Sinopse: Esta epístola, um dos menores escritos bíblicos, e a menor epístola paulina, tem um capítulo, e é dividida em quatro partes: (§ 1) prefácio e saudação (1.1-3); (§ 2) a alegria e a consolação pelo amor, virtude da graça (1.4-7); (§ 3) as ações de quem perdoa, efeitos da graça (1.8-18); (§ 4) as razões de quem perdoa, doutrinas da graça (1.19-25).
§ 1. Prefácio e saudação (1.1-3).
1.1: Paulo, prisioneiro de Jesus Cristo, e o irmão
Timóteo, ao amado Filemom, nosso cooperador,
Paulo. O Apóstolo das gentes, e autor de outras 13
epístolas que compõe o Novo Testamento. Nas suas epístolas, inicia diretamente
com seu nome, a fim de aclarar o autor das mesmas, e evoca sua função
apostólica, para demonstrar sua autoridade para escrever tais cartas; e, no
caso desta epístola há algo peculiar, pois, é a única entre as suas epístolas,
as quais não evoca sua função como “Apóstolo”; mas, apenas apresenta-se
e dá seu estado e condição de quando escreve esta missiva; isto demonstra que
esta epístola é a mais pessoal de todas as suas cartas. Além do que, no âmbito
da preeminência da graça no Novo Testamento, esta epístola versa sobre a graça
no tocante as questões temporais. Por isso, Paulo, o Apóstolo da graça, a
escreve justamente para evocar a graça no tocante aos assuntos temporais.
prisioneiro. Ora, o Apóstolo quando
escreveu esta epístola estava preso em Roma (cf. At 28.16-31), nos anos de
60-62, donde escreveu outras epístolas, tais como Efésios, Filipenses e
Colossenses.
de Jesus Cristo. O
Apóstolo não era prisioneiro de homens ou da vontade humana, mas era
prisioneiro pela vontade soberana de Jesus Cristo, Aquele que houvera dito que
mostraria a ele o quanto era necessário que padecesse pelo Evangelho (cf. At
9.16). Ora, isto demonstra que a prisão do Apóstolo é para proveito maior do
anúncio do Evangelho e para a glória de Deus (cf. Fp 1.12).
e o irmão Timóteo. E,
conjuntamente com o Apóstolo quando ele escreveu esta epístola, estava seu
amado filho na fé Timóteo, o qual, era líder conhecido nas Igrejas e que o
Apóstolo o havia ensinado o que concerne ao pastoreio e cuidado das almas.
Portanto, o Apóstolo o menciona para evocar a autoridade pastoral de Timóteo
entre as Igrejas da época e também para lhe ensinar a graça no tocante aos
assuntos temporais.
ao amado Filemom. Este é o
destinatário desta epístola; o amado Filemom, que não somente era irmão de fé e
fiel seguidor de Cristo, da Igreja em Colossos, mas também era amigo querido do
Apóstolo. O nome Filemom significa “aquele que ama”.
nosso cooperador. Ora,
Filemom era cooperador do Apóstolo; não era um título, mas era uma função que
os fiéis exerciam em ajuda ao trabalho apostólico, de modo que, aos que assim
se portavam também eram chamados de cooperadores da verdade, tal como o afirma
a Escritura (cf. 3Jo 1.8).
1.2: e à nossa irmã Áfia, e a Arquipo, nosso
companheiro, e à igreja que está em tua casa:
e à nossa irmã Áfia. Era a
mulher de Filemom, que também era serva de Deus.
e a Arquipo. O filho de Filemom, também
um fiel cristão, a quem o Apóstolo também incentivara com conselhos pastorais
tal como fizera com Timóteo (cf. Cl 4.17).
nosso companheiro. Ora, o
filho de Filemom também era um cooperador na causa do Evangelho e ajudava seu
Pai e contribuía com o trabalho do Apóstolo.
e à igreja que está em tua casa.
Na casa de Filemom, se reunia uma porção da Igreja em Colossos; pois, no início
era muito comum que as Igrejas se reunissem nas casas; por isso, a epístola
direcionada a Filemom também compreendia sua família e a Igreja que se reunia
em sua casa.
V. 2: A epístola direcionada a Filemom, também era à
sua família e a Igreja que com ele convivia, tanto porque dizia respeito a um
assunto importante no tocante aos assuntos temporais, quanto porque através do
testemunho de Filemon, a vida dos fiéis seria ensinada e edificada. Era uma
epístola à Filemom e à Igreja, que versava sobre a graça em questões
extra-eclesiais, mas que tocava diretamente na vida eclesial.
1.3: graça a vós e paz, da parte de Deus, nosso Pai, e
da do Senhor Jesus Cristo.
graça a vós. O princípio fundamental da
saudação evangélica, a graça, que como dissera Tomás, é a fonte de todos os
nossos bens; mas, a graça é mencionada, justamente porque o assunto primordial
da epístola também é em ordem a graça.
e paz. Outro princípio fundamental da saudação evangélica;
pois, um fruto da graça, é a paz no coração. Pois, o Senhor da Graça também é a
paz dos fiéis (cf. Ef 2.14).
da parte de Deus. Ora,
graça e paz, são provenientes de Deus, o Senhor da Graça e o doador da paz.
Portanto, a fonte de tudo que provêm de bom para os fiéis (cf. Tg 1.17).
nosso Pai. Ora, Deus é Pai, e Pai dos
eleitos, que são feitos filhos de Deus através do Filho de Deus (cf. Jo 1.12).
e da do Senhor Jesus Cristo. O Filho
de Deus, é o Senhor da Igreja, a fonte da graça e o Príncipe da paz (cf. Is
9.6). Logo, ao mencionar o Pai e o Filho, o Apóstolo está demonstrando o plano
da redenção, tanto quanto a ordem da salvação: o Pai que envia o Filho, para
outorgar Sua graça aos homens e dá-lhes a paz.
