30/08/2021

Confissão do Ainda Que - Poema

1. Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte,

Ainda que um exército se acampe ao me redor,

Ainda sim, não temerei, não temerei;

Porque o Senhor está comigo. Aleluia!

2. Ainda que eu sofra as maiores tempestades,

Ainda que esteja nas maiores lutas,

Todavia, não temerei, não temerei,

Porque o Senhor é meu escudo! Aleluia!

3. Ainda que não tenha frutos na figueira,

Ainda que não tenha vacas no curral,

Mesmo assim, não temerei, não temerei,

Porque o Senhor é o meu pastor. Aleluia!

4. Eu não sei o que o futuro me reserva,

Quanto tempo de vida terei ou em que situações estarei,

Mas uma coisa eu sei: aonde for não estarei sozinho,

Pois, Cristo caminha ao meu lado. Aleluia!


29/08/2021

Ária sobre o Amor - Poema

1. Qual a palavra que mais mexe com o ser humano?

Qual que o deixa intrigado, cometido e ufano?

Tudo se resume numa única palavra: é o amor.

Que palavra bela, que palavra de fulgor!

Amor, tudo se resume numa palavra!

Tudo se resume num sentimento!

Amar, como nunca se amou!

Amar, como sempre se deve amar!

Amar, a quem se ama!

Amar! Ah, amar! Amar e amar!

2. Que palavra tão pequena, e tão perfeita.

Resume tudo, tudo, tudo.

E deixe-me lhe falar do maior exemplo de amor!

O amor incalculável! O amor incondicional!

O amor de Deus sem igual, que nos deu Seu Filho,

Sim, Seu Único Filho, para nos salvar!

Esse sim é o amor no qual devo me espelhar!

A fonte do amor pelo qual devo amar!

O vocabulário pelo qual devo me expressar!

A forma pela qual devo amar!

3. Vou então expressar-lhe como como deve-se amar:

Amar com misericórdia, amar sem discórdia,

Amar sem suspeita, amar é como se respeita,

Amar com verdade, amar é como se entende,

Amar sem inveja, amar sem soberba,

Amar, simplesmente amar! Mas, amar como Jesus amou!

Isso sim é amar! Isso sim é amar!

Que o mundo veja esse amor em mim,

Que o mundo veja esse amor em nós,

Talvez, assim, quem sabe os homens voltem a amar!


28/08/2021

Cântico em Lamentação - Poema

I

Ó, meu Senhor, venho aqui para fazer uma confissão

Não somente pelos meus pecados, mas por uma situação

Que nunca pensei que passaria, que nunca pensei que passaria.

Uma confissão de tristeza e alegria, surpresa e abatimento,

Mas que de algum modo expressa a condição de meu coração,

Ah! Senhor aceita minha confissão, olha para minha triste condição.

II

Ó, Senhor, estive ocupado em suas lides, e em sua seara,

E como afirma tua Palavra, as lutas são muitas,

Mas sua presença confortadora fortalece e acalenta;

Entretanto, uma coisa me surpreendeu, e que não deveria,

Vi nesta lide aqueles que dizem guerrear por Cristo,

Sendo dominados pela inveja e por sentimentos gananciosos,

Isto me deixou mui triste, então perguntei o que seria,

Da igreja, vivenciando em sua liderança,

Tanta maledicência, tanto pecado, tanta hipocrisia?

Ah! Senhor, me lembrei dos remidos no céu:

Até quando Senhor, não julgas a nossa causa?

III

Ó, Senhor, ouve minha triste confissão, e aceite minha revolta;

Foi então, quando li a expressão de Jesus ao pobre pescador,

Ah! Senhor que palavra bendita dissera a São Pedro:

Segue-me tu! Segue-me tu! Segue-me tu!

Então, Senhor, meu coração se encheu de paz,

E ainda que a tristeza possa me acutilar,

Bem sei que no Trono estás sentado, e isto basta.

Basta para fortalecer uma alma cansada de tanto ver hipocrisia,

De tanto ver falsidade, de tanto ver calúnia,

Entre os que deveriam ensinar a paz e dar algum exemplo.

IV

Ó, Senhor, preserva-me destas corrupções,

Me mantenha integro frente a tanta falta de retidão,

Me mantenha santo ante tanta falta de amor;

Me mantenha ativo, ante tanta tentativa de me parar;

Pois, estou certo de que quando findar a carreira, receberei de Ti, Senhor a sentença:

Vinde servo fiel, que não te corrompeste pelo pecado dos que não conheci.


30/05/2021

Horizontes e Perspectivas: Uma Reflexão

I

 

As muitas expressões que as ciências tem adquirido ao longo dos dois últimos séculos, são e se tornam, as mais das vezes, assertivas de caráter supradogmático, até mais do que as religiões; isto tem destonado o caráter unitário da ciência, tornando-a apenas um elemento de manipulação ideológica-cultural.

E isto, por sua vez, é apenas um modo de se verificar a destruição dos valores da cultura ocidental. 

Por exemplo, Abraham Kuyper, polímata holandês, identifica o evolucionismo como o dogma da ciência moderna[1]; e está muito certo nesta colocação, já que a ciência o toma como normativa e segue em frente sem filtragem crítica; etc.

Entretanto, isso é apenas para exemplificar que as expressões da ciência contemporânea têm seguido um caminho errado, e não somente a ciência, a filosofia também tem seguido este caminho, e até mesmo a teologia tem seguido este caminho.

Mas então, o que fazer? O que fazer para se ter uma ciência, uma filosofia e até mesmo uma teologia, centrada nos princípios que as formaram? É simples, e para que compreendamos isto, elucidar-se-á duas expressões, que ajudam a clarificar o caminho para a solução destas aporias. As duas expressões que se propõe a elucidar, tem muito a dizer: Horizontes e Perspectivas.

Neste breve artigo se utilizará destes dois termos como duas expressões polissêmicas, que compreendem o vasto campo da teologia e a filosofia.

Horizontes em relação a visão destas ciências; perspectivas em relação as noções fundamentais que se deve ter ao ir estudar seja qual ciência for.

 

II

 

A noção de horizontes é de certa forma muito interessante. O prof. José Hermano Saraiva consagrou a expressão “horizontes da memória”, num programa televisivo em Portugal, sobre a história deste país, contando os principais acontecimentos, os principais personagens, etc.; os “horizontes da memória” do prof. Saraiva explorou ao máximo a história de Portugal.

Por isso, quando se fala em horizontes, colocamos a expressão em direto confronto com a teologia e a filosofia.

