Prólogo.
1. O tomismo, é o nome que se dá
a doutrina de Tomás de Aquino, teólogo e filósofo escolástico; alguns talvez
se assustem com tal nome, pois, falar de um autor medieval, e ainda mais falar
de uma doutrina medieval, pode parecer anacrônico e até desnecessário; todavia,
não há nada mais atual no sentido intelectual do que o tomismo; e não há nada
mais necessário aos tempos atuais do que o tomismo. Mas o que é o tomismo? Em
síntese, o tomismo é um “quadro ideal do saber”.
2. Esta perspectiva do tomismo
como um “quadro ideal do saber”, denota que o tomismo é uma síntese, uma
síntese entre todos os saberes para confirmar e atestar a fé cristã; embora no
tomismo hajam coisas difíceis de se entender, justamente por ser uma síntese
precisa, todavia, o tomismo é muito mais simples de se aprender do que a
filosofia de Kant, ou de Hegel, ou de Heidegger, etc.
Aliás, o tomismo é uma fonte
muito mais confiável e muito mais adequada para aqueles que querem buscar a
verdade e o conhecimento do que qualquer das filosofias aporéticas da
modernidade. Isso, por si, é sinal clarividente da grandeza e da singularidade
do tomismo no desenvolvimento do saber humano.
3. Deste modo, é de suma
importância se entender o tomismo; os estudantes de psicologia encontram em
Tomás muito mais do que um mestre, mas aquele que melhor entendeu a alma
humana; os estudantes de história encontram em Tomás muito mais do que apenas
uma figura importante de uma época da história, mas aquele que moldou o rumo da
própria história; os estudantes de sistemas computadorizados encontram em Tomás
o artífice de um sistema de saber humano que se assemelha na precisão a um
sistema eletrônico; etc.
Portanto, os homens coevos
encontram em Tomás um professor e um mestre muito mais atual do que Kant, Hegel
ou qualquer outro filósofo moderno; além disso, o tomismo é muito mais próximo
das pessoas comuns do que qualquer uma destas filosofias. Como Chesterton
dissera: “a filosofia tomista é mais próxima da mente do homem na rua que
muitas filosofias”[1].
4. Com isso, evoca-se uma simples
e instrutiva apresentação ao tomismo; mas não no molde das antigas introduções;
pois, se estabelece uma forma mais simples de apresentação da filosofia tomista,
o chamado “tomismo caipira”; sim, “tomismo caipira”; pois, até
mesmo um caipira, alguém sem muita instrução nos conhecimentos formais da
filosofia, pode se tornar um tomista, pois o tomismo não é uma filosofia
grimórica, mas é uma filosofia realista, que ajuda a pensar a realidade na
própria realidade; o realismo do tomismo caipira é muito mais interessante do que
os sofismas de Descartes, Kant, Hegel, Heidegger, Foucault, Derrida, etc.
Por isso, utilizando da descrição
pessoal de Flannery O’Connor, grande escritora norte-americana, pode-se falar
dos caipiras tomistas; de maneira introdutória, não há maneira mais eficaz de
se entender a atualidade do tomismo; pois, como alguém dissera: “Pode haver
um caipira tomista, mas não poderia haver um caipira kantiano ou hegeliano,
muito menos um caipira Derridiano”. Assim sendo, o tomismo pode ser
conhecido e entendido até por um caipira, de modo que se fale de um “caipira
tomista”, pois o tomismo ensina a realidade como ela é, e isto, é a maior
necessidade dos tempos atuais.
Capítulo I: O tomismo é o quadro
ideal do saber.
5. O saber, por natureza, é
intrínseco ao ímpeto da vida humana; o Filósofo afirma que todos os homens
tendem ao saber; portanto, em todo o desenvolvimento humano há este ímpeto
direcionado ao saber, já que os homens, por natureza, têm enorme apreço pelos
sentidos, pelo conhecimento sensível que advêm da experiência por meio dos
sentidos. Com isso, o ser humano, em tudo o que faz e vivencia, tem imbuído
algum aspecto do saber.