V. 1-3: A saudação do Apóstolo nesta epístola comporta
três verdades fundamentais: primeiro, os cristãos são responsáveis diante de
Deus por suas vidas e desenvolvimento na fé, principalmente diante das questões
temporais; segundo, os assuntos temporais no que concerne a graça diz respeito
não são somente ao indivíduo, mas também a sua família ou pessoas mais
achegadas; terceiro, a fonte da vida digna diante de Deus é a vontade de Deus
expressa através da vida e obra de Jesus Cristo, pois tudo quanto concerne a fé
é da parte de Deus e da de Jesus Cristo, e isto através do Espírito Santo.
§ 2. A alegria e a consolação pelo amor, virtude da
graça (1.4-7).
1.4: Graças dou ao meu Deus, lembrando-me sempre de ti
nas minhas orações,
Graças dou. O objeto principal da
epístola é a gratidão; não a gratidão por palavras, mas a gratidão que brota do
fundo do coração, com a sinceridade dos lábios verdadeiros que adoram a Deus;
pois, a graça produz no coração a gratidão a Deus.
ao meu Deus. O direcionamento da
gratidão, que sempre deve ser em honra a Deus e em função de Sua glória. A
gratidão do Apóstolo é a Deus, por aqueles que contribuíam na causa do
Evangelho.
lembrando-me sempre. Ora, a
gratidão é a memória viva dos feitos de Deus pelos homens e através dos homens.
Por isso, o Apóstolo acopla gratidão e memória, pois, onde não há memória não
há gratidão; pois, este é um preceito sapencial, a saber, agradecer a Deus de
acordo com a memória de Seus feitos (cf. Sl 103.2). O Apóstolo recorda de
Filemom sempre, isto é, sempre o traz em sua mente e coração, devido aos
efeitos graciosos que foram produzidos pela graça de Deus em Filemom e através
dele. Pois, a memória da fé é eterna.
de ti nas minhas orações. A
gratidão, embasada na memória enchida pela graça, se expressa na oração; a
lembrança do fiel se torna mais aquecida na oração e através da oração. Por
isso, o Apóstolo lembra-se de Filemom, com gratidão, a qual expressa orando por
Ele em todas as suas orações.
V. 4: A gratidão e a memória estão interligadas, a
gratidão pressupõe a memória, e vice-versa; por isso, duas coisas se dizem a
respeito da gratidão a Deus: primeiro, sua base, a fé em Deus; segundo, sua
manifestação, a saber, na oração.
1.5: ouvindo o teu amor e a fé que tens para com o
Senhor Jesus Cristo e para com todos os santos;
ouvindo o teu amor. A
gratidão do Apóstolo a Deus por Filemom, se dá pelo testemunho de Filemom, o
qual era em amor; e a Escritura afirma que a maior alegria de um servo de Deus
é ouvir que seus cooperadores andam na verdade e em amor (cf. 3Jo 1.4); logo, o
Apóstolo agradece a Deus pelo amor de Filemom, o qual era testemunhado por
todos os fiéis ao ponto de achegar aos ouvidos do Apóstolo. A gratidão do
Apóstolo a Deus é ver os frutos do Evangelho sendo engendrados nos fiéis e
através dos fiéis.
e a fé que tens. E, o
Apóstolo agradece a Deus não somente pelo amor de Filemom, mas também por sua
fé; pois, a fé de Filemom, era uma fé verdadeira, pois é uma fé que opera em
amor (cf. Gl 5.6); mas, o amor na verdade (cf. Ef 4.15).
para com o Senhor Jesus Cristo. A
fé de Filemom era embasada em Jesus Cristo; a fé verdadeira é fé em Jesus
Cristo, que se demonstra através da vida de acordo com Seus mandamentos. Filemom
demonstrou uma fé viva e operante para com o Senhor Jesus Cristo, tanto como
seu Salvador quanto como seu Senhor.
e para com todos os santos. A fé de
Filemom também demonstrava seus frutos para com todos os santos, isto é, para
com todos os fiéis na comunhão dos santos. A fé verdadeira também é a fé que se
demonstra na comunhão espiritual dos eleitos uns com os outros.
V. 5: O Apóstolo descreve nestes versículos os
fundamentos da gratidão: primeiro, o amor a Deus e ao próximo; segundo, a fé em
Jesus Cristo; terceiro, a fé para com todos os santos.
1.6: para que a comunicação da tua fé seja eficaz, no
conhecimento de todo o bem que em vós há, por Cristo Jesus.
para que. O Apóstolo agradece a Deus e
ora por Filemom, não somente por seu testemunho, mas também com o objetivo da
preservação de sua fé e testemunho.
a comunicação da tua fé seja eficaz. O
Apóstolo ora para que a comunicação da fé de Filemom seja eficaz; ora, a
comunicação da fé, é efeito da graça, tanto em palavras como em ações; mas,
principalmente em ações santas e retas; pois, a comunicação da fé é o que
demonstra ao mundo o Evangelho de Cristo através das pedras vivas da Igreja de
Deus (cf. 1Pe 2.2).
no conhecimento. A
comunicação da fé se dá pelo conhecimento; ora, o conhecimento da fé se dá de
dois modos: primeiro, pelo testemunho da fé confessada; segundo, pela
preservação e manifestação do bem nos fiéis, isto é, o testemunho da fé vivida.
de todo o bem que em vós há. A
comunicação da fé se dá pelo bem que há nos fiéis; pois, os efeitos da graça,
produzem nos fiéis abundância de bens espirituais; portanto, a fé ao ser
comunicada, o é através da participação nos bens espirituais; ou, como se diz
na descrição petrina, na participação em tudo quanto concerne a piedade (cf.
2Pe 1.4).
por Cristo Jesus. Ora, os
bens dos fiéis são por meio de Jesus Cristo, a fonte da graça; portanto, tudo o
que os fiéis comunicarem de sua fé, o fazem por meio de Jesus Cristo, pois por
Ele são feitos agradáveis a Deus (cf. Ef 1.6).
V. 6: A comunicação da fé evoca três coisas: primeiro,
a eficácia da comunicação da fé se dá pelo poder de Deus através da oração;
segundo, a comunicação da fé se dá pelo conhecimento, tanto doutrinal quanto
experimental (cf. 2Pe 3.18); terceiro, a comunicação da fé se dá somente por
meio de Jesus Cristo através do Espírito Santo.