Horizontes em relação a teologia tem a ver com toda a memória do passado teológico, com todo o legado da teologia cristã. Um horizonte amplíssimo e vastíssimo.

E o horizonte da teologia cristã fica mais sublime ainda, quando o observador decide reconhecer sua pequenez e resolve subir nos ombros dos gigantes que compõem este horizonte para poder enxergar mais longe. É a observação e a ampliação do legado que se recebeu dos antepassados teológicos; e isto não somente em relação a teologia, mas também em relação a filosofia e a ciência.

Desde tempos antigos, recorre-se a seguinte comparação para exemplificar este aspecto: “Quem não sabe que um anão, ao estar nos ombros de um gigante, tem um horizonte mais vasto e vê mais longe do que o próprio gigante? Ficaria coberto de ridículo quem concluísse que o que o anão descobre não é real, sob o pretexto de que o gigante não o tinha visto! E não seria mais sábio quem acusasse o anão de presunção, sob o pretexto de que ele relata coisas das quais o gigante nada dizia, uma vez que se deve ao próprio gigante a maior parte dos conhecimentos do anão[2].

A questão reafirmada nesta sentença tem um princípio bem simples, mas muito esquecido, quando não, rechaçado; aquele que se propõe a estudar deve ter em mente que para se compreender aquilo que se propôs a estudar deve-se ir até os gigantes, ou em outros termos, ir até os sábios. Deve-se subir sob as costas dos gigantes para que se possa enxergar pelo menos o que eles estão dizendo. É sobre estes horizontes que deve se portar o estudioso, o cientista, o filósofo, o teólogo, etc.

O cientista tem diante de si um horizonte de conhecimentos passados muito grande, mas tem um horizonte de conhecimentos a sua frente muito maior; para o cientista, maiores são as questões do que está por vir, isto é, quanto mais ele estuda, mais ele se defronta com questões que precisam de respostas. Por isso, ele sobe nas costas dos gigantes, para ter o mesmo senso de propósito e de ideal dos sábios.

O filósofo também diante de si um horizonte de conhecimentos passados muito grande, e só consegue dar amplidão as suas verdadeiras questões quando se as edifica sob o legado do passado.

Por isso, o estudioso para se tornar um filósofo, precisa dos gigantes do passado, para então, aprender com eles e seguir o legado por eles deixado; os únicos filósofos que conseguiram deixar algum legado na modernidade, são aqueles que aprenderam com os verdadeiros mestres da filosofia: Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Tomás de Aquino e outros que estão nesta galeria seleta.

O teólogo também tem diante de si um horizonte mui vasto e amplo, até mesmo mais do que a filosofia e ciência juntas; por isso, sua responsabilidade teórica para com os teólogos do passado é um pressuposto indiscutível; o teólogo deve subir as costas dos gigantes para olhar para trás, para então, aprender a como se portar no presente e para aprender a como olhar para o futuro.

Estes são os horizontes que os estudiosos devem ter diante de si: o horizonte enxergado a partir dos ombros dos gigantes; horizonte este que quando entendido e compreendido se torna uma chave fundamental para se entender os tempos atuais.

 

III

 

A noção de perspectivas é também muito interessante. A estrutura das perspectivas reponta como aquelas resoluções, ou princípios, ou deliberações fundamentais que se deve ter ao se defrontar com qualquer campo do saber. Fá-lo-á exemplificando a filosofia, mas que se saiba que isto tem de se fazer em cada área do saber que estiver se propondo a estudar.

Ao se estudar filosofia, sabe-se que existe uma grande gama de conhecimento; e em meio a esta gama de conhecimento, usufruído pela razão natural, o cristão deve saber que a mesma não conduz a salvação, mas mesmo assim ela é corolário da graça de Deus, dispensada a todos os homens, definida como graça comum; assim, os gregos iniciaram a filosofia na busca pelo conhecimento racional (logos), que na Revelação São João diz que é Jesus Cristo (cf. Jo 1.1-3).

E o exemplo elencado da filosofia serve para aclarar o entendimento de que Deus dispensa uma graça comum a todos os homens, para que estes tenham alguns meios para desenvolver as coisas necessárias para a vida humana; esta perspectiva ajuda aclarar que nem tudo o que ser humano natural produz é ruim, e que tudo de bom que o ser humano produz é por dádiva divina. É a perspectiva de sempre se saber que tudo que é bom provêm de Deus (cf. Tg 1.17-18).

Outro aspecto é que se deve aplicar o entendimento a respeito da expiação de Cristo a todos os aspectos da vida humana; assim, em cada esfera da vida, precisa ter uma perspectiva sobre a redenção em Cristo e ter seus princípios conforme a lei moral de Deus; seja na educação, na política, na economia, etc., cada uma destas áreas precisa de um entendimento cristão para que possa haver influência cristã dentro de seus arraiais. Ou seja, para que se tenha uma cosmovisão cristã.

Este é o objetivo de se ter “horizontes e perspectivas” no sentido teológico; tê-las para que possa formar uma visão de mundo genuinamente cristã e assim, ter pressupostos para a ação no mundo, enquanto cristãos no mundo.

Com estes princípios em mente, se consegue aclarar quais horizontes e quais perspectivas se deve ter ao adentrar ao estudo de uma área do saber; embora as pressuposições evocadas sejam apenas alguns insights, sem disposição sistemática, ainda sim são mais do que suficientes para apresentar esta questão.

Laudate Deo!



[1] cf. Abraham Kuyper, Evolutionismus: das Dogma Moderner Wissenschaft [Leipzig: A. Deichert, 1901]. 

[2] In: Luigi Padovese, Introdução a Teologia Patrística [3° ed. São Paulo: Loyola, 2015], pág. 13. 


10/05/2021

Quia Pulvis Es: Reflexão sobre a Morte

Prólogo

 

Uma questão que aterra o ser humano é a respeito da morte. Pode-se dizer que é a questão mais horrífera com a qual o ser humano tem de lidar.

A angústia do ser humano moderno é não conseguir ter resposta a esta questão; mas a arrogância do homem moderno, através de suas muitas criações, de sua ciência, de seus engenhos, de suas “criações”, tenta subverter esta questão; mas não se consegue; aonde quer que o homem chegue (a lua, por exemplo), ou que quer que crie, ou o que quer que desenvolva, a questão sobre a morte permanece intacta e com sua carranca horripila, tal como o Pregador asseverara: “porque na sepultura, para onde tu vais, não há obra, nem indústria, nem ciência, nem sabedoria alguma” (Ec 9.10).

