30/03/2026

O cristianismo imaginário

I

 

A dualidade, ou o dualismo, entre imaginação e realidade é algo que se manifesta naqueles que foram assomados por alguma doença mental, seja de doenças graves seja de doenças que num primeiro momento são imperceptíveis; esta dualidade, por sua vez, é assaz prejudicial para a saúde psíquica de um indivíduo, e por consequência, da sociedade.

Esta dualidade cria uma falsa imagem mental a respeito do que o indivíduo diz e o que o indivíduo faz; isto é chamado em relação a conduta de hipocrisia, ou em casos mais abruptos de descaro; mas, a gravidade do problema vai muito além das máscaras da hipocrisia ou dos males do descaro; a gravidade da dualidade entre imaginação e realidade é a calcificação de uma doença que afeta todo o ser do indivíduo e não apenas sua mente.

E isto afeta tudo no indivíduo, até mesmo a concepção religiosa; na verdade, essa dualidade entre imagem mental e realidade é a causa de muitas pessoas professarem a fé cristã e não viverem de acordo com a fé professada; as mais das vezes, fala-se que isso é hipocrisia ou algo similar; em alguns casos, este juízo de valor está correto; mas na maior parte das vezes, o que ocorre é justamente a dualidade entre imaginação e realidade; pois, se se coloca a imaginação sob o que é irreal, o indivíduo passa a imaginar tudo o que quer como se fosse algo real mesmo se não houver fundamento real.

Por isso, muitos cometem as mais terríveis abominações e ainda se dizem “cristãos”, porque imaginam algo irreal como se fosse real: isto é, imaginam que são cristãos quando a conduta que possuem diz totalmente o contrário. E isto é algo aterrador do ponto de vista da fé, pois a esquizofrenização da relação entre imagem mental e realidade, não só destrói a inteligência, mas putrifica a personalidade. Além do que, isso é a base donde se desenvolve as várias espécies de esquizofrenia psíquica. Pois, o esquizofrênico não só é aquele que diz ser outrem, mas aquele que diz ser algo quando a própria conduta diz totalmente o inverso.

Deste modo, a dualidade entre imaginação e realidade é a causa das pessoas pensarem o irreal, e viverem o irreal como se fosse algo real; no sentido cinematográfico, é a instituição da Matrix; neste caso, da Matrix na conduta sócio-pessoal, já que acaba-se por instituir um condicionamento psicológico que se assoma a toda uma sociedade: a de indivíduos que criam imagens irreais na mente e vivem como se estas imagens irreais fossem a própria realidade; nos termos descritos, criam-se bolhas onde é permitido a hipocrisia e o descaro. Outrossim, é que em relação a religião, a partir disto cria-se um cristianismo imaginário ou um cristianismo a gosto do freguês.

 

II

 

O cristianismo imaginário manifesta-se não de maneira oficial, mas na conduta daqueles que se dizem “cristãos”; pois, aqueles que imaginam de maneira irreal que cometendo abominações ainda podem se dizer cristãos, são de fato os que estão esquizofrenizados pela dualidade entre imaginação e realidade. Esta esquizofrenização faz com que aqueles que professam ser “cristãos”, contradigam a fé que dizem professar com falta de retidão e com falta de moralidade – em tempos hodiernos, principalmente com imoralidade sexual.

Assim, observa-se as seguintes características do cristianismo imaginário:

(i) professam a fé, mas praticam coisas que vituperam totalmente o que professam (cf. Mt 23.27-28); e fazem isso porque imaginam irrealisticamente que não falarem coisas hediondas diminui a gravidade de praticarem coisas hediondas. O cristianismo imaginário gera esquizofrenia linguística, e vice-versa.

(ii) professam os artigos da fé, mas não vivem em retidão; confessam a fé enquanto doutrina, mas vivem em práticas abomináveis (cf. Jr 5.26-31); e fazem isso porque imaginam irrealisticamente que confessarem algo os livra de terem que ter conduta digna inerente ao que professaram. O cristianismo imaginário gera uma casta anti-sinceridade, e vice-versa.

(iii) participam dos elementos exteriores da fé, até se portam exteriormente como fiéis, mas a graça não atua no coração posto a imoralidade e a falta de retidão em que vivem (cf. Jr 5.25); e fazem isso porque imaginam irrealisticamente que participar de elementos eclesiais os torna fiéis enquanto estão vivendo em prostituição e imoralidade. O cristianismo imaginário gera uma religiosidade morta e mortífera, e vice-versa.

(iv) tentam amenizar ou atenuar as imoralidades que cometem através da falta de disciplina ou falta de repreensão bíblica (cf. Hb 12.8); e fazem isso porque imaginam irrealisticamente que a atenuação de uma imoralidade desfaz o mal moral da culpa do pecado, quando na verdade a tentativa de atenuar a imoralidade ou a falta de retidão é afrontar a Deus; por isso, cria-se uma falsa concepção de misericórdia, onde a misericórdia é utilizada para embasar todo tipo de imoralidade e de falta de retidão (cf. Rm 6.1). O cristianismo imaginário gera imoralização da misericórdia, e vice-versa.

(v) inventam um cristianismo não-bíblico, já que deliberadamente e obstinadamente rejeitam os preceitos bíblicos (cf. Jr 6.10); dizem ter fé, mas rejeitam o fundamento da fé; e fazem isso porque imaginam irrealisticamente que podem ser cristãos vivendo contra as Escrituras ao rejeitarem o que as Escrituras ensinam (cf. Jr 8.9b, 9.6). O cristianismo imaginário gera um cristianismo anti-bíblico, e vice-versa.

Estas são apenas algumas características do cristianismo imaginário; existem inúmeras outras; pois, o cristianismo imaginário não só cria outro cristianismo em relação a conduta, na permissividade vil e abominável com a falta de retidão e com as mais variadas formas de prostituição, mas também institui de maneira passiva outros critérios para a formulação da fé - ou dito em outros termos, cria-se uma ampla gama de novas proposições (sofismas) as quais são todas contra o verdadeiro fundamento da fé. Na verdade, o cristianismo imaginário gera um cristianismo movido de acordo com mercado negro das novidades globalistas.

Aliás, neste mesmo sentido, o cristianismo imaginário cria uma falsa percepção de no que constitui a fidelidade a fé reta e sólida; pois, os cultores do cristianismo imaginário criam a dualidade entre Escritura e Tradição: (1) desprezam sofisticamente a Tradição em nome de um falso biblicismo, (2) ou em nome de supostamente seguirem a Tradição desprezam e desobedecem aos mandamentos bíblicos; etc. O cristianismo imaginário despreza o fundamento da fé, a Escritura, e desfigura a regra paralela ao fundamento da fé, a Tradição; ou em casos ainda mais abruptos, ainda escarnecem da regra próxima da fé, o Magistério (Catolicismo) ou princípio magisterial (Ortodoxia).

