10/03/2023

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Nota Preliminar.

 

Os artigos que compõem este escrito são provenientes de algumas indagações que me foram feitas entre novembro de 2022 e março de 2023, que pelo modo de cada indagação, exigia um tipo de resposta ao modo de quaestio; ao responder estas perguntas gerou-se um texto coeso e em inter-relação; por isso, resolvi ajuntar estas indagações em conjunto e colocá-las como um único escrito.

 

Proêmio.

 

Em primeiro lugar, pergunta-se se é necessário a reflexão sobre a fé.

Segundo, se é necessário a valoração da religião.

Terceiro, se é necessário a definição de religião.

Quarto, se é necessário a designação do uso corrente da religião.

Quinto, se a religião é problema da reflexão teológica.

 

Artigo 1: Se é necessário a reflexão sobre a fé.

 

O primeiro artigo discute-se assim: se é necessário a reflexão sobre a fé.

E parece que não.

I. [Argumentos].

1. O Filósofo no livro III de De Anima afirma que a natureza não negligencia nenhuma das coisas necessárias (De An. 432b20); e, como tudo aquilo que é refletido (estudado, analisado, pesquisado), é porque não está naturalmente necessário, é clarividente o porquê a reflexão sobre a fé não é necessária; pois, a reflexão sobre a fé, como o próprio nome diz é reflexão, logo, é algo estudado, analisado, pesquisado, e por isso, não se encaixa na descrição das coisas que são necessárias; portanto, a reflexão sobre a fé, como não é uma das coisas necessárias, a partir do próprio nome fé conclui-se que a reflexão sobre a fé não é necessária.

2. Ademais, o evangelista dos segredos de Deus afirma que os que creem, isto é, os que tem fé, não tem necessidade que sejam ensinados, porque receberam uma unção que os ensina em todas as coisas (cf. 1Jo 2.27); portanto, se os que tem fé não precisam ser ensinados, logo, a reflexão, o estudo sobre a fé, não é necessário; pois, toda reflexão, todo estudo, toda análise, é feita com vista a ensinar e a burilar o próprio ensino; e se aqueles que creem não precisam de que alguém os ensina, então, a reflexão sobre a fé é desnecessária.

II. [Em Contrário].

Mas, em contrário, diz a Escritura, “estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós” (1Pe 3.15); logo, é necessário o estudo sobre a fé, para que a razão da esperança seja melhor entendida, e, então, mais bem explicada e demonstrada.

III. [Solução].

A reflexão sobre a fé é necessária porque o próprio ato da fé, o crer, é necessariamente imbuído da compreensão (cf. Is 7.9b); a máxima de Santo Agostinho denota isso de maneira inconfundível: “creio para entender[1]; a fé, o crer, implica necessariamente e logicamente o entender; portanto, a reflexão sobre a fé é parte do próprio ato de crer; pois, a fé, não somente é assentimento da mente e confiança do coração, mas também é conhecimento para a razão, para a inteligência; a fé açambarca a mente, o coração e a razão; por isso, a fé ao mesmo tempo é assentimento, confiança e conhecimento.

IV. [Resposta aos Argumentos].

1. Quanto ao primeiro se responde que embora o dito do Filósofo esteja correto, de que a natureza não negligencia nenhuma das coisas necessárias, a própria natureza também reclama um entendimento das próprias coisas necessárias; conquanto a natureza não as negligencie, a natureza não as explica racionalmente, sendo esta a função dos próprios seres humanos; deste modo, como o próprio Filósofo atesta no livro I da Metafísica, que todos os homens tendem ao saber (Met. 980a22), então, a reflexão sobre as coisas necessárias é naturalmente imbuída para este tender ao saber; donde, a própria fé ter imbuída em si a condução ao saber, a reflexão; e o estudo, a reflexão, a análise, a pesquisa sobre a fé é necessária, porque a própria fé reclama entendimento. Logo, a reflexão sobre a fé é intrinsecamente ligada ao próprio ato da fé, e, por isso, é uma das coisas necessárias, já que o assentir da mente à fé ilumina a mente e aquece a vontade para a própria compreensão sobre a fé, a qual é uma das coisas necessárias, tal como diz a Escritura: “Ora, sem fé é impossível agradar-lhe, porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que é galardoador dos que o buscam” (Hb 11.6).

