01/02/2026

Análise do Propósito do Eurasianismo

Capítulo I: A análise do propósito do eurasianismo.

 

1. “Fugi pois destas plantas parasitas, que produzem fruto mortífero. Se alguém provar delas morre na hora. Não são pois eles plantação do Pai. Se o fossem, apareceriam como rebentos da cruz, e seu fruto seria imperecível” (Ad Tral., 11.1-2); ora, esta sentença de Santo Inácio de Antioquia, não somente se aplica a questões propriamente ditas teológicas ou religiosas, mas também deve ser observada como princípio impreterível para se analisar toda e qualquer filosofia que se apresente como perigo para a fé; não somente filosofias racionais, mas também doutrinas e ideologias políticas que são verdadeiras parasitas infernais para a fé.

2. Ora, tendo como princípio esta sentença de Santo Inácio, e defrontando-me com a mais terrível ideologia que surgira nos últimos 40 anos, resolvi analisar o propósito do eurasianismo tal como está disposto no livro “A Quarta Teoria Política” de Alexander Dugin[1]; este livro é um dos marcos teoréticos da doutrina eurasiana ou nacional-bolchevismo – na verdade, esta obra é o manifesto filosófico da doutrina eurasiana; assim, ao se analisar o eurasianismo, se faz necessário refutar esta ideologia política de acordo com sua base teorética, que apesar de se desenvolver em outros livros, tem neste livro de Dugin sua mais conhecida expressão e descrição filosófica.

3. Portanto, tendo em vista a necessidade de sempre se apologizar em favor da verdade contra os parasitas da reta razão e os destruidores da ordem social, escrevo esta análise do propósito do eurasianismo, a partir da descrição de seu principal artífice em seu livro doutrinário fundamental; a morte racional e a morte espiritual que emana do eurasianismo é mais do que evidente em toda a Rússia e onde se tem influência da Rússia; mas, não somente na cultura russa, pois também a Igreja Ortodoxa Russa se submeteu a esta infame ideologia e a acolheu de modo apostasioso como parte da vida interna da Igreja; isto por si demonstra todo o parasitismo espiritual do eurasianismo, que em suma é uma ideologia política anticristianismo, tal como é próprio de qualquer ideologia histórica; a Ortodoxia Russa ao se deixar dominar pelo eurasianismo se tornou uma “igreja” sob o poder de mando humano e não mais sob o senhorio de Cristo.

4. Deste modo, ao se apologizar contra o eurasianismo também se tem em vista a defesa da fé ortodoxa contra as infames práticas ideológicas que voltaram a circular na Ortodoxia, agora não mais na sé de Constantinopla, mas na sé de Moscou; de fato, a sé de Moscou é assolada por domínio ideológico desde a Revolução Russa; e após a Queda da União Soviética, o Patriarca Alexei II conseguira em parte evitar esta manipulação ideológica – pelo menos quanto a aceitação de práticas hediondas -, mas já havia uma construção ideológica em andamento para voltar a colocar a Rússia em estado de sonho, o que recebeu de início o nome de nacional-bolchevismo, que aos poucos foi sendo estruturado; assim, a partir da publicação deste livro de Dugin se tem o marco da estruturação final do eurasianismo, o qual cristaliza a teoria e a práxis da doutrina eurasiana, os quais, mesmo que indiretamente, tem por mote dominar a Santa Igreja - e que infelizmente já conseguiu dominar a hierarquia da Igreja Ortodoxa Russa.

5. Portanto, a doutrina eurasiana é uma terrível parasita que atina contra a reta razão e contra a revelação, e é uma doutrina que só produz fruto mortífero; o Senhor Jesus houvera dito: “Pelos frutos os conhecereis” (Mt 7.21); ora, os frutos do eurasianismo são todos eles terríveis, o que é um fato inegável; logo, são frutos mortíferos; pois, o eurasianismo se assenhora da verdade, a transmuta em preceitos ideológicos, bem como perverte a ordem social a partir do endeusamento de uma figura carismática, de um suposto líder enviado por Deus[2]; o eurasianismo promove o culto a personalidade de um líder carismático; etc. Por esta e outras razões, o parasitismo do eurasianismo é tão terrível quanto o de qualquer ideologia carniceira; portanto, o eurasianismo é uma doutrina nefasta, já que é sincretismo entre comunismo, fascismo e nazismo.

6. Além do que, o eurasianismo assim como qualquer ideologia é permeado pela obstinação contra a autoridade da Sagrada Escritura e contra a autoridade da Sagrada Tradição[3]; na verdade, o eurasianismo institui poderes de mando humano contra a autoridade divina para a Santa Igreja. Em sentido teológico, o eurasianismo promove o etnofiletismo; logo, o eurasianismo é anátema; além do que, que se afirme e reafirme não existe Igreja Eurasiana: ou se é Igreja de Cristo ou então não se é Igreja; outrossim, é que a chamada Igreja Eurasiana não é parte da fé ortodoxa; na verdade, a propagação de uma Igreja Eurasiana[4], com preceitos etnofiletistas, é obra de Satanás; e os “cristãos eurasianos” não são cristãos verdadeiros.

7. Ora, não se precisa de um conhecimento aprofundado das ideologias históricas para se perceber a perdição que é inerente ao eurasianismo; apenas bastaria explicar no que consiste o eurasianismo, e mencionar os propósitos do mesmo, que já se teriam razões mais do que suficientes para se apologizar contra o eurasianismo do ponto de vista da fé; pois, o Espírito Santo que habita nos fiéis, os ensina e mostra os inimigos da fé, os que buscam modificar ou mudar a fé em função de propósitos ideológicos nefastos, a partir dos mais variados sofismas, entre os quais estão aqueles que buscam para si ou para outrem o assenhorar-se da Santa Igreja com poderes de mando e o rejeitar deliberadamente a reta razão.

8. Todavia, como também se faz necessário uma apologia filosófica contra esta nefasta doutrina ideológica, considerei necessário elaborar, a guisa de apresentação geral, uma análise filosófica sobre o propósito do eurasianismo, sem deixar de lado os princípios teológicos, já que o eurasianismo, inconscientemente, assim como toda ideologia histórica pós-Hegel, busca ser um substituto para a teologia cristã; e o faço para expor e iniciar a refutação das entranhas nefastas e demoníacas do eurasianismo. E aqueles que por si puderem compreender o eurasianismo, perdoem-me pela simplicidade desta análise, mas aqueles que não puderem por si estudar o eurasianismo, encontrarão nesta análise um guia eficaz para se entender as razões do porque se deve apologizar contra esta nefastíssima doutrina ideológica.

9. Que o Deus Altíssimo nos oriente e nos conduza nesta análise, a fim de honrá-Lo, a fim de ensinar o bem e para testemunhar da verdade para todos os homens de boa vontade; pois, o testemunho da verdade também requer que se debele o erro, principalmente em se tratando das infâmias das doutrinas ideológicas; pois, o perigo moral, intelectual e espiritual que provém de uma ideologia nefasta, tal como o eurasianismo, é de uma gravidade tão grande que afeta não só somente a sociedade e os indivíduos que a compõem, mas atenta contra a própria liberdade do Santo Evangelho. E se se atenta contra a liberdade do Santo Evangelho, seja de maneira direta seja de maneira indireta, então se tem a anunciação da vituperação da dignidade humana.

