I
O
controle de emoções é uma questão essencial da filosofia aplicada. Daí a
importância da tradição sapencial estoica, que lida com os problemas concretos
da vida humana. Por isso, a reflexão para o alcance de uma vida virtuosa desenvolve-se
em um caminho para melhorar a existência. Sêneca diz que é “parte da cura o
desejo de ser curado”. Na construção de uma vida virtuosa, Boécio ensina
que a mesma não é “alcançada pelas coisas exteriores, mas sim no seguimento
da Razão Universal que a tudo governa”. Por isso, quando o homem entende
que precisa dominar a si mesmo, ele está se exercitando na pratica desta
virtude, e assim, contribuindo para seu próprio bem, bem como na construção do
bem social. Com efeito, o homem deve saber que foi criado para viver acima de
seus prazeres, tal como Sêneca ensinara: “Maior sou e para maiores coisas
nasci do que para ser escravo da minha carne”.
II
O
conhecimento não pode apenas ser teórico, abstrato, mas também deve ser
concreto, pois deve ser um conhecimento que nos liga com o logos na realidade.
Por isso, é de singular importância aplicar as grandes virtudes deste
conhecimento à vida diária. E compreender o valor destas virtudes para o ser
humano, que de certa forma estão ligadas com a própria dignidade do ser humano,
consiste, nas palavras de São João Crisóstomo, “no conhecimento exato da
verdadeira doutrina e na retidão da vida”. O alcance destas virtudes em
suas quatro dimensões (lógica, física, metafísica e ética), conduz para o
caminho da vida feliz de forma harmoniosa.
III
A
filosofia aplicada em sua estrutura primeira é o encontro com a vida prática,
com a prudência. Sêneca diz que “o autêntico esoico manifesta sua filosofia
em sua vida”. A filosofia aplicada com esta realidade se encontra de forma
concêntrica com o Filósofo em sua “Ética a Nicomaco”. O Filósofo
trabalha com um dos pontos nos quais a antropologia estoica se concentra: a
ética, o saber viver bem. Aristóteles trabalha com o caminho do meio termo, o
caminho do equilíbrio, da justa medida, e com isso percebe-se que a ética
aristotélica se baseia na virtude. Virtude que se dá no encontro com a vida,
com sua prática na vida desembocando na liberdade para viver. E Aristóteles se
utiliza de dois termos para definir este caminho: práxis e poiêsis.
A práxis se refere a prática, uma ação feita de acordo com ela mesma; já
a poiêsis é uma ação de visa um produto. A práxis se alinha com
uma atitude que é boa em si mesma; já a poiêsis se dá com o produzir, ou
seja, produzimos para obtermos um produto.
No
entanto, esta distinção entre práxis e poiêsis encontra paralelo
nas estruturas que se encalçam a elas, ou seja, os movimentos. Desta forma,
Aristóteles distingue dois termos necessários a classe desta variável. Tanto a
prática com algo bom para todos os homens, quanto o produzir com um fim em
vista, são tratados em relação com uma atividade completam em sua própria ação
(energeia) e um processo que só é completo quando atinge seu final (kinesis).
Estes dois movimentos se encontram ligados, em seu inicio e final,
respectivamente, com a filosofia aplicada. Se o objetivo da filosofia aplicada
está em chegar à virtude prática através de exercícios, físicos, éticos e
lógicos, a estrutura que integra este tripé está baseada, eticamente, primeiro
numa atitude completa em si (energeia), ou seja, em algo que se dá como
uma atividade completa em si mesa por parte daquele que a emprega; ou seja, a
prática da virtude, da prudência, da sabedoria prática. O emprego da energeia
enquanto uma atividade se mostra revelador no “treinamento” para o alcance
desta virtude. O êxito desta virtude está em cumprir os princípios de seu agir
em si mesmo como movimento dentro da práxis. Diante disso, sempre haverá
energeia na filosofia aplicada, pois é uma ação imediatamente completa
em si mesma, quando empregada, principalmente com relação à sabedoria prática
que visa o bem comum.
