Nota Inicial.
Este escrito fora uma preleção, a qual li plenamente quando proferida, mas que infelizmente fora perdido a preleção original; o que restou fora uma reportação fragmentária e parcial, a qual comporta algumas falhas; entretanto, mesmo as falhas que estão presentes não atrapalham a ideia central desta preleção, da qual não tenho nenhuma correção a fazer, a não ser a observação do estado parcial e fragmentário da mesma, que pode gerar algum estranhamento por parte do leitor mais bem preparado; pois, esta preleção foi como que um “desabafo” contra todas as loucuras do psicologismo; ademais, apesar do estado caótico em que sobreviveu esta preleção, mantenho com igual severidade toda minha rejeição e repúdio a todas as formas de psicologismo.
Prólogo.
Os auspiciosos desenvolvimentos no campo teórico, seja
nas ciências exatas seja nas humanas, tem proporcionado uma grande gama de
conhecimento; nas Escrituras Sagradas está escrito que em determinado tempo a
ciência se multiplicaria (cf. Dn 12.4). E foi isso o que aconteceu, a ciência
se multiplicou tanto intensiva quando extensivamente; cresceu tanto qualitativa
quanto quantitativamente; cresceu tanto em princípios e leis gerais próprias,
quando em áreas específicas.
No entanto, mesmo em meio a tanto desenvolvimento, tem
aqueles que se tornam prejudiciais ao saber, que precisam ser avaliados e
reconsiderados; em verdade, muitos destes ‘saberes’, se apresentam como
apodícticos, quando são em essência desvarios intelectuais e destonam a ordem
essencial da realidade.
Muitos desses saberes, com o mote de ‘cientificismo’
tem adentrado em várias esferas do campo teórico; este ‘cientificismo’ tenta
abarcar toda a cultura ocidental como seu único pilar, deixando de lado, ou
pelo menos, tratando como subservientes a filosofia, o direito e a teologia.
Com isso surge os “ismos” reducionistas; os filosofismos, os teologismos, os
sociologismos, os cientificismos, etc. (perdoem os neologismos).
Entre os campos do saber que tem sofrido com as
pressuposições equivocadas, dois deles, são os mais afetados, e por
conseguinte, aqueles que mais despejam erros na sociedade; por certo, as que
mais são importantes na sociedade, quando são afetadas por algum erro, serão as
que mais despejaram na sociedade as consequências deste erro.
Os dois campos são a filosofia e a teologia; a
filosofia porque é a mãe e formadora de todas as ciências; a teologia por que é
senhora e imperatriz da filosofia (philosophia ancilla theologiae).
I
Mas o que tratar-se-á tem a ver com uma ciência
extremamente peculiar e controversa, a saber: a psicologia; a problemática se
instaurou quando houve a tentativa de fazer com que a psicologia se instaurasse
sobre as demais ciências, tornando-se assim, pelo menos em tentativa, a mãe e a
imperatriz de todas as ciências; logo, observe que, se a verdadeira mãe da
ciência é a filosofia e a rainha da ciências é a teologia, assim, para a
psicologia alcançar tal premissa para
si, tem reduzir os aspectos da realidade teórica a si; reduzindo-os,
diminuindo-os, sacrificando-os, fica mais fácil tomar seu lugar; a psicologia
como que os vende por trinta dinheiros, e assim, fica sem rumo e sem propósito
definido, e aquilo que era tão bom se torna algo muito ineficiente e imperito.
Esta problemática é o que se chama de psicologismo; o
termo fora cunhado pelo filósofo hegeliano Johann Eduard Erdmann (1805-1892),
para descrever a filosofia de Friedrich Eduard Beneke (1798-1854); Beneke
afirmara que a filosofia deve procurar fundamentos na psicologia, o que também
é proposto por muitos intelectuais hodiernos, inclusive nos arraiais teológicos
e nos círculos filosóficos. Por isso, Erdmann definiu o pensamento de Beneke
como psicologismo[1].
