Prólogo.
As vossas indagações a respeito de vários tópicos
teológicos, requeria meu parecer de forma mais extensa e elaborada; no entanto,
ao invés de tomar vossas indagações cada uma como um artigo e respondê-las da
forma adequada, devido as muitas atividades que se me acometem, e ainda um
pouco debilitado, resolvi escrever-te da forma como posso no presente momento;
pois, ao invés de artigos ou reflexões sobre estes tópicos, resolvi escrever
algumas teses sintéticas, e as envio como resposta as vossas indagações.
Série I: Teologia Dogmática.
§ 1
A dogmática é uma das disciplinas teológicas; é um dos
mais belos empreendimentos teológicos; por isso, a dogmática é por excelência,
entre as disciplinas teológicas, a ciência da Igreja.
§ 2
A dogmática, como uma disciplina teológica, e como
expressão organizada e arquitetônica dos conteúdos da fé cristã, é uma
catedral; uma Catedral de Ideias; e como tal, é a expressão mais firme,
científica e bela de toda a estrutura da teologia cristã como ela se
desenvolveu ao longo da história; a dogmática é o âmago da teologia enquanto
ciência; assim, utiliza-se a expressão “catedral de ideias” pelo seguinte
motivo: ‘catedral’, pela estrutura organizada e bela, e (catedral) ‘de ideias’,
pelo conjunto de conhecimentos que ela engloba em seu bojo. Assim, a dogmática
é a expressão mais precisa e singular da ciência teológica.
§ 3
A dogmática é uma disciplina teológica; e como tal,
processa em si todo o legado cumulativo da teologia cristã, e os sublima, em
uma estrutura racional, lógica, harmoniosa, que pontifica a dogmática a uma
igualdade de estrutura com as catedrais; em sua inteireza a dogmática é uma
catedral; uma catedral da mente, ou melhor, uma catedral de ideias. E isto está
em perfeito acordo com a função da dogmática em processar todo o legado
cumulativo da teologia cristã, que em termos bibliográficos e literários, conflui-se
como a maior biblioteca do conhecimento humano.
§ 4
A dogmática, portanto, engloba as pressuposições de
beleza, estrutura e conteúdo, aplicados a análise e investigação sobre os
dogmas da Igreja, sobre os mais essenciais e portentosos aspectos da doutrina
cristã, na análise das Escrituras, e na ampliação do legado dos teólogos do
passado.
§ 5
A função dos prolegômenos a dogmática [praecognita
Theologiae] é elucidar, em primeira instância, a importância de se ter
prolegômenos no estudo científico da verdade revelada; em segunda instância,
trabalhar as questões fundamentais da dogmática, isto é, sua relação com a
teologia, com os dogmas, e com a ciência em geral; isto tudo forma a questão da
tarefa dos prolegômenos, os quais estão para a dogmática assim como está o
projeto para o arquiteto ou o manual para o estudioso; a função dos
prolegômenos a dogmática é introduzir o leitor nos questionamentos e respostas
referentes a Teologia e à Dogmática como um todo. São os estudos introdutórios
(praecognita) necessários a ciência teológica.
§ 6
Os prolegômenos a dogmática são como que a antessala
que precede o salão principal com suas magníficas obras de arte; também pode-se
falar dos prolegômenos como um discurso inicial, tal como uma alocução
inaugural, que apresenta os temas gerais concernentes ao objeto de estudo, de
modo que suas nuances e perspectivas sejam salientadas. De fato, elucubrar
sobre questões iniciais em relação a dogmática é muito necessário e muito
pertinente; necessário para se entender o propósito geral da teologia como
ciência, e da dogmática também como ciência e como expressão mais singular da
ciência teológica, além de proporcionar uma visão multi-perspectiva na
construção do sistema dogmático; pertinente, porque, trabalha questões
geralmente ignoradas, mas que devem ser elencadas, para que se tenha mais
firmeza a respeito das coisas concernentes a fé, numa exposição organizada e
racional. Os prolegômenos a dogmática, pois, cumprem esta questão, preparam o
leitor, o estudioso, o teólogo, para adentrar no maravilhoso mundo dentro da
teologia, para adentrar na catedrática estrutura da dogmática, para vislumbrar
na terra, através de um sistema dogmático, ainda que apenas centelhas, as
glórias do Deus altíssimo e de Sua Santa Palavra.
