05/11/2020

Considerações Gerais sobre a Graça Comum

I

 

O entendimento sobre a Graça Comum também é um excelente meio, um axioma apodíctico, para o estudo da cultura; da mesma forma que a graça especial ou graça salvífica é um ponto doutrinário fundamental da Igreja, a graça comum é para o estudo das questões extra-eclesiásticas; por isso, a graça comum é premissa fundamental para o cristão, seja o filósofo, ou qualquer outra área do saber que o cristão se dedica, para o encontro com o estudo da cultura, e para tanto, deve se munir com as nuances da graça comum para o estudo da cultura.  

As Escrituras afirmam que Deus é o criador de todas as coisas (cf. Gn 1.1); a partir deste pressuposto, sabe-se que a soberania de Deus sobre sua criação é total e absoluta; por isso o salmista diz que do Senhor é a terra e sua plenitude, o mundo e os que nele habitam (cf. Sl 24.1); a expressão do salmista aponta duas questões: a primeira, do Senhor é a terra e sua plenitude, isto é, toda a criação material, tudo o universo físico; a segunda, do Senhor é o mundo e os que nele habitam, isto é, todo o desenvolvimento da vida humana, ou em outros termos, a cultura e a história humana. Tudo pertence ao Senhor. E se tudo pertence a Ele, então, se deve laborar numa definição para a atividade cristã na esfera cultura; não uma subserviência para com a cultura pecaminosa (cf. Jr 10.3a), mas um entendimento da cultura que vise a ação virtuosa e santa na cultura para a glória de Deus e em benefício das pessoas de bem.

Por isso, se afirma que no amplo escopo do sistema da verdade cristã, existe uma doutrina que urgentemente precisa ser tornada uma disciplina do currículo teológico, que ajuda a clarificar esta questão, que é a doutrina da Graça Comum. Pois, a doutrina da graça comum ajuda aqueles que tem de exercer suas funções na esfera extra-eclesiástica.

A questão de se ter a graça comum como premissa para o estudo da cultura evita que se incorra nos excessos da teoria da correlação, caminho trilhado por Paul Tillich; conquanto o caminho proposto por Tillich deva sempre ser avaliado, como diz Barth, no entanto, muitas das conclusões de Tillich podem ferir a ortodoxia doutrinária. No entanto, a perspectiva de Tillich deve ser salientada: “Se abstrairmos o conceito de religião do Grande Mandamento, podemos dizer que religião é estar concernido de maneira última com aquilo que é e deveria ser nossa preocupação última. O cristianismo reivindica que o Deus que se manifestou em Jesus Cristo é o verdadeiro Deus, o verdadeiro objeto de uma preocupação última e incondicional [...] A partir disto segue-se, antes de tudo, que a reivindicação do cristianismo não está relacionada à Igreja Cristã, mas ao evento sobre o qual a Igreja está baseada [...] Uma segunda consequência deste conceito de religião, que nós podemos chamar de existencial, é o desaparecimento da lacuna entre o sagrado e o profano no campo secular que evoca. Se religião é o estado em que se é tomado por uma preocupação última, este estado não pode se restringir a um domínio em especial. O caráter incondicional desta preocupação implica que ela se refere a todos os momentos de nossa vida, a todos os aspectos e a todas as esferas. O universo é o santuário de Deus. Todo dia de trabalho é um dia do Senhor, todo jantar uma ceia do Senhor, todo trabalho o cumprimento de uma tarefa divina, toda alegria uma alegria em Deus[1].

A proposta de Tillich de se analisar a filosofia e a cultura com a teologia deve ser avaliada e analisada em suas nuances e perspectivas; conquanto, se a reflexão for feita vagamente, as conclusões podem ferir a ortodoxia da fé; e para se evitar isso, a graça comum deve ser tida como premissa fundamental no estudo e na análise cultural; o princípio é apodítico: todas as esferas da vida estão implicadas na preocupação última e incondicional a respeito do caráter da religião cristã, e, sendo que Cristo é o Senhor de todos os aspectos da vida humana e de cada esfera do cosmos, sua obra redentiva deve ser aplicada a cada uma destas esferas; assim, a preocupação última e incondicional da religião mostra-se em seu caráter único e singular, o qual se mostra no entendimento e na ruptura entre a esfera secular e a esfera sacra, muito propugnada pela cristandade que deixa de se manter debaixo da autoridade bíblica para o julgamento de si mesma.

O conceito de Graça Comum ajuda a dissipar as neblinas que envolvem estas questões, bem como estabelece a perspectiva correta de como se enfrentar e entender a vida cultural, a vida pública, como uma vocação de Deus, para a glória de Deus. De fato, como se observa desde os Pais da Igreja, as ordenanças de Deus conforme expressas nas Escrituras (revelação) bem como na Criação (graça comum), devem reestabelecidas para o bem dos indivíduos e da sociedade como um todo.  

Aliás, a própria saúde institucional da Igreja também está vinculada em a mesma negar ou honrar a Graça Comum[2]; se negar, certamente a Igreja cairá e sucumbirá a sua tarefa de ter uma teologia de resposta ao mundo, uma teologia objetiva para servir de base aos cristãos para enfrentarem os problemas atuais; se honrar, certamente a Igreja também está suscetível a erros e a problemas, mas estes se tornam certamente mais facilmente entendidos e combatidos, pois há o conhecimento disponível e necessário para se formular e expor uma teologia sólida que aplique-se a todas os aspectos da vida extra-eclesial.

