08/02/2026

Sobre a Reconstrução da Fenomenologia

I

 

A fenomenologia desenvolvida por Husserl é um dos pontos altos do pensamento ocidental; principalmente, porque na filosofia moderna não surgiu quase nada de bom – a fenomenologia é uma das poucas exceções; não para menos, diante do deserto da inteligência que assola os homens modernos, a fenomenologia é como um oásis; por isso, a reflexão sobre a fenomenologia se sobreleva ao horizonte de consciência dos homens modernos de tal modo que se torna quase que um método inalcançável – e por esta razão, muitos tendem a desprezar a fenomenologia tanto quanto desprezam o método escolástico.

Mas, que é a fenomenologia? Duas respostas são evocadas: (1) Olavo de Carvalho diz que “a fenomenologia é uma auto-reflexão e um autoconhecimento. É o autoconhecimento da consciência, enquanto capacidade cognitiva[1]; e, (2) segundo Husserl, “a fenomenologia é a doutrina universal das essências, em que se integra a ciência da essência do conhecimento[2].

Ora, estas duas definições dão um norte básico do que é a fenomenologia; em sentido definitório, a fenomenologia é a “doutrina universal das essências”, isto é, a doutrina que busca compreender as essências ou núcleo de sentido de cada ente; e em sentido demonstrativo, a fenomenologia é a auto-reflexão que conduz ao autoconhecimento, a fim de que a consciência se torne consciente das operações cognitivas. Portanto, a fenomenologia busca compreender a essência das coisas, para que a consciência se torne autoconsciência de si, a fim de conduzir o intelecto ao saber real.

Deste modo, a fenomenologia tanto diz respeito a atitude fundamental do indivíduo que busca conhecer, quanto do conhecimento de fato adquirido; a fenomenologia não só mostra a atitude do conhecimento, mas também a atitude do sujeito cognoscitivo; com efeito, a fenomenologia não só é um método escolar, mas também um método conscientivo.

 

II

 

A breve descrição da fenomenologia nestes termos tem por propósito evocar uma tarefa a respeito da reconstrução da fenomenologia; mas por que? A fenomenologia foi em parte esterilizada por seu próprio cultor; por esta razão se faz necessário laborar para reconstruir a fenomenologia.

E por que a fenomenologia foi esterilizada? Esta é uma indagação dificílima de se responder; pois, a atitude final de Husserl em relação a fenomenologia não foi um erro de desatenção ou paralogismo; Husserl esterilizou a fenomenologia de modo consciente; e não é fácil se entender a real razão; parece que seja por ter visto Heidegger acoplar o saber fenomenológico ao nacional-socialismo; como se sabe, isto trouxe uma grande tristeza e desgosto para Husserl, ao ver seu mais genial aluno usar a filosofia fenomenológica para embasar o nazismo.

Certamente, foi por esta razão que Husserl esterilizou a fenomenologia e “desmontou” a mesma; mas, a esterilizou não de maneira cabal, apenas para por fim a infâmia de utilizar sua descoberta e sua filosofia para propósitos nefastos; e o modo como Husserl esterilizou a fenomenologia não foi a destruição do próprio filosofar fenomenológico, mas sim o impedimento de se utilizar a fenomenologia com propósitos ideológicos.

E parece que ao fazer isso, Husserl, de maneira velada, deixou aberto o caminho para a reconstrução da fenomenologia em outra época; disto tenho plena certeza; pois, Husserl não esterilizaria de modo cabal a fenomenologia, mas o fizera de modo parcial para tirar de seus discípulos enviesados pelo nacional-socialismo o ímpeto fenomenológico; o mestre morreu antes do nazismo cometer suas maiores atrocidades, mas não se foi deste mundo sem impugnar a utilização de sua filosofia por homens descarados.

Portanto, creio ser uma das mais importantes tarefas da filosofia hodierna se aperceber disso e novamente retomar o ímpeto da fenomenologia husserliana; os alunos de Husserl e os continuadores da fenomenologia não se aperceberam disso; houveram filósofos notáveis que utilizaram-se do método fenomenológico, e escreveram obras imortais; mas, o núcleo central do desenvolvimento fenomenológico continua com a impugnação de Husserl – certamente, esperando para ser reavaliado e abalizado de modo correto.

Com isso, se põe como tarefa a iniciativa de reconstruir a fenomenologia, de retomá-la ao se dissolver a impugnação de Husserl; todavia, mantendo esta impugnação diante do descaro daqueles que querem utilizar a filosofia e/ou a ciência para propósitos ideológicos; na verdade, chega-se a conclusão de que a reconstrução da fenomenologia é uma das maiores necessidades da filosofia contemporânea. É uma hercúlea iniciativa, mas que tem de ser levada adiante o mais rápido possível.