§ 7
A dogmática é uma ciência; e como uma ciência está
presente na estrutura racional do conhecimento humano, no universum do
conhecimento humano; mas não é presa por ele, pois tem seu objeto muito bem
definido e sua função muito bem estabelecida, que a diferencia de todas as
outras ciências, pois é uma disciplina teológica; seu objeto, portanto, é o
próprio Deus, e sua função é sistematizar o que as Escrituras falam sobre Deus
e suas obras. Além do que, como ciência teológica, tem como sujeito
altissonante a Igreja. A dogmática é um ensaio sobre Deus e sua Palavra a
partir da proclamação da Igreja.
§ 8
A dogmática é uma ciência que por antonomásia é
ciência da Igreja; como uma ciência a dogmática tem em si a exposição e a
figuração daquilo que os primeiros teólogos indicam ser o cristianismo como a culminação de toda a cultura antiga
(culminação da filosofia grega, da teologia hebraica, etc.); como uma ciência
da Igreja, a dogmática tem em si que ela organiza, sistematiza, faz belas as
doutrinas cristãs fundamentais, tornando-as cientificamente em dogmas, e
organizando-as em sua própria estrutura. Uma doutrina o é como expresso nas Escrituras,
e então, confessada pelos cristãos; um dogma é esta doutrina exposta
racionalmente, e então, a mesma torna-se objeto de confissão de toda a Igreja.
Por isso, a dogmática é a expressão mais alta da inteligência racional e
organizadora do ser humano em relação a sua atividade para com a verdade
Revelada, isto é, da Teologia de forma geral, bem como a expressão mais sublime
da explicação e exposição dos elementos fundamentais da fé “que de uma vez
por todas fora dada aos santos” (cf. Jd 1.3).
§ 9
O estudo teológico é e sempre será o mais portentoso
dos estudos, o mais notável dos conhecimentos e o mais singular dos
acontecimentos teoréticos que podem ser acometidos a uma pessoa; por isso, ao
se adentrar no estudo teológico, ou ainda, na formação da compreensão de tal
classe de estudo, é necessário entender sobre a chave tríplice que regula este
estudo, a saber: Escritura, Tradição e Mistagogia.
§ 10
A dogmática, sendo uma ciência e uma disciplina
teológica, possui um método, pois toda ciência possui método; e por método,
entende-se não somente o rigor científico próprio da dogmática, isto é, a forma
como as doutrinas são analisadas, mas também os princípios pelos quais o
pensamento cristão, o sistema da verdade cristã é disposto e então, estudado, analisado
e evidenciado. O método da dogmática, de certa forma, demonstra qual o
desenvolvimento a dogmática vai seguir, do mesmo modo como a bula indica as
questões referentes ao respectivo remédio ou como a planta da construção indica
como se deve proceder na construção. O método teológico é a planta de
construção da reflexão teológica.
§ 11
A dogmática é expressão do pensamento teológico; não é
por menos que a dogmática é a catedral de ideias teológicas; a questão de a
dogmática ter um método, tem toda uma justaposição em relação ao legado
cumulativo da teologia cristã; da mesma forma como nos credos e confissões, o
sistema da verdade cristã é condensado em tópicos gerais, na dogmática também
tem-se o método no estudo mais prolongado dos temas doutrinários principais do
cristianismo; o método é necessário para a dogmática a fim que a mesma, como
ciência, finque estacas bem seguras sobre os aspectos que vai analisar e
elucidar. O método da dogmática, é concebido de diversas formas, nos mais
variados autores que propuseram assim edificar uma teologia dogmática; por
isso, nem sempre há concordância sobre os lugares gerais da dogmática como um
todo; mas há algo de apodítico em relação ao método da dogmática, que é a
presença de lugares comuns, de temas comuns,
os quais são as doutrinas centrais da cristandade, e mesmo que tratada
de forma diferente neste ou naquele autor, em relação a sua disposição e
apresentação, sempre há uma perspectiva central no tratamento ortodoxo destas
doutrinas, perspectiva que é avaliada e testada pela Sagrada Escritura e pela
Sagrada Tradição. Por isso, sempre se tem uma homologia entre os temas centrais
das Escrituras e os temas centrais da Tradição, em relação aos temas centrais
da dogmática. A Escritura é a fonte absoluta de regra e conduta, a Tradição
onde a Escritura é interpretada, e a dogmática é a exposição dos temas centrais
das Escrituras, sob a égide de um método científico, para análise profunda e
exaustiva destes temas de acordo com a Tradição, para justificar o conteúdo da
proclamação da Igreja para a própria Igreja. Portanto, a dogmática é a
exposição exaustiva das doutrinas centrais da fé cristã.