 

III

 

Ora, ao ter se evocado algumas características do cristianismo imaginário, convém mencionar também no que consiste o credo do cristianismo imaginário, o qual é uma perversão total do credo bíblico e apostólico; as crenças do cristianismo imaginário são anti-bíblicas ao mesmo tempo em que busca usurpar a Tradição Apostólica.

Pois, tudo que é anti-bíblico é usado para usurpar a Tradição Apostólica. E, de fato, tudo no cristianismo imaginário é anti-bíblico, embora o cristianismo imaginário arrole para si uma falaciosa biblicidade ou um falacioso tradicionalismo, os quais demonstram o ideologismo inerente ao cristianismo imaginário.

Eis, portanto, o credo do cristianismo imaginário:

1. O cristianismo imaginário afirma a crença em Deus, mas num “deus” inventado de acordo com a esquizofrenia linguística ou com a imoralização da verdade.

2. O cristianismo imaginário afirma a crença em Jesus, mas num Jesus inventando de acordo com a incontinência de cada um; o Jesus do cristianismo imaginário é pior do que os “Jesuses” dos teóricos da busca do Jesus Histórico.

3. O cristianismo imaginário afirma a crença no Espírito Santo, mas em espiritualidades desordeiras e irracionais; para o cristianismo imaginário a desordem e a irracionalidade se tornam parte da espiritualidade.

4. O cristianismo imaginário afirma a crença na salvação, mas numa salvação que não tem boas obras (cf. Tg 2.17-26); o cristianismo imaginário propaga que a salvação é obtida sem necessidade de retidão na conduta.

5. O cristianismo imaginário afirma a crença na Igreja, mas numa “igreja” que muda de acordo com as novidades e com os ventos de doutrinas.

6. O cristianismo imaginário afirma a necessidade da doutrina social, mas que não é doutrina social e sim ideologia social com invólucros religiosos; para o cristianismo imaginário o social se torna mais importante do que a doutrina.

7. O cristianismo imaginário afirma a necessidade do amor, mas não do amor verdadeiro e sim de um “amor” que que rejeita os preceitos da verdade. A caridade para o cristianismo imaginário é uma caridade sem verdade.

8. O cristianismo imaginário afirma que seguem o caminho da obediência, mas desobedecem obstinadamente aos preceitos bíblicos; aliás, para o cristianismo imaginário qualquer um que fale sobre preceitos ou mandamentos é egoísta ou egocêntrico.

9. O cristianismo imaginário afirma que adoram a Deus, mas propagam a prostituição litúrgica; para o cristianismo imaginário a liturgia muda de acordo com o gosto do freguês; aliás, para o cristianismo imaginário a prostituição litúrgica se torna algo normal.

Estes são os principais artigos do credo do cristianismo imaginário, os quais são total perversão da fé reta e sólida; assim sendo, a partir do credo do cristianismo imaginário se consegue compreender os caminhos de muitos que dizem “cristãos”, mas na verdade seguem um cristianismo inventado a partir da corrupção da imaginação de homens vis e iníquos.

Na verdade, este tem sido o retrato da cristandade em tempos hodiernos; deixaram o verdadeiro cristianismo em função de um cristianismo imaginário, simplesmente para agradar as massas em práticas abomináveis a Deus.

Que Deus, pois, preserve do engano aqueles que o servem em retidão e santidade para que fiquem livres dos tentáculos do cristianismo imaginário. 

θεῷ χάρις


27/03/2026

Resposta a Fraternidade Sacerdotal São Pio X

1. Nietzsche, com arguta percepção e cirúrgica descrição, afirmara que “a maneira mais pérfida de prejudicar uma causa é defendê-la propositalmente com más razões[1]; ora, a sentença nietzschiana se encaixa perfeitamente naquilo que tem sido chamado de “tradicionalismo católico”, especificamente os tradicionalistas lefebvrianos; a maior parte dos tradicionalistas lefebvrianos, que dizem defender a Tradição, são aqueles que mais prejudicam a própria Tradição; pois, os lefebvrianos que dizem defender a Tradição, na verdade, são os mais pérfidos inimigos da Tradição, porque o que dizem defender o fazem “propositalmente com más razões”.

2. E o que Nietzsche quer dizer com “más razões”? Ora, o mesmo que o aquinate dissera com “má intenção”; pois, Sto. Tomás de Aquino afirmara que a doutrina se corrompe ou pelo que se ensina ou pela intenção daquele que ensina (cf. In I Thes., cap. II, lect. 1); a sentença de Nietzsche sobre as “más razões”, coaduna com esta sentença do aquinate a respeito da corrupção da doutrina pela intenção daquele que ensina; os tradicionalistas lefebvrianos que dizem defender a Tradição, na verdade defendem a Tradição com má intenção, com “más razões”.

3. Por isso, compreender este aspecto é fundamental para entender como que a grande maioria dos tradicionalistas lefebvrianos e outros, amparados pelo demônio da luxuria, pervertem a intenção da doutrina: seja porque não possuem retidão na conduta seja porque são movidos pela vontade de poder ideológica. De fato, as ações dos tradicionalistas lefebvrianos, daqueles que “militam” ideologicamente em função de uma “tradição” inexistente, demonstram cabalmente ou falta de retidão ou sujeição a vontade de poder.

4. A mais cabal propriedade dos tradicionalistas lefebvrianos tem sido a perfídia; neste quesito, se assemelham a Lutero e a heresia protestante; de fato, as razões dos lefebvrianos são pérfidas; por isso, os tradicionalistas lefebvrianos tem sido aqueles que mais tem prejudicado a Sagrada Tradição; para exemplificar isso, analisemos a última demanda dos tradicionalistas, na questão das ordenações da “Fraternidade Sacerdotal São Pio X” (doravante, FSSPX); evidentemente, o requerimento da FSSPX, além de teologicamente errôneo, o que deveriam saber por dizerem-se defensores da Tradição, no principium do direito canônico demonstra um erro ainda mais grave. Analisemos estes aspectos.

5. Ora, o requerimento das sagrações episcopais da FSSPX, além obviamente de ferir princípios teológicos fundamentais da teologia católica, tais como a autoridade do primado petrino, a autoridade e a dignidade da sucessão apostólica, o preceito da Tradição Apostólica sobre as ordenações episcopais, etc., também são uma tentativa de coação para com o Romano Pontífice; em suma, o requerimento das sagrações episcopais da FSSPX, é tido como “certo” pelos lefebvrianos devido a dois argumentos: (i) o estado de necessidade; e, (ii) a possibilidade moral e canônica das consagrações.

