23/06/2023

Generalidades Teológicas

§ 1

 

A manifestação da Glória do Senhor é clarividente na Eleição, na Providência e na Restauração do povo de Deus; esta Glória, portanto, é o objeto mais fulgurante com o qual os cristãos nesta vida concentram-se e dedicam-se a contemplar e a experenciar.

 

§ 2

 

A contemplação da Glória do Senhor por aqueles que creem é fruto do holofote pneumático, o qual é pressuposto fundamental do múnus da teologia evangélica, pois abaliza e sublima este encargo e dá-lhe amplo escopo intelectual e espiritual sob o Guiar do Espírito Santo.

 

§ 3

 

A crença no Espírito Santo é princípio para a formação e desenvolvimento da teologia; é o Espírito Santo quem guia o caminho da teologia; pois, somente assim a teologia vinga, isto é, se estabelece, cresce e desenvolve, pois fora guiada pelo Divino Preceptor; portanto, a teologia sempre é teologia pneumática; em sentido credal, é teologia do terceiro artigo.

 

§ 4

 

A teologia tem defronte de si o Evangelho, isto é, a promessa e a graça; mas este mesmo Evangelho é o que se coloca à teologia como mandamento e juízo; o Evangelho conquanto seja promessa também é mandamento, e conquanto seja graça também é juízo. Esta é a estrutura dialógica da teologia evangélica: o Evangelho como promessa e graça, mas ao mesmo tempo como mandamento e juízo.

 

§ 5

 

A fé é uma realidade singular; é a realidade do relacionamento entre Deus e os homens por meio de Jesus Cristo; uma realidade de promessa e mandamento, no tempo e na eternidade, que se inicia pela predestinação, consuma-se pelo chamado, confirma-se pela justificação e conclui-se na glorificação (cf. Rm 8.30).

 

§ 6

 

A fé é um vocábulo polissêmico; na religião cristã, o termo fé é designativo para várias questões e situações bíblicas e existenciais, que se figuram com o prisma englobante do que a fé significa e representa; mas esta polissemia do vocábulo fé, é uma polissemia dentro de um âmbito comum; conquanto as outras religiões falem de fé, todavia, a estrutura polissêmica da fé, isto é, toda a riqueza que este vocábulo tem em si imbuída, é encontrado somente no cristianismo, a religião da fé em Jesus Cristo.

 

§ 7

 

A fé, portanto, em se tratando do cristianismo, a única religião a desenvolver um conceito e uma estruturação da fé de forma plena, lógica e orgânica, tem toda uma significação harmônica e com riquezas de distinções; esta significação harmônica, refere-se a que em todas as conceituações da fé, que a fé traz em si imbuídas são complementares umas às outras, e subsequentes umas às outras; e esta riqueza de distinções refere-se a que nas conceituações que a fé traz imbuída em si, as distinções particulares nestas conceituações são por demais efusivas e dão uma gama de princípios e proposições sobre a sublimidade da fé cristã.

 

§ 8

 

A significação harmônica da fé tem uma estrutura lógica, orgânica e genética; pois, tal estrutura possui uma harmonia em todas as suas partes e significados; esta significação, portanto, é sistêmica; deste modo, a análise desta significação tem uma estruturação sistêmica-sistemática; não que a fé seja haurida por esta estruturação, mas que através desta a compreensão sobre a fé torna-se mais latente. E a significação da fé tem cinco pressuposições fundamentais: (i) a fé é expressão para designar a crença no ato revelatório de Deus; (ii) a fé é expressão para designar o relacionamento entre Deus e os homens; (iii) a fé é expressão para designar a comunhão entre Deus e os homens; (iv) a fé é expressão para designar a prevalência de Deus em toda a extensão da fé; (v) a fé é expressão para designar o modo de viver daqueles que creem.

