Prólogo.
As vossas indagações a respeito de aspectos
concernentes a livros, as respondo de acordo com uma opinião mais geral sobre
este assunto; evidentemente, tais indagações, ao serem respondidas, tendem a ir
para um caminho mais subjetivo; todavia, considerei por bem evocar algumas
pressuposições gerais a respeito destas indagações, para se ter respostas mais
objetivas possíveis. E fiquei imensamente feliz ao receber vossa indagação
sobre livros; pois quem ama os livros, e os lê, relê, estuda e medita,
certamente encontrou o caminho para a senda do saber.
Artigo 1: Qual o livro teológico mais importante?
Ora, esta indagação a responderei de dois modos:
primeiro, não se pode falar de livro teológico mais importante, mas sim dos
livros teológicos mais importantes (do primeiro milênio da era cristã); e
quanto a isso, posso evocar alguns, os mais conhecidos, mas se fosse fazer uma
lista detalhada se acrescentaria muitos outros; assim, num geral os livros
teológicos mais importantes são: (1) “Comentário ao Evangelho de João”
de Orígenes; (2) “Comentário aos Salmos” de Santo Agostinho; (3) “Comentário
Moral ao Livro de Jó” de São Gregório Magno; (4) “Sobre os Princípios”
de Orígenes; (5) “Orationes” de São Gregório o Teólogo; (6) “Ambígua”
de São Máximo o Confessor; (7) “Amphilochia” de São Fócio; (8) “Contra as
Heresias” de Santo Irineu; (9) “Contra Celso” de Orígenes; (10) “Contra
os Pagãos” de Santo Atanásio; (11) “Contra Eunomium” de São Gregório
de Nissa.
E, quanto ao segundo modo, se pode falar dos livros
teológicos mais importantes de acordo com a importância histórica; neste
sentido, os livros teológicos mais importantes são os seguintes (se não
tivessem sido perdido, acrescentar-se-ia nesta lista quase todos os grandes
tratados de Orígenes): (1) “Sobre os Princípios” de Orígenes; (2) “Hexapla”
de Orígenes; (3) “Contra Celso” de Orígenes; (4) “Orationes” de
São Gregório o Teólogo; (5) Os escritos de Santo Atanásio contra os arianos;
(6) “Confissões” de Santo Agostinho; (7) “A Cidade de Deus” de
Santo Agostinho; (8) “A Trindade” de Santo Agostinho; (9) “Vulgata”
de São Jerônimo; (10) “A Fé Ortodoxa” de São João Damasceno; (11) “Amphilochia” de São Fócio; (12)
“Myriobiblon” de São Fócio. E acrescentaria aqui dois textos dos
escolásticos latinos que são de suma importância: o comentário ao Corpus
Dionysiacum de Alberto Magno, e a “Suma Teológica” de Tomás de Aquino.
Embora seja difícil afirmar com precisão o que
concerne a esta indagação, as pressuposições evocadas dão um norte; pois, nunca
se é possível afirmar de modo absoluto qual o livro teológico mais importante;
se pode evocar os livros teológicos mais importantes; e entre os livros
teológicos mais importantes, em primeiro lugar estão os comentários a Sagrada
Escritura, em seguida os tratados dogmáticos, e após os tratados polêmicos ou
apologéticos; num geral, seguindo este critério se dá para ter uma adequada
compreensão sobre os livros teológicos mais importantes.
Artigo 2: Qual o livro teológico mais difícil?
Ora, se tem muitos livros teológicos que são difíceis;
mas, num geral os mais difíceis são os que são escritos em formato de síntese,
principalmente os dos escolásticos latinos; além do que, alguns textos da
teologia moderna também são bem intrincados, tal como o “Glaubenslehre”
de Schleiermacher, ou “Der Romerbrief” de Karl Barth, ou a “Kirchliche
Dogmatik” também de Karl Barth; etc.
No entanto, após ler muitas obras teológicas, a mais
difícil que encontrei foi o comentário de Duns Scotus as Sentenças de Pedro
Lombardo; o comentário de Scotus as Sentenças, em três versões diferentes é de
ínvia dificuldade, não só pela precisão da linguagem e as sutilezas
argumentativas, mas porque são três versões distintas, cada qual de ínvia
dificuldade, as quais, ao serem lidas e compreendidas, depois devem ser
acopladas no entendimento em conjunto, porque se referem a mesma obra.
