Prefácio.
Após as duas primeiras epístolas que versam a respeito
de Deus, as duas epístolas seguintes, versam a respeito da Encarnação; ora,
isto concerne ao mistério da graça; pois, a Encarnação do Verbo (cf. Jo 1.14),
diz respeito a humanidade de Deus, e ao fato de o Filho de Deus ter se tornado
homem para reconciliar o cosmos com Deus (cf. 2Co 5.19).
E, a respeito da Encarnação, dois aspectos são postos:
primeiro, a respeito da possibilidade e da necessidade da Encarnação; segundo,
a respeito da Encarnação considerada em si mesma. O primeiro aspecto,
Pseudo-Dionísio trabalha na epístola III, o segundo, na epístola IV. Por isso,
as epístolas III e IV constituem um testemunho peculiar, daquele que, segundo o
próprio Pseudo-Dionísio, é o mistério mais manifesto de toda teologia.
Deste modo, cumpre analisar esta epístola e evocar os
principais aspectos que a mesma concerne, a fim de explicar as proposições
inerentes a designação da possibilidade e da necessidade da Encarnação; pois, o
vir-a-ser da Encarnação, constitui-se a porta de entrada, o umbral de
entrada, à compreensão a respeito do mistério da Encarnação. Por isso, na ordem
da compreensão a respeito da Encarnação é o primeiro aspecto a ser elucidado,
bem é o aspecto primeiro ao se elucubrar sobre a fonte da graça (cf. Jo 1.17b),
e sobre a sabedoria de Deus, a qual é oculta em mistério (cf. 1Co 2.7-8).
Portanto, eis o comentário a esta epístola, para
explicá-la e solucionar as dúbias que emergem da explicação da mesma, que
conquanto seja uma epístola mais simples - assim como a epístola II e a
epístolas V, VI e X -, contudo, ao se analisá-la se compreende as questões
dificílimas que surgem dos temas teológicos que a mesma evoca, e das singulares
proposições que são delineadas por Pseudo-Dionísio; por isso, se pode falar que
esta epístola, assim como as outras, são quase que como opúsculos teológicos,
tamanha a profundidade de conteúdo que a síntese dionísica transparece nas
mesmas.
Soli Deo Gloria!
In Nomine Iesus!
01 de outubro de 2024.
Texto de Pseudo-Dionísio (Epist. III).
“Súbito” é o que vai além da esperança (cf. Ml 3.1), levado do inaparente ao manifesto. Julgo também que a teologia queria significar isso na filantropia de Cristo: que Aquele [que é] super-substancial procedeu do oculto a nossa manifestação, humanamente substanciado. É, ainda assim, oculto após a manifestação – ou, para falar divinamente, mesmo na manifestação, pois este mistério de Jesus é oculto, e nem expresso por discurso ou entendimento algum, mas mesmo quando dito permanece inefável, e quando entendido, desconhecido.
A. Proêmio.
1. “Vou, porém, dizer-vos o que é a Sabedoria e
como se tenha originado, sem esconder-vos os mistérios de Deus: investigarei
desde o início do seu nascimento, trazendo à luz o conhecimento que a ela se
refere sem desviar-me da verdade” (Sb 6.22); ora, estas palavras competem
ao assunto e à matéria desta epístola; pois, a Sabedoria divina, o Logos,
foi eternamente gerado como Filho de Deus, e na plenitude dos tempos (cf. Gl
4.4s), se fez carne (cf. Jo 1.14; 1Tm 3.16); logo, o Verbo incriado, se tornou
Verbo encarnado; e na compreensão a respeito desse aspecto, se encontra o
desvelar dos mistérios de Deus.
2. Portanto, três coisas são ditas a respeito da
sabedoria: primeiro, a mesma se originou de Deus na eternidade, onde diz: “vou,
porém, dizer-vos o que é a Sabedoria e como se tenha originado”. Segundo, a
sabedoria dá a conhecer os mistérios de Deus, onde diz: “sem esconder-vos os
mistérios de Deus”. Terceiro, a sabedoria é outorgada para ser investigada,
onde diz: “investigarei desde o início do seu nascimento”.
Ora, nestas três coisas, se torna evidente que a
sabedoria é uma Pessoa; pois, somente a pessoalidade da sabedoria, é que
demonstra que Sua investigação pode ser feita desde o Seu nascimento, já que na
ordem das coisas de Deus, o primeiro aspecto a ser investigado sobre a
sabedoria é a respeito de Sua origem na ordem do tempo.
3. Deste modo, o que concerne ao nascimento da
sabedoria, é o que se intitula mais propriamente dos mistérios da Encarnação;
e, estes mistérios são investigados de duas maneiras: primeiro, em relação a
necessidade e a possibilidade da Encarnação; segundo, em relação a Encarnação
propriamente dito.
Ora, em relação ao primeiro, Pseudo-Dionísio o analisa
nesta epístola; pois, este aspecto, é o que vem em primeiro lugar na ordem da
investigação sobre o nascimento da Sabedoria. “O Senhor me possuiu no
princípio de seus caminhos e antes de suas obras mais antigas. Desde a
eternidade, fui ungida; desde o princípio, antes do começo da terra” (Pv
8.22-23).
4. E, quanto a isso, se dizem três coisas: primeiro,
quanto a necessidade do nascimento da sabedoria; segundo, quanto ao modo do
nascimento; terceiro, quanto aos efeitos do nascimento.
