I
O bispo de Hipona intelectualmente é fruto da simbiose
entre filosofia platônica e filosofia aristotélica; no entanto, Santo Agostinho
é platônico, mais especificamente do neoplatonismo origenista; Agostinho leu os
platônicos, leu as Categorias de Aristóteles, porém sua iluminação maior
vem das fontes eternas do Salvador, a beleza tão antiga e tão nova, atestada
pela Sagrada Escritura como o próprio Agostinho assevera. Dentre as
peregrinações intelectuais e espirituais de Agostinho, ele encontrou-se a
medida que entendeu o que é realmente a fé. Ele mesmo confessa: “Só a fé
podia curar-me: desse modo, os olhos de minha inteligência já purificada, se
dirigiram à tua verdade imutável e perfeita” (Conf., VI, 6).
II
A questão da revelação, particularmente do
conhecimento revelacional, se deu progressivamente, assim como o conhecimento
natural; a revelação se deu por meios e modos diferentes, do mesmo modo como
ocorre com o conhecimento natural; a diferença é que na revelação a
progressividade sempre conduz ao próximo momento, até o fechamento do cânon; no
conhecimento natural, há sempre novas descobertas, uma se fundamentando na outra
e a superando, e assim por diante. Com isso, no conhecimento revelado há de se
ter um ponto nevrálgico, que não advém propriamente do interprete humano da
revelação, mas sim da interpretação da própria revelação, pois no conhecimento
natural, o interprete da natureza não o faz de si mesmo, mas a partir de
conhecimentos já existentes: do mesmo modo ocorre com a revelação, a
interpretação humana é embasada em outras interpretações que já foram feitas. Por
isso, a partir do conhecimento revelado surgem dogmas e doutrinas, mas a
formulação de dogmas e doutrinas só se estabelecem quando estes são encarnados
na existência pessoal de fé, senão estas formulações levam as pessoas a serem
legalistas e/ou subjetivistas.
III
Santo Tomás dizia que a doutrina sagrada era superior
as demais ciências, tanto as especulativas quanto as práticas; em relação as
especulativas, pois trata de um conhecimento superior; em relação as práticas,
pois trata de melhor forma de viver. Quanto a isso, consulte STh Ia, q. 1, a. 5.
IV
A tendência desconstrutivista da cultura pós-moderna,
de dizer que tudo o que tem padrões absolutos é anacrônico e/ou obsoleto em
relação ao progresso, é uma atitude crente; pois, todo ato cultural é um ato de
fé; seja a fé em alguém, em algum ideal, ou até mesmo a negação da fé – tudo
isto é ato crente. Sendo assim, um ato cultural que não possui valores
absolutos legará à sociedade a desintegração da ordem social. Ora, em relação
isso, há um referencial interessante num dos “cavaleiros do Apocalipse”,
a saber, Nietzsche, o qual afirmara que o que homem da ciência (o homem do
futuro, até mesmo o super-homem) é desconhecido dele mesmo, e não sem razão,
pois põe o coração em si mesmo, e desta forma acaba por se perder; por isso,
Nietzsche ao descrever cirurgicamente isso, ainda evoca as palavras de Cristo:
“porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração”.
Nietzsche evoca as palavras de Cristo para corroborar e demonstrar a perca do
homem moderno em si mesmo. Em suma, isto é o desconstrutivismo pós-moderno.
V
Ora, diante da “paródia e da pastiche” da maior
parte dos filósofos contemporâneos, se faz necessário voltar as metanarrativas.
Pois, as metanarrativas são realistas e legam valores. Na verdade, assim como
Sócrates fizera na Grécia Antiga com os sofistas, se faz necessário fazer em
tempos hodiernos, a fim de resgatar as expressões da alta-cultura a partir das
metanarrativas, as quais são imprescindíveis neste resgate.
VI
O ser do homem como um todo enfrenta uma tensão, ou
dialética, ou nos termos da teologia joanina, o “já e o ainda não”, pois
se relaciona com o tempo e com a eternidade, e no tempo enfrenta a contingência
e a finitude da condição humana. Por isso, as escuridades que rondam a
existência humana, das catástrofes a roda da fortuna, se sabe que as nuvens
escuras da vida trazem após si um arco-íris, e depois da tempestade sempre vem
a bonança. Esta simples analogia demonstra um modo de se enfrentar as tensões
inerentes a vida humana.