 

III

 

E o caminho desta hercúlea iniciativa para reconstruir a fenomenologia é disposto em três partes; considerei por bem seguir este caminho tendo em vista a proposição de Heidegger sobre os problemas fundamentais da fenomenologia em três partes[3]; analisei esta proposição de Heidegger, que estruturalmente tem grande utilidade, a abalizei e reelaborei o que considerei adequado, sem os desvios da filosofia heideggeriana, para fazer uma análise reconstrutória da fenomenologia.

Com isso, estas três partes são assim sumariadas:

Ø   Parte I: A elucubração sobre o Ser. Ora, nesta parte são elucubrados os pressupostos e os aspectos fundamentais da elucubração do Ser; pois, a elucubração sobre o Ser é o núcleo da fenomenologia; a volta às coisas só é possível com o entendimento sobre o Ser; portanto, o lema fenomenológico é a volta para se elucubrar sobre o Ser tal como o mesmo está disposto na realidade, seja nas coisas seja nos entes – principalmente nos entes.

Ø   Parte II: O Ser em geral. Ora, nesta parte são elucubrados os aspectos concernentes ao próprio Ser: seus modos, emanações, distinções e propriedades; pois, o Ser está manifesto em cada núcleo de sentido da ordem da realidade; desvelar este sentido e aclará-lo constitui-se tarefa da filosofia - e da ciência; pois, o Ser em geral diz respeito a todas as manifestações do Ser, seja em si mesmo e por si mesmo, isto é, substancialmente, seja através de coisas e/ou entes, isto é, acidentalmente.

Ø   Parte III: A ideia de fenomenologia. Ora, após se por adequadamente a questão sobre o Ser, tanto no sentido do método filosófico quanto no sentido propriamente dito ontológico, se prossegue para compreender no que consiste a ideia de fenomenologia; pois, a fenomenologia está intimamente ligada a compreensão sobre o Ser; pois, do Ser emana o núcleo de sentido dos entes, os quais, ao serem existentes também se tornam um “ser”. Logo, a ideia de fenomenologia tem em si mesma um núcleo ontológico; e por ter um núcleo ontológico, tem uma estrutura lógica; por isso, a fenomenologia inicia sob um fundamento lógico e desenvolve-se sob um fundamento ontológico.

Deste modo, nestas três partes se tem o que considerei necessário adequar para designar e/ou evocar a fim de pressupor e levar adiante a reconstrução da fenomenologia; pois, embora a fenomenologia tenha se auto-esterilizado, como fora dito no início, e tenha sido deformada por vários filósofos, a necessidade de reconstruí-la está em vista de dissolver esta esterilização, bem como em livrá-la das aporias que se assomaram nesta notável escola filosófica. Este caminho proposto tem este objetivo.

 

IV

 

Ora, em relação a primeira parte – a elucubração sobre o Ser – se a subdivide em quatro seções, as quais são:

a) O Ser. [o que é o Ser? / o conhecimento do Ser / os graus de emanação do Ser / a participação / os tipos de ser]

b) A essência e a existência. [o que é essência? / os tipos de essência / o que é existência? / os modos da existência / a relação entre essência e existência / o ente, a essência e a existência]

c) A natureza e a consciência. [o que é natureza? / as esferas da natureza / os tipos de natureza / o que é consciência? / a natureza da consciência / as operações da consciência / apêndice: a filosofia da revelação]

d) A apreensão lógica. [o que é lógica? / as operações do intelecto / o que é apreensão lógica? / a lógica pura / o ato judicante]

E, nestas quatro seções, se tem o que concerne a ponderação sobre o Ser do ponto de vista puramente filosófico, pelo lume da luz interior; pois, o Ser não está velado; na verdade, o Ser está totalmente desvelado em tudo aquilo que participa do ato de ser; portanto, a existência dos entes demonstra suas essências, de modo que seja pela natureza seja pela consciência se tem a abstração do saber que está dado na realidade; e este saber abstraído é confirmado pela apreensão lógica. Assim, a elucubração sobre o Ser não somente versa sobre um tópico ontológico, mas engendra lógica e epistemologia em conjunto dialógico.

