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10/10/2020

Ponderações sobre a Luta de Husserl contra o Psicologismo

Nota Inicial.


Este escrito fora uma preleção, a qual li plenamente quando proferida, mas que infelizmente fora perdido a preleção original; o que restou fora uma reportação fragmentária e parcial, a qual comporta algumas falhas; entretanto, mesmo as falhas que estão presentes não atrapalham a ideia central desta preleção, da qual não tenho nenhuma correção a fazer, a não ser a observação do estado parcial e fragmentário da mesma, que pode gerar algum estranhamento por parte do leitor mais bem preparado; pois, esta preleção foi como que um “desabafo” contra todas as loucuras do psicologismo; ademais, apesar do estado caótico em que sobreviveu esta preleção, mantenho com igual severidade toda minha rejeição e repúdio a todas as formas de psicologismo. 


Prólogo.


Os auspiciosos desenvolvimentos no campo teórico, seja nas ciências exatas seja nas humanas, tem proporcionado uma grande gama de conhecimento; nas Escrituras Sagradas está escrito que em determinado tempo a ciência se multiplicaria (cf. Dn 12.4). E foi isso o que aconteceu, a ciência se multiplicou tanto intensiva quando extensivamente; cresceu tanto qualitativa quanto quantitativamente; cresceu tanto em princípios e leis gerais próprias, quando em áreas específicas.

No entanto, mesmo em meio a tanto desenvolvimento, tem aqueles que se tornam prejudiciais ao saber, que precisam ser avaliados e reconsiderados; em verdade, muitos destes ‘saberes’, se apresentam como apodícticos, quando são em essência desvarios intelectuais e destonam a ordem essencial da realidade.

Muitos desses saberes, com o mote de ‘cientificismo’ tem adentrado em várias esferas do campo teórico; este ‘cientificismo’ tenta abarcar toda a cultura ocidental como seu único pilar, deixando de lado, ou pelo menos, tratando como subservientes a filosofia, o direito e a teologia. Com isso surge os “ismos” reducionistas; os filosofismos, os teologismos, os sociologismos, os cientificismos, etc. (perdoem os neologismos).

Entre os campos do saber que tem sofrido com as pressuposições equivocadas, dois deles, são os mais afetados, e por conseguinte, aqueles que mais despejam erros na sociedade; por certo, as que mais são importantes na sociedade, quando são afetadas por algum erro, serão as que mais despejaram na sociedade as consequências deste erro.

Os dois campos são a filosofia e a teologia; a filosofia porque é a mãe e formadora de todas as ciências; a teologia por que é senhora e imperatriz da filosofia (philosophia ancilla theologiae).

 

I

 

Mas o que tratar-se-á tem a ver com uma ciência extremamente peculiar e controversa, a saber: a psicologia; a problemática se instaurou quando houve a tentativa de fazer com que a psicologia se instaurasse sobre as demais ciências, tornando-se assim, pelo menos em tentativa, a mãe e a imperatriz de todas as ciências; logo, observe que, se a verdadeira mãe da ciência é a filosofia e a rainha da ciências é a teologia, assim, para a psicologia alcançar  tal premissa para si, tem reduzir os aspectos da realidade teórica a si; reduzindo-os, diminuindo-os, sacrificando-os, fica mais fácil tomar seu lugar; a psicologia como que os vende por trinta dinheiros, e assim, fica sem rumo e sem propósito definido, e aquilo que era tão bom se torna algo muito ineficiente e imperito.

Esta problemática é o que se chama de psicologismo; o termo fora cunhado pelo filósofo hegeliano Johann Eduard Erdmann (1805-1892), para descrever a filosofia de Friedrich Eduard Beneke (1798-1854); Beneke afirmara que a filosofia deve procurar fundamentos na psicologia, o que também é proposto por muitos intelectuais hodiernos, inclusive nos arraiais teológicos e nos círculos filosóficos. Por isso, Erdmann definiu o pensamento de Beneke como psicologismo[1].

O dicionário de Cambridge diz que psicologismo é “a doutrina que reduz entidades lógicas, como proposições, universais e números, a estados mentais ou atividades mentais”[2]; em outros termos, a redução das entidades lógicas a simples funções psíquicas ordenadas a esmo pelo “eu”.

Com isso, todo campo do saber passa a se resumir a psicologia; e em se tratando daquelas áreas do saber que tem estruturas lógicas, como a filosofia e a teologia, estas se tornam amalgamadas a psicologia, tornam-se apenas uma nota de rodapé para a psicologia, e assim são reduzidas a meros estados mentais; a religião é reduzida a apenas a uma esfera muito privada, quando não rejeitada; e a filosofia transforma-se em simples assentimento mental.

Com isto surge uma questão: Se a filosofia se desconfigura em meros estados mentais, como se configurará a noção do saber racional? Se a teologia se desfigura em atividades mentais, como se configurará a noção da reflexão racional a respeito de Deus? Se ambas se tornam assim, logo, toda estrutura destas áreas do saber se ruirá em simples julgamento analítico-comportamental; na verdade, o homem moderno tem desfigurado a atividade filosófica e a teológica, em pressupostos da psicologia indutiva, logo, tudo o que se sabe deverá passar pelo assentimento mental de alguém, ou seja, do que essas pessoas sabem e do que elas supostamente querem dizer sobre este algo; na verdade, o certo é a articulação geral do conceito que está acima de cada psique individual, isto é, a compreensão de algo não se dá porque faz-se análises do que a pessoa está pensando sobre algo, mas sim pela compreensão do conteúdo do que ela diz.

Quando o psicologismo adentra no campo do saber, na filosofia torna-se um disparate, na teologia uma heresia. Por isso, nem a filosofia nem a teologia devem se tender ao psicologismo e suas tendências, antes, pelo contrário, deve lutar contra o psicologismo, se mover de acordo com seus princípios, os quais legam uma identidade comum, a saber: a busca pela verdade; tanto a filosofia quanto a teologia buscam a verdade; na filosofia a verdade racional, na teologia a verdade por Revelação; a filosofia a ciência das coisas humanas, a teologia a ciência das coisas divinas.

O efeito e a obra do psicologismo, pode ser definido através de um notável epiteto; Frithjof Schoun diz: “Não basta crer em Deus; é preciso acreditar também no diabo. Em nosso tempo, o diabo substitui a lógica por uma falsa psicologia”[3]. Shoun afirma de maneira cirúrgica o que é o psicologismo, a saber, obra do Diabo.

 

II

 

Aqui há de se adentrar a figura de um grande filósofo, a saber: Edmund Husserl. Husserl propôs reflexões extremamente densas e profícuas; a extensão de suas reflexões, seja através de muitos ensaios, seja através das investigações, sempre legaram aos seus leitores incríveis obras, dentre as quais estão alguns dos maiores textos filosóficos escritos em toda a história; não se fará uma análise exaustiva de sua obra, mas tratar-se-á de alguns pontos por ele elencados que ajudam a solucionar a aporia que está ao derredor da relação entre filosofia/teologia e psicologia.

