18/10/2018

O Cristão e a Política: Reflexão Prolegomenar

I

 

Será que política e fé se relacionam? Será que pode haver um diálogo saudável entre a fé e a política? Ou será que a política é entregue apenas a ela mesma? Há alguma conexão entre política e teologia? Estas são questões que miram aos cristãos à medida que se tem épocas de eleição, e sempre que se pensa em questões cívicas e questões sociais  

Muitos cristãos se esquivam afirmando que política não se discute, ou que preferências políticas não são discutíveis. Mas esta questão, do que não se discute e coisas similares, é matéria de extrema importância, pois não existe nenhum assunto humano que não deva passar pelo crivo do escrutínio racional.

Não se pode é claro fazer-se uma ditadura da opinião; nenhum homem pode arrolar para si ser senhor da consciência de outrem, o que é um erro grave, além de pecado mortal. Mas também o cristão não pode se deixar dominar pela ditadura do relativismo, pois este relativismo segundo Ratzinger, “nada reconhece como definitivo e que deixa como última medida apenas o próprio eu e suas vontades”.

Os cristãos não podem se entregar ao relativismo presente na política. E nem deixar com que as teorias políticas com viés marxista e comunista, ou com viés sionista, tomem conta da realidade social de uma nação; o que infelizmente ocorre no Brasil por mais de sessenta anos (com a Igreja em silêncio: ou por omissão, ou por ignorância).

Mas por que os cristãos não podem aceitar o comunismo? Simples, porque os princípios e doutrinas do comunismo são especificamente evocados para destruir a realidade, destruir a família e destruir o cristianismo.

Num documento do congresso do partido comunista de 1924, se estabelece a seguinte práxis: “Nenhuma revolução será possível enquanto existir a família e o espírito da mesma. A família é instituição burguesa inventada pela igreja, é necessária destruí-la[1].

O manifesto do partido comunista (1848) fala sobre o ideal do comunismo; um ideal totalmente anti-cristão; Marx e Engels dizem: “... o comunismo abole as verdades eternas, abole a religião e a moral...[2].

Mas então surge uma pergunta: o que fazer?

Bento XVI lançou um livro intitulado “Liberale La Libertá: Fede e Politica nel Terzo Millennio” (Liberar a Liberdade: Fé e Política no Terceiro Milênio), no qual, propõe uma política iluminada pelos valores da fé. E nesta presente reflexão, este será o caminho a ser seguido.  

Ou seja, formular racionalmente os argumentos necessários para estabelecer o ajuizamento de uma política que não está entregue a si mesma, mas que é iluminada pelos valores da fé. 

 

II

 

O que é política? Política é um tema tratado destes os tempos primeiros da raça humana; Aristóteles diz, que “... a cidade (polis) encontra-se entre as realidades que existem naturalmente, e o homem é por natureza um animal político”.

Ou seja, a política ocorre, porque há duas necessidades básica do homem: primeiro, viver em sociedade; segundo, se organizar em sociedade. A relação política/fé tem um ponto de encontro que tange a sociedade como um todo.

Os cristãos precisam lembrar de que, a respeito da vida cristã, deve-se olhar para as coisas sob duas óticas, a do alto e a de baixo, respectivamente, a de Deus e da relação com os homens, as quais, precisa-se conhecer bem, para entender o real propósito da existência neste mundo. Por isso, a compreensão do cristão sobre a política deve estar aplicada a ética bíblica.

Para compreender corretamente este aspecto, elencar-se-á uma célebre definição dada por Santo Agostinho, a qual traz um precioso ajuizamento para o cristão entender que é cidadão deste mundo, mas também é herdeiro do reino de Deus. Santo Agostinho diz: “Dividi a humanidade em dois grandes grupos: um dos que vivem segundo o homem; o outro, o daqueles que vivem segundo Deus. Misticamente, damos aos dois grupos o nome de cidades, que é o mesmo que dizer sociedade dos homens[3].

A subdivisão conceitual que Santo Agostinho faz consiste em enumerar duas sociedades nas quais o cristão está inserido: na terrena, sob o governo dos homens; e na celestial, sob o governo de Deus.

Com isso, para melhor compreender esta definição agostiniana, elencar-se-á três perguntas básicas, que se coadunam com esta definição, as quais são: como pensar a política segundo a bíblia? Porque precisa-se de política? Como o cristão deve lidar com a política?

 

III

 

1. A primeira pergunta é: como pensar política segundo a bíblia? Dois pontos são elencados:

Primeiro: Deus governa todos os aspectos da vida humana, inclusive a política. O texto sagrado diz: “E ele muda os tempos e as estações; ele remove e estabelece reis; ele dá sabedoria aos sábios e conhecimento aos entendidos” (Dn 2.21). E o Apóstolo diz: “Toda a alma esteja sujeita às potestades superiores; porque não há potestade que não venha de Deus; e as potestades que há foram ordenadas por Deus” (Rm 13.1).

Segundo: é Deus quem levanta homens que o glorifiquem na política, como por exemplo, José do Egito, Neemias e Daniel.

2. A segunda pergunta é: porque precisamos de política? Dois pontos são elencados:

Primeiro: porque os mais variados aspectos da vida sócio-política precisam ser mantidos dentro de limites. Limites da ordem e da decência.

Segundo: porque é um meio de transmitir o evangelho quando há justiça e prudência. O texto bíblico declara: “Quando os justos exaltam, grande é a glória; mas quando os ímpios sobem, os homens se escondem” (Pv 28.12).

