05/01/2026

Explicação da “Ode Hindu” de Mário Ferreira dos Santos

Proêmio.

 

O escrito “Ode Hindu” de Mário Ferreira dos Santos[1], é um pequeno escrito, que contém várias pressuposições formidáveis, conquanto apresentem apenas uma perspectiva da verdade; embora sob a pressuposição da filosofia hinduísta, o autor, de maneira genial, apresenta algumas considerações sobre os temas mais importantes da vida humana, tais como: esperança, humildade, vida, morte e eternidade, com profundidade e maestria.

Pois, a Ode Hindu é uma amalgama a respeito de tópicos fundamentais da filosofia e da vida, que as mais das vezes são analisados displicentemente, e o autor sob o signo do que é próprio do hindu apresenta as principais perspectivas sobre estes tópicos de maneira assaz surpreendente.

Vejamos, pois, o que a Ode Hindu do Philosophus brasiliensis tem a nos ensinar.

 

§ 1

 

Texto Ferreirino: “As pedras não necessitam de esperanças, mas nós, sim, necessitamos. Humildes pedras que caem, rolam ou dormem no fundo do mar, da terra. Elas não querem explicar o mundo”.

 

A necessidade da esperança. A primeira sentença ferreirina é sobre a necessidade da esperança; as pedras, isto é, as coisas, não necessitam de esperança, pois não possuem alma; mas, os seres humanos, precisam de esperança, pois possuem alma racional; no entanto, apesar das pedras não necessitarem de esperança, ainda sim elas ensinam sobre a humildade, que é o caminho para a esperança. As pedras são pedagogas para ensinar a humildade.

As pedras ensinam sobre humildade porque elas não querem explicar o mundo; não que querer explicar as coisas do mundo seja errado ou em si seja falta de humildade; mas como os homens num geral não possuem capacidade para tal, então ser-lhes-ia melhor não querer explicar o mundo, já que isso é falta de humildade.

No entanto, a necessidade de esperança ensina o que concerne a humildade; pois, se se necessita de esperança, isto é, de ordenar a vida ao devido fim, então é necessário a humildade, para compreender como se deve ordenar a vida ao devido fim; quem necessita de esperança, também necessita de humildade, pois a humildade é que encaminha na senda da esperança.

A contemplação das pedras ensina sobre a necessidade da esperança e sobre no que consiste a humildade.

 

§ 2

 

Texto Ferreirino: “Não somos humildes quando as imitamos, como não é humilde o pássaro que não voa. Apenas, quando humanos, somos humildes. Quando perece a justiça, e o vício e o despotismo se alçam cruéis, e erguemos a nossa voz, nesse momento nos convertemos em criaturas”.

 

A humildade está no verdadeiro humanismo. A humildade não está em imitar as pedras, mas sim em fazer o que é próprio da condição humana, compreendendo a própria miséria; pois, as pedras são humildes porque fazem o que lhes convém; noutra analogia, os pássaros não são humildades quando não voam; e por que? Porque não cumpre o que lhes é próprio; a humildade está em fazer o que é próprio a cada natureza.

Por isso, o ser humano só é humildade quando verdadeiramente é humano; a humildade está no verdadeiro humanismo; ora, o humanismo verdadeiro não se mostra em meio as benesses da vida, mas as mais das vezes em meio as vicissitudes; portanto, num geral, é através das vicissitudes que se conhece o verdadeiro humanismo.

Pois, se se chega ao ponto de perecer a justiça, e isso gerar vícios e despotismos cruéis, então, se alguém ergue a voz contra a injustiça e contra os males da injustiça, nisto é que se vivencia o verdadeiro humanismo; o humanismo verdadeiro consiste em defender a justiça e erguer a voz contra as injustiças. Ora, quem isso faz, quando assim é necessário, realmente compreendeu no que consiste em ser humano, em ser criatura.

Aliás, nisso está a sina da verdadeira humildade, a saber: compreender que somos criaturas e nada além disso. Pois, ao se compreender que somos criaturas, sabemos quem nós somos, e assim ascendemos a compreensão do Criador, que nos fez a Sua semelhança, e compreendemos como nós fomos criados.

 

§ 3

 

Texto Ferreirino: “O ser está além da trajetória da flecha. Ela se detém assombrada ante a resistência invisível. Mas é em nós que está também o absoluto. O vento pode sacudir as folhas das árvores, mas o vento passa e elas ficam”.

 

A vida como a trajetória de uma flecha. A vida, o ser, está além da trajetória da flecha; esta comparação simples demonstra algo profundo: a vida, o ser, não é apenas como a trajetória de uma flecha, que se inicia, tem um meio e um fim; a vida não aceita simplismos deterministas; pois, a flecha, se detém ante ao que é invisível, e os homens ficam estupefatos ante aquilo que não podem entender totalmente.