 

Capítulo II: A Dialética das Ideologias Históricas.

 

10. Ao se iniciar esta análise do propósito do eurasianismo, se deve, a guisa de introdução, analisar o eurasianismo enquanto ideologia histórica; e, para compreender no que consiste uma ideologia história, se deve evocar a proposição do sistema da ciência de Hegel sobre a dialética das ideologias históricas; ora, Hegel propugnara na Fenomenologia do Espírito algumas observações sobre como as ideologias se encarnam no solo da história, não somente no domínio das funções seculares, mas principalmente nas ações humanas; as ideologias não querem simplesmente domínio público visível, mas buscam fundamentalmente dominar o modo como os seres humanos pensam e agem.

11. Deste modo, as ideologias históricas, segundo Hegel, possuem as seguintes características: primeiro, o desejo anterior a luta pelo reconhecimento, ou seja, as manifestações sem luta nem labor (cf. Ph VII, A); por isso, as chamadas sociedades primitivas são a primeira manifestação de ideologia histórica, que toma forma a partir de Hegel pelo denominativo comum evocado no sistema da ciência de pacifismo; a primeira forma das ideologias históricas é o pacifismo.

Segundo, o desejo da luta pelo reconhecimento, ou seja, as manifestações com luta e com labor (cf. Ph VII, B); por isso, as chamadas sociedades mais desenvolvidas, a partir da Grécia Antiga, são a segunda forma de manifestação das ideologias históricas, que toma forma a partir de Hegel pelo denominativo comum evocado no sistema da ciência como a ação e o destino épico.

Terceiro, o desejo posterior a luta pelo reconhecimento, ou seja, as manifestações após a luta e o labor (cf. Ph VII, C); por isso, após as sociedades mais desenvolvidas surge o mundo burguês, que é a terceira forma de manifestação das ideologias históricas, que toma forma a partir de Hegel pelo denominativo comum evocado no sistema da ciência como a “verdade” do cristianismo; e isto em Hegel significa a saída da sabedoria revelada para a sabedoria ateia.

12. Assim, na dialética das ideologias históricas se tem três estágios que a ideologia histórica se utiliza para procurar se estabelecer, os quais estão em concórdia com as características das ideologias ao longo da história; por isso, toda ideologia histórica vai evocar alguma indolência ou inatividade, ou passividade, para com isso atinar algum erro ou problema que supostamente precisa ser resolvido; ao fazer isso, a ideologia histórica transmuta o pacifismo em necessidade de ação e destino épicos, para instaurar nas sociedades pacíficas a necessidade da guerra e/ou da revolução; e, por fim, chega-se as sociedades pacifistas, que buscam evitar a guerra, mas ao fazê-lo não o fazem porque são pacíficos, mas porque voltaram de alguma forma ao pacifismo anterior, gerando assim o ímpeto social para o secularismo.

13. Portanto, se se analisar com cuidado, toda ideologia histórica busca estas três coisas, e busca instaurar um modus operandi a fim de alcançar o pleno domínio através da manipulação social destes três estágios, que de certa forma estão imbuídos nas ações humanas; o eurasianismo busca instaurar estes três estágios, embora com ordem e disposição distintas: o eurasianismo propaga a ideia de uma “indolência” e corrupção geral da cultura europeia, o que em parte está correto, mas não para vencer e retirar esta indolência e corrupção, mas para arrolar para a doutrina eurasiana o mote para dominar sobre a cultura europeia; além disso, o eurasianismo propaga a necessidade de guerra para retirar o domínio da corrupção que tomou conta da Europa; e o eurasianismo diz buscar uma “paz duradoura”, um pacifismo ao estilo kantiano, como “promessa” de aceitação do eurasianismo, ou seja, trabalham com a coação hegemônica para angariar adeptos (tantos indivíduos quanto nações).

14. Assim sendo, o eurasianismo é uma nova espécie de ideologia histórica, sem os erros visíveis das ideologias históricas anteriores, mas com o mesmo propósito, a saber: dominar o modo de pensar e de agir de todos os homens; o eurasianismo é um parasita mortífero do ponto de vista sócio-histórico; nem mesmo o esquema geral das crises históricas é argumento para as nefastisses propagadas pelo eurasianismo; o eurasianismo é apenas uma nova forma de “ressuscitar” os problemas que deram “origem” e “justificativa” ao modo de ação dos fascistas e dos nazistas; na verdade, o eurasianismo é apenas uma semente para plantar novamente no solo da sociedade o destino final das crises históricas engendrado pelas ideologias históricas, a saber, conduzir a sociedade para total destruição.

Aliás, aquilo que Pio XI, papa de Roma, houvera dito sobre o nazismo, também pode ser aplicado inteiramente ao eurasianismo já que os propósitos finais assustadoramente são os mesmos: “A experiência dos anos passados põe em claro as responsabilidades, e revela as maquinações que já desde o começo nada intentavam senão uma luta até ao aniquilamento[5]. O eurasianismo busca uma luta até o aniquilamento, não para se instaurar plenamente, mas para cumprir seu propósito como doutrina adjutora da ideologia histórica dominante da contemporaneidade, o marxismo-comunismo; o eurasianismo tem por natureza e propósito ser mais um “navio quebra-gelo” para o comunismo – tal como fora o nazismo.

Em suma, nisto consiste o eurasianismo a partir de uma análise da natureza e do propósito das ideologias históricas.

15. Além disso, a proposição de Alan de Benoist de que existe um pensamento político que está além da direita e da esquerda, que rompe esquemas[6], é um sofisma; pois, um pensamento político, no sentido ideológico contemporâneo, está sujeito, sem exceção, aos ditames do sistema de Hegel; o próprio Marx houvera dito que todos estão submersos em Hegel[7], isto é, todos estão sujeitos absolutamente a Hegel – especialmente, em sentido ideológico.

Portanto, não existe pensamento político além da direita e da esquerda hegelianas (e isso é um fato apodítico); além do que, a partir da dialética das ideologias históricas se constata que nenhum pensamento político rompe esquemas, principalmente se for os esquemas inerentes as crises históricas; pois, é justamente a deformação causada pelas ideologias históricas que germina muitas das sementes das crises históricas.

Assim sendo, a designação de Alan de Benoist é uma junção de imbecilidade, desconhecimento filosófico e cegueira ideológica; o eurasianismo não é um pensamento político além da direita e da esquerda, mas é um pensamento político que orbita de maneira desordenada entre a direita e a esquerda hegelianas, e é mais um fruto que encarna ainda mais o esquema das crises históricas transmogrifado por Hegel.

A lixaria eurasiana é tão medonha como qualquer outro dos frutos da direita e/ou da esquerda hegelianas. E isto é o que se diz a guisa de introdução desta análise.

 

Capítulo III: A falsa universalidade do eurasianismo.