1.7: Tive grande gozo e consolação do teu amor, porque
por ti, ó irmão, o coração dos santos foi reanimado.
Tive. Ora, ao evocar o testemunho de sua gratidão a Deus
por Filemom, e orar a Deus para que as virtudes da fé sejam nele preservadas e
comunicadas, o Apóstolo demonstra o que isto produziu em si. Por isso, diz “Tive”,
isto é, produziu nele os bons efeitos que o testemunho fiel traz aos eleitos.
grande gozo. O Apóstolo teve grande
alegria e regozijo ao ouvir do testemunho de Filemom. E uma das maiores
alegrias dos fiéis é ouvir do testemunho verdadeiro de outros fiéis.
e consolação do teu amor. O
Apóstolo também teve consolação do teu amor; ora, o amor verdadeiro manifesto
na retidão diante de Deus e dos homens, traz consolação ao coração dos fiéis
que passam tribulação e vicissitudes; pois, o testemunho do amor, traz
esperança e consolo ao coração atribulado e acutilado pelo sofrimento, como o
próprio Apóstolo testemunhara.
porque por ti. Ou seja,
através de Filemom, o testemunho da fé foi eficaz entre os fiéis.
ó irmão. O Apóstolo lembra que Filemom
era irmão na fé, tal como todos os fiéis.
o coração dos santos. O
testemunho de Filemom entre os santos, trouxe um efeito grandioso sobre os
fiéis; pois, o Espírito Santo produziu no coração dos santos um efeito da graça
através do testemunho de Filemon.
foi reanimado. O
testemunho de Filemom reanimou o coração dos santos, isto é, trouxe ânimo, onde
o ânimo havia ido embora ou estava enfraquecido; o amor de Filemom e seu
testemunho, reaqueceu o ânimo dos fiéis; o bom ânimo sempre é novamente
recobrado entre os eleitos através do testemunho fiel de um servo de Deus.
V. 7: A alegria e a consolação pelo amor, faz alguns
efeitos na alma, particularmente em relação ao ânimo: primeiro, traz ânimo;
segundo, recobra o ânimo; terceiro, limpa as amarguras do ânimo; quarto,
reanima e fortalece o bom ânimo.
V. 4-7: A virtude da graça nos fiéis, é produzir
nestes e através destes, o amor e a consolação necessária para a vida eclesial
na comunhão espiritual dos eleitos; por isso, os efeitos da virtude da graça
nos fiéis são quatro: primeiro, a gratidão a Deus manifesta na oração (v. 4);
segundo, o amor e a fé para com Jesus Cristo e todos os santos (v. 5);
terceiro, a eficácia da comunicação da fé tanto no conhecimento quanto na
experiência (v. 6); quarto, alegria e consolação pelo amor (v. 7).
§ 3. As ações de quem perdoa, efeitos da graça
(1.8-18).
1.8: Pelo que, ainda que tenha em Cristo grande
confiança para te mandar o que te convém,
Pelo que. Ora, tendo evocado a virtude
da graça, o Apóstolo passa a evocar o tema principal da epístola, a saber, o
perdão; e o faz delineando as ações de quem perdoa, as quais, são efeitos da
graça. E este “pelo que”, indica que o Apóstolo muda o tom da carta, no
tocante a adentrar realmente no propósito de escrevê-la.
ainda que tenha em Cristo. Isto é, o
Apóstolo evoca sua autoridade, pois, diante de Cristo ele pode arrolar para si
tal autoridade.
grande confiança. Ou seja,
a autoridade do Apóstolo, demonstra sua grande confiança para com Deus e diante
da Igreja.
para te mandar o que te convém. A
autoridade apostólica o permitia ordenar o que quisesse para o bem da Igreja,
já que era canal da revelação imediata de Deus.
V. 8: A autoridade do Apóstolo, como proveniente de
Deus, o fazia ter autoridade para instruir a Igreja de acordo com a inspiração
e a iluminação que recebia do Altíssimo; por isso, o Apóstolo que cordialmente
saudou Filemom no início da carta, ao chegar ao assunto primordial pelo qual
escreve, evoca sua autoridade para demonstrar a importância do assunto a ser
falado.
1.9: todavia, peço-te, antes, por amor, sendo eu tal
como sou, Paulo, o velho e também agora prisioneiro de Jesus Cristo.
todavia. Ora, mesmo que pudesse
ordenar devido a sua autoridade apostólica.
peço-te. O Apóstolo preferiu fazer um
pedido; o que demonstra sua humildade e a compreensão dada a questão a ser
evocada.
antes. Ora, ao invés de ordenar por autoridade, a qual
possuía para fazer isto livremente e sem pecar, prefere pedir e rogar.
por amor. E o faz por amor; ao invés
de ordenar o que convém na autoridade de Apóstolo, opta por pedir por amor;
pois, Filemom que deu testemunho de amor entre os fiéis, agora recebe um pedido
do Apóstolo por amor, em algo que o próprio Apóstolo o poderia ordenar com
autoridade infalível.
sendo eu tal como sou. E o
pedido do Apóstolo relembra o estado no qual se encontra.
Paulo, o velho. O
Apóstolo evoca o estado de sua vida, através do termo “velho”. O
Apóstolo, a altura deste pedido a Filemon, já é velho; o que indica que o que
faz não o faz por veemência, mas por sabedoria. Pois, a virtude concernente a
velhice é a sabedoria do temor a Deus (cf. Sb 4.8-9).
e também agora prisioneiro de Jesus Cristo.
Mas também o Apóstolo evoca a sua condição atual, a saber, prisioneiro; o
Apóstolo estava preso, e tinha plena consciência de que sua prisão era por
Jesus Cristo. Ora, ao se descrever como aquele que é prisioneiro por Jesus
Cristo, o Apóstolo demonstra que seu pedido a Filemom em prol da causa do
Evangelho, é um pequeno esforço a ser feito em prol de um bem maior comparado a
seu sofrimento.
V. 9: O pedido do Apóstolo se estabelece também em
consonância com sua idade, “o velho”, e de acordo com sua condição, “prisioneiro
de Jesus Cristo”. Ora, qualquer pedido feito por alguém nestas condições,
naturalmente é acatado; e estas razões, estão em ordem a natureza, pois, as
questões temporais, evidentemente, são de acordo com a natureza.