VII
O homem, as mais das vezes, está sendo reduzido a
apenas alguns aspectos de sua natureza; o ser humano não é apenas isso ou
aquilo, o ser humano é uma totalidade; e as perspectivas antropológicas
reducionistas se tornam um grande mal na educação, pois se não se valoriza a
multiplicidade das dimensões da natureza humana, tão necessárias para a
realização da pessoa em sua dignidade, então se cria uma cultura de rejeição ao
que é humano e de aceitação do que é anti-humano.
VIII
O amor é o atavio desta vida. Por isso, no amor e no
respeito mútuo, o homem cresce em esperança e experiência. Carlos Drummond de
Andrade afirma que “o amor foge a dicionários e a regulamentos vários”,
ou seja, o amor foge a definições ou pré-conceitos, pois o amor é abertura para
compreender o outro, para realidades novas, para a multiplicidade das coisas
não-compreendidas.
IX
O homem pode ser muitas coisas. Esta simplória
sentença estabelece o homem no seu lugar adequado, livre dos reducionismos, os
quais só servem para dividi-lo em sua natureza e essência. A posição do homem
no cosmos é singular, pois sua natureza é multifacetada; a verdadeira
valorização da dignidade humana tem por parâmetro inegável a valoração do todo
da natureza humana.
X
A existência encarnada na história, produzindo sentido
na existência, leva o homem a se perguntar sobre si, sobre porque ele é o que
é, etc.; Gabriel Marcel chega a compreensão sobre o ser neste sentido, sendo a
afirmação “eu existo” a confirmação de sentido, pois atesta a presença
do eu no mundo; da mesma maneira, poder-se-á chegar a definição de Heidegger do
“homem como pastor do ser”. Esta existência que tem um sentido que se
abre para a eternidade é a “razão do coração” em Pascal, ou seja, uma
razão com alcance metafísico. Assim, a compreensão do homem sobre si se volta
para além de si, para o transcendente, para uma busca superior, para a
felicidade, tal como dissera Santo Agostinho: “quando te procuro ó meu Deus,
procuro a felicidade da vida. Procurar-te-ei, para que minha alma viva. O meu
corpo, com efeito, vive da minha alma, e a alma vive de ti” (Conf.,
XX, 20).
XI
O pressuposto da beleza se relacionar com o bem, pode
gerar sim uma espécie de estufa moralista; isto acontece quando a arte se torna
engajada no sentido ideológico, e não se deixa mais levar pelo ideal do belo, o
que faz com que a arte transtorne seu elemento primordial, a saber, expressão
racional de um sentimento, de uma realidade percebida em algum momento, da
exposição de uma verdade, em elementos estéticos. Por isso, na via estética, ao
se relacionar com a via do bem, há o assentimento para a moral, e não para o
falso padrão de correção ético-moral. Assim, quando há arte engajada tem-se um
falso padrão de correção ético-moral, que nada tem de moralidade, antes é algo próprio
dos imoralistas; no entanto, quando há arte pelo ideal do belo há participação
ético-moral.
XII
A filosofia moderna tem algumas contribuições muito
úteis para a filosofia; e é certo se afirma que a filosofia moderna rompeu com
alguns problemas da baixa-escolástica, os quais não são fruto do pensamento
medieval, mas da corrupção através da feitiçaria; no entanto, a filosofia
moderna não é proveniente das trevas medievais: pois não é possível que um
período de tanto significado para a filosofia, a ciência, a teologia, a
literatura, a arquitetura, as artes, etc., tal como fora a Idade Média, seja
algo tido como idade das trevas; de fato, a Idade Média não é idade das trevas.
A chamada idade das trevas legou ao mundo um período de luz, e a chamada idade
das luzes legou ao mundo um período de densas trevas. A filosofia moderna é uma
confirmação cabal desta asseveração. De fato, os homens modernos estão sob as
trevas de homens que se dizem “iluminados” (os iluministas).
***
E termina aqui este escrito. Laudate Deo!