O dicionário de Cambridge diz que psicologismo é “a
doutrina que reduz entidades lógicas, como proposições, universais e números, a
estados mentais ou atividades mentais”[2];
em outros termos, a redução das entidades lógicas a simples funções psíquicas
ordenadas a esmo pelo “eu”.
Com isso, todo campo do saber passa a se resumir a
psicologia; e em se tratando daquelas áreas do saber que tem estruturas
lógicas, como a filosofia e a teologia, estas se tornam amalgamadas a
psicologia, tornam-se apenas uma nota de rodapé para a psicologia, e assim são
reduzidas a meros estados mentais; a religião é reduzida a apenas a uma esfera
muito privada, quando não rejeitada; e a filosofia transforma-se em simples
assentimento mental.
Com isto surge uma questão: Se a filosofia se
desconfigura em meros estados mentais, como se configurará a noção do saber
racional? Se a teologia se desfigura em atividades mentais, como se configurará
a noção da reflexão racional a respeito de Deus? Se ambas se tornam assim,
logo, toda estrutura destas áreas do saber se ruirá em simples julgamento
analítico-comportamental; na verdade, o homem moderno tem desfigurado a
atividade filosófica e a teológica, em pressupostos da psicologia indutiva,
logo, tudo o que se sabe deverá passar pelo assentimento mental de alguém, ou
seja, do que essas pessoas sabem e do que elas supostamente querem dizer sobre
este algo; na verdade, o certo é a articulação geral do conceito que está acima
de cada psique individual, isto é, a compreensão de algo não se dá porque
faz-se análises do que a pessoa está pensando sobre algo, mas sim pela
compreensão do conteúdo do que ela diz.
Quando o psicologismo adentra no campo do saber, na
filosofia torna-se um disparate, na teologia uma heresia. Por isso, nem a
filosofia nem a teologia devem se tender ao psicologismo e suas tendências,
antes, pelo contrário, deve lutar contra o psicologismo, se mover de acordo com
seus princípios, os quais legam uma identidade comum, a saber: a busca pela
verdade; tanto a filosofia quanto a teologia buscam a verdade; na filosofia a
verdade racional, na teologia a verdade por Revelação; a filosofia a ciência
das coisas humanas, a teologia a ciência das coisas divinas.
O efeito e a obra do psicologismo, pode ser definido
através de um notável epiteto; Frithjof Schoun diz: “Não basta crer em Deus;
é preciso acreditar também no diabo. Em nosso tempo, o diabo substitui a lógica
por uma falsa psicologia”[3].
Shoun afirma de maneira cirúrgica o que é o psicologismo, a saber, obra do
Diabo.
II
Aqui há de se adentrar a figura de um grande filósofo,
a saber: Edmund Husserl. Husserl propôs reflexões extremamente densas e
profícuas; a extensão de suas reflexões, seja através de muitos ensaios, seja
através das investigações, sempre legaram aos seus leitores incríveis obras,
dentre as quais estão alguns dos maiores textos filosóficos escritos em toda a
história; não se fará uma análise exaustiva de sua obra, mas tratar-se-á de
alguns pontos por ele elencados que ajudam a solucionar a aporia que está ao
derredor da relação entre filosofia/teologia e psicologia.
As aporias despejadas pela crença no psicologismo na
esfera da filosofia, e também da teologia, destonam as mesmas de sua realidade
primordial, a saber: a busca pela verdade; isto se demonstra na estreita
relação em que os acometimentos do psicologismo geral causam na teoria do
conhecimento, a qual por sua vez, também influencia a compreensão da realidade.
Sinteticamente, pode-se dizer que Husserl lutou contra
esta obra do psicologismo, pois que, toda a destruição das premissas lógicas da
estrutura do conhecimento, e da destruição da correta inter-relação entre as
ciências, faz com que, o florescimento da alta-cultura se tornasse embotado;
Husserl bem sabia disso, pois o século (século XVIII) que mais gabou-se de ser
o herdeiro do esclarecimento e o sublimador do ter a coragem de pensar, foi
aquele que menos cultivou a ciência e a filosofia.
