23/03/2020

Reflexão sobre Santo Agostinho

I

 

Santo Agostinho, o bispo de Hipona, ocupa um lugar de incomparável importância e relevância, seja em seu tempo, seja no desenrolar da história subsequente a ele, seja nos dias atuais. Declarado como Doutor da Igreja pelo papa Bonifácio VIII em 1298, o Doctor Gratiae como elegantemente é chamado no seio teológico, tem muita coisa a nos ensinar, graças a atualidade e grandiosidade de seu pensamento, que sempre se renova e encontra amparo em pessoas que se dedicam a estudá-lo, a compreendê-lo, e assim, a amá-lo, naquilo que ele mesmo chamada de fraternidade de alma.

A escolástica tem a sua grandeza, e indelével importância, mas seu pensamento é impessoal, já o de Santo Agostinho se encontra com o centro do ser, saber: o coração, como ele próprio definira. Joseph Ratzinger afirmara: “A escolástica tem sua grandeza, mas é tudo muito impessoal. Precisa-se de algum tempo até compreender e reconhecer a sua tensão interior. Em Santo Agostinho, pelo contrário, o homem apaixonado, que sofre, que interroga, está sempre presente, e cada pessoa pode identificar-se com ele[1].

E muitos dos que assim o fazem, aprofundam suas reflexões a partir dos pressupostos deste grande pensador, como por exemplo, fizera Santo Tomás de Aquino, e outros escolásticos; na verdade, todo grande pensador cristão tem em Santo Agostinho um gigante no qual pode sem medo subir nos ombros para enxergar mais longe. Além obviamente do queridíssimo papa Bento XVI, um discípulo intelectual de Agostinho, que conseguira edificar todo um formidável pensamento a partir de reflexões agostinianas.

Assim, ver-se-á apenas três aspectos, os quais representam brevemente a imorredoura e indelével influência de Santo Agostinho na teologia cristã:

 

II

 

O primeiro aspecto diz respeito da verdade aprendida da Verdade Eterna. Agostinho não conduz seu pensamento de forma isolada da Verdade, do Logos do Evangelho, mas todo o pensamento de Agostinho emana da experiência com a verdade. O próprio Santo Agostinho diz: “Todavia, onde é que te encontrei, para poder conhecer-te?... Onde, então, te encontrei, para conhecer-te, senão a ti mesmo, acima de mim?... Tu, a verdade, reinas em toda parte sobre todos aqueles que te consultam, e respondes ao mesmo tempo a todas as consultas diversas que te são apresentadas[2].

Isto até mesmo foi ilustrado por Phillippe de Champaigne, pintor e retratista francês, que desenhou Santo Agostinho em uma mesa estudando, com o seu coração a mostra (o centro do eu) recebendo luz divina, do Sol da Justiça, um dos títulos bíblicos aplicados a Jesus Cristo; uma obra de arte retratando o princípio da verdade aprendida da Verdade Eterna; ou seja, a reflexão racional humana, iluminada pela Luz da Razão Divina, o Logos, Jesus Cristo; a luz interior que é iluminada pela luz que vem do alto.

 

III

 

O segundo aspecto diz respeito ao problema do mal. Uma corrente do pensamento filosófico muito comum nos tempos de Agostinho, fora a da conceituação de que o mal é um problema metafísico; porém, Agostinho muda a concepção e fórmula demonstrando que o mal é um problema moral, bem definido na criação do conceito fragmentário de pecado original.

A concepção agostiniana de pecado original está interligada a noção de criação ex nihilo (a partir do nada), e assim, esta criação está completa, perfeita e acabada, sendo que, nela houve uma corrupção original em seu seio, ocasionando a depravação no centro do ser, que é responsável por gerir a mesma, abrindo o caminho para o mal no coração, desarmonizando a ordem criacional do cosmos; e esta certamente é a raiz dos problemas humanos. O Doutor Graça diz: “E procurando o que era iniquidade compreendi que ela não é uma substância existente em si, mas a perversão da vontade que, ao afastar-se do Ser Supremo, que és tu, ó Deus, se volta para as criaturas inferiores; e, esvaziando-se por dentro, pavoneia-se exteriormente[3].

