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26/11/2024

Glosas a Epístola a Filemom

Sinopse: Esta epístola, um dos menores escritos bíblicos, e a menor epístola paulina, tem um capítulo, e é dividida em quatro partes: (§ 1) prefácio e saudação (1.1-3); (§ 2) a alegria e a consolação pelo amor, virtude da graça (1.4-7); (§ 3) as ações de quem perdoa, efeitos da graça (1.8-18); (§ 4) as razões de quem perdoa, doutrinas da graça (1.19-25).

 

§ 1. Prefácio e saudação (1.1-3).

1.1: Paulo, prisioneiro de Jesus Cristo, e o irmão Timóteo, ao amado Filemom, nosso cooperador,

Paulo. O Apóstolo das gentes, e autor de outras 13 epístolas que compõe o Novo Testamento. Nas suas epístolas, inicia diretamente com seu nome, a fim de aclarar o autor das mesmas, e evoca sua função apostólica, para demonstrar sua autoridade para escrever tais cartas; e, no caso desta epístola há algo peculiar, pois, é a única entre as suas epístolas, as quais não evoca sua função como “Apóstolo”; mas, apenas apresenta-se e dá seu estado e condição de quando escreve esta missiva; isto demonstra que esta epístola é a mais pessoal de todas as suas cartas. Além do que, no âmbito da preeminência da graça no Novo Testamento, esta epístola versa sobre a graça no tocante as questões temporais. Por isso, Paulo, o Apóstolo da graça, a escreve justamente para evocar a graça no tocante aos assuntos temporais.

prisioneiro. Ora, o Apóstolo quando escreveu esta epístola estava preso em Roma (cf. At 28.16-31), nos anos de 60-62, donde escreveu outras epístolas, tais como Efésios, Filipenses e Colossenses.

de Jesus Cristo. O Apóstolo não era prisioneiro de homens ou da vontade humana, mas era prisioneiro pela vontade soberana de Jesus Cristo, Aquele que houvera dito que mostraria a ele o quanto era necessário que padecesse pelo Evangelho (cf. At 9.16). Ora, isto demonstra que a prisão do Apóstolo é para proveito maior do anúncio do Evangelho e para a glória de Deus (cf. Fp 1.12).

e o irmão Timóteo. E, conjuntamente com o Apóstolo quando ele escreveu esta epístola, estava seu amado filho na fé Timóteo, o qual, era líder conhecido nas Igrejas e que o Apóstolo o havia ensinado o que concerne ao pastoreio e cuidado das almas. Portanto, o Apóstolo o menciona para evocar a autoridade pastoral de Timóteo entre as Igrejas da época e também para lhe ensinar a graça no tocante aos assuntos temporais.

ao amado Filemom. Este é o destinatário desta epístola; o amado Filemom, que não somente era irmão de fé e fiel seguidor de Cristo, da Igreja em Colossos, mas também era amigo querido do Apóstolo. O nome Filemom significa “aquele que ama”.

nosso cooperador. Ora, Filemom era cooperador do Apóstolo; não era um título, mas era uma função que os fiéis exerciam em ajuda ao trabalho apostólico, de modo que, aos que assim se portavam também eram chamados de cooperadores da verdade, tal como o afirma a Escritura (cf. 3Jo 1.8).

1.2: e à nossa irmã Áfia, e a Arquipo, nosso companheiro, e à igreja que está em tua casa:

e à nossa irmã Áfia. Era a mulher de Filemom, que também era serva de Deus.

e a Arquipo. O filho de Filemom, também um fiel cristão, a quem o Apóstolo também incentivara com conselhos pastorais tal como fizera com Timóteo (cf. Cl 4.17).

nosso companheiro. Ora, o filho de Filemom também era um cooperador na causa do Evangelho e ajudava seu Pai e contribuía com o trabalho do Apóstolo.

e à igreja que está em tua casa. Na casa de Filemom, se reunia uma porção da Igreja em Colossos; pois, no início era muito comum que as Igrejas se reunissem nas casas; por isso, a epístola direcionada a Filemom também compreendia sua família e a Igreja que se reunia em sua casa.