Portanto, o que concerne a investigação sobre a
necessidade e a possibilidade da Encarnação, se dá inicialmente na orbita
destas três coisas; pois, o Verbo encarnado, é Aquele de quem o profeta afirma:
“e, de repente, virá ao seu templo o Senhor, a quem vós buscais, o anjo do
concerto, a quem vós desejais; eis que vem, diz o SENHOR dos Exércitos” (Ml
3.1b-c). E, Ele veio, a Sabedoria veio, a qual os homens buscavam, e a qual os
homens anelavam. “e farei tremer todas as nações, e virá o Desejado de todas
as nações, e encherei esta cada de glória, diz o SENHOR dos Exércitos” (Ag
2.7).
E isto concerne as palavras desta epístola; pois, o entendimento a respeito da possibilidade e da necessidade da Encarnação, é o primeiro aspecto que concerne a investigação sobre os mistérios da encarnação; e, evidentemente, isto é feito sob a proposição de que “Aquele que é super-substancial procedeu do oculto a nossa manifestação, humanamente substanciado”. Logo, etc.
B. Comentário.
1. Após as epístolas I e II, onde
analisa as questões concernentes a Deus, Pseudo-Dionísio prossegue à epístola
III, onde conjuntamente com a epístola IV, passa a analisar questões referentes
a humanidade de Deus. E, na epístola III, inicia a primeira destas duas
questões, ao analisar propriamente aquilo que Alberto intitula o vir-a-ser
da Encarnação[1].
2. Ora, as questões envolvendo o
mistério da Encarnação, são sempre gloriosas já que versam sobre o aspecto
central da fé cristã, pois, “a fé cristã orbita em torno da divindade e da
humanidade de Cristo”[2];
logo, ao se elucubrar sobre a encarnação, elucubra-se o aspecto em torno do
qual a fé se movimenta; por isso, Pseudo-Dionísio, estabelece questões
importantíssimas a respeito do mistério da Encarnação, principalmente na
epístola III, ao evocar a questão do vir-a-ser da Encarnação, isto é, a
possibilidade e a necessidade da Encarnação e as nuances que vem amalgamadas
nestes dois aspectos que são dialógicos. E, sobre isso, Pseudo-Dionísio faz
três coisas: primeiro, estabelece a questão; segundo, estabelece a base da
proposição teológica sobre a humanidade de Deus; terceiro, evoca a
sobre-excelência dos mistérios concernentes a humanidade de Deus.
3. Primeiro, estabelece a
questão, onde diz: “‘Súbito’ é o que vai além da esperança (cf. Ml 3.1),
levado do inaparente ao manifesto”; em primeiro lugar, Pseudo-Dionísio põe
a questão; e uma questão dificílima; pois, justamente evoca a questão do vir-a-ser
da Encarnação, isto é, sobre o tempo e o modo da Encarnação. E, a dúvida de
Gaio surge justamente de se compreender se a Encarnação é algo súbito ou não;
pois, o texto do profeta afirma: “e, de repente, virá ao seu templo o Senhor”
(Ml 3.1b); a dúbia quanto ao tempo, refere-se a este “súbito” ou “de repente”;
e este qualificativo tem duas características: é o que vai além da esperança, e
é o que é levado do inaparente ao manifesto.
4. Ora, a Encarnação tem estas
duas características: primeiro, é o que vai além da esperança, pois, é fonte de
toda a esperança. “Levanta-te, resplandece, porque já vem a tua luz, e a
glória do SENHOR vai nascendo sobre ti. Porque eis que as trevas cobriram a
terra, e a escuridão, os povos; mas sobre ti o SENHOR virá surgindo, e a sua
glória se verá sobre ti” (Is 60.1-2).
Segundo, é o que é levado do
inaparente ao manifesto, isto é, é levado do que não é conhecido ao que é
conhecido. “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua
glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo
1.14).
Logo, a encarnação é algo súbito;
mas, não súbito de surpresa em ordem as coisas de Deus, mas súbito em relação a
esperança do Antigo Testamento que não conduziu a Deus: “Com efeito, a
esperança no Antigo Testamento não conduziu a Deus”[3].
E isto também se confirma pelo texto do profeta, onde se apresenta o que
precederia este “súbito”, isto é, que viria alguém que prepararia o caminho do
Messias (cf. Ml 3.1a), dizendo-se assim “súbito” não em ordem as coisas de
Deus, mas em ordem as coisas humanas.
5. E, segundo Alberto, algo é
dito súbito de três modos[4]:
primeiro, aquilo que segundo o tempo é algo instantâneo; segundo, algo que em
se tratando do tempo ocorre de maneira breve e rápida; terceiro, algo que de
repente começa a aparecer sem que se esperasse ou se inquirisse. Ora, para
Alberto, a designação de Pseudo-Dionísio, pode ser dita em algum dos dois
primeiros modos, mas não em relação ao terceiro. E, Alberto está correto; pois,
a manifestação do Redentor ocorreu de maneira repentina, em se tratando do
tempo, mas como já estava profetizada não foi algo “súbito”, pois, havia sido
anunciado; pelo contrário, todo o Velho Testamento aponta para Cristo; então, a
Encarnação, em um sentido foi “súbita”, isto é, naquilo que diz respeito a
manifestação no tempo; mas noutro sentido não foi “súbita”, isto é, enquanto em
ordem as coisas reveláveis.
6. Esta dubitação, em si mesma,
constitui-se um dos aspectos mais importantes a respeito da elucubração sobre a
Encarnação, pois, versa sobre temas teológicos, e sobre temas
temporais-espaciais; pois, a Encarnação ocorrera no tempo e no espaço; isto é,
Aquele que habita na Eternidade entrou no tempo, e Aquele que habita além do
espaço, entrou no espaço. A questão a respeito do “súbito” da Encarnação, ou do
vir-a-ser da encarnação demonstra isso de maneira contundente; um
assunto pouco refletido[5],
mas que se constitui de um dos aspectos mais importantes a respeito de uma
parte do tema principal sob o qual a fé cristã orbita.
