I
As muitas expressões que as ciências tem adquirido ao
longo dos dois últimos séculos, são e se tornam, as mais das vezes, assertivas
de caráter supradogmático, até mais do que as religiões; isto tem destonado o
caráter unitário da ciência, tornando-a apenas um elemento de manipulação ideológica-cultural.
E isto, por sua vez, é apenas um modo de se verificar
a destruição dos valores da cultura ocidental.
Por exemplo, Abraham Kuyper, polímata holandês,
identifica o evolucionismo como o dogma da ciência moderna[1]; e
está muito certo nesta colocação, já que a ciência o toma como normativa e
segue em frente sem filtragem crítica; etc.
Entretanto, isso é apenas para exemplificar que as
expressões da ciência contemporânea têm seguido um caminho errado, e não
somente a ciência, a filosofia também tem seguido este caminho, e até mesmo a
teologia tem seguido este caminho.
Mas então, o que fazer? O que fazer para se ter uma
ciência, uma filosofia e até mesmo uma teologia, centrada nos princípios que as
formaram? É simples, e para que compreendamos isto, elucidar-se-á duas
expressões, que ajudam a clarificar o caminho para a solução destas aporias. As
duas expressões que se propõe a elucidar, tem muito a dizer: Horizontes e
Perspectivas.
Neste breve artigo se utilizará destes dois termos
como duas expressões polissêmicas, que compreendem o vasto campo da teologia e
a filosofia.
Horizontes em relação a visão destas ciências;
perspectivas em relação as noções fundamentais que se deve ter ao ir estudar
seja qual ciência for.
II
A noção de horizontes é de certa forma muito
interessante. O prof. José Hermano Saraiva consagrou a expressão “horizontes
da memória”, num programa televisivo em Portugal, sobre a história deste
país, contando os principais acontecimentos, os principais personagens, etc.;
os “horizontes da memória” do prof. Saraiva explorou ao máximo a
história de Portugal.
Por isso, quando se fala em horizontes, colocamos a
expressão em direto confronto com a teologia e a filosofia.
Horizontes em relação a teologia tem a ver com toda a
memória do passado teológico, com todo o legado da teologia cristã. Um
horizonte amplíssimo e vastíssimo.
E o horizonte da teologia cristã fica mais sublime
ainda, quando o observador decide reconhecer sua pequenez e resolve subir nos
ombros dos gigantes que compõem este horizonte para poder enxergar mais longe.
É a observação e a ampliação do legado que se recebeu dos antepassados
teológicos; e isto não somente em relação a teologia, mas também em relação a
filosofia e a ciência.
Desde tempos antigos, recorre-se a seguinte comparação
para exemplificar este aspecto: “Quem não sabe que um anão, ao estar nos
ombros de um gigante, tem um horizonte mais vasto e vê mais longe do que o
próprio gigante? Ficaria coberto de ridículo quem concluísse que o que o anão
descobre não é real, sob o pretexto de que o gigante não o tinha visto! E não
seria mais sábio quem acusasse o anão de presunção, sob o pretexto de que ele
relata coisas das quais o gigante nada dizia, uma vez que se deve ao próprio
gigante a maior parte dos conhecimentos do anão”[2].
A questão reafirmada nesta sentença tem um princípio
bem simples, mas muito esquecido, quando não, rechaçado; aquele que se propõe a
estudar deve ter em mente que para se compreender aquilo que se propôs a
estudar deve-se ir até os gigantes, ou em outros termos, ir até os sábios.
Deve-se subir sob as costas dos gigantes para que se possa enxergar pelo menos
o que eles estão dizendo. É sobre estes horizontes que deve se portar o
estudioso, o cientista, o filósofo, o teólogo, etc.
O cientista tem diante de si um horizonte de
conhecimentos passados muito grande, mas tem um horizonte de conhecimentos a
sua frente muito maior; para o cientista, maiores são as questões do que está
por vir, isto é, quanto mais ele estuda, mais ele se defronta com questões que
precisam de respostas. Por isso, ele sobe nas costas dos gigantes, para ter o
mesmo senso de propósito e de ideal dos sábios.
O filósofo também diante de si um horizonte de
conhecimentos passados muito grande, e só consegue dar amplidão as suas
verdadeiras questões quando se as edifica sob o legado do passado.
Por isso, o estudioso para se tornar um filósofo,
precisa dos gigantes do passado, para então, aprender com eles e seguir o
legado por eles deixado; os únicos filósofos que conseguiram deixar algum
legado na modernidade, são aqueles que aprenderam com os verdadeiros mestres da
filosofia: Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Tomás de Aquino e outros que
estão nesta galeria seleta.
O teólogo também tem diante de si um horizonte mui
vasto e amplo, até mesmo mais do que a filosofia e ciência juntas; por isso,
sua responsabilidade teórica para com os teólogos do passado é um pressuposto
indiscutível; o teólogo deve subir as costas dos gigantes para olhar para trás,
para então, aprender a como se portar no presente e para aprender a como olhar
para o futuro.
Estes são os horizontes que os estudiosos devem ter
diante de si: o horizonte enxergado a partir dos ombros dos gigantes; horizonte
este que quando entendido e compreendido se torna uma chave fundamental para se
entender os tempos atuais.
III
A noção de perspectivas é também muito interessante. A
estrutura das perspectivas reponta como aquelas resoluções, ou princípios, ou
deliberações fundamentais que se deve ter ao se defrontar com qualquer campo do
saber. Fá-lo-á exemplificando a filosofia, mas que se saiba que isto tem de se
fazer em cada área do saber que estiver se propondo a estudar.
Ao se estudar filosofia, sabe-se que existe uma grande
gama de conhecimento; e em meio a esta gama de conhecimento, usufruído pela
razão natural, o cristão deve saber que a mesma não conduz a salvação, mas
mesmo assim ela é corolário da graça de Deus, dispensada a todos os homens,
definida como graça comum; assim, os gregos iniciaram a filosofia na busca pelo
conhecimento racional (logos), que na Revelação São João diz que é Jesus
Cristo (cf. Jo 1.1-3).
E o exemplo elencado da filosofia serve para aclarar o
entendimento de que Deus dispensa uma graça comum a todos os homens, para que
estes tenham alguns meios para desenvolver as coisas necessárias para a vida
humana; esta perspectiva ajuda aclarar que nem tudo o que ser humano natural
produz é ruim, e que tudo de bom que o ser humano produz é por dádiva divina. É
a perspectiva de sempre se saber que tudo que é bom provêm de Deus (cf. Tg
1.17-18).
Outro aspecto é que se deve aplicar o entendimento a
respeito da expiação de Cristo a todos os aspectos da vida humana; assim, em
cada esfera da vida, precisa ter uma perspectiva sobre a redenção em Cristo e
ter seus princípios conforme a lei moral de Deus; seja na educação, na
política, na economia, etc., cada uma destas áreas precisa de um entendimento
cristão para que possa haver influência cristã dentro de seus arraiais. Ou
seja, para que se tenha uma cosmovisão cristã.
Este é o objetivo de se ter “horizontes e
perspectivas” no sentido teológico; tê-las para que possa formar uma visão
de mundo genuinamente cristã e assim, ter pressupostos para a ação no mundo,
enquanto cristãos no mundo.
Com estes princípios em mente, se consegue aclarar
quais horizontes e quais perspectivas se deve ter ao adentrar ao estudo de uma
área do saber; embora as pressuposições evocadas sejam apenas alguns insights,
sem disposição sistemática, ainda sim são mais do que suficientes para
apresentar esta questão.
Laudate Deo!
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