§ 12
A dogmática é o âmago da ciência teológica; a
dogmática analisa os dogmas, isto é, analisa as doutrinas fundamentais da
Igreja, o que por si é uma tarefa laboriosa; e, como tal, precisa de elucidar
os pontos doutrinários da fé cristã; e para isso, é necessário apresentar
brevemente cada um destes principais pontos doutrinários; o esboço da dogmática
é elencado para tal finalidade, a saber: analisar os principais pontos
doutrinários, e explicá-los introdutoriamente, numa espécie de exposição e
demonstração dos argumentos da fé cristã; o esboço da dogmática é uma
propedêutica das doutrinas fundamentais da Igreja e dos temas centrais da
doutrina cristã; ou em termos aristotélicos, o esboço da dogmática é uma “apodeixis”
dos artigos da fé cristã.
§ 13
A dogmática em seu esboço aparece como uma simples
exposição das doutrinas fundamentais da Igreja; no entanto, apesar da
simplicidade, é um dos aspectos mais necessários dos prolegômenos, pois indica
e pontifica o caminho para o entendimento geral que estará presente no
desenvolvimento da dogmática; assim, o esboço da dogmática pode ser
exemplificado como se fossem preleções introdutórias, extremamente necessárias
para o estabelecimento da questão dogmática; assim, como na exposição das
Escrituras, ou no estudo de algum tema prolongado, é necessário estabelecer uma
introdução - da mesma forma como se faz nos prolegômenos a dogmática -, do
mesmo modo, se tem a questão da formulação do esboço da própria dogmática, não
para servir como introdução a dogmática enquanto ciência (o que é tarefa dos
prolegômenos como um todo), mas para servir como introdução as doutrinas e
dogmas fundamentais que vão ser analisados na dogmática. O esboço da dogmática,
pode ser exemplificado, através daquilo que o cronista da atividade apostólica,
o Dr. Lucas, expressara ao escrever o evangelho, a saber: informar os assuntos
que o destinatário de seu evangelho já conhecia (cf. Lc 1.3-4). Assim, tem-se
que o esboço da dogmática é para informar sobre os assuntos doutrinários
fundamentais, bem como expressá-los de tal forma que fiquem evidentes no
tratamento exaustivo posterior.
§ 14
A dogmática está indissoluvelmente ligada com a ética,
e a ética está indissoluvelmente liga a dogmática, pois, o organismo da
doutrina cristã, é ao mesmo tempo teorético e prático; por isso, não existe
dogmática sem ética, e não existe ética sem dogmática. A dogmática é a resposta
para a pergunta sobre no que, em que e em quem se deve crer; a ética é a
resposta para a pergunta sobre o como se deve viver.
§ 15
A perspectiva do estudo teológico na contextura da
dogmática se dá devido as compreensões necessárias do modo de estudo, do tipo
de estudo e do lugar do estudo da doutrina sagrada no universo das ciências; e
isto se configura de tal modo que o estudo teológico se mostra um dos pontos
nevrálgicos nos prolegômenos a dogmática; só existe prolegômenos a dogmática [praecognita
Theologiae] se existe uma compreensão a respeito do estudo teológico, como
a mais singular matéria de estudo a qual um ser humano pode se dedicar; e analisar
e elucubrar sobre o estudo teológico é colofão da tarefa do teólogo. Na
verdade, o estudo da ciência sagrada é a classe mais alta e singular de estudos
que podem ser acometidas a alguém; por isso, existe no entendimento e no estudo
teológico em si, uma regra de estudos, uma regra que ajuíza o estudo teológico;
deste modo, sabe-se que para que se tenha uma compreensão e um entendimento a
respeito da importância, do lugar e da maneira do estudo teológico, compete
analisar a forma básica como tal estudo se manifesta; e não há melhor lugar
para isso do que na contextura da dogmática. E o estudo teológico só é possível
graças a grande quantidade de conteúdo acumulado ao longo das épocas, conteúdo
este que fora anexado a biblioteca do conhecimento humano como expressão da
reflexão teológica e como maior contribuição humana à cultura; donde, ser
necessário para tal estudo uma regula studiorum, e também ser necessário
que tal estudo seja analisado sob o centro da ciência teológica.
§ 16
A teologia enquanto ciência tem um desenvolvimento
peculiar; é este desenvolvimento que proporciona a formação da biblioteca
teológica, e a partir disto, da estrutura da enciclopédia teológica; a
enciclopédia teológica se forma e se estabelece com um design singular, a
saber: à edificação da teologia da Igreja e à aplicação da teologia ao universum
do conhecimento humano; e por ser a teologia a ciência que trata dos assuntos
mais nobres, a rainha das ciências, é necessário que proceda também da teologia
o norte organizador da enciclopédia do conhecimento humano, o que se evidencia
a partir da própria enciclopédia teológica. Eis o corolário de todo estudo
teológico: a formação da enciclopédia teológica, um benefício à Igreja bem como
à humanidade.