3. A terceira pergunta: como o cristão deve lidar com a política? Cinco pontos são elencados:

Primeiro: o governo da terra Deus deu aos filhos dos homens; está escrito: “Os céus são os céus do SENHOR; mas a terra a deus aos filhos dos homens” (Sl 115.16). Logo, para o governo das coisas humanas, Deus outorgou tal responsabilidade aos homens; embora permaneça soberano sobre tudo e sobre todos, Ele outorgou esta responsabilidade e esfera de soberania para os seres humanos.

Segundo: submissão. Diz o texto bíblico: “Sujeitai-vos, pois, a toda ordenação humana por amor do Senhor; quer ao rei, como superior; quer aos governantes, como por ele enviados para castigo dos malfeitores, e para louvor dos que fazem o bem” (1Pe 2.13-14). 

Terceiro: com intercessão. O Apóstolo aconselha: “Admoesto-te, pois, antes de tudo, que se façam deprecações, orações, intercessões, e ações de graças, por todos os homens; pelos reis, e por todos os que estão em eminência, para que tenhamos uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honestidade; porque isto é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador” (1Tm 2.1-3).

Quarto: com envolvimento sóbrio e racional. O Apóstolo diz: “Portanto, dai a cada um o que deveis: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra” (Rm 13.7). 

Quinto: com limites. Está escrito: “Mais importa obedecer a Deus do que aos homens” (At 5.29b).

Com estes princípios, se evoca os pressupostos básicos de como o cristão deve lidar com a política.

 

IV

 

Assim, chega-se a uma questão: pode o cristão ser um governante público? É claro que sim, desde que tenha vocação à vida pública, que tenha um caráter honesto, que seja um bom homem, de boa índole, que seja casado (caso não, pelo menos seja honrado e casto), bom marido e bom pai. O governante cristão deve ter em mente que seu relacionamento é hexadimensional, ou seja, é um relacionamento em seis esferas diversas.

Primeiro: em relação a Deus deve ter confiança sincera e dirigir-se a Ele em oração; e deve saber que a soberania de qualquer governante terreno nunca se compara a soberania absoluta de Deus.

Segundo: em relação aos súditos (ao povo), deve agir com amor e serviço cristão; um governante o é para servir. E a honra e o valor de um governante está em sua disposição para servir para o bem do povo.

Terceiro: em relação aos conselheiros e aqueles que têm plenos poderes (outros magistrados e governantes), deve-se manter livre nas decisões e independente nas análises, além de ser fiel aos seus princípios e valores cristãos, e íntegro e correto diante da Lei.

Quarto: em relação aos criminosos, deve mostrar seriedade e rigor de acordo com a lei.

Quinto: com as ideologias profanas e nefastas, deve ser impoluto e resistente, mantendo os bons princípios e os bons costumes conservados de acordo com os valores cristãos, bem como lutar para que estas ideologias não subvertam a ordem social.

Sexto: deve parar para ouvir e aprender com filósofos e estudiosos (até mesmo se for um; oxalá que o seja!), que em suas análises demonstram ser honrados e pertinentes ao bem da nação e dos valores cristãos.

 

V

 

Com toda esperança, e com toda a fé, sabe-se que a sociedade não está entregue a si mesma e aos déspotas. O mundo jaz no maligno, como diz o apóstolo João (cf. 1Jo 5.19); no entanto, não é por isso que o cristão não deva ter influência neste mundo; pelo contrário, é justamente por isso que o cristão deve pregar e demonstrar os valores do reino de Deus, para o bem de todas as pessoas de bem. Isto é o ardor cívico do político cristão, com toda a consciência e racionalidade, bem com temor para com o Senhor e dignidade perante o povo.

Por isso, Karl Barth dissera: “Esperançosa e pensativa nos mira essa questão: o cristão na sociedade. O cristão na sociedade! Quer dizer que a sociedade não está, então, entregue apenas a si mesma [...] A catástrofe (1° guerra mundial), e dentro da qual ainda nos encontramos, não levou a todos, mas muitos a um esclarecimento e abalo profundos. Porventura, não é assim que de preferência nos retiraríamos da sociedade, profundamente céticos e desaminados da vida? Mas retirar-se para onde? Retirar-se da vida, da sociedade não é possível. A vida nos envolve por todos os lados; ele nos coloca diante de perguntas, exige decisões. E nós temos que resistir...[4].

Esta resistência diante das questões da vida, principalmente diante de questões sociais e de questões políticas, é o modo de ação que deve influenciar os cristãos a demonstrarem os princípios bíblicos e agirem de acordo com o ensino do Senhor Jesus, rejeitando as ideologias nefastas e propagando preceitos e princípios em prol do bem comum e da preservação da vida e dos direitos inalienáveis da pessoa humana.

Nestes aspectos, pois, estão delineados alguns aspectos da relação entre o cristão e a política.

Deo Gratias!



[1] In: Manuel Vieira, O Intelectual Cristão [1° edição. São Paulo: Paulinas, 1966], pág. 105.

[2] Karl Marx e Friedrich Engels, Manifesto do Partido Comunista [Porto Alegre, RS: L&PM, 2001], pág. 58.

[3] Santo Agostinho, A Cidade de Deus Parte II: Contra os Pagãos [1° edição. Petrópolis, RJ: Vozes; São Paulo: Federação Agostiniana Brasileira; Bragança Paulista, SP: Editora Universitária São Francisco, 2012], pág. 207.

[4] Karl Barth, Dádiva e Louvor: Ensaios Selecionados [3° edição. São Leopoldo, RS: Sinodal/EST, 2006], pág. 19. 


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