I
A fenomenologia desenvolvida por Husserl é um dos
pontos altos do pensamento ocidental; principalmente, porque na filosofia
moderna não surgiu quase nada de bom – a fenomenologia é uma das poucas
exceções; não para menos, diante do deserto da inteligência que assola os
homens modernos, a fenomenologia é como um oásis; por isso, a reflexão sobre a
fenomenologia se sobreleva ao horizonte de consciência dos homens modernos de
tal modo que se torna quase que um método inalcançável – e por esta razão,
muitos tendem a desprezar a fenomenologia tanto quanto desprezam o método
escolástico.
Mas, que é a fenomenologia? Duas respostas são
evocadas: (1) Olavo de Carvalho diz que “a fenomenologia é uma auto-reflexão
e um autoconhecimento. É o autoconhecimento da consciência, enquanto capacidade
cognitiva”[1];
e, (2) segundo Husserl, “a
fenomenologia é a doutrina universal das essências, em que se integra a ciência
da essência do conhecimento”[2].
Ora, estas
duas definições dão um norte básico do que é a fenomenologia; em sentido
definitório, a fenomenologia é a “doutrina universal das essências”,
isto é, a doutrina que busca compreender as essências ou núcleo de sentido de
cada ente; e em sentido demonstrativo, a fenomenologia é a auto-reflexão que
conduz ao autoconhecimento, a fim de que a consciência se torne consciente das
operações cognitivas. Portanto, a fenomenologia busca compreender a essência
das coisas, para que a consciência se torne autoconsciência de si, a fim de
conduzir o intelecto ao saber real.
Deste
modo, a fenomenologia tanto diz respeito a atitude fundamental do indivíduo que
busca conhecer, quanto do conhecimento de fato adquirido; a fenomenologia não
só mostra a atitude do conhecimento, mas também a atitude do sujeito
cognoscitivo; com efeito, a fenomenologia não só é um método escolar, mas
também um método conscientivo.
II
A breve descrição da fenomenologia nestes termos tem
por propósito evocar uma tarefa a respeito da reconstrução da fenomenologia;
mas por que? A fenomenologia foi em parte esterilizada por seu próprio cultor;
por esta razão se faz necessário laborar para reconstruir a fenomenologia.
E por que a fenomenologia foi esterilizada? Esta é uma
indagação dificílima de se responder; pois, a atitude final de Husserl em
relação a fenomenologia não foi um erro de desatenção ou paralogismo; Husserl
esterilizou a fenomenologia de modo consciente; e não é fácil se entender a
real razão; parece que seja por ter visto Heidegger acoplar o saber
fenomenológico ao nacional-socialismo; como se sabe, isto trouxe uma grande
tristeza e desgosto para Husserl, ao ver seu mais genial aluno usar a filosofia
fenomenológica para embasar o nazismo.
Certamente, foi por esta razão que Husserl esterilizou
a fenomenologia e “desmontou” a mesma; mas, a esterilizou não de maneira
cabal, apenas para por fim a infâmia de utilizar sua descoberta e sua filosofia
para propósitos nefastos; e o modo como Husserl esterilizou a fenomenologia não
foi a destruição do próprio filosofar fenomenológico, mas sim o impedimento de
se utilizar a fenomenologia com propósitos ideológicos.
E parece que ao fazer isso, Husserl, de maneira velada,
deixou aberto o caminho para a reconstrução da fenomenologia em outra época; disto
tenho plena certeza; pois, Husserl não esterilizaria de modo cabal a
fenomenologia, mas o fizera de modo parcial para tirar de seus discípulos
enviesados pelo nacional-socialismo o ímpeto fenomenológico; o mestre morreu
antes do nazismo cometer suas maiores atrocidades, mas não se foi deste mundo
sem impugnar a utilização de sua filosofia por homens descarados.
Portanto, creio ser uma das mais importantes tarefas
da filosofia hodierna se aperceber disso e novamente retomar o ímpeto da
fenomenologia husserliana; os alunos de Husserl e os continuadores da
fenomenologia não se aperceberam disso; houveram filósofos notáveis que
utilizaram-se do método fenomenológico, e escreveram obras imortais; mas, o
núcleo central do desenvolvimento fenomenológico continua com a impugnação de
Husserl – certamente, esperando para ser reavaliado e abalizado de modo
correto.
Com isso, se põe como tarefa a iniciativa de
reconstruir a fenomenologia, de retomá-la ao se dissolver a impugnação de
Husserl; todavia, mantendo esta impugnação diante do descaro daqueles que
querem utilizar a filosofia e/ou a ciência para propósitos ideológicos; na
verdade, chega-se a conclusão de que a reconstrução da fenomenologia é uma das
maiores necessidades da filosofia contemporânea. É uma hercúlea iniciativa, mas
que tem de ser levada adiante o mais rápido possível.