 

§ 9

 

A designação da teologia como ciência é para melhor servir ao propósito primário da teologia, isto é, ser teologia para a Igreja; mas ao mesmo tempo, para que a teologia também possa contribuir no estudo das ciências comparadas, com as outras ciências, principalmente com as ciências naturais, dando forma ao que fora definido como “teologia científica”. A teologia científica é a utilização da teologia na esfera das ciências naturais; é o aproveitamento do escopo teológico, em sua amplidão, para influenciar o estudo e a investigação teórica sobre os fenômenos naturais, bem como para que as perspectivas das ciências não sejam destoadas por reducionismos teóricos. A teologia científica tem uma perspectiva que sublima a compreensão que se deve ter da capacidade da teologia de atuar no campo das ciências como a ciência que ilumina o saber humano com a luz de um conhecimento superior. Por isso, as outras ciências são subsidiárias a teologia; este conceito ajuda muito a clarear a questão do encontro da teologia com as outras ciências, pois sendo a teologia a rainha das ciências, as outras ciências são subsidiárias a ciência sagrada, já que o objeto da ciência sagrada é Deus, e as outras ciências analisam a realidade, a qual fora criada por Deus.

 

§ 10

 

A religião é vocábulo fundamental da reflexão teológica e pressuposto irrevogável da análise dogmática; pois, a revelação abole a falsas religiões e tornam evidente a verdadeira religião; e isto demonstra que tanto a religião quanto a revelação se inter-relacionam na reflexão teológica, e que aquela precede esta na análise dogmática, tanto por ordem racional quanto por preceito revelacional.

 

§ 11

 

A reflexão sobre a fé se efetua somente na e a partir da religião; sem religião não há reflexão sobre a fé; logo, a reflexão sobre a fé é permeada de maneira indiscutível pelo princípio da religião; e ainda que a fé não se reduza somente ao ato da religião, a reflexão sobre a fé se evidencia a partir deste ato, o qual é expressão pública da fé, principalmente pelos atos elícitos de misericórdia.

 

§ 12

 

A religião deve ser valorada porque é um aspecto indissolúvel da vida humana, e porque onde há a religião firme, sóbria e forte, se dissolve as aporias que deificam um aspecto da realidade, tal como o racionalismo, ou o empirismo, etc. A religião verdadeira é um freio e uma proteção contra a deificação de um aspecto da realidade criada; por isso, a religião deve ser valorada para que não se descambe em racionalismo ou empirismo, ou qualquer outro “ismo” deificatório.

 

§ 13

 

O vocábulo religião deve ser definido, pois é um dos vocábulos fundamentais da reflexão teológica; e a correta definição e compreensão do vocábulo religião pontifica o caminho para se entender o uso corrente da religião, naquilo que a manifestação religiosa infere diretamente na vida humana. E com isso se compreende que a religião de alguém se manifesta pelo que essa pessoa prática. A conduta demonstra qual a crença religiosa.

 

§ 14

 

A religião possui um uso corrente, um uso comum em todos os seres humanos; isto evidencia a universalidade da ideia de religião, que está presente em todos os seres humanos, já que a ação humana por si intrinsecamente constitui-se de um ato religioso.

 

§ 15

 

A compreensão sobre a religião é amalgamada a existência teológica; o estudo da religião é parte integrante da reflexão teológica, no todo das disciplinas teológicas, tanto como preâmbulo a estas (theologiae praecognitis), quanto como parte da apologética inerente a cada uma das disciplinas teológicas. Deste modo, como a teologia lida com Deus, mas também com o ser humano, então há de lidar necessariamente com a religião, tanto na perspectiva humana, através da natureza e da consciência, quanto na perspectiva divina, através da revelação.

 

§ 16

 

A teologia, de acordo com o preceito origenista, é fundamentalmente explicação da Sagrada Escritura; pois, é uma teologia que é abalizada, justificada e julgada pela própria Palavra de Deus; este é o encargo que permeia a ciência teológica; e o que afere este encargo é a própria Glória do Senhor, onde o próprio Deus, ao se dar a conhecer aos homens, coloca diante desses a Vida, o Belo, a Bondade e a Verdade. Neste encargo que sempre se renova e sempre é impulsionado pelo Senhor, o contemplar a Glória é fruto do holofote pneumático presente em toda a Revelação, e que constitui um princípio fundamental para que o múnus da teologia seja entendido desde suas fontes e raízes mais profundas, desvelando aos homens o propósito de toda reflexão teológica, a saber: a Glória de Deus na face de Cristo através do Espírito.