7. Além disso, esta questão sobre
o “súbito” evoca uma proposição filosófica, a qual ajuda a melhor compreender o
significado utilizado por Pseudo-Dionísio ao elucubrar sobre o “súbito” quanto
a Encarnação; por exemplo, Platão empregara o termo “súbito”, para se referir
àqueles que tendo contemplado as coisas belas em uma correta e ordenada
sucessão, isto é, aqueles que as contemplaram de maneira correta, descobrirá de
repente (súbito), que ao levar a cabo sua contemplação amorosa, encontrará algo
maravilhosamente belo por natureza[6].
Assim, em Platão, o “de repente”,
o “súbito”, se refere a algo da contemplação do belo, a contemplação amorosa;
e, ao aplicar este sentido a questão do vir-a-ser da Encarnação, se
consegue compreender que ao se contemplar os mistérios da revelação em ordem a
partir do Antigo Testamento, se descobrirá a maravilhosidade deste “súbito”, na
ordem do tempo, em relação a Encarnação.
Isto, teologicamente, foi
expresso pelo evangelista dos segredos de Deus com as seguintes palavras: “O
que era desde o princípio, o que vimos com os nossos olhos, o que temos
contemplado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida (porque a vida foi
manifestada, e nós a vimos, e testificamos dela, e vos anunciamos a vida
eterna, que estava com o Pai e nos foi manifestada)” (1Jo 1.1-2). O
“súbito” da Encarnação, é a vida eterna que estava com o Pai e nos foi
manifestada; e este manifestar, foi “súbito” tal como fora descrito
anteriormente.
8. Logo, se compreende a razão
desta dubitação, bem como, sua natureza, tanto em relação ao beneplácito
divino, quanto em relação a redenção da humanidade, tal como diz o autor aos
Hebreus: “Pelo que convinha que, em tudo, fosse semelhante aos irmãos, para
ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os
pecados do povo” (Hb 2.17). Ora, isto diz respeito a duas coisas: primeiro,
em relação a nossa humanidade, onde diz: “fosse semelhante aos irmãos”,
isto é, participasse da nossa humanidade. Segundo, para redimir o povo, onde
diz: “expiar os pecados do povo”, isto é, redimir os eleitos e
dignificar o gênero humano com sua redenção cósmica. Portanto, o vir-a-ser
da Encarnação, se refere a possibilidade e a necessidade da Encarnação, também
descritas a partir do tríplice ofício de Cristo.
9. Segundo, estabelece a base da
proposição teológica sobre a humanidade de Deus, onde diz: “Julgo também que
a teologia queria significar isso na filantropia de Cristo: que Aquele [que é]
super-substancial procedeu do oculto a nossa manifestação, humanamente
substanciado”; ora, após ter apresentado a dúbia, que açambarca uma série
de aspectos e nuances fundamentais, Pseudo-Dionísio prossegue, e busca
defrontar a noção básica do “súbito” quanto a Encarnação, com a proposição
teológica da humanidade de Deus; pois, a significação do “súbito” da Encarnação
refere-se diretamente a isso; por isso, Pseudo-Dionísio diz: “Julgo também
que a teologia queira significar isso na filantropia de Cristo", isto
é, tudo quanto diz respeito ao “súbito”, que vai além da esperança, que ocorre
de modo inesperado e assim passa do desconhecido ao conhecido.
10. Ora, a respeito da “filantropia
de Cristo”[7],
três coisas são evocadas: primeiro, o amor de Deus. “Porque Deus amou o
mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que
nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16).
Segundo, o amor de Cristo. “Eu
sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas” (Jo 10.11).
Terceiro, as obras de Cristo. “Mas
eu tenho maior testemunho do que o de João, porque as obras que o Pai me deu
para realizar, as mesmas obras que eu faço testificam de mim, de que o Pai me
enviou” (Jo 5.36).
E, isto, em favor de todo o
gênero humano, tal como diz o Apóstolo: “isto é, Deus estava em Cristo
reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados, e pôs em nós
a palavra da reconciliação” (2Co 5.19); bem como, em favor dos que nEle
creem, tal como o próprio Senhor Jesus afirma: “As minhas ovelhas ouvem a
minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem; e dou-lhes a vida eterna, e nunca
hão de perecer, e ninguém as arrebatará das minhas mãos” (Jo 10.27-28).
Por isso, a proposição da “filantropia
de Cristo”, diz respeito absolutamente a sua obra vicária e aos aspectos
que nesta vem amalgamados, tanto em favor daqueles que creem quanto em favor de
toda a humanidade.
11. Logo, da proposição da “filantropia
de Cristo”, ou do amor de Cristo, surge o complemento a proposição do vir-a-ser
da Encarnação; pois, se a vinda de Cristo é expressão do amor de Deus (cf. Jo
3.16), então, Sua obra, a um modo permanece oculta, pois, Ele é
super-substancial, mas a outro modo, é manifesta, pois, Ele “procedeu do
oculto a nossa manifestação”, e isto na Encarnação, quando se tornou homem,
pois foi “humanamente substanciado”.