2. Quanto ao segundo se responde que a expressão do evangelista dos segredos de Deus refere-se a realidade da fé outorgada a todos os que creem, isto é, a esperança que não decepciona que é derramada no coração pelo Espírito Santo (cf. Rm 5.5), a qual é derramada no coração de quem crê; logo, em relação a iluminação para a compreensão das coisas espirituais, a unção, isto é, o Espírito Santo, é quem ensina, e nisto aqueles que creem não precisam que ninguém os ensine, pois estes tem o Espírito Santo em seus corações para os guiar às palavras de Cristo, para os guiar a própria Verdade; mas em relação a compreensão da fé, a um melhor entendimento da razão da fé, sempre é necessário uma reflexão mais apurada, para uma explicação mais detalhada. A reflexão sobre a fé é feita não para provar-lhe o mérito, mas somente para tornar mais claros os ensinamentos que convém a fé (cf. STh Ia, q. 1, a. 5, ad. 2).

 

Artigo 2: Se é necessário a valoração da religião.

 

O segundo artigo discute-se assim: se é necessário a valoração da religião.

E parece que não.

I. [Argumentos].

1. O Filósofo afirma no livro I do De Caelo, que Deus e a natureza nada criam que seja inútil (cf. De Cael. 271a34); logo, a religião não deve ser valorada, porque se Deus e a natureza nada criam que seja inútil, convém que tudo aquilo que Deus e a natureza criam sejam por si mesmos valorados, ou então são necessariamente inúteis. Portanto, se a religião precisa ser valorada diante do racionalismo ou diante de qualquer outra coisa, a própria religião é inútil; logo, qualquer forma de valoração da religião é desnecessária.

2. Ademais, no profeta está escrito: “Porque eu quero misericórdia e não sacrifício” (Os 6.6); logo, se é necessário a misericórdia e não sacrifícios, é clarividente que a religião não deve ser valorada, mas apenas as ações virtuosas; portanto, a religião não deve ser valorada porque o próprio Deus afirmara que prefere misericórdia e não sacrifícios (religião), logo, é por isso que a religião não deve ser valorada.

3. Ademais, Eusébio afirma religião é um ato de culto demoníaco[2]; logo, se a religião é somente um ato de culto demoníaco, a mesma não deve ser valorada; pois, todo ato de culto demoníaco não deve ser valorado; portanto, a religião não deve ser valorada.

4. Ademais, Kant afirma que teve que suprimir o saber para encontrar um lugar para a fé[3]; logo, se o saber teve de ser suprimido para dar lugar a fé, qualquer forma de valoração da religião não pode ser aceita, porque senão o saber terá de ser suprimido. Portanto, a valoração da religião só pode ocorrer sob a desvalorização do saber, e como o saber é imprescindível para a vida humana, logo, é desnecessário a valoração da religião; pois, se o saber teve de ser suprimido para dar lugar a fé, então, a fé, a religião, no desenrolar da coragem de pensar, tem de ser suprimida para dar lugar ao saber. Deste modo, é clarividente o porquê a valoração da religião é desnecessária; etc.

5. Ademais, Hegel afirma que a filosofia deve acabar com a religião[4]; logo, a religião não deve ser valorada, porque é função da filosofia, da razão pensante, acabar com a religião; portanto, onde há filosofia, não pode haver religião; por isso, a religião não deve ser valorada.

II. [Em Contrário].

Mas, em contrário, Santo Agostinho diz que o caminho de toda vida boa e feliz é encontrado na verdadeira religião[5]; logo, toda vida digna é uma vida na verdadeira religião, que ensina o caminho da virtude e da vida feliz aos homens, a qual é descrita pela Escritura da seguinte maneira: “A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e guardar-se da corrupção do mundo” (Tg 1.27).