6. Na verdade, diante da
compreensão sobre o saber, sobre a forma como se adquire o saber, ou pelo menos
na forma como se apreende a realidade como um saber, é necessário um quadro que
organize este saber, um aporte que explique e exemplifique de forma introdutória
o saber e indique o caminho do saber pelo próprio saber, que demonstra que a
experiência cotidiana, o contato com a realidade, constitui-se do aspecto
fundamental para o desenvolvimento do saber; esta experiência, que a muitos
passa desapercebida, é o ponto de partida para o saber; e um quadro sobre o
saber, fornece os meios necessários para canalizar o próprio saber e para
compreendê-lo de forma adequada.
7. O tomismo é este quadro ideal
do saber, não porque reduz a si todo o saber, mas porque indica o caminho a
seguir na senda do saber; e também porque ordena de maneira racional a amplidão
dos saberes existentes, tal como um mapa a guiar o viajante, ou uma bússola a
indicar a direção; o tomismo é o quadro ideal do saber porque reúne em seu
escopo toda a multipluralidade do saber e as orienta sob a diretriz da
Sabedoria Divina, fornecendo assim um todo do saber, que conduz a inteligência
à experiência com a verdade.
E desta experiência surgem novos
horizontes para o conhecimento, que se não fosse por este quadro que orienta o
saber, se tornariam dispersas e despropositadas; pois, no tomismo, tudo se
reúne de maneira adequada, de maneira ajustada, como uma síntese
singularíssima. Tal síntese ajuda no caminho do conhecimento, tanto por
resumi-lo e sintetizá-lo aos iniciantes, quanto por demonstrar a substância e a
profundidade do saber àqueles que já adentraram nesta senda.
8. Deste modo, para os estudos
pessoais e o desenvolvimento do saber, o tomismo se assemelha ao manual que o
estudante e o estudioso deve ter com o intuito de ter a compreensão do rumo
certo a se trilhar; por exemplo, o saber se assemelha a uma catedral gótica,
precisa de certo tempo e alguma orientação para se captar a majestade e o saber
visual da catedral; com o saber é o mesmo, precisa de tempo, dedicação e
orientação para se ajustar na senda do saber; esta orientação, o tomismo
fornece como nenhum outro sistema; por esta e outras razões, convém definir o
tomismo como “quadro ideal do saber”[2].
Capítulo II: O realismo
aristotélico.
9. O tomismo, filosoficamente, é
caracterizado pelo realismo aristotélico. Aristóteles estabelecera uma obra
monumental a partir da análise da realidade; e o que diferencia Aristóteles dos
filósofos badalados da modernidade, é que o Filósofo estava calcado sobre a
realidade; Aristóteles não “filosofou” para encobrir a realidade, tal como
Hegel, Heidegger e outros; mas Aristóteles “filosofou” da única maneira como se
pode filosofar, a partir da realidade, para se conhecer a própria realidade.
10. O realismo aristotélico é
assombroso, justamente porque é um realismo que açambarca todas as áreas do
conhecimento; ninguém entendeu melhor a realidade, e a explicou de maneira tão
detalhada quanto Aristóteles; e o tomismo, por filosoficamente se basear em
Aristóteles, açambarca os caracteres fundamentais do realismo aristotélico, o
qual, é benéfico e salutar para o homem moderno.
E o homem moderno, mesmo o
caipira, está mais próximo do realismo aristotélico do que das filosofias de
Kant, Hegel, Heidegger, etc.; pois, o caipira, com a prudência e a inteligência
que lhe são próprias, apreende as coisas a partir da experiência sensível, na
busca pela verdade através da luz inferior; e o realismo aristotélico não é
outra coisa senão a explicação mais burilada desta experiência.
11. Deste modo, na senda do
conhecimento, o realismo aristotélico contribui decisivamente para orientar no
caminho correto rumo ao desenvolvimento pessoal e da compreensão do próprio
saber; o saber cresce e se desenvolve a medida que a pessoa cresce e se
desenvolve em consonância com este saber; e isto, em todas as áreas da vida.
O tomismo, como quadro ideal do
saber, contribui significativamente para orientar os rumos do saber em meio a
tantos conhecimentos e diante de tantas possibilidades intelectivas, algumas
das quais até mesmo enciclopédicas; um quadro do saber, só contribui com a vida
cotidiana se for embasado na realidade. E o realismo aristotélico, na verdade,
o realismo tomista, é atual e sempre novo justamente por este aspecto, que se
põe diante da realidade para apreender a própria realidade.
