I
Será que política e fé se relacionam? Será que pode
haver um diálogo saudável entre a fé e a política? Ou será que a política é
entregue apenas a ela mesma? Há alguma conexão entre política e teologia? Estas
são questões que miram aos cristãos à medida que se tem épocas de eleição, e
sempre que se pensa em questões cívicas e questões sociais
Muitos cristãos se esquivam afirmando que política não
se discute, ou que preferências políticas não são discutíveis. Mas esta
questão, do que não se discute e coisas similares, é matéria de extrema
importância, pois não existe nenhum assunto humano que não deva passar pelo
crivo do escrutínio racional.
Não se pode é claro fazer-se uma ditadura da opinião;
nenhum homem pode arrolar para si ser senhor da consciência de outrem, o que é
um erro grave, além de pecado mortal. Mas também o cristão não pode se deixar
dominar pela ditadura do relativismo, pois este relativismo segundo Ratzinger,
“nada reconhece como definitivo e que deixa como última medida apenas o
próprio eu e suas vontades”.
Os cristãos não podem se entregar ao relativismo
presente na política. E nem deixar com que as teorias políticas com viés
marxista e comunista, ou com viés sionista, tomem conta da realidade social de
uma nação; o que infelizmente ocorre no Brasil por mais de sessenta anos (com a
Igreja em silêncio: ou por omissão, ou por ignorância).
Mas por que os cristãos não podem aceitar o comunismo?
Simples, porque os princípios e doutrinas do comunismo são especificamente
evocados para destruir a realidade, destruir a família e destruir o
cristianismo.
Num documento do congresso do partido comunista de
1924, se estabelece a seguinte práxis: “Nenhuma revolução será possível
enquanto existir a família e o espírito da mesma. A família é instituição
burguesa inventada pela igreja, é necessária destruí-la”[1].
O manifesto do partido comunista (1848) fala sobre o
ideal do comunismo; um ideal totalmente anti-cristão; Marx e Engels dizem: “...
o comunismo abole as verdades eternas, abole a religião e a moral...”[2].
Mas então surge uma pergunta: o que fazer?
Bento XVI lançou um livro intitulado “Liberale La
Libertá: Fede e Politica nel Terzo Millennio” (Liberar a Liberdade: Fé e
Política no Terceiro Milênio), no qual, propõe uma política iluminada pelos
valores da fé. E nesta presente reflexão, este será o caminho a ser seguido.
Ou seja, formular racionalmente os argumentos
necessários para estabelecer o ajuizamento de uma política que não está
entregue a si mesma, mas que é iluminada pelos valores da fé.
II
O que é política? Política é um tema tratado destes os
tempos primeiros da raça humana; Aristóteles diz, que “... a cidade (polis)
encontra-se entre as realidades que existem naturalmente, e o homem é por
natureza um animal político”.
Ou seja, a política ocorre, porque há duas
necessidades básica do homem: primeiro, viver em sociedade; segundo, se
organizar em sociedade. A relação política/fé tem um ponto de encontro que
tange a sociedade como um todo.
Os cristãos precisam lembrar de que, a respeito da
vida cristã, deve-se olhar para as coisas sob duas óticas, a do alto e a de
baixo, respectivamente, a de Deus e da relação com os homens, as quais,
precisa-se conhecer bem, para entender o real propósito da existência neste
mundo. Por isso, a compreensão do cristão sobre a política deve estar aplicada
a ética bíblica.
Para compreender corretamente este aspecto,
elencar-se-á uma célebre definição dada por Santo Agostinho, a qual traz um
precioso ajuizamento para o cristão entender que é cidadão deste mundo, mas
também é herdeiro do reino de Deus. Santo Agostinho diz: “Dividi a
humanidade em dois grandes grupos: um dos que vivem segundo o homem; o outro, o
daqueles que vivem segundo Deus. Misticamente, damos aos dois grupos o nome de
cidades, que é o mesmo que dizer sociedade dos homens”[3].
A subdivisão conceitual que Santo Agostinho faz
consiste em enumerar duas sociedades nas quais o cristão está inserido: na
terrena, sob o governo dos homens; e na celestial, sob o governo de Deus.
Com isso, para melhor compreender esta definição
agostiniana, elencar-se-á três perguntas básicas, que se coadunam com esta
definição, as quais são: como pensar a política segundo a bíblia? Porque
precisa-se de política? Como o cristão deve lidar com a política?
III
1. A primeira pergunta é: como pensar política segundo
a bíblia? Dois pontos são elencados:
Primeiro: Deus governa todos os aspectos da vida
humana, inclusive a política. O texto sagrado diz: “E ele muda os tempos e
as estações; ele remove e estabelece reis; ele dá sabedoria aos sábios e
conhecimento aos entendidos” (Dn 2.21). E o Apóstolo diz: “Toda a alma
esteja sujeita às potestades superiores; porque não há potestade que não venha
de Deus; e as potestades que há foram ordenadas por Deus” (Rm 13.1).
Segundo: é Deus quem levanta homens que o glorifiquem
na política, como por exemplo, José do Egito, Neemias e Daniel.
2. A segunda pergunta é: porque precisamos de
política? Dois pontos são elencados:
Primeiro: porque os mais variados aspectos da vida
sócio-política precisam ser mantidos dentro de limites. Limites da ordem e da
decência.
Segundo: porque é um meio de transmitir o evangelho
quando há justiça e prudência. O texto bíblico declara: “Quando os justos
exaltam, grande é a glória; mas quando os ímpios sobem, os homens se escondem”
(Pv 28.12).