III. [Solução].

A valoração da religião é necessária porque é a religião que conduz ao caminho de todo vida boa e feliz, como dissera Santo Agostinho; e este caminho da vida boa e feliz é através dos atos que cada um pratica ao se ordenar para Deus; pois, a religião, implica necessariamente e logicamente, o se ordenar para Deus; e ao se ordenar para Deus, o homem passa-se a viver de acordo com os preceitos de Deus, o qual, por sua vez, ordena aos homens o que é viver de maneira correta: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é que o SENHOR pede de ti, senão que pratiques a justiça, ames a beneficência, e andes humildemente com o teu Deus?” (Mq 6.8). Com isso, a valoração da religião é necessária porque o ato de se ordenar para Deus, conduz a andar humildemente com Deus, praticar a justiça e amar a beneficência; andar com Deus e praticar a justiça; amar a Deus e amar a beneficência; deste modo, a religião deve ser valorada porque ensina os homens a prática da virtude; donde, o Teólogo asseverar: “de acordo com isso, diz-se que o ato da religião por meio de comando é visitar os órfãos e as viúvas em suas tribulações, o que é um ato elícito de misericórdia, mas manter-se imaculado deste mundo é de fato um imperativo da religião, mas, enquanto ato elícito, é parte da temperança ou de alguma virtude semelhante” (STh IIaIIae, q. 81, a. 1, ad. 1).

IV. [Resposta aos Argumentos].

1. Quanto ao primeiro se responde que embora seja verdade que Deus e a natureza nada criam que seja inútil, tanto Deus no ato criador soberano, quanto a natureza no ato criador derivado (ato subcriador), produzem o que é necessário à vida humana; então, a natureza particularmente, no que tange a vida humana, proporciona tudo o que é necessário ao desenvolvimento humano, mas não tolhe o que é intrinsecamente parte da natureza humana; por isso, tudo o que faz parte da natureza humana é pela mesma valorado; pois, tudo o que é naturalmente humano, isto é, que faz parte intrínseca da natureza humana, é por isso mesmo naturalmente necessário. Logo, a religião, como parte intrínseca da natureza humana, do homo religiosus, assim como a razão, é naturalmente valorada, porque faz parte da natureza humana, e não precisa ser valorada nas categorias do racionalismo, mas valorada nas categorias fundamentais que constituem a própria existência dos seres humanos. Logo, a religião não requer aquiescência do racionalismo para se tornar válida, já que por natureza é validada pela natureza humana, o que se demonstra de maneira absoluta pelo religar e pelo reler.

2. Quanto ao segundo se responde que embora a Escritura testemunha a vontade de Deus na predileção pelos atos elícitos de misericórdia e não os sacrifícios cerimoniais, a religião deve ser valorada, porque a religião se demonstra na vivência prática como atos elícitos de misericórdia, tal como diz o próprio Senhor Deus: “Porventura, não é este o jejum que escolhi: que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo, e que deixes livres os quebrantados, e que despedaces todo o jugo? Porventura, não é também que repartas o teu pão com o faminto e recolhas em casa os pobres desterrados? E, vendo o nu, o cubras e não te escondas daquele que é da tua carne? Então, romperá a tua luz como a alva, e a tua cura apressadamente brotará, e a tua justiça irá adiante da tua face, e a glória do Senhor será a tua retaguarda” (Is 58.6-8).

3. Quanto ao terceiro se responde que conquanto Eusébio afirme que exista uma forma de religião que é ato de culto demoníaco, existe evidentemente a religião que não é ato de culto demoníaco; pois, se existe uma falsa religião, logicamente, existe a verdadeira religião; assim, Eusébio demonstra a falsa religião como um ato de culto demoníaco, a qual na descrição do historiador eclesiástico, era aquela que perseguia os cristãos e os matava virulentamente; e esta forma de religião, o culto demoníaco, não deve ser valorada; e, logicamente, em contraponto, a verdadeira religião deve ser valorada.