Por isso, o polímata holandês, Abraham Kuyper, asseverara: “[...] era necessário, portanto, que séria e precisamente o antigo dogma da graça comum fosse removido do pó das eras e colocado diante de nós em clara luz. Aquele que se fecha no círculo de sua instituição eclesiástica fica satisfeito com o estudo da graça particular; mas quem recebeu a vocação de atuar também no campo científico, cívico e pedagógico, deve orientar-se também no campo que está além da instituição das igrejas, e esse mesmo campo permanece além do horizonte de nossa fé, a menos que cheguemos seriamente a termos com aquela maravilhosa doutrina da graça comum, que nos explica o regimento de Deus na vida extra-eclesiástica. Foi motivado por esta consideração que assumimos a responsabilidade de elucidar essa doutrina com algum grau de integridade, pois nesta última série esperamos rastreá-la em sua aplicação prática. E se há irmãos que pensam conhecer um caminho melhor, eles não se livram dele atirando em nós de vez em quando, mas então eles têm a obrigação moral e muito séria de sua parte de apontar uma melhor maneira, e pleitear tão extensivamente como fizemos, para pleitear diante do tribunal dos princípios verdadeiramente bíblicos [...] Eles também devem fornecer a construção de princípios para o relatório agitando a vida dentro e fora das igrejas instituídas[...][3].

 

II

 

A doutrina da Graça Comum, ainda é um pouco indigesta a alguns teólogos e para alguns pensadores cristãos; embora o conceito tenha sido reelaborado por um autor protestante, a ideia da graça dispensada a todos os homens, diferente da graça salvadora, é algo que está estabelecido desde os Padres da Igreja.

No entanto, a maior objeção levantada pelos pensadores contrários a Graça Comum é que a mesma pode desembocar no universalismo; o universalismo advoga que todas as pessoas, justos e ímpios, serão salvas no juízo final; uma heresia mortífera; as Escrituras afirmam que somente aqueles que creem em Cristo como único e suficiente Senhor e Salvador serão salvos.

Mas, porque se dá esta confusão em relação a doutrina da Graça Comum? Eis algumas repostas:

Primeiro, por que muitos acham que graça comum é graça salvífica; graça comum não é graça salvadora; esta distinção é simples e fundamental; a graça comum, como fora dito, é a graça dispensada a todo o universo, em todas as esferas da vida, para que a Criação não seja totalmente corrompida pelo pecado, bem como para preservar a realidade das coisas (cf. Sl 104.30), e prepará-las para a manifestação da graça salvadora em Jesus Cristo. Como dissera o aquinate, a graça não tolhe, mas aperfeiçoa a natureza (cf. STh Ia, q. 1, a. 8, ad. 2).

Segundo, porque muitos pensam na graça comum como uma doutrina que não tem importância; muitos estudiosos e muitos teólogos preterem a graça comum, por considerar que a mesma não tem importância e que a mesma fere a fé ortodoxia, por ter sido algo formulado por protestantes; lego engano; a graça comum ajuda a sublimar a doutrina cristã, e sua estrutura doutrinária não é obra protestante, embora tenha sido um autor protestante que tenha bem elaborado sua concepção na teologia moderna; a rejeição a graça comum não passa de uma ignorância teológica, que no mais das vezes, sempre gera maus frutos nos arraiais cristãos. A rejeição a graça comum é parte do secularismo que se assomou a vida eclesial.

Terceiro, porque há quem discorde que Deus possa conceder uma graça que seja comum; existem estudiosos que não aceitam a doutrina da graça comum, por elucubrarem que Deus não pode outorgar uma graça que não seja salvífica, que Deus não dá uma graça comum; novamente um engano; pois, Deus concede graça e misericórdia para com a sua Criação, dando-lhe bênçãos diárias, bênçãos não-salvíficas (cf. Sl 104.30; Mt 5.45).

Pois, através a graça comum é que Deus preserva e sustenta todas as coisas da corrupção total do pecado, e também preserva a inteligência e alma do ser humano; assim, Ele pode comunicar as bênçãos salvíficas de Cristo, fundamento e base também da graça comum. Pois, Cristo é a fonte de todas as graças outorgadas ao cosmos e aos homens.

 

III

 

A doutrina da graça comum é muito pouco estudada e muito pouco valorizada; se bem que nos últimos anos tem surgido um crescente interesse pelo assunto, sendo publicadas algumas obras, que tratam do assunto, e mesmo alguns tratados que falam do assunto, ainda que só de relance, infelizmente em sua grande maioria por autores protestantes.

No entanto, carece-se de um norte para se estudar a doutrina da graça comum como uma disciplina da enciclopédia teológica. Na verdade, não se conhece um “currículo” de estudos teológicos (salvo o engano!), que apresente a doutrina da graça comum como uma disciplina única, do mesmo modo como se tem, por exemplo, teologia sistemática, história da igreja e outras matérias. É necessário que se coloque a Graça Comum como tema e disciplina teológica no âmbito dos estudos teológicos.

