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07/06/2024

O Diabo e a Não-Liberdade

Prólogo.

 

1. “Então, o SENHOR disse a Satanás: De onde vens? E Satanás respondeu ao SENHOR e disse: De rodear a terra e passear por ela” (Jó 1.7); a descrição bíblica aponta uma obra do Diabo, de Satanás, a saber, rodear a terra e passear por ela; o Diabo age no mundo todo, e procura destruir todas as coisas e corromper a criação de Deus; o Diabo age através da destruição, corrupção e desfiguração de tudo o que é bom e louvável entre as coisas humanas.

2. Mas, a descrição de que Satanás anda e passeia pela terra, demonstra que ele está a espreita para tirar dos seres humanos aquilo que lhes é mais precioso e necessário, tanto em relação as coisas naturais, quanto em relação as coisas espirituais, a saber, a liberdade; portanto, a ação maligna busca tirar os elementos que constroem e protegem a dignidade humana no que concerne as coisas naturais, e busca destruir ou transmutar os elementos que são parte da verdadeira espiritualidade no que concerne as coisas espirituais.

 

Parte I: A descrição petrina da obra maligna.

 

3. A descrição da obra maligna, tal como feita no livro de Jó, constitui-se da mais antiga descrição da obra maligna após a Queda (cf. Gn 3); e, além disso, amalgama-se ao entendimento de que o Diabo trabalha dia e noite para acusar os servos de Deus (cf. Ap 12.10); e tais descrições demonstram uma forma de Satanás agir no mundo; e, a proposição do livro de Jó, de que Satanás rodeia a terra e a passeia por ela é melhor abalizada na descrição petrina da obra maligna, onde se descreve de maneira mais límpida o modo de agir de Satanás, ao passear e rodear a terra.

4. O Príncipe dos Apóstolos diz: “Sede sóbrios, vigiai, porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar” (1Pe 5.8); o andar em derredor da descrição petrina, é o mesmo do “rodear a terra e passear por ela” do livro de Jó; são perspectivas complementares, onde a descrição petrina complementa de maneira cabal o que a descrição do livro de Jó apenas delineia de maneira geral; por isso, a descrição petrina apenas complementa e ensina sobre o propósito da obra do Diabo em passear e rodear o mundo, pois o mundo jaz no maligno (cf. 1Jo 5.19); e Satanás, ao rodear a terra e passear por ela, semeia suas obras na vida humana, causando destruição e morte (cf. Jo 10.10).

5. Mas, andar em derredor, rodear e passear, dizem respeito basicamente a mesma coisa, ao andar de Satanás no mundo; e, o andar em derredor, ou simplesmente andar e passear pressupõem dois aspectos: primeiro, o propósito do passear; segundo, a natureza do passear.

Primeiro, o propósito do passear; quem passeia, o faz por algum motivo; e, quem passeia sabe tanto o como passeia quanto sobre onde passeia; por exemplo, ninguém passeia pulando de um penhasco e por razões óbvias; então, quem passeia o faz tendo em vista o como passeia e o onde passeia. E obra de Satanás, sendo descrita como andar e passear, demonstra que o próprio Satanás sabe como passeia e onde passeia, bem como o para que passeia; Satanás rodeia a terra e passeia por ela para trabalhar para tirar dos seres humanos as coisas mais importantes, tanto no que concerne as coisas naturais quanto no que concerne as coisas espirituais.

6. Segundo, a natureza do passear; quem passeia, conhece a natureza do passear; e, andar e passear é diferente de correr; quem passeia e anda não corre; e o Diabo não corre, ele anda e passeia pela terra, e age de tal maneira que em seu rodear a terra, ele semeia os males diabólicos de acordo com a natureza de seu passear; evidentemente, é uma alegoria, para descrever a obra maligna ao redor de todo o mundo, manifesta pelos frutos diabólicos; do mesmo modo como a caminhar de um homem bom é confirmado pelo Senhor (cf. Sl 37.23), como diz a Escritura, o caminhar de Satanás é confirmado pelas obras malignas que demonstram e evidenciam que Satanás está agindo; por isso, a natureza do passear do Diabo é descrita a partir do termo petrino utilizado para descrever o “andar em derredor” (peripatei).

7. O peripatei é um termo conjunto donde se tem “peri” e “patei”; “peri”, sobre; e “patei”, andar; sobre o andar; literalmente, sobre o andar do Diabo, uma alegoria sobre a atuação do Diabo que pode ser comparada ao andar; e o termo peripatei tem familiaridade com peripatein, ou peripatético, que é uma característica dada aos filósofos aristotélicos pelo hábito de andarem enquanto faziam seus discursos; mas, ao ser aplicado ao Diabo, este termo não se configura em relação aos peripatéticos, mas em relação ao qualificativo primordial no qual se descreve a obra maligna em 1Pe 5.8.

Na verdade, se os peripatéticos são descritos assim porque andavam enquanto se pronunciavam, ao aplicar esta descrição ao Diabo, significa que o Diabo ao agir, o faz procurando enganar os homens e enlaçá-los no engodo que o Diabo mesmo semeia para prender os homens em seu “andar em derredor” enquanto passeia pela terra.

 

Parte II: O Diabo e a liberdade.

