13/05/2024

Sobre o Perdão

Prólogo.

 

1. Nunca se é demais elucubrar sobre a importância do perdão; da importância inegável de sempre se falar e se pensar sobre o perdão; não que seja uma coisa fácil, pois o perdão é uma das coisas mais difíceis para a cultura dos divertimentos; na verdade, até se fala muito de perdão, mas se perdoa pouco; C. S. Lewis dissera que falar de perdão é fácil, difícil é perdoar; e é uma aguda verdade que permeia a existência humana; fala-se sobre perdão, mas não se perdoa; menciona-se sobre o perdão, mas não se compreende realmente o que é o perdão; e, em alguns casos, onde há completa degeneração e depravação espiritual, chega-se ao ponto de se escarnecer do perdão; triste estado de alma daqueles que escarnecem do perdão, pois é sinal de que estão calcinados nas labaredas do inferno.

2. Portanto, se faz necessário analisar brevemente o perdão, sua natureza, sua necessidade, sua significação de acordo com a Palavra de Deus, para se compreender sobre o perdão de maneira adequada; pois, nenhum outro livro ensina tanto e de maneira tão grandiosa sobre o perdão quanto a Bíblia; a Bíblia é o livro do perdão; deste modo, compreender os preceitos bíblicos sobre o perdão e entender a aplicação destes preceitos, abaliza a compreensão sobre o perdão; mas não somente isso, se faz necessário também compreender algumas atitudes sobre o perdão, que ou dignificam o ato de perdoar e ser perdoado, ou então vituperam o perdão e, assim, acabam escarnecendo de Deus.

3. Logo, o perdão é tema preponderante tanto do diálogo de Deus com os homens, quanto dos homens com seus semelhantes; pois, sem perdão, ou com a vituperação do perdão, a vida humana se torna ressequida e desfigurada. Por isso, ponderar, meditar, compreender, entender, pensar, viver e praticar o perdão é novamente afirmar sobre o verdadeiro humanismo; só há humanismo onde há perdão; só há humanização onde há perdão; na verdade, sem perdão o ser humano se desumaniza e se desintegra sem o qualificativo primordial da existência humana, o amor; sem perdão não há amor; portanto, compreender sobre o perdão é compreender um dos mais portentosos aspectos do que significa amar, pois, o perdão é parte do mandamento do amor.

Além do que, compreender sobre o perdão, também serve de instrumento de análise, de uma espécie de anatomia do estado de consciência de uma sociedade; ou melhor, de fonte de compreensão sobre o estado da dignidade de um ser humano. O perdão é pressuposto aferidor de medida do estado moral-psíquico-espiritual dos seres humanos.

 

Capítulo I: O perdão segundo as Escrituras.

 

4. O perdão é tema preponderante da vida cristã; é tema teológico fundamental; é tópico teológico da existência eclesial; uma Igreja que não compreende o perdão é uma Igreja que deixou de existir de acordo com os princípios de Cristo; cristãos que rechaçam o perdão e/ou escarnecem do perdão, na verdade, são apóstatas, porque renegam com escárnio um dos princípios fundamentais do relacionamento com Deus; na verdade, compreender o perdão a partir das Escrituras, entender o perdão segundo as Escrituras, abaliza a compreensão sobre a importância imutável do perdão em relação a vida cristã e em relação a existência eclesial; pois, a vida cristã é uma vida no perdão e sob o perdão.

5. Deste modo, se faz necessário compreender o que a Palavra de Deus ensina sobre o perdão; e várias são as referências sobre o perdão; e, entre estas tantas referências, evocam-se quatro passagens bíblicas sobre o perdão.

Primeiro, o perdão deve ser praticado como se fosse infinito; no evangelho está escrito: “Então, Pedro, aproximando-se dele, disse: Senhor, até quantas vezes pecará meu irmão contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete? Jesus lhe disse: Não te digo que até sete, mas até setenta vezes sete” (Mt 18.21-22). A soma de 70 vezes 7, é 490; é impossível perdoar alguém no mesmo dia 490 vezes; então, o perdão é infinito, não existe quantidade para esgotá-lo. Logo, perdoar é um imperativo do qual não existe refutação, a não ser que não se queira ou se busque o perdão, mas mesmo assim, é imperativo perdoar mesmo que outrem não busque o perdão.