1.10: Peço-te por meu filho Onésimo, que gerei nas
minhas prisões,
Peço-te. Ora, a razão do pedido do
Apóstolo, e de ter declarado as credenciais deste pedido, tanto em ordem a
graça (v. 8), quanto em ordem a natureza (v. 9).
por meu filho Onésimo. O
Apóstolo pede em favor de um filho espiritual, a saber, Onésimo (cujo nome
significa útil), que era conhecido de Filemom, pois havia sido seu escravo.
que gerei nas minhas prisões. O filho
espiritual do Apóstolo, havia sido gerado em sua prisão. Ou seja, Onésimo
conheceu o Evangelho através do Apóstolo na prisão, já que também fora preso,
certamente por algum crime ou delito cometido.
V. 10: O pedido do Apóstolo é em favor de Onésimo,
outrora escravo de Filemom. Ora, não é em favor de qualquer um, mas em favor de
um filho espiritual do Apóstolo, tal como o próprio Filemom.
1.11: o qual, noutro tempo, te foi inútil, mas, agora,
a ti e a mim, muito útil; eu to tornei a enviar.
o qual, noutro tempo. Ora, o
Apóstolo soube da história envolvendo Onésimo e Filemom, donde evocar a
situação de Onésimo noutro tempo, tanto no que concerne as questões naturais,
quanto no que concerne as coisas espirituais. Pois, Onésimo em outro tempo
havia sido outra pessoa, inútil nas coisas temporais e vil nas coisas
espirituais, mas agora, sendo gerado filho de Deus, houvera sido transformado
pela graça, e é útil nas coisas temporais e irmão na fé nas coisas espirituais.
te foi inútil. Em outro
tempo, Onésimo, o útil, houvera sido inútil para Filemom; e isto descreve as
falhas de Onésimo no que concerne as coisas naturais, além da necessidade do
novo nascimento.
mas, agora. No entanto, agora, isto é,
após conhecer a Jesus Cristo, Onésimo foi transformado.
a ti e a mim, muito útil. Por isso,
o útil que antes era inútil, agora é útil, não somente a Filemom mas ao próprio
Apóstolo; ou seja, agora é útil tanto nas coisas naturais quanto nas coisas
espirituais.
eu to tornei a enviar. Ora, o
útil que era inútil, mas que agora ficou útil, o Apóstolo o enviou novamente a
Filemom; isto é, o Apóstolo mandou Onésimo de volta à Filemom. Ou seja, após Onésimo
ter sido transformado, o Apóstolo demonstrou a sua utilidade, não somente no
sentido de utilitarismo, mas sua utilidade para o bem e para as coisas
concernentes a Deus. A verdadeira utilidade de uma pessoa não está no que a
pessoa faz, mas em quem a pessoa é, em sua dignidade como ser humano, e ser for
fiel, em ser filho de Deus. Onésimo que anteriormente vivia apenas por sua
utilidade material, agora é útil por quem é.
V. 11: A descrição do Apóstolo evoca dois aspectos de
suma importância que tocam problemas aporéticos, a saber: primeiro, a situação
do indivíduo diante de um problema temporal, a saber, a escravidão; segundo, os
efeitos da graça diante de uma situação temporal que não pode ser mudada a
curto prazo. Pois, o Apóstolo bem sabia que a questão da escravidão era um
problema que seria vencido a longo prazo; todavia, ao Onésimo se encontrar com
esta dificuldade já que era um escravo, e ao conhecer o Evangelho, pode
entender, pelo próprio exemplo do Apóstolo, a suportar as situações adversas e
os problemas temporais – no caso, a escravidão -, com a graça de Deus.
1.12: E tu torna a recebê-lo como ao meu coração.
E tu. Ora, após descrever a transformação de Onésimo, o
Apóstolo se volta novamente a Filemom. Isto é, após falar de Onésimo, de sua
condição e do que fizera por ele, passa a evocar qual deve ser a atitude de
Filemom.
torna a recebê-lo. O pedido
do Apóstolo é para que Filemom receba novamente a Onésimo; pois, ao que parece,
Onésimo havia causado algum malefício a Filemom. Por isso, o Apóstolo tendo
feito as descrições anteriores, e tendo enviado Onésimo de volta a Filemom,
pede para que este o receba novamente.
como ao meu coração. E o
Apóstolo pede para que Filemom receba a Onésimo como se fosse a ele próprio; o
pedido do Apóstolo é feito como se fosse para si mesmo. O Apóstolo pede em
favor de Onésimo, mas o pede que Filemon o faça como se fosse para o próprio
Apóstolo.
V. 12: A petição do Apóstolo a Filemon tem dois
aspectos: primeiro, o receber Onésimo de volta; segundo, o fazer com a
cordialidade com que se faria com o próprio Apóstolo. E isto tanto para
demonstrar que Deus não faz acepção de pessoas (cf. At 10.34), quanto para
evocar a igualdade de todos os fiéis diante de Deus (cf. Gl 3.27-28).
1.13: Eu bem o quisera conservar comigo, para que, por
ti, me servisse nas prisões do evangelho;
Eu bem o quisera conservar comigo.
E, ao pedir a Filemom que receba Onésimo, o Apóstolo acrescenta que ao invés de
mandá-lo de volta, preferiria mantê-lo consigo.
para que. O Apóstolo queria manter
Onésimo consigo por um propósito.
por ti. Isto é, para que por meio
dele, tanto ele quanto o próprio Filemom, pudesse o servir.
me servisse nas prisões do evangelho. A
importância de Onésimo para o Apóstolo, era que ele poderia servi-lo enquanto
estava nas prisões do evangelho. E o serviço que Onésimo poderia prestar ao
Apóstolo, demonstra sua utilidade e importância para Deus e para a Igreja.
V. 13: A prova da importância de Onésimo é a
declaração do Apóstolo de que ele lhe era importante, a ponto de o poder servir
em suas prisões pelo Evangelho.