Por isso, resolvi fazer também um breve resumo de como se conduzir ao estudo da graça comum; na verdade, são alguns pressupostos gerais, a partir da estrutura da “De Geemene Gratie” do Dr. Kuyper, que são fundamentais para se estudar o assunto, e quem sabe formular uma grade ensino, para colocar a graça comum no seu devido lugar no currículo do estudo teológico; pois, hoje em dia se preocupa tanto com questões pueris, que esquece-se de doutrinas e disciplinas importantíssimas ao estudo teológico.

Dito isso, posso elencar esta série de pressupostos que clarificam a doutrina da graça comum, bem como servem de símbolos e signos para o desenvolvimento mais profundo e exaustivo desta questão; são pressupostos elencados a partir dos dois primeiros volumes da obra do Dr. Kuyper, que são respectivamente, os volumes histórico e doutrinário; o terceiro volume, é o volume das questões práticas; como sobre esta questão já se fala muito, e tem-se já um número considerável de obras, não vou me pronunciar a respeito neste escrito.

Com isso, segue trinta tópicos, os quais servem de embasamento para todo aquele que busca estudar e compreender a questão sobre a graça comum; ei-los:

1- O ponto de partida da doutrina.

2- O lugar do pacto noético.

3- Sobre a corrupção do Pecado antes de Noé.

4- A questão sobre a instituição da morte.

5- Da queda até o dilúvio.

6- A instituições primitivas do mundo antes do Dilúvio.

7- O Dilúvio.

8- As instituições humanas após o Dilúvio.

9- Sobre a corrupção do Pecado após o Dilúvio.

10- O surgimento de um Novo Estado.

11- A construção da torre de Babel.

12- O chamado de Abrão.

13- Israel para as nações.

14- Jeová e as Nações.

15- O Messias e Israel.

16- A Luz na Escuridão.

17- As centelhas no mundo pagão.

18- Um problema a ser resolvido.

19- A graça comum baseada na criação.

20- A graça comum e a predestinação.

21- Jesus e a Preparação do Mundo. 

22- A plenitude dos tempos.

23- A Igreja como instituição e como organismo.

24- A graça comum na santificação.

25- Enxertando a árvore selvagem.

26- O bem moral dos não regenerados.

27- A graça comum e ordem de Providência de Deus.

28- O conselho de Deus.

29- Transcendência e Imanência. 

30- Providência e Criação.

O estudo e a comparação destes trinta tópicos tanto com o aspecto doutrinário da graça comum, quanto com a filosofia da história cristã, tem muito a contribuir com a formação de uma visão de mundo genuinamente cristã, e assim servir como normativa para a estrutura da enciclopédia teológica como um todo.

Laudate Deo!



[1] Paul Tillich, Textos Selecionados [São Paulo: Fonte Editorial, 2020], pág. 53-54.

[2] Abraham Kuyper, De Geemene Gratie Derde Deel: Het Practish Gedeelte [4° ed. Kampen: J. H. Kok, 1939], pág. 7.

[3] Ibidem. Pág. 11-12. 


02/11/2020

Nótula sobre o Aborto

I

 

A problemática em torno do aborto, bem como de sua legalização, é algo delicado, mas que precisa ser tratado com firmeza. Uma questão que trata com a vida humana deve ser ponderada com a mais alta responsabilidade, pois o direito à vida é um bem inalienável e irrevogável do ser humano. A questão do aborto tem de ser tratada em termos éticos e não em termos ideológicos.

 

II

 

Os que defendem a legalização do aborto tendem a apresentar supostos “dados estatísticos” para informar este ou aquele aspecto em favor do mesmo; afirmam com falácias estatísticas que onde houvera a legalização do aborto o mesmo diminui substancialmente e outros sofismas similares; como é clarividente, este argumento é falacioso, porque na maioria das nações o aborto não é permitido por lei, logo a sua prática é um ato infratório para com a lei; assim, como é possível se ter dados da quantidade de abortos onde o mesmo é crime; portanto, as estatísticas em favor do aborto são quimeras falaciosas e maliciosas.

 

III

 

Outra questão, é que se o aborto ilegal é quantificado pelo Estado, e o mesmo em seu estamento jurídico não o permite, toda a estrutura estamento burocrático ou está sendo relapsa ou então há manipulação ideológica do estamento estatal para destruir a vida; pois, se isso ocorre então o Estado supera suas próprias leis para cometer assassinatos, enquanto deveria ser regido pela lei e pelos ideais da liberdade para proteger a inviolabilidade da vida. Se os representantes do Estado têm o descaro de se portar contra suas próprias leis, o próprio Estado tende a ruir, e dar a lugar ao ressurgimento do lema de alguns imperadores romanos: “o Estado sou eu”, onde este “eu” pode ser ou um indivíduo ou alguma ideologia. A permissividade jurídica e social para com o aborto é prática do Estado Total.

 

IV

 

Outra questão, é que a estratificação do Direito na multiplicidade de direitos, os quais desfiguram a face racional do Direito, só geram problemas insolúveis para a ordem social e para o desenvolvimento cultural. Desta forma, o aborto nunca pode se tornar um dos direitos, já que em si desfigura e destrói o próprio Direito.

