25/12/2022

Reflexão sobre o Natal

I

 

A época do Natal, evoca sempre de maneira renovada, na consciência dos cristãos, e invoca àqueles não o são, o tema da Reconciliação; Deus se tornara homem, a Eternidade entrou no tempo, o Filho de Deus se encarnara, e isto é o que na doutrina cristã chama-se de Reconciliação; Jesus Cristo, o Filho de Deus, se tornara homem para redimir e reconciliar o cosmos com Deus.

E o mistério tão sublime da Reconciliação começa com o Natal, com o nascimento de Cristo em Belém da Judeia. E estas são as boas-novas de grande alegria que o Natal traz consigo (cf. Lc 2.9-14), de que Cristo, o Senhor, nascera, e a gloriosa Salvação prometida por Deus a Israel se consumara. É como o velho Simeão dissera: “Agora, Senhor, podes despedir em paz o teu servo, segundo a tua palavra, pois já os meus olhos viram a tua salvação, a qual tu preparaste perante a face de todos os povos, luz para alumiar as nações e para glória de teu povo Israel” (Lc 2.29-32).

 

II

 

E nesta data, em que o Evangelho se nos apresenta com ricas e vividas palavras de que o Salvador nasceu, no mais das vezes, constitui o centro das mensagens pregadas e proclamadas nas Igrejas no tempo do Advento; todavia, em relação ao Natal, sempre ocorre um fato curioso; o Pe. António Vieira, num de seus inigualáveis sermões, sermão esse que constitui-se um dos pontos máximos de toda a literatura portuguesa, assevera: “O estilo era que o pregador explicasse o evangelho: hoje o evangelho há de ser a explicação do pregador” (Sermão da Epifania, 1662).

No Natal, o evangelho há de ser a explicação do pregador; pois, no Natal, o oficio sagrado, o santo ministério da pregação, e a glória singular de toda a Igreja e a existência eclesial, são tomados em termos do que dissera Vieira: não somos nós cristãos, ou os pregadores, ou a Igreja que hão de explicar o Evangelho, mas o Evangelho há de nos explicar, pois, tão gloriosa mensagem, da Revelação de Deus em Cristo e da Reconciliação que Cristo faz dos homens com Deus, é o cerne da mensagem do Natal.

Tão gloriosa mensagem; tão efusivo momento no calendário cristão, em que o Evangelho resplandece límpido e em toda sua sublimidade. O Filho de Deus se fez homem: eis a mensagem que nos explica! O Filho de Deus se fez carne: eis a Reconciliação que nos conduz! O Filho de Deus se tornara Filho do Homem: eis o cerne da mensagem que nos anima e fortalece!

 

III

 

Isso é o Natal, lembrarmos que a Reconciliação já fora feita e consumada, e que essa Reconciliação se mostrara numa manjedoura, onde não os reis da terra estavam sentados, ou onde os grandes e poderosos estavam ajoelhados, mas onde nascera o Filho de Deus, e diante do qual estavam os animais, os quais Ele próprio criara, e que agora contemplam Seu Bendito Nascimento; onde estava Sua Mãe, que Ele mesmo criara, e que agora contempla Seu Bendito Nascimento.

Esta é a mensagem do Natal, a Encarnação de Cristo! Karl Barth diz que a Encarnação de Cristo é “a revelação de Deus para nós e nossa reconciliação com Ele. Que esta revelação e reconciliação já ocorreram é o conteúdo da mensagem de Natal”. Que esta revelação e reconciliação já ocorreram há de ser a explicação do pregador, e a explicação de nós cristãos neste dia de Natal. E assim poderemos entoar com sinceridade o coro angelical: “Glória a Deus nas alturas, paz na terra, boa vontade para com os homens!” (Lc 2.14). 

A Deus toda glória! Amém. 


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