Por isso, deve-se pensar em mal moral, não em mal metafísico; pois o mal moral como depravação total do ser humano em relação a santidade, justiça e retidão diante de Deus (cf. Is 64.6), sendo a desobediência original causadora da morte, e por processão, de todos os males subsequentes; o Apóstolo declarou em sua carta aos romanos: “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”; bem como: “o salário do pecado é a morte” (Rm 3.23; 6.23). Por isso, Agostinho asseverara: “Esta morte teve lugar no dia em que se fez o que Deus proibiu... o corpo deles (dos representantes originais da raça humana: Adão e Eva) contraiu a propriedade doentia e mortífera que está inerente também a carne dos animais e, por isso, também o mesmo movimento pelo qual se efetua nos animais o apetite da concupiscência para que os que nascem sucedam aos que morrem (a posteridade também é afetada devido a mesma desobediência)[4] (em parênteses: acréscimos meus).

 

IV

 

O terceiro aspecto diz respeito a interação entre razão e fé. Neste aspecto contemplar-se-á Santo Agostinho em todas as fases de seu pensamento, desde jovem, na sua conversão, até o seu episcopado, a importância da razão, tem uma inconcussa importância para Agostinho; ele mesmo diz como começou a conhecer e a ter entendimento do caminho da razão, ao ler Cícero e alguns filósofos platônicos. Ele começara sua busca pelo caminho da razão humana, o que mais tarde em sua vida desenvolver-se-á em preciosas lições na integração da relação entre razão e fé.

Como filósofo, adentra ao terreno da razão, com a mente iluminada pela Razão Divina, sobressaindo como o elemento fundante na via intelectual; somente a Razão Divina, o Logos Divino, é o fundamento de toda a razão, e de toda a reflexão proveitosa e produtiva, pois a reflexão, neste sentido proposto pelo bispo de Hipona, não se mede pelo acumulo de conhecimento apenas, mas sim pelo fim ao qual o conhecimento conduz, ou seja, ao próprio Autor de todas as coisas, a saber, Deus. Por isso, ele diz: “Aquele que te conhece a ti e também as outras coisas, não é mais feliz por esse conhecimento, mas somente por conhecer a ti, e conhecendo-te te glorifica pelo que és, e te rende graças, e não se perde em vãs reflexões[5].

Pode parecer, que ao adentrar no terreno da Razão, a Revelação tenha de ser deixada de lado; ledo engano! É a revelação, que para Agostinho, conduz o caminho de forma impoluta para a compreensão das coisas racionais.

O pensamento de Agostinho é muito bem elaborado neste ponto, ao passo que, mais tarde, num de seus sermões, declará-lo-á de forma auspiciosa: “Creio para entender, entendo porque creio[6]; a crença em Deus, e depois a formulação dos pensamentos racionais. E neste mesmo espírito, com uma veemência quase que profética, di-lo também Rui Barbosa: “Não se creia que essa atitude vos indisponha ou enfraqueça para a ciência. Não: antes vos cingirá melhor os ânimos para os grandes estudos da realidade, iluminando-a do alto com esse clarão sereno, a que a ciência sobressai livre e magnifica na imensidade de seus triunfos”, sendo que, “grande é a ciência, bem o creio; é a maior de todas as grandezas; mas abaixo doutra: a divina, que lhe há de sobrepairar eternamente”; por isso, “no ponto de vista da minha razão humana, ao menos até onde ela coincida com a minha, Deus é a necessidade das necessidades, Deus é a chave inevitável do Universo, Deus é a incógnita dos grandes problemas insolúveis, Deus é a harmonia entre as desarmonias da criação[7].

Esta expressão de Rui Barbosa ilustra de outra maneira aquilo que fora estabelecido pelo doctor gratiae.

E com estes três breves aspectos que foram aclarados se consegue compreender a importância inegável de Santo Agostinho; é apenas um magro e simplório esquema a respeito do profundo e sempre viçoso pensamento agostiniano. 

Laudate Deo



[1] Joseph Ratzinger, O Sal da Terra: O Cristianismo e a Igreja Católica no Limiar do Terceiro Milênio - Um Diálogo com Peter Seewald [Rio de Janeiro: Imago, 1997], pág. 50. 

[2] Santo Agostinho, Confissões [Coleção Clássicos de Bolso. São Paulo: Paulus, 2002], livro X, cap. 26, n. 37, pág. 298-299. 

[3] Ibidem. Livro VII, cap. 16, n. 22, pág. 195. 

[4] Santo Agostinho, Comentário ao Gênesis [1° edição. São Paulo: Paulus, 2005], pág. 422. 

[5] Santo Agostinho, Op. Cit., 2002, livro V, cap. 4, n. 7, pág. 121-122. 

[6] Santo Agostinho, Sermão 43, n. 7. 

[7] Rui Barbosa, Discursos no Instituto dos Advogados Brasileiros e Discurso no Colégio Anchieta [São Paulo: Martin Claret, 2010], pág. 148-149. 


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