Proêmio.
O escrito “Ode Hindu” de Mário Ferreira dos
Santos[1], é
um pequeno escrito, que contém várias pressuposições formidáveis, conquanto
apresentem apenas uma perspectiva da verdade; embora sob a pressuposição da
filosofia hinduísta, o autor, de maneira genial, apresenta algumas
considerações sobre os temas mais importantes da vida humana, tais como:
esperança, humildade, vida, morte e eternidade, com profundidade e maestria.
Pois, a Ode Hindu é uma amalgama a respeito de
tópicos fundamentais da filosofia e da vida, que as mais das vezes são
analisados displicentemente, e o autor sob o signo do que é próprio do hindu
apresenta as principais perspectivas sobre estes tópicos de maneira assaz surpreendente.
Vejamos, pois, o que a Ode Hindu do Philosophus
brasiliensis tem a nos ensinar.
§ 1
Texto Ferreirino: “As pedras não necessitam de
esperanças, mas nós, sim, necessitamos. Humildes pedras que caem, rolam ou
dormem no fundo do mar, da terra. Elas não querem explicar o mundo”.
A necessidade da esperança. A
primeira sentença ferreirina é sobre a necessidade da esperança; as pedras,
isto é, as coisas, não necessitam de esperança, pois não possuem alma; mas, os
seres humanos, precisam de esperança, pois possuem alma racional; no entanto,
apesar das pedras não necessitarem de esperança, ainda sim elas ensinam sobre a
humildade, que é o caminho para a esperança. As pedras são pedagogas para
ensinar a humildade.
As pedras ensinam sobre humildade porque elas não
querem explicar o mundo; não que querer explicar as coisas do mundo seja errado
ou em si seja falta de humildade; mas como os homens num geral não possuem
capacidade para tal, então ser-lhes-ia melhor não querer explicar o mundo, já
que isso é falta de humildade.
No entanto, a necessidade de esperança ensina o que
concerne a humildade; pois, se se necessita de esperança, isto é, de ordenar a
vida ao devido fim, então é necessário a humildade, para compreender como se
deve ordenar a vida ao devido fim; quem necessita de esperança, também
necessita de humildade, pois a humildade é que encaminha na senda da esperança.
A contemplação das pedras ensina sobre a necessidade
da esperança e sobre no que consiste a humildade.
§ 2
Texto Ferreirino: “Não somos humildes quando as
imitamos, como não é humilde o pássaro que não voa. Apenas, quando humanos,
somos humildes. Quando perece a justiça, e o vício e o despotismo se alçam
cruéis, e erguemos a nossa voz, nesse momento nos convertemos em criaturas”.
A humildade está no verdadeiro humanismo. A
humildade não está em imitar as pedras, mas sim em fazer o que é próprio da
condição humana, compreendendo a própria miséria; pois, as pedras são humildes
porque fazem o que lhes convém; noutra analogia, os pássaros não são humildades
quando não voam; e por que? Porque não cumpre o que lhes é próprio; a humildade
está em fazer o que é próprio a cada natureza.
Por isso, o ser humano só é humildade quando
verdadeiramente é humano; a humildade está no verdadeiro humanismo; ora, o
humanismo verdadeiro não se mostra em meio as benesses da vida, mas as mais das
vezes em meio as vicissitudes; portanto, num geral, é através das vicissitudes
que se conhece o verdadeiro humanismo.
Pois, se se chega ao ponto de perecer a justiça, e
isso gerar vícios e despotismos cruéis, então, se alguém ergue a voz contra a
injustiça e contra os males da injustiça, nisto é que se vivencia o verdadeiro
humanismo; o humanismo verdadeiro consiste em defender a justiça e erguer a voz
contra as injustiças. Ora, quem isso faz, quando assim é necessário, realmente
compreendeu no que consiste em ser humano, em ser criatura.
Aliás, nisso está a sina da verdadeira humildade, a
saber: compreender que somos criaturas e nada além disso. Pois, ao se
compreender que somos criaturas, sabemos quem nós somos, e assim ascendemos a
compreensão do Criador, que nos fez a Sua semelhança, e compreendemos como nós
fomos criados.
§ 3
Texto Ferreirino: “O ser está além da trajetória da
flecha. Ela se detém assombrada ante a resistência invisível. Mas é em nós que
está também o absoluto. O vento pode sacudir as folhas das árvores, mas o vento
passa e elas ficam”.
A vida como a trajetória de uma flecha. A
vida, o ser, está além da trajetória da flecha; esta comparação simples
demonstra algo profundo: a vida, o ser, não é apenas como a trajetória de uma
flecha, que se inicia, tem um meio e um fim; a vida não aceita simplismos
deterministas; pois, a flecha, se detém ante ao que é invisível, e os homens
ficam estupefatos ante aquilo que não podem entender totalmente.