Portanto, como Ele foi “humanamente
substanciado”, Ele ao se tornar homem, demonstrou a humanidade de Deus; e,
a significação teológica do que concerne a humanidade de Deus, é afirmada por
Karl Barth com as seguintes palavras: “A humanidade de Deus - isto,
corretamente compreendido, deve por certo significar: o seu relacionar-se com o
ser humano e o voltar-se para ele; Deus que fala com o ser humano em promessas
e mandamento; o ser, a intervenção e a ação de Deus em favor do ser humano; a
comunhão que Deus mantém com o ser humano; a livre graça de Deus, na qual ele
não quer ser e não é Deus, exceto como Deus do ser humano”[8].
Assim, o “humanamente
substanciado”, a que se refere Pseudo-Dionísio, evoca um aspecto teológico
central, a saber, o da humanidade de Deus, que o Deus oculto, o Deus que se
oculta, se torna manifesto, e do oculto vem a nossa manifestação “humanamente
substanciando”, isto é, como verdadeiro homem, a fim de demonstra que Deus,
segundo Barth, relaciona-se com o ser humano e se volta para ele, que Deus fala
com o ser humano em promessas e mandamento, que o ser e a ação de Deus é em
favor do ser humano, que por Sua livre graça, Deus em Seu relacionar com os
homens escolheu ser conhecido como Deus do ser humano. A designação do “humanamente
substanciado”, têm todos estes preciosos aspectos imbuídos, os quais,
Pseudo-Dionísio conseguira sintetizar de maneira límpida e cristalina numa
simples expressão.
12. Terceiro, evoca a
sobre-excelência dos mistérios concernentes a humanidade de Deus, onde diz: “É,
ainda assim, oculto após a manifestação – ou, para falar divinamente, mesmo na
manifestação, pois este mistério de Jesus é oculto, e nem expresso por discurso
ou entendimento algum, mas mesmo quando dito permanece inefável, e quando
entendido, desconhecido”; após evocar a proposição da humanidade de Deus,
Pseudo-Dionísio passa a evocar a sobre-excelência dos mistérios concernentes a
humanidade de Deus; pois, a partir do que houvera afirmado nas epístolas I e
II, e o que afirma na epístola III, há uma dialógica complementar; pois, só se
pode falar de Deus, o Super-Deus, Super-Teárquico e Super-Bonárquico, e do
conhecimento correto a respeito de Deus, a partir da compreensão da humanidade
de Deus, do Deus que se humanou, que foi “humanamente substanciado”. E,
a partir das nuances que esta síntese dionísica expressa, após se compreender o
significado sobre a humanidade de Deus, se prossegue para compreender os mistérios
concernentes a esta proposição teológica.
13. E, sobre isso, duas coisas
são entendidas: primeiro, sobre a dialógica ocultação-manifestação na
Encarnação, onde diz: “É, ainda assim, oculto após a manifestação”, isto
é, Cristo, manifestando a Deus, sendo Deus que fora “humanamente
substanciado”, e assim, mostrara Deus aos homens, permanece com toda a sua
glória oculta, o que se demonstra na transfiguração, onde mostrara toda sua
glória (cf. Mt 17.1-2).
Logo, Ele se manifesta aos
homens, “humanamente substanciado”, para dar a conhecer o Deus que se
relaciona com os seres humanos, mas ao mesmo tempo oculta toda sua glória em
sua humanidade, onde os todos os atributos de Sua divindade estão velados
enquanto é verdadeiro homem.
Portanto, é o Deus manifesto em
carne, que oculta sua glória ao se tornar homem, para revelar aos homens Sua
verdadeira glória e falar aos homens que é favorável aos homens em Seu Filho
Unigênito.
14. Por isso, como diz
Pseudo-Dionísio, “para falar divinamente”, isto é, para falar de acordo
com os mistérios de Deus, o próprio Cristo, “mesmo na manifestação”,
isto é, em sua Encarnação, permanece oculto, “pois este mistério de Jesus é
oculto”, ou seja, é indizível, e, por isso, “nem expresso por discurso
ou entendimento algum”, isto é, mesmo este mistério que se torna conhecido
e que se torna “humanamente substanciado”, em sua totalidade, em ordem
as coisas divinas, “mesmo quanto dito permanece inefável”, isto é,
transcende a qualquer possibilidade humana de definição, e mesmo “quando
entendido, desconhecido”, isto é, mesmo quando compreendido, permanece em
sua inteireza algo além do entendimento humano. E, isto, para cumprir a máxima
que o Apóstolo evoca: “para que nenhuma carne se glorie perante ele”
(1Co 1.29).
15. E, assim, Pseudo-Dionísio soluciona a dúvida de Gaio no que concerne ao vir-a-ser da Encarnação; e, a epístola III, em ordem as duas epístolas anteriores, evoca o aspecto central que vem logo após a investigação sobre as coisas concernentes ao conhecimento a respeito de Deus e sobre o Ser de Deus, a saber, os mistérios concernentes a humanidade de Deus. E, esta epístola, assim como as duas anteriores, está em ordem ao programa teológico dionísico, abalizando mais um aspecto central da teologia de Pseudo-Dionísio, a saber, a centralidade da Encarnação, a centralidade do mistério mais manifesto da teologia.
Em
relação as pressuposições estabelecidas no comentário, ao se explicar a
epístola III de Pseudo-Dionísio, surgiram três dúbias:
Primeiro, se a Encarnação de
Cristo foi algo súbito.
Segundo, se súbito se diz quanto
ao modo da Encarnação.
Terceiro, se Aquele que foi
humanamente substanciado permanece oculto, mesmo após a manifestação.
<Dúbia I>
Acerca da primeira, procede-se
assim: se a Encarnação de Cristo foi
algo súbito.