Ler e entender adequadamente cada uma destas versões
já é de extrema dificuldade, agora acoplar as três versões em conjunto para se
ter uma análise unitária do pensamento de Scotus, é de uma dificuldade
imensamente maior.
Portanto, o livro teológico mais difícil a meu ver é o
comentário de Duns Scotus as Sentenças.
Artigo 3: Qual o livro filosófico mais importante?
Esta pergunta não pode ser respondida de forma
simplória; pois, não se pode falar simplesmente de livro filosófico mais
importante; mas se deve falar dos livros filosóficos mais importantes; no
entanto, se tiver que evocar apenas um livro em específico, pela amplidão de
conhecimento que concatenou e sintetizou e pelos amplos caminhos ontológicos
que disponibilizou ao longo de séculos, se afirmaria que o livro filosófico
mais importante é a Metafísica de Aristóteles; mas, para se ser justo e
estar em conformidade com a sabedoria, se afirma que o livro filosófico mais
importante é em conjunto todo o Corpus Platonicum e todo o Corpus
Aristotelicum.
Artigo 4: Qual o livro filosófico mais difícil?
Esta pergunta também é difícil de se responder; por
exemplo, Avicena dizia que o livro mais difícil é a Metafísica de
Aristóteles; e em parte está certo; não tanto porque a Metafísica é de difícil
leitura, mas pela amplidão de possibilidades filosóficas que emergem deste
inigualável texto de Aristóteles; no entanto, quanto a grau de dificuldade de
leitura e entendimento pela estrutura de argumentação e densidade, sem sombra
de dúvida, poder-se-ia também evocar os livros de Husserl - todos de ínvia
dificuldade; mas, em específico, considero dois livros de Hegel os livros
filosóficos mais difíceis neste sentido: a Fenomenologia do Espírito e a
Ciência da Lógica; a Fenomenologia do Espírito é de suma
dificuldade para se ler e entender adequadamente, e a Ciência da Lógica
é de uma dificuldade imensamente maior; na verdade, como alguém já disse, a Ciência
da Lógica é o livro mais denso da história da filosofia. Portanto, quanto a
dificuldade de leitura, estrutura de argumentação e densidade, a Ciência da
Lógica é o livro filosófico mais difícil, sendo seguido logo após em
dificuldade pela Fenomenologia do Espírito; e quanto a isso não tenho
nenhuma dúvida; embora em relação as possibilidades filosóficas que podem ser
extraídas e que estão concatenadas para todo o desenvolvimento do saber de
acordo com a ordem das disciplinas, o livro filosófico mais difícil é a Metafísica
de Aristóteles.
Artigo 5: Qual o melhor comentário bíblico?
Entre os melhores comentários bíblicos poder-se-ia
evocar os comentários de Orígenes, mesmo que tenham restado poucos fragmentos;
quanto a comentários bíblicos, Orígenes é o mais excelente autor, e por esta
razão é o comentador da Sagrada Escritura.
Além disso, se tem os comentários bíblicos de São
Jerônimo; pode-se mencionar também os comentários bíblicos de Santo Agostinho,
os comentários bíblicos de São João Crisóstomo, os comentários bíblicos de São
Teofilacto de Ócrida, entre outros.
Mas, entre todos os comentários bíblicos feitos pelos
Padres da Igreja, e que chegaram até os tempos atuais, o melhor é o “Comentário
Moral ao Livro de Jó” (ou Moralia) de São Gregório Magno, seja pela
profundidade, piedade, sapiência, eloquência, pela exegese límpida e
espiritual, etc.
Se puder leia outros comentários, mesmo os melhores
comentários dos Santos Padres, e depois leia a Moralia de São Gregório
Magno, e então certamente constatará por si mesmo que o melhor comentário
bíblico sem sombra de dúvida é este inigualável comentário de São Gregório
Magno.
***
E termina aqui estas respostas a indagações sobre
livros. θεῷ χάρις!
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