6. Quanto ao primeiro argumento, em relação a promoção de um suposto de estado de necessidade pela FSSPX, que é tido pelos líderes lefebvrianos como a “razão de ser das consagrações”, se tem, evidentemente, uma série de falácias; pois, a proposição de um estado de necessidade quanto a sagrações episcopais, se dá obviamente em ordem aos governos eclesiásticos diocesanos (ou de administrações apostólicas), amparados pelo governo eclesiástico arquidiocesano ou pelo governo eclesiástico patriarcal; do contrário, não se tem possibilidade formal e nem possibilidade material de estado de necessidade para ordenações episcopais. E este é um raciocínio óbvio de acordo com o modo de operação da Santa Igreja em relação as ordenações episcopais.

Portanto, a ideia de um estado de necessidade evocado pela FSSPX é um sofisma; pois, sequer a ordenação jurídico-canônica da FSSPX permite isso teologicamente; na verdade, nunca antes na história eclesiástica ocorreu um estado de necessidade em relação a ordenação episcopal que não estivesse em ordem a descrição que fora mencionada; e isto, por si, constitui-se de um preceito inviolável da vida interna da Igreja, lembrando do preceito formulado sabiamente por São João Cassiano de que a manifestação da verdade inegável é a autoridade de todos, pois a reta razão residi onde há concórdia e unanimidade[2].

Ora, a verdade inegável a respeito do estado de necessidade fora essa que fora brevemente descrita acima; por isso, neste quesito, a autoridade unânime da Santa Igreja ao longo da história sempre foi a mesma, e permanece inalterável e imutável; e é estranho que aqueles que dizem defender a Tradição não conhecerem o preceito próprio da Tradição Apostólica quanto a esse assunto, o qual, como fora dito, permanece inalterado ao longo dos séculos.

Assim sendo, é mais do que óbvio que não existe estado de necessidade tal como arrolado pela FSSPX; aliás, a falácia de que a alta hierarquia da Igreja está em grave falta espiritual, além de erro teológico, é falta da compreensão sobre a humanidade dos sucessores dos apóstolos; a Tradição, assim como a sucessão apostólica, é infalível, mas não é inerrante.

Portanto, querer inerrância dos sucessores dos apóstolos, ou da alta hierarquia da Igreja, é exigir algo que não é parte da natureza da Igreja como instituída pelo Senhor Jesus Cristo; a Tradição, assim como os sucessores dos apóstolos, estão sujeitos a errarem, como a Sagrada Escritura demonstra (cf. At 10.9-16; Gl 1.11-14); etc.

7. E, quanto ao segundo argumento, em relação a possibilidade moral e canônica das consagrações, o que os senhores da FSSPX promovem abruptamente neste quesito contradiz uma série de princípios doutrinários fundamentais, entre os quais, os três que foram mencionados: (i) o preceito da Tradição Apostólica sobre as ordenações episcopais; (ii) a autoridade do primado petrino; (iii) a autoridade e a dignidade da sucessão apostólica. Com efeito, convém analisar a proposição da FSSPX em relação a possibilidade moral e canônica das consagrações episcopais, a partir deste tripé doutrinário evocado, para com isso compreender o vilipêndio doutrinário destas sagrações episcopais.

8. [i] O preceito da Tradição Apostólica sobre as ordenações episcopais; ora, o mais comum e antigo preceito da Tradição Apostólica sobre as ordenações episcopais, oriundo dos preceitos do Apóstolo (cf. 1Tm 3.1-7), afirma: “Nenhum Bispo deve conceder ordenação fora de sua jurisdição sem permissão dos responsáveis locais[3]; ou seja, para haver ordenação episcopal há de haver permissão dos responsáveis da Igreja Local, isto é, dos bispos de uma nação ou de uma região diocesana, ou arquidiocesana, ou patriarcal; do mesmo modo, o preceito da Tradição Apostólica ensina que: “Um Bispo será ordenado por dois ou três Bispos[4], ou seja, a ordenação episcopal só pode ocorrer diante de dois ou três bispos, com o devido consentimento dos sucessores dos apóstolos da região para onde se quer instituir estas ordenações.

Portanto, para haver ordenação episcopal, antes propriamente de se averiguar o preceito do direito canônico, há de se averiguar as características ensinadas pelos Santos Apóstolos e há de se averiguar os preceitos da Tradição Apostólica, para se chegar a um juízo teológico sóbrio quanto ao que concerne a ordenação episcopal; somente depois de aferido estes aspectos é que se pode falar de possibilidade moral e canônica de ordenações episcopais.

E, como o requerimento da FSSPX não cumpre estes requisitos teológicos, então o requerimento das sagrações episcopais da FSSPX não tem base teológica, e por isso não se estabelece em ordem a possibilidade moral e canônica de ordenações episcopais. Ou seja, as ordenações episcopais pretendidas pela FSSPX além de serem anti-teológicas são anti-canônicas.

9. [ii] A autoridade do primado petrino; ora, se a proposição em relação a ordenação episcopal não cumpre o requisito mencionado, então não só se tem a contrariedade ao preceito da Tradição Apostólica em relação a ordenação episcopal, mas também a afronta insolente contra a autoridade do primado petrino; é algo que convém ao Romano Pontífice, o sucessor de São Pedro, ouvindo ou não conselhos de outros bispos ou de quem quer que seja, para designar o que convém sobre a ordenação episcopal diante do juízo e aquiescência de outros bispos.

Portanto, se a FSSPX quer fazer sagrações episcopais sem mandato petrino, então incorrem em afronta a autoridade do sucessor de São Pedro; ou dito em outros termos, incorrem em vituperação da autoridade do primado petrino. Com isso, as sagrações da FSSPX violam a autoridade do Sumo Pontífice; ou no caso, manifestam-se como uma tentativa de usurpação da autoridade do Sumo Pontífice.

E se são tentativa de usurpação, como de fato se constata, então é anátema; pois a mais vil e abjeta ação contra a fé reta e sólida é a usurpação, já que a usurpação é o sentimento mais contrário a fé cristã, como se extrai de uma glosa feita a partir de uma sentença do Apóstolo (cf. Fp 2.5-6); etc.

10. [iii] A autoridade e a dignidade da sucessão apostólica; ora, a proposição da ordenações episcopais da FSSPX não somente são afronta a autoridade petrina, mas igualmente uma afronta e vilipêndio a autoridade e a dignidade da sucessão apostólica; as proposições da FSSPX de fato afrontam a autoridade e a dignidade da sucessão apostólica, pelas razões já mencionadas.

E se se fosse ainda adentrar ao que os Padres da Igreja falam sobre este assunto, se saberia que tal afronta é tão grave quanto as ações e as doutrinas dos heresiarcas antigos; por exemplo, os tradicionalistas que vituperam a autoridade e a dignidade da sucessão apostólica são tão inimigos da fé como foram Marcião, Ário, Pelágio, etc.