Além disso,
esta atividade, em relação ao todo, se mostra buscando um fim na filosofia
aplicada, a Razão Universal, sendo que para ele ocorre um kinesis, um
processo. Este processo é sempre um ato incompleto em seu inicio, pois trabalha
com os meios, as mais das vezes com a energeia, para o fim completo,
podendo chegar até mesmo a poiêsis. Por isso, diante da realidade da
sabedoria prática proposta por Aristóteles a energeia enquanto o princípio
da atividade completa em si quando executada está num kinesis, a fim de
se chegar ao final da maratona de treinamento das potencias morais e éticas. Assim,
se chega a uma diatribe estoica como estilo de vida, tratada por Aristóteles
como a virtude condicional e necessária a todas as outras. Com isso, tem-se uma
estreita relação entre atividade e ação (energeia) e entre movimento e
processo (kinesis), tanto que se tornam correlatos ao conceito de ação e
potência.
Portanto,
na filosofia aplicada ocorre o encontro destas duas realidades, primeiro com
uma atitude individual para melhoria, uma ação (energeia) que é completa
em si quando ocorre; mas ao mesmo tempo, ocorre um processo através de
movimentos (kinesis), para que se chegue também a um fim produtivo (poiêsis),
sendo este fim produtivo influenciado inicialmente pela pura prática e virtude
(práxis).
Por
fim, este equilíbrio pode ser um caminho para a filosofia aplicada, sendo que,
na pura prática da virtude, bem como neste fim proveitoso, há um logos
spermatikós, ou seja, uma semente inata da Razão Universal que a atua no
universo e na razão de cada ser humano.
IV
A
estruturação de um modo de vida virtuoso, como na diatribe estoica, que visa o
treinamento na sabedoria (Aristóteles), quando pensada no âmbito da formação
filosófica como parte da vida, ou seja, como vivencia do filósofo, leva a
realidade da filosofia como aplicação na vida diária. De fato, assim é com
aquele que ensina filosofia, vive-a, respira-a, pensa-a dia e noite, pois
somente assim a filosofia transformar-se-á em filosofia concreta. Para isto, é
necessário a análise do termo phármakon, que introduz novas perspectivas
neste analise à caminho da filosofia aplicada.
Primeiro,
para Derrida não há unicidade no phármakon; portanto, ele é dialético.
Segundo,
se é dialético, logo, não tem um centro comum, natural.
Terceiro,
se não há um centro comum, como então, alcançar-se-á à filosofia aplicada? Como
então, o filosofo terá a solução para a concretude de sua filosofia?
É
justamente estas questões que levam ao real entendimento da filosofia como uma
realidade sempre a caminho, como um novo horizonte a se buscar, um novo
conhecimento se construir, como uma nova possibilidade de se argumentar. Isto é
evidente justamente nas atitudes tomadas por Sócrates, onde este mesmo se sente
atraído para ouvir alguém que proclama ter um novo saber; este saber torna-se phármakon
(droga), pois o leva à loucura. Desta forma, Sócrates é embebecido pelo
sentimento exposto por este novo saber, e então é atingido pelo phármakon
(feitiço), de não querer mais ouvir o que está sendo dito, pois o está levando
a loucura; diante disso, o próprio Sócrates procura um lugar para ouvir o que
os outros dizem saber sobre o que lhe é mais próprio: o amor, um saber de
relação. Com esta realidade, o próprio Sócrates experimente a dialética do phármakon,
um saber que quando desejado leva a loucura (enfeitiça), mas em contrapartida,
o incita a ir ao terreno comum do amor, ao saber conjunto, para chegar a
compreensão de como o filósofo, o amante do saber, deve começar sua busca: como
um desejo, com um saber e um caminho a ser percorrido.
Este
tripé na compreensão do phármakon pode ser um caminho para a filosofia
aplicada. O amor ao saber, ou a paixão pelo saber, é um impulso interno; já o
saber é o objeto deste amor, como o alvo a ser alcançado; e o caminho a
percorrer, é saber que ambos, amor e saber, ou basicamente, o amor pelo saber,
é trilhado de forma una e múltipla, assim como o conceito de phármakon;
desta forma, na dialética presente na compreensão do termo, verifica-se uma
forma de compreender qual o verdadeiro elemento da filosofia aplicada; ou seja,
sempre a busca, o sempre a caminho de um novo saber, amando este caminho (com a
máxima: desejo saber o caminho a percorrer), e sempre o deixando de amar, para
então poder amá-lo novamente.
