I
A proclamação do evangelho é uma
arte e um ofício; uma arte porque é o mais belo dos afazeres que Deus digna um
homem a fazer; e um ofício porque requer esforço e perseverança, mesmo quando
os auspícios da atividade requererem a alma mais do que ela pode oferecer; por
isso o Apóstolo aconselha sobre a tarefa da pregação, a necessidade da mesma e
a razão desta necessidade: “Conjuro-te, pois, diante de Deus e do Senhor
Jesus Cristo, que há de julgar os vivos e os mortos, na sua vinda e no seu
Reino, que pregues a palavra, instes a tempo e fora de tempo, redarguas,
repreendas, exortes, com toda a longanimidade e doutrina. Porque virá tempo em
que não sofrerão a sã doutrina” (2Tm 4.1-3).
As definições do Apóstolo são
singulares: (1) ele fala sobre o mandamento da pregação: “Conjuro-te, diante
de Deus e de Jesus Cristo... que pregues a palavra”; (2) ele fala sobre a necessidade
da pregação: “que pregues a palavra, instes a tempo e a fora de tempo”;
(3) ele fala sobre a razão da necessidade da pregação: “porque virá tempo em
que não sofrerão a sã doutrina”.
Assim a pregação cristã, isto é,
a proclamação do evangelho, é a atividade mais pertinente da Igreja na face da
terra; a pregação é a mais pungente atividade eclesiástica a qual a Igreja
mesma deve se envolver, a qual deve buscar meios e ações para tal
desenvolvimento. Mas o que é pregação? Karl Barth dá duas definições sobre a
pregação: “(1) A pregação é a palavra de Deus pronunciada por Ele mesmo.
Deus utiliza, como lhe apraz, o serviço de um homem que fala em Seu nome a seus
contemporâneos por meio de um texto bíblico... (2) A pregação é fruto da ordem
dada à igreja de servir à Palavra de Deus, por meio de um homem chamado para
esta tarefa”[1].
Assim a pregação é a proclamação
da verdade divina por alguém que fala em nome de Deus, seja um “leigo” na vida
cotidiana, ou seja alguém separado pelo próprio Deus para este ofício durante a
liturgia. E como Barth diz a pregação é a palavra de Deus como pronunciada por Ele
mesmo; isto é, a pregação consiste em anunciar a Palavra de Deus de acordo com
o próprio Deus: por isso é proclamação e não dissertação – pois, dissertação
não é sermão, muito menos proclamação.
II
Assim, pois tem-se algumas
verdades fundamentais a respeito do que é a pregação da palavra de Deus segundo
Ele mesmo.
Com efeito, se a pregação é uma
proclamação, então o pregador não tem poder sobre a pregação, e menos ainda
poder sobre o conteúdo da mensagem; uma das melhores maneiras de definir o
pregador é como mensageiro, isto é, alguém comissionado a transmitir uma
mensagem, um arauto, um embaixador (cf. 2Co 5.20).
Na antiguidade era muito comum a
figura do portador de boas-novas, também chamado de mensageiro - era alguém que
ouviu notícias boas sobre alguma coisa, saía correndo pelos montes até chegar
ao seu povo e anunciar as boas-novas que foram ouvidas; um exemplo bíblico
desta descrição está no profeta Isaias: “Quão suaves são sobre os montes os
pés do que anuncia as boas-novas, que faz ouvir a paz, que anuncia o bem, que
faz ouvir a salvação, que diz a Sião: O teu Deus reina” (Is 52.7).
Ainda há muitos outros exemplos
desta descrição, a qual é utilizada na mitologia grega, na figura dos poetas e
dos cantores, chamado de hermeneutas; mas não convém analisarmos aqui
esta descrição na mitologia; elencamo-la apenas para dar uma breve descrição da
figura do pregador, do mensageiro, como alguém que anuncia boas-novas ouvidas
de outrem, no caso do pregador cristão, as boas-novas que não apenas é uma
mensagem, mas uma pessoa, a saber: Jesus Cristo! “Porque nada me
propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado” (1Co 2.2).