O homem moderno esquiva-se desta verdade, mas ela permanece; não há ciência, não há comentário, não há indústria que prive o homem deste destino comum a todos os seus semelhantes próximos, e não somente aos seus semelhantes, mas a todos os seres humanos, em todas as épocas e localidades.

A sentença do Pregador também responde parte de uma pergunta fundamental da razão humana: “para onde vou?”. O Pregador diz que para a sepultura, isto é, todos vão morrer. É uma certeza apodíctica da vida.

Por isso, resolveu-se elencar alguns pontos de reflexão sobre a morte. 

 

I

 

A primeira questão a se tratar é a respeito da própria morte. O que ela significa, e porque ela existe. Quando Adão pecou, uma das sentenças ao seu ato de desobediência, a sentença mais amarga, foi a morte. O texto diz: “quia pulvis es et in pulverem reverteris”; “porquanto és pó e em pó te tornarás” (Gn 3.19b). O homem que foi formado do pó, a ele volta quando morre. E a morte entrou no mundo devido ao Pecado. O Apóstolo diz: “Pelo que, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte...” (Rm 5.12).

E então, o homem, por não ter sido criado para a morte, torna-se subserviente a ela; todos morrem; e esta tensão gera um assombro no ser humano; e ainda mais devido ao pecado, este assombro se manifesta de muitas formas. No entanto, Salomão aconselha: “Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, porque ali se vê o fim de todos os homens; e os vivos o aplicam ao seu coração” (Ec 7.2).

A vista da morte, os homens devem aplicar esta terrível realidade ao seu coração; saber que todos morrem, e que um dia a morte também chegará; é este o destino de todos os homens.

Diz uma história que os monges ao se encontrarem com outros colegas monges diziam: “memento moris” (vais morrer), ao passo que quem ouvia isso, respondia: “quia pulvi es et in pulverem reverteris” (porque és pó e em pó te tornarás). Os monges já tinham em vista esta realidade da morte, pois esta “é o fim de todos os homens”.

Por isso, a lembrança da morte é preceito irrevogável da vida virtuosa; sem a lembrança da morte não se desenvolve virtude e nem se mantém no caminho da piedade.

 

II

 

Mas também há outra coisa que o Pregador fala sobre a morte; ele diz: “nenhum homem há... que tem poder sobre o dia da morte” (Ec 8.8).

Apesar de saber qual é o seu fim, a morte, nenhum homem tem o poder sobre o dia dela; ninguém pode dizer que não vai ser assolado por ela quando a hora chegar. E isto aos ouvidos e a compreensão do homem moderno que expulsou Deus de cena, soa como um relâmpago estrondoso sob o anil do céu da modernidade. “A morte é a pergunta que em última análise não pode ser reprimida, e que se faz presente na existência humana com um aguilhão metafísico[1].

O homem moderno que tem o poder de tudo em suas mãos, que muitas vezes com apenas um clique num botão tem o poder de matar milhares de vidas, não tem poder sobre o dia da morte; não tem poder sobre a morte; não tem ciência sobre a morte; ele também concorrerá para o mesmo destino de todos os homens. A morte não é uma escolha, é uma realidade inconcussa. E nenhum homem, mesmo o mais poderoso entre os homens, não tem poder sobre o dia da morte.

Muitos filósofos falaram sobre a morte; inclusive um dos pontos de contato da teologia dos primeiros séculos da era cristã com a filosofia, era reflexão sobre a morte; o filósofo era aquele que falava sobre a morte; e como os que melhor falaram sobre a morte foram os primeiros teólogos cristãos, por isso mesmo foram chamados de verdadeiros filósofos.

Por exemplo, Friedrich Nietzsche constatou algo assaz cirúrgico sobre a compreensão que os homens modernos tem sobre a morte: “Cada um quer ser o primeiro nesse futuro — mas a morte e seu silêncio são a única coisa certa e comum a todos nesse futuro! Estranho que essa única certeza e elemento comum quase não influa sobre os homens e que nada esteja mais distante deles do que se sentirem irmãos na morte! Fico feliz em ver que os homens não querem ter o pensamento da morte! Eu bem gostaria de fazer algo para lhes tornar o pensamento da vida mil vezes mais digno de ser pensado[2].

Esta é a realidade desencantada da vida hodierna, onde os homens “ficam felizes por não pensarem sobre a morte”; os homens se divertem para não pensar sobre a morte.

Mas se o homem não tem poder sobre a morte, e se para a sepultura, o destino de todos os homens, não existe ciência nem conhecimento, o que fazer para que se possa chegar a uma compreensão adequada a respeito da morte? Como devemos entendê-la?

Pois, o que Nietzsche dissera é verdade: os homens não querem ter o pensamento da morte; e isto, por sua vez, não pode ser uma realidade premente naqueles que se dizem “cristãos”, pois, a morte é o critério da racionalidade humana e do respeito com a própria vida.

Portanto, há de se elucubrar, e com maestria, sobre a morte.

 

III

 

A questão sobre morte foi tratada de forma insipiente; o salmista disse que “Dixit insipiens in corde suo non est Deus” (Diz o insensato no seu coração: não há Deus). Mas o insensato não é apenas aquele que nega a Deus; insensato também é quem nega a morte e sua realidade; o que faz possível de declarar sobre o homem moderno (parafraseando o salmista): “diz o insensato no seu coração: morte não é nada”.

Mas, por que é insensatez, tanto crer que Deus não existe, como crer que a morte não é nada? E que tipo de insensatez se refere o salmo? Será que é a falta de conhecimento? Será que é somente a falta de capacidade intelectual? Não é somente a estes, mas é um conceito muito amplo; se refere aos que vivem uma vida afastada de Deus, como se ele não existisse. É a mesma coisa que o orgulho.

Por isso, o homem moderno vive como se a morte fosse nada; ele não põe o coração para pensar e meditar sobre a realidade que o tempo passa, e que mais cedo ou mais tarde a morte lhe mostrará a carranca. O homem moderno não pensa sobre a morte, e por consequência, no mais das vezes está embotado pelos lixos filosóficos dos pensadores coetâneos, e falta-lhe por isso a filtragem crítica do que é mais importante nesta vida.

Existem algumas exceções, mas entre os pensadores mais badalados, quase nenhum faz uma reflexão sobre a morte, a qual seria uma reflexão digna de um grande filósofo. E sobre a questão de os filósofos coevos não trabalharem a morte como tal, não está em eles não falarem sobre a morte; muitos deles falam sobre a morte; mas nenhum deles trabalha a questão que vem amalgamada quando se fala em morte: a questão da imortalidade. Pois, alguém já disse “o homem é imortal, mas não é imorrível”.