Foi esta obra do psicologismo que instaurou a grande
confusão nas ciências e em toda a cultura, que foi demonstrado e exemplificado
nos acontecimentos que marcaram a primeira metade do século XX. Fora isso que Husserl percebeu e combateu.
Mário Ferreira dos Santos diz: “A grande destruição
de premissas no fim do século dezenove influiu sobre ele (Husserl)
decididamente. A tradição idealista estava golpeada pelo positivismo; a
corrente contrária a metafísica, e a psicologia assiossionista preponderavam no
ambiente filosófico; em suma: o psicologismo era dominante nas mais vastas
camadas e que tanto influiu e influi na literatura de ficção. Por esse
psicologismo, a filosofia foi reduzida a um capítulo da psicologia. A lógica
tornou-se uma simples disciplina normativa. Tudo isso Husserl combateu”[4].
III
Husserl tem algumas peculiaridades em seu pensamento
advinda de sua formação religiosa; ele era judeu de nascimento, e depois fora
batizado na igreja protestante, mais precisamente na igreja luterana; e as
perspectivas teológica do luteranismo, certamente o influenciaram, até ele
chegar as mais pungentes alturas da reflexão filosófica.
Em parte devido a herança protestante, ele sempre teve
em mente a ideia de liberdade, advogada por Martinho Lutero e por outros
reformadores; os reformadores romperam com alguns princípios da Igreja de Roma,
os quais, estavam intimamente ligados à corrupção moral e intelectual da baixa escolástica;
por isso, alguns de seus escritos falam da liberdade de servir a Cristo, longe
de uma autoridade hierárquica única sob o poder temporal, no caso, o clero
romano (esta é a perspectiva protestante); a ideia de liberdade leva ao
princípio da universalidade do cristianismo; não ao universalismo doutrinário,
que é tratado como uma heresia, mas sim o caráter universal da fé cristã e de
seus pressupostos[5].
Isso evocará em Husserl os pressupostos de um saber universal.
Para Husserl “... a característica fundamental da
civilização ocidental é a aspiração à universalidade na confluência de
filosofia e religião”[6]. E
para isso, Husserl considerava a influência protestante como fundamental, na
saída da Igreja de Roma e da reflexão embotada da baixa escolástica.
A perspectiva da universalidade que Husserl desenvolve
dentro do mote do saber teórico, que analisará se o saber proposto tem a
caracterização universal ou não; se tiver, deve ser aceito; se não tiver, deve
ser demonstrado o completo desvario daquela pressuposição.
IV
E, quanto a isso Husserl percebeu o real problema com
a psicologia; na verdade, ele foi um veemente combatente contra o psicologismo;
Husserl compreendia a função da psicologia, porém, não foi vencido pelas
tendências de reduzir todo o aparato filosófico e lógico a aspectos mentais;
ele tratou os desvarios do psicologismo nos prolegômenos as investigações
lógicas; uma obra que data de 1910; assim, podemos compreender o porquê o
psicologismo não deve ser aceito, e ao mesmo tempo, o porquê deve ser
rejeitado.
Os desvarios psicologistas contra os quais Husserl
argumentou, é o que ele chama de consequências empiristas do psicologismo;
ei-las:
A primeira consequência identificada por Husserl é
sobre a base teórica; ele diz que “sobre bases teóricas vagas, só podem
fundar-se regras vagas”, isto é, “se as leis psicológicas carecem de
exatidão, o mesmo sucede aos preceitos da lógica” que é submissa a
psicologia; isto se deve já que os princípios lógicos “são de uma exatidão
absoluta”; assim, toda e “qualquer intepretação que tente dar-lhes bases
empíricas vagas, que tente tornar sua validade dependente de circunstâncias vagas,
irá alterar seu verdadeiro significado”[7]. É
isto que Schoun definira como obra do Diabo.
A segunda consequência identificada por Husserl é se
sobre as leis da lógica são ou não a priori; ele diz: “... se as leis da
lógica fossem leis psicológicas, então não poderiam ser conhecidas a priori.
