I
A época do Natal, evoca sempre de
maneira renovada, na consciência dos cristãos, e invoca àqueles não o são, o
tema da Reconciliação; Deus se tornara homem, a Eternidade entrou no tempo, o
Filho de Deus se encarnara, e isto é o que na doutrina cristã chama-se de
Reconciliação; Jesus Cristo, o Filho de Deus, se tornara homem para redimir e
reconciliar o cosmos com Deus.
E o mistério tão sublime da
Reconciliação começa com o Natal, com o nascimento de Cristo em Belém da
Judeia. E estas são as boas-novas de grande alegria que o Natal traz consigo
(cf. Lc 2.9-14), de que Cristo, o Senhor, nascera, e a gloriosa Salvação prometida
por Deus a Israel se consumara. É como o velho Simeão dissera: “Agora,
Senhor, podes despedir em paz o teu servo, segundo a tua palavra, pois já os
meus olhos viram a tua salvação, a qual tu preparaste perante a face de todos
os povos, luz para alumiar as nações e para glória de teu povo Israel” (Lc
2.29-32).
II
E nesta data, em que o Evangelho
se nos apresenta com ricas e vividas palavras de que o Salvador nasceu, no mais
das vezes, constitui o centro das mensagens pregadas e proclamadas nas Igrejas
no tempo do Advento; todavia, em relação ao Natal, sempre ocorre um fato
curioso; o Pe. António Vieira, num de seus inigualáveis sermões, sermão esse
que constitui-se um dos pontos máximos de toda a literatura portuguesa,
assevera: “O estilo era que o pregador explicasse o evangelho: hoje o
evangelho há de ser a explicação do pregador” (Sermão da Epifania,
1662).
No Natal, o evangelho há de ser a
explicação do pregador; pois, no Natal, o oficio sagrado, o santo ministério da
pregação, e a glória singular de toda a Igreja e a existência eclesial, são
tomados em termos do que dissera Vieira: não somos nós cristãos, ou os
pregadores, ou a Igreja que hão de explicar o Evangelho, mas o Evangelho há de
nos explicar, pois, tão gloriosa mensagem, da Revelação de Deus em Cristo e da
Reconciliação que Cristo faz dos homens com Deus, é o cerne da mensagem do
Natal.
Tão gloriosa mensagem; tão
efusivo momento no calendário cristão, em que o Evangelho resplandece límpido e
em toda sua sublimidade. O Filho de Deus se fez homem: eis a mensagem que nos
explica! O Filho de Deus se fez carne: eis a Reconciliação que nos conduz! O
Filho de Deus se tornara Filho do Homem: eis o cerne da mensagem que nos anima
e fortalece!
III
Isso é o Natal, lembrarmos que a
Reconciliação já fora feita e consumada, e que essa Reconciliação se mostrara
numa manjedoura, onde não os reis da terra estavam sentados, ou onde os grandes
e poderosos estavam ajoelhados, mas onde nascera o Filho de Deus, e diante do
qual estavam os animais, os quais Ele próprio criara, e que agora contemplam
Seu Bendito Nascimento; onde estava Sua Mãe, que Ele mesmo criara, e que agora
contempla Seu Bendito Nascimento.
Esta é a mensagem do Natal, a Encarnação de Cristo! Karl Barth diz que a Encarnação de Cristo é “a revelação de Deus para nós e nossa reconciliação com Ele. Que esta revelação e reconciliação já ocorreram é o conteúdo da mensagem de Natal”. Que esta revelação e reconciliação já ocorreram há de ser a explicação do pregador, e a explicação de nós cristãos neste dia de Natal. E assim poderemos entoar com sinceridade o coro angelical: “Glória a Deus nas alturas, paz na terra, boa vontade para com os homens!” (Lc 2.14).
A Deus toda glória! Amém.