Aliás, a vituperação da autoridade e da dignidade da sucessão apostólica, demonstra que aqueles que assim procedem - no caso em voga, a FSSPX -, não só incorrem em usurpação, mas em violação grave da unidade da Igreja.

11. Assim, a partir deste tripé doutrinário para a explicação das ordenações episcopais, se compreende que não existe possibilidade moral e nem canônica das consagrações episcopais da FSSPX; e nem se precisou adentrar na compreensão do principium do direito canônico a este respeito; pois, como é mais do que óbvio o direito canônico emerge da Tradição Apostólica; assim, se pois a partir da autoridade da Sagrada Tradição se tem a confutação do que os senhores da FSSPX dizem ser uma possibilidade moral e canônica das sagrações, então nem sequer se precisa evocar a análise a partir do direito canônico. Se não tem fundamento teológico não tem fundamento no direito canônico.

12. Além destes aspectos concernentes a sagrada teologia diante da atitude da FSSPX de instituir estas sagrações sem o mandato apostólico, arrolando para estas sagrações o estado de necessidade e a possibilidade moral e canônica das consagrações, e querendo que o Romano Pontífice aprove tal sagrações a partir destes argumentos, o que de fato a FSSPX está fazendo é uma tentativa de coagir o sucessor de São Pedro; se não tem ordem teológica e hierárquica adequada para tais sagrações episcopais, então, ao quererem que o Romano Pontífice aprove isso, se tem de fato uma tentativa de coagir o Papa a aprovar algo sem a devida ordem para tais sagrações.

Ora, a tentativa de coagir o Romano Pontífice é cisma; pois, é parte do que é descrito no direito canônico como recusa da sujeição ao Sumo Pontífice (vd. apêndice)[5]; a recusa a se sujeitar ao Sumo Pontífice não somente é manifesta na desobediência hierárquica, mas também na tentativa de exercer pressão ou coação para pressionar o Sumo Pontífice contra sua livre vontade ou contra a liberdade inerente a Sua autoridade na vida interna da Igreja; portanto, a ação dos senhores da FSSPX consiste em cisma. E este é um dos delitos/pecados mais graves, não só na teologia sagrada, mas também no direito canônico.

Assim sendo, o requerimento da FSSPX com relação as sagrações episcopais, constitui-se em cisma, pois é uma tentativa de coagir o Sumo Pontífice, já que tais sagrações não tem fundamento teológico; portanto, por todos os meios fica mais do que evidente que as consagrações episcopais da FSSPX se constituem em ato cismático.

13. E, por fim, ao escrever contra os tradicionalistas lefebvrianos diante da indecente coação da FSSPX para ordenações episcopais, principalmente os lefebvrianos do meio midiático, aproveito o ensejo para falar sobre a nefanda conduta dos tradicionalistas lefebvrianos que querem defender a Tradição sem viverem em retidão; pois, segundo o Apóstolo: “requer-se nos despenseiros que cada um se ache fiel” (1Co 4.2), ou seja, para se defender a Tradição se deve antes haver retidão, fidelidade absoluta a Deus e obediência total aos Seus mandamentos; assim, é mais do que óbvio que os mais pérfidos inimigos da Tradição são aqueles que querem defender a Tradição ou ensinar a fé, mas não possuem retidão para tal; assim sendo, para se defender a Tradição é necessário caráter ilibado e conduta reta.

14. Deste modo, se constata alguns exemplos terríveis no caso de alguns dos lefebvrianos brasileiros; pois, se percebe as seguintes ações nefandas do lefebvrianismo midiático no Brasil e em outros países:

(i) querem ensinar sobre a fé, mas não conhecem a fé: tanto por falta de conhecimento doutrinário quanto por falta de retidão moral.

(ii) dizem conhecer algo sobre a fé, quando na verdade cometem as mais terríveis imbecilidades sobre as conclusões racionais; e como é que querem defender a fé se são imbecis; a imbecilidade mórbida que propagam é um terrível inimigo da fé, pois a irracionalidade é obra do demônio (cf. 2Ts 2.11s).

(iii) dizem defender algo, mas o fazem com “más razões”, com a intenção corrompida. Pois, requer que aqueles que defendam a fé, o façam com a intenção santa.

(iv) querem ensinar sobre modéstia, mas não possuem moralidade sexual; não há modéstia onde não há moralidade sexual; a mais terrível afronta a modéstia é justamente a prática da imoralidade sexual; e os que ensinam sobre modéstia, as mais das vezes mulheres, principalmente aquelas que estão na mídia, não possuem retidão moral para ensinar sobre modéstia; pois, estas pífias tradicionalistas lefebvrianas que querem ensinar sobre modéstia são mulheres que vivem em promiscuidade sexual (ou nos termos bíblicos, em prostituição), e estas são as que insolentemente e luxuriosamente que querem ensinar sobre modéstia; estas são as mais pérfidas inimigas da modéstia.

(v) atacam a hierarquia da Igreja afirmando que não possuem moral ou algo similar, quando na verdade são os próprios tradicionalistas lefebvrianos que estão envoltos nas mais terríveis imoralidades e/ou sandices.

15. Assim, se percebe que a nefanda conduta dos lefebvrianos midiáticos, a partir dos aspectos supramencionados, é expressão de: (i) falta de conhecimento (cf. Jr 6.10, 9.6); (ii) imbecilidade (cf. Sl 10.4); (iii) intenção corrompida (cf. Jr 5.25-28); (iv) imoralidade sexual (cf. Jr 3.9); (v) hipocrisia e descaro (cf. Mt 12.34); etc. Com efeito, se observa que neste tipo de tradicionalismo, se tem todo tipo de infâmia condenada veementemente na Sagrada Escritura; e os tais são os que se dizem defensores da Tradição; por isso, a sentença cirúrgica de Nietzsche evocada no início se encaixa perfeitamente nos tradicionalistas lefebvrianos: “a maneira mais pérfida de prejudicar uma causa é defendê-la propositalmente com más razões”. As “más razões”, a intenção corrompida dos lefebvrianos são expressão inconcussa de que são movidos pela vontade de poder e não pela santidade que busca defender a verdade.

16. Deste modo, o que fora dito basta por enquanto para confutar os ignóbeis tradicionalistas lefebvrianos a respeito tanto da vil tentativa de coagir o Romano Pontífice em relação as ordenações episcopais declaradas pela FSSPX, quanto para demonstrar que num geral, com poucas exceções, os lefebvrianos, principalmente os lefebvrianos midiáticos, não possuem retidão para sequer se dizerem “cristãos”.

