10/02/2023

O que é pregação?

I

 

A proclamação do evangelho é uma arte e um ofício; uma arte porque é o mais belo dos afazeres que Deus digna um homem a fazer; e um ofício porque requer esforço e perseverança, mesmo quando os auspícios da atividade requererem a alma mais do que ela pode oferecer; por isso o Apóstolo aconselha sobre a tarefa da pregação, a necessidade da mesma e a razão desta necessidade: “Conjuro-te, pois, diante de Deus e do Senhor Jesus Cristo, que há de julgar os vivos e os mortos, na sua vinda e no seu Reino, que pregues a palavra, instes a tempo e fora de tempo, redarguas, repreendas, exortes, com toda a longanimidade e doutrina. Porque virá tempo em que não sofrerão a sã doutrina” (2Tm 4.1-3).

As definições do Apóstolo são singulares: (1) ele fala sobre o mandamento da pregação: “Conjuro-te, diante de Deus e de Jesus Cristo... que pregues a palavra”; (2) ele fala sobre a necessidade da pregação: “que pregues a palavra, instes a tempo e a fora de tempo”; (3) ele fala sobre a razão da necessidade da pregação: “porque virá tempo em que não sofrerão a sã doutrina”.

Assim a pregação cristã, isto é, a proclamação do evangelho, é a atividade mais pertinente da Igreja na face da terra; a pregação é a mais pungente atividade eclesiástica a qual a Igreja mesma deve se envolver, a qual deve buscar meios e ações para tal desenvolvimento. Mas o que é pregação? Karl Barth dá duas definições sobre a pregação: “(1) A pregação é a palavra de Deus pronunciada por Ele mesmo. Deus utiliza, como lhe apraz, o serviço de um homem que fala em Seu nome a seus contemporâneos por meio de um texto bíblico... (2) A pregação é fruto da ordem dada à igreja de servir à Palavra de Deus, por meio de um homem chamado para esta tarefa[1].

Assim a pregação é a proclamação da verdade divina por alguém que fala em nome de Deus, seja um “leigo” na vida cotidiana, ou seja alguém separado pelo próprio Deus para este ofício durante a liturgia. E como Barth diz a pregação é a palavra de Deus como pronunciada por Ele mesmo; isto é, a pregação consiste em anunciar a Palavra de Deus de acordo com o próprio Deus: por isso é proclamação e não dissertação – pois, dissertação não é sermão, muito menos proclamação.

 

II

 

Assim, pois tem-se algumas verdades fundamentais a respeito do que é a pregação da palavra de Deus segundo Ele mesmo.

Com efeito, se a pregação é uma proclamação, então o pregador não tem poder sobre a pregação, e menos ainda poder sobre o conteúdo da mensagem; uma das melhores maneiras de definir o pregador é como mensageiro, isto é, alguém comissionado a transmitir uma mensagem, um arauto, um embaixador (cf. 2Co 5.20).

Na antiguidade era muito comum a figura do portador de boas-novas, também chamado de mensageiro - era alguém que ouviu notícias boas sobre alguma coisa, saía correndo pelos montes até chegar ao seu povo e anunciar as boas-novas que foram ouvidas; um exemplo bíblico desta descrição está no profeta Isaias: “Quão suaves são sobre os montes os pés do que anuncia as boas-novas, que faz ouvir a paz, que anuncia o bem, que faz ouvir a salvação, que diz a Sião: O teu Deus reina” (Is 52.7).

Ainda há muitos outros exemplos desta descrição, a qual é utilizada na mitologia grega, na figura dos poetas e dos cantores, chamado de hermeneutas; mas não convém analisarmos aqui esta descrição na mitologia; elencamo-la apenas para dar uma breve descrição da figura do pregador, do mensageiro, como alguém que anuncia boas-novas ouvidas de outrem, no caso do pregador cristão, as boas-novas que não apenas é uma mensagem, mas uma pessoa, a saber: Jesus Cristo! “Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado(1Co 2.2).