A respeito da imortalidade há um debate filosófico mui amplo, o que não é o propósito desta meditação analisar; mas deve-se ter em mente que uma realidade apodíctica da vida humana é que o ser humano tem sempre diante de si a perspectiva da eternidade; ele tem diante de si as portas do que é eterno; a questão é: o que faz com que o ser humano tenha compreensão a respeito da eternidade?

Simples, o Pregador diz que Deus pôs no coração do homem a eternidade (cf. Ec 3.11); se fora o próprio Criador quem colocara no coração do homem a eternidade, então, nada do que não seja a respeito da eternidade satisfará o homem; e isto é a mais pura verdade; nada, a não ser quem pôs a eternidade no coração do homem pode satisfazê-lo; e a questão de se ponderar e considerar a morte, deveria fazer com que os homens pensassem sobre a eternidade.

Morte e imortalidade são duas realidades que são preponderantes na racionalidade humana, e que são fundamentais para o próprio desenvolvimento da personalidade e a base no caminho rumo a maturidade e a própria formação do caráter.

 

IV

 

Aqui há de se fazer um parêntese, para se falar brevemente da questão da imortalidade. A questão da imortalidade é um tema da filosofia; como foi dito, muitos filósofos tratam esta questão displicentemente, quando não a rejeitam. Não vamos tratar exaustivamente do tema (que não é nosso propósito), mas vamos elencar alguns pontos que são importantes.

Eric Voegelin elencara quatro pressupostos ao tratar do assunto da imortalidade; ele diz: “(1) o simbolismo da imortalidade não é peculiar à cristandade e à revelação [...]. (2) a imortalidade é um predicado que pressupõe um sujeito [...]. (3) qualquer que seja o sujeito do qual a imortalidade se predica, o símbolo pertence à permanência ou duração de uma entidade. (4) o símbolo ‘imortalidade’ pressupõe a experiência de vida e de morte [...][3].

Os pressupostos elencados por Voegelin servem-nos de muita ajuda neste quesito.

O primeiro é que a noção de imortalidade está presente em muitas das culturas antigas, e por isso, não é referência única das Escrituras; no entanto, é somente nas Escrituras que este é tema entendido exaustivamente e corretamente.

O segundo é que a imortalidade é um predicado, e todo predicado pressupõe um sujeito; ou melhor, o conceito de imortalidade, pressupõe um sujeito que lhe dê sentido; este sujeito é Deus. O profeta diz que o Messias (o Logos do Evangelho) é o pai da Eternidade (cf. Is 9.6), isto é, foi ele quem a gestou. Portanto, é Ele o sujeito primeiro a quem se refere a imortalidade; e os homens, os sujeitos secundários os quais tem diante de si a eternidade como predicado da existência e como fim último da vida.

O terceiro pressuposto está em intima ligação com o segundo, já que o sujeito ao qual a imortalidade predica pressupõe permanência. É a prova de que o sujeito ao qual a imortalidade predica é a respeito de Deus. E se predica a respeito de Deus, também se predica a respeito do homem, que é o que tem de entrar em contato com a imortalidade.

O quarto pressuposto é que a existência de imortalidade pressupõe vida e morte; quando o homem tem consciência de imortalidade, como um símbolo, ele então, tem diante de si a questão da vida e da morte.

Assim, a imortalidade, tem sua constante na reflexão humana, desde os egípcios antigos até os filósofos modernos; e uma coisa perpassa todos eles, que são estes quatro pressupostos elencados por Voegelin; no entanto, a única compreensão a respeito da imortalidade que tem um todo correto é a concepção cristã.

É nesta consciência de imortalidade (e também de eternidade), que se forma na teologia a concepção da escatologia: a doutrina a respeito das últimas coisas, onde são analisadas todas as questões referentes ao tempo futuro; e apesar de existirem muitas teorias a respeito do processo até o desenrolar destes acontecimentos, uma coisa é certa, e é que, mesmo em meio a estas nuances (muitas vezes controversas) o corpus escatológico cristão tem uma linha tênue e fixa: céu, inferno, morte, vida após a morte, estado intermediário, salvação, imortalidade, eternidade, etc.

 

V

 

Dito isso, voltemos as sentenças do homem mais sábio que já existiu.

O Pregador dissera que é melhor ir na casa onde a luto porque nela o homem vê o seu fim, e então, põe o coração a pensar; e se o homem pensar sobre a morte, ele terá diante de si a questão da eternidade. E quão insensato é o homem ao pensar sobre a eternidade; ele não põe o coração naquilo que é eterno devido ao seu pecado, que o afastou dAquele que é eterno.

Então, como o homem que morre e está com seu espírito morto em delitos e pecados (cf. Ef 2.1) pode voltar a ter a verdadeira consciência da eternidade? Como pode o homem se voltar ao que é eterno? Somente pela obra dAquele que pôs a eternidade no coração do homem se pode resgatar o homem; somente Deus pode trazer o homem de volta a consciência real da eternidade; e foi realmente o que aconteceu: fora o próprio Deus quem realizara a redenção do homem; fora Cristo quem morrera no lugar do homem para expiar os pecados, para poder dar salvação a quem nEle crê.

O evangelista dos segredos de Deus afirmara: “Mas a todos quantos o receberam deu-lhes o poder se serem feitos filhos de Deus: aos que creem no seu nome” (Jo 1.12). O Deus eterno entrou no tempo para poder salvar o homem e dar-lhe de novo a comunhão com Deus e a consciência de eternidade. Este é o caminho para restaurar a consciência de imortalidade nos homens.

 

VI

 

Por isso, sendo o homem conduzido até Jesus Cristo pelo Espírito Santo, o homem agora tem a salvação (cf. Rm 10.9); e a salvação dá-lhe o real sentido da eternidade; ainda que ele morra, ele sabe que viverá eternamente com Deus; a salvação em Cristo é uma salvação eterna; portanto, ao homem que morre, que volta ao pó da terra, tem a esperança dos céus e da vida eterna.

A morte não é o fim da linha para o cristão; há esperança para além da morte; conquanto, todos os homens tenham de passar pela morte, o cristão sabe qual é sua esperança diante das portas morte; ele sabe em quem ele tem crido; ele sabe que há apenas um que venceu a morte, e quem nEle crê também há de vencer a morte, que foi chamada pelo Apóstolo de o último inimigo a ser aniquilado (cf. 1Co 15.26).

A memória teológica da Igreja tem consciência da reflexão sobre a morte; pois, a formulação ao longo dos séculos de sua mensagem, e é esta mensagem rememorada que o próprio Senhor ordenou que se o fizesse na memória dEle, é um ponto nevrálgico da proclamação cristã diante da realidade da morte.