 

16. Após estas breves perspectivas introdutórias, se pode prosseguir para a análise do propósito do eurasianismo tal como delineado no prefácio do livro de Dugin (cap. 1 da edição brasileira); todavia, existe uma peculiaridade que deve ser evocada que é a introdução que Dugin escreveu para a edição espanhola[8]; uma introdução muito útil para se entender não somente o livro em si, mas para compreender o propósito global do eurasianismo; por isso, se inicia propriamente dito esta análise a partir desta introdução[9].

17. Eis a primeira sentença de Dugin nesta introdução: “A quarta teoria política não tem um destinatário sócio-cultural definido”; ora, isto é um sofisma; pois, a quarta teoria política é uma doutrina etnofiletista; pois, é uma doutrina que propaga sem rodeios a superioridade racional e étnica dos russos, conduzindo-os para o sonho do “mundo russo”; portanto, ainda a quarta teoria política afirme que é algo que tem propriedade universal, e embora busque um domínio universal, a quarta teoria política é exclusivista e particularista ao extremo quanto a suas doutrinas e a seus propósitos; a quarta teoria política propaga a superioridade racial.

O destinatário sócio-cultural do eurasianismo é a Rússia e tudo aquilo que os russos puderem dominar em função da formação do “mundo russo”; pois os destinatários da quarta teoria política são os que são permeados pela insatisfação russa, ou melhor, pelo tédio russo; o eurasianismo é um divertimento evocado a partir do estado de tédio em que fora submetida a cultura russa - aliás, o estado de tédio da cultura russa fora descrito com maestria por Dostoiévski em suas obras inigualáveis.

18. Depois, ao seguir sua argumentação, Dugin afirma: “que todos nós devemos contestar a pergunta principal: ser ou não ser?”; ora, a suposta universalidade do eurasianismo é em função de uma crítica ontológica; e toda crítica ontológica geralmente esconde por detrás a canalhice do filósofo que assim a propõe; na verdade, a pressuposição de uma crítica ontológica é formulada como axioma por Martin Heidegger em sua obra “Ser e Tempo[10]; assim, toda crítica ontológica está sujeita as canalhices de Heidegger.

Assim, a ideia de universalidade do eurasianismo é embasada em Heidegger, a partir do que Heidegger designa como a ideia da busca pela verdade (da verdade como desvelamento); para Heidegger a verdade está encoberta, e somente uma crítica ontológica é que pode desvelá-la - no caso, a filosofia do próprio Heidegger; em suma, o eurasianismo é isso, só que do ponto de vista sócio-político.

Ao invés de ter Hegel como base, como fizeram Marx e Engels na formação do marxismo, Dugin tem Heidegger como base para gestar e formar o eurasianismo. O teórico do partido nazista é a base filosófica do eurasianismo.

19. A contestação que Dugin evoca como obra de todos, na verdade, é permeada pelo princípio heideggeriano; o “ser ou não ser?”, lembrando a sentença de Shakespeare, não é uma indagação sobre a possibilidade do ser ou do não-ser, pois o ser é evidente e o não-ser não existe; mas, esta indagação é proposta para induzir à quem revela o suposto estado de não-ser e quem aponta para o ser; no caso, a partir das sentenças de Dugin, quem promove isso é a quarta teoria política; ou seja, uma ideologia política se coloca como a desveladora do ser; ora, quem desvela o ser é a verdade, e vice-versa; logo, quem assim propõe fazer usurpa o lugar da verdade e/ou do próprio ser. Por isso, a quarta teoria política assume uma posição arquimédica ao se colocar como a desveladora do ser; na verdade, a quarta teoria política se torna como o demiurgo platônico. A quarta teoria política, nas pressuposições de Dugin, se torna por assim dizer, o meio instrumental para a revelação da verdade e do ser.

20. Depois de prosseguir a explicação da sentença evocada anteriormente, Dugin prossegue em sua argumentação, e explica qual o sujeito do eurasianismo, ao afirmar: “o sujeito da quarta teoria política é o Dasein”; ora, o Dasein, ou ser-aí, tal como evocado por Heidegger, e utilizado por Dugin, na verdade não é um vocábulo para simplesmente evocar a existência, ou o ser-existente, tal como querem os existencialistas e outras escolas filosóficas do séc. XX, e o próprio Dugin; o Dasein heideggeriano, na verdade, é um amontoado de erros filosóficos sobre a existência e a essência; a quarta teoria política se baseia na ideia do Dasein, mas no ser-aí que contém erros filosóficos pueris, os quais se tornam grandes erros após terem sido iniciados - lembrando o dito do Filósofo de um erro pequeno no início se torna grande no final (cf. De Cael. 271b9-10).

O sujeito da quarta teoria política é um tótem; pois, o Dasein heideggeriano desfigura o preceito sobre a existência desfigurando a ideia de essência; a ideia de essência de Heidegger está sujeita ao conceito de essência da lógica hegeliana; por isso, o que Heidegger propõe, e Dugin segue a risca, é a ideia de que a essência dos entes está tão velada que não pode ser conhecida sem aquilo que dá a conhecer o ser; além do que, a busca pela essência determinada por Heidegger na verdade diz respeito a purificação racial[11], e não em relação a definição intelectual; por isso, a ideia heideggeriana de existência e essência saem do campo epistemológico-metafísico, para o campo praxeológico em nome de uma ideologia histórica - no caso de Heidegger, o nazismo[12], e no caso de Dugin, o eurasianismo.

Em suma, nisto consiste a busca pela essência designada pelo Dasein heideggeriano e pelo Dasein eurasiano, a saber, o ser-aí que desvela a existência e a essência através da ideologia histórica - a partir da perspectiva de Dugin através do eurasianismo.

21. E Dugin prossegue e assevera: “O Dasein é plural a nível de fenômeno”; ora, tendo Dugin designado o Dasein como sujeito do eurasianismo, Dugin também trata de evocar a pluralidade do Dasein que utiliza; a descrição de Dugin a partir do termo fenômeno para designar a pluralidade do Dasein, na verdade não é porque o Dasein tenha pluralidade fenomênica, mas porque o Dasein heideggeriano se dá numa pluralidade de fenômenos específicos que o permitem ser deste modo elucubrado.

Ou dito em outros termos, a pluralidade fenomênica do Dasein não se dá porque o Dasein é assim de fato, mas porque ao instituir um Dasein plural no sentido fenomênico, se o encaminha para a necessidade histórica evocada pela ideologia histórica; pois, se se propaga certos fenômenos que atinam para a ideologia histórica, então o Dasein é plural em função da ideologia histórica e não em si mesmo.

Assim, o Dasein heideggeriano e o Dasein eurasiano não dizem respeito ao que está manifesto na realidade, mas sim no que se torna manifesto a partir da ideologia histórica; o Dasein eurasiano é um Dasein ideológico; logo, tudo o que é manifesto no ou pelo eurasianismo será algo totalmente ideológico.

22. Além disso, Dugin especifica que o caminho da quarta teoria política se faz segundo uma linha dialética tríplice: “(1) a unidade na negação; (2) o pluralismo na afirmação; (3) a pergunta aberta sobre o horizonte superior da unidade eventual das afirmações”; ora, sendo o sujeito da quarta teoria política o Dasein, então, Dugin evoca um modo para instaurar este sujeito na mentalidade eurasiana; e o faz através do que ele chama de linha dialética; o eurasianismo tem uma linha dialética tríplice, pela qual instaura o modo eurasiano de pensar, e pela qual açambarca todas as coisas pelos critérios eurasianos; não é apenas uma linha dialética, é um plano de ação que se instaura através da parafernalia dialética.