6. Segundo, é necessário perdoar para ser perdoado; está escrito: “E, quando estiverdes orando, perdoai, se tendes alguma coisa contra alguém, para que vosso Pai, que está nos céus, vos perdoe as vossas ofensas. Mas, se vós não perdoardes, também vosso Pai, que está nos céus, vos não perdoará as vossas ofensas” (Mc 11.25-26). Por isso, quem não perdoa, não é perdoado por Deus; mas quem perdoa, é perdoado por Deus; o perdão é fundamental para o relacionamento correto com Deus.

7. Terceiro, perdoar é um axioma da vida cristã; o Apóstolo diz: “Antes, sede uns para com os outros benignos, misericordiosos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou em Cristo” (Ef 4.32). É princípio preponderante da vida cristã a prática do perdão; logo, viver uma vida correta diante de Deus, também significa ser benigno, ser misericordioso, e perdoar uns aos outros; a existência eclesial é uma existência fundamentada e dignificada no perdão.

8. Quarto, perdoar é evidência do perdão recebido de Cristo; o Apóstolo diz: “suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos uns aos outros, se algum tiver queixa contra outro; assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós também” (Cl 3.13). Quem perdoa, é porque foi perdoado por Cristo; e não há ninguém que possa arrolar justiça diante de Cristo (cf. Rm 3.23), portanto, não há ninguém que se possa arrolar o direito de não perdoar; logo, quem recebe o perdão de Cristo, entre tantas coisas, testemunha deste perdão, perdoando; o perdão é evidência da transformação gerada no coração pela graça de Deus.

9. Com isso, estas quatro passagens bíblicas, demonstram a importância do perdão; são algumas das mais pungentes e singulares descrições da Revelação sobre o perdão; portanto, a compreensão sobre o perdão é abalizada pelas Escrituras; a compreensão sobre o perdão tem por norma os ensinamentos bíblicos, que nem mesmo o mais pungente ensinamento ético de algum filósofo consegue igualar em profundidade, beleza e singularidade; o perdão só é entendido, conhecido e vivido de maneira correta sob os ditames da Palavra de Deus. Logo, compreender o perdão é compreendê-lo a partir dos ensinamentos da Palavra de Deus.

 

Capítulo II: A consciência e o perdão.

 

10. O perdão, se relaciona intimamente com a consciência; pois, sem perdão e/ou sem perdoar, a consciência fica inquieta; e a persistência no erro, termina por cauterizar a própria consciência; e, uma consciência cauterizada, não desfruta das benesses do perdão e das bênçãos do ser perdoado; pois, a consciência cauterizada obnubila a percepção e a sensação para a compreensão do perdão e do ato de perdoar; logo, a consciência, necessita tanto do perdão quanto do ato de perdoar; o primeiro, em relação ao que se fez de errado; a segunda, em relação ao que se sofreu de errado por parte de outrem.

11. Assim sendo, somente uma consciência sóbria, bem estabelecida, e que é demonstrada através de uma personalidade integrada, fruto de uma consciência integra e firme, é que consegue entender o que é o perdão; tanto pela necessidade do perdão, quanto pela necessidade de compreender a razão desta necessidade, a saber, a imperfeição humana; se o ser humano é imperfeito, então, necessariamente, precisa de perdão; e este em três esferas: primeiro, em relação a Deus, diante de quem é injusto e miserável pecador (cf. Is 64.6; Rm 3.9-23); segundo, em relação a si mesmo, no reconhecimento das falhas e na aceitação pessoal de que se falhou ou errou, o que só se alcança com o conhecimento e sinceridade sobre si mesmo diante de si mesmo a luz da Palavra da Deus; terceiro, em relação ao próximo, no reconhecimento de que se pode errar contra o próximo e que se pode ser passível de sofrer com o erro de outrem.

12. Nestas três esferas o ser humano precisa de perdão constantemente; em relação a Deus, porque senão não se relaciona com Ele (cf. Sl 15.1-5); em relação a si mesmo, porque senão não se encontra o equilíbrio e a sobriedade na consciência para poder viver, pois Deus ama a verdade no íntimo (cf. Sl 51.6), que se torna visível na sinceridade e integridade no viver digno; e em relação ao próximo, porque senão o próprio Deus não perdoa (cf. Mt 6.14). Portanto, a consciência e o perdão caminham juntos; a consciência precisa de perdão diário, o que o método da confissão particular ensina (confessio privata), e isto é o que faz com que a própria consciência se fortaleça e se torne firme, para que a personalidade se desenvolva de maneira integra e saudável.

 

Capítulo III: O entendimento errôneo sobre o perdão.