§ 17
A enciclopédia teológica é a forma que se estabelece
todo o conteúdo da biblioteca teológica quando organizada racionalmente; assim,
a reflexão teológica ganha amplidão e desenvolvimento colossais, e pode
interpor-se como luz para a organização e o desenvolvimento do conhecimento
humano; a organização e o desenvolvimento do conhecimento humano, sempre deve
ser ajuizado pela luz de um ensinamento mais nobre, e como a teologia é a
ciência das coisas divinas, a teologia contribui para dar mais seiva e mais
dignidade ao conhecimento humano; por isso, a partir da enciclopédia teológica
tem-se a possibilidade de se formar uma teoria do conhecimento precisa e muito
bem estabelecida, para então, denotar e estabelecer que, sem a enciclopédia
teológica, a Igreja torna-se imprecisa em sua proclamação e suscetível aos
erros do espírito de época. Por isso, é necessário a edificação da enciclopédia
teológica para o bem da Igreja, bem como para evitar que a cultura cometa
suicídio intelectual sob a influência de alguma ideologia nefasta ou sob a
destruição radical dos signos, significados e referentes da própria realidade.
§ 18
O teólogo é o homem que ao dedicar-se a Deus com sua
inteligência e suas capacidades, põe-se a interpretar os pensamentos divinos,
de acordo com as Escrituras e sob a orientação do Espírito Santo, e em
fidelidade a Tradição no íntimo contato com o testemunho dos teólogos do
passado - sob o ombro dos gigantes. A obra do teólogo, sua atividade, e seu
labor, não poderiam existir por si mesmos, se não fora a atividade divina em se
revelar e conceder aos homens a vocação, a capacidade e a inteligência para tal
ato; o teólogo é alguém formado por Deus para tal tarefa; da mesma forma como o
próprio Senhor chamara e concedera a Bezalel, da tribo de Judá, “o Espírito
de Deus, de sabedoria, e de entendimento, e de ciência em todo o artificio,
para inventar invenções” (Êx 31.3-4a), também é com o teólogo, o Senhor
concede-lhe sabedoria, entendimento e ciência para edificar a teologia sagrada.
§ 19
A obra do teólogo é uma tarefa assaz laboriosa;
estudar, anotar, escrever, comparar e estruturar todo o legado teológico a
respeito dos dogmas, e defrontá-los com o legado de outros teólogos, sob a
autoridade primeira e absoluta das Escrituras e sob a normativa da Tradição;
para tal tarefa o teólogo carece da capacitação divina, da iluminação divina,
que o conduz aos pastos verdejantes das Escrituras, e o capacita a entender e
compreender as colheitas que outros teólogos fizeram nestes pastos, bem como
guia-o à colheita pessoal para a glória de Deus. A tarefa do teólogo é uma das
mais sublimes vocações que Deus pode conferir a alguém, pois o teólogo não está
apenas formando uma teologia, ele está proclamando a palavra de Deus; ele está
junto com Deus na mesma missão; ele está junto com a Igreja na preservação da
doutrina e na propagação da verdade; ele está sob a orientação divina para o
cumprimento de seu chamado específico. Por isso, a responsabilidade primária e
absoluta do teólogo é diante de Deus, não de homens; é fidelidade a Deus, não a
homens; o teólogo espera a aprovação divina, não os inchados e palhaçentos
aplausos dos homens. Pois, sendo o teólogo alguém aprovado e guiado por Deus
certamente será uma bênção para toda a Igreja.
Série II: A Revelação.
§ 1
O ser humano só pode conhecer a Deus porque Deus
decidira se revelar; do contrário, seria impossível obter conhecimento sobre a
essência de Deus (Deo essentia per se). Deste modo, a revelação
apresenta-se como transcendental teológico, pois, açambarca, abaliza e
subalterna todos os aspectos da reflexão teológica.
§ 2
A revelação divina, isto é, o ato soberano pelo qual
Deus escolheu se dar a conhecer ao ser humano através de diversas maneiras e de
diversos modos; pois, a validação da questão da revelação é de importância
nevrálgica, para designar e atestar a significação inconcussa do cristianismo
como a religião verdadeira, do cristianismo como a religião absoluta; por isso,
a revelação é o colofão dos prolegômenos a dogmática, bem como sua parte
central; só existe sentido em se falar em “prolegômenos a dogmática” [praecognita
Theologiae], porque nestes prolegômenos se analisa a revelação. Em suma: só
se tem uma praecognita Theologiae, porque o Pai Celeste se revelou aos
pequeninos (cf. Mt 11.25); e esta questão forma o entendimento em torno da
analogia revelationis, uma analogia a partir da revelação. A revelação é
parte constitutiva da análise dogmática; a dogmática só é possível a partir da
elucubração a respeito da revelação e de seu lugar na enciclopédia teológica. O
teólogo, pois, tem de estar cônscio da necessidade de um correto entendimento a
respeito da revelação, esta pepita de ouro da doutrina cristã, que tem de ser
burilada com esmero e com cuidado.