1.14: mas nada quis fazer sem o teu parecer, para que
o teu benefício não fosse como por força, mas voluntário.
mas nada quis fazer. Ora, o
Apóstolo, mesmo querendo manter Onésimo consigo para o poder servir em suas prisões
pelo Evangelho, resolveu nada fazer por si mesmo.
sem o teu parecer. Mas,
decidiu consultar a Filemo, não somente em favor de seu intento de manter
Onésimo consigo, mas em favor do próprio Onésimo.
para que o teu benefício. E isto
não em benefício próprio, ou somente em benefício de Onésimo, mas primeiramente
e fundamentalmente em benefício do próprio Filemom. O pedido do Apóstolo em
favor de Onésimo, na verdade, era para o benefício do próprio Filemom.
não fosse como por força. Ora, o
Apóstolo resolveu fazer deste modo, para declarar e demonstrar que não forçou
Filemom a nada; pois, no que concerne a graça, nada é por força, mas sempre
pelo Espírito de Deus (cf. Zc 4.6). E isto também é assim no que concerne a
atitude dos cristãos nos assuntos temporais, onde não se faz necessário o uso
da espada ou da força pelas autoridades.
mas voluntário. A
descrição do Apóstolo é que seu pedido fosse respondido de boa vontade por
Filemom, de modo voluntário, para que isto servisse de testemunho do amor e da
fé para com todos os santos.
V. 14: Os benefícios do pedido do Apóstolo, se dão de
dois modos: primeiro, em razão do próprio pedido; segundo, em função dos
envolvidos neste pedido. Pois, assim, Filemom e a Igreja que estava em sua
casa, alcançariam a unidade do Espírito guardada no vínculo da paz (cf. Ef
4.3).
1.15: Porque bem pode ser que ele se tenha separado de
ti por algum tempo, para que o retivesses para sempre,
Porque. Ora, o Apóstolo passa a
apresentar uma razão do porque ocorrera a situação adversa entre Filemom e
Onésimo.
bem pode ser que ele. Isto é,
por esta razão provavelmente foi que Onésimo em dado momento ficou como sendo
inútil.
se tenha separado de ti. Ou seja,
tenha estado preso.
por algum tempo. Por
determinado período de tempo, isto é, de acordo com algum propósito.
para que. Isto é, com algum propósito
maior; esta é a razão do porque Onésimo tinha deixado Filemom e tinha sido
preso.
o retivesses para sempre. Este é o
propósito de Onésimo ter sido inútil e ter sido preso, a saber, para através
destes acontecimentos, pudesse conhecer o Apóstolo na prisão, e vir a conhecer
o Evangelho, e ser transformado pela graça de Deus. Onésimo ficou um tempo
afastado de Filemom, para que Filemom o recebesse de volta e o retivesse, isto
é, o mantivesse consigo para sempre; pois, o conselho de Sirach aos senhores é
que tratem seus servos como se estivessem tratando a si mesmos (cf. Eclo.
33.31).
V. 15: A descrição do Apóstolo evoca os mistérios da
providência de Deus, em permitir uma situação adversa, no caso uma separação
entre o senhor e seu escravo, para desta situação tirar um bem maior, tanto
para seus servos quanto para Sua glória, bem como para ensinar o modo como o
fiel se deve portar diante de uma questão temporal que não é facilmente e
rapidamente resolvida.
1.16: não já como servo; antes, mais do que servo,
como irmão amado, particularmente de mim e quanto mais de ti, assim na carne
como no Senhor.
não já como servo. Isto é, o
Apóstolo pede que Filemom receba Onésimo de volta, não mais como um servo ou
escravo.
antes. Ou seja, ao invés de recebê-lo como escravo, deve
recebê-lo de outra forma.
mais do que servo. O pedido
do Apóstolo é para que Filemom receba Onésimo de volta, de modo maior e de
maneira mais excelente do que como receberia um escravo.
como irmão amado. Ora,
Filemom deveria receber Onésimo como um irmão amado; agora, Onésimo era irmão
na fé, e assim deveria ser recebido por Filemom, tendo em consciência que na
comunhão dos santos todos são iguais, e não há distinção entre senhor e servo
(cf. Gl 3.28).
particularmente de mim. Ora,
Onésimo era um irmão amado para o Apóstolo; e isto demonstra o efeito glorioso
na graça na vida de um pecador, ao transformar o inútil Onésimo em um irmão
amado para o Apóstolo. E o testemunho do Apóstolo é suficiente para demonstrar
sua virtude, tal como o próprio Apóstolo houvera testemunhado de Filemom. Pois,
se o testemunho do Apóstolo sobre Filemon é fidedigno, ao ouvir sobre seu amor
e fé, então, o testemunho do Apóstolo sobre Onésimo também e fidedigno ao
testemunhar pessoalmente a sua conversão.
e quanto mais de ti. Ora, se é
um irmão amado para o Apóstolo, deve ser ainda mais para Filemom.
assim na carne como no Senhor. A
descrição do Apóstolo é para que o receba tanto na carne, isto é, de acordo com
a natureza e as questões temporais, quanto o receba no Senhor, isto é, de
acordo com a graça. O Apóstolo ensina que Filemom deve receber Onésimo de volta
tanto em ordem a natureza, para demonstrar o testemunho da fé numa questão
temporal, quanto em ordem a graça, para dar testemunho da fé entre os fiéis.
V. 16: A dupla descrição do Apóstolo para que Filemom
receba Onésimo, demonstra o propósito desta epístola, a saber, apresentar a
graça no que concerne as questões temporais, isto é, tanto em relação as coisas
da natureza, quanto em relação as coisas da graça.
1.17: Assim, pois, se me tens por companheiro,
recebe-o como a mim mesmo.
Assim, pois. Ora, o Apóstolo prossegue e
apresenta mais uma razão para seu pedido.
se me tens por companheiro. Isto é,
se Filemom, tem o Apóstolo como um irmão na fé e como um companheiro na
proclamação do Evangelho; esta é uma razão do Apóstolo em seu pedido a Filemom,
isto é, demonstrar a igualdade diante de Deus de todos os fiéis, embora pudesse
por seu ministério apostólico ab-rogar a autoridade para ordenar o que convinha
a Igreja.
recebe-o como a mim mesmo. Ou seja,
Filemom deveria receber a Onésimo do mesmo modo como receberia o próprio
Apóstolo. Este pedido demonstra a importância de Onésimo para o Apóstolo, e de
sua utilidade para o maior proveito do Evangelho, ao ponto de pedir para outro
irmão na fé de receber alguém como se fosse a si mesmo.