 

§ 17

 

A santificação é ponto de partida para a investigação da doutrina cristã; e isso, por sua vez, tem quatro implicações: (i) Deus é a causa da santificação; deste modo, analisar a doutrina é dar toda glória a Deus no ato santificador que Ele opera nos cristãos. (ii) A doutrina ensina a entender as diferenciações entre a liberdade para viver e a obra soberana de Deus em nossa salvação; por isso, a santificação pode-se ser chamada de dogma ético por excelência. (iii) A doutrina demonstra que a santificação se liga diretamente com a eleição, que conquanto não seja objeto de estudo específico da doutrina da santificação, a eleição está imbuída em todo o múnus da santificação. (iv) A doutrina demonstra que a vontade de Deus, Sua Soberana vontade, permanece inacessível aos homens naturais; todavia, o próprio Deus em Sua Revelação dá a conhecer aspectos de Sua Vontade, para que os eleitos possam adorá-Lo, reverenciá-Lo e prosternar-se diante de Sua Majestade. Por isso, entender a soberania de Deus a luz da santificação é fonte de consolo, de ânimo, de força, de edificação e de esperança, pois, desvela-se aos eleitos cada vez mais a expressão paulina: “E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados por seu decreto” (Rm 8.28).

 

§ 18

 

A santificação é um imperativo bíblico fundamental; pois, cerca de mil vezes no Antigo Testamento, e cerca de trezentas vezes no Novo, o vocábulo santificação (ou correlatos próximos) aparece em toda a Escritura. É como se em cada capítulo da Bíblia, a raiz da palavra santificação, santidade, aparecesse, anunciando o propósito de nossa salvação e o rumo de nosso viver e a forma do testemunho cristão, a saber: em santidade de vida. Por isso, para contemplar as maravilhas de Deus, para entender as gloriosas bênçãos que Ele nos outorga em Cristo, é necessário a santificação, para que os mistérios de Deus sejam desvelados cada vez mais. O mistério da divindade, um Mistério inesgotável, só é estudado na oração e através da oração; e sabemos, pela expressão paulina, que quem nos ajuda na oração é o Espírito Santo (cf. Rm 8.26).

 

§ 19

 

No batismo de Cristo, o próprio Deus começa a desvelar os mistérios ocultos desde a eternidade, e a desvelar os mistérios velados da Antiga Aliança; pois, o batismo de Cristo é onde é desvelado o mistério da justiça divina, e onde a bendita Santíssima Trindade é vista no raiar da Nova Aliança; todo o evento do batismo de Cristo anuncia a Nova Aliança bem como é a sublimação de todas as revelações veterotestamentárias, pois o batismo de Cristo é sinal que as revelações e as instituições do Antigo Testamento tem em Cristo o seu pleno cumprimento, donde a vida, sofrimentos, morte, ressurreição e ascensão de Cristo tornam o centro da Nova Aliança e de toda a revelação, bem como consumam o Velho Testamento e confirmam o Novo Testamento.

 

§ 20

 

A revelação de Deus em Cristo, que cumpre toda a revelação veterotestamentária - aliás, também cumpre toda a revelação natural nos diversos modos que fora formada na reflexão racional - é atestada pelo batismo de Cristo. Por que pelo batismo? Porque a figura do batismo tem estreita conexão com os modos da revelação instituídos por Deus para a formação de Seu povo na Antiga Aliança; mas também a figura do batismo é eminentemente dialética, pois diante da realidade do batismo, na significação singular do termo, é anúncio da vida e da morte, do sim e do não, do já e ainda não, da justiça imputada e da justiça implantada, do tempo e da eternidade. Aliás, porque a figura do descer e do levantar da água do batismo, como na formula batismal, refere-se, respectivamente, a morte e a ressurreição de Cristo.