As aporias despejadas pela crença no psicologismo na esfera da filosofia, e também da teologia, destonam as mesmas de sua realidade primordial, a saber: a busca pela verdade; isto se demonstra na estreita relação em que os acometimentos do psicologismo geral causam na teoria do conhecimento, a qual por sua vez, também influencia a compreensão da realidade.

Sinteticamente, pode-se dizer que Husserl lutou contra esta obra do psicologismo, pois que, toda a destruição das premissas lógicas da estrutura do conhecimento, e da destruição da correta inter-relação entre as ciências, faz com que, o florescimento da alta-cultura se tornasse embotado; Husserl bem sabia disso, pois o século (século XVIII) que mais gabou-se de ser o herdeiro do esclarecimento e o sublimador do ter a coragem de pensar, foi aquele que menos cultivou a ciência e a filosofia.

Foi esta obra do psicologismo que instaurou a grande confusão nas ciências e em toda a cultura, que foi demonstrado e exemplificado nos acontecimentos que marcaram a primeira metade do século XX.  Fora isso que Husserl percebeu e combateu.

Mário Ferreira dos Santos diz: “A grande destruição de premissas no fim do século dezenove influiu sobre ele (Husserl) decididamente. A tradição idealista estava golpeada pelo positivismo; a corrente contrária a metafísica, e a psicologia assiossionista preponderavam no ambiente filosófico; em suma: o psicologismo era dominante nas mais vastas camadas e que tanto influiu e influi na literatura de ficção. Por esse psicologismo, a filosofia foi reduzida a um capítulo da psicologia. A lógica tornou-se uma simples disciplina normativa. Tudo isso Husserl combateu”[4].

 

III

 

Husserl tem algumas peculiaridades em seu pensamento advinda de sua formação religiosa; ele era judeu de nascimento, e depois fora batizado na igreja protestante, mais precisamente na igreja luterana; e as perspectivas teológica do luteranismo, certamente o influenciaram, até ele chegar as mais pungentes alturas da reflexão filosófica.

Em parte devido a herança protestante, ele sempre teve em mente a ideia de liberdade, advogada por Martinho Lutero e por outros reformadores; os reformadores romperam com alguns princípios da Igreja de Roma, os quais, estavam intimamente ligados à corrupção moral e intelectual da baixa escolástica; por isso, alguns de seus escritos falam da liberdade de servir a Cristo, longe de uma autoridade hierárquica única sob o poder temporal, no caso, o clero romano (esta é a perspectiva protestante); a ideia de liberdade leva ao princípio da universalidade do cristianismo; não ao universalismo doutrinário, que é tratado como uma heresia, mas sim o caráter universal da fé cristã e de seus pressupostos[5]. Isso evocará em Husserl os pressupostos de um saber universal.

Para Husserl “... a característica fundamental da civilização ocidental é a aspiração à universalidade na confluência de filosofia e religião”[6]. E para isso, Husserl considerava a influência protestante como fundamental, na saída da Igreja de Roma e da reflexão embotada da baixa escolástica.

A perspectiva da universalidade que Husserl desenvolve dentro do mote do saber teórico, que analisará se o saber proposto tem a caracterização universal ou não; se tiver, deve ser aceito; se não tiver, deve ser demonstrado o completo desvario daquela pressuposição.

 

IV

 

E, quanto a isso Husserl percebeu o real problema com a psicologia; na verdade, ele foi um veemente combatente contra o psicologismo; Husserl compreendia a função da psicologia, porém, não foi vencido pelas tendências de reduzir todo o aparato filosófico e lógico a aspectos mentais; ele tratou os desvarios do psicologismo nos prolegômenos as investigações lógicas; uma obra que data de 1910; assim, podemos compreender o porquê o psicologismo não deve ser aceito, e ao mesmo tempo, o porquê deve ser rejeitado.

Os desvarios psicologistas contra os quais Husserl argumentou, é o que ele chama de consequências empiristas do psicologismo; ei-las:

A primeira consequência identificada por Husserl é sobre a base teórica; ele diz que “sobre bases teóricas vagas, só podem fundar-se regras vagas”, isto é, “se as leis psicológicas carecem de exatidão, o mesmo sucede aos preceitos da lógica” que é submissa a psicologia; isto se deve já que os princípios lógicos “são de uma exatidão absoluta”; assim, toda e “qualquer intepretação que tente dar-lhes bases empíricas vagas, que tente tornar sua validade dependente de circunstâncias vagas, irá alterar seu verdadeiro significado”[7]. É isto que Schoun definira como obra do Diabo.

A segunda consequência identificada por Husserl é se sobre as leis da lógica são ou não a priori; ele diz: “... se as leis da lógica fossem leis psicológicas, então não poderiam ser conhecidas a priori. Elas seriam mais ou menos prováveis ao invés de válidos, e justificados apenas por referência à experiência. As leis da lógica são a priori, são justificadas por auto-evidência apodíctica e são mais válidas do que prováveis. E, portanto, as leis da lógica não são psicológicas”[8].

A terceira consequência identificada por Husserl é sobre a fonte das leis lógicas; ele diz: “Se o conhecimento das leis lógicas teve sua origem em fatos psicológicos; se as leis lógicas fossem, por exemplo, aplicações normativas de certos fatos psicológicos, como a parte contrária costuma ensinar, elas necessariamente possuiriam um conteúdo psicológico em um duplo sentido: seriam leis para fatos psíquicos e suporiam ou implicariam a existência desses fatos”. Entretanto, como pode ser demonstrado, as leis lógicas não são fundamentadas em fatos psicológicos, já que “nenhuma lei lógica implica uma questão de fato, nem mesmo a existência de representações, ou julgamentos, ou outros fenômenos de conhecimento. Nenhuma lei lógica é - em seu verdadeiro sentido - uma lei para os fatos da vida psíquica, ou seja, nem para representações (as experiências de representar), nem para julgamentos (as experiências de julgar), nem para qualquer outra experiência psíquica”[9].

Husserl também aponta outros problemas com o psicologismo; é que o mesmo é uma forma radical de relativismo; em todas as suas formas o psicologismo é um relativismo[10]; ou mais propriamente, o psicologismo é ceticismo.

O relativismo gerado pelo psicologismo causa enormes problemas no pensamento teórico; o psicologismo relativiza tudo a mero assentimento psíquico - isto é, a interpretação das coisas não é feita pelas coisas que são, mas sim no que o “eu” individual acredita (ou determina) que seja. É uma realidade muito ruim, pois a força do ego (e ego ruim) sobressai-se sobre a compreensão das coisas como elas são; já não existe mais interpretação das coisas como elas são (verdadeira hermenêutica), mas no sentido de que o “eu” emprega, no sentido do que o “eu” sente.