 

13. O entendimento sobre a relação entre a sobriedade da consciência e o perdão, deve ser consoante o que fora afirmado; pois, do contrário, se estabelecem inúmeros erros sobre o perdão, e assim, calcifica-se um entendimento errôneo sobre o perdão; e o entendimento errôneo sobre o perdão, tanto atrapalha o relacionamento com Deus, quanto desfigura a sinceridade consigo mesmo; logo, o entendimento errôneo sobre o perdão, estabelece pressupostos errados do relacionamento com Deus, os quais, cristalizam-se como meritocracia diante de Deus e como justificação pelas obras, com isso se estabelece pressupostos errados da auto-análise sobre si mesmo, cristalizando uma espécie de onipotência da vontade do eu (ou libido dominandi).

14. Portanto, o entendimento errôneo sobre o perdão traz consequências terríveis para a vida espiritual e para a vida em sinceridade, a qual é a medida da sinceridade no relacionamento com Deus; se o relacionamento com Deus não for baseado no entendimento correto, a vida em sinceridade se torna desfigurada e corrompida; e isso, evidentemente, corrompe a vida em sociedade; quem não vive em sinceridade, em contato com o real e com a razão, contribui para a destruição da sociedade; logo, o entendimento sobre o perdão é o aferidor de medida sobre a compreensão que se tem sobre o relacionamento com Deus e sobre a sinceridade consigo mesmo; por isso, o entendimento errôneo sobre o perdão, é a derrocada do relacionamento com Deus e a desfiguração da sobriedade da consciência.

 

Capítulo IV: O ato de perdoar e o ato de ser perdoado.

 

15. E, para não se incorrer no entendimento errôneo sobre o perdão, é necessário se entender uma simples, mas profunda distinção, a saber, o ato de perdoar e o ato de ser perdoado; todos os seres humanos, sem exceção, vez ou outra, se defrontaram e se defrontarão com o ato de ter que perdoar, ou com o ato de ter que ser perdoado; e tanto um quanto o outro, se amalgamam e se inter-relacionam; não se perdoa sem ter sido perdoado, e que foi perdoado há de perdoar; portanto, sem perdão, sem perdoar e sem ser perdoado, a vida não é vivida da maneira adequada e sóbria. Além disso, a vida espiritual e o desenvolvimento racional, se coadunam com o perdão. Logo, o ato de perdoar e o ato de ser perdoado, são fundamentais e necessários.

16. Por isso, em relação ao ato de perdoar, se há de afirmar que só recebe perdão quem perdoa; só quem entende e experimenta o perdão, quem teve de perdoar e quem foi perdoado; o ato de perdoar, tanto demonstra a excelência do caráter e as virtudes, quanto demonstra que aquele que perdoa, o faz porque fora perdoado. Já, em relação ao ato de ser perdoado, se há de afirmar que só aceita ser perdoado, ou só se busca o perdão, quem entende que precisa de perdão, e isto, demonstra a sinceridade diante de Deus e a sinceridade diante de si e o conhecimento adequado sobre si, pois, só quem se conhece verdadeiramente é que busca ser perdoado, e principalmente, quem sabe que precisa ser perdoado, pois reconhece as próprias imperfeições diante de Deus e diante dos homens.

 

Capítulo V: A raiz da rejeição ao perdão.

 

17. Deste modo, se apercebe da importância do perdão e da gravidade do não-perdão, isto é, de não buscar ser perdoado e de não perdoar; na verdade, a partir do entendimento da importância do perdão, se consegue compreender a raiz da rejeição ao perdão; e, esta raiz é entendida de dois modos: primeiro, em sua natureza; segundo, em sua essência.

Primeiro, em sua natureza, pois, a rejeição ao perdão é sinal de soberba no coração e sinal da consciência sem sobriedade ou beirando a cauterização; a rejeição ao perdão testemunha da calcificação da auto-justiça, que nada mais é do que a meritocracia diante de Deus, do “eu” que se justifica a si mesmo por suas próprias obras.

Segundo, em sua essência, pois, a rejeição ao perdão tem por essência a rejeição ao perdão de Deus e ao próprio Deus que perdoa, e, com isso, em sua essência a rejeição ao perdão cristaliza o juízo de Deus sobre aqueles que por rejeitar o perdão, também rejeitam a Deus (sobre o juízo de Deus consultar o texto paulino de Rm 1.18-31).