 

V

 

A questão da não-aceitação da criminalização do aborto com o argumento de políticas públicas de planejamento familiar, acesso à saúde e informação, é sofisma. Novamente, o problema se encontra com as perspectivas trocadas; se a criminalização do aborto de acordo com estas falácias não é a solução, e se a própria questão estatística em favor do aborto num Estado onde o mesmo é vetado é falaciosa, a substituição dos argumentos é sutil; o problema sai da falácia do argumento (as estatísticas), e vai para a criminalização, enquanto que se existissem realmente tais estatísticas, o problema estaria no governo, e então o mesmo teria de proporcionar políticas públicas de planejamento familiar, acesso à saúde e informação em função da preservação e propagação da vida e não em favor do aborto.  

Não há necessidade de se legalizar o aborto para se ter estas políticas, já que se o número tão abertamente defendido pelos defensores da legalização do aborto são verdadeiros, que lutem pela implantação de políticas públicas antes da legalização do aborto, não após ela; pois senão não faz sentido lutar por algo que se já se tem (no caso a legalização do aborto), através daquilo que seria a solução preventiva para o problema (as políticas públicas para se evitar o aborto).

 

VI

 

De fato, não já nenhum argumento verídico em defesa da legalização do aborto. É fato declarado pela ciência que a vida humana começa na concepção; a Sagrada Escritura ensina isso (cf. Sl 139.15-16); da mesma forma as leis de uma sociedade refletem suas crenças mais caras; não que o Estado privatize ou prefira determinada religião, mas sim que os princípios fundantes se estabelecem a partir da sociedade que não é laicista, mas é uma sociedade cristã. E um dos valores morais e sociais mais importantes da sociedade é a importância da vida, é a dignidade inviolável da vida. Por isso, São João Paulo II afirmara na “Evangelium Vitae”: “confirmo que a morte direta e voluntária de um ser humano inocente é sempre gravemente imoral [...] A decisão deliberada de privar um ser humano inocente da sua vida é sempre má do ponto de vista moral, e nunca pode ser lícita nem como fim, nem como meio para um fim bom. É, de facto, uma grave desobediência à lei moral, antes ao próprio Deus, autor e garante desta; contradiz as virtudes fundamentais da justiça e da caridade(cap. III, n. 57).

Laudate Deo


10/10/2020

Ponderações sobre a Luta de Husserl contra o Psicologismo

Nota Inicial.


Este escrito fora uma preleção, a qual li plenamente quando proferida, mas que infelizmente fora perdido a preleção original; o que restou fora uma reportação fragmentária e parcial, a qual comporta algumas falhas; entretanto, mesmo as falhas que estão presentes não atrapalham a ideia central desta preleção, da qual não tenho nenhuma correção a fazer, a não ser a observação do estado parcial e fragmentário da mesma, que pode gerar algum estranhamento por parte do leitor mais bem preparado; pois, esta preleção foi como que um “desabafo” contra todas as loucuras do psicologismo; ademais, apesar do estado caótico em que sobreviveu esta preleção, mantenho com igual severidade toda minha rejeição e repúdio a todas as formas de psicologismo. 


Prólogo.


Os auspiciosos desenvolvimentos no campo teórico, seja nas ciências exatas seja nas humanas, tem proporcionado uma grande gama de conhecimento; nas Escrituras Sagradas está escrito que em determinado tempo a ciência se multiplicaria (cf. Dn 12.4). E foi isso o que aconteceu, a ciência se multiplicou tanto intensiva quando extensivamente; cresceu tanto qualitativa quanto quantitativamente; cresceu tanto em princípios e leis gerais próprias, quando em áreas específicas.

No entanto, mesmo em meio a tanto desenvolvimento, tem aqueles que se tornam prejudiciais ao saber, que precisam ser avaliados e reconsiderados; em verdade, muitos destes ‘saberes’, se apresentam como apodícticos, quando são em essência desvarios intelectuais e destonam a ordem essencial da realidade.

Muitos desses saberes, com o mote de ‘cientificismo’ tem adentrado em várias esferas do campo teórico; este ‘cientificismo’ tenta abarcar toda a cultura ocidental como seu único pilar, deixando de lado, ou pelo menos, tratando como subservientes a filosofia, o direito e a teologia. Com isso surge os “ismos” reducionistas; os filosofismos, os teologismos, os sociologismos, os cientificismos, etc. (perdoem os neologismos).

Entre os campos do saber que tem sofrido com as pressuposições equivocadas, dois deles, são os mais afetados, e por conseguinte, aqueles que mais despejam erros na sociedade; por certo, as que mais são importantes na sociedade, quando são afetadas por algum erro, serão as que mais despejaram na sociedade as consequências deste erro.

Os dois campos são a filosofia e a teologia; a filosofia porque é a mãe e formadora de todas as ciências; a teologia por que é senhora e imperatriz da filosofia (philosophia ancilla theologiae).

 

I

 

Mas o que tratar-se-á tem a ver com uma ciência extremamente peculiar e controversa, a saber: a psicologia; a problemática se instaurou quando houve a tentativa de fazer com que a psicologia se instaurasse sobre as demais ciências, tornando-se assim, pelo menos em tentativa, a mãe e a imperatriz de todas as ciências; logo, observe que, se a verdadeira mãe da ciência é a filosofia e a rainha da ciências é a teologia, assim, para a psicologia alcançar  tal premissa para si, tem reduzir os aspectos da realidade teórica a si; reduzindo-os, diminuindo-os, sacrificando-os, fica mais fácil tomar seu lugar; a psicologia como que os vende por trinta dinheiros, e assim, fica sem rumo e sem propósito definido, e aquilo que era tão bom se torna algo muito ineficiente e imperito.