Por isso, o psicologismo é relativismo do “eu”; é relativismo na psique; é relativismo em relação as coisas que podem ser conhecidas; é relativismo em se tratando das proposições que definem se algo é válido ou não; é relativismo ao afirmar que algo que é, mas que ainda não foi, e por isso mesmo não pode ser. Portanto, o psicologismo é uma forma de ceticismo.

 

V

 

Por isso, as perspectivas do aconselhamento tanto na filosofia quanto na teologia, podem sofrer abalos sísmicos se o psicologismo estiver em suas entranhas; assim, requer-se uma análise cuidadosa para que o mesmo não se torne a base da construção teórica da filosofia nem da teologia.

Husserl demonstrou algumas razões do porque o psicologismo deve ser rejeitado, assim, analisar-se-á a perspectiva do aconselhamento na filosofia e na teologia tendo em vista a rejeição ao psicologismo, e se compreender o que ocorre quando o psicologismo adentra nestas áreas do saber e como se deve proceder quando isto ocorre.

Como se sabe, na filosofia também se tem aconselhamento; Sócrates aconselhara através de seus diálogos; Aristóteles fora o tutor de Alexandre, o grande; Epicuro aconselhava em seus jardins; Boécio fora consolado pela filosofia e consolou através da filosofia, etc. Entretanto, na filosofia, com o psicologismo em suas entranhas surgiram algumas tentativas de reduzir a prática da reflexão racional a simples abstrações mentais, e isto, sem dúvida, desemboca num desalmado materialismo; desvincularam os valores absolutos do amor pela sabedoria; subtrai-se o amor a beleza, o amor ao bem, e o amor à verdade pela prática (práxis), fundamentada nos princípios da matéria; portanto, se a reflexão racional não importa mais para o aconselhamento, a filosofia se abre para o materialismo, que se transformará numa perspectiva de anti-filosofia, já que não há filosofia com materialismo total, pois o mesmo transforma-se quase que numa religião e destrói a filosofia.

Isto faz com que a análise humana, na perspectiva do aconselhamento na filosofia, transforme o ser humano apenas em psique; isto é reducionismo, pois o homem é um ser físico-psíquico-espiritual-racional-social-cultural; todas estas áreas são elementos essenciais na compreensão e no aconselhamento do homem; e a filosofia vela por mantê-las assim; por isso, há antropologia filosófica; etc.

Na teologia se tem também aconselhamento; mais precisamente, aconselhamento bíblico-teológico; o Apóstolo fora um exímio conselheiro; o evangelista dos segredos de Deus também o fora; São João Crisóstomo aconselhava com seus belos sermões; a maioria dos grandes teólogos foram pastores que cuidavam das pessoas, e, portanto, que aconselhavam essas pessoas; etc.

Entretanto, na teologia, com o psicologismo em suas entranhas surgiram algumas tentativas de reduzir a prática do aconselhamento por tratamentos psicológicos-analíticos velados por submovimentos teológicos; porém o que causou foi uma série de heresias na teologia, como confissão positiva, ideia de regressão, manipulação psicológica, tentativa de reeducação, reeducação obrigatória sob o mote de mudança de mente, etc.

 A questão é mais profunda, e a relação entre a psicologia e a fé merece um tratamento adequado, que realmente mostre o que é cada uma sem submissão cega e muitos menos reducionismo barato - o que não é o propósito desta preleção.

Porém, os assentimentos psicologistas tendem a fazer com que a teologia se foque de forma única e pungente na mente; na verdade, uma perspectiva enfática e desequilibrada na psique; da mesma forma como acontece com a filosofia, na teologia, esta ênfase desenfreada na psique, acaba gerando um determinismo teórico acerca da compreensão do comportamento humano.

Com isso, esquece-se que o ser humano tem livre-arbítrio, e por isso, é contingente nas coisas verdadeiramente humanas.

Eis a razão do porque o psicologismo deve ser rejeitado nas perspectivas do aconselhamento na filosofia e na teologia, pois, senão, ambas serão reduzidas a um radical relativismo; na verdade, uma ditadura do relativismo; e isto, por sua vez, gerará um desequilíbrio na ordem social, e onde há isto, logo a sociedade tende a ruir, como que num apocalipse cultural; tanto na filosofia quando na teologia, florear-se-á lauréis de compreensão psíquica aparentemente mui belos, que, no entanto, são reducionistas e deterministas, ocasionando relativismo, e desvarios, conforme demonstrado cabalmente por Husserl.

Desta forma, para que as perspectivas do aconselhamento se desenvolvam de maneira saudável e virente, há de se pôr de lado o psicologismo, e ir-se ad fontes.

Ir-se as fontes da filosofia e da teologia; nos daquela, Sócrates, Platão e Aristóteles são boa companhia, nos desta, o próprio texto bíblico, o Apóstolo, Santo Agostinho, Boécio, etc., são boa companhia; nos daquela o auge da filosofia, nos desta, o esplendor da teologia; nos daquela, o ensino de como proceder com a razão humana, nos desta o ensino de como proceder ante a ciência das coisas divinas.

 

VI

 

Por isso, os adendos psicologistas são mui prejudiciais a todo o desenvolvimento científico; eles são, por conseguinte, o elemento que tem impregnado o saber teórico, produzindo desvarios na razão prática; estes desvarios tem gerado na filosofia uma série de condições anômalas ao saber racional, e tem gerado na teologia uma série de princípios que substituem o elemento da fé por apenas assentimento psíquico ou emoção; tanto um quando o outro estão em desacordo com o propósito das duas ciências.

Assim, o caminho das perspectivas do aconselhamento, bem como o dos seus noemas, deve seguir o dá fundação filosófica pura, na filosofia pela filosofia; e deve seguir o caminho da teologia pura, o da teologia pela teologia; o da filosofia, para uma filosofia de e para a vida; o da teologia, para uma teologia para a vida. Em relação a filosofia e o aconselhamento, há os pressupostos ordenadores de Husserl e sua luta contra o psicologismo.

A filosofia não precisa se tender ao psicologismo para ter em si boas perspectivas de aconselhamento; o próprio labor filosófico em si já produz o caminho do aconselhamento; não há necessidade de psicologismo na filosofia para a mesma mostrar seu valor, há sim necessidade da psicologia escutar e parar para aprender com a elucubração filosófica.  

Em relação a teologia e o aconselhamento, se tem os pressupostos de ser, conhecer, fazer e amar; o tesouro da bíblia sagrada põe-se como uma inolvidável contribuição; o mavioso salmista de Israel dissera: “A lei do Senhor é perfeita e refrigera a alma” (Sl 19.7); por isso, a teologia não precisa se render ao psicologismo para ter em si boas perspectivas de aconselhamento; o próprio labor teológico em si já produz o caminho do aconselhamento.