Todavia, a flecha avança sobre seu alvo; do mesmo modo
deve ser com os homens, pois em nós, isto é, nos homens, se tem algo do
absoluto (Deus); ora, o avançar sobre o algo, o caminhar em função do devido
fim, em que consiste a verdadeira esperança, só se dá porque nos próprios seres
humanos tem algo do absoluto; a verdadeira esperança está em se ordenar para o
absoluto (Deus), que é o verdadeiro fim da vida humana. Pois, o ser humano só
se ordena àquilo que faz parte de sua própria natureza; ora, como o ser humano
tem algo do absoluto, tem a imagem e semelhança de Deus, então a esperança é
ordenar a própria vida à Deus.
Outrossim, é que o vento pode sacudir as folhas das
árvores, isto é, causar algum efeito nas árvores que não é próprio da natureza
das mesmas, mas os ventos passam e as árvores ficam; assim, os homens ao serem
acutilados pelas vicissitudes da vida, que não lhes é próprio, perdem algumas
folhagens, mas após passarem as vicissitudes, eles permanecem sendo homens; na
verdade, as vicissitudes melhoram os seres humanos, do mesmo como o desfolhar
da árvore pelo vento faz com que a árvore tenha uma leva de folhagem mais
viçosa do que a anterior.
§ 4
Texto Ferreirino: “Um dia a morte há de nos levar à
morada do velho poeta, e seremos seus hóspedes. Lá conheceremos o tempo que não
precisa do quando, e o espaço que não precisa do onde; lá aprenderemos a ouvir
os segredos do silêncio”.
Morte e Eternidade. O fim da
vida humana é a morte; e a morte é algo inescapável; pois, um dia a morte
levará aqueles que tem esperança, isto é, aqueles que estão ordenados ao devido
fim, à morada do velho poeta, ou seja, para o lugar onde aqueles que
contemplaram ao absoluto estão; a evocação do “velho poeta” pode ter vários
sentidos, mas um sentido é clarividente, a saber: que se refere àqueles que
encontram o absoluto ao terem a vida ordenada ao devido fim, isto é, ao
experienciarem a verdadeira esperança, bem como se refere ao próprio Deus.
Por isso, a morte leva os homens para a morada do
velho poeta, isto é, para o encontro com Deus; mas leva a Deus somente os que
possuem esperança, os que estão ordenados ao devido fim; na verdade, por esta
razão se fala de velho poeta, pois aqueles que estão ordenados ao devido fim,
pela esperança, contemplaram em vida a verdadeira beleza.
Portanto, a morte é a passagem do tempo para a
eternidade; mas no que consiste a eternidade? No sentido puramente filosófico e
da perspectiva de um observador finito-temporal, a eternidade é o tempo que não
precisa de quando e o espaço que não precisa de onde; na eternidade, os homens,
tendo sido ordenados ao devido fim, aprenderão os mistérios ocultos que não
podem ser compreendidos no tempo e no espaço, isto é, que não podem ser compreendidos
nesta vida; pois, na eternidade é que se aprende a ouvir os segredos do
silêncio.
Assim sendo, somente a luz da eternidade os homens
aprendem a ouvir os mistérios do silêncio; nesta vida, o silêncio é a antessala
da prudência; na eternidade, o silêncio é parte do hábito da glória. O silêncio
tem seus segredos que só são partilhados para quem aprende a ouvir o falar do
silêncio; e o silêncio, ao falar, cumpre as normas da arte retórica: comove,
deleita e alegra. Portanto, aqueles que ouvem os ensinamentos do silêncio terão
a benevolência que provém da verdade, o deleite da compreensão da verdade e a
atenção dignada para a própria verdade.
Com isso, os homens prudentes serão aqueles que ao
terem suas vidas ordenadas ao devido fim contemplam no que consiste a morte. Por
isso, é assaz verdadeira a sentença que a morte é a porta de entrada para a
eternidade.
***
Epílogo. Ora, as sentenças desta ode
são assaz metafóricas, alegóricas, e dir-se-ia até mesmo simbólicas; mas, são
extremamente úteis para a compreensão destes tópicos que o autor propõe a
elucubrar nestes breves parágrafos. E esta explicação, em sentido puramente
filosófico, apenas dá a entender os principais aspectos da síntese ferreirina
demonstrada nesta ode; se se fosse aprofundar mais, ver-se-ia ainda mais
aspectos concatenados nas sentenças ferreirinas sob o signo do que é próprio ao
hindu, mas que contém alegorias tão bem formuladas que trazem ensinamentos que
são próprios da verdadeira filosofia.
E termina aqui esta explicação. θεῷ χάρις!
[1] In: Mário
Ferreira dos Santos, Páginas Várias [5ª ed. São Paulo: Editora Logos,
1966], pág. 105.
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