Este é apenas um escrito generalíssimo a este respeito, mas que é mais do que suficiente para demonstrar a falta de fundamento teológico nas sagrações da FSSPX e para declarar, a guisa de introdução, a nefanda conduta daqueles que, movidos pela vontade de poder, dizem defender a Tradição, quando na verdade são os mais pérfidos inimigos da Sagrada Tradição. 

17. E termina aqui este escrito. Bendito seja Deus por todas as coisas. Amém. 


Apêndice:

Breve Explicação do Cânon 751 do Código de Direito Canônico.


No livro III do “Código de Direito Canônico”, Cânon 751, se diz o seguinte: Diz-se heresia a negação pertinaz, depois de recebido o baptismo, de alguma verdade que se deve crer com fé divina e católica, ou ainda a dúvida pertinaz acerca da mesma; apostasia, o repúdio total da fé cristã; cisma, a recusa da sujeição ao Sumo Pontífice ou da comunhão com os membros da Igreja que lhe estão sujeitos”. 

Este Cânon é dividido em três partes: a primeira, na qual se fala da heresia: “Diz-se heresia, etc.”; a segunda, na qual se fala da apostasia: “apostasia, etc.”; a terceira, na qual se fala de cisma: “cisma, etc.”.

Especificamente aqui explicar-se-á brevemente no que consiste a terceira parte, a respeito de cisma. Pois, obviamente, heresia e apostasia são a antessala de algum ato cismático.

No entanto, a substância do cisma de fato é a recusa consciente em sujeitar-se ao Sumo Pontífice; e a recusa em sujeitar-se ao Sumo Pontífice manifesta-se de três modos: primeiro, com a desobediência a autoridade do Sumo Pontífice; segundo, com a usurpação da autoridade do Sumo Pontífice; terceiro, com a tentativa de coagir o Sumo Pontífice a fazer algo que convém a Sua autoridade apostólica.

Portanto, se houver manifestação consciente e deliberada de algum destes três aspectos, então se tem ato cismático; aliás, as formas de recusa a sujeitar-se ao Sumo Pontífice, também são um vilipêndio total contra um dos pilares da fé católica-romana, a autoridade do Magistério; a recusa em sujeitar-se ao Sumo Pontífice no que compete à Sua Autoridade apostólica é rejeição de todo o Magistério.

Deste modo, seja na desobediência ao Sumo Pontífice, seja na usurpação da autoridade do Sumo Pontífice, ou na tentativa de coagir o Sumo Pontífice, se tem ato cismático; e todo ato cismático é uma afronta e escárnio tanto do Magistério Vivo quanto do Magistério Histórico da Santa Igreja, isto é, é afronta terrível tanto ao Sumo Pontífice em exercício quanto aos Pontífices que já morreram. 

Assim, se alguma ação ou doutrina se enquadra nesta descrição, então de acordo com o direito canônico se tem cisma. E a questão da coação para com o Sumo Pontífice é o mais vilipendioso, nefasto e demoníaco ato cismático. 



[1] Friedrich Nietzsche, A Gaia Ciência [São Paulo: Martin Claret, 2012], livro III, n. 191, pág. 132. 

[2] cf. São João Cassiano, De Incarnatione, I, cap. 6. 

[3] Cânones Apostólicos, § 25. 

[4] Ibidem, § 1. 

[5] cf. Código de Direito Canônico, livro III, cân. 751. 


Conselhos aos Jovens sobre a Vida Casta

Prólogo

 

Prezado colega, recebi vossa indagação sobre o que é necessário para viver uma vida casta, e decidi lhe responder já que você sendo jovem conheceu a fé a pouco tempo; e o faço também como sendo jovem, pois também sou jovem; e respondo-lhe, tecendo alguns conselhos aos jovens sobre como viver a vida casta de acordo com a reta razão e de acordo com a Sagrada Escritura; pois, é parte do que concerne a fé verdadeira a compreensão sobre como se deve viver.

E espero que estas ponderações lhe encontrem bem, a fim de que consiga entender que a ordenação divina para a vida cristã é a castidade, lembrando do dito de Santo Agostinho no livro X das “Confissões”: “Tu nos ordena à continência” (cap. XXIX), isto é, Deus nos ordena a castidade; pois, a incontinência, a falta de castidade, destrói a inteligência (cf. Os 4.11); etc.

De fato, para todos os fiéis, especialmente para os jovens, a castidade é de uma imensa utilidade; pois, a unidade da fé só é preservada através da vida casta dos fiéis; e a juventude só é plenamente vivida e usufruída em toda sua beleza e força através da vida casta. Ser casto: isto significa ser jovem.

Eis, portanto, alguns conselhos aos jovens sobre como viver em castidade:

 

§ 1

 

Crie o hábito de ler a Sagrada Escritura todos os dias (cf. Sl 119.97); separe um momento do dia, seja de manhã ou de noite, ou o horário que puder, e todos os dias leia a Escritura neste momento com disciplina inquebrantável (cf. Dt 17.19). A leitura e a meditação da Sagrada Escritura mostrar-lhe-á o caminho para os pastos do Bom Pastor (cf. Jo 5.39; Sl 23.1-6).

 

§ 2

 

Crie o hábito de orar todos os dias (cf. 1Ts 5.17); separe um momento do dia, se possível em conjunto com o da leitura da Sagrada Escritura, seja de manhã ou de noite, ou o horário que puder, e todos os dias pratique a oração (cf. Ef 3.14); pode ser a oração do rosário inteiro, ou o terço, ou a oração do coração; e acople a isso orações outras, tanto de devocionários quanto orações espontâneas diante de Deus (cf. Fp 4.6-7), e sempre com sinceridade (cf. Sl 51.17). A oração constante e contemplativa lhe conduzirá para o conhecimento de Deus e o conhecimento de si mesmo.

 

§ 3

 

Conheça a si mesmo; quem conhece a si mesmo evita muitos erros e desvios; o conheci de si, alcançado a medida do conhecimento de Deus, sempre lhe será um útil aliado na senda da castidade. Um princípio da sabedoria espiritual é conhecer a si mesmo, para alcançar a sinceridade sobre si diante de si e diante de Deus.

 

 

§ 4

 

Não tenha receios quanto a se expor totalmente diante de Deus; seja totalmente sincero consigo e diante de Deus; exponha a Deus todos os buracos de sua alma; conte a Deus tudo o que sente, e deixe Ele te curar com Seu Espírito a medida de sua sinceridade e de vossa busca pela santidade.

 

§ 5

 

Obedeça aos mandamentos divinos; a obediência aos mandamentos é a fonte da firmeza para a vida casta; quem obedece a Deus é fortalecido para a vida na fé; na verdade, quem obedece aos mandamentos divinos demonstra que verdadeiramente ama a Deus (cf. Jo 14.14). E o amor a Deus é o que lhe conduzirá cada vez mais à perfeição necessária da vida casta; lembre-se que este caminho deve ser palmilhado de acordo com a medida da estatura de Cristo (cf. Ef 4.13). Ame a Deus para ser casto e seja casto para demonstrar o vosso amor a Deus.

