1. A Suma Teológica, segundo Pio XI, papa de
Roma, é o céu visto da terra; e um elogio desta natureza, proveniente de um
sucessor de São Pedro, é algo de grande importância; não somente porque se
trata da obra de um santo católico, mas principalmente porque é a obra magna de
um gênio sublime; se a produção intelectual da cristandade fosse aferida em
prateleiras, Tomás de Aquino estaria na parte de cima da primeira prateleira, e
a Suma Teológica, sem sombra de dúvida, ocuparia um lugar de destaque;
na verdade, a Suma Teológica é impressionante não somente para o
catolicismo, mas para toda a cristandade; todos aqueles que amam a verdade sempre
ficarão impressionados com a grandeza e a magnitude da Suma Teológica.
2. Deste modo, é de se entender que mesmo entre os
intelectuais bizantinos do séc. XIV houveram aqueles que acertadamente
valoraram e compreenderam a grandeza e a importância da obra magna de Tomás de
Aquino; aliás, alguns santos ortodoxos dos sécs. XIV e XV foram ensinados
teologicamente através tanto da Suma Contra os Gentios quanto da Suma
Teológica; embora estas obras contenham alguns “latinismos”, isto é,
vícios intelectuais da latinidade, os quais contém sérios problemas teológicos
(principalmente na Suma Teológica), num geral estas duas obras são assaz
salutares para ensinar teologia e para ensinar a correta relação entre
filosofia e teologia, entre fé e razão.
Por exemplo, Gregório Palamas, Genádio Escolário, e
tantos outros, foram ensinados e educados teologicamente nestas obras, sem com
isso decaírem nos vícios intelectuais da latinidade – sem mencionar autores
protestantes que plagiaram as obras do aquinate; pois, estas obras,
provenientes de um gênio sublime, concatenam precisão de síntese, com uma
eficaz ordem das disciplinas e dos assuntos teológicos, sendo com isso
imprescindíveis para o estudo e a reflexão teológica.
Portanto, em relação a este aspecto, as Sumas
de Tomás de Aquino são extremamente úteis; aliás, por esta razão que Genádio
Escolário, o último intelectual bizantino, procurou escrever epítomes e resumos
às mesmas para que fossem melhor utilizadas e aproveitadas no contexto da
cultura bizantina; mas, em especial, chama a atenção a Suma Teológica,
na qual se demonstra, de maneira inconcussa e apodítica, que Tomás fora um “sábio
inspirado por Deus”, como afirmara Genádio Escolário. Aliás, vale lembrar o
elogio de Karl Barth quando fizera um seminário sobre a Suma Teológica,
no qual constatou que lidar com Tomás de Aquino, “era incrivelmente
instrutivo, mas simplesmente assustador, porque o homem trabalhava com uma
meticulosidade que até agora, por exemplo, não nos permitiu formular uma única
objecção. Ele também sabia tudo, absolutamente tudo”.
3. Na verdade, a Suma Teológica é a obra mais
sublime já escrita por um ser humano no âmbito de todo o saber humano; não
somente pelo conteúdo, e pela precisão dos argumentos, e porque nas soluções e
nas mais de 10.000 respostas a objeções não se tem nenhum erro de sofisma ou
argumento posto de modo errado, mas principalmente porque na Suma Teológica
se concatenou o fulgor da revelação, o realismo da filosofia aristotélica e a
precisão do método escolástico; além disso, Tomás soube se utilizar de todo o
saber de seu tempo a fim de levar a cabo o projeto de uma obra que servisse
para ensinar e instruir os principiantes nas verdades da religião cristã.
Assim, pois, fica delineada a estrutura da Suma
Teológica:
PRIMEIRA PARTE (Ia).
Prólogo.
Prolegomena: Sobre a Doutrina Sagrada (Ia, q. 1).
Tratado I: De Deo Uno (Ia, q. 2-26).
Tratado II: De Deo Trino (Ia, q. 27-43).
Tratado III: A Obra dos Seis Dias (Ia, q. 44-49).
Tratado IV: Dos Anjos (Ia, q. 50-64).
Tratado V: A Criação Corpórea (Ia, q. 65-74).
Tratado VI: O Homem (Ia, q. 75-102).
Tratado VII: A Conservação e o Governo das Coisas (Ia,
q. 103-119).
SEGUNDA PARTE (IIa).
Primeira Seção (IaIIae).
Tratado VIII: A Bem-Aventurança (IaIIae, q. 1-5).
Tratado IX: Os Atos Humanos (IaIIae, q. 6-21).
Tratado X: As Paixões da Alma (IaIIae, q. 22-48).
