09/10/2019

Notas sobre Filosofia Aplicada

I

 

O controle de emoções é uma questão essencial da filosofia aplicada. Daí a importância da tradição sapencial estoica, que lida com os problemas concretos da vida humana. Por isso, a reflexão para o alcance de uma vida virtuosa desenvolve-se em um caminho para melhorar a existência. Sêneca diz que é “parte da cura o desejo de ser curado”. Na construção de uma vida virtuosa, Boécio ensina que a mesma não é “alcançada pelas coisas exteriores, mas sim no seguimento da Razão Universal que a tudo governa”. Por isso, quando o homem entende que precisa dominar a si mesmo, ele está se exercitando na pratica desta virtude, e assim, contribuindo para seu próprio bem, bem como na construção do bem social. Com efeito, o homem deve saber que foi criado para viver acima de seus prazeres, tal como Sêneca ensinara: “Maior sou e para maiores coisas nasci do que para ser escravo da minha carne”.

 

II

 

O conhecimento não pode apenas ser teórico, abstrato, mas também deve ser concreto, pois deve ser um conhecimento que nos liga com o logos na realidade. Por isso, é de singular importância aplicar as grandes virtudes deste conhecimento à vida diária. E compreender o valor destas virtudes para o ser humano, que de certa forma estão ligadas com a própria dignidade do ser humano, consiste, nas palavras de São João Crisóstomo, “no conhecimento exato da verdadeira doutrina e na retidão da vida”. O alcance destas virtudes em suas quatro dimensões (lógica, física, metafísica e ética), conduz para o caminho da vida feliz de forma harmoniosa.

 

III

 

A filosofia aplicada em sua estrutura primeira é o encontro com a vida prática, com a prudência. Sêneca diz que “o autêntico esoico manifesta sua filosofia em sua vida”. A filosofia aplicada com esta realidade se encontra de forma concêntrica com o Filósofo em sua “Ética a Nicomaco”. O Filósofo trabalha com um dos pontos nos quais a antropologia estoica se concentra: a ética, o saber viver bem. Aristóteles trabalha com o caminho do meio termo, o caminho do equilíbrio, da justa medida, e com isso percebe-se que a ética aristotélica se baseia na virtude. Virtude que se dá no encontro com a vida, com sua prática na vida desembocando na liberdade para viver. E Aristóteles se utiliza de dois termos para definir este caminho: práxis e poiêsis. A práxis se refere a prática, uma ação feita de acordo com ela mesma; já a poiêsis é uma ação de visa um produto. A práxis se alinha com uma atitude que é boa em si mesma; já a poiêsis se dá com o produzir, ou seja, produzimos para obtermos um produto.

No entanto, esta distinção entre práxis e poiêsis encontra paralelo nas estruturas que se encalçam a elas, ou seja, os movimentos. Desta forma, Aristóteles distingue dois termos necessários a classe desta variável. Tanto a prática com algo bom para todos os homens, quanto o produzir com um fim em vista, são tratados em relação com uma atividade completam em sua própria ação (energeia) e um processo que só é completo quando atinge seu final (kinesis). Estes dois movimentos se encontram ligados, em seu inicio e final, respectivamente, com a filosofia aplicada. Se o objetivo da filosofia aplicada está em chegar à virtude prática através de exercícios, físicos, éticos e lógicos, a estrutura que integra este tripé está baseada, eticamente, primeiro numa atitude completa em si (energeia), ou seja, em algo que se dá como uma atividade completa em si mesa por parte daquele que a emprega; ou seja, a prática da virtude, da prudência, da sabedoria prática. O emprego da energeia enquanto uma atividade se mostra revelador no “treinamento” para o alcance desta virtude. O êxito desta virtude está em cumprir os princípios de seu agir em si mesmo como movimento dentro da práxis. Diante disso, sempre haverá energeia na filosofia aplicada, pois é uma ação imediatamente completa em si mesma, quando empregada, principalmente com relação à sabedoria prática que visa o bem comum.

