I
Santo Agostinho, o bispo de Hipona, ocupa um lugar de
incomparável importância e relevância, seja em seu tempo, seja no desenrolar da
história subsequente a ele, seja nos dias atuais. Declarado como Doutor da Igreja
pelo papa Bonifácio VIII em 1298, o Doctor Gratiae como elegantemente é
chamado no seio teológico, tem muita coisa a nos ensinar, graças a atualidade e
grandiosidade de seu pensamento, que sempre se renova e encontra amparo em
pessoas que se dedicam a estudá-lo, a compreendê-lo, e assim, a amá-lo, naquilo
que ele mesmo chamada de fraternidade de alma.
A escolástica tem a sua grandeza, e indelével
importância, mas seu pensamento é impessoal, já o de Santo Agostinho se
encontra com o centro do ser, saber: o coração, como ele próprio definira. Joseph
Ratzinger afirmara: “A escolástica tem sua grandeza, mas é tudo muito
impessoal. Precisa-se de algum tempo até compreender e reconhecer a sua tensão
interior. Em Santo Agostinho, pelo contrário, o homem apaixonado, que sofre,
que interroga, está sempre presente, e cada pessoa pode identificar-se com ele”[1].
E muitos dos que assim o fazem, aprofundam suas
reflexões a partir dos pressupostos deste grande pensador, como por exemplo, fizera
Santo Tomás de Aquino, e outros escolásticos; na verdade, todo grande pensador
cristão tem em Santo Agostinho um gigante no qual pode sem medo subir nos
ombros para enxergar mais longe. Além obviamente do queridíssimo papa Bento
XVI, um discípulo intelectual de Agostinho, que conseguira edificar todo um formidável
pensamento a partir de reflexões agostinianas.
Assim, ver-se-á apenas três aspectos, os quais representam
brevemente a imorredoura e indelével influência de Santo Agostinho na teologia
cristã:
II
O primeiro aspecto diz respeito da verdade aprendida
da Verdade Eterna. Agostinho não conduz seu pensamento de forma isolada da
Verdade, do Logos do Evangelho, mas todo o pensamento de Agostinho emana
da experiência com a verdade. O próprio Santo Agostinho diz: “Todavia, onde
é que te encontrei, para poder conhecer-te?... Onde, então, te encontrei, para
conhecer-te, senão a ti mesmo, acima de mim?... Tu, a verdade, reinas em toda
parte sobre todos aqueles que te consultam, e respondes ao mesmo tempo a todas
as consultas diversas que te são apresentadas”[2].
Isto até mesmo foi ilustrado por Phillippe de
Champaigne, pintor e retratista francês, que desenhou Santo Agostinho em uma
mesa estudando, com o seu coração a mostra (o centro do eu) recebendo luz
divina, do Sol da Justiça, um dos títulos bíblicos aplicados a Jesus Cristo;
uma obra de arte retratando o princípio da verdade aprendida da Verdade Eterna;
ou seja, a reflexão racional humana, iluminada pela Luz da Razão Divina, o Logos,
Jesus Cristo; a luz interior que é iluminada pela luz que vem do alto.
III
O segundo aspecto diz respeito ao problema do mal. Uma
corrente do pensamento filosófico muito comum nos tempos de Agostinho, fora a
da conceituação de que o mal é um problema metafísico; porém, Agostinho muda a
concepção e fórmula demonstrando que o mal é um problema moral, bem definido na
criação do conceito fragmentário de pecado original.
A concepção agostiniana de pecado original está
interligada a noção de criação ex nihilo (a partir do nada), e assim,
esta criação está completa, perfeita e acabada, sendo que, nela houve uma
corrupção original em seu seio, ocasionando a depravação no centro do ser, que
é responsável por gerir a mesma, abrindo o caminho para o mal no coração,
desarmonizando a ordem criacional do cosmos; e esta certamente é a raiz dos
problemas humanos. O Doutor Graça diz: “E procurando o que era iniquidade
compreendi que ela não é uma substância existente em si, mas a perversão da
vontade que, ao afastar-se do Ser Supremo, que és tu, ó Deus, se volta para as
criaturas inferiores; e, esvaziando-se por dentro, pavoneia-se exteriormente”[3].
