; no sentido cinematográfico, é a instituição da Matrix; neste caso, da
Matrix na conduta sócio-pessoal, já que acaba-se por instituir um
condicionamento psicológico que se assoma a toda uma sociedade: a de indivíduos
que criam imagens irreais na mente e vivem como se estas imagens irreais fossem
a própria realidade; nos termos descritos, criam-se bolhas onde é permitido a hipocrisia
e o descaro. Outrossim, é que em relação a religião, a partir disto cria-se um
cristianismo imaginário ou um cristianismo a gosto do freguês.
II
O cristianismo imaginário manifesta-se não de maneira
oficial, mas na conduta daqueles que se dizem “cristãos”; pois, aqueles que
imaginam de maneira irreal que cometendo abominações ainda podem se dizer
cristãos, são de fato os que estão esquizofrenizados pela dualidade entre
imaginação e realidade. Esta esquizofrenização faz com que aqueles que
professam ser “cristãos”, contradigam a fé que dizem professar com falta de
retidão e com falta de moralidade – em tempos hodiernos, principalmente com imoralidade
sexual.
Assim, observa-se as seguintes características do
cristianismo imaginário:
(i) professam a fé, mas praticam coisas que vituperam
totalmente o que professam (cf. Mt 23.27-28); e fazem isso porque imaginam
irrealisticamente que não falarem coisas hediondas diminui a gravidade de
praticarem coisas hediondas. O cristianismo imaginário gera esquizofrenia
linguística, e vice-versa.
(ii) professam os artigos da fé, mas não vivem em
retidão; confessam a fé enquanto doutrina, mas vivem em práticas abomináveis
(cf. Jr 5.26-31); e fazem isso porque imaginam irrealisticamente que
confessarem algo os livra de terem que ter conduta digna inerente ao que
professaram. O cristianismo imaginário gera uma casta anti-sinceridade, e
vice-versa.
(iii) participam dos elementos exteriores da fé, até
se portam exteriormente como fiéis, mas a graça não atua no coração posto a
imoralidade e a falta de retidão em que vivem (cf. Jr 5.25); e fazem isso
porque imaginam irrealisticamente que participar de elementos eclesiais os
torna fiéis enquanto estão vivendo em prostituição e imoralidade. O
cristianismo imaginário gera uma religiosidade morta e mortífera, e vice-versa.
(iv) tentam amenizar ou atenuar as imoralidades que
cometem através da falta de disciplina ou falta de repreensão bíblica (cf. Hb
12.8); e fazem isso porque imaginam irrealisticamente que a atenuação de uma
imoralidade desfaz o mal moral da culpa do pecado, quando na verdade a
tentativa de atenuar a imoralidade ou a falta de retidão é afrontar a Deus; por
isso, cria-se uma falsa concepção de misericórdia, onde a misericórdia é
utilizada para embasar todo tipo de imoralidade e de falta de retidão (cf. Rm 6.1).
O cristianismo imaginário gera imoralização da misericórdia, e vice-versa.
(v) inventam um cristianismo não-bíblico, já que
deliberadamente e obstinadamente rejeitam os preceitos bíblicos (cf. Jr 6.10);
dizem ter fé, mas rejeitam o fundamento da fé; e fazem isso porque imaginam
irrealisticamente que podem ser cristãos vivendo contra as Escrituras ao
rejeitarem o que as Escrituras ensinam (cf. Jr 8.9b, 9.6). O cristianismo
imaginário gera um cristianismo anti-bíblico, e vice-versa.
Estas são apenas algumas características do
cristianismo imaginário; existem inúmeras outras; pois, o cristianismo
imaginário não só cria outro cristianismo em relação a conduta, na
permissividade vil e abominável com a falta de retidão e com as mais variadas
formas de prostituição, mas também institui de maneira passiva outros critérios
para a formulação da fé - ou dito em outros termos, cria-se uma ampla gama de
novas proposições (sofismas) as quais são todas contra o verdadeiro fundamento
da fé. Na verdade, o cristianismo imaginário gera um cristianismo movido de
acordo com mercado negro das novidades globalistas.