 

III

 

E o profeta também fala sobre aqueles que trazem as boas-novas ao povo de Deus; fala sobre os mensageiros que são porta-vozes da mensagem divina: “Tu, anunciador de boas-novas a Sião, sobe a um monte alto. Tu, anunciador de boas-novas a Jerusalém, levanta a voz fortemente; levanta-a, não temas e dize às cidades de Judá: Eis aqui está o vosso Deus. Eis que o Senhor Jeová virá como o forte, e o seu braço dominará; eis que o seu galardão vem com ele, e o seu salário, diante da sua face. Como pastor, apascentará o seu rebanho; entre os braços, recolherá os cordeirinhos e os levará no seu regaço; as que amamentam, ele as guiará mansamente” (Is 40.9-11).

Neste texto do profeta estão presentes alguns elementos fundamentais ao nosso entendimento: (1) o mensageiro é um anunciador de boas-novas: “Tu, anunciador de boas-novas”; (2) o mensageiro é aquele que transmite a mensagem a um povo específico, isto é, ele tem uma identidade e identificação com este povo: “Tu, anunciador de boas-novas a Jerusalém”; (3) o mensageiro que transmite a mensagem tem um conteúdo único e absoluto a transmitir: “dize às cidades de Judá: Eis aqui está o vosso Deus”; (4) o mensageiro além de transmitir a mensagem que recebe também deve transmiti-la de acordo com Aquele que lhe deu a mensagem, bem como anunciar o caráter d’Ele: “Eis que o Senhor Jeová virá como o forte, e o seu braço dominará” e  como pastor, apascentará o seu rebanho”.

Outrossim, é que existe uma comparação muito interessante que descreve mui bem a figura da pregação e do pregador, a saber: a figura da semente, do semeador e do semear. A semente, o evangelho; o semeador, o pregador; o semear, a pregação. Por isso, o Pe. Antônio Vieira, no “Sermão da Sexagésima”, que é o maior tratado homilético em língua portuguesa, fala sobre a parábola do semeador; nele Vieira explora as características pungentes da pregação: “Por isso Cristo comparou o pregar ao semear: Exiit qui seminat, seminare. Comparara Cristo o pregar ao semear, porque o semear é uma arte que tem mais de natureza do que de arte. Nas outras artes tudo é arte; na música tudo se faz por compasso, na arquitetura tudo se faz por regra, na aritmética tudo se faz por conta, na geometria tudo se faz por medida. O semear não é assim. É uma arte sem arte; caia onde cair. Vede como semeava nosso lavrador do evangelho. ‘Caía o trigo nos espinhos e nascia’: Aliud cecidit inter spinas, et simul exorta spinae. ‘Caía o trigo nas pedras e nascia’: Aliud cecidit super petram, et ortum. ‘Caía o trigo na terra boa e nascia’: Aliud cecidit in terram bonam, et natum. Ia o trigo caindo e ia nascendo[2].

Assim, se tem o pregador e a pregação; o mensageiro e a mensagem; o semeador e a semente; todas estas três figuras para designar e explicar tão nobre e urgentíssima tarefa. Ou seja, como pregador, tem de pregar; como mensageiro, tem de transmitir a mensagem; e como semeador, tem de semear.

Pregador, mensageiro e semeador, três nomes que denotam uma mesma tarefa; pregação, mensagem e semear, três nomes para um mesmo ofício e arte.

Desta forma, o evangelho deve ser pregado, como mensagem e como semear, para dar os frutos que a ele mesmo compete, e o pregador deve procurar significar sua tarefa à luz d’Aquele mesmo que o chamou para tão nobre ofício, e o compeliu a tão efusiva arte.

Saiba-se, pois, e com estas palavras concluo esta reflexão, que a pregação do Santo Evangelho é mais nobre, excelsa e inestimável necessidade da Igreja, bem também de todo o mundo.

Deo Gratias!



[1] Karl Barth, A Proclamação do Evangelho [1° edição. São Paulo: Fonte Editorial, 2000], pág. 15.

[2] Pe. Antônio Vieira, Sermões Escolhidos [4° edição. São Paulo: Martin Claret, 2011], pág. 95. 


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