§ 3
A necessidade da revelação divina, como fundamento e
base para responder a questão: “como se pode conhecer a Deus?”, aponta para a
questão da limitação do intelecto humano para compreender a essência de Deus (Deo
essentia per se); esta limitação é devido ao Pecado; por isso, no bojo do
entendimento da revelação faz-se necessário compreender os limites da
intelecção humana e os limites dos limites da intelecção humana.
§ 4
A questão sobre os limites da intelecção humana aponta
necessariamente para a necessidade da revelação e para a necessidade da
redenção (o propósito da revelação); isto é demonstrado pelos limites da
compreensão humana devido a Queda; a compreensão humana se tornou obnubilada, e
totalmente obscurecida para as coisas de Deus tal como são; por isso, a
revelação de Deus vem para romper com o domínio do Pecado na vida humana, e com
as obras do Diabo, e apontar o caminho para uma correta compreensão a respeito
de Deus e as coisas concernentes a Ele. O zênite da revelação, a Encarnação do
Verbo, é trabalhada pelo evangelista dos segredos de Deus, com os termos, “para
isto se manifestou o Filho de Deus: para destruir as obras do Diabo” (cf.
1Jo 3.8b). No entanto, as Escrituras também informam isso de outras maneiras;
seja através da promulgação da pecaminosidade humana ante a majestade e a
santidade de Deus, seja em relação a exposição da realidade humana caída; de
fato, há a necessidade da revelação e de testemunhas desta revelação, que a
proclamem na autoridade de Deus, para servir de testemunho as nações e as
gentes (cf. 1Jo 1.1-4); por isso, há a necessidade de se entender os limites da
intelecção humana e os limites dos limites da intelecção humana, para então,
clarificar ainda mais a necessidade e o lugar da revelação divina.
§ 5
A revelação de Deus possui a autoridade proveniente do
próprio Deus, pois é fruto da Ciência de Deus; por isso, a revelação tem uma
natureza científica; e esta natureza científica, por sua vez, atesta o porquê a
revelação de Deus é a única digna de ser aceita como norma que rege para a
Igreja, bem como demonstra e clarifica o porquê a teologia é a rainha das
ciências.
§ 6
A perspectiva do caráter científico da revelação que
se demonstra plenamente como fonte de autoridade para a Igreja, se estabelece
devido a necessidade de uma fonte de autoridade que esteja fora dos homens, mas
que seja feita para eles e através deles; a revelação é concedida ao homem pela
Graça, e o é devido a necessidade do ser humano conhecer Deus, bem como devido
as limitações da intelecção humana por caua do Pecado; por isso, o ser humano
carece de uma fonte de autoridade que lhe forneça o conhecimento necessário a
respeito de Deus. A revelação fora preservada pelo próprio Deus ao longo da
história devido a esta necessidade. Como tal, a revelação, dada de forma
permanente nas Sagradas Escrituras, é atividade do próprio Deus, é o próprio
Deus agindo e falando, e por isso, tem autoridade normatizadora, já que
testifica a respeito de Deus, e pertence ao próprio Deus; e como a revelação
consuma-se plenamente na encarnação do Verbo (cf. Jo 1.14), quando o Filho de
Deus se faz homem, tornando-se Emanuel, o Deus conosco, o qual é o propósito da
revelação de Deus aos homens, aquele mesmo que esteve oculto deste os tempos
eternos, tornara-se plenamente manifesto (cf. Rm 16.25-27), a saber: a
reconciliação do mundo (cf. 2Co 5.19). Assim, a revelação como obra divina, e a
revelação consumada numa Pessoa, a saber, em Jesus Cristo, é digna de toda a
aceitação, já que o que foi revelado ao longo dos séculos aponta para Cristo e
n’Ele tem o amém de Deus (cf. 1Co 1.20). Logo, a revelação possui um caráter
científico, tanto por conta desta questão, tanto quanto por conta de ser obra
de Deus, e por isso mesmo de Sua ciência; também por isso o caráter científico
da revelação difere do caráter científico da ciência humana, conquanto tenham
elucidações racionais conjugadas. Deste modo, esta revelação possui autoridade
absoluta, pois é o testemunho sobre Deus: inspirado, preservado e autorizado
pelo próprio Deus. Isto atesta, comprova, confirma, corrobora, testifica,
fundamenta, legitima e ratifica o caráter científico da revelação.