III
E o caminho desta hercúlea iniciativa para reconstruir
a fenomenologia é disposto em três partes; considerei por bem seguir este
caminho tendo em vista a proposição de Heidegger sobre os problemas
fundamentais da fenomenologia em três partes[3];
analisei esta proposição de Heidegger, que estruturalmente tem grande utilidade,
a abalizei e reelaborei o que considerei adequado, sem os desvios da filosofia
heideggeriana, para fazer uma análise reconstrutória da fenomenologia.
Com isso, estas três partes são assim sumariadas:
Ø Parte
I: A elucubração sobre o Ser. Ora, nesta parte são elucubrados os pressupostos e
os aspectos fundamentais da elucubração do Ser; pois, a elucubração sobre o Ser
é o núcleo da fenomenologia; a volta às coisas só é possível com o entendimento
sobre o Ser; portanto, o lema fenomenológico é a volta para se elucubrar sobre
o Ser tal como o mesmo está disposto na realidade, seja nas coisas seja nos
entes – principalmente nos entes.
Ø Parte
II: O Ser em geral. Ora, nesta parte são elucubrados os aspectos
concernentes ao próprio Ser: seus modos, emanações, distinções e propriedades;
pois, o Ser está manifesto em cada núcleo de sentido da ordem da realidade;
desvelar este sentido e aclará-lo constitui-se tarefa da filosofia - e da
ciência; pois, o Ser em geral diz respeito a todas as manifestações do Ser,
seja em si mesmo e por si mesmo, isto é, substancialmente, seja através de
coisas e/ou entes, isto é, acidentalmente.
Ø Parte
III: A ideia de fenomenologia. Ora, após se por adequadamente a questão sobre o
Ser, tanto no sentido do método filosófico quanto no sentido propriamente dito
ontológico, se prossegue para compreender no que consiste a ideia de
fenomenologia; pois, a fenomenologia está intimamente ligada a compreensão
sobre o Ser; pois, do Ser emana o núcleo de sentido dos entes, os quais, ao
serem existentes também se tornam um “ser”. Logo, a ideia de fenomenologia tem
em si mesma um núcleo ontológico; e por ter um núcleo ontológico, tem uma
estrutura lógica; por isso, a fenomenologia inicia sob um fundamento lógico e
desenvolve-se sob um fundamento ontológico.
Deste modo, nestas três partes se tem o que considerei
necessário adequar para designar e/ou evocar a fim de pressupor e levar adiante
a reconstrução da fenomenologia; pois, embora a fenomenologia tenha se
auto-esterilizado, como fora dito no início, e tenha sido deformada por vários
filósofos, a necessidade de reconstruí-la está em vista de dissolver esta
esterilização, bem como em livrá-la das aporias que se assomaram nesta notável
escola filosófica. Este caminho proposto tem este objetivo.
IV
Ora, em relação a primeira parte – a elucubração sobre
o Ser – se a subdivide em quatro seções, as quais são:
a) O Ser. [o que é o Ser? / o conhecimento do Ser / os
graus de emanação do Ser / a participação / os tipos de ser]
b) A essência e a existência. [o que é essência? / os
tipos de essência / o que é existência? / os modos da existência / a relação
entre essência e existência / o ente, a essência e a existência]
c) A natureza e a consciência. [o que é natureza? / as
esferas da natureza / os tipos de natureza / o que é consciência? / a natureza
da consciência / as operações da consciência / apêndice: a filosofia da
revelação]
d) A apreensão lógica. [o que é lógica? / as operações
do intelecto / o que é apreensão lógica? / a lógica pura / o ato judicante]
E, nestas quatro seções, se tem o que concerne a
ponderação sobre o Ser do ponto de vista puramente filosófico, pelo lume da luz
interior; pois, o Ser não está velado; na verdade, o Ser está totalmente
desvelado em tudo aquilo que participa do ato de ser; portanto, a existência
dos entes demonstra suas essências, de modo que seja pela natureza seja pela
consciência se tem a abstração do saber que está dado na realidade; e este
saber abstraído é confirmado pela apreensão lógica. Assim, a elucubração sobre
o Ser não somente versa sobre um tópico ontológico, mas engendra lógica e
epistemologia em conjunto dialógico.