 

§ 21

 

A noção da cosmovisão revelacional conduz ao entendimento sobre como a revelação deve ser entendida em relação a cosmovisão, o que consequentemente leva ao entendimento da aplicação da cosmovisão revelacional as várias esferas da vida e do conhecimento. Para isso, é necessário falar sobre a teoria tridimensional da revelação, isto é, a teoria sobre a revelação formada de três dimensões básicas, as quais são muito necessárias às afirmações teoréticas que são amalgamas a análise da cosmovisão cristã. Com isso, para clarificar e explicar o entendimento a respeito da teoria tridimensional da cosmovisão, é necessário elucidá-la num argumento quádruplo: (i) A explicação do fato, do valor e da norma da cosmovisão revelacional. (ii) A eficácia, o fundamento e a vigência da cosmovisão revelacional. (iii) A ampliação da teoria tridimensional da cosmovisão, em respectivamente: apriorisma, axioma e ponto arquimédico. (iv) A concreção da ampliação da teoria tridimensional da cosmovisão. 

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E terminam aqui estas teses sobre generalidades teológicas. θεῷ χάρις


11/06/2023

A práxis da política anti-revolucionária

I

 

A política anti-revolucionária estabelece-se a partir de um programa bem orientado, fundamento em princípios singulares, e que permeia toda a construção da filosofia política anti-revolucionária, tal como fora disposto nos pressupostos da política anti-revolucionária.

Os princípios propedêuticos se estabelecem de antemão, para figurarem sobre as pressuposições básicas para atividade governamental daqueles que procuram velar e preservar os valores fundamentais da vida humana, que procuram conservar mesmo na política a honra a soberania de Deus, que respeita a inviolabilidade da vida, que preza pela liberdade e que busca estabelecer-se a partir da reta razão para o bem da coisa pública e que tem humildade para se deixar iluminar pela Revelação.

Por isso, os princípios fundamentais da política anti-revolucionária são: (a) O temor a Deus e a honra para com Sua Soberania Universal. (b) O respeito absoluto pela inviolabilidade da vida. (c) O respeito absoluto pela liberdade. (d) A valorização da reta razão para o bem da coisa pública. (e) A humildade diante da liberdade de religião. (f) A honra, a decência e o caráter como regras de vida.

Estes princípios são os que estabelecem, a partir dos pressupostos anti-revolucionários, os princípios que guiam a política anti-revolucionária em toda sua práxis; e destes princípios, se estabelece o pressuposto tríplice do programa anti-revolucionário: (1) programa eleitoral; (2) programa de governo; e, (3) programa de princípios.

Estes princípios fundamentais orientam estes três programas, os quais constituem-se a base e o fundamento da existência política sóbria e honrada, ou pelo menos, dão a orientação básica para aqueles que exercem a potestade política em função do bem comum e da vida virtuosa.

Pois, nestes três programas se estabelece o pressuposto da ação política, bem como a base pela qual se edifica os pressupostos basilares da ação anti-revolucionária em cada esfera da vida humana, para o bem de todos, e para a glória maior de Deus.

 

II

 

O programa eleitoral, assim como o programa de governo e o programa de princípios, estabelecem-se como um único programa, mas diferem em ponto de partida, escopo, conteúdo e propósito.

Ora, um programa eleitoral pode ser entendido de três maneiras:

Primeiro, o objetivo da campanha eleitoral; toda campanha eleitoral deve ter um objetivo; e este objetivo é eleger os candidatos mais capazes que disputaram as eleições, seja eleições gerais seja as eleições municipais; assim sendo, o objetivo da campanha eleitoral é eleger o máximo de políticos capazes possíveis, não para que estes usufruam e usurpem o aparato estatal, mas que todos se disponham a servir para o bem do povo a que representam enquanto políticos.

Segundo, o lema da campanha eleitoral; toda campanha eleitoral deve ter um lema, um “grito” de guerra, que deve ser curto, incisivo, tal qual aforismo utilizado pelos grandes oradores, para que todos se lembrem, e que sirva de resumo de um “credo” político racional e sóbrio; o mais correto é que seja uma frase completa; não pode ser mais do que uma tríade de frases, ou algumas sentenças breves; e assim, cada palavra deve ser estritamente escolhida, e cada frase transparente como o vidro. O lema correto e que se enquadra nestas características faz um enorme diferencial no programa eleitoral.