Elas seriam mais ou menos prováveis ao invés de válidos, e justificados apenas
por referência à experiência. As leis da lógica são a priori, são justificadas
por auto-evidência apodíctica e são mais válidas do que prováveis. E, portanto,
as leis da lógica não são psicológicas”[8].
A terceira consequência identificada por Husserl é
sobre a fonte das leis lógicas; ele diz: “Se o conhecimento das leis lógicas
teve sua origem em fatos psicológicos; se as leis lógicas fossem, por exemplo,
aplicações normativas de certos fatos psicológicos, como a parte contrária
costuma ensinar, elas necessariamente possuiriam um conteúdo psicológico em um
duplo sentido: seriam leis para fatos psíquicos e suporiam ou implicariam a
existência desses fatos”. Entretanto, como pode ser demonstrado, as leis
lógicas não são fundamentadas em fatos psicológicos, já que “nenhuma lei
lógica implica uma questão de fato, nem mesmo a existência de representações,
ou julgamentos, ou outros fenômenos de conhecimento. Nenhuma lei lógica é - em
seu verdadeiro sentido - uma lei para os fatos da vida psíquica, ou seja, nem
para representações (as experiências de representar), nem para julgamentos (as
experiências de julgar), nem para qualquer outra experiência psíquica”[9].
Husserl também aponta outros problemas com o
psicologismo; é que o mesmo é uma forma radical de relativismo; em todas as
suas formas o psicologismo é um relativismo[10];
ou mais propriamente, o psicologismo é ceticismo.
O relativismo gerado pelo psicologismo causa enormes
problemas no pensamento teórico; o psicologismo relativiza tudo a mero
assentimento psíquico - isto é, a interpretação das coisas não é feita pelas
coisas que são, mas sim no que o “eu” individual acredita (ou determina) que
seja. É uma realidade muito ruim, pois a força do ego (e ego ruim) sobressai-se
sobre a compreensão das coisas como elas são; já não existe mais interpretação
das coisas como elas são (verdadeira hermenêutica), mas no sentido de que o “eu”
emprega, no sentido do que o “eu” sente.
Por isso, o psicologismo é relativismo do “eu”; é
relativismo na psique; é relativismo em relação as coisas que podem ser
conhecidas; é relativismo em se tratando das proposições que definem se algo é
válido ou não; é relativismo ao afirmar que algo que é, mas que ainda não foi,
e por isso mesmo não pode ser. Portanto, o psicologismo é uma forma de
ceticismo.
V
Por isso, as perspectivas do aconselhamento tanto na
filosofia quanto na teologia, podem sofrer abalos sísmicos se o psicologismo
estiver em suas entranhas; assim, requer-se uma análise cuidadosa para que o
mesmo não se torne a base da construção teórica da filosofia nem da teologia.
Husserl demonstrou algumas razões do porque o
psicologismo deve ser rejeitado, assim, analisar-se-á a perspectiva do
aconselhamento na filosofia e na teologia tendo em vista a rejeição ao
psicologismo, e se compreender o que ocorre quando o psicologismo adentra
nestas áreas do saber e como se deve proceder quando isto ocorre.
Como se sabe, na filosofia também se tem
aconselhamento; Sócrates aconselhara através de seus diálogos; Aristóteles fora
o tutor de Alexandre, o grande; Epicuro aconselhava em seus jardins; Boécio
fora consolado pela filosofia e consolou através da filosofia, etc. Entretanto,
na filosofia, com o psicologismo em suas entranhas surgiram algumas tentativas
de reduzir a prática da reflexão racional a simples abstrações mentais, e isto,
sem dúvida, desemboca num desalmado materialismo; desvincularam os valores
absolutos do amor pela sabedoria; subtrai-se o amor a beleza, o amor ao bem, e
o amor à verdade pela prática (práxis), fundamentada nos princípios da matéria;
portanto, se a reflexão racional não importa mais para o aconselhamento, a
filosofia se abre para o materialismo, que se transformará numa perspectiva de
anti-filosofia, já que não há filosofia com materialismo total, pois o mesmo
transforma-se quase que numa religião e destrói a filosofia.