§ 7
A revelação é o próprio Deus outorgando aos homens o
conhecimento sobre Si; por isso, a realidade da revelação é a asseveração da
possibilidade, da realidade e da concreção da revelação, através da qual é
esclarecido que Deus propusera em Si mesmo reconciliar o cosmos através da obra
redentora de Cristo na cruz do calvário. Deste modo, a revelação é a concreção
da realidade em que o Deus Soberano e Todo-Poderoso, também é Deus que está com
Seu povo, é o Emanuel, é Deus conosco.
§ 8
A realidade da revelação é o entendimento que completa
o todo da exposição sobre a necessidade da revelação; a realidade da revelação
é a necessidade da própria revelação onde Deus se dá a conhecer; com isso, a
possibilidade da revelação, a própria realidade da revelação e a concreção da
revelação que se dá em dois momentos, em Cristo, no zênite da revelação, e
depois na revelação da consumação no fim dos tempos, onde toda a realidade da
revelação é consumada plenamente, na completa redenção. Assim, a realidade da
revelação não apenas sublima o entendimento da necessidade da revelação, mas
também aponta para a importância da revelação, onde os aspectos centrais da
necessidade da revelação são elevados ao entendimento de que a realidade da
revelação se concretiza em Cristo, com o intuito da salvação do ser humano,
tanto quanto para a formação da religião absoluta, a saber, o cristianismo. É
devido a obra de Cristo que existe a Igreja; e o Espírito Santo é o cultor da
realidade da revelação conforme registrada nas Escrituras e vivenciada na Igreja.
E é esta realidade que dá sentido e vida a história, o reino dos céus se
manifestando na História, tal como um fermento que aos poucos levada uma massa
(cf. Mt 13.33). A realidade da revelação tal como concretizada em Cristo é o
fermento que levada a História da humanidade, para o fim ao qual o próprio Deus
quer. Por isso, a concreção da realidade da revelação é dupla: em Cristo, e no
fim dos tempos; em Cristo, a partir do qual o fermento do evangelho é
entranhado na história humana, e, com isso, preparando o mundo para o fim dos
tempos, para a consumação dos séculos, onde a concreção final e total de todas
as coisas será feita pelo próprio Cristo (cf. Ef 1.20-23).
§ 9
A Revelação é milagre; milagre divinal, pois, a
revelação é obra de Deus, atestada e confirmada pelo próprio Deus com sinais
gloriosos, maravilhas inauditas e prodígios magníficos; por isso a Revelação de
Deus é digna de toda aceitação, pois fora confirmada, corroborada, constatada,
testemunhada e roborada pelos milagres.
§ 10
A Revelação é milagre, pois doutro modo não haveria
revelação, nem confirmação de que é Revelação de Deus; o autor aos Hebreus diz
que Deus se revelou de diversos modos, isto é, Deus se utilizou de vários meios
e maneiras para se revelar, e isto sempre com manifestações extraordinárias de
poder, com sinais, maravilhas e prodígios; um exemplo é na saída de Israel
antigo do deserto, bem como nas maravilhas operadas por Deus no deserto do
Sinai; por isso, o salmista diz: “Lembrai-vos das maravilhas que te fez, dos
seus prodígios e dos juízos da sua boca, vós, descendência de Abraão, seu
servo, vós, filhos de Jacó, seus escolhidos” (Sl 105.5-6). Ademais, Deus se
revelou de maneira imediata aos seus servos, os profetas (cf. Am 3.7), ou mesmo
através de algum acontecimento, ou de forma específica a alguém, como por
exemplo nas expressões da vocação de Jeremias (cf. Jr 1.4-19); além disso, Deus
preservou o senso da revelação que fizera através dos memoriais, como a páscoa
(cf. Êx 12.1-20) - memorial é uma lembrança teológica dos feitos inauditos de
Deus a fim de que povo de Deus sempre se lembre e rememore os grandes feitos de
Deus. E na plenitude dos tempos Deus se Revelou em Seu Filho (cf. Gl 4.4),
através do qual, o milagre dos milagres aconteceu, Deus se tornar homem (cf. Jo
1.14); e este Deus-Homem institui o memorial estabelecido para que o povo da
Nova Aliança não se esqueça do zênite da revelação, a concreção da Revelação
veterotestamentária e a revelação do mistério que esteve oculto desde os tempos
eternos, mas se tornou manifesto em Cristo (cf. Rm 16.25-27), o qual, instituíra
o memorial da Nova Aliança, proclamado em efusivas palavras: “fazei isto em
memória de mim” (cf. Lc 22.19); somente quem pode falar estas palavras tão
grandiosas é digno receber a honra e a glória (cf. Ap 5.11-12), bem como é a
prova incontestável da instituição do milagre dos milagres como prova
retumbante de que Jesus Cristo é o único mediador entre Deus e os homens (cf.