4. Quanto ao quarto se responde que conquanto Kant afirme que teve de suprimir o saber para dar lugar a fé, o verdadeiro saber não destrói a fé, antes é dignificado pela própria fé. A fé não tolhe, mas aperfeiçoa o saber; por isso, o saber não é suprimido para dar lugar a fé, a não ser que o saber não seja saber e sim opinião; o verdadeiro saber, a episteme, não precisa ser suprimido para dar lugar a fé, mas a opinião, a doxa, precisa suprimir a fé para encontrar lugar para a opinião tida como saber; logo, a religião tem de ser valorada porque o verdadeiro saber evidencia a religião, e a religião dignifica o verdadeiro saber. Portanto, a valoração da religião ocorre a medida que há a valoração do verdadeiro saber; e onde há a supressão do verdadeiro saber, logo haverá supressão da religião; pois, do mesmo modo como o saber, a religião também é imprescindível à vida humana. Com isso, a valoração da religião é sumamente necessária, para que os homens possam pensar adequadamente e o saber seja edificado corretamente, contrariamente do que propusera Kant.

5. Quanto ao quinto se responde que embora Hegel queira através da filosofia acabar com a religião, isso é algo impossível, porque se a filosofia tomar o lugar da religião deixa de ser filosofia; na verdade, a razão pensante não deve acabar com a religião, já que a própria razão pensante dá testemunho da existência da religião; deste modo, é função da filosofia a análise racional, mesmo a análise racional da revelação e da religião, formando assim, respectivamente, o que se chama de filosofia da revelação e filosofia da religião; mas a filosofia não se transmogrifa em religião, a não ser sob a destruição da razão para a deificação de algum homem que quer se tornar deus; no caso, é o que Hegel quisera fazer, sobrelevar sua filosofia no lugar da religião e tornar sua filosofia uma nova religião, para se tornar um novo deus. Deste modo, qualquer invectiva da filosofia em querer abolir a religião, é na verdade sinal do desvario da própria filosofia ou do sistema filosófico que quer abolir a religião. Logo, a religião e a filosofia andam juntas, cada uma em sua determinada esfera, a religião nas coisas concernentes a Deus, a filosofia nas coisas concernentes a racionalidade humana. A verdadeira filosofia não acaba com a religião, antes, pelo contrário, dignifica e valora a existência da religião como uma esfera inegável da vida humana.

 

Artigo 3: Se é necessário a definição de religião.

 

O terceiro artigo discute-se assim: se é necessário a definição de religião.

E parece que não.

I. [Argumentos].

1. O cristianismo não é uma religião, mas sim a doutrina de Cristo; cristianismo não é religião, mas o cristianismo é Cristo; então, não é necessário a definição de religião, já que o cristianismo não se configura a partir de alguma definição de religião, ou de um juízo religioso, mas pura e simplesmente se configura em Cristo, na realidade da vida e obra de Cristo; logo, não é necessário a definição de religião.

2. Ademais, Barth afirma que a revelação é a abolição da religião[6]. Logo, a revelação de Deus consumada plenamente em Jesus Cristo abole qualquer forma de religião; deste modo, não é necessário a definição de religião, mas somente de revelação, já que a revelação em Jesus Cristo abole a religião e ensina os homens a viver de acordo com os ensinamentos de Cristo e não da religião; portanto, a revelação abole a religião e estabelece-se como única forma de conhecer a Deus.

II. [Em Contrário].

Mas, em contrário, diz o Teólogo: “quer se diga que a religião vem da leitura frequente, ou da seleção repetida daquilo que foi perdido descuidadamente, ou da religação, a religião transmite adequadamente em nos ordenarmos para Deus” (STh IIaIIae, q. 81, a. 1, co.). Logo, tudo o que diz respeito a verdadeira religião, seja pelo reler, seja pelo religar, está em contato estreito com a revelação da qual brota a verdadeira religião, como resposta humana à revelação divina, e da qual brotam a fé, a esperança e o amor.

III. [Solução].

A religião é se ordenar para Deus, isto é, é o ato de resposta a Deus por Sua Revelação, naquilo que Ele mesmo demonstra em Sua Revelação como obrigação moral do ser humano para viver diante d’Ele em santidade. E isto, seja em atos diretos a Deus, em culto e honra somente a Deus, seja em atos de virtude para com o próximo, nos atos elícitos de misericórdia; com isso, a religião se estabelece como realidade intrínseca do cristianismo: primeiro, porque foi assim que Cristo viveu, honrando a Deus e cuidando do próximo; segundo, porque foi assim que fora instituído pela Escritura, o que deve equalizar a verdadeira religião, descrita como visitar os órfãos e as viúvas em suas necessidades e guardar-se incontaminado da corrupção do mundo (cf. Tg 1.27).