V. 2: A epístola direcionada a Filemom, também era à sua família e a Igreja que com ele convivia, tanto porque dizia respeito a um assunto importante no tocante aos assuntos temporais, quanto porque através do testemunho de Filemon, a vida dos fiéis seria ensinada e edificada. Era uma epístola à Filemom e à Igreja, que versava sobre a graça em questões extra-eclesiais, mas que tocava diretamente na vida eclesial.

1.3: graça a vós e paz, da parte de Deus, nosso Pai, e da do Senhor Jesus Cristo.

graça a vós. O princípio fundamental da saudação evangélica, a graça, que como dissera Tomás, é a fonte de todos os nossos bens; mas, a graça é mencionada, justamente porque o assunto primordial da epístola também é em ordem a graça.

e paz. Outro princípio fundamental da saudação evangélica; pois, um fruto da graça, é a paz no coração. Pois, o Senhor da Graça também é a paz dos fiéis (cf. Ef 2.14).

da parte de Deus. Ora, graça e paz, são provenientes de Deus, o Senhor da Graça e o doador da paz. Portanto, a fonte de tudo que provêm de bom para os fiéis (cf. Tg 1.17).

nosso Pai. Ora, Deus é Pai, e Pai dos eleitos, que são feitos filhos de Deus através do Filho de Deus (cf. Jo 1.12).

e da do Senhor Jesus Cristo. O Filho de Deus, é o Senhor da Igreja, a fonte da graça e o Príncipe da paz (cf. Is 9.6). Logo, ao mencionar o Pai e o Filho, o Apóstolo está demonstrando o plano da redenção, tanto quanto a ordem da salvação: o Pai que envia o Filho, para outorgar Sua graça aos homens e dá-lhes a paz.

V. 1-3: A saudação do Apóstolo nesta epístola comporta três verdades fundamentais: primeiro, os cristãos são responsáveis diante de Deus por suas vidas e desenvolvimento na fé, principalmente diante das questões temporais; segundo, os assuntos temporais no que concerne a graça diz respeito não são somente ao indivíduo, mas também a sua família ou pessoas mais achegadas; terceiro, a fonte da vida digna diante de Deus é a vontade de Deus expressa através da vida e obra de Jesus Cristo, pois tudo quanto concerne a fé é da parte de Deus e da de Jesus Cristo, e isto através do Espírito Santo.

§ 2. A alegria e a consolação pelo amor, virtude da graça (1.4-7).

1.4: Graças dou ao meu Deus, lembrando-me sempre de ti nas minhas orações,

Graças dou. O objeto principal da epístola é a gratidão; não a gratidão por palavras, mas a gratidão que brota do fundo do coração, com a sinceridade dos lábios verdadeiros que adoram a Deus; pois, a graça produz no coração a gratidão a Deus.

ao meu Deus. O direcionamento da gratidão, que sempre deve ser em honra a Deus e em função de Sua glória. A gratidão do Apóstolo é a Deus, por aqueles que contribuíam na causa do Evangelho.

lembrando-me sempre. Ora, a gratidão é a memória viva dos feitos de Deus pelos homens e através dos homens. Por isso, o Apóstolo acopla gratidão e memória, pois, onde não há memória não há gratidão; pois, este é um preceito sapencial, a saber, agradecer a Deus de acordo com a memória de Seus feitos (cf. Sl 103.2). O Apóstolo recorda de Filemom sempre, isto é, sempre o traz em sua mente e coração, devido aos efeitos graciosos que foram produzidos pela graça de Deus em Filemom e através dele. Pois, a memória da fé é eterna.

de ti nas minhas orações. A gratidão, embasada na memória enchida pela graça, se expressa na oração; a lembrança do fiel se torna mais aquecida na oração e através da oração. Por isso, o Apóstolo lembra-se de Filemom, com gratidão, a qual expressa orando por Ele em todas as suas orações.

