02/10/2024

Comentário a Epístola III de Pseudo-Dionísio

Prefácio.

 

Após as duas primeiras epístolas que versam a respeito de Deus, as duas epístolas seguintes, versam a respeito da Encarnação; ora, isto concerne ao mistério da graça; pois, a Encarnação do Verbo (cf. Jo 1.14), diz respeito a humanidade de Deus, e ao fato de o Filho de Deus ter se tornado homem para reconciliar o cosmos com Deus (cf. 2Co 5.19).

E, a respeito da Encarnação, dois aspectos são postos: primeiro, a respeito da possibilidade e da necessidade da Encarnação; segundo, a respeito da Encarnação considerada em si mesma. O primeiro aspecto, Pseudo-Dionísio trabalha na epístola III, o segundo, na epístola IV. Por isso, as epístolas III e IV constituem um testemunho peculiar, daquele que, segundo o próprio Pseudo-Dionísio, é o mistério mais manifesto de toda teologia.

Deste modo, cumpre analisar esta epístola e evocar os principais aspectos que a mesma concerne, a fim de explicar as proposições inerentes a designação da possibilidade e da necessidade da Encarnação; pois, o vir-a-ser da Encarnação, constitui-se a porta de entrada, o umbral de entrada, à compreensão a respeito do mistério da Encarnação. Por isso, na ordem da compreensão a respeito da Encarnação é o primeiro aspecto a ser elucidado, bem é o aspecto primeiro ao se elucubrar sobre a fonte da graça (cf. Jo 1.17b), e sobre a sabedoria de Deus, a qual é oculta em mistério (cf. 1Co 2.7-8).

Portanto, eis o comentário a esta epístola, para explicá-la e solucionar as dúbias que emergem da explicação da mesma, que conquanto seja uma epístola mais simples - assim como a epístola II e a epístolas V, VI e X -, contudo, ao se analisá-la se compreende as questões dificílimas que surgem dos temas teológicos que a mesma evoca, e das singulares proposições que são delineadas por Pseudo-Dionísio; por isso, se pode falar que esta epístola, assim como as outras, são quase que como opúsculos teológicos, tamanha a profundidade de conteúdo que a síntese dionísica transparece nas mesmas.

Soli Deo Gloria!

In Nomine Iesus!

01 de outubro de 2024. 


Texto de Pseudo-Dionísio (Epist. III).

“Súbito” é o que vai além da esperança (cf. Ml 3.1), levado do inaparente ao manifesto. Julgo também que a teologia queria significar isso na filantropia de Cristo: que Aquele [que é] super-substancial procedeu do oculto a nossa manifestação, humanamente substanciado. É, ainda assim, oculto após a manifestação – ou, para falar divinamente, mesmo na manifestação, pois este mistério de Jesus é oculto, e nem expresso por discurso ou entendimento algum, mas mesmo quando dito permanece inefável, e quando entendido, desconhecido. 


A. Proêmio.

1. “Vou, porém, dizer-vos o que é a Sabedoria e como se tenha originado, sem esconder-vos os mistérios de Deus: investigarei desde o início do seu nascimento, trazendo à luz o conhecimento que a ela se refere sem desviar-me da verdade” (Sb 6.22); ora, estas palavras competem ao assunto e à matéria desta epístola; pois, a Sabedoria divina, o Logos, foi eternamente gerado como Filho de Deus, e na plenitude dos tempos (cf. Gl 4.4s), se fez carne (cf. Jo 1.14; 1Tm 3.16); logo, o Verbo incriado, se tornou Verbo encarnado; e na compreensão a respeito desse aspecto, se encontra o desvelar dos mistérios de Deus.

2. Portanto, três coisas são ditas a respeito da sabedoria: primeiro, a mesma se originou de Deus na eternidade, onde diz: “vou, porém, dizer-vos o que é a Sabedoria e como se tenha originado”. Segundo, a sabedoria dá a conhecer os mistérios de Deus, onde diz: “sem esconder-vos os mistérios de Deus”. Terceiro, a sabedoria é outorgada para ser investigada, onde diz: “investigarei desde o início do seu nascimento”.

Ora, nestas três coisas, se torna evidente que a sabedoria é uma Pessoa; pois, somente a pessoalidade da sabedoria, é que demonstra que Sua investigação pode ser feita desde o Seu nascimento, já que na ordem das coisas de Deus, o primeiro aspecto a ser investigado sobre a sabedoria é a respeito de Sua origem na ordem do tempo.

3. Deste modo, o que concerne ao nascimento da sabedoria, é o que se intitula mais propriamente dos mistérios da Encarnação; e, estes mistérios são investigados de duas maneiras: primeiro, em relação a necessidade e a possibilidade da Encarnação; segundo, em relação a Encarnação propriamente dito.

Ora, em relação ao primeiro, Pseudo-Dionísio o analisa nesta epístola; pois, este aspecto, é o que vem em primeiro lugar na ordem da investigação sobre o nascimento da Sabedoria. “O Senhor me possuiu no princípio de seus caminhos e antes de suas obras mais antigas. Desde a eternidade, fui ungida; desde o princípio, antes do começo da terra” (Pv 8.22-23).

4. E, quanto a isso, se dizem três coisas: primeiro, quanto a necessidade do nascimento da sabedoria; segundo, quanto ao modo do nascimento; terceiro, quanto aos efeitos do nascimento.