12. E, nada mais útil, nada mais
atual, nada mais necessário, do que o realismo filosófico; nada mais útil,
porque não há nada mais necessário para a vida do que a compreensão sobre a
realidade; nada mais atual, porque a realidade nunca é ultrapassada, pois é
sempre atual e sempre é novidade; nada mais necessário, porque a compreensão
sobre a realidade, o entendimento sobre a percepção que se deve ter da
realidade, é uma das mais urgentes necessidades de todos os seres humanos em
todas as épocas.
Por isso, é necessário conhecer a
realidade para não ser enganado pelas “realidades paralelas” criadas pelas
ideologias ou por sistemas filosóficos grimóricos; e este é o caminho inegável
da senda do saber e do desenvolvimento pessoal; por isso, o tomismo, mas do que
qualquer outro quadro do saber, é uma filosofia da realidade; como diz um
estudioso, é um realismo realista; e nisto reponta a importância e a
singularidade da filosofia tomista.
Capítulo III: O conhecimento
sensível.
13. O tomismo, filosoficamente,
tem uma teoria do conhecimento, abalizada pela ideia de conhecimento sensível;
na verdade, somente a partir do que se designa conhecimento sensível é que se
pode obter o conhecimento; pois, os homens tendem ao saber porque amam os
sentidos; e realmente os homens amam os sentidos, pois, são parte integrante da
vida; sem os sentidos não se obtêm conhecimento; e a partir dos sentidos e da
experiência sensorial, se consegue haurir e demonstrar o verdadeiro
conhecimento, já que o conhecimento por s, é fruto da experiência sensorial,
que ao se desenvolver, desemboca na demonstração lógica, a qual Aristóteles
intitula de epagoge (ἐπαγωγή).
14. Mas, antes propriamente de se
adentrar na demonstração lógica, o conhecimento se desenvolve pela observação
e experimentação, que constituem-se normativamente a base da ciência; mas, no
sentido geral, esta experimentação constitui-se a base da percepção da
realidade; os órgãos sensoriais, foram dados não somente para que o ser humano
viva naturalmente, mas para que se desenvolva intelectivamente; por isso, como
diz Aristóteles, independente do uso que fazemos dos sentidos, nós os estimamos
por si mesmos já que eles fazem parte da vida cotidiana.
15. E o entendimento sobre esta estima que os homens tem
pelos sentidos, é evidenciado na própria experiência, que não é o designativo
do que comumente se chama de “experiência de vida”, mas da experiência
adquirida do contato dos sentidos com a realidade. Portanto, mesmo um jovem, ao
adquirir a percepção aguçada dos sentidos no desenvolvimento do saber, pode se
tornar mais entendido do que um velho com “experiência de vida”, mas que tem a
percepção sensorial obnubilada para o saber.
16. O tomismo contribui justamente para que a
consideração sobre os sentidos seja feita de maneira plena; pois, o
conhecimento sensível, que provêm da experiência sensorial, é vastíssimo e
generalíssimo; o tomismo, como quadro ideal do saber, ajuda a ajuizar a forma e
o modo como este conhecimento sensível deve ser burilado e preservado na
experiência cotidiana.
Com isso, a experiência sensível
se torna uma porta para o imenso saber que pode ser adquirido a partir da
realidade; na verdade, o saber que pode ser haurido da realidade é
incatalogável; embora os aspectos básicos do entendimento da realidade tenham
sido descobertos por filósofos e cientistas do passado, o saber proveniente da
realidade é inesgotável, pois, a amplidão de conhecimentos imbuídos na natureza
são quase que inumeráveis, sem contar a simples acepção daquilo que ainda não
se sabe, que é muito maior do que a percepção do que se sabe; e isso é algo
maravilhoso, pois, na experiência sensorial, e na percepção desta experiência,
está a porta de acesso ao magnífico livro da natureza, escrito pelo próprio
Deus e direcionado aos seres humanos.
17. Esta experiência, fonte do
conhecimento sensível é algo basilar e tão comum, que todos, mesmo aqueles sem
conhecimento técnico da filosofia, podem haurir; por exemplo, um caipira
entende da criação de animais, sem ter estudado biologia e zoologia; pois, pela
experiência e o saber adquirido pela observação dos fenômenos da biologia
animal, consegue ter a percepção do que é necessário para o cuidado,
preservação e procriação dos animais, sem sequer ter lido um compêndio de
biologia e/ou de zoologia.