Além disso, esta atividade, em relação ao todo, se mostra buscando um fim na filosofia aplicada, a Razão Universal, sendo que para ele ocorre um kinesis, um processo. Este processo é sempre um ato incompleto em seu inicio, pois trabalha com os meios, as mais das vezes com a energeia, para o fim completo, podendo chegar até mesmo a poiêsis. Por isso, diante da realidade da sabedoria prática proposta por Aristóteles a energeia enquanto o princípio da atividade completa em si quando executada está num kinesis, a fim de se chegar ao final da maratona de treinamento das potencias morais e éticas. Assim, se chega a uma diatribe estoica como estilo de vida, tratada por Aristóteles como a virtude condicional e necessária a todas as outras. Com isso, tem-se uma estreita relação entre atividade e ação (energeia) e entre movimento e processo (kinesis), tanto que se tornam correlatos ao conceito de ação e potência.

Portanto, na filosofia aplicada ocorre o encontro destas duas realidades, primeiro com uma atitude individual para melhoria, uma ação (energeia) que é completa em si quando ocorre; mas ao mesmo tempo, ocorre um processo através de movimentos (kinesis), para que se chegue também a um fim produtivo (poiêsis), sendo este fim produtivo influenciado inicialmente pela pura prática e virtude (práxis).

Por fim, este equilíbrio pode ser um caminho para a filosofia aplicada, sendo que, na pura prática da virtude, bem como neste fim proveitoso, há um logos spermatikós, ou seja, uma semente inata da Razão Universal que a atua no universo e na razão de cada ser humano.

 

IV

 

A estruturação de um modo de vida virtuoso, como na diatribe estoica, que visa o treinamento na sabedoria (Aristóteles), quando pensada no âmbito da formação filosófica como parte da vida, ou seja, como vivencia do filósofo, leva a realidade da filosofia como aplicação na vida diária. De fato, assim é com aquele que ensina filosofia, vive-a, respira-a, pensa-a dia e noite, pois somente assim a filosofia transformar-se-á em filosofia concreta. Para isto, é necessário a análise do termo phármakon, que introduz novas perspectivas neste analise à caminho da filosofia aplicada.

Primeiro, para Derrida não há unicidade no phármakon; portanto, ele é dialético.

Segundo, se é dialético, logo, não tem um centro comum, natural.

Terceiro, se não há um centro comum, como então, alcançar-se-á à filosofia aplicada? Como então, o filosofo terá a solução para a concretude de sua filosofia?

É justamente estas questões que levam ao real entendimento da filosofia como uma realidade sempre a caminho, como um novo horizonte a se buscar, um novo conhecimento se construir, como uma nova possibilidade de se argumentar. Isto é evidente justamente nas atitudes tomadas por Sócrates, onde este mesmo se sente atraído para ouvir alguém que proclama ter um novo saber; este saber torna-se phármakon (droga), pois o leva à loucura. Desta forma, Sócrates é embebecido pelo sentimento exposto por este novo saber, e então é atingido pelo phármakon (feitiço), de não querer mais ouvir o que está sendo dito, pois o está levando a loucura; diante disso, o próprio Sócrates procura um lugar para ouvir o que os outros dizem saber sobre o que lhe é mais próprio: o amor, um saber de relação. Com esta realidade, o próprio Sócrates experimente a dialética do phármakon, um saber que quando desejado leva a loucura (enfeitiça), mas em contrapartida, o incita a ir ao terreno comum do amor, ao saber conjunto, para chegar a compreensão de como o filósofo, o amante do saber, deve começar sua busca: como um desejo, com um saber e um caminho a ser percorrido.

Este tripé na compreensão do phármakon pode ser um caminho para a filosofia aplicada. O amor ao saber, ou a paixão pelo saber, é um impulso interno; já o saber é o objeto deste amor, como o alvo a ser alcançado; e o caminho a percorrer, é saber que ambos, amor e saber, ou basicamente, o amor pelo saber, é trilhado de forma una e múltipla, assim como o conceito de phármakon; desta forma, na dialética presente na compreensão do termo, verifica-se uma forma de compreender qual o verdadeiro elemento da filosofia aplicada; ou seja, sempre a busca, o sempre a caminho de um novo saber, amando este caminho (com a máxima: desejo saber o caminho a percorrer), e sempre o deixando de amar, para então poder amá-lo novamente.