Portanto, o que concerne a investigação sobre a necessidade e a possibilidade da Encarnação, se dá inicialmente na orbita destas três coisas; pois, o Verbo encarnado, é Aquele de quem o profeta afirma: “e, de repente, virá ao seu templo o Senhor, a quem vós buscais, o anjo do concerto, a quem vós desejais; eis que vem, diz o SENHOR dos Exércitos” (Ml 3.1b-c). E, Ele veio, a Sabedoria veio, a qual os homens buscavam, e a qual os homens anelavam. “e farei tremer todas as nações, e virá o Desejado de todas as nações, e encherei esta cada de glória, diz o SENHOR dos Exércitos” (Ag 2.7).

E isto concerne as palavras desta epístola; pois, o entendimento a respeito da possibilidade e da necessidade da Encarnação, é o primeiro aspecto que concerne a investigação sobre os mistérios da encarnação; e, evidentemente, isto é feito sob a proposição de que “Aquele que é super-substancial procedeu do oculto a nossa manifestação, humanamente substanciado”. Logo, etc. 


B. Comentário.

1. Após as epístolas I e II, onde analisa as questões concernentes a Deus, Pseudo-Dionísio prossegue à epístola III, onde conjuntamente com a epístola IV, passa a analisar questões referentes a humanidade de Deus. E, na epístola III, inicia a primeira destas duas questões, ao analisar propriamente aquilo que Alberto intitula o vir-a-ser da Encarnação[1].

2. Ora, as questões envolvendo o mistério da Encarnação, são sempre gloriosas já que versam sobre o aspecto central da fé cristã, pois, “a fé cristã orbita em torno da divindade e da humanidade de Cristo[2]; logo, ao se elucubrar sobre a encarnação, elucubra-se o aspecto em torno do qual a fé se movimenta; por isso, Pseudo-Dionísio, estabelece questões importantíssimas a respeito do mistério da Encarnação, principalmente na epístola III, ao evocar a questão do vir-a-ser da Encarnação, isto é, a possibilidade e a necessidade da Encarnação e as nuances que vem amalgamadas nestes dois aspectos que são dialógicos. E, sobre isso, Pseudo-Dionísio faz três coisas: primeiro, estabelece a questão; segundo, estabelece a base da proposição teológica sobre a humanidade de Deus; terceiro, evoca a sobre-excelência dos mistérios concernentes a humanidade de Deus.

3. Primeiro, estabelece a questão, onde diz: “‘Súbito’ é o que vai além da esperança (cf. Ml 3.1), levado do inaparente ao manifesto”; em primeiro lugar, Pseudo-Dionísio põe a questão; e uma questão dificílima; pois, justamente evoca a questão do vir-a-ser da Encarnação, isto é, sobre o tempo e o modo da Encarnação. E, a dúvida de Gaio surge justamente de se compreender se a Encarnação é algo súbito ou não; pois, o texto do profeta afirma: “e, de repente, virá ao seu templo o Senhor” (Ml 3.1b); a dúbia quanto ao tempo, refere-se a este “súbito” ou “de repente”; e este qualificativo tem duas características: é o que vai além da esperança, e é o que é levado do inaparente ao manifesto.

4. Ora, a Encarnação tem estas duas características: primeiro, é o que vai além da esperança, pois, é fonte de toda a esperança. “Levanta-te, resplandece, porque já vem a tua luz, e a glória do SENHOR vai nascendo sobre ti. Porque eis que as trevas cobriram a terra, e a escuridão, os povos; mas sobre ti o SENHOR virá surgindo, e a sua glória se verá sobre ti” (Is 60.1-2).

Segundo, é o que é levado do inaparente ao manifesto, isto é, é levado do que não é conhecido ao que é conhecido. “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1.14).

Logo, a encarnação é algo súbito; mas, não súbito de surpresa em ordem as coisas de Deus, mas súbito em relação a esperança do Antigo Testamento que não conduziu a Deus: “Com efeito, a esperança no Antigo Testamento não conduziu a Deus[3]. E isto também se confirma pelo texto do profeta, onde se apresenta o que precederia este “súbito”, isto é, que viria alguém que prepararia o caminho do Messias (cf. Ml 3.1a), dizendo-se assim “súbito” não em ordem as coisas de Deus, mas em ordem as coisas humanas.

5. E, segundo Alberto, algo é dito súbito de três modos[4]: primeiro, aquilo que segundo o tempo é algo instantâneo; segundo, algo que em se tratando do tempo ocorre de maneira breve e rápida; terceiro, algo que de repente começa a aparecer sem que se esperasse ou se inquirisse. Ora, para Alberto, a designação de Pseudo-Dionísio, pode ser dita em algum dos dois primeiros modos, mas não em relação ao terceiro. E, Alberto está correto; pois, a manifestação do Redentor ocorreu de maneira repentina, em se tratando do tempo, mas como já estava profetizada não foi algo “súbito”, pois, havia sido anunciado; pelo contrário, todo o Velho Testamento aponta para Cristo; então, a Encarnação, em um sentido foi “súbita”, isto é, naquilo que diz respeito a manifestação no tempo; mas noutro sentido não foi “súbita”, isto é, enquanto em ordem as coisas reveláveis.