V
Ora, em relação a segunda parte – o Ser em geral – se
a subdivide em cinco seções, as quais são:
a) A diferença entre Ser e ente. [as distinções entre
ser e ente / a natureza do Ser / a natureza do ente / a diferença entre coisas
e entes / o primado ontológico do indivíduo]
b) A articulação fundamental do Ser: essência e
existência. [a dialógica entre essência e existência / o Ser nas essências / a
ordem da realidade e a existência dos entes/ a essência do Ser / a existência
do Ser]
c) Os modos de Ser. [as emanações do Ser / o Ser em si
/ O Ser nos entes e a partir dos entes / os tipos de modos de ser / a dialógica
do ato de ser]
d) A unidade e a multiplicidade do Ser. [a unidade do
Ser / a multiplicidade do Ser / a dialógica da unidade / a dialógica da
multiplicidade / o um e o múltiplo]
e) A verdade do Ser. [a verdade e o Ser / as múltiplas
manifestações da verdade / o Ser e a sinfonia da verdade / as verdades do Ser /
as verdades sobre o Ser / o ato de ser e a verdade]
E, nestas cinco seções, se tem o que concerne a
elucubração sobre o Ser em geral; nisto, propriamente, se evoca muitos
princípios ontológicos, pois o ser se articula fundamentalmente entre essência
e existência, tanto a partir dos modos de ser, quanto nas esferas de verdade
das emanações do Ser; pois, a elucubração sobre o Ser em geral é o que se chama
propriamente de ontologia; e a ontologia não é um saber vago ou dogmático,
antes a ontologia é um saber real; o Ser é possível de ser conhecido de fato; e
isto não apenas é um dado sobre a realidade, pois o Ser é o ponto arquimédico
da própria realidade – a quem Heráclito sabiamente e acertadamente chamara de λόγος.
VI
Ora, em relação a terceira parte – a ideia de
fenomenologia – se a subdivide em cinco seções, as quais são:
a) A ontologia. [o que é ontologia? / as divisões da
ontologia / a ordem ontológica da realidade / a estrutura fenomênica do ôntico
/ a dialética da ontologia / ontologia e numerologia pitagórica]
b) O conhecimento. [o que é conhecimento? / o saber /
gnosiologia e ontologia / a gnosiologia real / o coração como núcleo ontológico
/ o inteligível / o intelecto / o conhecimento e a perfeição da alma]
c) O método fenomenológico. [o que é o método
fenomenológico? / os estágios do método fenomenológico / a realidade e os
fenômenos / a aplicação do método fenomenológico / a filosofia fenomenológica]
d) O conceito de filosofia. [que é filosofia? / as
divisões da filosofia / a história da filosofia / o filosofar / o filósofo / a
sabedoria / a sabedoria e a fenomenologia]
e) A tarefa da filosofia. [a elucubração sobre a
realidade / o lume da luz interior / o conhecimento dos entes / o conhecimento
do Ser / os transcendentais / os princípios / a ordem dos princípios / as
disciplinas filosóficas / as ciências]
E, nestas cinco seções, se tem o que concerne a ideia
de fenomenologia; e aqui se tem o ponto de partida da pesquisa fenomenológica
que é orientada sob uma sólida ontologia real, que fora abalizada, definida e
demonstrada nas duas partes anteriores, com seus elementos amalgamados; na
verdade, a análise fenomenológica concatena as três partes constituintes da
filosofia, mais a parte prática ou filosofia moral (ética); portanto, a análise
fenomenológica inicia na coesão lógica, perfaz a análise de toda a extensão da
compreensão sobre o ente móvel, se sublima na análise do Ser e da ordem da
realidade, e desemboca na reflexão sobre vida ordenada ou virtuosa.
Ora, tendo delineado estas três partes, conclui-se a
apresentação de como se procederá no caminho em via da reconstrução da
fenomenologia.
***
Epílogo. E, tendo descrito no que consistirá esta invectiva da reconstrução da fenomenologia, para levar adiante estas questões evocadas serão refletidos sobre estes tópicos em vários escritos: artigos, opúsculos, lições e tratados; não vou de antemão descrever em específico todos estes escritos, mas quando surgir algum escrito que estiver ordenado a esta invectiva estará mencionado ou no início (proêmio ou prólogo) ou no final (epílogo), que é parte da invectiva da reconstrução da fenomenologia; posteriormente, só ordená-los de acordo com o assunto e a tríplice estrutura que é evocada neste escrito; se conseguir concluir tudo que pretendo escrever neste sentido – oxalá que Deus assim me permita levar a cabo mais este projeto! -, depois escreverei um escrito a parte para delinear a ordem em que estes escritos sobre a fenomenologia devem ser dispostos. E termina aqui este opúsculo informativo a respeito da reconstrução da fenomenologia. Laudate Deo!
[1] Olavo de Carvalho, Inteligência
e Verdade: Ensaios de filosofia [1ª ed. Campinas, SP: Vide Editorial,
2021], pág. 112.
[2] Edmund Husserl, A Ideia da
Fenomenologia [Lisboa: Edições 70, 2018], pág. 22.
[3] cf. Martin
Heidegger, Os Problemas Fundamentais da Fenomenologia [Petrópolis, RJ:
Vozes, 2012], § 6, pág. 40-41.