V. 17: A petição do Apóstolo baseia-se agora em seu
relacionamento pessoal com Filemom, ao ponto de pedir para que recebesse
Onésimo como se fosse a si mesmo. Ora, em relação as coisas naturais, Filemom
muito bem poderia rejeitar Onésimo e isto não mancharia seu testemunho; pois,
estava em consonância com a justiça; mas, o Apóstolo também faz um apelo em
ordem a graça, apelando a Filemom para que receba Onésimo de acordo com os
preceitos evangélicos. E, isto, demonstra um modo da graça atuando e
sobrelevando-se as questões temporais, inclusive para dignificar ainda mais os
assuntos temporais; e também fora em algo acoplado neste sentido que o Senhor
Jesus Cristo afirmara que o reino dos céus é como o fermento que aos poucos
leveda a massa (cf. Mt 13.33), o que se aplica a proposição do Apóstolo em se
tratando do assunto evocado que tinha algo a ver com o tema da escravidão. Certamente,
através do testemunho de Filemom, haveria a primeira medida de fermento do
Evangelho no tocante a escravidão, que aos poucos iria levedar toda a massa da
escravidão, para no momento certo a mesma ser vencida e a igualdade de todos os
homens fosse testemunhada não somente pelos fiéis, mas por todas as gentes. O
primeiro passo neste quesito, sem sombra de dúvida, foi a epístola do Apóstolo
a Filemom.
1.18: E, se te fez algum dano ou te deve alguma coisa,
põe isso na minha conta.
E. Ora, se mesmo que diante do que fora afirmado no v.
17, Filemom ainda não o quisesse receber, o Apóstolo ainda propõe mais um
aspecto.
se te fez algum dano. Isto é,
se Onésimo houvera causado algum dano a Filemom, seja de qual tipo: seja moral,
financeiro, espiritual, etc.
ou te deve alguma coisa. Ou seja,
se Onésimo deve alguma coisa a Filemom, tanto em relação a sua função quanto em
relação a finanças ou danos materiais.
põe isso na minha conta. O
Apóstolo afirma a Filemom que se Onésimo o deve alguma coisa, seja em que
esfera for, que ele coloque isso na conta do Apóstolo; ou seja, o Apóstolo se
propõe a pagar a dívida de Onésimo se por acaso ele tiver alguma com Filemom; e
isto tanto demonstra o zelo paternal do Apóstolo por seu filho na fé gerado
entre as prisões, quanto sua solicitude pastoral para resolver um assunto
simples, mas que pelas circunstâncias poderia gerar alguma impugnação em e para
Filemom.
V. 18: A conta do Apóstolo para com Filemom, diz
respeito aos inúmeros bens que Filemom recebeu de Deus através da vida e da
obra do Apóstolo; portanto, se houver alguma coisa, que Filemom o ponha na
conta do Apóstolo, que supera qualquer dano, financeiro e/ou moral, cometido
por Onésimo. A conta aqui refere-se ao caráter e ao testemunho do Apóstolo, que
são dignos de crédito mesmo diante do dano e do erro cometido por alguém.
V. 8-18: O Apóstolo houvera descrito, a partir de seu
pedido a Filemom e de apresentar as razões deste pedido, quais são as ações de
quem perdoa; embora não o faça de modo afirmativo, o faz na intenção, como fica
claro no texto; pois, evoca as ações de quem perdoa não em ordem a natureza,
mas em ordem a graça, demonstrando que para o fiel, ainda que existam razões
naturais para perdoar ou não perdoar, pela graça, deve perdoar sempre, ainda
que não se deva aceitar as injustiças. Assim, o Apóstolo apresenta as ações de
quem perdoa como efeito da graça em onze aspectos: primeiro, o perdão é um
mandamento (cf. Mt 6.14-15, 18.21-22); por isso, o Apóstolo o pode ordenar (v.
8); e como é um mandamento concerne a graça. Segundo, o perdão também deve ser
praticado por amor (v. 9); pois, quem ama é nascido de Deus (cf. 1Jo 4.7).
Terceiro, o perdão deve ser ainda mais evidente entre os fiéis (v. 10); pois,
se deve fazer o bem a todos, mas principalmente aos da fé (cf. Gl 6.10).
Quarto, o perdão é reconhecer a preciosidade da misericórdia de Deus em
transformar o coração arrependido (v. 11); por isso, o perdão é imperativo da
graça, pois, se alguém perdoa mostra de quem é nascido (cf. Ef 4.32). Quinto, o
perdão é receber no coração a graça para limpar o dano cometido por outrem (v.
12). Sexto, o perdão mostra a excelência do coração transformado pela graça
para o progresso do Evangelho (v. 13); pois, aquele que perdoa recebe graça e
demonstra graça a quem perdoa (cf. 1Jo 3.18). Sétimo, o perdão é exercido,
fundamentalmente em benefício de quem perdoa (v. 14); pois, o perdão leva a um
caminho excelente ao se entendê-lo em ordem a providência de Deus (v. 15).
Nono, o perdão é colocar o outro que foi perdoado em honra a si mesmo (v. 16);
e a graça demonstra que cada um deve considerar o outro superior a si mesmo
(cf. Fp 2.3-4). Décimo, o perdão é olhar o outro a partir daquilo que Cristo
pode fazer nele (v. 17); pois, a graça é suficiente para transformar o pior
pecador num santo e vaso de honra nas mãos de Deus, como o exemplo do próprio
Apóstolo demonstra. Décimo-Primeiro, o perdão é colocar o erro do outro no
sacrífico vicário de Jesus Cristo (v. 18); pois, aquele que perdoa o faz porque
também fora perdoado através do derramar do precioso sangue de Jesus Cristo,
isto é, perdoa porque seu próprio erro fora colocado na conta de outro (de
Jesus Cristo).