6. Esta dubitação, em si mesma, constitui-se um dos aspectos mais importantes a respeito da elucubração sobre a Encarnação, pois, versa sobre temas teológicos, e sobre temas temporais-espaciais; pois, a Encarnação ocorrera no tempo e no espaço; isto é, Aquele que habita na Eternidade entrou no tempo, e Aquele que habita além do espaço, entrou no espaço. A questão a respeito do “súbito” da Encarnação, ou do vir-a-ser da encarnação demonstra isso de maneira contundente; um assunto pouco refletido[5], mas que se constitui de um dos aspectos mais importantes a respeito de uma parte do tema principal sob o qual a fé cristã orbita.

7. Além disso, esta questão sobre o “súbito” evoca uma proposição filosófica, a qual ajuda a melhor compreender o significado utilizado por Pseudo-Dionísio ao elucubrar sobre o “súbito” quanto a Encarnação; por exemplo, Platão empregara o termo “súbito”, para se referir àqueles que tendo contemplado as coisas belas em uma correta e ordenada sucessão, isto é, aqueles que as contemplaram de maneira correta, descobrirá de repente (súbito), que ao levar a cabo sua contemplação amorosa, encontrará algo maravilhosamente belo por natureza[6].

Assim, em Platão, o “de repente”, o “súbito”, se refere a algo da contemplação do belo, a contemplação amorosa; e, ao aplicar este sentido a questão do vir-a-ser da Encarnação, se consegue compreender que ao se contemplar os mistérios da revelação em ordem a partir do Antigo Testamento, se descobrirá a maravilhosidade deste “súbito”, na ordem do tempo, em relação a Encarnação.

Isto, teologicamente, foi expresso pelo evangelista dos segredos de Deus com as seguintes palavras: “O que era desde o princípio, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida (porque a vida foi manifestada, e nós a vimos, e testificamos dela, e vos anunciamos a vida eterna, que estava com o Pai e nos foi manifestada)” (1Jo 1.1-2). O “súbito” da Encarnação, é a vida eterna que estava com o Pai e nos foi manifestada; e este manifestar, foi “súbito” tal como fora descrito anteriormente.

8. Logo, se compreende a razão desta dubitação, bem como, sua natureza, tanto em relação ao beneplácito divino, quanto em relação a redenção da humanidade, tal como diz o autor aos Hebreus: “Pelo que convinha que, em tudo, fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo” (Hb 2.17). Ora, isto diz respeito a duas coisas: primeiro, em relação a nossa humanidade, onde diz: “fosse semelhante aos irmãos”, isto é, participasse da nossa humanidade. Segundo, para redimir o povo, onde diz: “expiar os pecados do povo”, isto é, redimir os eleitos e dignificar o gênero humano com sua redenção cósmica. Portanto, o vir-a-ser da Encarnação, se refere a possibilidade e a necessidade da Encarnação, também descritas a partir do tríplice ofício de Cristo.

9. Segundo, estabelece a base da proposição teológica sobre a humanidade de Deus, onde diz: “Julgo também que a teologia queria significar isso na filantropia de Cristo: que Aquele [que é] super-substancial procedeu do oculto a nossa manifestação, humanamente substanciado”; ora, após ter apresentado a dúbia, que açambarca uma série de aspectos e nuances fundamentais, Pseudo-Dionísio prossegue, e busca defrontar a noção básica do “súbito” quanto a Encarnação, com a proposição teológica da humanidade de Deus; pois, a significação do “súbito” da Encarnação refere-se diretamente a isso; por isso, Pseudo-Dionísio diz: “Julgo também que a teologia queira significar isso na filantropia de Cristo", isto é, tudo quanto diz respeito ao “súbito”, que vai além da esperança, que ocorre de modo inesperado e assim passa do desconhecido ao conhecido.

10. Ora, a respeito da “filantropia de Cristo[7], três coisas são evocadas: primeiro, o amor de Deus. “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16).

Segundo, o amor de Cristo. “Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas” (Jo 10.11).

Terceiro, as obras de Cristo. “Mas eu tenho maior testemunho do que o de João, porque as obras que o Pai me deu para realizar, as mesmas obras que eu faço testificam de mim, de que o Pai me enviou” (Jo 5.36).

E, isto, em favor de todo o gênero humano, tal como diz o Apóstolo: “isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados, e pôs em nós a palavra da reconciliação” (2Co 5.19); bem como, em favor dos que nEle creem, tal como o próprio Senhor Jesus afirma: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem; e dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará das minhas mãos” (Jo 10.27-28).

Por isso, a proposição da “filantropia de Cristo”, diz respeito absolutamente a sua obra vicária e aos aspectos que nesta vem amalgamados, tanto em favor daqueles que creem quanto em favor de toda a humanidade.

11. Logo, da proposição da “filantropia de Cristo”, ou do amor de Cristo, surge o complemento a proposição do vir-a-ser da Encarnação; pois, se a vinda de Cristo é expressão do amor de Deus (cf. Jo 3.16), então, Sua obra, a um modo permanece oculta, pois, Ele é super-substancial, mas a outro modo, é manifesta, pois, Ele “procedeu do oculto a nossa manifestação”, e isto na Encarnação, quando se tornou homem, pois foi “humanamente substanciado”.