IV. [Resposta aos Argumentos].

1. Quanto ao primeiro se responde que conquanto o cristianismo seja a doutrina de Cristo, isto é, a mensagem das boas-novas em Cristo, do mesmo modo o cristianismo também é uma religião; a realidade intrínseca do cristianismo é ser mensagem das boas-novas em Cristo, mas devido a esta realidade intrínseca, aclarada pela revelação, o cristianismo é instituído por Deus como a religião verdadeira, que testemunha da vida e da obra de Cristo; por isso, é necessário se definir o vocábulo religião, na medida em que a descrição do cristianismo como religião se estabeleça a partir da realidade do cristianismo como religião que brota da revelação, que é testemunho da vida e da obra de Cristo.

2. Quanto ao segundo se responde que embora a conceituação de Barth esteja correta em relação as falsas religiões, já que a revelação de Deus em Cristo é abolição das falsas religiões e das religiões passageiras, ao mesmo tempo em que abole estas, a revelação de Deus institui a religião verdadeira; a revelação abole as falsas religiões e define qual é a religião verdadeira, a religião da revelação; por isso, a religião verdadeira é estabelecida a partir da revelação e em consonância com a revelação. Deste modo, religião e revelação são vocábulos complementares; a religião confirma e atesta a revelação; e a revelação institui e demonstra a verdadeira religião. Nisto, a afirmação do teólogo da Basileia é melhor entendida e mais bem aplicada, tal como o próprio afirma: “A revelação de Deus no derramamento do Espírito Santo é a presença julgadora, mas também reconciliadora de Deus no mundo da religião humana, isto é, no âmbito das tentativas do homem de se justificar e se santificar diante de uma imagem caprichosa e arbitrária de Deus. A Igreja é o locus da verdadeira religião, na medida em que pela graça ela vive da graça[7].

 

Artigo 4: Se é necessário a designação do uso corrente da religião.

 

O quarto artigo discute-se assim: se é necessário a designação do uso corrente da religião.

E parece que não.

I. [Argumentos].

1. Hegel afirma em suas preleções sobre a filosofia da religião que a religião é o espírito que se realiza na consciência[8]; logo, se a religião é o espírito que se realiza na consciência, não é necessário a designação do uso corrente da religião, pois, a religião não se designa pelo uso corrente, mas pela realização do espírito na consciência. Portanto, a religião é o contato da consciência consciente da relação com Deus com o espírito, e em como este se realiza na consciência, o que por si demonstra não ser necessário a designação do uso corrente da religião.

2. Ademais, Schleiermacher afirmara que a essência da religião não é pensamento nem ação, mas contemplação e sentimento[9]; logo, a religião não possui um uso corrente, pois não é ação, mas apenas ato contemplativo e sentimento, isto é, consciência de dependência absoluta, do estar em relação com Deus. Portanto, não é necessário a designação do uso corrente da religião.

II. [Em Contrário].

Mas, em contrário, Santo Agostinho diz que através da verdadeira religião, o único Deus é adorado com piedade muito pura[10]. Portanto, o uso corrente da religião é evidenciado como ato de adorar a Deus, com piedade e pureza, o caminho da vida feliz, o qual é princípio irredutível do uso corrente da religião.

III. [Solução].

A religião importa em seu uso corrente, porque é tanto ato interno quanto ato externo; sendo o externo guiado e formado pelo interno, bem como sendo o externo evidencia do interno; deste modo, a religião, em seus atos externos demonstra seu uso corrente, o qual, por sua vez, atesta da realidade do fenômeno religioso como disposto nos atos internos; por isso, o salmista afirma: “A minha alma está anelante e desfalece pelos átrios do SENHOR; o meu coração e a minha carne clamam pelo Deus vivo” (Sl 84.3). Portanto, o uso corrente da religião se demonstra tanto pelos atos internos quanto pelos atos externos, tal como diz o Teólogo: “a religião tem de fato os atos interiores como principais e pertencentes em si à religião, mas os atos exteriores como secundários e dirigidos aos atos interiores” (STh IIaIIae, q. 81, a. 7, co.). Logo, tanto nos atos que provêm do coração quanto nos atos que evidenciam pelos membros do corpo, ou seja, em tudo o que o ser humano é e faz, tem-se algo de religioso, e consequentemente, algo que demonstra o uso corrente da religião.