1Tm 2.5).
§ 11
O zênite da revelação de Deus é um mistério, um grande
mistério: o grande mistério da piedade, o grande mistério da verdadeira
religião, a saber, Deus Filho se encarnou; por isso, há tanta teologia e tanto
sacrossanto mistério na expressão joanina: “e o Verbo se fez carne e habitou
entre nós”.
§ 12
O mistério da revelação se encontra com a expressão
paulina “μέγα ἐστὶν τὸ τῆς εὐσεβείας μυστήριον”, grande é o mistério da verdadeira religião
(cf. 1Tm 3.16); e o mistério é este: aquele que se manifestou em carne, isto é,
aquele que se humanou, aquele que se encarnou; este é o mistério da verdadeira
religião, ou na tradução mais usada, o grande mistério da piedade; e o é devido
ao ato revelador de Deus se confluir para um zênite, para um ponto máximo, o
qual, é demonstrado na encarnação do Verbo, na encarnação do Filho de Deus; em
todos os outros atos revelatórios, Deus se dá a conhecer aos homens, seja
diretamente seja indiretamente, através de vários modos e por diversos meios,
seja pelas teofanias, ou pelos profetas, etc., mas na encarnação do Verbo Ele
se mostra o Deus da salvação, o Emanuel, o Deus conosco, para que a
descendência de Abraão fosse justificada; o mistério da revelação se torna visível
aos homens em Belém da Judeia, quando o aparecer da estrela celeste, aponta que
ali nascera o Messias, o Salvador (cf. Mt 2.1-11), que é Cristo o Senhor (cf.
Lc 2.11); por isso, a mensagem dos anjos aos pastores na campina foi “não
temais”, é tempo de grande alegria (cf. Lc 2.10); e no momento do nascimento do
Salvador, os céus rompem-se e o coro angelical entoa o hino de adoração: “Glória
a Deus nas alturas, paz na terra, boa vontade para com os homens!” (Lc
2.14); mesmo nas revelações particulares, onde Deus dá-se a conhecer aos seus
servos os profetas através de revelações gloriosas, em nenhum momento a milícia
do exército celestial aparece cantando, apenas no ponto máximo da revelação de
Deus, os anjos se ajuntam e põem-se a cantar e a adorar a Deus; e este é o
portento do natal. Portanto, este é o mistério da verdadeira religião: aquele
que foi manifestado na carne (encarnação), foi justificado em espírito (Rm 1.3:
“declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela
ressurreição dos mortos”), visto dos anjos (a adoração dos anjos), pregado
aos gentios (proclamado pelos apóstolos e pelos cristãos), crido no mundo (por
aqueles que n’Ele creem) e recebido acima, na glória (a ascensão). Por isso, na
contextura do mistério da revelação está desvelada toda a vida e a obra de
Jesus Cristo, que o segundo artigo do símbolo apostólico também evidenciara sob
a égide da expressão “padeceu”.
§ 13
O mistério da revelação é milagre. Mistério insondável
porque a mente humana é limitada e não consegue por si mesma penetrar nos
mistérios divinos; mas também mistério conhecível, porque o próprio Deus
desvela esse mistério em Cristo, e o torna conhecível a todos os que n’Ele
creem. O mistério é um milagre, pois diante deste há sempre o renovado regojizo
e satisfação diante das perfeições de Cristo, em quem estão escondidos todos os
tesouros da sabedoria e da ciência (cf. Cl 2.3).
§ 14
A Revelação é a etiologia da História; mas não somente
da história do universo e da humanidade, tal como demonstrado na Criação; pois,
a Revelação é testemunha da História da Salvação, onde o próprio Deus
reconcilia o cosmos em Cristo, dando início ao tempo do fim, até a revelação
final cabal, a redenção, na consumação dos séculos; por isso, a história da
humanidade é permeada e fermentada pela História da Salvação.