Portanto, não ao psicologismo e sim a sabedoria comum a filosofia e a teologia, a saber, a sabedoria que é definida na busca pela verdade.

A sabedoria dá vida a seu possuidor; a sabedoria anunciada por Salomão é o logos do evangelho, que esparge suas sementes na razão humana, e a revela a quem nEle crê; na vida filosófica, a sabedoria divina dá vida a razão e aguça a inteligência; na vida teológica a sabedoria conduz ao caminho da vida eterna (pela fé em Jesus Cristo); na filosofia, corolário racional e humano, na teologia estudos e reflexos da glória divina; este foi o caminho que, de certa forma, Husserl seguiu e estabeleceu como exemplo, principalmente diante da luta contra o psicologismo.

Ora, tendo evocado brevemente a luta de Husserl contra o psicologismo e mencionado as perspectivas do aconselhamento na filosofia e na teologia, se tem um panorama geral dos efeitos do psicologismo para todo o saber humano. E isto, por ora, é mais do que suficiente para o presente momento. 

Laudate Deo! 



[1] Johann Eduard Erdmann, A History of Philosophy Volume 3: German Philosophy Singe Hegel [5° edição. Londres: George Allen & Company, 1913], pág. 38.

[2] Robert Audi (ed.), The Cambridge Dictionary of Philosophy [2° edição. Cambridge: Cambridge University Press, 1999], pág. 404.

[3] In: Olavo de Carvalho, Edmund Husserl contra o Psicologismo [1° edição. Campinas, SP: Vide Editorial, 2020], pág. 9.

[4] Mário Ferreira dos Santos, Convite a Filosofia e a História da Filosofia [5° edição. São Paulo: Logos, 1957], pág. 212.

[5] Este caráter universal da fé cristão foi trabalhado muito bem por Eric Voegelin. In: Eric Voegelin, História das Ideias Políticas Volume 1: Helenismo, Roma e Cristianismo Primitivo [São Paulo: É Realizações, 2012], pág. 199-254.

[6] In: Silvano Zucal (org.), Cristo na Filosofia Contemporânea Volume II: O Século XX [São Paulo: Paulus, 2006], pág. 13.

[7] cf. Edmund Husserl, Edmund Husserl Gesammelte Werke Band 18: Logische Untersuchugen Erster Band: Prolegoman Zur Reiner Logik [Haia: Martinus Nijhoff, 1975], pág. 73. 

cf. Edmund Husserl, Investigaciones Lógicas [Madrid: Revista de Occidente, (s. d.)], pág. 75-76. 

[8] Ibidem. Pág. 74-75. 

Ibidem. Pág. 76-77. 

[9] Ibidem. Pág. 80-81. 

Ibidem. Pág. 81. 

[10] Ibidem. Pág. 118-119. 

Ibidem. Pág. 118. 


25/03/2020

Observações Preambulares para o Estudo da Filosofia

Nota Inicial.

 

Este escrito fora uma extensa preleção, a qual fora proferida plenamente; infelizmente, a preleção original fora perdida; o que restou foram as anotações iniciais, acompanhadas de uma reportação fragmentária, a qual comporta várias falhas de nexos, argumentação, disposição, etc. Felizmente, as citações eu consegui relembrar e colocá-las adequadamente nas notas de rodapé.

 

I

 

Ao se falar de filosofia, surge uma série de questões interrogativas no que tange a importância, o método, e as consequências de sua aplicação na vida de estudos e na essência de qualquer curso superior; e estas podem ser positivas no ambiente de preparo acadêmico, mas na maioria das vezes é negativa, como por exemplo, é o caso de não se saber equilibrar a filosofia com as perspectivas teológicas adequadas, gerando alguma forma de corrupção racional, como o é de forma histórica o “liberalismo teológico”.

Então o que fazer para que haja uma compreensão adequada sobre o estudo e ao uso da filosofia nos círculos cristãos? É justamente a esta questão prolegomenar que se pretende responde nesta preleção. É bom deixar claro que é apenas uma preleção geral, pois não é possível elencar e se esgotar todos os problemas específicos desta disciplina fascinante, pois isto exigiria todo um curso ou até mesmo alguns anos, para pelo menos haver uma cuidadosa exposição da mesma sob a égide da cosmovisão cristã.

Com isso, sob este aspecto se fará algumas observações preambulares sobre o estudo da filosofia, não só para o estudo da filosofia em si, mas principalmente a respeito do estudo da filosofia no âmbito da teologia.

 

II

 

A palavra filosofia vem da junção de dois termos gregos: philo (amor, gostar, amizade) e sophia (saber, sabedoria), portanto, amigo do saber, ou aquele que ama o saber. Estes termos gregos são interessantes. Para os antigos, o amor phileo ou phili, era o mais admirável dos amores, pois não olha o eros, mas olha com o “embasamento” para que a amizade seja mantida; e este “embasamento” dá forma ao amor, por isso ele é o mais bem quisto pelos autores clássicos.

Além do que, entre os termos gregos utilizados para amor, o phileo é o menos biológico, pois requer algo que o grau de proximidade sanguínea não dá para que seja manifesto; daí ser o amor que surge por um interesse ou compromisso comum sem apego emocional, como por exemplo, ocorre no amor eros. Quando aplicado em relação ao saber, conflui-se para se tornar no amor desinteressado pela sabedoria, no amor ao saber pelo saber.

E nisto consiste verdadeiramente a filosofia. Portanto, para melhor se entender o que é a filosofia, é necessário analisá-la sob tríplice perspectiva: seu conteúdo, método e objetivo[1]. Quando isto se torna realidade, a filosofia congratula-se com as aureolas douradas da concretude, tornando-se filosofia concreta. A filosofia verdadeira sempre é filosofia concreta.

 

III

 

O conteúdo refere-se ao que ela trata; o que ela investiga; sobre o que ele intenta fazer.

Com isso, sendo o seu nome vinculado ao saber, logicamente, ela tem a ver com o saber, ou seja, a busca pelo saber, ou melhor, o amor pelo saber. Xavier Zubiri diz que Aristóteles a definira como forma de saber[2]. O próprio Aristóteles assevera: “... a chamada filosofia é por toda concebida como tendo por objeto as causas primeiras e os princípios; de maneira que... a filosofia seja a ciência das certas causas e de certos princípios é evidente” (Met. 981b27-982a2).

Hugo de São Vitor define a filosofia como busca de sabedoria: “Pitágoras, o primeiro de todos, denominou a busca da sabedoria de filosofia, e preferiu ser chamado ‘filósofo’, enquanto antes os de mesma prática eram chamados de sophos, isto é, sábios... A filosofia também é o amor, a inclinação e, de certo modo, a amizade para com a sabedoria, não desta sabedoria que consiste na ciência de algumas ferramentas e atividades práticas, evidentemente, mas daquela Sabedoria que de nada carece, que é mente vivaz e a primeira e única razão das coisas”[3].