Aliás, neste mesmo sentido, o cristianismo imaginário
cria uma falsa percepção de no que constitui a fidelidade a fé reta e sólida;
pois, os cultores do cristianismo imaginário criam a dualidade entre Escritura
e Tradição: (1) desprezam sofisticamente a Tradição em nome de um falso biblicismo,
(2) ou em nome de supostamente seguirem a Tradição desprezam e desobedecem aos
mandamentos bíblicos; etc. O cristianismo imaginário despreza o fundamento da
fé, a Escritura, e desfigura a regra paralela ao fundamento da fé, a Tradição;
ou em casos ainda mais abruptos, ainda escarnecem da regra próxima da fé, o
Magistério (Catolicismo) ou princípio magisterial (Ortodoxia).
III
Ora, ao ter se evocado algumas características do
cristianismo imaginário, convém mencionar também no que consiste o credo do
cristianismo imaginário, o qual é uma perversão total do credo bíblico e
apostólico; as crenças do cristianismo imaginário são anti-bíblicas ao mesmo
tempo em que busca usurpar a Tradição Apostólica.
Pois, tudo que é anti-bíblico é usado para usurpar a
Tradição Apostólica. E, de fato, tudo no cristianismo imaginário é
anti-bíblico, embora o cristianismo imaginário arrole para si uma falaciosa
biblicidade ou um falacioso tradicionalismo, os quais demonstram o ideologismo
inerente ao cristianismo imaginário.
Eis, portanto, o credo do cristianismo imaginário:
1. O cristianismo imaginário afirma a crença em Deus,
mas num “deus” inventado de acordo com a esquizofrenia linguística ou com a imoralização
da verdade.
2. O cristianismo imaginário afirma a crença em Jesus,
mas num Jesus inventando de acordo com a incontinência de cada um; o Jesus do
cristianismo imaginário é pior do que os “Jesuses” dos teóricos da busca
do Jesus Histórico.
3. O cristianismo imaginário afirma a crença no
Espírito Santo, mas em espiritualidades desordeiras e irracionais; para o
cristianismo imaginário a desordem e a irracionalidade se tornam parte da
espiritualidade.
4. O cristianismo imaginário afirma a crença na
salvação, mas numa salvação que não tem boas obras (cf. Tg 2.17-26); o
cristianismo imaginário propaga que a salvação é obtida sem necessidade de
retidão na conduta.
5. O cristianismo imaginário afirma a crença na
Igreja, mas numa “igreja” que muda de acordo com as novidades e com os ventos
de doutrinas.
6. O cristianismo imaginário afirma a necessidade da
doutrina social, mas que não é doutrina social e sim ideologia social com
invólucros religiosos; para o cristianismo imaginário o social se torna mais
importante do que a doutrina.
7. O cristianismo imaginário afirma a necessidade do
amor, mas não do amor verdadeiro e sim de um “amor” que que rejeita os
preceitos da verdade. A caridade para o cristianismo imaginário é uma caridade
sem verdade.
8. O cristianismo imaginário afirma que seguem o
caminho da obediência, mas desobedecem obstinadamente aos preceitos bíblicos; aliás,
para o cristianismo imaginário qualquer um que fale sobre preceitos ou
mandamentos é egoísta ou egocêntrico.
9. O cristianismo imaginário afirma que adoram a Deus,
mas propagam a prostituição litúrgica; para o cristianismo imaginário a
liturgia muda de acordo com o gosto do freguês; aliás, para o cristianismo
imaginário a prostituição litúrgica se torna algo normal.
Estes são os principais artigos do credo do
cristianismo imaginário, os quais são total perversão da fé reta e sólida; assim
sendo, a partir do credo do cristianismo imaginário se consegue compreender os
caminhos de muitos que dizem “cristãos”, mas na verdade seguem um
cristianismo inventado a partir da corrupção da imaginação de homens vis e iníquos.
Na verdade, este tem sido o retrato da cristandade em
tempos hodiernos; deixaram o verdadeiro cristianismo em função de um
cristianismo imaginário, simplesmente para agradar as massas em práticas
abomináveis a Deus.
Que Deus, pois, preserve do engano aqueles que o
servem em retidão e santidade para que fiquem livres dos tentáculos do
cristianismo imaginário.
θεῷ χάρις!