Esta problemática é o que se chama de psicologismo; o termo fora cunhado pelo filósofo hegeliano Johann Eduard Erdmann (1805-1892), para descrever a filosofia de Friedrich Eduard Beneke (1798-1854); Beneke afirmara que a filosofia deve procurar fundamentos na psicologia, o que também é proposto por muitos intelectuais hodiernos, inclusive nos arraiais teológicos e nos círculos filosóficos. Por isso, Erdmann definiu o pensamento de Beneke como psicologismo[1].

O dicionário de Cambridge diz que psicologismo é “a doutrina que reduz entidades lógicas, como proposições, universais e números, a estados mentais ou atividades mentais[2]; em outros termos, a redução das entidades lógicas a simples funções psíquicas ordenadas a esmo pelo “eu”.

Com isso, todo campo do saber passa a se resumir a psicologia; e em se tratando daquelas áreas do saber que tem estruturas lógicas, como a filosofia e a teologia, estas se tornam amalgamadas a psicologia, tornam-se apenas uma nota de rodapé para a psicologia, e assim são reduzidas a meros estados mentais; a religião é reduzida a apenas a uma esfera muito privada, quando não rejeitada; e a filosofia transforma-se em simples assentimento mental.

Com isto surge uma questão: Se a filosofia se desconfigura em meros estados mentais, como se configurará a noção do saber racional? Se a teologia se desfigura em atividades mentais, como se configurará a noção da reflexão racional a respeito de Deus? Se ambas se tornam assim, logo, toda estrutura destas áreas do saber se ruirá em simples julgamento analítico-comportamental; na verdade, o homem moderno tem desfigurado a atividade filosófica e a teológica, em pressupostos da psicologia indutiva, logo, tudo o que se sabe deverá passar pelo assentimento mental de alguém, ou seja, do que essas pessoas sabem e do que elas supostamente querem dizer sobre este algo; na verdade, o certo é a articulação geral do conceito que está acima de cada psique individual, isto é, a compreensão de algo não se dá porque faz-se análises do que a pessoa está pensando sobre algo, mas sim pela compreensão do conteúdo do que ela diz.

Quando o psicologismo adentra no campo do saber, na filosofia torna-se um disparate, na teologia uma heresia. Por isso, nem a filosofia nem a teologia devem se tender ao psicologismo e suas tendências, antes, pelo contrário, deve lutar contra o psicologismo, se mover de acordo com seus princípios, os quais legam uma identidade comum, a saber: a busca pela verdade; tanto a filosofia quanto a teologia buscam a verdade; na filosofia a verdade racional, na teologia a verdade por Revelação; a filosofia a ciência das coisas humanas, a teologia a ciência das coisas divinas.

O efeito e a obra do psicologismo, pode ser definido através de um notável epiteto; Frithjof Schoun diz: “Não basta crer em Deus; é preciso acreditar também no diabo. Em nosso tempo, o diabo substitui a lógica por uma falsa psicologia[3]. Shoun afirma de maneira cirúrgica o que é o psicologismo, a saber, obra do Diabo.

 

II

 

Aqui há de se adentrar a figura de um grande filósofo, a saber: Edmund Husserl. Husserl propôs reflexões extremamente densas e profícuas; a extensão de suas reflexões, seja através de muitos ensaios, seja através das investigações, sempre legaram aos seus leitores incríveis obras, dentre as quais estão alguns dos maiores textos filosóficos escritos em toda a história; não se fará uma análise exaustiva de sua obra, mas tratar-se-á de alguns pontos por ele elencados que ajudam a solucionar a aporia que está ao derredor da relação entre filosofia/teologia e psicologia.

As aporias despejadas pela crença no psicologismo na esfera da filosofia, e também da teologia, destonam as mesmas de sua realidade primordial, a saber: a busca pela verdade; isto se demonstra na estreita relação em que os acometimentos do psicologismo geral causam na teoria do conhecimento, a qual por sua vez, também influencia a compreensão da realidade.

Sinteticamente, pode-se dizer que Husserl lutou contra esta obra do psicologismo, pois que, toda a destruição das premissas lógicas da estrutura do conhecimento, e da destruição da correta inter-relação entre as ciências, faz com que, o florescimento da alta-cultura se tornasse embotado; Husserl bem sabia disso, pois o século (século XVIII) que mais gabou-se de ser o herdeiro do esclarecimento e o sublimador do ter a coragem de pensar, foi aquele que menos cultivou a ciência e a filosofia.

Foi esta obra do psicologismo que instaurou a grande confusão nas ciências e em toda a cultura, que foi demonstrado e exemplificado nos acontecimentos que marcaram a primeira metade do século XX.  Fora isso que Husserl percebeu e combateu.