Ao se pensar e ao formular um convite ao estudo da filosofia e, consequentemente, de sua história, deve-se ter em voga a questão do conteúdo da mesma. Pois, em suma a filosofia, “deve dar nexo a tudo, juntar todo conhecimento humano, e analisá-lo num grande corpo, num grande saber, que seja o saber de tudo, que seja o saber dos saberes”[4]. Portanto, a filosofia é o núcleo do saber universal racional, na qual se manifestam os grandes sábios da humanidade.

 

IV

 

Quanto ao método da filosofia, é apenas a forma como se faz para chegar ao conhecimento; ou seja, através da explicação racional; é a procura pelo logos de cada conhecimento, para se chegar ao Logos Universal. Sendo o filósofo o amante do saber, ele quer chegar ao mesmo através do pensamento racional; por isso, cada conhecimento ao qual a filosofia se propõe a analisar tem sua lógica própria que deve ser descoberta. Isto faz com que a filosofia ganhe cientificidade.

Além do que, para o trabalho intelectual do qual o estudo é inerente, é necessário ter-se um método; pois o método ajuíza a forma e o modo de trabalho; às vezes, um trabalho enfadonho (cf. Ec 1.13), mas que não pode ser deixado de lado por produzir tal enfado, mas deve se conduzir à perseverança, pois somente esta conduzirá seu estudo e dedicação a algum fruto maduro e viçoso.

Em Santo Agostinho, encontra-se um método que já começa de raspão a apontar o objetivo da filosofia; ele define o saber como algo que vem após a fé. Somente a fé abre o espaço para o saber adequado, pois a confiança exagerada na razão humana faz com que esta se torne mirrada; então, somente a verdadeira sabedoria conduz ao raciocínio correto; sendo que somente Deus é a Verdadeira Sabedoria, portanto, aquele que ama a Deus é conduzido para o caminho da verdadeira filosofia.

Na metodologia agostiniana para se chegar ao conhecimento, encontra-se diante de uma realidade que só tem seu real objetivo da verdadeira Sabedoria, ou seja, no próprio Deus. Ele mesmo diz em suas confissões “Sero te amaui” (Tarde te amei), o que, representa, neste pensador, o caminho do mesmo até o verdadeiro conhecimento. Ele diz: “Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu te amei! Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora! Eu, disforme, lançava-me sobre as belas formas das tuas criaturas. Estavas comigo, mas eu não estava contigo. Retinham-me longe de ti as tuas criaturas, que não existiriam se em ti não existissem. Tu me chamaste, e teu grito rompeu minha surdez. Fulguraste e brilhaste e tua luz afugentou minha cegueira. Espargiste tua fragrância e, respirando-a, suspirei por ti. Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti. Tu me tocaste, e agora estou ardendo no desejo de tua paz”[5].

É como se ele dissesse: “eu seguia um método ao qual não me levava a lugar nenhum, porém, agora eu vejo, penso, observo, pois eu creio; sendo assim, eu encontrei o verdadeiro caminho em Deus, que não estava longe de mim”. Para um cristão isto é o que deve anteceder qualquer estudo racional.

 

V

 

Com a definição agostiniana se torna claro o objetivo da filosofia, a saber: o saber pelo saber. E este é o deleite da alma, que se propõe em encontrar as coisas do espírito, manifestas na vida intelectual. No âmbito cristão, é o apotegma: tudo para a glória de Deus. O estudo da filosofia, o labor intelectual, é um trabalho na esfera cultural como um serviço a Cristo (esta é uma aplicação do preceito gregoriano da batalha pela cultura); sendo assim, a dedicação ao estudo, seja em que esfera for, deve ter como premissa básica os princípios das Sagradas Escrituras, tornando assim o estudioso, ou o filósofo, ou o cientista, ou o matemático, etc., alguém que está em seu labor coram Deo, e que labora para a glória de Deus.  

 

VI

 

Ao se estudar filosofia, ou pelo menos, ao se ouvir sobre a mesma, no primeiro momento, surge algumas questões; estas questões, ao serem tratadas corretamente, servem para desmitificar o que é estudo da filosofia e qual a sua importância.

Da mesma forma, para entender-se estes questionamentos, e para haver um entendimento do tema proposto, será elencado duas questões: (1) a primeira, “por que estudar filosofia?”, e (2) a segunda, “por que há uma ruptura entre o estudo cientifico da religião e a teologia confessional?”.

1. [Primeira Questão] Por que estudar filosofia?

No meio cristão criou-se uma aversão quase que total ao estudo, o que não é adequado ao cristianismo. A célebre indagação de Tertuliano permanece na mente dos cristãos: “Qual a relação que existe entre Atenas e Jerusalém? Ou entre academia e Igreja? Entre os heréticos e os cristãos?”[6]. Sendo assim, é bom revisitarmos a realidade tão gloriosa do estudo e também da necessidade desta compreensão e do diálogo correto, tão esquecida em tempos pós-modernos.

Num primeiro momento, o exemplo pode e deve ser um ponto de encontro; por exemplo, alguns dos maiores intelectuais da história são cristãos de fato; ora, nomes como Boécio, Cassiadoro, o próprio Santo Agostinho, Santo Alberto Magno, Santo Tomás de Aquino, etc., foram cristãos fervorosos, e gênios intelectuais. Portanto, se constata a partir do exemplo destes e de tantos outros, que ser cristão é ser racional.

Porém, não pode haver uma submissão cega nem por parte das perspectivas cristãs e muito menos das perspectivas filosóficas. “Nem a sujeição da dogmática aos pressupostos filosóficos nem a separação dualista entre a teologia confessional e o estudo cientifico da religião são aceitáveis. Essa ruptura separa a vida dos professores de teologia e dos pastores. Os esforços para ‘resgatar’ os estudos religiosos da acidez da filosofia modernista são um favor que a igreja não pode deixar de aceitar. Todo conhecimento está arraigado na fé e toda fé inclui um importante elemento de conhecimento”[7].

A importância do estudo filosófico adquire conotações grandiosas, pois através do estudo filosófico na idade média, abriram-se as portas para o estudo das artes clássicas, sendo a mesma “a arte das artes e a disciplina das disciplinas”[8]. Sendo ela isso, é clarividente que o estudo da mãe das ciências se faça necessário nas fases crepusculares do pensamento ocidental, onde as barreiras da gramática, da retórica, da lógica, da aritmética, da música, da geometria, da astronomia estão sendo modificadas de forma destruidora, na qual, muitas vezes, estas artes estão sendo moldadas para servir aos propósitos das ideologias nefastas.

Eis aí a importância do estudo da filosofia. Por isso, o estudo científico da religião, o estudo da filosofia, e o estudo da Teologia Sagrada estão sendo retirados um do outro, levando-os a um abismo aterrador, cujo fruto vem ataviado de uma cultura desencantada.