Isto faz com que a análise humana, na perspectiva do
aconselhamento na filosofia, transforme o ser humano apenas em psique; isto é
reducionismo, pois o homem é um ser
físico-psíquico-espiritual-racional-social-cultural; todas estas áreas são
elementos essenciais na compreensão e no aconselhamento do homem; e a filosofia
vela por mantê-las assim; por isso, há antropologia filosófica; etc.
Na teologia se tem também aconselhamento; mais
precisamente, aconselhamento bíblico-teológico; o Apóstolo fora um exímio
conselheiro; o evangelista dos segredos de Deus também o fora; São João
Crisóstomo aconselhava com seus belos sermões; a maioria dos grandes teólogos
foram pastores que cuidavam das pessoas, e, portanto, que aconselhavam essas
pessoas; etc.
Entretanto, na teologia, com o psicologismo em suas
entranhas surgiram algumas tentativas de reduzir a prática do aconselhamento
por tratamentos psicológicos-analíticos velados por submovimentos teológicos;
porém o que causou foi uma série de heresias na teologia, como confissão
positiva, ideia de regressão, manipulação psicológica, tentativa de reeducação,
reeducação obrigatória sob o mote de mudança de mente, etc.
A questão é
mais profunda, e a relação entre a psicologia e a fé merece um tratamento
adequado, que realmente mostre o que é cada uma sem submissão cega e muitos
menos reducionismo barato - o que não é o propósito desta preleção.
Porém, os assentimentos psicologistas tendem a fazer
com que a teologia se foque de forma única e pungente na mente; na verdade, uma
perspectiva enfática e desequilibrada na psique; da mesma forma como acontece
com a filosofia, na teologia, esta ênfase desenfreada na psique, acaba gerando
um determinismo teórico acerca da compreensão do comportamento humano.
Com isso, esquece-se que o ser humano tem livre-arbítrio,
e por isso, é contingente nas coisas verdadeiramente humanas.
Eis a razão do porque o psicologismo deve ser
rejeitado nas perspectivas do aconselhamento na filosofia e na teologia, pois,
senão, ambas serão reduzidas a um radical relativismo; na verdade, uma ditadura
do relativismo; e isto, por sua vez, gerará um desequilíbrio na ordem social, e
onde há isto, logo a sociedade tende a ruir, como que num apocalipse cultural;
tanto na filosofia quando na teologia, florear-se-á lauréis de compreensão
psíquica aparentemente mui belos, que, no entanto, são reducionistas e
deterministas, ocasionando relativismo, e desvarios, conforme demonstrado
cabalmente por Husserl.
Desta forma, para que as perspectivas do
aconselhamento se desenvolvam de maneira saudável e virente, há de se pôr de
lado o psicologismo, e ir-se ad fontes.
Ir-se as fontes da filosofia e da teologia; nos
daquela, Sócrates, Platão e Aristóteles são boa companhia, nos desta, o próprio
texto bíblico, o Apóstolo, Santo Agostinho, Boécio, etc., são boa companhia;
nos daquela o auge da filosofia, nos desta, o esplendor da teologia; nos
daquela, o ensino de como proceder com a razão humana, nos desta o ensino de
como proceder ante a ciência das coisas divinas.
VI
Por isso, os adendos psicologistas são mui
prejudiciais a todo o desenvolvimento científico; eles são, por conseguinte, o
elemento que tem impregnado o saber teórico, produzindo desvarios na razão
prática; estes desvarios tem gerado na filosofia uma série de condições
anômalas ao saber racional, e tem gerado na teologia uma série de princípios
que substituem o elemento da fé por apenas assentimento psíquico ou emoção;
tanto um quando o outro estão em desacordo com o propósito das duas ciências.