A memória da Igreja, e com isso, sua reflexão sobre a morte, também é a expectativa que os cristãos devem ter, mesmo diante da difícil e sempre assustadora reflexão sobre a morte.

Karl Barth assevera: “A memória da Igreja é também sua expectativa, e sua mensagem para o mundo é também a esperança do mundo. Pois Jesus Cristo, de cuja palavra e a obra a Igreja conscientemente, e o mundo ainda inconscientemente, origina, é o mesmo que veio ao encontro da Igreja e do mundo, como o objetivo do tempo que está chegando ao fim[4].

E a questão da morte também influenciou a arte; e na perspectiva cristã a respeito das últimas coisas não foi diferente; um dos mais notáveis exemplos de reflexão sobre a morte é o de Wolfgang Amadeus Mozart, um dos maiores compositores de todos os tempos.

Mozart pouco antes de morrer compôs o Requiém, uma obra fúnebre, que não pode concluir devido a sua morte; a compreensão de Mozart sobre a morte é algo muito interessante, o que fica claro na última carta a seu pai, que na época desta estava já muito doente, e que viera a falecer pouco tempo depois: “Como a morte (a rigor) é o real destino final de nossas vidas, de alguns anos para cá fiz tão boa amizade com este mais verdadeiro e melhor amigo dos homens, que sua imagem não apenas me assunta, mas deveras me tranquiliza e consola. Agradeço a Deus por me ter considerado digno de tal felicidade e (pois o senhor me compreende) de me ter proporcionado conhecer a chave de nossa verdadeira felicidade. Numa me deito sem antes pensar que (apesar de jovem) talvez amanhã eu não exista mais, e mesmo assim, nunca, nenhum dos meus conhecidos pode dizer a meu respeito que eu seja carrancudo ou triste em público - por esta felicidade dou graças diariamente ao Criador...[5].

Outro exemplo provém de Dietrich Bonhoeffer, que dissera pouco antes de ser martirizado que a morte é apenas o começo da vida; o mártir alemão da segunda guerra disse estas palavras ao caminhar para o local onde seria morto; e este é o testemunho da fé cristã em meio a morte.

Ademais, este aspecto foi muito tratado por C. S. Lewis em sua obra; ele poetiza sua concepção cristã da morte; ele diz: “Para ele, porém, este foi apenas o começo da verdadeira história. Toda a vida deles neste mundo e todas as suas aventuras em Nárnia haviam sido apenas a capa e a primeira página do livro. Agora, finalmente, estavam começando o Capítulo Um da Grande História que ninguém na terra jamais leu: a história que continua eternamente e na qual cada capítulo é muito melhor do que o anterior[6].

E esta expressão de Lewis é uma excelente forma poética-literária de se descrever o que é a morte sob a perspectiva da fé cristã.   

 

VII

 

Deste modo, a compreensão a respeito da morte tem muitas nuances; muitos cristãos descreveram-na em poesias, hinos, em livros de ficção, etc.; muitos outros descreveram o testemunho de outros cristãos frente a morte, como por exemplo, o relato do martírio de São Policarpo, bispo de Esmirna; ou na própria descrição do martírio de Bonhoeffer, quando sabe-se pelo testemunho de um médico que o acompanhou até o momento final, o qual algum tempo depois segreda sobre aquele momento: “Nunca vi ninguém morrer com tamanha fé em Deus”.

O cristão morre bem. O cristão sabe que ao final de sua vida, cumpre-se as palavras do Apóstolo: “O que tu semeias não é vivificado, se primeiro não morrer” (1Co 15.36b). A morte é o nascer da semente da eternidade que Deus colocou no coração humano quando o criou, e que Cristo redimiu.

No entanto, o Apóstolo também diz: “o último inimigo a ser vencido é a morte” (1Co 15.26); e duas coisas devem ser ditas sobre essa passagem, a guia de conclusão, e em sentido de aplicação prática:

1. A primeira coisa a ser dita é que a morte é o último inimigo a ser vencido no sentido que diante de um confronto com ela todos temos de morrer, não há escape da morte física; a morte é um inimigo que vai nos vencer, mas é uma derrota pela fé, pois ao passarmos pela morte, encontrar-nos-emos com o Senhor Jesus na glória.

2.A segunda coisa a ser dita é que a morte não pode nos vencer eternamente; temos de morrer fisicamente; mas não vamos morrer espiritualmente e eternamente; a morte é o último inimigo o qual temos de passar, mas o qual nos conduz aos braços de Jesus. Que glorioso momento! Que incalculável alegria! Que glória imarcescível ser-nos-á concedida neste momento!

Para concluir, retomamos com confiança as palavras de Jacó e as do salmista, pois esta certeza deve ser algo vivido em sua mais profunda intensidade principalmente de quando da reflexão sobre a morte: “O Deus, em cuja presença andaram os meus pais Abraão e Isaque, o Deus que me sustentou, desde que eu nasci até este dia [o dia da morte]” (Gn 48.15); e: “Porque este Deus é o nosso Deus para sempre; ele será nosso guia até à morte” (Sl 48.14). Esta é a nossa esperança diante da carranca da morte!

Laudate Deo!



[1] Joseph Ratzinger, Natureza e Missão da Teologia [2° edição. Petropólis, RJ: Vozes, 2012], pág. 21.

[2] Friedrich Nietzsche, Cem Aforismos sobre o Amor e a Morte [São Paulo: Penguin; Companhia das Letras, (s. d.)], n. 94.

[3] Eric Voegelin, Ensaios Publicados 1966-1985 [1° edição. São Paulo: É Realizações, 2019], pág. 120.

[4] Karl Barth, Esboço de uma Dogmática [São Paulo: Fonte Editorial, 2006], pág. 185.

[5] Wolfgang Amadeus Mozart, Cartas Vienenses [São Paulo: Editora Veredas, 2004], pág. 201.

[6] C. S. Lewis, As Crônicas de Nárnia Volume 7: A Última Batalha [2° edição. São Paulo: Martin Claret, 2003], pág. 213. 


15/03/2021

Nótulas ao “De Modo Dicendi et Meditandi” de Hugo de São Vítor

Prólogo

 

Um dos escritos mais interessantes da idade média sobre a vida de estudos e meditações, é um opúsculo de Hugo de São Vítor (1096-1141); Hugo foi um importante teólogo e místico do século XII; além disso também foi cardeal; suas obras traspassaram o tempo e chegaram até os dias atuais; devido a importância e a influência de seus escritos, chamaram-no de segundo Agostinho.