Portanto, como Ele foi “humanamente substanciado”, Ele ao se tornar homem, demonstrou a humanidade de Deus; e, a significação teológica do que concerne a humanidade de Deus, é afirmada por Karl Barth com as seguintes palavras: “A humanidade de Deus - isto, corretamente compreendido, deve por certo significar: o seu relacionar-se com o ser humano e o voltar-se para ele; Deus que fala com o ser humano em promessas e mandamento; o ser, a intervenção e a ação de Deus em favor do ser humano; a comunhão que Deus mantém com o ser humano; a livre graça de Deus, na qual ele não quer ser e não é Deus, exceto como Deus do ser humano[8].

Assim, o “humanamente substanciado”, a que se refere Pseudo-Dionísio, evoca um aspecto teológico central, a saber, o da humanidade de Deus, que o Deus oculto, o Deus que se oculta, se torna manifesto, e do oculto vem a nossa manifestação “humanamente substanciando”, isto é, como verdadeiro homem, a fim de demonstra que Deus, segundo Barth, relaciona-se com o ser humano e se volta para ele, que Deus fala com o ser humano em promessas e mandamento, que o ser e a ação de Deus é em favor do ser humano, que por Sua livre graça, Deus em Seu relacionar com os homens escolheu ser conhecido como Deus do ser humano. A designação do “humanamente substanciado”, têm todos estes preciosos aspectos imbuídos, os quais, Pseudo-Dionísio conseguira sintetizar de maneira límpida e cristalina numa simples expressão.

12. Terceiro, evoca a sobre-excelência dos mistérios concernentes a humanidade de Deus, onde diz: “É, ainda assim, oculto após a manifestação – ou, para falar divinamente, mesmo na manifestação, pois este mistério de Jesus é oculto, e nem expresso por discurso ou entendimento algum, mas mesmo quando dito permanece inefável, e quando entendido, desconhecido”; após evocar a proposição da humanidade de Deus, Pseudo-Dionísio passa a evocar a sobre-excelência dos mistérios concernentes a humanidade de Deus; pois, a partir do que houvera afirmado nas epístolas I e II, e o que afirma na epístola III, há uma dialógica complementar; pois, só se pode falar de Deus, o Super-Deus, Super-Teárquico e Super-Bonárquico, e do conhecimento correto a respeito de Deus, a partir da compreensão da humanidade de Deus, do Deus que se humanou, que foi “humanamente substanciado”. E, a partir das nuances que esta síntese dionísica expressa, após se compreender o significado sobre a humanidade de Deus, se prossegue para compreender os mistérios concernentes a esta proposição teológica.

13. E, sobre isso, duas coisas são entendidas: primeiro, sobre a dialógica ocultação-manifestação na Encarnação, onde diz: “É, ainda assim, oculto após a manifestação”, isto é, Cristo, manifestando a Deus, sendo Deus que fora “humanamente substanciado”, e assim, mostrara Deus aos homens, permanece com toda a sua glória oculta, o que se demonstra na transfiguração, onde mostrara toda sua glória (cf. Mt 17.1-2).

Logo, Ele se manifesta aos homens, “humanamente substanciado”, para dar a conhecer o Deus que se relaciona com os seres humanos, mas ao mesmo tempo oculta toda sua glória em sua humanidade, onde os todos os atributos de Sua divindade estão velados enquanto é verdadeiro homem.

Portanto, é o Deus manifesto em carne, que oculta sua glória ao se tornar homem, para revelar aos homens Sua verdadeira glória e falar aos homens que é favorável aos homens em Seu Filho Unigênito.

14. Por isso, como diz Pseudo-Dionísio, “para falar divinamente”, isto é, para falar de acordo com os mistérios de Deus, o próprio Cristo, “mesmo na manifestação”, isto é, em sua Encarnação, permanece oculto, “pois este mistério de Jesus é oculto”, ou seja, é indizível, e, por isso, “nem expresso por discurso ou entendimento algum”, isto é, mesmo este mistério que se torna conhecido e que se torna “humanamente substanciado”, em sua totalidade, em ordem as coisas divinas, “mesmo quanto dito permanece inefável”, isto é, transcende a qualquer possibilidade humana de definição, e mesmo “quando entendido, desconhecido”, isto é, mesmo quando compreendido, permanece em sua inteireza algo além do entendimento humano. E, isto, para cumprir a máxima que o Apóstolo evoca: “para que nenhuma carne se glorie perante ele” (1Co 1.29).

15. E, assim, Pseudo-Dionísio soluciona a dúvida de Gaio no que concerne ao vir-a-ser da Encarnação; e, a epístola III, em ordem as duas epístolas anteriores, evoca o aspecto central que vem logo após a investigação sobre as coisas concernentes ao conhecimento a respeito de Deus e sobre o Ser de Deus, a saber, os mistérios concernentes a humanidade de Deus. E, esta epístola, assim como as duas anteriores, está em ordem ao programa teológico dionísico, abalizando mais um aspecto central da teologia de Pseudo-Dionísio, a saber, a centralidade da Encarnação, a centralidade do mistério mais manifesto da teologia. 


 C. Dúbias.

Em relação as pressuposições estabelecidas no comentário, ao se explicar a epístola III de Pseudo-Dionísio, surgiram três dúbias:

Primeiro, se a Encarnação de Cristo foi algo súbito.

Segundo, se súbito se diz quanto ao modo da Encarnação.

Terceiro, se Aquele que foi humanamente substanciado permanece oculto, mesmo após a manifestação.

 

<Dúbia I> 

Acerca da primeira, procede-se assim: se a Encarnação de Cristo foi algo súbito.

E parece que não.