Ora, como isso é possível?
Simples, a experimentação e a observação feitas de maneira direta, e com a
percepção aguçada do cuidado e preservação da natureza, constituem uma forma de
saber adquirido na realidade, que são feitas fundamentalmente pelo lume da luz
exterior e pela luz inferior; embora um simples caipira não consiga, sem o
estudo adequado, catalogar este conhecimento de maneira científica, o
conhecimento está presente, e é basicamente o mesmo dos compêndios, apenas com
a diferença de que nos compêndios a elucidação é feita com termos técnicos de
acordo com a necessidade das ciências.
Mas, o fundamento de todo este
saber é a experiência sensível, adquirida pelo exercício correto da luz
exterior somado com a percepção adequada desta experiência pela luz inferior.
Capítulo IV: A doutrina da
epagoge.
18. O tomismo, como açambarca o
realismo aristotélico, se torna um luzeiro diante das sombras opacas que pairam
sobre o conhecimento na contemporaneidade; pois, o conhecimento sensível, ao
ser evidenciado como tal, adquire a possibilidade da demonstração lógica; pois,
o objeto que se conhece, é possível se de aclarar como é conhecido e no modo
como é descrito racionalmente como conhecimento; esta estruturação é descrita
como a percepção da verdade pelo intelecto, na formação e desenvolvimento da
inteligência; para Aristóteles, esta percepção é descrita como epagoge (ἐπαγωγή); e, na senda do saber, ao se compreender que o
saber é haurido da experiência do contato com a realidade, se entende que a
percepção e a fermentação desta experiência constitui-se o caminho adequado
para o desenvolvimento do saber; na verdade, o único caminho racional para o
desenvolvimento do saber.
19. Assim sendo, o desenvolvimento do saber se estabelece
a medida do fermentar da experiência, e a medida da consciência desta
experiência como fonte do saber; por isso, a cristalização da experiência, isto
é, a consciência de que esta experiência sensível é a porta de entrada para o
saber, se estabelece através da epagoge, a demonstração deste saber
através do raciocínio lógico; portanto, a doutrina da epagoge, segundo
Cornélio Fabro, é “entendida como a conquista progressiva que o intelecto
humano faz da verdade com o fermentar da experiência”[3].
20. A inteligência humana progride e se desenvolve a
medida do contato com a verdade; e como a verdade é “o termo para o qual
tende o intelecto” (STh Ia q. 16, a. 1, co.), então, o intelecto progride e
se desenvolve a partir do fermentar da experiência sensível, que é o contato
com a realidade/verdade; a descrição deste “processo” de adequação do intelecto
para com a verdade, é designação básica da epagoge. A doutrina da epagoge
é uma forma mais elaborada de se entender todo o processo do conhecimento
sensível e da experiência sensível na formação do conhecimento, o qual, por sua
vez, ao se desenvolver, se torna em conquista progressiva do intelecto humano.
21. Por isso, uma filosofia que
conduza o homem ao saber deve valorar a experiência sensorial, sem sobrelevar a
experiência de vida, a qual é muito importante, mas aclarando que o
conhecimento é disponível a todos quantos com sinceridade de propósito o buscam,
independente de idade ou de experiência de vida; nenhuma filosofia moderna
demonstra isso; em Kant, Hegel, Marx, Heidegger, Sartre, e outros, a realidade
não é tão acessível assim, e para estes filósofos são suas filosofias que
constituem a porta de entrada da realidade, o que, além de ser pecado, é
suicídio intelectual; os sistemas filosóficos de Kant, Hegel, Heidegger, etc.,
são ainda piores do que o “aristotelismo integral” dos filósofos árabes
medievais; por isto, já se dá para entender a razão das confusões inomináveis
que são características da modernidade.
22. Porém, no tomismo, a porta
para o conhecimento é a própria realidade, sendo o tomismo enquanto sistema
filosófico apenas um manual para ajudar na absorção do conhecimento haurido da
realidade; portanto, o tomismo é mais atual do que as filosofias modernas, já
que é um “realismo realista”, enquanto que as filosofias modernas - com raras
exceções -, estabelecem-se como fontes da própria realidade.