Mário Ferreira dos Santos diz: “A grande destruição de premissas no fim do século dezenove influiu sobre ele (Husserl) decididamente. A tradição idealista estava golpeada pelo positivismo; a corrente contrária a metafísica, e a psicologia assiossionista preponderavam no ambiente filosófico; em suma: o psicologismo era dominante nas mais vastas camadas e que tanto influiu e influi na literatura de ficção. Por esse psicologismo, a filosofia foi reduzida a um capítulo da psicologia. A lógica tornou-se uma simples disciplina normativa. Tudo isso Husserl combateu[4].

 

III

 

Husserl tem algumas peculiaridades em seu pensamento advinda de sua formação religiosa; ele era judeu de nascimento, e depois fora batizado na igreja protestante, mais precisamente na igreja luterana; e as perspectivas teológica do luteranismo, certamente o influenciaram, até ele chegar as mais pungentes alturas da reflexão filosófica.

Em parte devido a herança protestante, ele sempre teve em mente a ideia de liberdade, advogada por Martinho Lutero e por outros reformadores; os reformadores romperam com alguns princípios da Igreja de Roma, os quais, estavam intimamente ligados à corrupção moral e intelectual da baixa escolástica; por isso, alguns de seus escritos falam da liberdade de servir a Cristo, longe de uma autoridade hierárquica única sob o poder temporal, no caso, o clero romano (esta é a perspectiva protestante); a ideia de liberdade leva ao princípio da universalidade do cristianismo; não ao universalismo doutrinário, que é tratado como uma heresia, mas sim o caráter universal da fé cristã e de seus pressupostos[5]. Isso evocará em Husserl os pressupostos de um saber universal.

Para Husserl “... a característica fundamental da civilização ocidental é a aspiração à universalidade na confluência de filosofia e religião[6]. E para isso, Husserl considerava a influência protestante como fundamental, na saída da Igreja de Roma e da reflexão embotada da baixa escolástica.

A perspectiva da universalidade que Husserl desenvolve dentro do mote do saber teórico, que analisará se o saber proposto tem a caracterização universal ou não; se tiver, deve ser aceito; se não tiver, deve ser demonstrado o completo desvario daquela pressuposição.

 

IV

 

E, quanto a isso Husserl percebeu o real problema com a psicologia; na verdade, ele foi um veemente combatente contra o psicologismo; Husserl compreendia a função da psicologia, porém, não foi vencido pelas tendências de reduzir todo o aparato filosófico e lógico a aspectos mentais; ele tratou os desvarios do psicologismo nos prolegômenos as investigações lógicas; uma obra que data de 1910; assim, podemos compreender o porquê o psicologismo não deve ser aceito, e ao mesmo tempo, o porquê deve ser rejeitado.

Os desvarios psicologistas contra os quais Husserl argumentou, é o que ele chama de consequências empiristas do psicologismo; ei-las:

A primeira consequência identificada por Husserl é sobre a base teórica; ele diz que “sobre bases teóricas vagas, só podem fundar-se regras vagas”, isto é, “se as leis psicológicas carecem de exatidão, o mesmo sucede aos preceitos da lógica” que é submissa a psicologia; isto se deve já que os princípios lógicos “são de uma exatidão absoluta”; assim, toda e “qualquer intepretação que tente dar-lhes bases empíricas vagas, que tente tornar sua validade dependente de circunstâncias vagas, irá alterar seu verdadeiro significado[7]. É isto que Schoun definira como obra do Diabo.

A segunda consequência identificada por Husserl é se sobre as leis da lógica são ou não a priori; ele diz: “... se as leis da lógica fossem leis psicológicas, então não poderiam ser conhecidas a priori. Elas seriam mais ou menos prováveis ao invés de válidos, e justificados apenas por referência à experiência. As leis da lógica são a priori, são justificadas por auto-evidência apodíctica e são mais válidas do que prováveis. E, portanto, as leis da lógica não são psicológicas[8].

A terceira consequência identificada por Husserl é sobre a fonte das leis lógicas; ele diz: “Se o conhecimento das leis lógicas teve sua origem em fatos psicológicos; se as leis lógicas fossem, por exemplo, aplicações normativas de certos fatos psicológicos, como a parte contrária costuma ensinar, elas necessariamente possuiriam um conteúdo psicológico em um duplo sentido: seriam leis para fatos psíquicos e suporiam ou implicariam a existência desses fatos”. Entretanto, como pode ser demonstrado, as leis lógicas não são fundamentadas em fatos psicológicos, já que “nenhuma lei lógica implica uma questão de fato, nem mesmo a existência de representações, ou julgamentos, ou outros fenômenos de conhecimento. Nenhuma lei lógica é - em seu verdadeiro sentido - uma lei para os fatos da vida psíquica, ou seja, nem para representações (as experiências de representar), nem para julgamentos (as experiências de julgar), nem para qualquer outra experiência psíquica[9].

Husserl também aponta outros problemas com o psicologismo; é que o mesmo é uma forma radical de relativismo; em todas as suas formas o psicologismo é um relativismo[10]; ou mais propriamente, o psicologismo é ceticismo.

O relativismo gerado pelo psicologismo causa enormes problemas no pensamento teórico; o psicologismo relativiza tudo a mero assentimento psíquico - isto é, a interpretação das coisas não é feita pelas coisas que são, mas sim no que o “eu” individual acredita (ou determina) que seja. É uma realidade muito ruim, pois a força do ego (e ego ruim) sobressai-se sobre a compreensão das coisas como elas são; já não existe mais interpretação das coisas como elas são (verdadeira hermenêutica), mas no sentido de que o “eu” emprega, no sentido do que o “eu” sente.