2. [Segunda Questão] Por que há uma ruptura entre o estudo científico da religião e a teologia confessional?

Aqui, propriamente dito, tem-se de entrar na história da filosofia. Pois sobre o segundo questionamento pairam alguns problemas ocorridos na história. Um dos maiores nomes da história da filosofia, e certamente, de todo o ocidente, foi Aristóteles. O gênio sistematizador da filosofia foi durante mais de dois mil anos, o principal expoente dos princípios do raciocínio correto, conferindo ao raciocínio suas leis bem fixas, chamada de leis da lógica.

A lógica formal deste pensador aceitava apenas a tese ou antítese; sobre se um pensamento é válido ou não, pois é assim que o intelecto opera. E assim, boa parte da história do ocidente (e do oriente) se baseou nas validações da lógica aristotélica. Até mesmo boa parte da formação da teologia cristã se baseou nestes princípios do pensamento para sistematizar suas verdades; basta lembrar do escolasticismo medieval, onde a lógica aristotélica legou uma produção extensa, límpida e harmoniosa.

O primeiro problema do segundo questionamento começa a se formular no início da idade moderna. Foi uma grande mudança de época na filosofia que se pontificou com Francis Bacon, cujo propósito era instaurar um novo método (Instauratio Magna) que deveria substituir o de Aristóteles, algo que já estava em suposta “decadência” desde o final da idade média, reivindicado pelo renascimento, pelo humanismo e pela reforma protestante.

Francis Bacon foi um autor de profunda erudição que, procurou demonstrar um novo método para o estudo científico, no Novum Organum (Novo Instrumento), o qual que deveria substituir o Organum (Instrumento) de Aristóteles. Francis Bacon assevera: “Tal como as ciências, de que ora dispomos, são inúteis para a invenção de novas obras, do mesmo modo a nossa lógica atual é inútil para o incremento das ciências. A lógica tal como é hoje usada vale mais para consolidar e perpetuar erros, fundada em noções vulgares, que para a indagação da verdade, de sorte que é mais danosa do que útil”[9].

Este é o primeiro problema, a tentativa de mudar o instrumento do pensamento correto, em outro tipo de instrumento, o instrumento do pensamento desfigurado ou esclerosado.

O segundo problema é que em meados do século XVIII e do século XIX, um filosofo alemão chamado Hegel, desenvolveu sua lógica, o que causou uma ruptura mais radical com os princípios tradicionais da lógica aristotélica. Para Hegel, as leis da lógica formal não servem, pois o único método adequado para o estudo da realidade é a dialética (não da dialética da oposição de argumentos contrários, mas da dialética que ele estabelece). Assim, o pensamento progride pondo a si mesmo (tese), negando o que pôs (antítese), e unindo o que foi posto ao que foi negado (síntese)[10].

Desta forma, estava pontificado o caminho para a ruptura entre a verdade absoluta e a não-verdade, pois agora a verdade dependeria não apenas de um raciocínio lógico e correto, mas da opinião de cada um. Isto vai desdobrar-se no lema pós-moderno: não existem absolutos, apenas verdades individuais. A partir de Hegel, foi-se cunhado uma série de pensamentos que desestabilizam o pensamento teórico de seu lugar, como por exemplo, o socialismo, o marxismo, o comunismo, p fascismo, o nazismo, o ateísmo, etc.

Eric Voegelin também descreveu esta mudança, o que ele chamou de a saída do sentido clássico para o sentido moderno. Ele faz a comparação entre os dois sentidos, o clássico e o moderno; e esta comparação é muito útil; no sentido clássico, ele diz: “... a filosofia é o esforço de avançar da opinião (doxa) acerca do homem e da sociedade para a ciência (episteme); o filosofo não é um filodoxo (amante da opinião)”; já no sentido moderno, “nenhuma ciência é possível sobre tais matérias, apenas a opinião; todo o mundo tem direito a suas opiniões; temos uma sociedade pluralista”[11].

Com esta mudança, qualquer elucidação no pensamento teórico atinge conotações de apenas opinião, se tornando o filósofo num filodoxo, como acertadamente diz Voegelin; isto é uma lástima, pois reduz o pensamento teórico com sua metodologia a apenas concepções particulares, destronando qualquer tentativa de verdade universal ou absoluta.

Por isso, há uma rejeição aos princípios racionais e uma rejeição ainda mais aos bíblicos fundamentais. Assim, se pavimentara o caminho para uma era de rejeição a princípios absolutos, onde tudo se torna relativo, o que acaba por secularizar a compreensão da verdade.

 

VII

 

Os dois problemas do segundo questionamento erguem-se como respostas sobre a cultura ocidental fazendo com que ela seja subjugada sob a empulhação de conceitos desestabilizadores; ou seja, é a rejeição aos fundamentos da ordem social; essa rejeição formou três espectros (fantasmas) que assombram o cenário ocidental[12]. Estes espectros podem ser comparados aos espectros alados da mitologia de J. R. R. Tolkien, no que tange a sua finalidade; estes trabalham para o mal em busca de algo para aprisionar todos os seres livres sob seu domínio, usando a maldade para tal fim; aqueles que são exemplificados com a mesma finalidade, porém não existem de forma concreta como os monstros tolkianos, porém sua existência através da destruição da ordem social são por demais verdadeiros.

Em primeiro lugar, tem-se o Deus que foi jogado para fora da busca e a quem não se permite mais que responda a questões; esta situação figura, pois devido à volta ao pensamento antropocêntrico, Deus é tirado de cena e o homem coloca-se em seu lugar, sem é claro se esquecer de seus benefícios. Daí a máxima: “tudo o que o homem constrói sem Deus se volta contra o homem”; sendo assim, o primeiro fantasma que assombra a cultura ocidental é aquele que tira Deus de cena, e exalta o homem. Ou nas palavras de Nietzsche: “Deus está morto”. Ele diz: “O acontecimento de maior grande dos últimos tempos - o fato de que ‘Deus está morto’, ou seja, o fato de que a fé no Deus cristão despojou-se de sua plausibilidade - já lança suas primeiras sombras na Europa”[13].

Em segundo lugar, tem-se o cogitare do observador arquimédico fora do movimento; o ponto arquimédico faz referência ao princípio que não pode ser negado; quando aplicado ao pensamento de alguma pessoa ganha conotações de um pensamento que não pode ser negado em seu conteúdo. Este mesmo observador, um pensador, incha até virar um monstro mitológico que se enquadra em sua própria história, criando um deus, um homem e uma história a sua própria imagem e semelhança – a criação do eu como quimera -, deixando de lado o Deus Criador; em alguns casos, só se lembra de Deus como Criador que fez tudo com leis tão perfeitas, que agora sai de cena e entra para os seus aposentos celestes para descansar, formando o deísmo. 