E parece que não.
I. [Argumentos].
1. Súbito se diz de algo que não é
esperado ou não é conhecido; portanto, se se afirma que a encarnação foi algo
súbito, então a mesma não era esperada e nem conhecida; ora, entre o povo de
Deus havia aqueles que esperavam a vinda do Messias, então, a mesma não foi
algo de súbito; portanto, nem a Encarnação.
2. Ademais, a vinda de Cristo fora
algo anunciado por todos os profetas; o Apóstolo afirma: “o qual havia
prometido pelos seus profetas nas Santas Escrituras” (Rm 1.2); logo, se Ele
fora prometido, então, Sua vinda não foi algo súbito; portanto, nem Sua
Encarnação.
3. Ademais, o velho Simeão, ao ver o
Cristo, afirmara: “pois já os meus olhos virão a salvação, a qual tu
preparaste perante a face de todos os povos” (Lc 1.30-31); logo, se Deus
preparou esta salvação, e isto era conhecido, a vinda de Cristo não foi algo de
súbito; logo, etc.
4. Ademais, súbito se daquilo que
não se consegue perceber; ora, a percepção, segundo o Teólogo, significa uma
notícia experimental (cf. STh Ia, q. 43, a. 5, ad. 2); logo, se se foi afirmado
sobre a vinda de Cristo, então, não foi algo súbito, pois, fora algo percebido
pelos homens; portanto, tiveram uma notícia experimental deste acontecimento,
como ocorre com os pastores na campina de Belém da Judeia (cf. Lc 2.8ss). Logo,
como não foi algo súbito, pois foi uma notícia experimental, nem tampouco o
fora a Encarnação; portanto, etc.
5. Ademais, Agostinho afirma que o
Filho é enviado a cada indivíduo quando por este é conhecido e percebido (cf. De
Trin., IV, 20); logo, se é enviado a cada um a partir de quando é percebido
e conhecido, então, não é súbito; pois, o que é súbito não é percebido; logo,
etc.
II. [Em Contrário].
1. Mas, em contrário, diz a
Escritura: “e, de repente virá ao seu templo o Senhor” (Mt 3.1b); logo,
se virá de repente, então, virá de modo súbito; portanto, a vinda de Cristo foi
algo súbito; logo, a Encarnação foi algo súbito.
2. Além disso, segundo o Teólogo, é
conveniente que as coisas invisíveis se manifestem pelos pelas visíveis (cf.
STh IIIa, q. 1, a. 1, co.); ora, o que é invisível ao se manifestar no visível
se dá de maneira súbita, pois, o que é invisível é incompreensível; logo, a
Encarnação - algo visível - que manifesta algo invisível - Deus -, é algo
súbito.
III. [Solução].
1. A manifestação de algo se dá de
dois modos: ou em ordem a natureza, ou em ordem a graça; naquilo que é em ordem
a natureza, é geralmente conhecível, pois, a natureza não negligencia nenhuma
das coisas necessárias (cf. De An. 432b21); e o que é em ordem a graça, não é
conhecível, pois, pertence a sabedoria de Deus, a qual é oculta em mistério
(cf. 1Co 2.7-8).
2. E, como a Encarnação diz respeito
a estes dois modos: ao mesmo tempo é manifesta e oculta. Ora, a Encarnação é
entendida assim de dois modos: de um modo em ordem a natureza, ao Deus se
encarnar como homem, e isto ser visível e palpável: “O que era desde o
princípio, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as
nossas mãos tocaram da Palavra da Vida” (1Jo 1.1); e de outro modo em ordem
a graça, ao se tornar homem, permanecendo como Deus, e se humilhando como
homem: “que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus.
Mas aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se
semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo,
sendo obediente até à morte e morte de cruz” (Fp 2.6-8). Logo, a Encarnação é algo súbito, tanto em relação a natureza,
ao Deus se tornar homem, quanto em relação a graça, ao se tornar homem ao mesmo
tempo em que permanece sendo Deus. Pois, na Encarnação, o que é oculto é o que
pertence aos mistérios de Deus, e o que é manifesto é o que havia sido
profetizado pelos santos profetas.
3. Por isso, se diz súbito da
Encarnação quanto a Seu mistério inerente, não quanto a vinda do Messias, que
já havia sido anunciada; mas, também se diz súbito quanto a Encarnação, em
relação ao entendimento dos homens, pois, este mistério esteve oculto desde os
tempos eternos (cf. Rm 16.25-27), e apenas foi manifesto na plenitude dos
tempos (cf. Gl 4.4); mas não quanto em ordem a sapiência divina, já que o
cordeiro de Deus estava morto antes da criação do universo (cf. 1Pe 1.19-20; Ap
13.8), o que também diz respeito a necessidade e a realidade da Encarnação.
IV. [Respostas aos Argumentos].
1. Quanto ao primeiro se responde
que, embora de um modo se diga súbito sobre o que não é esperado ou não é
conhecido, geralmente não é em ordem as coisas naturais que se diz súbito;
pois, como diz o Filósofo, a natureza não negligencia nenhuma das coisas
necessárias (cf. De An. 432b21), logo, em relação as coisas naturais não se diz
súbito quanto as coisas naturais visíveis; entretanto, como se tem as operações
ocultas da natureza que, por não serem totalmente compreendidas, em relação as
coisas naturais se diz súbito das mesmas. No entanto, se pode dizer súbito
sobre as questões da graça no que concerne as coisas naturais, como no caso da
Encarnação, que de modo algum era esperada enquanto em ordem a graça, mas era
esperada em ordem as coisas naturais, pelas profecias que anunciavam a vinda do
Messias. Logo, se afirma que a Encarnação foi súbita quanto a ordem das
questões da graça no que concerne as coisas naturais; pois, o se encarnar, está
em ordem a graça, o que é algo súbito.