I. [Argumentos].

1. Súbito se diz de algo que não é esperado ou não é conhecido; portanto, se se afirma que a encarnação foi algo súbito, então a mesma não era esperada e nem conhecida; ora, entre o povo de Deus havia aqueles que esperavam a vinda do Messias, então, a mesma não foi algo de súbito; portanto, nem a Encarnação.

2. Ademais, a vinda de Cristo fora algo anunciado por todos os profetas; o Apóstolo afirma: “o qual havia prometido pelos seus profetas nas Santas Escrituras” (Rm 1.2); logo, se Ele fora prometido, então, Sua vinda não foi algo súbito; portanto, nem Sua Encarnação.

3. Ademais, o velho Simeão, ao ver o Cristo, afirmara: “pois já os meus olhos virão a salvação, a qual tu preparaste perante a face de todos os povos” (Lc 1.30-31); logo, se Deus preparou esta salvação, e isto era conhecido, a vinda de Cristo não foi algo de súbito; logo, etc.

4. Ademais, súbito se daquilo que não se consegue perceber; ora, a percepção, segundo o Teólogo, significa uma notícia experimental (cf. STh Ia, q. 43, a. 5, ad. 2); logo, se se foi afirmado sobre a vinda de Cristo, então, não foi algo súbito, pois, fora algo percebido pelos homens; portanto, tiveram uma notícia experimental deste acontecimento, como ocorre com os pastores na campina de Belém da Judeia (cf. Lc 2.8ss). Logo, como não foi algo súbito, pois foi uma notícia experimental, nem tampouco o fora a Encarnação; portanto, etc.

5. Ademais, Agostinho afirma que o Filho é enviado a cada indivíduo quando por este é conhecido e percebido (cf. De Trin., IV, 20); logo, se é enviado a cada um a partir de quando é percebido e conhecido, então, não é súbito; pois, o que é súbito não é percebido; logo, etc.

II. [Em Contrário].

1. Mas, em contrário, diz a Escritura: “e, de repente virá ao seu templo o Senhor” (Mt 3.1b); logo, se virá de repente, então, virá de modo súbito; portanto, a vinda de Cristo foi algo súbito; logo, a Encarnação foi algo súbito.

2. Além disso, segundo o Teólogo, é conveniente que as coisas invisíveis se manifestem pelos pelas visíveis (cf. STh IIIa, q. 1, a. 1, co.); ora, o que é invisível ao se manifestar no visível se dá de maneira súbita, pois, o que é invisível é incompreensível; logo, a Encarnação - algo visível - que manifesta algo invisível - Deus -, é algo súbito.

III. [Solução].

1. A manifestação de algo se dá de dois modos: ou em ordem a natureza, ou em ordem a graça; naquilo que é em ordem a natureza, é geralmente conhecível, pois, a natureza não negligencia nenhuma das coisas necessárias (cf. De An. 432b21); e o que é em ordem a graça, não é conhecível, pois, pertence a sabedoria de Deus, a qual é oculta em mistério (cf. 1Co 2.7-8).

2. E, como a Encarnação diz respeito a estes dois modos: ao mesmo tempo é manifesta e oculta. Ora, a Encarnação é entendida assim de dois modos: de um modo em ordem a natureza, ao Deus se encarnar como homem, e isto ser visível e palpável: “O que era desde o princípio, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da Vida” (1Jo 1.1); e de outro modo em ordem a graça, ao se tornar homem, permanecendo como Deus, e se humilhando como homem: “que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus. Mas aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte e morte de cruz(Fp 2.6-8). Logo, a Encarnação é algo súbito, tanto em relação a natureza, ao Deus se tornar homem, quanto em relação a graça, ao se tornar homem ao mesmo tempo em que permanece sendo Deus. Pois, na Encarnação, o que é oculto é o que pertence aos mistérios de Deus, e o que é manifesto é o que havia sido profetizado pelos santos profetas.

3. Por isso, se diz súbito da Encarnação quanto a Seu mistério inerente, não quanto a vinda do Messias, que já havia sido anunciada; mas, também se diz súbito quanto a Encarnação, em relação ao entendimento dos homens, pois, este mistério esteve oculto desde os tempos eternos (cf. Rm 16.25-27), e apenas foi manifesto na plenitude dos tempos (cf. Gl 4.4); mas não quanto em ordem a sapiência divina, já que o cordeiro de Deus estava morto antes da criação do universo (cf. 1Pe 1.19-20; Ap 13.8), o que também diz respeito a necessidade e a realidade da Encarnação.

IV. [Respostas aos Argumentos].

1. Quanto ao primeiro se responde que, embora de um modo se diga súbito sobre o que não é esperado ou não é conhecido, geralmente não é em ordem as coisas naturais que se diz súbito; pois, como diz o Filósofo, a natureza não negligencia nenhuma das coisas necessárias (cf. De An. 432b21), logo, em relação as coisas naturais não se diz súbito quanto as coisas naturais visíveis; entretanto, como se tem as operações ocultas da natureza que, por não serem totalmente compreendidas, em relação as coisas naturais se diz súbito das mesmas. No entanto, se pode dizer súbito sobre as questões da graça no que concerne as coisas naturais, como no caso da Encarnação, que de modo algum era esperada enquanto em ordem a graça, mas era esperada em ordem as coisas naturais, pelas profecias que anunciavam a vinda do Messias. Logo, se afirma que a Encarnação foi súbita quanto a ordem das questões da graça no que concerne as coisas naturais; pois, o se encarnar, está em ordem a graça, o que é algo súbito.