IV. [Resposta aos Argumentos].

1. Quanto ao primeiro se responde que embora Hegel faça a descrição da religião como o espírito que se realiza na consciência, tal descrição é errônea porque a religião diz respeito a certo ordenar-se para Deus, e não a realização da consciência; e o ordenar-se para Deus não é o realizar-se da consciência, mas o estar em relação com Deus; donde, a afirmação de Hegel designar o ato religioso como satisfação humana, ao invés de estar em relação com Deus; logo, a proposição de Hegel não é válida; e por isso, a religião enquanto ordenar-se para Deus tem um uso corrente, já que ordena-se para o culto a Deus, e, consequentemente, para os atos elícitos de misericórdia.

2. Quanto ao segundo se responde que embora a essência da religião tenha contemplação e sentimento, isto é, tenha consciência de dependência absoluta, esta própria consciência, por designar o estar em relação com Deus, demonstra o uso corrente da religião; deste modo, a religião é estar em relação com Deus (contemplação e sentimento), mas também é reler as cousas a partir deste relacionar-se com Deus; e por isso, a religião possui um uso corrente, evidenciado e demonstrado a partir do estar em relação com Deus. Portanto, a designação da religião como sentimento, evoca necessariamente o uso corrente da religião, que molda-se pelo sentimento, cristaliza-se pela afeição religiosa e evidencia-se na prática das virtudes.

 

Artigo 5: Se a religião é problema da reflexão teológica.

 

O quinto artigo discute-se assim: se a religião é problema da reflexão teológica.

E parece que não.

I. [Argumentos].

1. A religião é problema da existência humana; pois, onde o ser humano vive e se desenvolve, e em tudo o que é e faz, tem as manifestações religiosas como parte deste desenvolvimento; logo, a religião não é problema específico de nenhuma ciência, mas parte da grande questão que envolve o todo da vida humana. Portanto, a religião não é problema da reflexão teológica.

2. Ademais, Cícero, no livro II de De Natura Deorum, afirma que a religião é a observação diligente e coerente de tudo aquilo que diz respeito a veneração dos deuses; logo, se a religião diz respeito ao que é necessário para a veneração dos deuses, então a religião não é problema da reflexão teológica.

3. Ademais, o Teólogo diz que religião é o mesmo que a santidade (cf. STh IIaIIae, q. 81, a. 8, ad. 1); logo, se a religião é o mesmo que santidade, então, a religião é problema da ética; portanto, a religião não é problema da reflexão teológica.

4. Ademais, Barth assevera que a religião é incredulidade[11]; e o que é incredulidade não é base da reflexão teológica; então, sendo a religião descrita como incredulidade, a mesma não é base da reflexão teológica; logo, a religião não é problema da reflexão teológica.

II. [Em Contrário].

Mas, em contrário, a Escritura diz: “A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: visitar os órfãos e a viúvas nas suas tribulações e guardar-se da corrupção do mundo” (Tg 1.27); e isto, com relação a verdadeira religião; e a Escritura também diz: “Por que jejuamos nós, e tu não atentas para isso? Por que afligimos a nossa alma, e tu o não sabes? Eis que, no dia em que jejuais, achais o vosso próprio contentamento e requereis todo o vosso trabalho. Eis que, para contendas e debates, jejuais e para dardes punhadas impiamente; não jejueis como hoje, para fazer ouvir a vossa voz no alto. Seria este o jejum que eu escolheria: que o homem um dia aflija a sua alma, que incline a cabeça como o junco e estenda debaixo de si pano de saco grosseiro e cinza? Chamarias tu a isso jejum e dia aprazível ao Senhor?” (Is 58.3-5); e isto, com relação aos atos da falsa religião. Logo, a Escritura tanto prescreve a natureza da verdadeira religião quanto demonstra a natureza da falsa religião.