V. 4: A gratidão e a memória estão interligadas, a gratidão pressupõe a memória, e vice-versa; por isso, duas coisas se dizem a respeito da gratidão a Deus: primeiro, sua base, a fé em Deus; segundo, sua manifestação, a saber, na oração.

1.5: ouvindo o teu amor e a fé que tens para com o Senhor Jesus Cristo e para com todos os santos;

ouvindo o teu amor. A gratidão do Apóstolo a Deus por Filemom, se dá pelo testemunho de Filemom, o qual era em amor; e a Escritura afirma que a maior alegria de um servo de Deus é ouvir que seus cooperadores andam na verdade e em amor (cf. 3Jo 1.4); logo, o Apóstolo agradece a Deus pelo amor de Filemom, o qual era testemunhado por todos os fiéis ao ponto de achegar aos ouvidos do Apóstolo. A gratidão do Apóstolo a Deus é ver os frutos do Evangelho sendo engendrados nos fiéis e através dos fiéis.

e a fé que tens. E, o Apóstolo agradece a Deus não somente pelo amor de Filemom, mas também por sua fé; pois, a fé de Filemom, era uma fé verdadeira, pois é uma fé que opera em amor (cf. Gl 5.6); mas, o amor na verdade (cf. Ef 4.15).

para com o Senhor Jesus Cristo. A fé de Filemom era embasada em Jesus Cristo; a fé verdadeira é fé em Jesus Cristo, que se demonstra através da vida de acordo com Seus mandamentos. Filemom demonstrou uma fé viva e operante para com o Senhor Jesus Cristo, tanto como seu Salvador quanto como seu Senhor.

e para com todos os santos. A fé de Filemom também demonstrava seus frutos para com todos os santos, isto é, para com todos os fiéis na comunhão dos santos. A fé verdadeira também é a fé que se demonstra na comunhão espiritual dos eleitos uns com os outros.

V. 5: O Apóstolo descreve nestes versículos os fundamentos da gratidão: primeiro, o amor a Deus e ao próximo; segundo, a fé em Jesus Cristo; terceiro, a fé para com todos os santos.

1.6: para que a comunicação da tua fé seja eficaz, no conhecimento de todo o bem que em vós há, por Cristo Jesus.

para que. O Apóstolo agradece a Deus e ora por Filemom, não somente por seu testemunho, mas também com o objetivo da preservação de sua fé e testemunho.

a comunicação da tua fé seja eficaz. O Apóstolo ora para que a comunicação da fé de Filemom seja eficaz; ora, a comunicação da fé, é efeito da graça, tanto em palavras como em ações; mas, principalmente em ações santas e retas; pois, a comunicação da fé é o que demonstra ao mundo o Evangelho de Cristo através das pedras vivas da Igreja de Deus (cf. 1Pe 2.2).

no conhecimento. A comunicação da fé se dá pelo conhecimento; ora, o conhecimento da fé se dá de dois modos: primeiro, pelo testemunho da fé confessada; segundo, pela preservação e manifestação do bem nos fiéis, isto é, o testemunho da fé vivida.

de todo o bem que em vós há. A comunicação da fé se dá pelo bem que há nos fiéis; pois, os efeitos da graça, produzem nos fiéis abundância de bens espirituais; portanto, a fé ao ser comunicada, o é através da participação nos bens espirituais; ou, como se diz na descrição petrina, na participação em tudo quanto concerne a piedade (cf. 2Pe 1.4).

por Cristo Jesus. Ora, os bens dos fiéis são por meio de Jesus Cristo, a fonte da graça; portanto, tudo o que os fiéis comunicarem de sua fé, o fazem por meio de Jesus Cristo, pois por Ele são feitos agradáveis a Deus (cf. Ef 1.6).

V. 6: A comunicação da fé evoca três coisas: primeiro, a eficácia da comunicação da fé se dá pelo poder de Deus através da oração; segundo, a comunicação da fé se dá pelo conhecimento, tanto doutrinal quanto experimental (cf. 2Pe 3.18); terceiro, a comunicação da fé se dá somente por meio de Jesus Cristo através do Espírito Santo.