18. Assim sendo, a raiz da rejeição ao perdão demonstra que há soberba calcificada e que há rejeição ao próprio Deus; do mesmo como quem não perdoa não é perdoado (cf. Mt 6.14), assim também quem não perdoa é soberbo e está contra a Deus, que é perdão; pois, Deus não perdoa aquele que não busca o perdão ou que rejeita o perdão que Ele graciosamente oferece em Cristo. Portanto, a raiz da rejeição ao perdão é uma raiz que conduz a ruína moral e a degeneração espiritual.

 

Capítulo VI: O escárnio a respeito do perdão.

 

19. E, entre aqueles que rejeitam o perdão, tem-se aqueles que chegam a tal ponto de degeneração espiritual, que chegam a escarnecer do perdão; e, uma das consequências terríveis da rejeição ao perdão, é o escárnio a respeito do perdão; pois, o escárnio é zombaria contra Deus, e, o escárnio a respeito do perdão, também é escárnio contra Deus; quando se escarnece do perdão, seja do ato de perdoar, seja do ato de ser perdoado, se escarne de Deus e de Seu perdão. Logo, o escárnio sobre o perdão é a rejeição ao próprio Deus, e, por consequência, a destruição da própria dignidade.

20. Deste modo, se pode falar do escárnio a respeito do perdão como um vício terrível, que corrompe e contamina todo o ser; na verdade, a contaminação através do escárnio do perdão, é uma contaminação viciosa e viciante: vicia e semeia vícios; e, os frutos do escárnio são: mesquinhez, baixeza, imbecilidade, maledicência pela própria imbecilidade, inveja, escárnio contra os que estão além da própria baixeza e coisas amalgamadas; logo, o escárnio a respeito do perdão não somente demonstra a vileza da rejeição ao perdão, mas demonstra coisas ainda piores e mais terríveis na alma humana, a saber, a calcificação do estado de completa ausência de Deus.

 

Capítulo VII: As bênçãos divinas sobre o perdão.

 

21. Com isso, se pode aclarar os perigos terríveis da rejeição ao perdão e do escárnio com relação ao perdão; e, a partir disso, se pode prosseguir para se compreender as bênçãos divinas sobre o perdão, tanto o ato de perdoar quanto o ato de ser perdoado; logo, se se tem terríveis consequências sobre a rejeição ao perdão, é porque existem bênçãos abundantes sobre o perdão; o Diabo não agiria para tornar os homens negligentes e blasfemos quanto ao perdão se Deus não oferecesse bênçãos sem medida a partir do perdão; e, estas bênçãos são:

i. Primeiro, quem perdoa é perdoado (cf. Mt 6.14); e, por isso, quem perdoa tem suas orações ouvidas por Deus, ao passo que quem não perdoa não têm suas orações ouvidas por Deus; portanto, quem perdoa se relaciona com Deus e quem perdoa não é aceito na presença de Deus. A bênção maior do perdão é a presença de Deus no próprio coração.

ii. Segundo, quanto mais o coração for perdoador, mais o coração recebe das fontes da graça de Deus. E uma das bênçãos singulares do perdão é a realidade graciosa que permeia o coração e que torna o coração moldado a imagem de Cristo; logo, quem perdoa é porque tem Cristo no coração. Um coração que não perdoa não tem espaço para Cristo em seu interior.

iii. Terceiro, o perdão é elemento de cura para as emoções sobrecarregadas e/ou adoecidas; na verdade, o perdão é um remédio curador para os ressentimentos que assolam e contaminam o coração e a alma. Por isso, muitas das doenças na alma, que somatizam como doenças terríveis no corpo, são doenças que surgem pela falta do perdão; portanto, o perdão é terapêutico e funciona como a cura para muitos males psíquicos que assolam o indivíduo.

22. Portanto, o perdão é fonte de bênçãos; quem perdoa é abençoado por Deus, e quem é perdoado também recebe das bênçãos de Deus; as bem-aventuranças tornam-se uma realidade para quem reconhece sua pobreza espiritual (cf. Mt 5.3), e, com isso busca de Deus o perdão e a reconciliação, e, por isso, vive em sinceridade diante de Deus, diante de si e diante dos homens; esta é a bênção maior do perdão, a vida consciente em sinceridade de maneira a agradar a Deus, a ser sincero consigo mesmo conhecendo a si mesmo e desenvolvendo a si mesmo em honestidade e probidade, bem como em sinceridade diante dos homens, que ao ser efetivada, cumpre a sentença bíblica: “Os passos de um homem bom são confirmados pelo SENHOR, e ele deleita-se no seu caminho” (Sl 37.23).

23. Termina aqui esta breve explicação sobre o perdão. Bendito seja Deus por todas as coisas. Amém. 


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