2. Quanto ao segundo se responde que, a vinda de Cristo, tendo sido anunciada pelos profetas, diz respeito a que Ele viria, e a Sua obra, mas não quando e de que modo viria; ora, o súbito diz respeito ao tempo e ao modo em que viria; e em relação a isto, se diz que a vinda de Cristo foi algo súbito; logo, a vinda de Cristo não é súbita quanto em ordem as profecias, mas é súbita quanto a sua manifestação no tempo; então, corretamente se pode afirmar que a Encarnação foi algo súbito, pois, ninguém a esperava no modo como aconteceu e nem no tempo em que ocorrera.

3. Quanto ao terceiro se responde que, a declaração de Simeão fora feita porque o Espírito lhe havia revelado que haveria de ver o Messias antes de morrer; logo, Simeão compreendeu que o Messias havia nascido por revelação do Espírito; logo, Ele conheceu este mistério, mas não antes de lhe ter sido mostrado, pois, não sabia quando o Messias haveria de vir, mas que o veria em algum momento antes de morrer, o que ele guardou em seu coração até tal profecia se concretizar; portanto, foi algo súbito; logo, etc.

4. Quanto ao quarto se responde que, sendo a percepção uma notícia experimental, e se se afirmara sobre a vinda de Cristo, então, as profecias sobre a vinda de Cristo são a percepção que concerne a sua vinda; mas, toda notícia experimental, só se efetiva pela experiência com o anúncio da notícia; logo, se fora anunciado a vinda de Cristo, então haveria de haver aqueles que experimentaram sua vinda, e, neste sentido, não pode ser algo subito; no entanto, se diz súbito, quanto ao modo da vinda, pois, nenhum homem se apercebeu do modo como viria, mesmo que Sua vinda tenha sido profetizada; logo, aqueles que receberam a notícia experimental deste acontecimento, não o estavam esperando, como ocorrera com os pastores na campina de Belém da Judeia, bem como com todos, pois se afirma na Escritura: “porque não havia lugar para eles na estalagem” (Lc 2.7). Ora, se fosse algo esperado, haveria de se ter a melhor hospedagem; no entanto, como não era algo esperado, pois havia de ser assim, não havia nenhum lugar para eles se hospedarem; logo, foi algo súbito, como a própria notícia experimental demonstrara; portanto, a Encarnação foi algo súbito, mesmo quanto a percepção sobre a mesma naqueles que testemunharam o nascimento de Cristo.

5. Quanto ao quinto se responde que, embora Cristo tenha nascido como homem de uma vez, continua a nascer no coração dos homens a medida que estes, pelo efeito da graça, o tem como Senhor e Salvador; e, ao ser enviado a cada um pelo Espírito Santo, também se constitui de algo súbito, pois, o chamado eficaz da graça, ao ser feito por Deus, coloca estes em idoneidade para conhecerem o Filho; logo, ao ser percebido, o é de maneira súbita. Portanto, quanto a salvação, também se diz que é súbito, pois redime o pecador num momento, de modo súbito.

 

<Dúbia II>

Acerca da segunda, procede-se assim: se súbito se diz quanto ao modo da Encarnação.

E parece que não.

I. [Argumentos].

1. Se diz súbito quanto ao modo da Encarnação, a saber, de quando o próprio Deus se humanou e nasceu de uma mulher; pois, a Virgem concebeu pela virtude do Altíssimo (cf. Lc 1.35); logo, se foi pela Virtude de Deus, então, está em ordem a graça; ora, o que está em ordem a graça é conhecido na Escritura; portanto, se é conhecido, não é súbito; logo, quanto ao modo, se diz que a Encarnação não foi algo súbito.  

2. Ademais, diz o Apóstolo que Cristo fez-se semelhante aos homens tomando a forma de homem (cf. Fp 2.7-8); logo, se tomou a forma de homem, a Encarnação não foi súbita, pois, foi mostrado em forma humana; pois, se diz modo quanto a Encarnação, pela maneira como o que é invisível foi tornado visível; ora, se o invisível foi tornado visível por uma forma, então, não é súbito, pois, pela forma é conhecido; portanto, quanto ao modo, se diz que a Encarnação não foi algo súbito.

II. [Em Contrário].

1. Mas, em contrário, diz o Apóstolo: “Aquele que se manifestou em carne” (1Tm 3.16); ora, o que foi manifestado, o foi de maneira súbita; logo, se foi manifestado em carne, isto é, na Encarnação, o foi de modo súbito; logo, se diz súbito quanto ao modo da Encarnação.

III. [Solução].

1. O modo da Encarnação, diz respeito a forma e ao propósito da Encarnação; a forma, foi ter nascido de mulher; e em relação a isso a um modo se diz súbito e a outro não; quanto a pressuposição negativa, não se diz súbito, porque fora anunciado que o Messias nasceria de uma Virgem, como consta no Principe dos Profetas (cf. Is 7.14); quanto a pressuposição afirmativa, se diz súbito, quanto ao modo como se Encarnou, a saber, pela virtude do Altíssimo, de quando a Virgem santa o concebeu (cf. Lc 1.35). Ora, a virtude do Altíssimo, ao envolver a Virgem, foi algo súbito, o que produziu um efeito de graça na Virgem, ao ponto desta afirmar: “pois, eis que, desde agora, todas as gerações me chamarão bem-aventurada” (Lc 1.48b).