1.7: Tive grande gozo e consolação do teu amor, porque por ti, ó irmão, o coração dos santos foi reanimado.

Tive. Ora, ao evocar o testemunho de sua gratidão a Deus por Filemom, e orar a Deus para que as virtudes da fé sejam nele preservadas e comunicadas, o Apóstolo demonstra o que isto produziu em si. Por isso, diz “Tive”, isto é, produziu nele os bons efeitos que o testemunho fiel traz aos eleitos.

grande gozo. O Apóstolo teve grande alegria e regozijo ao ouvir do testemunho de Filemom. E uma das maiores alegrias dos fiéis é ouvir do testemunho verdadeiro de outros fiéis.

e consolação do teu amor. O Apóstolo também teve consolação do teu amor; ora, o amor verdadeiro manifesto na retidão diante de Deus e dos homens, traz consolação ao coração dos fiéis que passam tribulação e vicissitudes; pois, o testemunho do amor, traz esperança e consolo ao coração atribulado e acutilado pelo sofrimento, como o próprio Apóstolo testemunhara.

porque por ti. Ou seja, através de Filemom, o testemunho da fé foi eficaz entre os fiéis.

ó irmão. O Apóstolo lembra que Filemom era irmão na fé, tal como todos os fiéis.

o coração dos santos. O testemunho de Filemom entre os santos, trouxe um efeito grandioso sobre os fiéis; pois, o Espírito Santo produziu no coração dos santos um efeito da graça através do testemunho de Filemon.

foi reanimado. O testemunho de Filemom reanimou o coração dos santos, isto é, trouxe ânimo, onde o ânimo havia ido embora ou estava enfraquecido; o amor de Filemom e seu testemunho, reaqueceu o ânimo dos fiéis; o bom ânimo sempre é novamente recobrado entre os eleitos através do testemunho fiel de um servo de Deus.

V. 7: A alegria e a consolação pelo amor, faz alguns efeitos na alma, particularmente em relação ao ânimo: primeiro, traz ânimo; segundo, recobra o ânimo; terceiro, limpa as amarguras do ânimo; quarto, reanima e fortalece o bom ânimo.

V. 4-7: A virtude da graça nos fiéis, é produzir nestes e através destes, o amor e a consolação necessária para a vida eclesial na comunhão espiritual dos eleitos; por isso, os efeitos da virtude da graça nos fiéis são quatro: primeiro, a gratidão a Deus manifesta na oração (v. 4); segundo, o amor e a fé para com Jesus Cristo e todos os santos (v. 5); terceiro, a eficácia da comunicação da fé tanto no conhecimento quanto na experiência (v. 6); quarto, alegria e consolação pelo amor (v. 7).

§ 3. As ações de quem perdoa, efeitos da graça (1.8-18).

1.8: Pelo que, ainda que tenha em Cristo grande confiança para te mandar o que te convém,

Pelo que. Ora, tendo evocado a virtude da graça, o Apóstolo passa a evocar o tema principal da epístola, a saber, o perdão; e o faz delineando as ações de quem perdoa, as quais, são efeitos da graça. E este “pelo que”, indica que o Apóstolo muda o tom da carta, no tocante a adentrar realmente no propósito de escrevê-la.

ainda que tenha em Cristo. Isto é, o Apóstolo evoca sua autoridade, pois, diante de Cristo ele pode arrolar para si tal autoridade.

grande confiança. Ou seja, a autoridade do Apóstolo, demonstra sua grande confiança para com Deus e diante da Igreja.

para te mandar o que te convém. A autoridade apostólica o permitia ordenar o que quisesse para o bem da Igreja, já que era canal da revelação imediata de Deus.

V. 8: A autoridade do Apóstolo, como proveniente de Deus, o fazia ter autoridade para instruir a Igreja de acordo com a inspiração e a iluminação que recebia do Altíssimo; por isso, o Apóstolo que cordialmente saudou Filemom no início da carta, ao chegar ao assunto primordial pelo qual escreve, evoca sua autoridade para demonstrar a importância do assunto a ser falado.