 

§ 6

 

Tenha disciplina nas coisas cotidianas; saiba ponderar sobre o vosso estado de vida, e procure exercê-lo da melhor maneira possível: seja no trabalho manual, seja no estudo, etc.; e em vosso estado de vida, procure concatenar a disciplina necessária para a excelência no que realiza, e o descanso necessário para a vossa saúde física e mental.

 

§ 7

 

Busque para si momentos de lazer; todavia, se acautele dos divertimentos, pois os divertimentos conduzem à perdição. No lazer, pratique algum esporte ou hobby; e evite sempre o que é pecaminoso ou o que conduz ao pecado.

 

§ 8

 

Se possível, participe ativamente nas atividades eclesiais; vá a liturgia, preferencialmente em liturgias onde não se tem abuso litúrgico; não vá em liturgias bagunçadas ou onde há loucura espiritual na liturgia; participar na liturgia lhe será sempre muito útil em tudo que diz respeito as coisas da fé.

 

§ 9

 

Busque ler e estudar; se não tiver formação intelectual adequada, inicie a leitura e o estudo da literatura de vossa língua pátria (no caso, a língua portuguesa e a literatura brasileira); a formação literária é um eficaz meio para a formação da personalidade, e o meio mais eficaz para evitar ser açambarcado pelo emburrecimento programado.

 

§ 10

 

Estude sobre a vida dos santos; tanto dos santos doutores, quanto daqueles que são chamados “santos do cotidiano”; a inspiração da vida dos santos sempre é um grande fanal para a compreensão sobre a vida casta.

 

§ 11

 

Sempre tenha cautela e não se ajunte com aqueles que escarnecem da castidade; pois, os que escarnecem da castidade estão dominados pelo demônio da luxúria. E jamais despreze o que ouvir a respeito da castidade, seja proveniente donde for (cf. 1Ts 5.21). E saiba de uma coisa: o demônio da luxúria sempre atua através do escárnio para instituir alguma forma de desprezo contra a castidade ou para enfraquecer a força de vontade daqueles que buscam viver em castidade. O escárnio é uma raposinha que corrói a vinha da castidade.

 

§ 12

 

Tenha muita vigilância com os melindres da luxúria; pois, o demônio da luxuria atua de todos os modos para gerar rejeição e/ou despeito contra a disciplina da castidade. As tentações da luxúria sempre se manifestam com tentativas de amenizar ou atenuar as consequências espirituais da incontinência. Vigie com estes melindres, pois é através deles que muitas das vezes os jovens cristãos decaem da vida casta.

 

§ 13

 

E, por fim, sempre tenha diante de si a meditação sobre a morte; pensar sobre a própria morte ajuda a entender os caminhos nos quais se tem vivido. Lembre-se que um dia vais morrer (cf. Gn 3.19b); e lembre-se que um dia haverá de prestar contas diante de Deus por tudo o que fez por meio do corpo (cf. Ec 12.14; 2Co 5.10). Se viveres em castidade e santidade irás para o céu (cf. Jo 14.1-3; Hb 12.14); mas, se viveres em incontinência, prostituição e te esqueceres de Deus irás para o inferno (cf. Sl 9.17; 1Co 6.10; Ap 21.8).

 

Epílogo

 

Assim, tendo tecido estes conselhos, espero que lhes sirvam bem; pois, seguindo este caminho, saberá o que concerne a vida casta e como deve proceder ao iniciar nesta senda árdua; certamente, a castidade poderá parecer difícil num primeiro momento, e até penosa em outros; mas se seguir com firmeza e perseverança neste caminho, que é o caminho santo da vida cristã (cf. 1Ts 4.3-5), certamente alcançará graça e misericórdia (cf. Sl 84.11), tanto para viver dignamente diante de Deus (cf. Fp 1.27), quanto para honrá-Lo com boas obras (cf. Mt 5.16; Ef 2.10). Se fores fiel a estes conselhos, compreenderás ainda muitos outros que estão inseridos e não foram mencionados, e assim poderá alcançar a sabedoria necessária à vida casta. Que Deus o conduza e lhe fortaleça no caminho da castidade. A Ele glória eternamente. Amém. 


23/03/2026

A Sublimidade de Cristo: Resposta ao Satãnyahu

1. A dignidade de um indivíduo é aferida a partir do que este indivíduo fala de Cristo; e isto é uma regra válida tanto para cristãos quanto para não-cristãos; na verdade, psicologicamente se pode afirmar de maneira cabal que quando alguém fala de Cristo este alguém desvela o próprio estado de sua alma; quanto mais ilogicidade uma pessoa promove mais imbecilidades profere sobre Cristo; e quanto mais abominações alguém pratica mais ódio este alguém manifesta contra Cristo.

2. Na verdade, diante de infâmias ditas contra Cristo, se volve a memória a imorredoura sentença de Albert Schweitzer: “não há tarefa histórica que revele o verdadeiro interior de um homem como a de escrever uma Vida de Jesus[1]; ou dito em outros termos, não há divã que revela o verdadeiro interior de um homem do que o que este homem profere sobre Cristo; um antigo provérbio árabe dizia que se mede a dignidade de um homem pela qualidade de seus inimigos; e neste mesmo sentido, se mede a excelência de alguém pelo que é dito a seu respeito: não só por homens ilustres e honrados, mas também pelos tolos e imbecis; pois, o elogio de homens ilustres mostra a grandeza de alguém, mas também as tolices e imbecilidades ditas pelos idiotas também mostram a sublimidade de alguém.

3. Em relação a Cristo se dão ambas as coisas: tanto o elogio de pessoas ilustres, quanto a imbecilidade dos retardados; os homens ilustres honram-No e glorificam-No; mas os imbecis e tolos tentam desonrá-lo, ao passo que ao fazê-lo cometendo tantas aberrações, ilogicidades e imbecilidades demonstram a sublimidade do que criticam, pois ninguém inventa mentiras e tolices contra alguém que não tem excelência; as maiores e a mais abruptas mentiras, tolices e imbecilidades são ditas contra os maiores homens e os homens mais excelentes; e não há ninguém tão maldito e ridicularizado pelos imbecis e pelos tolos quanto Cristo; portanto, isso por si já demonstra a suma-excelência de Cristo.