Todavia, a flecha avança sobre seu alvo; do mesmo modo deve ser com os homens, pois em nós, isto é, nos homens, se tem algo do absoluto (Deus); ora, o avançar sobre o algo, o caminhar em função do devido fim, em que consiste a verdadeira esperança, só se dá porque nos próprios seres humanos tem algo do absoluto; a verdadeira esperança está em se ordenar para o absoluto (Deus), que é o verdadeiro fim da vida humana. Pois, o ser humano só se ordena àquilo que faz parte de sua própria natureza; ora, como o ser humano tem algo do absoluto, tem a imagem e semelhança de Deus, então a esperança é ordenar a própria vida à Deus.

Outrossim, é que o vento pode sacudir as folhas das árvores, isto é, causar algum efeito nas árvores que não é próprio da natureza das mesmas, mas os ventos passam e as árvores ficam; assim, os homens ao serem acutilados pelas vicissitudes da vida, que não lhes é próprio, perdem algumas folhagens, mas após passarem as vicissitudes, eles permanecem sendo homens; na verdade, as vicissitudes melhoram os seres humanos, do mesmo como o desfolhar da árvore pelo vento faz com que a árvore tenha uma leva de folhagem mais viçosa do que a anterior.

 

§ 4

 

Texto Ferreirino: “Um dia a morte há de nos levar à morada do velho poeta, e seremos seus hóspedes. Lá conheceremos o tempo que não precisa do quando, e o espaço que não precisa do onde; lá aprenderemos a ouvir os segredos do silêncio”.

 

Morte e Eternidade. O fim da vida humana é a morte; e a morte é algo inescapável; pois, um dia a morte levará aqueles que tem esperança, isto é, aqueles que estão ordenados ao devido fim, à morada do velho poeta, ou seja, para o lugar onde aqueles que contemplaram ao absoluto estão; a evocação do “velho poeta” pode ter vários sentidos, mas um sentido é clarividente, a saber: que se refere àqueles que encontram o absoluto ao terem a vida ordenada ao devido fim, isto é, ao experienciarem a verdadeira esperança, bem como se refere ao próprio Deus.

Por isso, a morte leva os homens para a morada do velho poeta, isto é, para o encontro com Deus; mas leva a Deus somente os que possuem esperança, os que estão ordenados ao devido fim; na verdade, por esta razão se fala de velho poeta, pois aqueles que estão ordenados ao devido fim, pela esperança, contemplaram em vida a verdadeira beleza.

Portanto, a morte é a passagem do tempo para a eternidade; mas no que consiste a eternidade? No sentido puramente filosófico e da perspectiva de um observador finito-temporal, a eternidade é o tempo que não precisa de quando e o espaço que não precisa de onde; na eternidade, os homens, tendo sido ordenados ao devido fim, aprenderão os mistérios ocultos que não podem ser compreendidos no tempo e no espaço, isto é, que não podem ser compreendidos nesta vida; pois, na eternidade é que se aprende a ouvir os segredos do silêncio.

Assim sendo, somente a luz da eternidade os homens aprendem a ouvir os mistérios do silêncio; nesta vida, o silêncio é a antessala da prudência; na eternidade, o silêncio é parte do hábito da glória. O silêncio tem seus segredos que só são partilhados para quem aprende a ouvir o falar do silêncio; e o silêncio, ao falar, cumpre as normas da arte retórica: comove, deleita e alegra. Portanto, aqueles que ouvem os ensinamentos do silêncio terão a benevolência que provém da verdade, o deleite da compreensão da verdade e a atenção dignada para a própria verdade.

Com isso, os homens prudentes serão aqueles que ao terem suas vidas ordenadas ao devido fim contemplam no que consiste a morte. Por isso, é assaz verdadeira a sentença que a morte é a porta de entrada para a eternidade.

 

***

 

Epílogo. Ora, as sentenças desta ode são assaz metafóricas, alegóricas, e dir-se-ia até mesmo simbólicas; mas, são extremamente úteis para a compreensão destes tópicos que o autor propõe a elucubrar nestes breves parágrafos. E esta explicação, em sentido puramente filosófico, apenas dá a entender os principais aspectos da síntese ferreirina demonstrada nesta ode; se se fosse aprofundar mais, ver-se-ia ainda mais aspectos concatenados nas sentenças ferreirinas sob o signo do que é próprio ao hindu, mas que contém alegorias tão bem formuladas que trazem ensinamentos que são próprios da verdadeira filosofia.

E termina aqui esta explicação. θεῷ χάρις!



[1] In: Mário Ferreira dos Santos, Páginas Várias [5ª ed. São Paulo: Editora Logos, 1966], pág. 105.


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