A obra pedagógica de Hugo, em seu “Didascalicon”, que foi amplamente utilizada na idade média, é um dos melhores exemplos do verdadeiro método de aprendizado. É um pilar do que fora a educação cristã na idade média.

O estudo e a análise cuidadosa desta obra tem muito a oferecer a quem deseja seguir o caminho dos estudos. Uma obra única, e de porte elegante; não iremos analisá-la; mas antes de prosseguir-se, observe o que o próprio Hugo diz: “Existem duas coisas por meio das quais alguém é conduzido ao conhecimento, a saber, a leitura e a meditação, das quais a leitura vem em primeiro lugar, e é dela que se ocupa este livro, oferecendo os preceitos da arte da leitura. Por conseguinte, são três os preceitos mais necessários a leitura: primeiro, saber o que se deve ler; segundo, em que ordem se deve ler, isto é, o quem vem e o que vem depois; terceiro, de que modo se deve ler[1].

Como foi dito, não se seguirá na análise cuidadosa do “Didascalicon”, mas de outra de Hugo, igualmente importante, que também versa sobre a arte da leitura e da meditação; uma obra mais simples, no entanto, em nada perde em elegância e grandeza; é um pequeno opúsculo, “De Modo Dicendi et Meditandi[2] (Sobre o Modo de Aprender e Meditar); é um texto muito interessante que contém lições preciosas sobre o aprender e o meditar.

Assim, tecer-se-á algumas nótulas aos pressupostos elencados por Hugo de São Vítor neste opúsculo referido.

 

§ 1

 

O primeiro pressuposto elencado por Hugo é sobre a humildade: “Humilitas discera volenti necessaria”.

A humildade é necessária a quem deseja aprender; é o caminho para se seguir rumo ao conhecimento. Mas porque a humildade? Porque a humildade diz muito a respeito da postura que aquele que estuda tem de ter diante do saber.

Se o princípio do amor pelo saber, na perspectiva cristã, começa com a humildade, duas coisas devem ser elencadas: a primeira, a raiz desta humildade; segundo, os pressupostos do estudante.

A primeira, a raiz desta humildade; e sobre isso o texto sagrado é claro: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria” (Pv 1.7a). A raiz da humildade é o temor do Senhor. 

A segunda, sobre os pressupostos do próprio estudante. O próprio Hugo continua o texto interligando a virtude intelectual primeira, a humildade, com três pressupostos advindo dela para a vivência prática do estudante; ei-los: (1) o primeiro é que se não tenha como vil nenhuma ciência ou nenhum texto; (2) o segundo é que se não envergonhe de se aprender de ninguém; (3) o terceiro é que, ao alcançar-se a ciência, não se despreze os demais.

Nestes três pressupostos do estudante, se caminha rumo a muitos frutos bons em relação ao conhecimento, tanto que segundo Hugo, se alcança maior sabedoria quando se quer aprender de todos. Além disso estes três pressupostos também ajudam o estudante no caminho da veracidade e integridade intelectual, que Hugo, para exemplificar, cita o texto bíblico: “Examinai tudo. Retende o bem” (1Ts 5.20).

Após isso, Hugo conclui o primeiro pressuposto sobre o modo de aprender e meditar, pronunciando sábias palavras: “Nunca presuma de sua ciência; não queira parecer douto, mas sê-lo; busque o dito dos sábios, e procure ardentemente ter sempre os seus vultos diante dos olhos da mente, com um espelho”.

Este é o caminho da humildade que todo aqueles que de dedica aos estudos tem de palmilhar com esmero e perseverança.

 

§ 2

 

O segundo pressuposto elencado por Hugo é sobre as três coisas necessárias ao estudante: “Studenti tria necessaria”.

Hugo prossegue elencando três coisas que são necessárias ao estudante: uma em relação a natureza do estudo; a segunda, em relação ao exercício; e ainda sobre a disciplina da vida de estudos.

Sobre a natureza do estudo, que se analise com cuidado o que foi ouvido, e que assim, firmemente se retenha o que foi ouvido e percebido, meditando e ruminando o que fora aprendido.

Em relação ao exercício, deve ser cultivado o senso natural de trabalho e diligência; é a condição natural do que procura algum trabalho; e a diligência é uma qualidade essencial a se ter para que este trabalho seja bem feito e produtivo.

E, em relação a disciplina, que vivendo para a glória de Deus, se faça dos costumes, dos hábitos, um caminho para a ciência; na verdade o melhor lustre ao móvel do estudo, é a disciplina que se manifesta em prática e vivência.

Além disso, segundo Hugo, o estudante deve primar pelo engenho e pela memória; os dois juntos, pois um sem o outro estará fadado ao fracasso; eles são como as duas asas da ave, sem as quais a mesma não voa; o engenho refere-se ao uso, que quando em trabalho imoderado é embotado, e que quando em exercício moderado e constante é aguçado. Já memória segundo Hugo é a firme percepção das coisas, na alma.

Além disso, a noção de memória estava presente em Santo Agostinho; o bispo de Hipona fala sobre as maravilhas da memória; ele assevera: “Chegarei assim ao campo e aos vastos palácios da memória, onde se encontram os inúmeros tesouros de imagens de todos os gêneros, trazidas pela percepção. Aí é também depositada a atividade de nossa mente, que aumente, diminui ou transforma, de modos diversos, o que os sentidos atingiram, e também tudo o que foi guardado e ainda não foi absorvido e sepultado no esquecimento[3].

Por isso, Hugo dissera que a memória é principalmente ajudada e fortificada pelo exercício da meditação e de se reter o que aprende.

Além disso, mesmo em meio as maiores vicissitudes, é possível que a memória sirva como elemento para se chegar ao consolo; o profeta Jeremias, em suas lamentações segreda: “Quero trazer a memória aquilo que pode me dar esperança” (Lm 3.21).

Portanto, memorizar o que se aprende, dá esperança à inteligência de que a mesma pode aprender mais e mais, num caminho sempre ascendente.

 

§ 3

 

O terceiro pressuposto elencado por Hugo é sobre a meditação: “De meditatione”.

Hugo prossegue no terceiro pressuposto, anunciando as ações que fortalecem o engenho; são duas: a leitura e a meditação.

Em relação a leitura, se estabelece pela investigação do sentido. E a leitura, para que se fortaleça o engenho; Hugo identifica três formas de ler, ou três tipos de leitores: (1) a daquele que lê o livro para alguém; (2) a daquele que lê o livro para o mestre; (3) a daquele que lê o livro por ele mesmo.