E mesmo diante de tolices, imbecilidades e vilezas, a excelência de Cristo continua a brilhar fulgurantemente; com efeito, tolices, vilezas, infâmias e imbecilidades não ofuscam a glória de Cristo; em contrapartida, tolices, vilezas, infâmias e imbecilidades proferidas contra Cristo demonstram a nefanda indignidade de quem as profere. Como o próprio Dr. Schweitzer dissera, os homens criam um Jesus de acordo com seu próprio caráter; quanto mais pérfido e abjeto for o caráter de alguém, mais tolices e vilezas proferirá sobre Cristo.

4. E diante das vilezas ditas contra Cristo pelo atual primeiro-ministro de Israel, o sr. Satãnyhu, se faz necessário uma resposta a este vil baalita; ora, este vil baalita disse o seguinte: “a história prova que, infelizmente, Jesus Cristo não tem vantagem sobre Gengis Khan, porque se você for forte o suficiente, impiedoso o suficiente, poderoso o suficiente, o mal superará o bem”; esta sentença do sr. Satãnyahu, demonstra uma série de imbecilidades, o qual se utiliza dos seguintes argumentos: (i) o argumento da história; (ii) o argumento da força; (iii) o argumento moral. Na sentença do Satãnyahu se tem, consciente ou não, estes três argumentos, os quais são todos utilizados de forma falaciosa e sofística; na verdade, a sentença do Satãnyahu sobre Cristo é um amontoado de imbecilidades, falácias e vilezas.

5. Ora, diante desta afirmação infame do Satãnyahu, se faz necessário confutá-la. Em primeiro lugar, se confuta o argumento da história; pois, segundo o sr. Satãnyahu: “a história prova que, infelizmente, Jesus Cristo não tem vantagem sobre Gengis Khan”; ora, para se evocar o argumento da história há de se ter provas e evidências históricas; e não há nenhuma prova histórica de que alguém tenha vantagem sobre Cristo; na verdade, o argumento da história prova a veracidade e a sublimidade de Cristo; para a falácia do Satãhyanu Gengis Khan tem vantagem sobre Cristo; no entanto, em toda a história precedente ninguém fala sobre Gengis Khan e o que Gengis Khan construiu acabou.

Portanto, pelo argumento da história, sem nem mencionar Cristo, se sabe que Gengis Khan conquanto tenha sido uma figura histórica na época em que viveu, nada na história precedente o menciona e nem a história subsequente continua suas conquistas, pois o Império Mongol acabou. Todavia, ao se falar de Cristo, toda a história que o precede o menciona, e o que Cristo construiu continua incólume com o passar dos séculos e há de continuar até o fim dos tempos.

6. Assim, pelo argumento da história, em confutação a sentença vil do Satãnyahu, se prova a excelência de Cristo e se demonstra a infinita vantagem que Cristo tem sobre Gengis Khan ou sobre qualquer outro líder histórico ou religioso; ora, pelo argumento da história se prova de dois modos que Cristo é mais excelente: primeiro, pelas profecias bíblicas; segundo, pelos ditos dos povos antigos.

Ora, em relação centenas de profecias bíblicas, se menciona as seguintes:

(i) Cristo é Filho de Deus (cf. Sl 2.7).

(ii) Cristo será ressuscitado do túmulo (cf. Sl 16.10).

(iii) Deus desamparará Cristo em sua agonia (cf. Sl 22.1).

(iv) Cristo sofrerá zombaria e ridicularização (cf. Sl 22.7-8).

(v) Cristo será odiado (cf. Sl 35.19).

(vi) Cristo será traído por um amigo íntimo (cf. Sl 41.9).

(vii) Cristo receberá vinagre e fel (cf. Sl 69.21).

(viii) Cristo nascerá de uma virgem (cf. Is 7.14).

(ix) Cristo será chamado de Emanuel (cf. Is 9.6).

(x) Cristo sofrerá de maneira abrupta e cruel (cf. Is 53.1-12).

(xi) Cristo nascerá em Belém da Judeia (cf. Mq 5.2).

E todas estas profecias foram cumpridas a risca, nos mínimos detalhes. Nenhum outro nome de importância na história mundial, seja religioso ou não, teve profecias sobre sua vinda; somente Cristo teve sua vinda profetizada desde o início do mundo.

7. E, em relação aos ditos dos povos antigos, se evoca os seguintes:

(i) Tácito dissera para os romanos que do Oriente, da Judeia, viria o Mestre e o Senhor do Mundo.

(ii) Nos “Anais do Império Celestial”, se diz que apareceu uma luz no palácio imperial; o imperador chinês, dado o resplendor desta luz, tratou de interrogar os sábios; e estes, por sua vez, trouxeram-lhe livros para lhe mostrar que este prodígio e sinal significava o aparecimento (nascimento) de um grande Santo no Ocidente.

(iii) Ésquilo, em “Prometeu”, dissera que Deus surgiria entre os homens para aceitar sobre si a maldição pelos pecados dos homens.

(iv) Platão, em “A República”, dissera que quando surgisse no mundo um homem justo, moralmente perfeito, os homens o açoitariam, o torturariam e o crucificariam.

(v) Vírgilio, nas “Bucólicas”, descreve uma mulher casta que tendo tido um filho se alegra, pois este filho poria fim a férrea gente (ou em termos teológicos, que salvaria seu povo de seus pecados [cf. Mt 1.21]).

Entre tantos outros relatos; de fato, todas as expectativas dos povos antigos, dos pagãos, também se cumpriram em Cristo. Isso se prova pelo fato de que os reis magos, representantes da expectativa dos povos pagãos, vieram para adorar a Cristo ao saberem que este havia nascido (cf. Mt 2.1-12); etc.

8. Em segundo lugar, se confuta o argumento da força; pois, segundo o sr. Satãnyahu: “a história prova que, infelizmente, Jesus Cristo não tem vantagem sobre Gengis Khan, porque se você for forte o suficiente, impiedoso o suficiente, poderoso o suficiente”; o argumento do Satãnyahu envolve-se da dialética da força; e este argumento tanto permeia a esfera público-estatal quanto a esfera individual; ora, em sentido público-estatal, como afirmara Joseph Ratzinger, “o que deve prevalecer não é o direito do mais forte e sim a força do direito[2]; portanto, na esfera pública-estatal o argumento da força é anti-jurídico e é parte de um belicismo perigoso e assaz prejudicial; etc. E, quanto a esfera individual, é mais do que clarividente de que quem precisa comprovar algo pela força física ou bélica não tem caráter e nem tem dignidade; a força de alguém está na mansidão com que vive, pois a herança da terra é dos mansos e não dos belicosos/truculentos (cf. Sl 37.11).

9. Além do que, o argumento da força, utilizado falaciosamente pelo Satãnyahu, demonstra uma total petição de princípio: pois, a suficiência de algo não se mostra pelo poder ou pela impiedade, mas pela virtude; impetuosidade e poderio são apenas dois nomes para designar um sucesso mundano que é talhado sob os altares da desonra; a respeito disso, Nietzsche houvera alertado: “É à glória que aspiras? / Nessa caso consideres esta lição: / Renuncia a tempo e espontaneamente / À honra![3]; de fato, quem quer honra mundana, isto é, poder e força neste mundo, necessariamente tem de renunciar a honra.