Em terceiro lugar, tem-se o homem do cogito ergo sum (penso, logo existo) cartesiano; a sentença de Descartes coloca o homem na posição de senhor de sua existência, de capitão do próprio destino; isto é ridículo. Pois, para Descartes, no seu ato de pensar o homem tem sua existência afirmada; e este pensar, é o pensar com a própria razão sem o auxílio da religião, particularmente do cristianismo. Este homem, logo se transformará no homem desencantado e desanimado de sua existência do século XXI. Ele se transformará no sum ergo cogito (existo, logo penso) sartriano; este é o homem, pintado pelo existencialismo, como aquele que só é enquanto senhor de sua existência, mas que exista sob o jugo de outros.

[Etc., etc., etc.]

Portanto, estes mudanças no pensamento teórico, da retirada de Deus e a exaltação do homem como medida de todas as coisas, bem como a declaração de sua existência por isso mesmo, como senhor de seu próprio destino, de sua forma de reorganizar a sociedade em seu “Contrato Social”, de sua economia baseada no deus deísta bem como sua política total dominada vários “ismos”, ocasiona a mudança no sentido clássico da cultura ocidental tanto quando acarreta problemas teóricos para a filosofia bem como para a teologia; por isso, cada vez mais o homem moderno se encontra inquieto, ansioso, desesperançado e desencantado.

O próprio Nietzsche, o mesmo homem que percebeu que os homens modernos instituíram que “Deus está morto”, noutro lugar declarou quais eram as consequências de o homem apegar-se a si mesmo: “Nós, que somos homens do conhecimento, não conhecemos a nós próprios; somos de nós mesmos desconhecidos - e não sem ter motivo (a morte de Deus). Nunca nos perguntamos: como poderia, então que nos encontrássemos algum dia? Com razão alguém disse: ‘onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração’”[14]. E esta é uma sumula de como tem sido a vida na contemporaneidade.

 

VIII

 

A construção do pensamento filosófico ou do pensamento científico contemporâneo defronta-se com uma grande problemática, a suposta neutralidade do pensamento teórico, como se o desenvolvimento das competências teóricas fosse desvinculado de alguma concepção religiosa.

Por mais que se afirme que há neutralidade no pensamento teórico, não é nada mais do que uma cortina de fumaça para tentar afastar os desavisados. Isto não passa de mito. Todo ato cultural é um ato de fé, e a ciência tanto quanto a filosofia o são da mesma maneira. Observe que, devido a cortina de fumaça, a hegemonia quase que total no mundo acadêmico é ateístico; o que causa desgraça na educação, na ciência, na filosofia, na economia, na política, na teologia, etc.

Para uma cultura que se forma assim não existe Verdade Absoluta, apenas verdades opinativas. Isto, pela perspectiva cristã, sabe-se que não é verdade, pois existe uma única verdade: Jesus Cristo. O interessante é que a concepção de verdade do mundo contemporâneo é reducionista, pois a estabelece como opinião, mas a concepção clássica é abrangente e a estabelece como verdade válida e absoluta. 

Na cultura clássica a concepção de verdade se dá a partir de três concepções diferentes vindas da língua hebraica, da grega e da latina[15]. Em hebraico, a língua que Deus escolheu para se revelar ao mundo pactualmente, a palavra verdade é emunah, e significa confiança e/ou fé e refere-se a confiança em Deus. Um Deus verdadeiro ou um amigo verdadeiro são aqueles que prometem, são fiéis a palavra dada ou ao pacto feito. Em grego, a língua da formação cultural e filosófica, a palavra verdade é aletheia, e significa realidade. Em latim, a língua formadora da linguagem ocidental, a palavra verdade é veritas, e significa precisão, rigor, exatidão de um relato, com seus pormenores e fidelidade ao que aconteceu.

Isto está em perfeito acordo com a cosmovisão cristã; Deus escolheu Abrão para se revelar, e lhe fez promessas verdadeiras, e lhe chamou de amigo, ou seja, Deus é aquele que promete como um amigo a Abrão; no Novo Testamento o senhor Jesus diz que é a verdade, e o termo grego para verdade e o termo latino para verdade, são, respectivamente, aletheia e veritas. Sendo assim, aletheia se refere às coisas que são; veritas se refere aos fatos que foram; e emunah se refere às ações e coisas que serão. Está escrito: “Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim, diz o Senhor, que é, e que era, e que há de vir, o Todo-Poderoso” (Ap 1.8).

 

IX

 

Dentro do estudo da filosofia, com vistas a uma perspectiva cristã, há alguns desenvolvimentos teológicos que são aios para conduzirem o estudioso cristão na esfera filosófica e de outros saberes; por isso, faz-se necessário pontuar dois tópicos: (1) teologia da história e (2) graça comum.

O primeiro é a teologia da história, pois trata do desenrolar da história como eixo hermenêutico absoluto no Verbo de Deus (Logos); Ele é o centro da história.

O segundo ponto é a respeito da graça comum, que trata do cuidado gracioso dispensado por Deus ao ser humano após a Queda, concedendo-lhe coisas boas e benéficas para o desenvolvimento da vida humana, apesar da rebeldia do mesmo.  

1. Na teologia da história, onde se estuda o conteúdo principal do desenvolvimento da história, a partir do principal acontecimento que serve como eixo hermenêutico para interpretar a mesma: a vida e obra de Jesus Cristo; tanto o é que a história se divide em antes e depois de Cristo.

Antes de Cristo toda a humanidade foi preparada para o cumprimento de todas as profecias veterotestamentárias, ou seja, foi preparada para o esplendor da plenitude dos tempos; e esta plenitude foi lapidada em todas as culturas, mas principalmente nas que estão rodeando as terras onde vão se desenrolar os acontecimentos mais sublimes da história da humanidade; e um dos mais conspícuos momentos do desenvolvimento cultural antes de Cristo foi o surgimento da filosofia.

Após Cristo, a história se desenrola para o cumprimento cabal do reino e senhorio d’Ele sobre todas as coisas. Daí a teologia da história se preocupar em interpretar a história a partir de Cristo, e em função d’Ele, e para Ele.

No interpretar da história da filosofia, na perspectiva cristã, é coerente que se chegue ao estudo filosófico com a percepção que tudo na história está sobre o controle soberano de Deus, seja na revelação geral seja na especial. Sendo assim, desde os elementos que prepararam o caminho para a filosofia até o seu surgimento, estavam dispensados a humanidade na graça divina direcionada indistintamente a todos os homens. Em consequência disto, o surgimento da filosofia em determinado momento da história, é obra da soberania de Deus em conduzir o caminho da ciência (cf. Is 40.12-13).