O tomismo não somente conduz o
saber de volta a realidade, pois retoma a realidade como a fonte de
conhecimento racional, bem como estabelece, a partir da doutrina da epagoge,
que o desenvolvimento do intelecto na busca pela verdade se dá pelo “fermentar
da experiência”, experiência essa adquirida do contato com a realidade, a qual
ao ser percebida como experiência, torna-se experiência consciente, um dos
aspectos mais fundamentais para o desenvolvimento do saber e do desenvolvimento
da própria personalidade.
Capítulo V: A síntese formal.
23. A experiência haurida pela
realidade se torna em saber, em conhecimento; o processo da experiência
sensível até o conhecimento, é através da compreensão da existência pelos
sentidos; este processo de indução experimental tem algumas etapas; a primeira
delas é descrita por Cornélio Fabro como “síntese formal”. Esta primeira
etapa é uma forma de entender como a experiência da realidade se consuma e se
transforma em mote para o conhecimento, já que nesta própria experiência está a
fonte do conhecimento.
24. Para Fabro a “síntese formal”
cria-se a partir dos “sensíveis comuns”. Mas o que são os “sensíveis comuns”?
Aristóteles fala que os “sensíveis comuns” são aqueles que são comuns a todos
os sentidos; portanto, dos sentidos comuns, ao experienciar os “sensíveis
comuns”, proporcionam uma síntese entre o que fora experienciado, e o conteúdo
imediato recepcionado pelo intelecto que advêm desta experiência.
Com isso, as unidades perceptivas
do ser humano, através dos sentidos, condicionam a porta de entrada para o
saber; e o primeiro aspecto deste saber haurido da experiência com a realidade
provêm daquilo que fora designado como os “sensíveis comuns” que são
apreendidos do movimento, do repouso, dos números, das figuras, etc.
Assim, os “sensíveis comuns” são
apreendidos pelo fato de que as coisas observadas na realidade estão em algum
movimento, ou então, percepcionam algum número, ou são alguma figura; da
percepção dos números, das figuras, do movimento, etc., se abstrai os primeiros
aspectos do saber.
25. A síntese formal é a primeira
confluência intelectual entre estes saberes e percepções sensoriais; pois, a
percepção sensorial, adquire o saber primeiro na experiência sensível; esta
experiência, adequa-se ao intelecto pela relação com as coisas, o qual, por sua
vez, ao se fermentar na experiência e no raciocínio se desenvolve numa síntese
entre o que fora experienciado, entre a essência da coisa, e entre a adequação
da coisa ao intelecto. Por isso, a inteligência se desenvolve a medida do
contato com a verdade e da experiência da realidade.
Por exemplo, ao se observar uma
pedra, sabe-se que é uma pedra pela figura que se tem da pedra, ou pelo menos,
pela noção básica que se tem de uma pedra; ao se tocar nesta pedra, se confirma
ainda mais a percepção visual; e ao se estudar esta pedra de uma maneira
apropriada, chega-se a compreensão científica da essência e do tipo de pedra
que é; etc. Este processo se dá para qualquer coisa a ser experienciada e
conhecida.
26. Deste modo, a síntese formal
é feita por qualquer ser humano que esteja com as faculdades mentais sóbrias e
que tenha um pingo de inteligência; evidentemente, nem todas as pessoas
conseguem se aperceber deste processo; mas todo ser humano cresce e se
desenvolve a partir deste processo de síntese formal; uma criança, ao observar
uma pedra, sabe que ali é algo, mas não sabe definir; então, alguém fala a
criança que é uma pedra, e aquele objeto percebido e observado ganha um nome; e
a partir de então, a criança passa a saber que aquilo que é uma pedra; o mesmo
se dá com qualquer coisa que seja desconhecida pelo ser humano: primeiro, se
observa e se percebe que ali há algo; segundo, consegue se aperceber do objeto
observado através de outro dos sentidos; e isto até que se descubra o que
significa e qual nome tem este objeto; este processo é o que se designa no
tomismo como síntese formal; e é algo que todos os seres humanos fazem sem se
aperceber quando aprendem algo novo a partir da realidade.
Capítulo VI: A síntese real.