Nestes três tipos de leitores, alguns pontos devem ser destacados: primeiro, é sobre o leitor que lê o livro para alguém; ele o faz para que aquele que o ouve possa assimilar através de sua leitura o máximo de conteúdo possível, e então, na interpretação da leitura, perceber as nuances da linguagem, e da escrita do autor.

O segundo aspecto, é sobre o leitor que lê o livro para o mestre; e o faz tanto para demonstrar o aprendizado na leitura, quando para o mestre verificar se ainda existe alguma falta na leitura.

O terceiro aspecto, é sobre o leitor que lê o livro por ele mesmo; é o ato do leitor que busca aprender; ele lê, e na leitura reponta o primeiro estágio de seu aprendizado; sem leitura não há como aprender; sem leitura, não há aprendizado; assim, o leitor se põe diante do livro como alguém que quer aprender, e ao lê-lo o faz diante de si, como aquele que tem de aprender do livro, e que tem de aprender a aprender do livro, bem como guardar o que aprender em sua memória.

Nestes atos da leitura, reponta o fato de o leitor em cada livro ter um mundo novo.

C. S. Lewis fala sobre os tipos de leitores, e o compará-los identifica os que leem sem ler, e os que leem lendo; para ele essa era a diferença básica entre os leitores comuns e os literatos; quanto aquele lê de forma displicente, este lê de maneira atenciosa e proveitosa.

Lewis então, comenta a verdadeira postura do leitor diante de um livro, a postura daquele que realmente quer aprender sobre o livro e do livro. Ele confessa - e esta deve ser a confissão de todo leitor: “ao ler a grande literatura, eu me torno mil homens e, mesmo assim, continuo a ser eu mesmo. Tal como o céu noturno no poema grego, eu vejo com uma miríade de olhos, mas ainda sou eu quem o vê[4].

 

§ 4

 

O quarto pressuposto elencado por Hugo é sobre os três gêneros de meditação: “Mediationis tria genera”.

Após elencar que para o engenho é necessário a leitura, ele prossegue no segundo ponto, sobre a meditação; quem quer aprender realmente a ler precisa também aprender sobre a meditação.

A meditação sucede a leitura, não pelos mesmos processos da leitura, mas para cristalizá-la; Hugo diz que o princípio da doutrina está na leitura, e sua consumação na meditação. Na verdade, no próprio ato da meditação reponta um princípio também da vida chamada piedosa; Hugo diz: “Quem aprender a amar com familiaridade e a ela se dedicar frequentemente tornará a vida imensamente agradável e terá na tribulação a maior das consolações”.

A meditação é um ponto de fundamental importância aos meios de graça da vida cristã. O convite a leitura e a meditação nas Sagradas Escrituras é uma regra básica da vida cristã: “Não se aparte da tua boca o livro desta Lei; antes, medita nele de dia e noite, para que tenhas o cuidado de fazer conforme tudo quando nele está escrito...” (Js 1.9).

E para ajudar a compreensão a respeito da meditação, Hugo também apresenta três gêneros da mesma: (1) no exame dos costumes; (2) na indagação dos mandamentos; (3) na investigação das obras divinas.

Em relação ao primeiro, é uma constante da vida: o auto-exame; tantos dos seus próprios costumes, que dá origem a moral, quando dos costumes da ordem social vigente, para saber se a sociedade caminha com ordem ou com desordem. O auto-exame é uma característica fundamental para a meditação. Sócrates dizia que uma vida sem reflexão não é digna de ser vivida.

Em relação ao segundo, é sobre os mandamentos; é sobre indagá-los; não no sentido de criticá-los, mas no sentido de perguntar o que eles querem dizer, e assim, compreender o que significam para pô-los em prática. A indagação dos mandamentos, se torna um nexo na indagação dos costumes, já que os mesmos tem de ter um padrão para serem analisados.

Em relação ao terceiro, é a respeito da investigação das obras divinas; o mais sublime objeto de leitura e meditação; o mais excelso conteúdo, ao qual o leitor submete sua atenção; o salmista declarou: “Grandes são as obras do Senhor, procuradas por todos os que nelas tomam prazer” (Sl 111.2).

 

§ 5

 

O quinto pressuposto elencado por Hugo é sobre confiar a memória o que se aprende: “Memoriae commendanda quae sumus edocti”.

É a memória que guarda tudo que o engenho busca, e encontra; segundo Hugo é ela quem custodia o que foi aprendido.

A relação da memória com o aprendizado é muito importante, já que da mesma forma como o engenho é embotado pelo mal uso, assim também a memória pela falta de uso se embota; a memória também precisa de exercício equilibrado para estar bem afiada, e assim, poder se entregar, confiar a ela o que se aprende.

Mas Hugo fala de um porém; o que se deve confiar a memória o que se aprendeu de uma forma singular, a saber: dividir o que se aprender e recolhê-los, isto é, reduzi-los a alguns pressupostos, numa forma de epílogo, que segundo Hugo é uma recapitulação do que foi dito; a síntese formal do que fora abstraído.

Ainda pode-se elencar que esta ato de redução, pode ser feito através de confiar a memória os aforismos daquilo que se aprendeu. Por isso, sobre a memória, Agostinho diz: “Encontram-se também nela as noções apreendidas pelo ensinamento das ciências liberais e que ainda não esqueci [...] De fato, todas essas realidades não se introduzem na memória. São apenas imagens colhidas com extraordinária rapidez, dispostas como em compartimentos, de onde admiravelmente são extraídas pela lembrança[5].

 

§ 6

 

O sexto pressuposto elencado por Hugo é sobre as três visões da alma racional e sobre a diferença entre meditação e contemplação: “Animae rationali tres visiones. Meditationis et contemplationis discrimen”.

Hugo elenca as três visões (formas de percepção) da alma racional: através do pensamento, da meditação e da contemplação.

Em relação ao pensamento, este é quando a coisa se apresenta à alma em sua imagem, seja pelos sentidos, seja através do baú da memória. A meditação é esquadrinhar o pensamento que se teve, de forma a apreender dele, e assim, poder explicar-se o que sobre o mesmo está obnubilado.

A contemplação é quando a alma contempla as coisas em seus horizontes e perspectivas mais diversas e amplas. O pensamento abre à alma a coisa que se estuda, a meditação confirma e procura entender estas coisas em suas nuances, a contemplação abre as portas dos horizontes desta coisa.

A meditação é sempre sobre o que está oculto a inteligência; a contemplação se dá com coisas que segundo a inteligência são manifestas; a meditação procura buscar alguma coisa singular, enquanto a contemplação se estende a compreensão a variadas coisas.