III. [Solução].

A religião, tanto a verdadeira quanto a falsa, é parte objetal da reflexão teológica; ora, o que é parte da reflexão teológica é problema teológico; logo, a religião é problema teológico, já que tanto se refere a Deus, quanto se refere aos homens; pois, permeia as duas esferas relacionais da reflexão teológica, a esfera vertical, em relação a Deus, e a esfera horizontal, em relação aos homens; portanto, a religião é problema inegável da reflexão teológica. E, em sentido estrito, a verdadeira religião é propriamente objeto da reflexão teológica; ora, se a verdadeira religião é objeto da reflexão teológica, então, o contrário da mesma também é, isto é, as falsas religiões; pois, segundo o Filósofo, uma coisa é verdadeira a medida que apresenta combinação e dissociação (Met. 1027b20); logo, se a religião verdadeira é objeto da reflexão teológica, o que atesta a combinação, então, as falsas religiões também o são, pois atestam a dissociação; logo, para uma compreensão teológica plena do fenômeno religioso, não somente a religião verdadeira se torna objeto de estudo, mas sob a base da religião verdadeira, se estuda as outras religiões, o que por si não tolhe a unidade do objeto religioso da reflexão teológica, mas o enriquece a partir da compreensão e do conhecimento de outras religiões; pois, o estudo da verdadeira religião demonstra a doutrina revelada, enquanto que o estudo das falsas religiões demonstra o quão distante estas estão da doutrina revelada. Portanto, o estudo da religião é problema inerente a reflexão teológica.

IV. [Resposta aos Argumentos].

1. Quanto ao primeiro se responde que a religião é problema inerente a existência humana; pois, o ser humano, em sua essência, é um ser religioso, e a piedade, símbolo da religiosidade inerente do ser humano, segundo Platão, é uma das cinco virtudes primordiais[12]; logo, o ser humano em sua vida, em tudo o que é e faz, desenvolve sua religiosidade; e, por ser parte da vida humana, o é da investigação racional, pois, tudo o que é naturalmente humano e que faz parte da vida humana é fonte e base para a reflexão racional; e, sendo a religião parte inerente da vida humana, então, é problema da reflexão racional; logo, se faz necessário a reflexão racional sobre a religião, que na filosofia se estabelece a partir do que se denomina filosofia da religião, que busca a compreensão racional sobre o fenômeno religioso. E, sendo parte da filosofia, também é da teologia; embora na teologia tenha outros princípios e critérios do que os da filosofia; portanto, sendo a religião problema da reflexão racional, filosófica, também é problema da reflexão teológica; pois, a teologia não somente lida com Deus, mas também com o ser humano e as coisas humanas enquanto em relação com Deus; logo, lida necessariamente e logicamente com a religião.

2. Quanto ao segundo se responde que a religião como elemento inegável da vida humana, lida necessariamente com o religioso como fenômeno humano; por isso, no dizer de Cícero, a religião diz respeito a veneração dos deuses, isto é, os modos como os seres humanos veneram os deuses; todavia, isso exemplifica a religião e o fenômeno religioso como aspectos indiscutíveis da natureza humana; portanto, a reflexão sobre a religião se torna problema de qualquer análise racional sobre o fenômeno religioso; e, a teologia, como se ocupa com o problema religioso, há de analisar o fenômeno religioso, mesmo diante da evocação das diversas outras religiões sobre a veneração dos deuses. A descrição inicial e geral sobre a religião a partir da veneração dos deuses como se encontra em Cícero e nos autores clássicos não tolhe a importância do fenômeno religioso para a teologia e para a reflexão teológica; antes, demonstra a necessidade de análise do fenômeno religioso a partir das diversas religiões e no modo devem ser entendidas a partir da revelação de Deus. Se a religião para Cícero constitui-se da veneração dos deuses, e isto constitui-se de uma ampla gama de fenômenos religiosos, então, a veneração ao Deus verdadeiro, tem de se constituir da base preponderante para se compreender os efeitos provenientes da veneração dos deuses; a latria é o verdadeiro fundamento para se compreender a idolatria, e os elementos da idolatria não somente são fonte de conhecimento sobre a natureza da veneração dos deuses, mas principalmente para se compreender a distinção a partir da revelação de Deus entre a idolatria e a latria, respectivamente, da distinção entre as falsas religiões e a verdadeira religião.

