Prólogo.
1. “Então, o SENHOR disse a Satanás: De onde vens?
E Satanás respondeu ao SENHOR e disse: De rodear a terra e passear por ela”
(Jó 1.7); a descrição bíblica aponta uma obra do Diabo, de Satanás, a saber,
rodear a terra e passear por ela; o Diabo age no mundo todo, e procura destruir
todas as coisas e corromper a criação de Deus; o Diabo age através da
destruição, corrupção e desfiguração de tudo o que é bom e louvável entre as
coisas humanas.
2. Mas, a descrição de que Satanás anda e passeia pela
terra, demonstra que ele está a espreita para tirar dos seres humanos aquilo
que lhes é mais precioso e necessário, tanto em relação as coisas naturais,
quanto em relação as coisas espirituais, a saber, a liberdade; portanto, a ação
maligna busca tirar os elementos que constroem e protegem a dignidade humana no
que concerne as coisas naturais, e busca destruir ou transmutar os elementos
que são parte da verdadeira espiritualidade no que concerne as coisas espirituais.
Parte I: A descrição petrina da obra maligna.
3. A descrição da obra maligna, tal como feita no
livro de Jó, constitui-se da mais antiga descrição da obra maligna após a Queda
(cf. Gn 3); e, além disso, amalgama-se ao entendimento de que o Diabo trabalha
dia e noite para acusar os servos de Deus (cf. Ap 12.10); e tais descrições
demonstram uma forma de Satanás agir no mundo; e, a proposição do livro de Jó,
de que Satanás rodeia a terra e a passeia por ela é melhor abalizada na
descrição petrina da obra maligna, onde se descreve de maneira mais límpida o
modo de agir de Satanás, ao passear e rodear a terra.
4. O Príncipe dos Apóstolos diz: “Sede sóbrios,
vigiai, porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão,
buscando a quem possa tragar” (1Pe 5.8); o andar em derredor da descrição
petrina, é o mesmo do “rodear a terra e passear por ela” do livro de Jó; são
perspectivas complementares, onde a descrição petrina complementa de maneira
cabal o que a descrição do livro de Jó apenas delineia de maneira geral; por
isso, a descrição petrina apenas complementa e ensina sobre o propósito da obra
do Diabo em passear e rodear o mundo, pois o mundo jaz no maligno (cf. 1Jo
5.19); e Satanás, ao rodear a terra e passear por ela, semeia suas obras na
vida humana, causando destruição e morte (cf. Jo 10.10).
5. Mas, andar em derredor, rodear e passear, dizem
respeito basicamente a mesma coisa, ao andar de Satanás no mundo; e, o andar em
derredor, ou simplesmente andar e passear pressupõem dois aspectos: primeiro, o
propósito do passear; segundo, a natureza do passear.
Primeiro, o propósito do passear; quem passeia, o faz
por algum motivo; e, quem passeia sabe tanto o como passeia quanto sobre onde
passeia; por exemplo, ninguém passeia pulando de um penhasco e por razões óbvias;
então, quem passeia o faz tendo em vista o como passeia e o onde passeia. E
obra de Satanás, sendo descrita como andar e passear, demonstra que o próprio
Satanás sabe como passeia e onde passeia, bem como o para que passeia; Satanás
rodeia a terra e passeia por ela para trabalhar para tirar dos seres humanos as
coisas mais importantes, tanto no que concerne as coisas naturais quanto no que
concerne as coisas espirituais.
6. Segundo, a natureza do passear; quem passeia,
conhece a natureza do passear; e, andar e passear é diferente de correr; quem
passeia e anda não corre; e o Diabo não corre, ele anda e passeia pela terra, e
age de tal maneira que em seu rodear a terra, ele semeia os males diabólicos de
acordo com a natureza de seu passear; evidentemente, é uma alegoria, para
descrever a obra maligna ao redor de todo o mundo, manifesta pelos frutos
diabólicos; do mesmo modo como a caminhar de um homem bom é confirmado pelo
Senhor (cf. Sl 37.23), como diz a Escritura, o caminhar de Satanás é confirmado
pelas obras malignas que demonstram e evidenciam que Satanás está agindo; por
isso, a natureza do passear do Diabo é descrita a partir do termo petrino
utilizado para descrever o “andar em derredor” (peripatei).
7. O peripatei é um termo conjunto donde se tem
“peri” e “patei”; “peri”, sobre; e “patei”, andar;
sobre o andar; literalmente, sobre o andar do Diabo, uma alegoria sobre a
atuação do Diabo que pode ser comparada ao andar; e o termo peripatei
tem familiaridade com peripatein, ou peripatético, que é uma
característica dada aos filósofos aristotélicos pelo hábito de andarem enquanto
faziam seus discursos; mas, ao ser aplicado ao Diabo, este termo não se
configura em relação aos peripatéticos, mas em relação ao qualificativo primordial
no qual se descreve a obra maligna em 1Pe 5.8.
Na verdade, se os peripatéticos são descritos assim
porque andavam enquanto se pronunciavam, ao aplicar esta descrição ao Diabo,
significa que o Diabo ao agir, o faz procurando enganar os homens e enlaçá-los
no engodo que o Diabo mesmo semeia para prender os homens em seu “andar em
derredor” enquanto passeia pela terra.
Parte II: O Diabo e a liberdade.