§ 4. As razões de quem perdoa, doutrinas da graça
(1.19-25).
1.19: Eu, Paulo, de minha própria mão o escrevi: Eu o
pagarei, para te não dizer que ainda mesmo a ti próprio a mim te deves.
Eu, Paulo. O Apóstolo novamente evoca a
importância do assunto tratado, ao demonstrar que ele mesmo que escreveu esta
epístola.
de minha própria mão o escrevi. O
Apóstolo escreveu pessoalmente esta epístola, que se reveste de importância, já
que muitas das outras epístolas foram ditadas para um amanuense.
Eu o pagarei. Isto é, se Onésimo deve
alguma coisa a Filemom, que Filemom o descreva para o Apóstolo, pois ele mesmo
pagará se assim for necessário.
para te não dizer. Ou seja,
mesmo que o Apóstolo tiver de pagar algo em favor de Onésimo, Filemom deve se
lembrar de algo; isto é, o Apóstolo ao colocar-se como o pagador da dívida de
Onésimo, também traz a memória de Filemom que, se fosse pesar na balança os
erros dos envolvidos diante de Deus, haveria “dívida” de todos os envolvidos -
tal como houvera afirmado em Rm 3.23, e tal como afirmara o Príncipe dos
Profetas (cf. Is 64.6).
que ainda mesmo a ti próprio a mim te deves. E
o que o Apóstolo traz a memória que o próprio Filemom também deve a ele o fato
de ter conhecido o Evangelho, bem como em outras coisas; por isso, o Apóstolo
diz a Filemom que ele deve a si mesmo ao Apóstolo, isto é, que o que de mais
precioso Filemom possui, o possui em função do ministério do Apóstolo.
V. 19: A razão de quem perdoa, não está em ordem as
coisas naturais, mas em ordem as coisas da graça; pois, quem perdoa, o faz,
porque também foi perdoado; e quem mais dá a graça do perdão, mais recebe das
dádivas da graça do próprio perdão, tanto em si mesmo quanto das bênçãos
outorgadas por Deus. Por isso, a primeira razão de quem perdoa é a graça, que
foi recebida de graça, e em relação ao perdão, deve ser outorgada de graça.
1.20: Sim, irmão, eu me regozijarei de ti no Senhor;
reanima o meu coração, no Senhor.
Sim, irmão. O Apóstolo retoma a sua
pressuposição, ao declarar o sim em relação ao perdão; ora, o Sim de Deus é em
Cristo (cf. 2Co 1.20); por isso, quem perdoa, está no Sim de Deus, bem como
recebe a vida deste Sim, já que quem perdoa, é perdoado (cf. Mt 6.14). Logo, o
Apóstolo demonstra o sim de Deus a um irmão querido na fé.
eu me regozijarei de ti no Senhor.
Se Filemom aceitar este sim, isto produzirá um efeito peculiar no Apóstolo, a
saber, fará com o que o Apóstolo se regozije no Senhor; pois, a glória de um
servo de Deus é ver e ouvir que seus filhos andam na verdade e que praticam o
Evangelho. Aliás, a alegria no Senhor, mesmo em meio as prisões, é algo que
contribui para a alegria do Apóstolo; então, Filemom, ao saber do estado
presente do Apóstolo, “prisioneiro de Jesus Cristo”, certamente, é
comovido por estas palavras em seu coração a efetuar de boa vontade o pedido do
Apóstolo, também para a alegria do próprio Apóstolo.
reanima o meu coração. Além da
alegria, o cumprimento do pedido do Apóstolo por parte de Filemom, iria trazer
ânimo ao coração do Apóstolo; a graça do perdão alegra o coração, pois, perdoar
é amar, e quem ama é nascido de Deus (cf. 1Jo 4.7).
no Senhor. A reanimação do coração do
Apóstolo, se dará no Senhor; pois, mesmo que o Apóstolo possa não ter motivos
humanos para se alegrar, no Senhor, ele sempre se alegra (cf. Fp 4.4), mesmo
nas situações mais adversas (cf. 2Co 12.9-10); e assim, Filemom ao cumprir o
pedido do Apóstolo, proporcionaria ao Apóstolo ter seu coração reanimado ao ver
os frutos de seu trabalho, principalmente ao permear um assunto truncado e
difícil como aqueles que, em sua época, tocavam o tema da escravidão ou a ele
se referiam de algum modo.
V. 20: As razões do perdão, sustentadas pela graça,
são motivo de alegria e de bom ânimo; por isso, o perdão permeia o coração, e,
por conseguinte, todas as potências da alma; portanto, as razões de quem
perdoa, sendo embasadas nas doutrinas da graça, são sempre razões que tocam
todo o ser do indivíduo.
1.21: Escrevi-te confiado na tua obediência, sabendo
que ainda farás mais do que digo.
Escrevi-te. Ou seja, o Apóstolo escreveu
para Filemom com um propósito bem específico.
confiado na tua obediência. Isto é,
confiado que Filemom irá efetuar cabalmente o pedido do Apóstolo; pois, a fé
demonstra-se na obediência; portanto, a obediência aos mandamentos é o
corolário da fé.
sabendo que ainda farás mais do que digo. A
petição do Apóstolo a Filemom, se baseia na obediência de Filemom; e, como a
obediência do fiel é sempre alegre e confiante, o Apóstolo bem sabe que Filemom
irá fazer ainda mais do que lhe pede; no caso de Onésimo, provavelmente lhe
outorgando a carta de manumissão;
ou melhor, lhe dando o desquite da escravidão e o mantendo dignamente como seu
criado e/ou funcionário e, principalmente, como um irmão na fé.
V. 21: As razões de quem perdoa, são razões firmadas
na obediência; e o Senhor é conhecido, a medida que se o conhece no
entendimento e cumprimento dos mandamentos. E o perdão é um imperativo da
graça. Por isso, a ordenança concernente ao perdão, é sempre feita em função da
obediência do fiel ao seu Senhor.
1.22: E juntamente prepara-me também pousada, porque
espero que, pelas vossas orações, vos hei de ser concedido.