2. E quanto ao propósito, o Verbo se encarnou, a fim de redimir os homens, tal como diz o Apóstolo: “para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos” (Gl 4.5). Logo, o Verbo se fez carne, a fim de redimir os homens, e isto, de uma vez por todas, isto é, de modo súbito, pois, em Sua paixão, sofrera de uma tristeza profunda até a morte, ao ponto de suar gotas de sangue (cf. Lc 22.44); ora, isto diz respeito a uma angústia tão profunda que o assolara de modo súbito; portanto, Ele sofrera as agruras da morte, que foi o propósito pelo qual encarnara. Logo, se diz súbito quanto ao propósito da Encarnação.

3. Portanto, se diz súbito quanto ao modo da Encarnação, tanto pela forma quanto pelo propósito da mesma; logo, isto confirma a proposição de que Ele foi manifesto na carne (cf. 1Tm 3.16), e o foi de modo súbito; pois, isto está além da esperança natural, e vai do oculto ao manifesto, do invisível ao visível, da eternidade ao tempo.

IV. [Respostas aos Argumentos].

1. Quanto ao primeiro se responde que a Encarnação, quando Deus se humanou e nasceu de uma mulher, que concebeu pela virtude do Altíssimo, foi algo súbito, pois, pelo poder de Deus, a Virgem santa ficou grávida e deu a luz ao Filho de Deus, sendo preservada, pelo próprio Deus, para dar a luz a seu Filho da contaminação do Pecado; ora, isto não foi predito pelos profetas; logo, foi algo súbito, pois, está em ordem a um efeito da graça, que ocorrera a ponto de torná-la cheia de graça (cf. Lc 1.28); e, isto também é algo súbito; portanto, no que concerne a todos os aspectos da Encarnação, enquanto em ordem a graça, tudo foi súbito; embora em alguns aspectos do que concerne a ordem da natureza, nem tudo tenha sido súbito. Portanto, quanto ao modo, que mais se refere a ordem da graça do que a ordem da natureza, se diz que a Encarnação foi algo súbito.

2. Quanto ao segundo se responde que, conquanto Cristo tenha tomado a forma humana, humanamente substanciado, e isto tenha sido visível, o ato dEle em se humanar foi algo súbito, pois pertence a ordem da graça, aos mistérios de Deus; portanto, ao se dizer modo da Encarnação, se refere ao invisível que foi tornado visível; logo, Cristo, sendo em sua natureza divina invisível, tomou a natureza humana de forma visível e paupável; e, assim, quanto ao tomar a natureza humana, e se tornar visível e paupável não foi súbito, pois, fora visto em forma humana, embora, quando se encarnou tenha sido algo súbito; portanto, foi conhecido em sua natureza humana, e foi conhecido quanto ao modo, e isto de forma visível, embora tenha sido algo súbito de quando do próprio ato da Encarnação. Portanto, quanto ao modo, que refere-se diretamente ao primeiro aspecto da humilhação de Cristo, ou seja, ao ato da Encarnação, se diz que foi algo súbito.

 

<Dúbia III>

Acerca da terceira, procede-se assim: se Aquele que foi humanamente substanciado permanece oculto, mesmo após a manifestação.

E parece que não.

I. [Argumentos].

1. A Encarnação é que quando o Filho de Deus se humanara, o qual, fora conhecido verdadeiramente como homem, pois, viveu entre os homens, o que foi testemunhado por muitos e muitos (cf. Lc 1.1-4); logo, em Sua Encarnação, ao ser humanamente substanciado, não permanece oculto, mas, é plenamente conhecido; portanto, Aquele que foi humanamente substanciado não permanece oculto, mesmo após a manifestação, isto é, a Encarnação.

2. Ademais, diz o evangelista dos segredos de Deus: “porque a vida foi manifestada, e nós a vimos, e testificamos dela, e vos anunciamos a vida eterna, que estava com o Pai e nos foi manifestada” (1Jo 1.2); portanto, se foi manifestada, foi vista e foi testificada, então, foi plenamente manifesta; ora, o que é plenamente manifesto não permanece oculto; logo, Aquele que foi humanamente substanciado não permanece oculto, mesmo após a manifestação.

3. Ademais, se se diz que foi manifestado, isso, evidentemente, evoca que não permanece oculto; portanto, não permanece oculto, mesmo após a manifestação.

II. [Em Contrário].

1. Mas, em contrário, diz a Escritura: “E transfigurou-se diante deles; e o seu rosto resplandeceu como o sol, e as suas vestes se tornaram brancas como a luz” (Mt 17.2); ora, se se transfigurou, e se mostrou em Glória, então, mesmo após ter sido humanamente substanciado, permanece oculto; mesmo após a manifestação, ainda tem velado a glória de Sua deidade em Sua humanidade; portanto, permanece oculto, mesmo após a manifestação.

III. [Solução].

1. A manifestação de Cristo, em Sua Encarnação, tornou Deus conhecido aos homens; pois, Aquele foi humanamente substanciado, se tornou manifesto pelo modo como foi substanciado, isto é, como homem, nascido de mulher e sob a lei (cf. Gl 4.4); logo, foi substanciado humanamente e, por ter sido substanciado foi mostrado nesta substancia com que fora substanciado, tornando-se manifesto em carne, como diz o Apóstolo (cf. 1Tm 3.16).