Por isso, o psicologismo é relativismo do “eu”; é relativismo na psique; é relativismo em relação as coisas que podem ser conhecidas; é relativismo em se tratando das proposições que definem se algo é válido ou não; é relativismo ao afirmar que algo que é, mas que ainda não foi, e por isso mesmo não pode ser. Portanto, o psicologismo é uma forma de ceticismo.

 

V

 

Por isso, as perspectivas do aconselhamento tanto na filosofia quanto na teologia, podem sofrer abalos sísmicos se o psicologismo estiver em suas entranhas; assim, requer-se uma análise cuidadosa para que o mesmo não se torne a base da construção teórica da filosofia nem da teologia.

Husserl demonstrou algumas razões do porque o psicologismo deve ser rejeitado, assim, analisar-se-á a perspectiva do aconselhamento na filosofia e na teologia tendo em vista a rejeição ao psicologismo, e se compreender o que ocorre quando o psicologismo adentra nestas áreas do saber e como se deve proceder quando isto ocorre.

Como se sabe, na filosofia também se tem aconselhamento; Sócrates aconselhara através de seus diálogos; Aristóteles fora o tutor de Alexandre, o grande; Epicuro aconselhava em seus jardins; Boécio fora consolado pela filosofia e consolou através da filosofia, etc. Entretanto, na filosofia, com o psicologismo em suas entranhas surgiram algumas tentativas de reduzir a prática da reflexão racional a simples abstrações mentais, e isto, sem dúvida, desemboca num desalmado materialismo; desvincularam os valores absolutos do amor pela sabedoria; subtrai-se o amor a beleza, o amor ao bem, e o amor à verdade pela prática (práxis), fundamentada nos princípios da matéria; portanto, se a reflexão racional não importa mais para o aconselhamento, a filosofia se abre para o materialismo, que se transformará numa perspectiva de anti-filosofia, já que não há filosofia com materialismo total, pois o mesmo transforma-se quase que numa religião e destrói a filosofia.

Isto faz com que a análise humana, na perspectiva do aconselhamento na filosofia, transforme o ser humano apenas em psique; isto é reducionismo, pois o homem é um ser físico-psíquico-espiritual-racional-social-cultural; todas estas áreas são elementos essenciais na compreensão e no aconselhamento do homem; e a filosofia vela por mantê-las assim; por isso, há antropologia filosófica; etc.

Na teologia se tem também aconselhamento; mais precisamente, aconselhamento bíblico-teológico; o Apóstolo fora um exímio conselheiro; o evangelista dos segredos de Deus também o fora; São João Crisóstomo aconselhava com seus belos sermões; a maioria dos grandes teólogos foram pastores que cuidavam das pessoas, e, portanto, que aconselhavam essas pessoas; etc.

Entretanto, na teologia, com o psicologismo em suas entranhas surgiram algumas tentativas de reduzir a prática do aconselhamento por tratamentos psicológicos-analíticos velados por submovimentos teológicos; porém o que causou foi uma série de heresias na teologia, como confissão positiva, ideia de regressão, manipulação psicológica, tentativa de reeducação, reeducação obrigatória sob o mote de mudança de mente, etc.

 A questão é mais profunda, e a relação entre a psicologia e a fé merece um tratamento adequado, que realmente mostre o que é cada uma sem submissão cega e muitos menos reducionismo barato - o que não é o propósito desta preleção.

Porém, os assentimentos psicologistas tendem a fazer com que a teologia se foque de forma única e pungente na mente; na verdade, uma perspectiva enfática e desequilibrada na psique; da mesma forma como acontece com a filosofia, na teologia, esta ênfase desenfreada na psique, acaba gerando um determinismo teórico acerca da compreensão do comportamento humano.

Com isso, esquece-se que o ser humano tem livre-arbítrio, e por isso, é contingente nas coisas verdadeiramente humanas.

Eis a razão do porque o psicologismo deve ser rejeitado nas perspectivas do aconselhamento na filosofia e na teologia, pois, senão, ambas serão reduzidas a um radical relativismo; na verdade, uma ditadura do relativismo; e isto, por sua vez, gerará um desequilíbrio na ordem social, e onde há isto, logo a sociedade tende a ruir, como que num apocalipse cultural; tanto na filosofia quando na teologia, florear-se-á lauréis de compreensão psíquica aparentemente mui belos, que, no entanto, são reducionistas e deterministas, ocasionando relativismo, e desvarios, conforme demonstrado cabalmente por Husserl.

Desta forma, para que as perspectivas do aconselhamento se desenvolvam de maneira saudável e virente, há de se pôr de lado o psicologismo, e ir-se ad fontes.

Ir-se as fontes da filosofia e da teologia; nos daquela, Sócrates, Platão e Aristóteles são boa companhia, nos desta, o próprio texto bíblico, o Apóstolo, Santo Agostinho, Boécio, etc., são boa companhia; nos daquela o auge da filosofia, nos desta, o esplendor da teologia; nos daquela, o ensino de como proceder com a razão humana, nos desta o ensino de como proceder ante a ciência das coisas divinas.