E juntamente. Além de efetuar o pedido com
relação a Onésimo, o Apóstolo também faz outro pedido, agora para si mesmo.
prepara-me também pousada. Ou seja,
o Apóstolo pede para que Filemom prepare para ele uma pousada, isto é, um local
para repouso; e isto demonstra a importância de Filemon para o Apóstolo, a
ponto de pedir pousada para si na casa do próprio Filemom. Ora, a amizade entre
Filemom e o Apóstolo, transcendia a comunhão dos santos, embora nesta fosse
mais bem demonstrada para a glória de Deus; por isso, o Apóstolo pode pedir à
Filemom algo que concerne aos assuntos temporais, mas que versa sobre a
influência da graça de Deus nas ações dos fiéis no que concerne a este mundo.
porque espero que. Ora, o
Apóstolo faz mais esse pedido a Filemom, porque tem uma esperança concernente a
sua situação na prisão.
pelas vossas orações. Ou seja,
o Apóstolo tem uma esperança, devido as orações dos fiéis, principalmente as de
Filemom, de sua família e da Igreja que se reunia em sua casa.
vos hei de ser concedido. A
esperança do Apóstolo era em breve ser libertado da prisão, para novamente
poder estar com eles.
V. 22: As ações de quem perdoa, demonstram a esperança
como proveniência da graça; pois, pela esperança, ordenam a fé ao devido fim,
pelo testemunho do perdão e no perdão.
1.23: Saúdam-te Epafras, meu companheiro de prisão por
Cristo Jesus,
Saúdam-te. Além do Apóstolo, e do irmão
Timóteo que com ele estava, outros também enviam saudações a Filemom, e estão
cientes da invectiva do Apóstolo e a apoiam.
Epafras. Um companheiro do Apóstolo,
um amado conservo de Jesus Cristo, e um estimado intercessor (cf. Cl 4.12).
meu companheiro de prisão por Cristo Jesus.
Ou seja, ele estava preso com o Apóstolo por causa do Evangelho.
1.24: Marcos, Aristarco, Demas e Lucas, meus
cooperadores.
Marcos. Outro companheiro do
Apóstolo, com o qual tivera alguns problemas (cf. At 15.36-39), mas que depois
se reconciliou com o Apóstolo e novamente lhe foi útil para o ministério
apostólico (cf. Cl 4.10; 2Tm 4.11b). A menção de Marcos aqui, retoma uma
situação similar a de Filemom e Onésimo, certamente para também influenciar
Filemom com um exemplo do próprio Apóstolo no tocante ao perdão.
Aristarco. Outro cooperador do
Apóstolo, que também estava preso (cf. Cl 4.10).
Demas. Um fiel companheiro do Apóstolo na propagação do
Evangelho; mas que depois abandonou a fé amando o “presente século” (cf.
2Tm 4.9a).
Lucas. O autor do terceiro Evangelho e de Atos dos
Apóstolos, que era médico e que em muitas ocasiões acompanhou o Apóstolo em
suas viagens missionárias. O Apóstolo o chamava de “médico amado” (cf.
Cl 4.14).
meus cooperadores. Ou seja,
todos estes eram cooperadores do Apóstolo, em seu ministério de propagação do
Evangelho a todas as gentes.
V. 23-24: A saudação de todos aqueles que estão com o
Apóstolo, os quais, Filemom também sabiam quem eram, demonstra que as ações de
quem perdoa, permeia toda a vida eclesial e toda a comunhão dos santos, pois,
versa sobre o tema fundamental diante do qual todos são devedores; e, por isso,
todos devem perdoar.
1.25: A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja com o
vosso espírito. Amém!
A graça de nosso Senhor Jesus Cristo. O
tema fundamental desta epístola, e sua aplicação no que concerne a um assunto
temporal.
seja com o vosso espírito. Isto é,
seja com todo o vosso coração, com toda a sede de vosso ser, donde possa emanar
para todas as outras potências interiores. O coração é a casa da graça no ser
humano, nonde o Espírito Santo atua e move tudo pneumaticamente. Por isso, a
razão da bênção do Apóstolo ser em razão do espírito, isto é, do coração do
fiel.
Amém! Ora, a conclusão litúrgica das orações e das
saudações orantes, com significado de “assim seja!”, isto é, que se
cumpra tudo conforme foi designado para a glória de Deus.
V. 19-25: As ações de quem perdoa, são demonstradas
doutrinariamente como doutrinas da graça, porque versam sobre a graça e são
pressupostas pela graça; e, sobre isso, o Apóstolo faz seis coisas: primeiro,
foi Cristo quem pagou a dívida dos homens diante de Deus (cf. Cl 2.13-14), do
mesmo modo como fora o Apóstolo quem testemunhara do Evangelho para Filemom (v.
19); segundo, o perdão, como proveniência da graça, ao ser praticado, traz os
efeitos da graça ao coração, a saber, alegria e ânimo ao coração (v. 20);
terceiro, o perdão é mandamento evangélico, e, é parte da obediência que
concerne ao fiel (v. 21); quarto, o perdão traz esperança diante das situações
difíceis, pois, traz a memória a graça outorgada na regeneração, a qual também
pode ser outorgada para o livramento das tribulações (v. 22); quinto, o perdão
é testemunhado por todos os fiéis como algo necessário e assaz importante, como
muitos fiéis já o testemunharam (v. 23-24); sexto, o perdão é fundamentado na
graça outorgada ao coração, para que do mesmo emane a todo o ser, influindo as
saídas da vida com a graça de Deus (v. 25). Ora, as ações de quem perdoa estão
fundamentadas na graça, e em si demonstram algo das doutrinas da graça, pois,
estão embasadas nos preceitos da graça. E, por isso, influem em relação as
questões temporais; no caso do assunto desta epístola, na inter-relação
senhor-servo e servo-senhor; mas os princípios evocados são suficientes para
basicamente tudo quanto concerne a graça nos assuntos temporais, ao se colocar
esta epístola em ordem ao todo da Sagrada Escritura.
***
E termina aqui este comentário menor a
epístola a Filemom. Bendito seja Deus por Sua Santa Palavra. Amém.
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