2. Quanto ao segundo se responde
que, a vinda de Cristo, tendo sido anunciada pelos profetas, diz respeito a que
Ele viria, e a Sua obra, mas não quando e de que modo viria; ora, o súbito diz
respeito ao tempo e ao modo em que viria; e em relação a isto, se diz que a
vinda de Cristo foi algo súbito; logo, a vinda de Cristo não é súbita quanto em
ordem as profecias, mas é súbita quanto a sua manifestação no tempo; então,
corretamente se pode afirmar que a Encarnação foi algo súbito, pois, ninguém a
esperava no modo como aconteceu e nem no tempo em que ocorrera.
3. Quanto ao terceiro se responde
que, a declaração de Simeão fora feita porque o Espírito lhe havia revelado que
haveria de ver o Messias antes de morrer; logo, Simeão compreendeu que o
Messias havia nascido por revelação do Espírito; logo, Ele conheceu este
mistério, mas não antes de lhe ter sido mostrado, pois, não sabia quando o
Messias haveria de vir, mas que o veria em algum momento antes de morrer, o que
ele guardou em seu coração até tal profecia se concretizar; portanto, foi algo
súbito; logo, etc.
4. Quanto ao quarto se responde que,
sendo a percepção uma notícia experimental, e se se afirmara sobre a vinda de
Cristo, então, as profecias sobre a vinda de Cristo são a percepção que
concerne a sua vinda; mas, toda notícia experimental, só se efetiva pela
experiência com o anúncio da notícia; logo, se fora anunciado a vinda de
Cristo, então haveria de haver aqueles que experimentaram sua vinda, e, neste
sentido, não pode ser algo subito; no entanto, se diz súbito, quanto ao modo da
vinda, pois, nenhum homem se apercebeu do modo como viria, mesmo que Sua vinda
tenha sido profetizada; logo, aqueles que receberam a notícia experimental
deste acontecimento, não o estavam esperando, como ocorrera com os pastores na
campina de Belém da Judeia, bem como com todos, pois se afirma na Escritura: “porque
não havia lugar para eles na estalagem” (Lc 2.7). Ora, se fosse algo
esperado, haveria de se ter a melhor hospedagem; no entanto, como não era algo
esperado, pois havia de ser assim, não havia nenhum lugar para eles se
hospedarem; logo, foi algo súbito, como a própria notícia experimental
demonstrara; portanto, a Encarnação foi algo súbito, mesmo quanto a percepção
sobre a mesma naqueles que testemunharam o nascimento de Cristo.
5. Quanto ao quinto se responde que,
embora Cristo tenha nascido como homem de uma vez, continua a nascer no coração
dos homens a medida que estes, pelo efeito da graça, o tem como Senhor e
Salvador; e, ao ser enviado a cada um pelo Espírito Santo, também se constitui
de algo súbito, pois, o chamado eficaz da graça, ao ser feito por Deus, coloca
estes em idoneidade para conhecerem o Filho; logo, ao ser percebido, o é de
maneira súbita. Portanto, quanto a salvação, também se diz que é súbito, pois
redime o pecador num momento, de modo súbito.
<Dúbia II>
Acerca da segunda, procede-se assim:
se súbito se diz quanto ao modo da Encarnação.
E parece que não.
I. [Argumentos].
1. Se diz súbito quanto ao modo da
Encarnação, a saber, de quando o próprio Deus se humanou e nasceu de uma
mulher; pois, a Virgem concebeu pela virtude do Altíssimo (cf. Lc 1.35); logo,
se foi pela Virtude de Deus, então, está em ordem a graça; ora, o que está em
ordem a graça é conhecido na Escritura; portanto, se é conhecido, não é súbito;
logo, quanto ao modo, se diz que a Encarnação não foi algo súbito.
2. Ademais, diz o Apóstolo que
Cristo fez-se semelhante aos homens tomando a forma de homem (cf. Fp 2.7-8); logo,
se tomou a forma de homem, a Encarnação não foi súbita, pois, foi mostrado em
forma humana; pois, se diz modo quanto a Encarnação, pela maneira como o que é
invisível foi tornado visível; ora, se o invisível foi tornado visível por uma
forma, então, não é súbito, pois, pela forma é conhecido; portanto, quanto ao
modo, se diz que a Encarnação não foi algo súbito.
II. [Em Contrário].
1. Mas, em contrário, diz o
Apóstolo: “Aquele que se manifestou em carne” (1Tm 3.16); ora, o que foi
manifestado, o foi de maneira súbita; logo, se foi manifestado em carne, isto
é, na Encarnação, o foi de modo súbito; logo, se diz súbito quanto ao modo da
Encarnação.
III. [Solução].
1. O modo da Encarnação, diz
respeito a forma e ao propósito da Encarnação; a forma, foi ter nascido de
mulher; e em relação a isso a um modo se diz súbito e a outro não; quanto a
pressuposição negativa, não se diz súbito, porque fora anunciado que o Messias
nasceria de uma Virgem, como consta no Principe dos Profetas (cf. Is 7.14);
quanto a pressuposição afirmativa, se diz súbito, quanto ao modo como se
Encarnou, a saber, pela virtude do Altíssimo, de quando a Virgem santa o
concebeu (cf. Lc 1.35). Ora, a virtude do Altíssimo, ao envolver a Virgem, foi
algo súbito, o que produziu um efeito de graça na Virgem, ao ponto desta
afirmar: “pois, eis que, desde agora, todas as gerações me chamarão
bem-aventurada” (Lc 1.48b).