 

8. A descrição da obra do Diabo pelo termo peripatei, que teologicamente afere um aspecto fundamental da doutrina bíblica sobre a obra maligna, porque completa e abaliza a descrição dupla do livro de Jó (Jó 1.7; 2.2), formando assim o seguinte pressuposto sobre o andar do Diabo pela terra, ou mais propriamente, sobre a obra maligna em todo o mundo; e, segundo as Escrituras o andar do Diabo apresenta três aspectos, os quais, por sua vez demonstram a essência da obra de Satanás em rodear a terra e passear por ela: primeiro, o andar do Diabo é um andar soberbo e viciante; segundo, o andar do Diabo é um andar infernal e que destrói a criação; terceiro, o andar do Diabo é um andar que procura destruir as verdades eternas.

9. Primeiro, o andar do Diabo é um andar soberbo e viciante; na alegoria do andar, o andar do Diabo pode ser descrito como um andar soberbo e viciante; a Escritura diz que o Diabo tem soberba calcificada em seu coração (cf. Is 14.13-14); logo, em tudo o que faz, o Diabo emana soberba; e tudo que emana soberba se torna algo viciante e sedutor; portanto, no andar do Diabo, se tem a emanação a soberba ao mesmo tempo em que é um andar viciante; portanto, o atuar do Diabo no mundo é um atuar que semeia a soberba e semeia os vícios que provêm da soberba; e, como a soberba é o parque de diversões dos demônios, logo, quem se “diverte” no parque de diversões dos demônios passa a se tornar vicioso e viciante a partir das sementes infernais da soberba.

10. Segundo, o andar do Diabo é um andar infernal e que destrói a criação; e, na mesma alegoria do andar, o andar do Diabo pode ser descrito como um andar infernal e destruidor; a Escritura diz que o Diabo foi precipitado ao mais profundo abismo, ao inferno (cf. Is 14.15); e tudo o que provêm do inferno é algo infernal; a própria Escritura fala sobre o caminho do inferno (cf. Pv 5.5), em referência àqueles que são tão dominados pela obra maligna que acabam por semear inferno por onde passam; o andar do Diabo, a obra do Diabo ao redor do mundo, é uma obra que semeia o inferno; e tudo o que semeia o inferno, necessariamente, busca destruir a criação; a comparação veterotestamentária do caminho do inferno é algo que destrói e corrompe a criação e o exemplo utilizado pelo Senhor Jesus para descrever o inferno no Novo Testamento também diz respeito a destruição da criação; etc.

11. Terceiro, o andar do Diabo é um andar que procura destruir as verdades eternas; e, completando a alegoria sobre o andar em relação ao Diabo, pode-se falar que o andar do Diabo é um andar que procura destruir as verdades eternas; pois, as verdades eternas são testemunho e evidência da obra de Deus em conservar e preservar a Criação, tanto para o próprio mantenimento da criação quanto para preparar os homens para a graça salvadora.

Por isso, a obra do Diabo em andar sobre a terra, em agir no mundo, é para destruir estas verdades, as quais, uma vez destruídas tornam corrompíveis as ações humanas em seu nível de baixeza mais vil e terrível; portanto, a obra do Diabo, o andar do Diabo é um andar da não-liberdade, é o andar da injustiça, é o andar da maldade, é o andar da não-beleza, é o andar da falsidade; com isso, onde há destruição e desfiguração das obras eternas, se tem o peripatei do Diabo.

12. E basicamente, o peripatei, utilizado na descrição petrina, diz respeito mais especificamente a este terceiro aspecto; o Diabo age para destruir as verdades eternas; e onde houver a destruição das verdades eternas há a peripatei do Diabo; o Diabo luta para destruir a justiça, a liberdade, a bondade, a beleza, a verdade, etc.; a obra de Satanás em rodear e passear pela terra é para destruir os homens e para destruir as verdades eternas.

E, mais especificamente, na descrição petrina, para destruir a liberdade; pois, o andar em derredor é explicado em sua natureza com o “bramando como leão buscando a quem possa tragar”; e o “derredor” do indivíduo diz respeito a sua liberdade; logo, se o Diabo anda em derredor bramando como leão buscando a quem possa tragar, é porque o Diabo age para destruir a liberdade do indivíduo, para com isso o devorar tal como um leão devora sua presa.

Portanto, os engodos da ação maligna só fazem efeito nas presas que se deixam enfeitiçar pela não-liberdade; por isso, o Diabo só traga aqueles que desfiguraram e romperam com suas liberdades; quem o Diabo tira a liberdade vira sua presa; logo, se fala não somente em peripatei do Diabo, mas ao se compreender que o Diabo busca tragar a quem ele enlaça com a não-liberdade se fala da peripatese do Diabo; e este é o caractere central ao se compreender a descrição da obra do Diabo na teologia petrina. 

13. De fato, qualquer manifestação de não-liberdade é obra do Diabo; a paripatese do Diabo é para desfigurar e destruir a liberdade em suas mais variadas manifestações na vida humana; portanto, que se saiba que onde houver alguma ação contra a liberdade, por mais mínima que possa ser tida, se tem a obra do Diabo; e aqueles que atentam contra a liberdade são agentes peripáticos do Diabo; aliás, o Diabo atenta contra a liberdade porque o Santo Evangelho é a doutrina segundo a liberdade (cf. Tg 1.25); por esta razão o Diabo odeia a liberdade, porque o Evangelho é a doutrina da liberdade; com efeito, a peripatese do Diabo é a encarnação da malignidade que atenta contra a liberdade; por isso, quanto mais malignidade mais ações contra a liberdade. Na verdade, onde se tem alguma forma de não-liberdade se tem a peripatese do Diabo.

14. E termina aqui esta reflexão. Laudate Deo


Resposta sobre abusos litúrgicos

Prólogo.   Vossa dileção houvera me indagado as seguintes questões a respeito dos abusos litúrgicos: I) O que é abuso litúrgico? II)...