Outrossim, é que esta linha dialética tríplice é resquício da dialética hegeliana (tese, antítese e síntese); em primeiro lugar se tem a tese, (1) a unidade na negação; depois se tem a antítese, (2) o pluralismo na afirmação; e, por fim, se tem a síntese, (3) a pergunta aberta sobre o horizonte superior da unidade eventual das afirmações; e isto, pois, perfaz a estrutura de dialetização da lógica hegeliana, que Dugin acopla muito bem, já que assim coloca a implementação do eurasianismo sob a parafernalia dialética hegeliana.

A síntese (o terceiro aspecto [3]) sempre é o propósito final do eurasianismo, a qual sempre conduz à algum dos preceitos do sonho do “mundo russo”; por isso, a linha dialética da quarta teoria política sempre é em função dos grimórios do sonho do “mundo russo” - que é a aplicação e a instauração de um sonho particular para uma mentalidade coletiva.

23. E, para alcançar esta linha dialética tríplice, Dugin propõe o seguinte pressuposto: “pode ser que tenha que acomodar este unidade máxima com termos apotemáticos, no estilo da ‘henologia’ de Plotino ou da teologia negativa de Dionisio Areopagita”; ora, para Dugin a linha dialética serve para conduzir a unidade máxima, isto é, a perfeita concreção e o perfeito alinhamento da quarta teoria política; por isso, Dugin propõe que a quarta teoria política tenha termos apotemáticos, isto é, termos precisos e matemáticos; isto não é apenas uma busca por precisão, mas busca por absolutismo.

O eurasianismo busca termos apotemáticos, não apenas no sentido matemático ou científico, e não para dar precisão a sua linguagem e termos, mas para instaurar o eurasianismo tanto no sentido metafísico, tal como a “henologia” de Plotino, quanto no sentido teológico, tal como a teologia negativa de Pseudo-Dionísio; ou seja, para Dugin o eurasianismo deve ter termos iniciáticos (no sentido esotérico), tanto henológicos quanto apofáticos; e para cristalizar estes termos utilizam o elemento da crítica do que já está estabelecido (isto em parte lembra o princípio da dialética negativa da Escola de Frankfurt).

Os apótemas do eurasianismo são para uma plena instauração do sonho do “mundo russo”, tanto no sentido filosófico quanto no sentido teológico; o eurasianismo busca ser uma cosmovisão total, que açambarca o lume da luz interior e o lume da luz superior, isto é, a partir da quarta teoria política se estabelece a doutrina eurasiana como o princípio orientador tanto para o modo filosófico de pensar quanto para o modo teológico de pensar; ou seja, a doutrina eurasiana se coloca como a fonte tanto para a filosofia quanto para a teologia. Com efeito, a busca do eurasianismo é uma busca por se tornar uma religião. A Eurásia propagada por Dugin e por outros, não apenas é uma localidade geográfica com princípios geopolíticos próprios, mas é o projeto de uma nova religião unificada; em suma, isto é o espírito religioso do anticristo.

24. Ora, com isso se dá para entender o propósito da quarta teoria política; não somente de Dugin, mas de todos os teóricos do eurasianismo; o propósito do eurasianismo, para além da Rússia, é o que Dugin descreve nesta introdução; alguns aspectos evocados nesta introdução são em específico para o contexto dos povos de língua espanhola, especialmente a Espanha; mas, a falsa universalidade do eurasianismo, ou mesmo sua falsa particularidade, já são mais do que evidentes nas poucas páginas desta introdução; o propósito universal do eurasianismo desembocará no mesmo destino das outras ideologias ou teorias políticas; e o propósito particular do eurasianismo colocará a Rússia em um estágio de secularidade ainda maior do que aquele descrito por Dostoiévski no séc. XIX.

 

Capítulo IV: A política, o ser e o não-ser do eurasianismo.

 

25. Tendo, pois, analisado o que concerne as ideias gerais da introdução que Dugin escreveu para a edição espanhola do livro “A Quarta Teoria Política”, se pode prosseguir e adentrar propriamente nas teses que Dugin evoca sobre o propósito do eurasianismo, tal como está no primeiro capítulo, o prefácio da obra, onde Dugin estabelece a interrogativa: ser ou não-ser? O capítulo se inicia assim: “No mundo atual, a política parece ter acabado, pelo menos como nós a conhecemos” (cap. 1); isto, em suma, é iniciar evocando o ceticismo político; embora, seja clarividente que não deva se ter fé em políticos, por várias razões, a evocação de um ceticismo político retira a responsabilidade dos políticos, e a busca pela causa da deplorável condição dos políticos, e busca um algo que retire este ceticismo; ora, o ceticismo só é vencido se enfrentado de frente em suas causas e raízes; do contrário, será necessário criar um estado de sonho no qual o sonhador se livra do ceticismo sem fazer nada - em suma, é isto que buscam fazer as ideologias históricas.

26. O ponto de partida de Dugin, uma indagação existencial, não é posto a partir das perguntas fundamentais da reta razão, mas sim a partir da política; portanto, já de início a política passa a ocupar um lugar preponderante, acima das indagações fundamentais da vida; por isso, ao evocar o fim da política, Dugin na verdade está evocando a deificação da política; pois, somente assim a resposta para o fim da política recebe o escopo da própria política; ao descrever o fim da política, busca evocar um novo tipo de política - na concepção eurasiana, a política ideal; por isso, na dialética eurasiana o ceticismo político só é vencido com uma teoria política que supere as anteriores; a indagação existencial - ser ou não-ser? - é posta não mais do ponto de vista moral e intelectual, mas do ponto de vista sócio-político; e aqui está o problema maior das ideologias históricas, a saber: tirar os problemas individuais da esfera individual e colocá-los na esfera social; ao que parece isto gera alguma solução, mas na verdade apenas agrava ainda mais os problemas sociais; pois, a raiz do desencantamento não é algo exterior ao homem, mas algo que emana do interior do homem, mesmo em se tratando da política. A causa do desencantamento não está nas misérias sociais, mas sim nas misérias pessoais.

27. Assim, Dugin vai propondo de maneira sintética uma análise histórica das três teorias políticas anteriores, e chega a conclusão de que a única teoria política que sobreviveu foi o liberalismo; por isso, para Dugin, a teoria política que sobreviveu, o liberalismo, assumiu o controle da política; por esta razão, Dugin afirma: “O liberalismo, que sempre havia insistido na minimalização da política, tomou a decisão de abolir a política completamente após seu triunfo”; isso, por sua vez, demonstra que aquilo que Dugin compreende como o triunfo do liberalismo, na verdade, não é triunfo, antes é a abolição da política; o triunfo do liberalismo, para o eurasianismo, representa o fim da política; esta tese de Dugin tem vários erros filosóficos, o que será melhor explicado em outros escritos; no entanto, esta tese demonstra um princípio basilar do eurasianismo, que é atribuir ao liberalismo o fim da política[13].