Tratado XI: Os Hábitos (IaIIae, q. 49-54).
Tratado XII: As Virtudes em Geral (IaIIae, q. 55-67).
Tratado XIII: Os Dons do Espírito Santo (IaIIae, q.
68-70).
Tratado XIV: Os Vícios e Pecados (IaIIae, q. 71-89).
Tratado XV: A Lei (IaIIae, q. 90-108).
Tratado XVI: A Graça (IaIIae, q. 109-114).
Segunda Seção (IIaIIae).
Tratado XVII: A Fé (IIaIIae, q. 1-16).
Tratado XVIII: A Esperança (IIaIIae, q. 17-22).
Tratado XIX: A Caridade (IIaIIae, q. 23-46).
Tratado XX: A Prudência (IIaIIae, q. 47-56).
Tratado XXI: A Justiça (IIaIIae, q. 57-122).
Tratado XXII: A Fortaleza (IIaIIae, q. 123-140).
Tratado XXIII: A Temperança (IIaIIae, q. 141-170).
Tratado XXIV: Os Atos Específicos de Certos Homens
(IIaIIae, q. 171-189).
TERCEIRA PARTE (IIIa).
Tratado XXV: O Verbo Encarnado (IIIa, q. 1-26).
Tratado XXVI: A Vida de Cristo (IIIa, q. 27-58).
Tratado XXVII: Os Sacramentos em Geral (IIIa, q.
59-65).
Tratado XXVIII: O Batismo (IIIa, q. 66-71).
Tratado XXIX: A Confirmação (IIIa, q. 72).
Tratado XXX: A Eucaristia (IIIa, q. 73-83).
Tratado XXXI: A Penitência (IIIa, q. 84-90).
4. Ora, tendo fornecido este esboço da estrutura da Suma
Teológica, se faz necessário informar que ao proceder no comentário a esta
inigualável obra da teologia cristã, se vai explicar cada artigo em uma lição,
de acordo com a estrutura de cada tratado e respectivamente de acordo com a
estrutura de cada questão; por exemplo, em cada tratado se tem várias questões,
em cada questão vários artigos, e assim se terá uma lição para cada artigo de
cada questão, e isso será feito de igual modo em todos os tratados da Suma
Teológica, que aqui foram enumerados apenas para uma melhor disposição e
subdivisão do amplo escopo desta obra inigualável.
Aliás, ao proceder deste modo, se conseguirá explicar
de maneira mais adequada, e em pormenores, toda a estrutura desta catedral
gótica construída com palavras e argamassa teológica e filosófica; outrossim, é
que em sua maior parte cada tratado será tomado como um volume em separado
deste comentário (a não ser os tratados muito curtos que serão acoplados em
conjunto com outro tratado), tanto pela profundidade e extensão desta obra,
como para melhor aproveitamento para leitura e estudo, e outras razões mais,
que por si mesmas são clarividentes. Além do que, é necessário informar que não
comentarei o suplemento, posto não ter sido abalizado pelo próprio Tomás
(noutro escrito fornecerei uma breve análise do suplemento).
5. Outrossim, mesmo que isso pareça ser algo quase que
“utópico”, “inalcançável”, que é “tomismo de segunda mão”,
etc., como alguns já afirmaram ao saberem deste projeto, não me preocuparei com
estes epítetos e estereótipos imbecilóides, mas levarei adiante este projeto, e
oxalá o Senhor Jesus Cristo me permita conclui-lo com maestria, tanto para
honrá-Lo e glorificá-Lo, quanto para que os que se dedicam a ciência teológica
possam ter um guia mais aprofundado para compreenderem esta monumental catedral
gótica construída por Tomás de Aquino.
Além disso, mesmo que outros já tenham comentado e
explicado a Suma Teológica, tal como por exemplo o Cardeal Caetano,
ninguém ainda a comentou de modo exaustivo, o que se fará neste comentário;
pois, este comentário ao procurar exaurir e explicar os quilométricos
quarteirões da Suma Teológica, a demonstrará em todo o seu fulgor e
beleza; e assim se terá palmilhado o caminho para que a teologia continue a se
desenvolver de maneira correta, tal como fora abalizada pelo último grande
mestre da ciência teológica na cristandade ocidental.
Confiante, pois, no auxílio da graça divina e na
iluminação do Espírito Santo, a fim de levar a cabo o comentário a obra magna de
um gênio sublime a quem o próprio Cristo dissera: “escreveste bem de mim
Tomás”, posso concluir este opúsculo informativo sobre o comentário a Suma
Teológica.
θεῷ χάρις!
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