Assim,
demonstra-se uma diatribe da filosofia aplicada, como verdadeira filosofia
concreta. Pois ela se dá também nos processos dialéticos do entendimento
humano. Este processo se iguala ao da filosofia como phármakon. Por
exemplo, uma semente para dar fruto precisa morrer; igualmente pode ser o
caminho a percorrer pela filosofia aplicada. Primeiro, há a procura pela
semente, ou o amor pelo saber; depois, há o plantio da semente, ou a
manifestação deste saber com vista a um fim proveitoso e produtivo; depois desta
semente ser plantada, há de esperar que nasça, mas para a semente nascer
precisa morrer. E este processo de comprar a semente, plantá-la, cultivá-la a
até o seu nascimento é um caminho a percorrer por quem iniciou na senda do
saber. E este caminho não acaba quando a semente nasce, mas sim se torna em um
novo processo e assim por diante.
Por
isso, se deve tomar a filosofia como phármakon. Pois este termo
apresenta a dialética da realidade humana tanto quanto da inteligência. Desta
forma, sabe-se que para aprender tem de se ter realidade empíricas, mas a
experiencia não é somente esta; há também a inteligência que regula
racionalmente as nossas atividades, corrigi-as, melhora-as, incita-as a
alcançar bases mais sólidas. Eis o phármakon: quando é necessário
corrigir e melhorar, remédio; mas quando é necessário tirar algo, droga,
feitiço. Por isso a filosofia só se torna filosofia quando há o filosofar, isto
é, quando há a vivencia. Só há filosofia quando há vivencia, e a vivencia é o próprio
filosofar.
Portanto,
filosofia aplicada só se torna aplicada quando há vivência, concretude e
dialética no desejo de saber o caminho a percorrer, que quando o compreendo,
preciso percorrer o caminho que não conheço e assim sucessivamente, para então
estar apto a dizer: “Só sei que nada sei”; quando isso ocorre verdadeiramente,
então se tem verdadeira filosofia.
V
A
filosofia, como aquilo que demonstra o amor pelo saber, é um elemento de
extrema importância na alma da sociedade. E o processo de educação como
elemento transformador se torna algo que a todo o momento se liga com a pratica
do filosofar. A educação é aquele elemento que serve para acender a
inteligência, ou seja, é o estopim para uma transformação adequada no educando;
da mesma forma, a educação é como a estrada bem feita que leva a algum lugar,
ou que serve de ponte para se chegar a um local determinado. Assim, o processo
de educação faz com que o ser humano tenha aberto diante de si a sua própria
realidade primeira, que ele é um ser cultural. Do mesmo modo como a chave serve
para abrir porta, a educação se põe como aquela que faz nascer um novo
horizonte que estava já pronto dentro da pessoa, mas que ainda não tinha sido
descoberto. Este foi um dos ideais de Sócrates e da educação na Grécia Antiga.
Desta forma, a filosofia e a educação se tornam valores essenciais, ou seja, se
tornam aquilo que possui uma importância única, especial. Por isso, a educação
e a filosofia são valores que transformam o mundo, ou seja, fazem sempre nascer
um novo mundo, uma nova possibilidade, um novo conhecimento, pois acendem a
chama da transformação.
VI
A
filosofia aplicada tem um caráter bigume; ou seja, teoria e pratica. Por isso, o
alcance da virtude em quatro dimensões: lógica, física, metafísica e ética;
assim sendo, poder-se-ia alcançar o eixo unificador entre o que é a filosofia
aplicada, qual a sua aplicação e então, como por isto em pratica, ou qual a sua
produtividade no contexto social. O interessante é que, no limiar para se
chegar a estas virtudes está o caminho que se confunde com a própria existência
do ser humano; pois, o que o homem constrói para o bem do homem e do seu
próximo visando promulgar a dignidade do homem sem nenhum reducionismo, já é
uma grande contribuição para esta proposta. O conhecimento exato da verdadeira
doutrina desemboca na retidão na vida, e a retidão na vida produz efeitos para
a construção social. Por isso, seguindo a linha de Epicuro, Lucrécio, Cicero,
Sêneca, Marco Aurélio, Boécio, podemos desenvolver a doutrina destes, e então
aplicá-las de forma produtiva às grandes vicissitudes da condição humana,
gerando cada vez mais remédios racionais para curar as grandes chagas de uma
sociedade adoecida pela morte da Virtude.
Laudate Deo!
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