8. A descrição da obra do Diabo pelo termo peripatei,
que teologicamente afere um aspecto fundamental da doutrina bíblica sobre a
obra maligna, porque completa e abaliza a descrição dupla do livro de Jó (Jó
1.7; 2.2), formando assim o seguinte pressuposto sobre o andar do Diabo pela
terra, ou mais propriamente, sobre a obra maligna em todo o mundo; e, segundo
as Escrituras o andar do Diabo apresenta três aspectos, os quais, por sua vez
demonstram a essência da obra de Satanás em rodear a terra e passear por ela:
primeiro, o andar do Diabo é um andar soberbo e viciante; segundo, o andar do
Diabo é um andar infernal e que destrói a criação; terceiro, o andar do Diabo é
um andar que procura destruir as verdades eternas.
9. Primeiro, o andar do Diabo é um andar soberbo e
viciante; na alegoria do andar, o andar do Diabo pode ser descrito como um
andar soberbo e viciante; a Escritura diz que o Diabo tem soberba calcificada
em seu coração (cf. Is 14.13-14); logo, em tudo o que faz, o Diabo emana
soberba; e tudo que emana soberba se torna algo viciante e sedutor; portanto,
no andar do Diabo, se tem a emanação a soberba ao mesmo tempo em que é um andar
viciante; portanto, o atuar do Diabo no mundo é um atuar que semeia a soberba e
semeia os vícios que provêm da soberba; e, como a soberba é o parque de
diversões dos demônios, logo, quem se “diverte” no parque de diversões dos demônios
passa a se tornar vicioso e viciante a partir das sementes infernais da
soberba.
10. Segundo, o andar do Diabo é um andar infernal e
que destrói a criação; e, na mesma alegoria do andar, o andar do Diabo pode ser
descrito como um andar infernal e destruidor; a Escritura diz que o Diabo foi
precipitado ao mais profundo abismo, ao inferno (cf. Is 14.15); e tudo o que
provêm do inferno é algo infernal; a própria Escritura fala sobre o caminho do
inferno (cf. Pv 5.5), em referência àqueles que são tão dominados pela obra
maligna que acabam por semear inferno por onde passam; o andar do Diabo, a obra
do Diabo ao redor do mundo, é uma obra que semeia o inferno; e tudo o que
semeia o inferno, necessariamente, busca destruir a criação; a comparação
veterotestamentária do caminho do inferno é algo que destrói e corrompe a
criação e o exemplo utilizado pelo Senhor Jesus para descrever o inferno no
Novo Testamento também diz respeito a destruição da criação; etc.
11. Terceiro, o andar do Diabo é um andar que procura
destruir as verdades eternas; e, completando a alegoria sobre o andar em
relação ao Diabo, pode-se falar que o andar do Diabo é um andar que procura
destruir as verdades eternas; pois, as verdades eternas são testemunho e
evidência da obra de Deus em conservar e preservar a Criação, tanto para o
próprio mantenimento da criação quanto para preparar os homens para a graça
salvadora.
Por isso, a obra do Diabo em andar sobre a terra, em
agir no mundo, é para destruir estas verdades, as quais, uma vez destruídas
tornam corrompíveis as ações humanas em seu nível de baixeza mais vil e
terrível; portanto, a obra do Diabo, o andar do Diabo é um andar da
não-liberdade, é o andar da injustiça, é o andar da maldade, é o andar da
não-beleza, é o andar da falsidade; com isso, onde há destruição e desfiguração
das obras eternas, se tem o peripatei do Diabo.
12. E basicamente, o peripatei, utilizado na
descrição petrina, diz respeito mais especificamente a este terceiro aspecto; o
Diabo age para destruir as verdades eternas; e onde houver a destruição das
verdades eternas há a peripatei do Diabo; o Diabo luta para destruir a
justiça, a liberdade, a bondade, a beleza, a verdade, etc.; a obra de Satanás
em rodear e passear pela terra é para destruir os homens e para destruir as
verdades eternas.
E, mais especificamente, na descrição petrina, para
destruir a liberdade; pois, o andar em derredor é explicado em sua natureza com
o “bramando como leão buscando a quem possa tragar”; e o “derredor” do
indivíduo diz respeito a sua liberdade; logo, se o Diabo anda em derredor
bramando como leão buscando a quem possa tragar, é porque o Diabo age para
destruir a liberdade do indivíduo, para com isso o devorar tal como um leão
devora sua presa.
Portanto, os engodos da ação maligna só fazem efeito
nas presas que se deixam enfeitiçar pela não-liberdade; por isso, o Diabo só
traga aqueles que desfiguraram e romperam com suas liberdades; quem o Diabo
tira a liberdade vira sua presa; logo, se fala não somente em peripatei
do Diabo, mas ao se compreender que o Diabo busca tragar a quem ele enlaça com
a não-liberdade se fala da peripatese do Diabo; e este é o caractere
central ao se compreender a descrição da obra do Diabo na teologia
petrina.
13. De fato, qualquer manifestação de não-liberdade é
obra do Diabo; a paripatese do Diabo é para desfigurar e destruir a
liberdade em suas mais variadas manifestações na vida humana; portanto, que se
saiba que onde houver alguma ação contra a liberdade, por mais mínima que possa
ser tida, se tem a obra do Diabo; e aqueles que atentam contra a liberdade são
agentes peripáticos do Diabo; aliás, o Diabo atenta contra a liberdade
porque o Santo Evangelho é a doutrina segundo a liberdade (cf. Tg 1.25); por
esta razão o Diabo odeia a liberdade, porque o Evangelho é a doutrina da
liberdade; com efeito, a peripatese do Diabo é a encarnação da malignidade
que atenta contra a liberdade; por isso, quanto mais malignidade mais ações
contra a liberdade. Na verdade, onde se tem alguma forma de não-liberdade se
tem a peripatese do Diabo.
14. E termina aqui esta reflexão. Laudate Deo!