28. Todavia, mesmo ao errar sobre as causas filosóficas da abolição da política clássica, o que não é fruto apenas do triunfo do liberalismo - na verdade, o liberalismo não obteve nenhum triunfo no sentido que Dugin propugna -, Dugin acerta no que a sobrevivência do liberalismo se transformou, ao afirmar: “O conservadorismo, o fascismo e o comunismo, junto com suas variações secundárias perderam a batalha e o liberalismo triunfante transmutou-se em um estilo de vida: consumismo, individualismo e uma interação pós-moderna do ser fragmentado e subpolítico”; ora, realmente, após o conservadorismo, o comunismo e suas variações como o fascismo e o nazismo, terem sido deixados de lado pela grande elite global (com a exceção da China, que é plenamente comunista), o velho liberalismo transmutou-se de teoria política para estilo de vida; por isso, os erros das outras teorias políticas que se assomaram no liberalismo, passaram ser tidos como culpa do próprio liberalismo, embora em grande parte não sejam.

Entretanto, Dugin tem razão quanto a transmutação do velho liberalismo para um estilo de vida tedioso; pois, o liberalismo que atina estes aspectos a nível social, se tornou algo que se impregnou na vida individual: o consumismo, o individualismo, etc., que não são apenas fruto do liberalismo, mas que foram nas sociedades liberais transmutados deste modo; por isso, tal como Dugin afirma: “A política se tornou biopolítica, passando ao nível individual e sub-individual”; pois, ao liberalismo se transmutar em um estilo de vida, chamado pelo eurasianismo de estilo de vida norte-americano, transformou a política em biopolítica, ou seja, ao invés do laissez-faire da política clássica se criou uma biopolítica que busca regular a vida biótica das sociedades.

A guerra não se torna mais pelo poder público visível, mas por quem consegue regular a vida biológica das populações; por isso, temas como aborto, eugenia, eutanásia, etc., se tornaram parte do itinerário da vida liberal. Dugin se apercebe disso com certa propriedade, mas o problema que não foi a política que tornou biopolítica, mas sim que o ímpeto da manipulação deixou a política clássica para interferir na vida biológica; a guerra pelo poder se transmutou na guerra pela vida biológica; a guerra bélica se tornou em guerra biológica.

Isto, por sua vez, evoca o problema das teorias políticas anteriores; pois, não é só consequência do triunfo do liberalismo, mas consequência das teorias políticas anteriores. E o problema que disto emana exige uma solução, dado a gravidade da situação.

29. Mas, qual a solução para isso? Simples, Dugin ao evocar este problema, também propõe a solução: “Há apenas uma saída – rejeitar as teorias políticas clássicas, tanto vitoriosas como derrotadas, empenhar a imaginação, tomar a realidade do novo mundo global, decifrar corretamente os desafios da Pós-Modernidade, e criar algo novo – algo para além das batalhas políticas dos séculos XIX e XX”; para Dugin, há apenas uma única saída, isto é, há apenas um único caminho para solucionar este problema que acima fora evocado; na verdade, este caminho segundo Dugin é o eurasianismo; na verdade, na inculturação do eurasianismo se demonstra que este caminho é unicamente manifesto através da Rússia; para Dugin, apenas a Rússia irá vencer as consequências do triunfo do liberalismo.

Ora, a saída para se vencer as consequências do triunfo do liberalismo, segundo Dugin, é manifesta em cinco etapas: primeiro, em rejeitar as teorias políticas clássicas (conservadorismo, liberalismo e comunismo), isto é, rejeitar as doutrinas e as práticas das teorias políticas clássicas; segundo, empenhar a imaginação, ou seja, retirar a imaginação do ceticismo político, e colocá-la engajada na doutrina eurasiana, no sonho do “mundo russo”; terceiro, tomar a realidade do novo mundo global, isto é, estabelecer como pressuposto a chamada nova geopolítica que tem como artífice a Rússia; quarto, decifrar corretamente os desafios da pós-modernidade, ou seja, descortinar os desafios que impedem a formação do “mundo russo”; quinto, criar algo novo, isto é, evocar um outro algo além das teorias políticas clássicas que consiga acoplar os outros aspectos e levá-los adiante em função dos propósitos do sonho do “mundo russo”.

30. Deste modo, a questão existencial do “ser ou não-ser?”, se põe diante da Rússia, e daqueles que compreendem o estado caótico do mundo atual; todavia, o “ser ou não-ser?” do eurasianismo não é puramente uma questão existencial e/ou metafísica, mas sim uma questão política; assim, os problemas existenciais no eurasianismo se tornam em problemas sócio-políticos; na verdade, é uma transmutação da vida individual para a vida política, e não o contrário como Dugin propusera; o “ser ou não-ser?” da Rússia, do eurasianismo, está diante de uma encruzilhada política; assim, a indagação existencial do eurasianismo se transforma num ímpeto sistêmico; pois, o eurasianismo se torna na encarnação da solução da questão existencial do “ser ou não-ser?” diante da atual crise histórica, a qual Dugin soube muito bem engendrar para seus propósitos na doutrina eurasiana.

 

Capítulo V: Os cinco estágios para o desenvolvimento da quarta teoria política.

 

31. A perspectiva de Dugin a respeito do “ser ou não-ser?” da Rússia, desemboca na solução que o próprio Dugin propõe para encaminhar a Rússia diante da crise histórica que a assola e que assola toda a pós-modernidade; assim, a solução é descrita por Dugin a partir da quarta teoria política; e, para desenvolver a quarta teoria política, Dugin pressupõe cinco estágios; no primeiro estágio, Dugin afirma que é necessário, “reconsiderar a história política dos últimos séculos desde novas posições para além das estruturas e clichês das velhas ideologias”; ora, segundo Dugin o primeiro é a reconsideração da história política além das velhas ideologias, isto é, para além dos efeitos históricos das três teorias políticas anteriores; evidentemente, Dugin delimita esta história política em relação a modernidade a partir de Maquiavel.

A solução para Dugin é iniciar pela reconsideração da história política, tanto para delinear os erros das velhas ideologias, quanto para que ao demonstrar estes erros propor o caminho da nova teoria política, a quarta teoria política; na verdade, esta proposição institui, a medida duginiana, o princípio da observação da dialética histórica; ao Dugin estabelecer um princípio histórico para análise, e ao estabelecer este princípio de acordo com a quarta teoria política, ele estabelece a razão histórica eurasiana na crítica da história política da moderna; ou dito em outros termos, Dugin assim procede para colocar o eurasianismo como a única saída para a crise histórica da política.

A razão histórica do eurasianismo é pressuposta na crise política e partir da crise política como solução para a crise política; no entanto, de fato o eurasianismo apenas agrava esta crise política para níveis ainda mais terríveis.

32. No segundo estágio, segundo Dugin é necessário “perceber e se tornar consciente da estrutura profunda da sociedade global emergindo diante de nossos olhos”; ora, a conscientização da estrutura da sociedade global é a fim de indicar o plano de ação do eurasianismo; Dugin quere que se entenda não a real estrutura da crise histórica, mas os estereótipos criados sobre a mesma; pois, os estereótipos criados sobre a crise histórica vela os reais causadores desta crise; além do que, não existe nenhuma sociedade global emergindo atualmente, antes é a velha estrutura histórica, apenas com aparências e estereótipos diversos; a solução para Dugin é se perceber da estrutura da sociedade global, não para reformar ou melhorar esta estrutura, mas para destruí-la.