1.9: todavia, peço-te, antes, por amor, sendo eu tal como sou, Paulo, o velho e também agora prisioneiro de Jesus Cristo.

todavia. Ora, mesmo que pudesse ordenar devido a sua autoridade apostólica.

peço-te. O Apóstolo preferiu fazer um pedido; o que demonstra sua humildade e a compreensão dada a questão a ser evocada.

antes. Ora, ao invés de ordenar por autoridade, a qual possuía para fazer isto livremente e sem pecar, prefere pedir e rogar.

por amor. E o faz por amor; ao invés de ordenar o que convém na autoridade de Apóstolo, opta por pedir por amor; pois, Filemom que deu testemunho de amor entre os fiéis, agora recebe um pedido do Apóstolo por amor, em algo que o próprio Apóstolo o poderia ordenar com autoridade infalível.

sendo eu tal como sou. E o pedido do Apóstolo relembra o estado no qual se encontra.

Paulo, o velho. O Apóstolo evoca o estado de sua vida, através do termo “velho”. O Apóstolo, a altura deste pedido a Filemon, já é velho; o que indica que o que faz não o faz por veemência, mas por sabedoria. Pois, a virtude concernente a velhice é a sabedoria do temor a Deus (cf. Sb 4.8-9).

e também agora prisioneiro de Jesus Cristo. Mas também o Apóstolo evoca a sua condição atual, a saber, prisioneiro; o Apóstolo estava preso, e tinha plena consciência de que sua prisão era por Jesus Cristo. Ora, ao se descrever como aquele que é prisioneiro por Jesus Cristo, o Apóstolo demonstra que seu pedido a Filemom em prol da causa do Evangelho, é um pequeno esforço a ser feito em prol de um bem maior comparado a seu sofrimento.

V. 9: O pedido do Apóstolo se estabelece também em consonância com sua idade, “o velho”, e de acordo com sua condição, “prisioneiro de Jesus Cristo”. Ora, qualquer pedido feito por alguém nestas condições, naturalmente é acatado; e estas razões, estão em ordem a natureza, pois, as questões temporais, evidentemente, são de acordo com a natureza.

1.10: Peço-te por meu filho Onésimo, que gerei nas minhas prisões,

Peço-te. Ora, a razão do pedido do Apóstolo, e de ter declarado as credenciais deste pedido, tanto em ordem a graça (v. 8), quanto em ordem a natureza (v. 9).

por meu filho Onésimo. O Apóstolo pede em favor de um filho espiritual, a saber, Onésimo (cujo nome significa útil), que era conhecido de Filemom, pois havia sido seu escravo.

que gerei nas minhas prisões. O filho espiritual do Apóstolo, havia sido gerado em sua prisão. Ou seja, Onésimo conheceu o Evangelho através do Apóstolo na prisão, já que também fora preso, certamente por algum crime ou delito cometido.

V. 10: O pedido do Apóstolo é em favor de Onésimo, outrora escravo de Filemom. Ora, não é em favor de qualquer um, mas em favor de um filho espiritual do Apóstolo, tal como o próprio Filemom.

1.11: o qual, noutro tempo, te foi inútil, mas, agora, a ti e a mim, muito útil; eu to tornei a enviar.

o qual, noutro tempo. Ora, o Apóstolo soube da história envolvendo Onésimo e Filemom, donde evocar a situação de Onésimo noutro tempo, tanto no que concerne as questões naturais, quanto no que concerne as coisas espirituais. Pois, Onésimo em outro tempo havia sido outra pessoa, inútil nas coisas temporais e vil nas coisas espirituais, mas agora, sendo gerado filho de Deus, houvera sido transformado pela graça, e é útil nas coisas temporais e irmão na fé nas coisas espirituais.

te foi inútil. Em outro tempo, Onésimo, o útil, houvera sido inútil para Filemom; e isto descreve as falhas de Onésimo no que concerne as coisas naturais, além da necessidade do novo nascimento.

mas, agora. No entanto, agora, isto é, após conhecer a Jesus Cristo, Onésimo foi transformado.