Terceiro, o ponto de partida para tal programa; o ponto de partida do programa eleitoral deve levar em conta a condição atual da nação, tendo por escopo o que está acontecendo no país como um todo, em vista os acontecimentos mundiais; isto gera a percepção do que amadureceu na consciência pública em relação ao que é correto, e o que na consciência pública ainda permanece calcificado de errado; pois, o programa eleitoral deve elevar o que é correto e que está amadurecido na consciência pública, e deve dissolver aquilo que fora implementado de errado sem que ninguém percebesse.

Assim, a virtude política do programa eleitoral se torna clarividente quando contemplados estes três aspectos; e a partir destes três aspectos, que devem sempre ser observados, mesmo que mude alguns aspectos, a fim de se estabelecer uma constância no programa eleitoral, que demonstra a firmeza da filosofia política, e que deve ser aplicada da melhor maneira possível para que sejam eleitos cada vez mais políticos dignos e capacitados.  

 

III

 

O programa de governo, como fora dito anteriormente, difere do programa eleitoral; pois, o próprio termo governo dá a entender a designação e o escopo deste programa, em diferença do programa eleitoral; o programa de governo é para os políticos, principalmente para estadistas; pois, entre os que tem a difícil tarefa de governar, existe o perigo do pecado do orgulho e da soberba; assim sendo, o programa de governo auxilia na difícil tarefa de governar, bem como procura esmerilhar a vocação política com seriedade moral e resoluções cristãs, para que sirva de um corretivo para a ambição pecaminosa da corrupção a qual podem cair os que estão no governo.

O objetivo central de um programa de governo pode ser definido de três maneiras:

Primeiro, o objetivo de um programa de governo é a governança sóbria, amparado sobre a reta razão, no temor a Deus, no respeito a religião, e calcinado sobre a justiça, para o fortalecimento do governo que deve ser instituído para o bem do povo.

Segundo, o objetivo de um programa de governo visa ganhar confiança, o apoio do povo, unir as divisões internas, sempre tendo em vista a praticidade, para a maior concreção dos princípios anti-revolucionários.

Terceiro, o objetivo de um programa de governo visa tornar os governantes mais ativos em seus trabalhos, tendo uma lista fixa de atividades, ou uma agenda pré-determinada, tornando a governabilidade do governo algo sólido e solidificado.

E a elaboração de um programa de governo é uma arte, a qual está imbuída na arte plena do que é a Política; faz parte da Política a elaboração de um plano de governo.

Deste modo, num programa de governo há de se vincular a tudo o que é proposto na prudência, para se cumprir o que fora prometido na campanha eleitoral; pois, um governo que não cumpre o que promete, não é digno de aprovação popular nem de novamente se tornar um governo. Por isso, a prudência básica neste quesito é prometer o que é possível de se cumprir, e não mentir deliberadamente com promessas mirabolantes para que se possa obter poder, o que é característico de um governo que antes de se estabelecer já se demonstra com um des-governo.

E para isso é necessário que as promessas feitas na campanha eleitoral sejam com o propósito de oferecer soluções eficazes e benéficas para se enfrentar os problemas nacionais e estas sejam em benefício de todo o povo. Em alguns casos pode até parecer que o alcance é pequeno, pela sobriedade e prudência das promessas eleitorais, mas se assim for feita e cumprida em prol do povo, para o benefício e bem do povo, certamente sempre obterá aprovação e aceitação geral por parte do próprio povo.

Com isso, o programa de governo pode ser assim sumariado: (1) o ponto de partida: misturar um bom fermento, o fermento da justiça, da honra, da esperança, das grandes coisas, na massa da política; (2) a extensão: procurar estender-se e determinar-se pela opinião pública em geral, pelos costumes e pela tradição nacional, na conservação dos valores mais importantes da sociedade; (3) o conteúdo: estabelecer soluções concretas para os problemas nacionais mais graves, bem como proporcionar uma estrutura de governo que vise o bem das gerações futuras; (4) o objetivo: a posse plena e o exercício correto da potestade política, para a maior glória de Deus e o desenvolvimento da nação; esta é a natureza de um programa de governo.