A meditação, para Hugo, é um desatar do que é intricado. A contemplação, para ele, uma vivacidade da inteligência, que possuindo as coisas, se manifesta numa visão abrangente.

Desta forma, para Hugo, aquilo que a meditação busca, a contemplação possui.

 

§ 7

 

O sétimo pressuposto elencado por Hugo é sobre os dois gêneros de contemplação: “Contemplationis duo genera”.

Hugo prossegue para os dois gêneros de contemplação: um aos principiantes, outro aos perfeitos.

A contemplação dos principiantes, consiste na consideração da obra da criação; a contemplação dos perfeitos, consiste na contemplação do Criador. É a manifestação dos “degraus” na esfera da contemplação: primeiro começa-se com a criação, que manifesta a glória de Deus (cf. Sl 19.1), depois vai-se ascendendo até chegar a contemplação do Criador.

Hugo para exemplificar isso, destaca uma alegoria a respeito de Salomão, que em seus três livros presentes na bíblia: Provérbios, Eclesiastes e Cântico dos Cânticos.

Para Hugo, em Provérbios, Salomão principiou meditando; no Eclesiastes, elevou-se ao primeiro grau da contemplação (a dos principiantes); e em Cânticos dos Cânticos, transportou-se ao amor de Deus por seu povo, e o amor do povo de Deus para com Deus.

Estas três fases elencadas por Hugo a respeito de Salomão, ele as identifica como: a primeira, meditação; a segunda, especulação; a terceira, contemplação.

Em relação a meditação, com a perturbação das paixões, que obnubilam a mente inflamada pela piedosa devoção; em relação a especulação, a novidade que fora descoberta sublima a alma em admiração; em relação a contemplação, que alcança a doçura, e a mesma se transforma em alegria e contentamento.

Assim, para Hugo, na meditação tem-se a solicitude; na especulação tem-se a admiração; na contemplação, a doçura.

As três bases, sob as quais todo estudioso deve se edificar: solicitude, admiração e doçura.

 

§ 8

 

O oitavo pressuposto elencado por Hugo é sobre as três partes da exposição: “Tria expositione”.

Hugo então prossegue ao que ele chama de exposição; é a parte sobre o modo de ensinar; já passou pelas formas de aprender, através da leitura, da meditação, da especulação e da contemplação; agora vai a exposição.

Para Hugo a exposição tem três partes: a letra, o sentido e a sentença.

A letra diz respeito as palavras, a concatenação das palavras, que Hugo chama de construção.

O sentido é a linha simples que a letra tem diante de si como seu primeiro semblante.

A sentença, o que a letra e o sentido procuram dizer, é uma mais profunda inteligência, a qual não pode ser encontrada senão através da interpretação.

Para Hugo, para que ocorra uma exposição perfeita, requer-se estas três características: a letra, depois o sentido e depois a sentença.

Nestes três aspectos delineia-se o ato hermenêutico daquele que busca ensinar.

 

§ 9

 

O nono pressuposto é sobre os três gêneros de vaidade: “Vanitatum tria genera”.

Hugo então prossegue alertando sobre os perigos da vaidade, um mal sem par a todo aquele que quer estudar e ensinar, bem como um alerta sobre as vaidades que se possa encontrar no caminho de estudos; por isso, ele enumera três perigos relacionados a vaidade: a vaidade da mutabilidade, a vaidade da cobiça e a vaidade da mortalidade.

A vaidade da mutabilidade diz respeito as coisas que por natureza caducam, se tornam mutáveis e corruptíveis. A vaidade da cobiça diz respeito ao amor desordenado pelas coisas mutáveis e vãs. A vaidade da mortalidade diz respeito a condição humana, a vaidade da vida, que passa como um sopro (cf. Tg 3.14).

Estas vaidades, respectivamente, são tidas pelo evangelista dos segredos de Deus como as concupiscências deste mundo: a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida (cf. 1Jo 2.16).

Por isso, ao entender estas vaidades, deve-se prosseguir de forma que não se deixe dominar por elas; as quais, no mais das vezes, são facilmente sedutoras e mortíferas.

Assim, não se deve apegar a nenhuma de suas manifestações, mas sim fugir das mesmas, e prosseguir rumo a meditação e avançar paulatinamente aos seus estágios.

 

§ 10

 

O décimo pressuposto elencado por Hugo é sobre as obrigações da eloquência: “Eloquentiae munia”.

Hugo fala sobre a eloquência e para tal, emprega uma expressão de Santo Agostinho que diz que o homem eloquente deve falar a fim de que ensine, deleite e submeta; que em suma são as normas da arte retórica.

O ensinar refere-se a necessidade, o deleite a suavidade deste ensino à alma, e o submeter à vitória na explicação e aplicação deste ensino.

Hugo prossegue analisando e descreve ao que se refere estes três tópicos: um pelas coisas que dizemos, e os outros dois, pelo modo com as dizemos; o que cumpre isto cabalmente, é verdadeiramente um homem eloquente, isto é, é alguém que ensina em sinceridade e verdade.

No mais, Hugo elenca novamente Santo Agostinho, quando este diz que será eloquente aquele que puder ensinar o pequeno com humildade, o moderado com moderação e o grande com elevação. Em suma, nisto concerne a arte de ensinar, a qual só é dominada por aqueles que dominaram e vivenciam plenamente a arte de aprender. 

***

E termina aqui estas nótulas ao “De Modo Dicendi et Meditandi” de Hugo de São Vítor. Bendito seja Deus por todas as coisas. Amém. 



[1] Hugo de São Vítor, Didascalicon: Sobre a Arte de Ler [Campinas, SP; Kírion, 2018], pág. 25-27.

[2] cf. PL 176, pág. 877-880. Quanto a este texto se tem uma tradução disponível na internet como “O Modo de Aprender e Ensinar”, a qual é muito boa. Por isso, se o prezado leitor quiser verificar é um texto aberto e que está disponível para leitura na internet. 

[3] Santo Agostinho, Confissões [Coleção Clássicos de Bolso. São Paulo: Paulus, 2002], livro X, cap. 8, n. 12, pág. 278.

[4] C. S. Lewis, Um Experimento em Crítica Literária [Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2019], pág. 151-152.

[5] Santo Agostinho, Op. Cit., livro X, cap. 9, n. 16, pág. 281. 


Resposta sobre abusos litúrgicos

Prólogo.   Vossa dileção houvera me indagado as seguintes questões a respeito dos abusos litúrgicos: I) O que é abuso litúrgico? II)...