a ti e a mim, muito útil. Por isso, o útil que antes era inútil, agora é útil, não somente a Filemom mas ao próprio Apóstolo; ou seja, agora é útil tanto nas coisas naturais quanto nas coisas espirituais.

eu to tornei a enviar. Ora, o útil que era inútil, mas que agora ficou útil, o Apóstolo o enviou novamente a Filemom; isto é, o Apóstolo mandou Onésimo de volta à Filemom. Ou seja, após Onésimo ter sido transformado, o Apóstolo demonstrou a sua utilidade, não somente no sentido de utilitarismo, mas sua utilidade para o bem e para as coisas concernentes a Deus. A verdadeira utilidade de uma pessoa não está no que a pessoa faz, mas em quem a pessoa é, em sua dignidade como ser humano, e ser for fiel, em ser filho de Deus. Onésimo que anteriormente vivia apenas por sua utilidade material, agora é útil por quem é.

V. 11: A descrição do Apóstolo evoca dois aspectos de suma importância que tocam problemas aporéticos, a saber: primeiro, a situação do indivíduo diante de um problema temporal, a saber, a escravidão; segundo, os efeitos da graça diante de uma situação temporal que não pode ser mudada a curto prazo. Pois, o Apóstolo bem sabia que a questão da escravidão era um problema que seria vencido a longo prazo; todavia, ao Onésimo se encontrar com esta dificuldade já que era um escravo, e ao conhecer o Evangelho, pode entender, pelo próprio exemplo do Apóstolo, a suportar as situações adversas e os problemas temporais – no caso, a escravidão -, com a graça de Deus.

1.12: E tu torna a recebê-lo como ao meu coração.

E tu. Ora, após descrever a transformação de Onésimo, o Apóstolo se volta novamente a Filemom. Isto é, após falar de Onésimo, de sua condição e do que fizera por ele, passa a evocar qual deve ser a atitude de Filemom.

torna a recebê-lo. O pedido do Apóstolo é para que Filemom receba novamente a Onésimo; pois, ao que parece, Onésimo havia causado algum malefício a Filemom. Por isso, o Apóstolo tendo feito as descrições anteriores, e tendo enviado Onésimo de volta a Filemom, pede para que este o receba novamente.

como ao meu coração. E o Apóstolo pede para que Filemom receba a Onésimo como se fosse a ele próprio; o pedido do Apóstolo é feito como se fosse para si mesmo. O Apóstolo pede em favor de Onésimo, mas o pede que Filemon o faça como se fosse para o próprio Apóstolo.

V. 12: A petição do Apóstolo a Filemon tem dois aspectos: primeiro, o receber Onésimo de volta; segundo, o fazer com a cordialidade com que se faria com o próprio Apóstolo. E isto tanto para demonstrar que Deus não faz acepção de pessoas (cf. At 10.34), quanto para evocar a igualdade de todos os fiéis diante de Deus (cf. Gl 3.27-28).

1.13: Eu bem o quisera conservar comigo, para que, por ti, me servisse nas prisões do evangelho;

Eu bem o quisera conservar comigo. E, ao pedir a Filemom que receba Onésimo, o Apóstolo acrescenta que ao invés de mandá-lo de volta, preferiria mantê-lo consigo.

para que. O Apóstolo queria manter Onésimo consigo por um propósito.

por ti. Isto é, para que por meio dele, tanto ele quanto o próprio Filemom, pudesse o servir.

me servisse nas prisões do evangelho. A importância de Onésimo para o Apóstolo, era que ele poderia servi-lo enquanto estava nas prisões do evangelho. E o serviço que Onésimo poderia prestar ao Apóstolo, demonstra sua utilidade e importância para Deus e para a Igreja.

V. 13: A prova da importância de Onésimo é a declaração do Apóstolo de que ele lhe era importante, a ponto de o poder servir em suas prisões pelo Evangelho.