Se aqueles que ganharem a eleição fizeram isso, manifesto em uma administração pública honesta e justa, com sóbrio desenvolvimento econômico, certamente se terá um governo excelente em benefício de toda a nação.

 

IV

 

O programa de princípios, após o programa eleitoral e o programa de governo, se estabelece justamente após ter se formado os pressupostos gerais da teoria política anti-revolucionária, os quais são evidenciados no programa eleitoral e no programa de governo.

Ora, obviamente um programa de princípios se dá em vista a oposição a algo ou a alguma ideia; no caso, o programa de princípios anti-revolucionário é oposição total aos princípios da Revolução Francesa; por exemplo, na cultura britânica o programa de princípios tanto permeia o partido conservador quanto o partido trabalhista deste o séc. XVII; etc.

Pois, um programa de princípios é útil para agir contra os excessos e os efeitos da dialética da esquerda-direita hegeliana, bem como extremamente necessário para agir contra o liberalismo. Por isso, em função de um bom governo, seja por qual viés político for, tem de haver um programa de princípios, tanto no sentido geral em função do bem da nação, quanto no sentido particular a cada viés político, a fim de orientar a oposição contra os nefastos princípios que atentam contra a identidade nacional.  

Com isso, um programa de princípios deve ter cinco aspectos que são interligados e subsequentes:

Primeiro, um programa de princípios deve uma ideia-raiz, um conceito fundante, no qual demonstra-se aquilo que culturalmente os fundadores da nação demonstraram se opor.

Segundo, se deve demonstrar que este conceito fundante está enraizado em nossa cultura e na vida do povo, de modo que se encontre nos marcos históricos da história nacional.

Terceiro, deve haver uma derivação deste conceito fundante em outras ideias, que se estabeleçam em todas as esferas da cultura e da sociedade, a fim de demonstrar a fidelidade a este programa de princípios em todas as áreas da sociedade.

Quarto, um programa de princípios, ao ser estabelecido, tem a obrigação de sempre consultar e saber a opinião popular a respeito de questões em aberto ou mesmo de outras questões já tidas como fechadas, a fim de sempre estar em conformidade com a vontade do povo.

Quinto, um programa de princípios é feito diretamente não para a massa popular em geral, mas para aqueles que são vocacionados a vida pública para o bem do povo; pois, a grande multidão do povo não se preocupa tanto com a causalidade, mas sim com os resultados; assim, deve se ter um programa de princípios que faça bem para o povo e bem para a nação; os resultados que o povo espera são para o bem do próprio povo.

[...]

Com isso, o programa de princípios pode ser assim sumariado: (1) o ponto de partida: aquilo que guia a ação política, aquilo que desperta para a ação política; (2) a extensão: tudo o que está relacionado a este ponto de partida; (3) o conteúdo: os pressupostos teóricos e os programas que guiam a ação política; (4) o objetivo: a aceitação popular em vista do bem do povo para o povo; (5) o modo de ação: a preparação dos vocacionados a vida pública com esmero, em vista da formação do caráter e da honra.

Em suma, nisto consiste um programa de princípios, orientados em conformidade e em sequência ao programa eleitoral e ao programa de governo. Pois, na inter-relação entre estes três aspectos está fundamentada a práxis da política anti-revolucionária, a qual tem muito a oferecer a ação politica em tempos hodiernos.

 

Epílogo

 

Ora, a práxis da política anti-revolucionária se estabelece em conformidade com os pressupostos da política anti-revolucionária; e são estabelecidos estes aspectos concernentes a práxis, do mesmo modo e da mesma maneira com que foram explicados os pressupostos teóricos; com isso, se tem o escopo de uma filosofia política contra os princípios da Revolução Francesa e seus frutos, orientada tanto na teoria quanto na práxis. E termina aqui este escrito. Laudate Deo


Sinceridade

Dos homens a melhor qualidade é a vida em sinceridade; a glória mais excelsa de uma vida honesta.   A sinceridade é amiga da verda...