2. E quanto ao propósito, o Verbo se
encarnou, a fim de redimir os homens, tal como diz o Apóstolo: “para remir
os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos” (Gl
4.5). Logo, o Verbo se fez carne, a fim de redimir os homens, e isto, de uma
vez por todas, isto é, de modo súbito, pois, em Sua paixão, sofrera de uma
tristeza profunda até a morte, ao ponto de suar gotas de sangue (cf. Lc 22.44);
ora, isto diz respeito a uma angústia tão profunda que o assolara de modo
súbito; portanto, Ele sofrera as agruras da morte, que foi o propósito pelo
qual encarnara. Logo, se diz súbito quanto ao propósito da Encarnação.
3. Portanto, se diz súbito quanto ao
modo da Encarnação, tanto pela forma quanto pelo propósito da mesma; logo, isto
confirma a proposição de que Ele foi manifesto na carne (cf. 1Tm 3.16), e o foi
de modo súbito; pois, isto está além da esperança natural, e vai do oculto ao
manifesto, do invisível ao visível, da eternidade ao tempo.
IV. [Respostas aos Argumentos].
1. Quanto ao primeiro se responde
que a Encarnação, quando Deus se humanou e nasceu de uma mulher, que concebeu
pela virtude do Altíssimo, foi algo súbito, pois, pelo poder de Deus, a Virgem
santa ficou grávida e deu a luz ao Filho de Deus, sendo preservada, pelo
próprio Deus, para dar a luz a seu Filho da contaminação do Pecado; ora, isto
não foi predito pelos profetas; logo, foi algo súbito, pois, está em ordem a um
efeito da graça, que ocorrera a ponto de torná-la cheia de graça (cf. Lc 1.28);
e, isto também é algo súbito; portanto, no que concerne a todos os aspectos da
Encarnação, enquanto em ordem a graça, tudo foi súbito; embora em alguns
aspectos do que concerne a ordem da natureza, nem tudo tenha sido súbito.
Portanto, quanto ao modo, que mais se refere a ordem da graça do que a ordem da
natureza, se diz que a Encarnação foi algo súbito.
2. Quanto ao segundo se responde
que, conquanto Cristo tenha tomado a forma humana, humanamente substanciado, e
isto tenha sido visível, o ato dEle em se humanar foi algo súbito, pois
pertence a ordem da graça, aos mistérios de Deus; portanto, ao se dizer modo da
Encarnação, se refere ao invisível que foi tornado visível; logo, Cristo, sendo
em sua natureza divina invisível, tomou a natureza humana de forma visível e
paupável; e, assim, quanto ao tomar a natureza humana, e se tornar visível e
paupável não foi súbito, pois, fora visto em forma humana, embora, quando se
encarnou tenha sido algo súbito; portanto, foi conhecido em sua natureza
humana, e foi conhecido quanto ao modo, e isto de forma visível, embora tenha
sido algo súbito de quando do próprio ato da Encarnação. Portanto, quanto ao
modo, que refere-se diretamente ao primeiro aspecto da humilhação de Cristo, ou
seja, ao ato da Encarnação, se diz que foi algo súbito.
<Dúbia III>
Acerca da terceira, procede-se
assim: se Aquele que foi humanamente
substanciado permanece oculto, mesmo após a manifestação.
E parece que não.
I. [Argumentos].
1. A Encarnação é que quando o Filho
de Deus se humanara, o qual, fora conhecido verdadeiramente como homem, pois,
viveu entre os homens, o que foi testemunhado por muitos e muitos (cf. Lc
1.1-4); logo, em Sua Encarnação, ao ser humanamente substanciado, não permanece
oculto, mas, é plenamente conhecido; portanto, Aquele que foi humanamente
substanciado não permanece oculto, mesmo após a manifestação, isto é, a
Encarnação.
2. Ademais, diz o evangelista dos
segredos de Deus: “porque a vida foi manifestada, e nós a vimos, e
testificamos dela, e vos anunciamos a vida eterna, que estava com o Pai e nos
foi manifestada” (1Jo 1.2); portanto, se foi manifestada, foi vista e foi
testificada, então, foi plenamente manifesta; ora, o que é plenamente manifesto
não permanece oculto; logo, Aquele que foi humanamente substanciado não
permanece oculto, mesmo após a manifestação.
3. Ademais, se se diz que foi
manifestado, isso, evidentemente, evoca que não permanece oculto; portanto, não
permanece oculto, mesmo após a manifestação.
II. [Em Contrário].
1. Mas, em contrário, diz a
Escritura: “E transfigurou-se diante deles; e o seu rosto resplandeceu como
o sol, e as suas vestes se tornaram brancas como a luz” (Mt 17.2); ora, se
se transfigurou, e se mostrou em Glória, então, mesmo após ter sido humanamente
substanciado, permanece oculto; mesmo após a manifestação, ainda tem velado a
glória de Sua deidade em Sua humanidade; portanto, permanece oculto, mesmo após
a manifestação.
III. [Solução].
1. A manifestação de Cristo, em Sua
Encarnação, tornou Deus conhecido aos homens; pois, Aquele foi humanamente
substanciado, se tornou manifesto pelo modo como foi substanciado, isto é, como
homem, nascido de mulher e sob a lei (cf. Gl 4.4); logo, foi substanciado
humanamente e, por ter sido substanciado foi mostrado nesta substancia com que
fora substanciado, tornando-se manifesto em carne, como diz o Apóstolo (cf. 1Tm
3.16).