Assim, demonstra-se uma diatribe da filosofia aplicada, como verdadeira filosofia concreta. Pois ela se dá também nos processos dialéticos do entendimento humano. Este processo se iguala ao da filosofia como phármakon. Por exemplo, uma semente para dar fruto precisa morrer; igualmente pode ser o caminho a percorrer pela filosofia aplicada. Primeiro, há a procura pela semente, ou o amor pelo saber; depois, há o plantio da semente, ou a manifestação deste saber com vista a um fim proveitoso e produtivo; depois desta semente ser plantada, há de esperar que nasça, mas para a semente nascer precisa morrer. E este processo de comprar a semente, plantá-la, cultivá-la a até o seu nascimento é um caminho a percorrer por quem iniciou na senda do saber. E este caminho não acaba quando a semente nasce, mas sim se torna em um novo processo e assim por diante.

Por isso, se deve tomar a filosofia como phármakon. Pois este termo apresenta a dialética da realidade humana tanto quanto da inteligência. Desta forma, sabe-se que para aprender tem de se ter realidade empíricas, mas a experiencia não é somente esta; há também a inteligência que regula racionalmente as nossas atividades, corrigi-as, melhora-as, incita-as a alcançar bases mais sólidas. Eis o phármakon: quando é necessário corrigir e melhorar, remédio; mas quando é necessário tirar algo, droga, feitiço. Por isso a filosofia só se torna filosofia quando há o filosofar, isto é, quando há a vivencia. Só há filosofia quando há vivencia, e a vivencia é o próprio filosofar.

Portanto, filosofia aplicada só se torna aplicada quando há vivência, concretude e dialética no desejo de saber o caminho a percorrer, que quando o compreendo, preciso percorrer o caminho que não conheço e assim sucessivamente, para então estar apto a dizer: “Só sei que nada sei”; quando isso ocorre verdadeiramente, então se tem verdadeira filosofia.

 

V

 

A filosofia, como aquilo que demonstra o amor pelo saber, é um elemento de extrema importância na alma da sociedade. E o processo de educação como elemento transformador se torna algo que a todo o momento se liga com a pratica do filosofar. A educação é aquele elemento que serve para acender a inteligência, ou seja, é o estopim para uma transformação adequada no educando; da mesma forma, a educação é como a estrada bem feita que leva a algum lugar, ou que serve de ponte para se chegar a um local determinado. Assim, o processo de educação faz com que o ser humano tenha aberto diante de si a sua própria realidade primeira, que ele é um ser cultural. Do mesmo modo como a chave serve para abrir porta, a educação se põe como aquela que faz nascer um novo horizonte que estava já pronto dentro da pessoa, mas que ainda não tinha sido descoberto. Este foi um dos ideais de Sócrates e da educação na Grécia Antiga. Desta forma, a filosofia e a educação se tornam valores essenciais, ou seja, se tornam aquilo que possui uma importância única, especial. Por isso, a educação e a filosofia são valores que transformam o mundo, ou seja, fazem sempre nascer um novo mundo, uma nova possibilidade, um novo conhecimento, pois acendem a chama da transformação.

 

VI

 

A filosofia aplicada tem um caráter bigume; ou seja, teoria e pratica. Por isso, o alcance da virtude em quatro dimensões: lógica, física, metafísica e ética; assim sendo, poder-se-ia alcançar o eixo unificador entre o que é a filosofia aplicada, qual a sua aplicação e então, como por isto em pratica, ou qual a sua produtividade no contexto social. O interessante é que, no limiar para se chegar a estas virtudes está o caminho que se confunde com a própria existência do ser humano; pois, o que o homem constrói para o bem do homem e do seu próximo visando promulgar a dignidade do homem sem nenhum reducionismo, já é uma grande contribuição para esta proposta. O conhecimento exato da verdadeira doutrina desemboca na retidão na vida, e a retidão na vida produz efeitos para a construção social. Por isso, seguindo a linha de Epicuro, Lucrécio, Cicero, Sêneca, Marco Aurélio, Boécio, podemos desenvolver a doutrina destes, e então aplicá-las de forma produtiva às grandes vicissitudes da condição humana, gerando cada vez mais remédios racionais para curar as grandes chagas de uma sociedade adoecida pela morte da Virtude. 

Laudate Deo


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