2. No entanto, em sua manifestação, tornou manifesto o modo como foi substanciado, mas não Sua deidade que ficou velada em Sua substanciação humana; portanto, a um modo se tornou manifesto, em Sua humanidade; mas a outro modo permanece oculto, em Sua divindade; logo, Aquele que foi humanamente substanciado, isto é, que se tornou homem, é manifesto e visível enquanto homem; mas ao mesmo tempo Sua divindade permanece oculta em Sua humanidade; por isso, o Apóstolo diz que nEle habita corporalmente toda a plenitude da divindade (cf. Cl 1.19), isto é, que nEle, humananente substanciado, habita em seu corpo a plenitude da divindade, ou seja, enquanto homem tem a plenitude da divindade, mas esta plentitude é velada em Sua humanidade. Logo, Aquele que foi manifestado, como homem, permanece oculto em Sua divindade mesmo após a Encarnação; pois, como diz o Apóstolo, “sendo em forma de Deus”, enquanto homem, “não teve por usurpação o ser igual a Deus” (Fp 2.6).

IV. [Respostas aos Argumentos]

1. Quanto ao primeiro se responde que, a Encarnação tornou o Deus que se humanou conhecido; por isso, quem vê ao Verbo, vê a Deus Pai (cf. Jo 14.9b); logo, em Sua Encarnação, foi plenamente conhecido, pois, tal como diz a Escritura: “O Filho Unigênito, que está no seio do Pai, este o fez conhecer” (Jo 1.18b); portanto, o Filho, fez o Pai conhecido em Sua manifestação, isto é, em Sua Encarnação; mas, em Sua comunhão no seio da Pai, permanece oculta, já que isto compete aos mistérios divinos (cf. Jo 17.5); portanto, em Sua manifestação, isto é, em Sua Encarnação, foi manifestado, mas em Sua comunhão com o Pai e o Espírito, permanece oculto; logo, neste sentido, permanece oculto, mesmo após Sua Encarnação.

2. Quanto ao segundo se responde que em Cristo, a vida foi plenamente manifestada, já que Ele mesmo é esta vida (cf. Jo 14.6); logo, Ele veio para manifestar a vida, pois, viera como luz (cf. Jo 1.4-5), e a luz é manifesta; mas, isso diz respeito a Sua obra enquanto homem operando as coisas humanas de maneira sobre-humana, isto é, com o poder divino; logo, em Sua manifestação, isto é, em Sua Encarnação e em Sua humanidade, foi plenamente manifesto, mas permanece oculto em Sua divindade enquanto verdadeiro homem. Portanto, Aquele que foi humanamente substanciado permanece oculto, mesmo após sua manifestação, isto é, mesmo após Sua Encarnação e Sua humanidade; mas, permanece oculto enquanto homem em relação a glória inaudita de Sua deidade. Pois, em Sua humanidade, quanto ao que é humano tudo é plenamente manifesto.

3. Donde resulta clara a resposta ao terceiro argumento. 



[1] cf. Alberto Magno, Commentari In Epistolas B. Dionysii Areopagitae, epist. III, A, In: Op. Om., XIV, 878.

[2] Tomás de Aquino, De Articulis Fidei, pars I.

[3] Tomás de Aquino, Comentário a Tessalonicenses [Porto Alegre, RS: Concreta, 2015], 1ª epist., cap. 1, lect. 1, n. 10, pág. 35.

[4] cf. Alberto Magno, Op. Cit., epis. III, B, In: Op. Om., XIV, 879.

[5] Certamente, o único que investigou os temas concernente a Encarnação deste ponto de vista - salvo o engano -, foi Thomas T. Torrance, no livro “Incarnation: The Person and Life of Christ” (Illinois: IVP Academic, 2008). E, sobre as proposições de Torrance, há um excelente estudo de Tapio Luoma, “Incarnation and Physics - Natural Science in the Theology of Thomas F. Torrance” (Oxford: Oxford University Press, 2002). E, observe-se bem, somente no séc. XX, este tema fora elucubrado, e somente no séc. XXI fora publicado um estudo adequado sobre esta compreensão a respeito da relação entre a teologia e as ciências naturais no tocante ao vir-a-ser da Encarnação, algo que já havia sido afirmado por Alberto no séc. XIII, e que já estava imbuída na proposição de Pseudo-Dionísio no séc. VI, como se mostra na epístola III. A proposição de Torrance é singularíssima; não se sabe se Torrance tinha o conhecimento desta proposição de Alberto Magno - provavelmente não -, mas no âmbito da ciência teológica, demonstram certa complementariedade, já que a proposição de Alberto não fora levada adiante adequadamente, e naquilo que a mesma infere, apenas Torrance elucubrara sobre estes aspectos, mesmo que não tenha feito tais reflexões sob a proposição de Alberto.

[6] cf. Platão, Banquete, 210e.

[7] E evoca-se aqui o termo filantropia, de modo diferente do que é comumente empregado em termos hodiernos; o termo aqui é tomado em sua mais exata acepção, e não de acordo com os preceitos iluministas e ideológicos que na contemporaneidade desfiguraram o verdadeiro sentido de filantropia.

[8] Karl Barth, Dádiva e Louvor: Ensaios de Teologia [3ª ed. São Leopoldo, RS: Sinodal/EST, 2006], pág. 389. 


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