O propósito do eurasianismo é destruir a estrutura da sociedade global em todos os aspectos; não para tirar o liberalismo de cena ou triunfar sobre o mesmo, mas para ser o “navio quebra-gelo” para o domínio comunista. A estrutura profunda da sociedade global é construída pelo comunismo, mas nas aparências e estereótipos parece que é formada pelo liberalismo; todavia, o comunismo constrói esta estrutura profunda da sociedade global não porque realmente buscar edificar esta sociedade, mas para gerar um ímpeto de ação contra esta sociedade, através de alguma ideologia auxiliar, para de fato culpar as outras teorias políticas e impregnar ainda mais o domínio comunista pela dialética da contradição.

33. No terceiro estágio, segundo Dugin é necessário “decifrar corretamente o paradigma da Pós-Modernidade”; ora, após se compreender a estrutura profunda da sociedade global, obviamente Dugin pressupõe o próximo estágio para se decifrar corretamente o paradigma da pós-modernidade; este paradigma esta intimamente ligado a profunda estrutura da sociedade global; na verdade, a estrutura da sociedade global é permeada pelo paradigma da pós-modernidade.

E que quer dizer Dugin com pós-modernidade? O mundo pós-soviético; a utilização do conceito de pós-modernidade pela doutrina eurasiana diz respeito ao mundo após a queda da União Soviética; é uma espécie de saudosismo do comunismo soviético, e não só crítica das características camaleônicas da pós-modernidade. Aliás, as características da pós-modernidade advêm do secularismo da secularização promovida pelo comunismo soviético.

Entretanto, a crítica de Dugin não é para reaver propriamente a União Soviética entre os russos e os balcãs, embora existam entre os eurasianos muitos saudosistas soviéticos que procuram isso; mais propriamente, é a crítica para reaver o “espírito soviético” de domínio russo; a doutrina eurasiana, em suma, é a retomada do “espírito soviético” sem os espectros do comunismo leninista ou stalinista - no entanto, sob os princípios do comunismo maoísta.

Por isso, para o eurasianismo quem edificou a sociedade global, dominada pelos paradigmas pós-modernos, são os culpados da crise histórica e da crise política. No entanto, quem a edificou não está visível, pois os estereótipos criados “substituem” a responsabilidade de quem edificou a sociedade global. Os estereótipos da sociedade global atinam para algo, enquanto quem criou esta sociedade continua com a “mão-invisível” dominando a sociedade.

Ora, isto fora feito deste modo sob os critérios da engenharia social, os quais foram aperfeiçoados pela Escola de Frankfurt; assim, a sociedade global pós-moderna tem por artífices os comunistas, embora os estereótipos e aparências indiquem que quem a domina são os liberais; na verdade, até mesmo muitos dos comunistas na “nova-esquerda” manifestam estereótipos liberais para apresentarem-se como liberais ou conservadores; mas, de fato os artífices da sociedade global são os comunistas e suas ideologias auxiliares, tal como por exemplo o próprio eurasianismo.

34. No quarto estágio, segundo Dugin é necessário “aprender a se opor não à ideia, programa ou estratégia política, mas ao status quo ‘objetivo’, o aspecto mais social da (pós-) sociedade fraturada e apolítica”; ora, após se decifrar a pós-modernidade, ou mais propriamente, após o eurasianismo se colocar como única saída para a fragmentação doentia da pós-modernidade, é necessário o aprendizado a respeito do que se deve se opor da sociedade global; para Dugin, é necessário aprender a se opor não à ideia, isto é, não a formulações conceituais sobre a pós-modernidade, sejam elas de programas ou estratégias políticas, as quais são inúmeras, mas sim ao que o eurasianismo considera como o “status quo” objetivo da pós-modernidade, ou seja, a real situação, o real estado da sociedade.

Este “status quo” evocado por Dugin, e que é imbuído na compreensão eurasiana, se dá em torno do aspecto mais social da sociedade global, uma sociedade fraturada e apolítica; ora, este aspecto mais social diz respeito aos princípios que guiam a sociedade; como Dugin critica os paradigmas da pós-modernidade, evidentemente para a doutrina eurasiana são estes paradigmas que envolvem os aspectos sociais da sociedade global; no entanto, os paradigmas pós-modernos apenas são o agravamento de alguns sintomas de uma doença social que não fora adequadamente tratada; os paradigmas pós-modernos não a causa da doença social, mas sim alguns efeitos mais agravantes de outros efeitos que já estavam manifestos muito antes do emergir da pós-modernidade.

Deste modo, a busca pelo se opor ao “status quo” da sociedade pós-moderna, ao aspecto mais social da sociedade fraturada, tem a ver com o princípio objetivo que move esta sociedade; para Dugin é a fragmentação social e a atitude apolítica; assim, a doutrina eurasiana busca compreender as causas da fragmentação social e da atitude apolítica, embora de fato o eurasianismo não consiga compreender realmente estas causas; o eurasianismo toma os efeitos pós-modernos da crise histórica e os estabelece como as causas da sociedade fragmentada e apolítica; isto, por si, apenas agrava a crise, pois tomar efeito como causa impede a compreensão do que é necessário fazer para se tratar a verdadeira causa.

Analogamente, o eurasianismo identifica uma doença e propõe a cura para esta doença, mas o que o eurasianismo toma como doença na verdade é apenas outro efeito da doença real. Com isso, o próprio eurasianismo também é outra teoria política ineficaz para lidar com a crise histórica; aliás, a crise histórica não será solucionada por teorias políticas, pois a crise política é apenas um dos efeitos da crise histórica e não sua causa.

35. No quinto e último estágio, segundo Dugin é necessário “construir um modelo político autônomo que ofereça um caminho e um projeto no mundo de encruzilhadas, becos sem saída e reciclagem infindável das mesmas coisas ‘velhas’ (pós-história, segundo Baudrillard)”; ora, para Dugin não só é necessário aprender o “status quo” do aspecto mais social da sociedade pós-moderna, mas em consonância com isso, construir um modelo político autônomo; na doutrina eurasiana, um “modelo político autônomo” diz respeito a um modelo político que não esteja sujeito as outras teorias políticas - principalmente, um modelo político que não esteja sujeito ao liberalismo ou ao mundo liberal, que na perspectiva eurasiana é encarnado totalmente nos EUA.

Deste modo, o “modelo político autônomo” é a fim de oferecer um caminho para solucionar as encruzilhadas formadas na pós-modernidade, que criara becos sem saída e reciclagem infindável das mesmas coisas, dando forma ao que Dugin evocara como pós-história; a definição de pós-história, evocada por Dugin, diz respeito a estrutura histórica que é formada pelos paradigmas pós-modernos; a pós-história formada pelos paradigmas pós-modernos é uma história dominada pelo eterno retorno na vida social; a “reciclagem” infindável das mesmas coisas “velhas” não é propriamente reciclagem no sentido correto, mas apenas a mudança de roupagem ou aparência para os mesmos erros e paradigmas; ou dito em outros termos, nada muda para melhor na pós-modernidade, antes tudo muda para pior, num estágio de erro e degeneração muito mais abrupto do que o anterior.