3. A terceira pergunta: como o cristão deve lidar com
a política? Cinco pontos são elencados:
Primeiro: o governo da terra Deus deu aos filhos dos
homens; está escrito: “Os céus são os céus do SENHOR; mas a terra a deus aos
filhos dos homens” (Sl 115.16). Logo, para o governo das coisas humanas,
Deus outorgou tal responsabilidade aos homens; embora permaneça soberano sobre
tudo e sobre todos, Ele outorgou esta responsabilidade e esfera de soberania
para os seres humanos.
Segundo: submissão. Diz o texto bíblico: “Sujeitai-vos,
pois, a toda ordenação humana por amor do Senhor; quer ao rei, como superior;
quer aos governantes, como por ele enviados para castigo dos malfeitores, e
para louvor dos que fazem o bem” (1Pe 2.13-14).
Terceiro: com intercessão. O Apóstolo aconselha: “Admoesto-te,
pois, antes de tudo, que se façam deprecações, orações, intercessões, e ações
de graças, por todos os homens; pelos reis, e por todos os que estão em
eminência, para que tenhamos uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e
honestidade; porque isto é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador”
(1Tm 2.1-3).
Quarto: com envolvimento sóbrio e racional. O Apóstolo
diz: “Portanto, dai a cada um o que deveis: a quem tributo, tributo; a quem
imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra” (Rm 13.7).
Quinto: com limites. Está escrito: “Mais importa
obedecer a Deus do que aos homens” (At 5.29b).
Com estes princípios, se evoca os pressupostos básicos
de como o cristão deve lidar com a política.
IV
Assim, chega-se a uma questão: pode o cristão ser um
governante público? É claro que sim, desde que tenha vocação à vida pública,
que tenha um caráter honesto, que seja um bom homem, de boa índole, que seja
casado (caso não, pelo menos seja honrado e casto), bom marido e bom pai. O
governante cristão deve ter em mente que seu relacionamento é hexadimensional,
ou seja, é um relacionamento em seis esferas diversas.
Primeiro: em relação a Deus deve ter confiança sincera
e dirigir-se a Ele em oração; e deve saber que a soberania de qualquer
governante terreno nunca se compara a soberania absoluta de Deus.
Segundo: em relação aos súditos (ao povo), deve agir
com amor e serviço cristão; um governante o é para servir. E a honra e o valor
de um governante está em sua disposição para servir para o bem do povo.
Terceiro: em relação aos conselheiros e aqueles que
têm plenos poderes (outros magistrados e governantes), deve-se manter livre nas
decisões e independente nas análises, além de ser fiel aos seus princípios e
valores cristãos, e íntegro e correto diante da Lei.
Quarto: em relação aos criminosos, deve mostrar
seriedade e rigor de acordo com a lei.
Quinto: com as ideologias profanas e nefastas, deve
ser impoluto e resistente, mantendo os bons princípios e os bons costumes
conservados de acordo com os valores cristãos, bem como lutar para que estas
ideologias não subvertam a ordem social.
Sexto: deve parar para ouvir e aprender com filósofos
e estudiosos (até mesmo se for um; oxalá que o seja!), que em suas análises
demonstram ser honrados e pertinentes ao bem da nação e dos valores cristãos.
V
Com toda esperança, e com toda a fé, sabe-se que a
sociedade não está entregue a si mesma e aos déspotas. O mundo jaz no maligno,
como diz o apóstolo João (cf. 1Jo 5.19); no entanto, não é por isso que o
cristão não deva ter influência neste mundo; pelo contrário, é justamente por
isso que o cristão deve pregar e demonstrar os valores do reino de Deus, para o
bem de todas as pessoas de bem. Isto é o ardor cívico do político cristão, com
toda a consciência e racionalidade, bem com temor para com o Senhor e dignidade
perante o povo.
Por isso, Karl Barth dissera: “Esperançosa e
pensativa nos mira essa questão: o cristão na sociedade. O cristão na
sociedade! Quer dizer que a sociedade não está, então, entregue apenas a si
mesma [...] A catástrofe (1° guerra mundial), e dentro da qual ainda nos
encontramos, não levou a todos, mas muitos a um esclarecimento e abalo
profundos. Porventura, não é assim que de preferência nos retiraríamos da
sociedade, profundamente céticos e desaminados da vida? Mas retirar-se para
onde? Retirar-se da vida, da sociedade não é possível. A vida nos envolve por
todos os lados; ele nos coloca diante de perguntas, exige decisões. E nós temos
que resistir...”[4].
Esta resistência diante das questões da vida,
principalmente diante de questões sociais e de questões políticas, é o modo de
ação que deve influenciar os cristãos a demonstrarem os princípios bíblicos e
agirem de acordo com o ensino do Senhor Jesus, rejeitando as ideologias
nefastas e propagando preceitos e princípios em prol do bem comum e da
preservação da vida e dos direitos inalienáveis da pessoa humana.
Nestes aspectos, pois, estão delineados alguns
aspectos da relação entre o cristão e a política.
Deo Gratias!
[1] In: Manuel
Vieira, O Intelectual Cristão [1° edição. São Paulo: Paulinas, 1966],
pág. 105.
[2] Karl Marx e Friedrich Engels, Manifesto do Partido Comunista [Porto Alegre, RS:
L&PM, 2001], pág. 58.
[3] Santo Agostinho,
A Cidade de Deus Parte II: Contra os Pagãos [1° edição. Petrópolis, RJ:
Vozes; São Paulo: Federação Agostiniana Brasileira; Bragança Paulista, SP:
Editora Universitária São Francisco, 2012], pág. 207.
[4] Karl Barth,
Dádiva e Louvor: Ensaios Selecionados [3° edição. São Leopoldo, RS:
Sinodal/EST, 2006], pág. 19.
Nenhum comentário:
Postar um comentário