27. O saber que se forma a partir
da experiência sensível é acoplado pelos atos intelectivos através da síntese
formal; mas, a síntese formal, embora se refira as questões intelectivas no
saber haurido da realidade, este saber é haurido da realidade, e a realidade
pressupõem a vida vivida; pois, todos os seres humanos vivem a vida cotidiana
na realidade; deste modo, adentra-se ao segundo aspecto da síntese, no que Cornélio
Fabro chama de “síntese real”. Enquanto a síntese formal refere-se aos
sensíveis comuns, a síntese real refere-se a vida vivida.
28. O saber haurido da realidade,
forma-se de maneira formal e impessoal como um saber que se apreende sobre algo
que existe, e ao se desenvolver este saber, apreende-se a essência deste algo
que existe; esta é a síntese formal. Por outro lado, a síntese real, demonstra
o modo como este algo existe na realidade, o modo como este algo existe; em
termos técnicos, a síntese formal serve para a compreensão do signo de algo
(OBS: signo em relação ao conhecimento não se refere aos signos do Zodíaco como
algo preditivo), e do significado de algo; já a síntese real abaliza a
compreensão do signo e do significado de algo na realidade, naquilo que se
chama de referente.
29. E isto se exemplifica com
através da concepção que se tem de um cachorro; ao se ouvir sobre cachorro,
logo, se tem uma ideia do que é o cachorro, tem-se o signo; ao se procurar uma
definição de cachorro, num dicionário ou numa enciclopédia, ou outro meio
qualquer, tem-se o significado do que é o cachorro, e ao se pesquisar mais
especificamente, se conhece a espécie de cachorro, e assim por diante; e ao se
observar um cachorro na realidade, tem-se a compreensão e abstração plena do
que é um cachorro; a síntese formal é a compreensão do signo e do significado
do que é um cachorro; enquanto que a síntese real é a compreensão deste
cachorro como algo existente, em como existe na realidade.
30. Por isso, a compreensão
plena, o ato intelectivo pleno, só se dá quando há tanto a síntese formal
quanto a síntese real; com isso, o conhecimento passa pela compreensão do signo
de algo, seu significado e seu referente.
Além disso, nesta tríade circular
indissolúvel estabelece-se o princípio básico da linguagem sóbria que expressa
o real, e, consequentemente, é um dos fundamentos da saúde mental (sobriedade
psíquica); quando o raciocínio não compreende estes três aspectos se estabelece
certa psicose, ou então esquizofrenia cultural, que pode inclusive se tornar
esquizofrenia psíquica ou ocasionar os mais diversos desvios intelectivos sobre
os seres humanos.
31. Deste modo, a síntese real é
a concreção na vida vivida daquilo que fora apreendido pelos sentidos na
experiência, e fermentado como parte do saber pela observação e experimentação;
a síntese real só ocorre porque houve algo da síntese formal, e a reação da
percepção e da inteligência demonstraram que este algo apreendido fora
apreendido porque parte da realidade e porque é verificável como existente na
própria realidade.
Pois, não existe conhecimento
fora da realidade, e na própria realidade se atesta e se testemunha o
conhecimento; portanto, a experiência da realidade, que o tomismo assevera,
calcado sobre o realismo aristotélico, o realismo realista, é que se constitui
a base sóbria e irrevogável para o desenvolvimento do saber e da própria
personalidade.
Capítulo VII: A Natureza.
32. A filosofia tomista tem sua
epistemologia focada na realidade; a natureza, no tomismo, não é um
conglomerado de dados científicos, como o cientificismo e o mecanicismo
materialista propagam; a natureza, para o tomismo, é a fonte donde se haure o
conhecimento natural (ou saber filosófico); além disso, o tomismo, procura
valorar e valorizar a natureza de maneira que nenhum outro sistema filosófico faz;
o tomismo é a doutrina da valorização e cuidado com a natureza; portanto, nas “sínteses”
de saber demonstrada no tomismo, seja na síntese formal, seja na síntese real,
se tem a natureza como fonte de conhecimento.
33. Por isso, Tomás de Aquino,
afirma que a graça de Deus não tolhe, mas aperfeiçoa a natureza (cf. STh Ia q.