 

V

 

Ora, em relação a segunda parte – o Ser em geral – se a subdivide em cinco seções, as quais são:

a) A diferença entre Ser e ente. [as distinções entre ser e ente / a natureza do Ser / a natureza do ente / a diferença entre coisas e entes / o primado ontológico do indivíduo]

b) A articulação fundamental do Ser: essência e existência. [a dialógica entre essência e existência / o Ser nas essências / a ordem da realidade e a existência dos entes/ a essência do Ser / a existência do Ser]

c) Os modos de Ser. [as emanações do Ser / o Ser em si / O Ser nos entes e a partir dos entes / os tipos de modos de ser / a dialógica do ato de ser]

d) A unidade e a multiplicidade do Ser. [a unidade do Ser / a multiplicidade do Ser / a dialógica da unidade / a dialógica da multiplicidade / o um e o múltiplo]

e) A verdade do Ser. [a verdade e o Ser / as múltiplas manifestações da verdade / o Ser e a sinfonia da verdade / as verdades do Ser / as verdades sobre o Ser / o ato de ser e a verdade]

E, nestas cinco seções, se tem o que concerne a elucubração sobre o Ser em geral; nisto, propriamente, se evoca muitos princípios ontológicos, pois o ser se articula fundamentalmente entre essência e existência, tanto a partir dos modos de ser, quanto nas esferas de verdade das emanações do Ser; pois, a elucubração sobre o Ser em geral é o que se chama propriamente de ontologia; e a ontologia não é um saber vago ou dogmático, antes a ontologia é um saber real; o Ser é possível de ser conhecido de fato; e isto não apenas é um dado sobre a realidade, pois o Ser é o ponto arquimédico da própria realidade – a quem Heráclito sabiamente e acertadamente chamara de λόγος.

 

VI

 

Ora, em relação a terceira parte – a ideia de fenomenologia – se a subdivide em cinco seções, as quais são:

a) A ontologia. [o que é ontologia? / as divisões da ontologia / a ordem ontológica da realidade / a estrutura fenomênica do ôntico / a dialética da ontologia / ontologia e numerologia pitagórica]

b) O conhecimento. [o que é conhecimento? / o saber / gnosiologia e ontologia / a gnosiologia real / o coração como núcleo ontológico / o inteligível / o intelecto / o conhecimento e a perfeição da alma]

c) O método fenomenológico. [o que é o método fenomenológico? / os estágios do método fenomenológico / a realidade e os fenômenos / a aplicação do método fenomenológico / a filosofia fenomenológica]

d) O conceito de filosofia. [que é filosofia? / as divisões da filosofia / a história da filosofia / o filosofar / o filósofo / a sabedoria / a sabedoria e a fenomenologia]

e) A tarefa da filosofia. [a elucubração sobre a realidade / o lume da luz interior / o conhecimento dos entes / o conhecimento do Ser / os transcendentais / os princípios / a ordem dos princípios / as disciplinas filosóficas / as ciências]

E, nestas cinco seções, se tem o que concerne a ideia de fenomenologia; e aqui se tem o ponto de partida da pesquisa fenomenológica que é orientada sob uma sólida ontologia real, que fora abalizada, definida e demonstrada nas duas partes anteriores, com seus elementos amalgamados; na verdade, a análise fenomenológica concatena as três partes constituintes da filosofia, mais a parte prática ou filosofia moral (ética); portanto, a análise fenomenológica inicia na coesão lógica, perfaz a análise de toda a extensão da compreensão sobre o ente móvel, se sublima na análise do Ser e da ordem da realidade, e desemboca na reflexão sobre vida ordenada ou virtuosa.

Ora, tendo delineado estas três partes, conclui-se a apresentação de como se procederá no caminho em via da reconstrução da fenomenologia.

 

***

 

Epílogo. E, tendo descrito no que consistirá esta invectiva da reconstrução da fenomenologia, para levar adiante estas questões evocadas serão refletidos sobre estes tópicos em vários escritos: artigos, opúsculos, lições e tratados; não vou de antemão descrever em específico todos estes escritos, mas quando surgir algum escrito que estiver ordenado a esta invectiva estará mencionado ou no início (proêmio ou prólogo) ou no final (epílogo), que é parte da invectiva da reconstrução da fenomenologia; posteriormente, só ordená-los de acordo com o assunto e a tríplice estrutura que é evocada neste escrito; se conseguir concluir tudo que pretendo escrever neste sentido – oxalá que Deus assim me permita levar a cabo mais este projeto! -, depois escreverei um escrito a parte para delinear a ordem em que estes escritos sobre a fenomenologia devem ser dispostos. E termina aqui este opúsculo informativo a respeito da reconstrução da fenomenologia. Laudate Deo



[1] Olavo de Carvalho, Inteligência e Verdade: Ensaios de filosofia [1ª ed. Campinas, SP: Vide Editorial, 2021], pág. 112. 

[2] Edmund Husserl, A Ideia da Fenomenologia [Lisboa: Edições 70, 2018], pág. 22. 

[3] cf. Martin Heidegger, Os Problemas Fundamentais da Fenomenologia [Petrópolis, RJ: Vozes, 2012], § 6, pág. 40-41. 


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