Outrossim, é que o conceito de teologia da história tem seu amparo em Santo Agostinho, particularmente em “De Civitate Dei”; outro proponente foi São Boaventura, que dissera que “opera Christi no deficiunt, sed proficiunt” (as obras de Cristo não regridem, não vem a falta, mas progridem)[16]; ou seja, a história tem seu centro em Cristo e a partir disto, ela caminha para a Consumação também por Cristo, o único digno de abrir o livro da história e desatar seus selos, isto é, de levar a cabo seu cumprimento (cf. Ap 5).

2. Deste modo, em relação com a disciplina teológica da teologia da história, há o entendimento, propício para a perspectiva ajuizadora na correta relação do cristão com a esfera científico-filosófica, que é o entendimento de Graça Comum. Este conceito é citado em muitas teologias sistemáticas contemporâneas; porém, sua significação remonta aos Padres da Igreja; por exemplo, este conceito, ainda embrionário, estava presente em Santo Agostinho, quando este trata da graça; e também em Santo Tomás de Aquino, que também fala da graça dispensada a todos os homens; mas, principalmente está bem delineado nos Padres Capadócios.

Ora, Graça comum é o conceito que mostra a bondade (ou longanimidade) de Deus para com sua criação, sustentando-a da corrupção abrupta do pecado. O conceito de Graça Comum significa “o favor imerecido de Deus de forma geral com a criação depois da Queda, tendo como fundamento a longanimidade de Deus”[17] (cf. 1Pe 3.20a; Is 54.9). Esta manifestação da graça de Deus é direcionada a todos os homens indistintamente, porém ela não é salvadora.

Por isso, aquilo que é bom na filosofia deve-se atribuir a Divina Providência, pois foi graça outorgada aos homens para criarem algo bom; graça comum é claro, mas é graça. Sobre isso, São Clemente de Alexandria assevera: “Antes da vinda do Senhor, a filosofia era indispensável aos gregos para conduzi-los à justiça; agora se torna útil para conduzi-los à veneração de Deus. Ela serve de formação preparatória aos espíritos que querem chegar à fé pela demonstração. ‘Teu pé não tropeçará’, como diz a Escritura, se atribuis à Providência tudo o que é bom, tanto grego quanto cristão. Deus é a causa de todas as coisas boas, uma imediatamente e por si mesma, como o Antigo e o Novo Testamento; outras por corolário, como a filosofia. Mesmo a filosofia talvez também tenha sido dada como um bem direto aos gregos, antes que o Senhor tivesse ampliado até eles o seu chamado, pois ela realizava a educação deles, exatamente com a Lei dos judeus, para ir até Cristo. A filosofia é um trabalho preparatório; ela abre o caminho àquele que Cristo depois torna perfeito...”[18].

[...]

Portanto, se se compreender estes aspectos, e deles se observar a relação concêntrica, se pode obter os princípios e perspectivas gerais necessários para se adentrar no estudo e na compreensão da filosofia a partir de uma perspectiva teológica adequada e adequadora. 

Laudate Deo! 


Apêndice: Mensagem inicial em agradecimento pelo convite para ministrar as aulas de filosofia.

 

Rompe-se de alegria o meu coração, ao ser convidado para vir ministrar junto a vós este curso tão fundamental em vossa peregrinação intelectual, o qual certamente atuará como instrumento modelador em vós; por isso, confesso-vos, neste primeira palavra, que antecede propriamente este curso, minha total incapacidade de fazer tal empreendimento, lembrando-me e lembrando-vos que, no mais das vezes tantas, pessoas mais capacitadas poderiam fazê-lo, como bem testifica esta aula inaugural.

Porém, aprouve a Providência Divina entrelaçar os nossos caminhos neste ínterim, para que juntos possamos compartilhar conhecimentos e chegar a compreensões tão úteis do saber humano que, olhados e estudados com esmero e dedicação, há de recompensar aqueles que assim o fizerem; não a preço de um racionalismo impreciso e estéril, mas tendo em mente que tudo o que aprendemos serve de esterco para adubar nosso discurso, nossas reflexões, nossas atividades a respeito das benditas palavras do Evangelho (cf. Fp 3.8).

Que nesta noite possamos caminhar juntos no conteúdo proposto para que, ao justificar nosso estudo e aprendizado, possamos olhar extasiados para a Suprema grandeza e Inefável Sabedoria do Senhor Jesus, em quem “estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência” (Cl 2.4). 



[1] Giovanni Reale e Dario Antiseri, História da Filosofia Volume 1: Filosofia Pagã Antiga [1° edição. São Paulo: Paulus, 2003], pág. 11-12.

[2] cf. Xavier Zubiri, Cinco Lições de Filosofia [São Paulo: É Realizações, 2012], pág. 56-71.

[3] Hugo de São Vitor, Didascalicon: Sobre a Arte de Ler [1° edição. Campinas, SP: Kírion, 2018], pág. 36-37.

[4] Mário Ferreira dos Santos, Convite a Filosofia e a História da Filosofia [5° edição. São Paulo: Logos, 1957], pág. 14. 

[5] Santo Agostinho, Confissões [Coleção Clássicos de Bolso. São Paulo: Paulus, 2002], livro X, cap. 27, n. 38, pág. 299.

[6] Tertuliano, De Praescriptione Haereticorum, cap. VII, n. 9.

[7] Herman Bavinck, Dogmática Reformada Volume 1: Prolegômenos [1° edição. São Paulo: Cultura Cristã, 2012], pág. 26.

[8] Hugo de São Vitor, Op. Cit., pág. 67.

[9] Francis Bacon, Novum Organum, livro I, XI-XII.

[10] cf. Battista Mondin, Curso de Filosofia Volume 3 [1° edição. São Paulo: Paulus, 2005], pág. 47.

[11] Eric Voegelin, Ensaios Publicados 1966-1985 [1° edição. São Paulo: É Realizações, 2019], pág. 316.

[12] Leo Strauss e Eric Voegelin, Fé e Filosofia Política: A Correspondência entre Leo Strauss e Eric Voegelin [1° edição. São Paulo: É Realizações, 2017], pág. 172.

[13] Friedrich Nietzsche, A Gaia Ciência [São Paulo: Martin Claret, 2003], livro V, n. 343, pág. 181.

[14] Friedrich Nietzsche, Genealogia da Moral: Uma Polêmica [São Paulo: Companhia das Letras, 2009], pág. 7.

[15] cf. Julián Marias, Introdução a Filosofia [São Paulo: Duas Cidades, 1960], pág. 100-102.

[16] São Boaventura, De Tribus Quaestionibus, n. 13.

[17] Abraham Kuyper, De Gemeene Gratie Eerste Deel: Het Geschiedkundig Gedeelte [1° edição. Leiden: D. Donner, 1902], pág. 7s.

[18] In: Jacques Liébaert, Os Padres da Igreja Volume 1 [3° edição. São Paulo: Loyola, 2013], pág. 88. 


Os maiores atiradores da história

Diante de algumas indagações a respeito de um aspecto específico da história militar, a saber, sobre os maiores atiradores da história (snip...