1, a. 8, ad. 2); a graça, obra soberana de Deus, não destrói ou transmuta a
natureza, como muitas escolas do pensamento afirmam; mesmo na revelação de
Deus, a graça que Ele outorga para a salvação dos pecadores não anula a
natureza humana e não destrói a natureza; pelo contrário, a graça aperfeiçoa a
natureza; se a graça, favor imerecido de Deus, aperfeiçoa a natureza, então, a natureza
é algo de suma importância, que deve ser cuidada e preservada, pois, se a
natureza é aperfeiçoável pela graça, então, a natureza é fonte de bênçãos para
o ser humano; e realmente, o ser humano foi criado para a natureza; e o próprio
Deus estabeleceu a natureza como fonte de subsistência para o ser humano (cf.
Gn 1.29-30); etc.
34. Deste modo, diante das “sínteses”
que o tomismo demonstra como parte do processo de fermentação do saber na
inteligência, existe a natureza, que serve de ponto abalizador tanto para a
existência humana, à vida e subsistência do ser humano, como para o
desenvolvimento da inteligência humana; por isso, a medida que o ser humano
cresce e se desenvolve em conhecimento e saber, há de crescer igualmente o
respeito e o cuidado pela natureza; o tomismo assevera tanto um quanto o outro
de maneira indiscutível; logo, a filosofia da natureza tomista pressupõe a
natureza tanto como fonte para a sobrevivência humana quanto para o
desenvolvimento da inteligência humana.
35. Portanto, desde a experiência
sensível com a realidade, até a formação da síntese formal, e depois, da
síntese real, na experiência da vida vivida, está presente a natureza; a vida é
vivida em contato com a natureza; a síntese formal se forma a partir do contato
com a realidade-natureza; já a síntese real se forma a partir da vida vivida na
realidade-natureza; por isso, a natureza é princípio inalterável da vida
humana, pois, é onde o ser humano nasce, cresce, se desenvolve e morre; a
natureza é uma realidade inescapável da vida; com isso, através da natureza se
tem um princípio fundamental da vida e para a vida.
36. E, entre os sistemas
filosóficos, o único que valora e incentiva o cuidado com a natureza é o
tomismo; Kant, Hegel, Marx, Heidegger, etc., são mecanicistas e destruidores da
natureza; Kant, neste quesito, é o menos pior; mas, Hegel, é inimigo da liberdade,
e por isso, inimigo da natureza; Marx propaga a ideia da destruição da
natureza; Heidegger é teórico nazista, sobre o qual não precisa se dizer mais
nada; etc. Assim, a quase totalidade das filosofias modernas são anti-natureza,
pois as consequências destas filosofias desembocam na destruição da natureza.
37. No entanto, o tomismo
incentiva o cuidado com a natureza e a importância da natureza não somente
porque a Bíblia assim ensina, mas porque é parte da própria razão humana o
velar e cuidar da natureza. Tomás de Aquino louva a Deus pela natureza, porque
a natureza é fonte de inumeráveis bênçãos para o ser humano, não só quanto a
ordem natural, mas também quanto a ordem revelacional[4],
bem como para as operações volitivas-intelectivas do ser humano.
Capítulo VIII: Os noemas da
filosofia tomista.
38. A filosofia tomista é
permeada por muitos noemas; todos definidos a partir da designação geral de
ente; os noemas da filosofia tomista são noemas ênticos; por isso, o
dístico fundamental da filosofia tomista é a distinção entre ente e essência; esta
distinção é o núcleo filosófico fundamental através do qual o aquinate desenvolve
suas reflexões racionais; pois, ente é tudo aquilo que é existente, e as coisas
existentes, por sua vez, possuem um núcleo essencial ou essência; e assim,
tanto no sentido ascendente quanto no sentido descendente, se chega a compreensão
sobre os entes reais: dos entes mais simples ao Ente Infinito, e do Ente
Infinito até os entes mais simples.
39. Por isso, os noemas da
filosofia tomista estão todos calcados na realidade; os noemas tomistas são parte
do realismo aristotélico; por esta razão, a filosofia tomista é um realismo
realista, já que tem sua base nos núcleos de sentido reais tal como estão dados
na própria realidade; na filosofia tomista não existe caos realístico, como na
maior parte das filosofias modernas; no tomismo, os noemas apontam para a
realidade e descrevem a realidade. Portanto, os noemas tomistas, em suma, são
noemas descritivos-analíticos: não no sentido husserliano propriamente dito,
mas num sentido plenamente realista; e este realismo, sem sombra de dúvida, é uma
forma de proto-fenomenologia; etc.