Este é o núcleo da pós-história segundo a doutrina eurasiana; e neste sentido, há algo que está correto, pois a pós-modernidade é um ciclo vicioso dos mesmos erros, com a transmutação enlouquecedora dos mesmos erros; todavia, o eurasianismo não consegue explicar e apurar a compreensão sobre o que causa este eterno retorno na vida social; o eurasianismo não explica a causa da crise histórica que também tem como efeito a pós-história.

36. Após descrever os cinco estágios para o desenvolvimento da quarta teoria política, ou mais propriamente para o desenvolvimento da “consciência eurasiana”, Dugin estabelece uma convocação a todos aqueles que se sentem “atraídos” pelas propostas eurasianas, ao asseverar: “A Quarta Teoria Política não nos parece como a obra de um único autor, mas como uma tendência de um amplo espectro de ideias, pesquisas, análises, prognósticos e projetos. Qualquer um que pense nessa veia pode contribuir com algumas de suas próprias ideias. Não obstante, mais e mais intelectuais, filósofos, historiadores, cientistas, estudiosos e pensadores responderão a esse chamado”; ora, Dugin evoca a quarta teoria política não como obra de um único autor, mas como uma tendência histórica que tende à esta veia de ideias, pesquisas, análises, etc. Por isso, para Dugin todos aqueles que tendem para este tipo de conscientização devem atender ao chamado da necessidade de ser da quarta teoria política.

Ora, isto, por si, demonstra duas coisas: primeiro, que a quarta teoria política se instaura a partir de uma insatisfação geral; e fora assim que se instauraram o comunismo, o fascismo e o nazismo; no entanto, a insatisfação geral quanto a política não produz nenhuma melhora para a política. Segundo, que a quarta teoria política busca ser uma virada histórica, ao evocar a todos que se apercebam dos problemas da sociedade pós-moderna, uma espécie de “chamado”, ou convocação, para seu desenvolvimento e aplicação. Por isso, esta sentença de Dugin se assemelha ao antigo leitmotiv dos comunistas: “Trabalhadores do mundo, uni-vos!”. No entanto, Dugin aplica seu “chamado” em primeiro lugar, ao estilo tradicionalista guenoniano, aos “intelectuais, filósofos, historiadores, cientistas, estudiosos e pensadores”, etc.; a busca primeira do eurasianismo é dominar as esferas intelectuais, para depois dominar as massas - tal como, por exemplo, fizeram Guénon e Schuon com relação ao tradicionalismo islâmico.

 

Capítulo VI: O ser ou não-ser da Rússia e a quarta teoria política.

 

37. Outro aspecto diante da evocação da razão da quarta teoria política por Dugin, é obviamente, a aplicação desta teoria à Rússia; a quarta teoria política não surge do nada, e tem um destinatário específico, a saber, a Rússia; por isso, Dugin assevera: “Para meu próprio país, a Rússia, a Quarta Teoria Política, entre outras coisas, possui uma significância prática imensa”; ora, Dugin descreve que a quarta teoria tem um significado específico para Rússia, ao ponto desta teoria política ter uma significância prática imensa; na verdade, esta significância prática foi a busca por sentido depois da secularização ocasionada pelo comunismo e pela rejeição que os russos demonstraram para com a ideologia liberal desde sempre.

No entanto, apesar dos russos terem sido imbuídos nesta “significância prática imensa”, tal significância apenas vela a real causa da secularização; com efeito, na cultura russa a quarta teoria política é um divertimento: trouxe para Rússia algum sentido, mas não solucionou a causa do real problema russo, pois a secularização da Rússia, pasme-se, não fora causada pelo que os russos chamam de “influência ocidental”, mas pelo comunismo. Aliás, Dugin e os eurasianos atribuem a causa desta secularização ao triunfo do liberalismo, e com isso descrevem uma “suposta” necessidade da Rússia de uma nova teoria política.

38. E esta necessidade é manifesta, segundo Dugin, porque “a maior parte do povo russo sofre sua integração na sociedade global como uma perda de sua própria identidade”; ora, diante de uma sociedade global fragmentada, uma nação que perdeu sua própria identidade, como no caso de Rússia, certamente sofre com a integração no meio global; mas isso se dá não somente com a Rússia, mas com qualquer sociedade desencantada; por isso, os russos ao terem enfraquecido sua própria identidade após décadas de domínio comunista, ao defrontarem-se com uma sociedade global fragmentada e ainda mais secularizada, isso gera um confronto de princípios e de valores indissolúvel: tanto porque a sociedade global é fragmentada quanto porque a sociedade russa fora secularizada.

A sociedade global cada vez mais busca esta fragmentação, e a sociedade russa ao buscar identidade diante da sociedade global não encontra solução para os problemas sócio-culturais da própria Rússia; antes, ao buscar isso na sociedade global, acabam por agravar ainda mais os problemas russos. Nisto, Dugin busca apresentar a quarta teoria política como uma necessidade da Rússia; mas também a quarta teoria política não soluciona este problema, apenas deixa de lado a busca da Rússia por integração diante de uma sociedade global fragmentada; todavia, o eurasianismo, conscientes os russos ou não, também é parte inalterável da sociedade global fragmentada; na verdade, qualquer teoria política que surja no mundo contemporâneo é totalmente açambarcada por esta fragmentação e secularização.

39. Após isso, Dugin evoca a necessidade que a Rússia tem de uma nova ideia política, ao declarar: “Portanto, de modo a preencher esse vácuo político e ideológico, a Rússia necessita de uma nova ideia política. Para a Rússia, o liberalismo não se encaixa, mas o comunismo e o fascismo são igualmente inaceitáveis. Consequentemente, nós precisamos de uma Quarta Teoria Política. E se para alguém essa é uma questão de liberdade de escolha, a realização da vontade política, que sempre pode ser dirigida tanto a uma asserção e sua negação, então para a Rússia – essa é uma questão de vida e morte, a eterna questão de Hamlet”; ora, diante desta “necessidade” da Rússia, tal como se afirma na doutrina eurasiana, Dugin trata de delinear que a quarta teoria política é a solução para esta necessidade; mas, ao evocar esta “solução” para a Rússia, Dugin não a propõe, mas busca impor a doutrina eurasiana; no dizer de Dugin, se para outros a teoria política é uma questão de escolha, para a Rússia esta é uma questão existencial no sentido mais absoluto do termo, ou seja, é a “eterna questão de Hamlet”: “ser ou não-ser?”; na doutrina eurasiana o “ser” da Rússia se dá na quarta teoria política, enquanto que o “não-ser” é a não-aceitação da quarta teoria política. Dugin põe a Rússia numa encruzilhada existencial sem solução: ou continuar sem estar integrada na sociedade global ou aceitar a quarta teoria política que por sua vez acaba por produzir consequências ainda piores do que a perda de identidade do povo russo.