III
E o profeta também fala sobre
aqueles que trazem as boas-novas ao povo de Deus; fala sobre os mensageiros que
são porta-vozes da mensagem divina: “Tu, anunciador de boas-novas a Sião,
sobe a um monte alto. Tu, anunciador de boas-novas a Jerusalém, levanta a voz
fortemente; levanta-a, não temas e dize às cidades de Judá: Eis aqui está o
vosso Deus. Eis que o Senhor Jeová virá como o forte, e o seu braço dominará;
eis que o seu galardão vem com ele, e o seu salário, diante da sua face. Como
pastor, apascentará o seu rebanho; entre os braços, recolherá os cordeirinhos e
os levará no seu regaço; as que amamentam, ele as guiará mansamente” (Is
40.9-11).
Neste texto do profeta estão
presentes alguns elementos fundamentais ao nosso entendimento: (1) o mensageiro
é um anunciador de boas-novas: “Tu, anunciador de boas-novas”; (2) o
mensageiro é aquele que transmite a mensagem a um povo específico, isto é, ele
tem uma identidade e identificação com este povo: “Tu, anunciador de
boas-novas a Jerusalém”; (3) o mensageiro que transmite a mensagem tem um
conteúdo único e absoluto a transmitir: “dize às cidades de Judá: Eis aqui
está o vosso Deus”; (4) o mensageiro além de transmitir a mensagem que
recebe também deve transmiti-la de acordo com Aquele que lhe deu a mensagem,
bem como anunciar o caráter d’Ele: “Eis que o Senhor Jeová virá como o
forte, e o seu braço dominará” e “como
pastor, apascentará o seu rebanho”.
Outrossim, é que existe uma
comparação muito interessante que descreve mui bem a figura da pregação e do
pregador, a saber: a figura da semente, do semeador e do semear. A semente, o
evangelho; o semeador, o pregador; o semear, a pregação. Por isso, o Pe.
Antônio Vieira, no “Sermão da Sexagésima”, que é o maior tratado
homilético em língua portuguesa, fala sobre a parábola do semeador; nele Vieira
explora as características pungentes da pregação: “Por isso Cristo comparou
o pregar ao semear: Exiit qui seminat, seminare. Comparara Cristo o pregar ao
semear, porque o semear é uma arte que tem mais de natureza do que de arte. Nas
outras artes tudo é arte; na música tudo se faz por compasso, na arquitetura
tudo se faz por regra, na aritmética tudo se faz por conta, na geometria tudo
se faz por medida. O semear não é assim. É uma arte sem arte; caia onde cair.
Vede como semeava nosso lavrador do evangelho. ‘Caía o trigo nos espinhos e
nascia’: Aliud cecidit inter spinas, et simul exorta spinae. ‘Caía o trigo nas
pedras e nascia’: Aliud cecidit super petram, et ortum. ‘Caía o trigo na terra
boa e nascia’: Aliud cecidit in terram bonam, et natum. Ia o trigo caindo e ia
nascendo”[2].
Assim, se tem o pregador e a
pregação; o mensageiro e a mensagem; o semeador e a semente; todas estas três
figuras para designar e explicar tão nobre e urgentíssima tarefa. Ou seja, como
pregador, tem de pregar; como mensageiro, tem de transmitir a mensagem; e como
semeador, tem de semear.
Pregador, mensageiro e semeador,
três nomes que denotam uma mesma tarefa; pregação, mensagem e semear, três
nomes para um mesmo ofício e arte.
Desta forma, o evangelho deve ser
pregado, como mensagem e como semear, para dar os frutos que a ele mesmo
compete, e o pregador deve procurar significar sua tarefa à luz d’Aquele mesmo
que o chamou para tão nobre ofício, e o compeliu a tão efusiva arte.
Saiba-se, pois, e com estas
palavras concluo esta reflexão, que a pregação do Santo Evangelho é mais nobre,
excelsa e inestimável necessidade da Igreja, bem também de todo o mundo.
Deo Gratias!