Por isso, deve-se pensar em mal moral, não em mal
metafísico; pois o mal moral como depravação total do ser humano em relação a
santidade, justiça e retidão diante de Deus (cf. Is 64.6), sendo a
desobediência original causadora da morte, e por processão, de todos os males
subsequentes; o Apóstolo declarou em sua carta aos romanos: “todos pecaram e
destituídos estão da glória de Deus”; bem como: “o salário do pecado é a
morte” (Rm 3.23; 6.23). Por isso, Agostinho asseverara: “Esta morte teve
lugar no dia em que se fez o que Deus proibiu... o corpo deles (dos
representantes originais da raça humana: Adão e Eva) contraiu a propriedade
doentia e mortífera que está inerente também a carne dos animais e, por isso,
também o mesmo movimento pelo qual se efetua nos animais o apetite da
concupiscência para que os que nascem sucedam aos que morrem (a posteridade
também é afetada devido a mesma desobediência)”[4]
(em parênteses: acréscimos meus).
IV
O terceiro aspecto diz respeito a interação entre
razão e fé. Neste aspecto contemplar-se-á Santo Agostinho em todas as fases de
seu pensamento, desde jovem, na sua conversão, até o seu episcopado, a
importância da razão, tem uma inconcussa importância para Agostinho; ele mesmo
diz como começou a conhecer e a ter entendimento do caminho da razão, ao ler
Cícero e alguns filósofos platônicos. Ele começara sua busca pelo caminho da
razão humana, o que mais tarde em sua vida desenvolver-se-á em preciosas lições
na integração da relação entre razão e fé.
Como filósofo, adentra ao terreno da razão, com a
mente iluminada pela Razão Divina, sobressaindo como o elemento fundante na via
intelectual; somente a Razão Divina, o Logos Divino, é o fundamento de
toda a razão, e de toda a reflexão proveitosa e produtiva, pois a reflexão,
neste sentido proposto pelo bispo de Hipona, não se mede pelo acumulo de
conhecimento apenas, mas sim pelo fim ao qual o conhecimento conduz, ou seja, ao
próprio Autor de todas as coisas, a saber, Deus. Por isso, ele diz: “Aquele
que te conhece a ti e também as outras coisas, não é mais feliz por esse
conhecimento, mas somente por conhecer a ti, e conhecendo-te te glorifica pelo
que és, e te rende graças, e não se perde em vãs reflexões”[5].
Pode parecer, que ao adentrar no terreno da Razão, a
Revelação tenha de ser deixada de lado; ledo engano! É a revelação, que para
Agostinho, conduz o caminho de forma impoluta para a compreensão das coisas
racionais.
O pensamento de Agostinho é muito bem elaborado neste
ponto, ao passo que, mais tarde, num de seus sermões, declará-lo-á de forma
auspiciosa: “Creio para entender, entendo porque creio”[6]; a
crença em Deus, e depois a formulação dos pensamentos racionais. E neste mesmo
espírito, com uma veemência quase que profética, di-lo também Rui Barbosa: “Não
se creia que essa atitude vos indisponha ou enfraqueça para a ciência. Não:
antes vos cingirá melhor os ânimos para os grandes estudos da realidade,
iluminando-a do alto com esse clarão sereno, a que a ciência sobressai livre e
magnifica na imensidade de seus triunfos”, sendo que, “grande é a
ciência, bem o creio; é a maior de todas as grandezas; mas abaixo doutra: a
divina, que lhe há de sobrepairar eternamente”; por isso, “no ponto de
vista da minha razão humana, ao menos até onde ela coincida com a minha, Deus é
a necessidade das necessidades, Deus é a chave inevitável do Universo, Deus é a
incógnita dos grandes problemas insolúveis, Deus é a harmonia entre as
desarmonias da criação”[7].
Esta expressão de Rui Barbosa ilustra de outra maneira
aquilo que fora estabelecido pelo doctor gratiae.
E com estes três breves aspectos que foram aclarados
se consegue compreender a importância inegável de Santo Agostinho; é apenas um
magro e simplório esquema a respeito do profundo e sempre viçoso pensamento agostiniano.
Laudate Deo!
[1] Joseph
Ratzinger, O Sal da Terra: O Cristianismo e a Igreja Católica no Limiar do
Terceiro Milênio - Um Diálogo com Peter Seewald [Rio de Janeiro: Imago,
1997], pág. 50.
[2] Santo Agostinho, Confissões [Coleção Clássicos de Bolso. São
Paulo: Paulus, 2002], livro X, cap. 26, n. 37, pág. 298-299.
[3] Ibidem. Livro VII, cap. 16, n. 22, pág. 195.
[4] Santo Agostinho, Comentário ao Gênesis [1° edição. São Paulo:
Paulus, 2005], pág. 422.
[5] Santo Agostinho, Op. Cit., 2002, livro V, cap. 4, n. 7, pág.
121-122.
[6] Santo Agostinho, Sermão 43,
n. 7.
[7] Rui Barbosa, Discursos no Instituto dos Advogados Brasileiros e
Discurso no Colégio Anchieta [São Paulo: Martin Claret, 2010], pág.
148-149.
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