40. Depois, Dugin evoca a decisão da Rússia pelo “ser”, ao afirmar: “Se a Rússia decidir ‘ser’, então isso significa automaticamente a criação de uma Quarta Teoria Política. Do contrário, para a Rússia resta apenas a opção de ‘não ser’ e então deixar o palco histórico e mundial, e se dissolver no mundo global, nem criado ou governado por nós”; ora, a aceitação da quarta teoria política pelos russos é a decisão da Rússia pelo “ser” evocado por Dugin; o “Dasein” da Rússia como existência encarnada na história é evocado pela quarta teoria política; todavia, nenhuma teoria política conduz corretamente a existência de uma nação; depender de uma teoria política para integrar uma nação na sociedade global, na verdade é sujeitar a nação a fragmentação secularista; o verdadeiro “Dasein” da Rússia não está na quarta teoria política, mas em a Rússia recuperar sua identidade histórica retirando da sociedade russa a inculturação ideológica que fora impregnada pelo hegelianismo e pelo comunismo ao longo de décadas. E isto não é um caminho fácil para a Rússia, mas este é o início da solução para a perda de identidade dos russos, o que o eurasianismo não propõe de forma eficaz.

41. E assim conclui-se a análise do propósito do eurasianismo de acordo com prefácio original do livro “A Quarta Teoria Política”, que se tornara o capítulo 1 na edição brasileira; num geral, apenas a análise do prefácio já é por si suficiente para demonstrar as razões do porque a doutrina eurasiana é um mal sem-par, tal como foram o comunismo, o fascismo e o nazismo; isso também se evidencia pela base teórica do eurasianismo, a filosofia de Heidegger, que fora o teórico do partido nazista; os pressupostos filosóficos do eurasianismo são os mesmos que deram forma a doutrina nazista[14]; estes e outros aspectos são aclarados a partir do prefácio deste livro, no qual Dugin apresenta o objetivo da quarta teoria política e descortina seus principais aspectos. Portanto, a rejeição ao eurasianismo, tanto filosoficamente quanto teologicamente, é algo premente, seja para a defesa da reta razão seja para defesa da Santa Igreja que tem sido impregnada no leste europeu e ao redor do mundo com esta doutrina infame. 

42. E termina aqui a análise do propósito do eurasianismo de acordo com o prefácio do livro de Dugin (ou cap. 1 na edição brasileira). Bendito seja Deus por todas as coisas. Amém. 



[1] cf. Alexander Dugin, A Quarta Teoria Política [1ª ed. Curitiba, PR: Editora Austral, 2012]. Este é o livro utilizado nesta análise; as referências diretas ao eurasianismo são provenientes desta edição.

[2] cf. Alexander Dugin, Rusia: El Misterio de Eurasia [1ª ed. Madrid: Grupo Libro 88, 1992], pág. 99-100.

[3] Toda ideologia vitupera o conceito racional-revelacional de autoridade; e em tempos hodiernos o conceito de autoridade é transmutado por Friedrich Engels no escrito “Sobre a Autoridade” (1873); toda a vituperação de autoridade no mundo contemporâneo, em qualquer esfera que for, é permeada pela doutrina marxista propugnada por Engels neste escrito e assomada totalmente na camada nuclear da cultura.

[4] cf. Dugin, Op. Cit., 1992, pág. 101-120.

[5] Pio XI, Mit Brennender Sorge, n. 5.

[6] cf. Alan de Benoist, Más Allá de la Derecha y de la Izquierda: El pensamiento político que rompe esquemas [1ª ed. Barcelona: Áltera, 2010].

[7] cf. Karl Marx e Friedrich Engels, Marx-Engels Collected Works Vol. 1: Karl Marx 1835-1843 [Lawrence & Wishart, 1975], pág. 577.

[8] cf. Alexander Dugin, La Cuarta Teoría Política [Barcelona: Ediciones Nueva República, 2013], pág. 11-22.

[9] Evidentemente, não analisar-se-á linha a linha toda esta introdução, mas apenas as principais ideias.

[10] cf. Martin Heidegger, Ser e Tempo Parte I [15ª ed. Petropólis, RJ: Vozes, 2005], pág. 27ss.

[11] cf. Martin Heidegger, Cuadernos Negros (1938-1939): Reflexiones VII-XI [Madrid: Editorial Trotta, 2017], VII, prol., pág. 9.

[12] A luta pela essência de Heidegger se concretizou na purificação racial promovida pelo nacional-socialismo, e culminou na ideia de “solução final”. Por isso, a falsa universalidade do eurasianismo tem imbuído a ideia de purificação racial. E de fato os russos estão promovendo isso ao matarem de maneira cruenta os ucranianos; e, provavelmente, os russos ainda vão promover outros tipos de purificação racial, principalmente contra aqueles que são “inimigos” do eurasianismo ou dos povos da chamada “Eurásia” que não se renderem ao eurasianismo.

[13] A ideia do “triunfo do liberalismo” como propugnado por Dugin é um sofisma de princípio; pois, não há de fato o “triunfo do liberalismo”, embora os estereótipos do liberalismo tenham sobrevivido; na verdade, a única teoria política que sobreviveu, e mudou boa parte de seus estereótipos, foi o comunismo; o liberalismo não triunfou como teoria política, mas o comunismo propagou isso, e criou estereótipos liberais, para colocar como culpa do liberalismo todos os erros que os próprios comunistas cometeram. No entanto, como os estereótipos liberais se impregnaram passivamente na cultura, parece que o liberalismo triunfou, quando na verdade o liberalismo fora totalmente derrotado; o que restou do liberalismo foram apenas suas velhas estruturas e os estereótipos instituídos pela impregnação passiva de hábitos. Com efeito, o que de fato ocorrera fora o triunfo do comunismo.

[14] Alguns afirmam que isso é uma crítica fantasiosa, que é mentira que Heidegger apoiou o nazismo já que sua filosofia não menciona diretamente o nacional-socialismo, etc.; outros afirmam que a filosofia de Heidegger fora tomada de forma errada pelos nazistas; etc. Embora os nazistas tenham se utilizado de filosofias para seus propósitos, as distorcendo, como fizeram com a filosofia de Nietzsche, com Heidegger isso não ocorre; a práxis da filosofia de Heidegger fora inteiramente acoplada pelos nazistas, e isso com total consciência e aquiescência de Heidegger; Heidegger sabia das consequências de sua filosofia e viu o encarnar de sua filosofia nos propósitos do partido nazista, como se desvela cabalmente nos Cadernos Negros; a diferença é que Heidegger não “rebaixou” suas reflexões filosóficas a ditames do partido nazista, mas se estabeleceu os ditames do partido nazista a partir de suas reflexões. A teoria filosófica do partido nazista emana da filosofia de Heidegger, e Heidegger sabia muito bem disso e aceitou isso cabalmente; inclusive, Heidegger era um dos membros mais respeitados do partido nazista; de fato, Heidegger, intelectualmente, era uma “autoridade” para os nazistas - e como todo intelectual propriamente dito, Heidegger permaneceu nos bastidores, mas sua influência é cabal e permeia os principais aspectos do aperfeiçoamento da doutrina nazista nos anos de 1930. 


Análise do Propósito do Eurasianismo

Capítulo I: A análise do propósito do eurasianismo.   1. “ Fugi pois destas plantas parasitas, que produzem fruto mortífero. Se alguém p...