Ora, a “força suficiente, etc.” que o Satãnyahu propaga não é outra coisa senão a desonra que alguém se submete para alcançar sucesso e fama neste mundo; aliás, o texto sagrado também fala contra os judeus quando estes a fim de obterem riquezas e domínio praticam canibalismo e outras abominações (cf. Ez 33.25-26); etc. Assim, pois, se confuta o argumento da força utilizado pelo Satãnyahu, para demonstrar a defasada, inútil e vil visão de mundo que permeia os sionistas; além do que, se os sionistas utilizam-se de maneira neurótica do argumento da força, não podem reclamar se esta força também for utilizada contra os próprios sionistas. Pois, como diz o Senhor Jesus: “porque todos os que lançarem mão da espada à espada morrerão” (Mt 26.52).

10. Em terceiro lugar, se confuta o argumento moral; pois, segundo o sr. Satãnyahu: “a história prova que, infelizmente, Jesus Cristo não tem vantagem sobre Gengis Khan, porque se você for forte o suficiente, impiedoso o suficiente, poderoso o suficiente, o mal superará o bem”; o argumento moral do Satãnyahu demonstra a toda indignidade moral do próprio Satãnyahu; a utilização do argumento moral para embasar vilezas e abominações é a confissão velada de quem comete tais abominações; mas, como este argumento fora utilizado de maneira sofística, convém confutá-lo.

Com efeito, em toda a história mundial se constata um fato indubitável, a saber, o mal nunca triunfa sobre o bem; ainda que o mal possa se avolumar e em alguns momentos pareça vencer, no final o bem sempre triunfa sobre o mal; pois, falta ao mal um fundamento metafísico; o mal é ausência de bem; o mal só vence de maneira temporária e parcial enquanto há ausência de bem; mas, diante de uma só mínima fagulha de bem, o mal começa a ser dissolvido.

Assim, o argumento moral utilizado pelo Satãnyahu por si se demonstra uma falácia; pois, a moral se dá em ordem ao bem e não em ordem ao mal; logo, o argumento moral só é utilizado corretamente em função do bem, ou para refutar o mal; quem se utiliza do argumento moral para desqualificar o bem e enaltecer o mal em si mesmo já comete sofisma no próprio argumento, ou seja, quem assim o faz demonstra ilogicidade e retardo mental.

11. Assim, se tem a confutação da sentença iniqua do Satãnyahu; no entanto, a guisa de peroração, convém mencionar no que consiste a sublimidade de Cristo; e para isso, se evoca as sentenças inspiradas da epístola aos Hebreus, para demonstrar, a partir dos tipos judaicos, que Cristo é superior a toda a lei mosaica e suas cerimônias; pois, a epístola aos Hebreus, segundo Sto. Tomás de Aquino, versa sobre a excelência de Cristo[4]; portanto, ao se mencionar topicamente a excelência de Cristo de acordo com a epístola aos Hebreus, se propugna o dito do salmista que demonstra cabalmente isso: “Entre os deuses não há semelhante a ti, Senhor, nem há obras como as tuas” (Sl 86.8); etc.

12. Ora, deste modo, se evoca os seguintes argumentos sobre a excelência de Cristo a partir da epístola aos Hebreus:

(i) Jesus Cristo é mais excelente do que os anjos (cf. Hb 1.4-2.18).

(ii) Jesus Cristo é mais excelente do que Moisés (cf. Hb 3.1-4.13).

(iii) Jesus Cristo é mais excelente do que os antigos sumo-sacerdotes (Hb 4.14-6.20).

(iv) Jesus Cristo é mais excelente do que Melquisedeque (cf. Hb 7.1-22).

(v) Jesus Cristo é mais excelente como sumo-sacerdote (cf. Hb 7.23-28).

(vi) Jesus Cristo instituiu um pacto melhor e mais excelente do que o pacto da antiga aliança (cf. Hb 8.1-13; 2Co 3.1-18).

(vii) Jesus Cristo é mais excelente como mediador (cf. Hb 9.1-28).

(viii) Jesus Cristo é mais excelente em seu sacrifício vicário (cf. Hb 10.1-18).

(ix) Jesus Cristo é mais excelente porque seu sangue é mais precioso do que o sangue de Abel, pois é um sangue eterno (cf. Hb 12.24, 13.20).

(x) Jesus Cristo é mais excelente porque é imutável (cf. Hb 13.8).

Em suma, estas são algumas considerações feitas sobre a excelência de Cristo a partir da epístola aos Hebreus, que versa sobre a suma-excelência de Cristo em relação aos símbolos e figuras do judaísmo. A excelência de Cristo é comprovada diante da sombra dos bens futuros que a lei mosaica transmitia (cf. Hb 10.1ss); além do que, o próprio rei Davi afirmara sobre Cristo: “Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha mão direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés” (Sl 110.1); etc.

13. Com isso, conclui-se aqui esta breve resposta à infamante e falaciosa sentença do Satãnyahu; de fato, a excelência de Cristo se mostra rebrilhando mesmo diante dos tolos e imbecis que tendo chegado a altas posições neste mundo desferem contra Cristo os lixos que possuem no coração; a excelência de Cristo ecoa em todo o cosmos, e as blasfêmias proferidas contra Cristo não mudam este fato inexpugnável; de fato, as blasfêmias dos iníquos não tem poder de mudar a verdade.

Portanto, bendito seja o nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, “Deus de Deus, luz de luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não feito, consubstancial ao Pai”, o qual por Deus Pai fora feito para os fiéis: sabedoria, justiça, santificação e redenção (cf. 1Co 1.30); a Cristo glória eternamente, o qual vive e reina em comunhão eterna com o Pai e com o Espírito Santo. Amém. 



[1] Albert Schweitzer, A Busca do Jesus Histórico [3ª ed. São Paulo: Fonte Editorial, 2009], cap. I, pág. 14.

[2] In: Jürgen Habermas e Joseph Ratzinger, Dialética da Secularização: Sobre Razão e Religião [Aparecida, SP: Ideias & Letras, 2007], pág. 65.

[3] Friedrich Nietzsche, A Gaia Ciência [São Paulo: Martin Claret, 2012], pról., § 43, pág. 29.

[4] cf. Santo Tomás de Aquino, Super Epistolam B. Pauli ad Hebraeos Lectura, proem. 


A moral e a política

I   A política, quando feita de maneira honrada e virtuosa, se sujeita sem meios termos a moral; política sem moral é política ditatoria...