§ 15
A
Revelação de Deus é dada de pelos menos duas formas gerais: a revelação natural
e a revelação especial; na revelação natural, Deus é conhecido a partir de
quando Ele diz “Haja luz”, e então, e toda a continuação da obra da
Criação; na revelação especial, que Deus concede para dar o Conhecimento de Si
mesmo após o Pecado, para ensinar aos homens qual Sua vontade santa, Deus é
conhecido a partir das Alianças e Manifestações gloriosas a qual fizera ao
longo da história. Deste modo, a Revelação de Deus é que dá sentido à História,
pois, na revelação natural na Criação, inicia-se o tempo, inicia-se a contagem
cronológica da vida humana, e após o Pecado, Deus Se Revela a fim de conduzir a
história natural e a história dos homens ao caminho da Salvação; com isso,
forma-se o que se entende como a História da Salvação, a saber: a história dos
feitos de Deus para salvar e redimir os homens, desde a escolha de Abrão, dos
patriarcas, a formação de Israel, até Cristo, em quem Deus se Revela de forma
completa, a fim de consumar as revelações especiais que fizera ao longo da
história, e dar cumprimento cabal ao plano da Redenção. E o cumprimento em
Cristo é o centro da história; por isso, é comparado as medidas de farinha que
se coloca sob uma massa a fim de levedá-la: a obra de Cristo é o fermento sobre
a história natural e a história humana, de modo a levadá-la ao fim a qual Deus
mesmo propusera até a consumação dos séculos. Este é um dos princípios mais
efusivos e significativos do entendimento da necessidade da revelação, já que
tanto a revelação natural quanto a revelação especial, após o Pecado clamam por
um cumprimento cabal, que se dá na realidade da revelação, a partir da qual é
haurido o entendimento necessário para a compreensão da Revelação como a
etiologia da História que entra na história, da eternidade que entra no tempo.
§ 16
O conhecimento que Deus outorga de Si de maneira
natural é através do ente, o qual Ele predicara de Si, para que os homens
saibam que Ele existe. E no conhecimento da existência de Deus, também se
conhece que Ele é o Criador, ou nos termos racionais, o Motor Imóvel, o
Primeiro Princípio, a causa das causas.
§ 17
A revelação de Deus é Sua auto-manifestação; e a auto-manifestação
de Deus é o próprio Deus, através de vários modos e por diversos meios,
outorgando o conhecimento de Si, tanto de maneira natural, a todos os homens,
quanto de maneira especial, aos eleitos.
§ 18
O conhecimento que Deus outorga de Si de maneira
especial é através do Espírito Santo, que falara pelos profetas e apóstolos, e
inspirara a Sagrada Escritura; por isso, a auto-manifestação de Deus concedida
de maneira especial é, em todos os sentidos e em todos os modos, revelação
pneumática.
§ 19
Porque Deus fala o ser humano pode conhecê-lo; e assim
pode estudar o que Deus fala, conforme registrado em Sua infalível, irremissível,
indefectível e inerrante Palavra escrita, as Sagradas Escrituras.
§ 20
A transparência é o primeiro princípio que advêm da
compreensão da infalibilidade das Sagradas Escrituras; se as Escrituras são
infalíveis, então, também tem de possuir esta transparência e limpidez que só
existem porque as Escrituras são inspiradas pelo Espírito Santo (cf. 2Pe
1.19-21); a inspiração é que demonstra a transparência, e a transparência
testemunha da inspiração.
§ 21
As perfeições são o princípio que advêm da compreensão
da inerrância das Sagradas Escrituras; se as Escrituras são inerrantes, então,
também tem de possuir estas perfeições que só existem porque são as Escrituras
a Revelação do Deus Perfeitíssimo; portanto, como obra de um Ser Perfeito, as
próprias Escrituras refletem esta perfeição.
§ 22
A Palavra de Deus possui quatro formas: a Palavra
falada, a Palavra proclamada, a Palavra ouvida, a Palavra vivida. Por isso, a
Palavra de Deus ao ser falada é a voz de Deus; ao ser proclamada é a própria
Palavra de Deus; ao ser ouvida é mensagem de Deus; ao ser vivida é poder de
Deus.
Epilogo.
Ora, estas teses teológicas apresentam um escopo
simples a respeito de dois temas teológicos fundamentais. Com efeito, não são
considerações muito extensas, mas são sínteses a respeito destes tópicos, as
quais coloquei em duas seções de acordo com os temas gerais de vossas
indagações: (i) teologia dogmática e suas nuances; e (ii) aspectos sobre a
revelação.
Evidentemente, estas teses não estão numa ordem
sistemática estrita, mas açambarcam várias perspectivas a respeito destes
tópicos, os quais servir-lhe-ão de muita valia se lhe aprouver de alguma
maneira estudar e/ou elucubrar estes tópicos de maneira sistemática.
Com os mais sinceros votos e rogos das bênçãos de
Deus, espero que estas teses lhes respondam e pelo menos lhe indiquem o caminho
a seguir na elucubração sobre estes assuntos.
E conclui-se aqui estas teses teológicas. θεῷ
χάρις!
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