3. Quanto ao terceiro se responde que a religião tem imbuída algo da ética; mas não somente da ética; por isso, o Teólogo afirma que a santidade é por essência uma virtude especial, e esta luz é de certo modo o mesmo que a religião; logo, a religião tem imbuída algo desta virtude especial, a mesma da santidade; pois, a piedade natural é comum a todos os homens, sendo identificada por Platão como uma das cinco virtudes primordiais; logo, as manifestações religiosas são evidência desta piedade natural; portanto, a religião tem a ver com a santidade, e vice-versa; todavia, com a distinção entre piedade como santidade e a piedade como bons costumes, sendo a primeira expressão da santidade espiritual, obra do Espírito Santo na santificação, e a segunda expressão da santidade natural, fruto do exercício correto da mordomia sobre a criação; com isso, a religião sempre será expressão de um destes dois aspectos, ou da junção dos dois. Portanto, a santidade não somente é problema da ética, mas também da doutrina; pois, a ética tanto diz respeito a doutrina, donde emana, quanto a própria ação virtuosa, que confirma a doutrina; portanto, a santidade se relaciona com a religião, a partir da qual esta se torna evidência daquela; logo, a religião diz respeito a ética e a doutrina, donde, nestas duas esferas se estabelecer como problema da reflexão teológica, que diz respeito tanto a doutrina quanto a ética, as quais, logicamente, permeiam a religião.

4. Quanto ao quarto se responde que a incredulidade, sendo o contrário da credulidade, é por isso mesmo também parte da reflexão teológica; pois, a reflexão teológica como se inicia e se efetiva por meio da fé, também elucubra sobre aquilo que é contra a fé, no caso, a incredulidade; logo, a descrição da religião como incredulidade tem a ver com a reflexão teológica, embora não como ditame absoluto para a compreensão da religião; pois, a religião, evidentemente, tanto pode ser descrita como incredulidade quanto pode ser descrita como credulidade; a diferença está no modo e na aplicação desta distinção; pois, a religião como incredulidade diz respeito a atitude humana de através da religião chegar a Deus por si mesmo; em relação a isso, a religião é incredulidade; todavia, a religião como credulidade diz respeito a compreensão humana sobre a fé em Jesus Cristo como base da justificação e aceitação diante de Deus (cf. Rm 5.1-2); em relação a isso, religião é credulidade, pois é proveniente da revelação. A base da distinção entre a religião como credulidade e a religião como incredulidade é a revelação; a analogia da revelação é o que distingue a verdadeira religião, a religião como credulidade, das falsas religiões, a religião como incredulidade. Portanto, tanto a credulidade quanto a incredulidade são objeto de análise da reflexão teológica, a primeira como parte inerente a própria reflexão teológica, a segunda como objeto necessário de elucubração e análise; logo, mesmo se a religião for descrita como incredulidade, ainda sim é objeto de análise para a reflexão teológica. Portanto, a religião, seja como credulidade seja como incredulidade, é problema da reflexão teológica.

***

E termina aqui este escrito. θεῷ χάρις!



[1] Santo Agostinho, Sermão 43, n. 7.

[2] Eusébio de Cesaréia, História Eclesiástica, livro VI, cap. 41, n. 2.

[3] Immanuel Kant, Kritik der Reinen Vernunft, 2ª ed., B, pág. xxx.

[4] In: Herman Nohl (ed.), Hegels Theologische Jugendschriften [Tübingen: J. C. B. Mohr, 1907], pág. 348.

[5] Santo Agostinho, De Vera Religione, cap. 1, n. 1.

[6] cf. Karl Barth, Church Dogmatics I/2 [T. & T. Clark, 1956], § 17, pág. 280.

[7] Ibidem.

[8] G. W. F. Hegel, Filosofía de la Religión - Últimas Lecciones [Madrid: Editorial Trotta, 2018], pág. 45.

[9] Friedrich Schleiermacher, Sobre a Religião [São Paulo: Fonte Editorial, 2000], pág. 33.

[10] Santo Agostinho, De Vera Religione, cap. I.

[11] cf. Barth, Op. Cit., § 17, pág. 280.

[12] cf. Platão, Protágoras, 349b. 


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