40. Assim, se observa pelo menos
duas espécies de noemas no tomismo: (1) os noemas especulativos, e (2) os
noemas práticos. Os noemas especulativos são: o ente imóvel, o ente material, o
ente móvel; que dão forma, respectivamente, a metafísica, a matemática e a
física. E os noemas práticos são: o ente [vivo] consciente de si, o ente [vivo]
em relação consigo, o ente [vivo] em relação com outros; que dão forma,
respectivamente, a ética, a economia (ou administração doméstica) e a política.
E, destes noemas se inere o saber segundo o tomismo; pois, a ciência é
subdivida de maneira geral em ciências especulativas e em ciências práticas, a
partir da descrição destas duas espécies de noemas que foram evocados.
41. Assim, se tem o instrumento
do saber, a lógica; se tem o prólogo do saber, a ciência da natureza ou física;
se tem a compreensão sobre a possibilidade do saber, a metafísica; e, por fim,
se tem a compreensão sobre a vida virtuosa, a ética. Deste modo, o saber em
ordem tem um instrumento, a lógica; uma introdução, a física; uma tarefa, a
ontologia; e um propósito, a moral. E a ordem das disciplinas filosófica é
disposta neste sentido, ao que em concórdia com o instrumento do saber se tem a
iniciação ao saber, as artes; em concórdia com as ciências da natureza se tem as
ciências matemáticas; em concórdia com a ontologia se tem a epistemologia; e em
concórdia com a ética se tem a economia e a política; etc. Portanto, num geral
é assim que se dispõe a ordem das disciplinas na filosofia tomista; todavia,
este é apenas um magro esquema.
42. E nisto está o cerne da compreensão sobre a ordem das
disciplinas tal como delineado por Tomás de Aquino; evidentemente, o aquinate
não fez uma lista específica sobre a ordem das disciplinas, mas ao descrever o
ente a partir da natureza, delineou uma série de proposições que constituem a
ordem das disciplinas a partir das manifestações reais do ente na realidade.
Pois, o aquinate atina a ordem das
disciplinas a partir da ordem de disposição dos entes na realidade; pois, a
ciência, o conhecimento, segundo o aquinate, é o bem do homem (cf. In De An.,
I, 1); ora, a ciência é compreendida em ordem e a partir da ordem das
disciplinas; portanto, o desenvolvimento da compreensão se dá de acordo com
esta ordem, já que aquele que busca o saber deve de antemão compreender a ordem
do saber.
43. Ora, isto basta quanto uma
apresentação geral sobre a filosofia tomista. Pois, em geral a filosofia
tomista concatena-se nestes princípios, os quais estão dispostos na lógica, na
física e na metafísica tomista; na verdade, as pressuposições evocadas dão um
escopo geral de no que consiste a filosofia tomista nestes três âmbitos; e o
que fora evocado contempla mais propriamente a lógica e o preâmbulo da física,
a noção de natureza; mas, em suma, isto por si é suficiente para aclarar no que
consiste a filosofia tomista, o que fora seguido com uma breve demonstração a
respeito da ordem das disciplinas segundo o aquinate.
44. E termina aqui esta explicação. Bendito seja Deus por todas as coisas. Amém.
[1] G. K. Chesterton, Santo Tomás
de Aquino [3ª ed. Campinas, SP: Ecclesiae, 2015], cap. VI, pág. 128-129.
[2] cf. A.-D. Sertillanges, A Vida
Intelectual [1ª ed. Campinas, SP: Kírion, 2019], pág. 108-111.
[3] Cornélio Fabro, Breve
Introdução ao Tomismo [1ª ed. Brasília: Edições Cristo Rei, 2020], cap. IV,
pág. 51.
[4] Prefere-se o termo “ordem
revelacional” em relação a “ordem sobrenatural”, pois de fato nada
há de sobre-natural, mas há o que é revelado; assim, tomando como princípio a invectiva
de Scotus, que, diga-se de passagem, acertou cabalmente quanto a isso, se fala
de ordem revelacional ao se evocar o que concerne a doutrina revelada. Pois,
infelizmente, a asseveração de que há algo de “sobrenatural” trouxe
consigo gérmens de secularização, posto ser uma definição ambígua-errônea.
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