 

VI

 

Por isso, os adendos psicologistas são mui prejudiciais a todo o desenvolvimento científico; eles são, por conseguinte, o elemento que tem impregnado o saber teórico, produzindo desvarios na razão prática; estes desvarios tem gerado na filosofia uma série de condições anômalas ao saber racional, e tem gerado na teologia uma série de princípios que substituem o elemento da fé por apenas assentimento psíquico ou emoção; tanto um quando o outro estão em desacordo com o propósito das duas ciências.

Assim, o caminho das perspectivas do aconselhamento, bem como o dos seus noemas, deve seguir o dá fundação filosófica pura, na filosofia pela filosofia; e deve seguir o caminho da teologia pura, o da teologia pela teologia; o da filosofia, para uma filosofia de e para a vida; o da teologia, para uma teologia para a vida. Em relação a filosofia e o aconselhamento, há os pressupostos ordenadores de Husserl e sua luta contra o psicologismo.

A filosofia não precisa se tender ao psicologismo para ter em si boas perspectivas de aconselhamento; o próprio labor filosófico em si já produz o caminho do aconselhamento; não há necessidade de psicologismo na filosofia para a mesma mostrar seu valor, há sim necessidade da psicologia escutar e parar para aprender com a elucubração filosófica.  

Em relação a teologia e o aconselhamento, se tem os pressupostos de ser, conhecer, fazer e amar; o tesouro da bíblia sagrada põe-se como uma inolvidável contribuição; o mavioso salmista de Israel dissera: “A lei do Senhor é perfeita e refrigera a alma” (Sl 19.7); por isso, a teologia não precisa se render ao psicologismo para ter em si boas perspectivas de aconselhamento; o próprio labor teológico em si já produz o caminho do aconselhamento.

Portanto, não ao psicologismo e sim a sabedoria comum a filosofia e a teologia, a saber, a sabedoria que é definida na busca pela verdade.

A sabedoria dá vida a seu possuidor; a sabedoria anunciada por Salomão é o logos do evangelho, que esparge suas sementes na razão humana, e a revela a quem nEle crê; na vida filosófica, a sabedoria divina dá vida a razão e aguça a inteligência; na vida teológica a sabedoria conduz ao caminho da vida eterna (pela fé em Jesus Cristo); na filosofia, corolário racional e humano, na teologia estudos e reflexos da glória divina; este foi o caminho que, de certa forma, Husserl seguiu e estabeleceu como exemplo, principalmente diante da luta contra o psicologismo.

Ora, tendo evocado brevemente a luta de Husserl contra o psicologismo e mencionado as perspectivas do aconselhamento na filosofia e na teologia, se tem um panorama geral dos efeitos do psicologismo para todo o saber humano. E isto, por ora, é mais do que suficiente para o presente momento. 

Laudate Deo



[1] Johann Eduard Erdmann, A History of Philosophy Volume 3: German Philosophy Singe Hegel [5° edição. Londres: George Allen & Company, 1913], pág. 38.

[2] Robert Audi (ed.), The Cambridge Dictionary of Philosophy [2° edição. Cambridge: Cambridge University Press, 1999], pág. 404.

[3] In: Olavo de Carvalho, Edmund Husserl contra o Psicologismo [1° edição. Campinas, SP: Vide Editorial, 2020], pág. 9.

[4] Mário Ferreira dos Santos, Convite a Filosofia e a História da Filosofia [5° edição. São Paulo: Logos, 1957], pág. 212.

[5] Este caráter universal da fé cristão foi trabalhado muito bem por Eric Voegelin. In: Eric Voegelin, História das Ideias Políticas Volume 1: Helenismo, Roma e Cristianismo Primitivo [São Paulo: É Realizações, 2012], pág. 199-254.

[6] In: Silvano Zucal (org.), Cristo na Filosofia Contemporânea Volume II: O Século XX [São Paulo: Paulus, 2006], pág. 13.

[7] cf. Edmund Husserl, Edmund Husserl Gesammelte Werke Band 18: Logische Untersuchugen Erster Band: Prolegoman Zur Reiner Logik [Haia: Martinus Nijhoff, 1975], pág. 73. 

cf. Edmund Husserl, Investigaciones Lógicas [Madrid: Revista de Occidente, (s. d.)], pág. 75-76. 

[8] Ibidem. Pág. 74-75. 

Ibidem. Pág. 76-77. 

[9] Ibidem. Pág. 80-81. 

Ibidem. Pág. 81. 

[10] Ibidem. Pág. 118-119. 

Ibidem. Pág. 118. 


09/10/2020

Ossos Secos

Ossos secos que sois a casa de Israel,

vós estais assim pela desobediência,

voltai-vos ao Senhor tão afável,

para que vos receba com benevolência.

Vós vos tornastes ossos secos,

pois espiritualmente se tornaram ocos,

arrependam-se e humilhem-se diante do Senhor,

somente assim passará de vós o Seu furor.

 

Vai Ezequiel e profetiza,

para o povo rebelde e cativo,

que corrente da baliza,

que ao nobre e eleito povo,

prende sem alento,

logo será desfeita.

Oh! Que grande portento,

Em Cristo o Israel de Deus foi refeito!


Sinceridade

Dos homens a melhor qualidade é a vida em sinceridade; a glória mais excelsa de uma vida honesta.   A sinceridade é amiga da verda...