Assim, o caminho das perspectivas do aconselhamento,
bem como o dos seus noemas, deve seguir o dá fundação filosófica pura, na
filosofia pela filosofia; e deve seguir o caminho da teologia pura, o da
teologia pela teologia; o da filosofia, para uma filosofia de e para a vida; o
da teologia, para uma teologia para a vida. Em relação a filosofia e o
aconselhamento, há os pressupostos ordenadores de Husserl e sua luta contra o
psicologismo.
A filosofia não precisa se tender ao psicologismo para
ter em si boas perspectivas de aconselhamento; o próprio labor filosófico em si
já produz o caminho do aconselhamento; não há necessidade de psicologismo na
filosofia para a mesma mostrar seu valor, há sim necessidade da psicologia
escutar e parar para aprender com a elucubração filosófica.
Em relação a teologia e o aconselhamento, se tem os
pressupostos de ser, conhecer, fazer e amar; o tesouro da bíblia sagrada põe-se
como uma inolvidável contribuição; o mavioso salmista de Israel dissera: “A
lei do Senhor é perfeita e refrigera a alma” (Sl 19.7); por isso, a
teologia não precisa se render ao psicologismo para ter em si boas perspectivas
de aconselhamento; o próprio labor teológico em si já produz o caminho do
aconselhamento.
Portanto, não ao psicologismo e sim a sabedoria comum
a filosofia e a teologia, a saber, a sabedoria que é definida na busca pela
verdade.
A sabedoria dá vida a seu possuidor; a sabedoria
anunciada por Salomão é o logos do evangelho, que esparge suas sementes
na razão humana, e a revela a quem nEle crê; na vida filosófica, a sabedoria
divina dá vida a razão e aguça a inteligência; na vida teológica a sabedoria
conduz ao caminho da vida eterna (pela fé em Jesus Cristo); na filosofia,
corolário racional e humano, na teologia estudos e reflexos da glória divina;
este foi o caminho que, de certa forma, Husserl seguiu e estabeleceu como
exemplo, principalmente diante da luta contra o psicologismo.
Ora, tendo evocado brevemente a luta de Husserl contra o psicologismo e mencionado as perspectivas do aconselhamento na filosofia e na teologia, se tem um panorama geral dos efeitos do psicologismo para todo o saber humano. E isto, por ora, é mais do que suficiente para o presente momento.
Laudate Deo!
[1] Johann Eduard Erdmann, A History of Philosophy
Volume 3: German Philosophy Singe Hegel [5° edição. Londres: George Allen
& Company, 1913], pág. 38.
[2] Robert Audi (ed.), The Cambridge Dictionary of Philosophy [2°
edição. Cambridge: Cambridge University Press, 1999], pág.
404.
[3] In: Olavo de Carvalho, Edmund Husserl contra o Psicologismo [1°
edição. Campinas, SP: Vide Editorial, 2020], pág. 9.
[4] Mário
Ferreira dos Santos, Convite a Filosofia e a História da Filosofia [5°
edição. São Paulo: Logos, 1957], pág. 212.
[5] Este caráter universal da fé cristão foi trabalhado muito bem por Eric
Voegelin. In: Eric Voegelin, História das Ideias Políticas Volume 1:
Helenismo, Roma e Cristianismo Primitivo [São Paulo: É Realizações, 2012],
pág. 199-254.
[6] In: Silvano Zucal (org.), Cristo na Filosofia Contemporânea Volume
II: O Século XX [São Paulo: Paulus, 2006], pág. 13.
[7] cf. Edmund Husserl, Edmund Husserl Gesammelte Werke
Band 18: Logische Untersuchugen Erster Band: Prolegoman Zur Reiner Logik
[Haia: Martinus Nijhoff, 1975], pág. 73.
cf. Edmund Husserl, Investigaciones Lógicas [Madrid: Revista de
Occidente, (s. d.)], pág. 75-76.
[8] Ibidem.
Pág. 74-75.
Ibidem.
Pág. 76-77.
[9] Ibidem. Pág. 80-81.
Ibidem. Pág. 81.
Nenhum comentário:
Postar um comentário