2. No entanto, em sua manifestação,
tornou manifesto o modo como foi substanciado, mas não Sua deidade que ficou
velada em Sua substanciação humana; portanto, a um modo se tornou manifesto, em
Sua humanidade; mas a outro modo permanece oculto, em Sua divindade; logo,
Aquele que foi humanamente substanciado, isto é, que se tornou homem, é
manifesto e visível enquanto homem; mas ao mesmo tempo Sua divindade permanece
oculta em Sua humanidade; por isso, o Apóstolo diz que nEle habita
corporalmente toda a plenitude da divindade (cf. Cl 1.19), isto é, que nEle,
humananente substanciado, habita em seu corpo a plenitude da divindade, ou
seja, enquanto homem tem a plenitude da divindade, mas esta plentitude é velada
em Sua humanidade. Logo, Aquele que foi manifestado, como homem, permanece
oculto em Sua divindade mesmo após a Encarnação; pois, como diz o Apóstolo, “sendo
em forma de Deus”, enquanto homem, “não teve por usurpação o ser igual a
Deus” (Fp 2.6).
IV. [Respostas aos Argumentos]
1. Quanto ao primeiro se responde
que, a Encarnação tornou o Deus que se humanou conhecido; por isso, quem vê ao
Verbo, vê a Deus Pai (cf. Jo 14.9b); logo, em Sua Encarnação, foi plenamente
conhecido, pois, tal como diz a Escritura: “O Filho Unigênito, que está no
seio do Pai, este o fez conhecer” (Jo 1.18b); portanto, o Filho, fez o Pai
conhecido em Sua manifestação, isto é, em Sua Encarnação; mas, em Sua comunhão
no seio da Pai, permanece oculta, já que isto compete aos mistérios divinos
(cf. Jo 17.5); portanto, em Sua manifestação, isto é, em Sua Encarnação, foi
manifestado, mas em Sua comunhão com o Pai e o Espírito, permanece oculto;
logo, neste sentido, permanece oculto, mesmo após Sua Encarnação.
2. Quanto ao segundo se responde que
em Cristo, a vida foi plenamente manifestada, já que Ele mesmo é esta vida (cf.
Jo 14.6); logo, Ele veio para manifestar a vida, pois, viera como luz (cf. Jo
1.4-5), e a luz é manifesta; mas, isso diz respeito a Sua obra enquanto homem
operando as coisas humanas de maneira sobre-humana, isto é, com o poder divino;
logo, em Sua manifestação, isto é, em Sua Encarnação e em Sua humanidade, foi
plenamente manifesto, mas permanece oculto em Sua divindade enquanto verdadeiro
homem. Portanto, Aquele que foi humanamente substanciado permanece oculto,
mesmo após sua manifestação, isto é, mesmo após Sua Encarnação e Sua
humanidade; mas, permanece oculto enquanto homem em relação a glória inaudita
de Sua deidade. Pois, em Sua humanidade, quanto ao que é humano tudo é plenamente manifesto.
3. Donde resulta clara a resposta ao terceiro argumento.
[1] cf. Alberto Magno, Commentari In
Epistolas B. Dionysii Areopagitae, epist. III, A, In: Op. Om., XIV,
878.
[2] Tomás de Aquino, De Articulis Fidei, pars I.
[3] Tomás de Aquino, Comentário a Tessalonicenses [Porto Alegre, RS:
Concreta, 2015], 1ª epist., cap. 1, lect. 1, n. 10, pág. 35.
[4] cf. Alberto Magno, Op. Cit.,
epis. III, B, In: Op. Om., XIV, 879.
[5] Certamente, o único que investigou os temas
concernente a Encarnação deste ponto de vista - salvo o engano -, foi Thomas T.
Torrance, no livro “Incarnation: The Person and Life of Christ”
(Illinois: IVP Academic, 2008). E, sobre as proposições de Torrance, há um
excelente estudo de Tapio Luoma, “Incarnation and Physics - Natural Science
in the Theology of Thomas F. Torrance” (Oxford: Oxford University Press,
2002). E, observe-se bem, somente no séc. XX, este tema fora elucubrado, e
somente no séc. XXI fora publicado um estudo adequado sobre esta compreensão a
respeito da relação entre a teologia e as ciências naturais no tocante ao vir-a-ser
da Encarnação, algo que já havia sido afirmado por Alberto no séc. XIII, e que
já estava imbuída na proposição de Pseudo-Dionísio no séc. VI, como se mostra
na epístola III. A proposição de Torrance é singularíssima; não se sabe se
Torrance tinha o conhecimento desta proposição de Alberto Magno - provavelmente
não -, mas no âmbito da ciência teológica, demonstram certa complementariedade,
já que a proposição de Alberto não fora levada adiante adequadamente, e naquilo
que a mesma infere, apenas Torrance elucubrara sobre estes aspectos, mesmo que
não tenha feito tais reflexões sob a proposição de Alberto.
[6] cf. Platão, Banquete, 210e.
[7] E evoca-se aqui o termo
filantropia, de modo diferente do que é comumente empregado em termos
hodiernos; o termo aqui é tomado em sua mais exata acepção, e não de acordo com
os preceitos iluministas e ideológicos que na contemporaneidade desfiguraram o
verdadeiro sentido de filantropia.
[8] Karl Barth, Dádiva e Louvor: Ensaios de Teologia [3ª ed. São
Leopoldo, RS: Sinodal/EST, 2006], pág. 389.
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