1.14: mas nada quis fazer sem o teu parecer, para que o teu benefício não fosse como por força, mas voluntário.

mas nada quis fazer. Ora, o Apóstolo, mesmo querendo manter Onésimo consigo para o poder servir em suas prisões pelo Evangelho, resolveu nada fazer por si mesmo.

sem o teu parecer. Mas, decidiu consultar a Filemo, não somente em favor de seu intento de manter Onésimo consigo, mas em favor do próprio Onésimo.

para que o teu benefício. E isto não em benefício próprio, ou somente em benefício de Onésimo, mas primeiramente e fundamentalmente em benefício do próprio Filemom. O pedido do Apóstolo em favor de Onésimo, na verdade, era para o benefício do próprio Filemom.

não fosse como por força. Ora, o Apóstolo resolveu fazer deste modo, para declarar e demonstrar que não forçou Filemom a nada; pois, no que concerne a graça, nada é por força, mas sempre pelo Espírito de Deus (cf. Zc 4.6). E isto também é assim no que concerne a atitude dos cristãos nos assuntos temporais, onde não se faz necessário o uso da espada ou da força pelas autoridades.

mas voluntário. A descrição do Apóstolo é que seu pedido fosse respondido de boa vontade por Filemom, de modo voluntário, para que isto servisse de testemunho do amor e da fé para com todos os santos.

V. 14: Os benefícios do pedido do Apóstolo, se dão de dois modos: primeiro, em razão do próprio pedido; segundo, em função dos envolvidos neste pedido. Pois, assim, Filemom e a Igreja que estava em sua casa, alcançariam a unidade do Espírito guardada no vínculo da paz (cf. Ef 4.3).  

1.15: Porque bem pode ser que ele se tenha separado de ti por algum tempo, para que o retivesses para sempre,

Porque. Ora, o Apóstolo passa a apresentar uma razão do porque ocorrera a situação adversa entre Filemom e Onésimo.

bem pode ser que ele. Isto é, por esta razão provavelmente foi que Onésimo em dado momento ficou como sendo inútil.

se tenha separado de ti. Ou seja, tenha estado preso.

por algum tempo. Por determinado período de tempo, isto é, de acordo com algum propósito.

para que. Isto é, com algum propósito maior; esta é a razão do porque Onésimo tinha deixado Filemom e tinha sido preso.

o retivesses para sempre. Este é o propósito de Onésimo ter sido inútil e ter sido preso, a saber, para através destes acontecimentos, pudesse conhecer o Apóstolo na prisão, e vir a conhecer o Evangelho, e ser transformado pela graça de Deus. Onésimo ficou um tempo afastado de Filemom, para que Filemom o recebesse de volta e o retivesse, isto é, o mantivesse consigo para sempre; pois, o conselho de Sirach aos senhores é que tratem seus servos como se estivessem tratando a si mesmos (cf. Eclo. 33.31).

V. 15: A descrição do Apóstolo evoca os mistérios da providência de Deus, em permitir uma situação adversa, no caso uma separação entre o senhor e seu escravo, para desta situação tirar um bem maior, tanto para seus servos quanto para Sua glória, bem como para ensinar o modo como o fiel se deve portar diante de uma questão temporal que não é facilmente e rapidamente resolvida.

1.16: não já como servo; antes, mais do que servo, como irmão amado, particularmente de mim e quanto mais de ti, assim na carne como no Senhor.

não já como servo. Isto é, o Apóstolo pede que Filemom receba Onésimo de volta, não mais como um servo ou escravo.

antes. Ou seja, ao invés de recebê-lo como escravo, deve recebê-lo de outra forma.

mais do que servo. O pedido do Apóstolo é para que Filemom receba Onésimo de volta, de modo maior e de maneira mais excelente do que como receberia um escravo.

como irmão amado. Ora, Filemom deveria receber Onésimo como um irmão amado; agora, Onésimo era irmão na fé, e assim deveria ser recebido por Filemom, tendo em consciência que na comunhão dos santos todos são iguais, e não há distinção entre senhor e servo (cf. Gl 3.28).

particularmente de mim. Ora, Onésimo era um irmão amado para o Apóstolo; e isto demonstra o efeito glorioso na graça na vida de um pecador, ao transformar o inútil Onésimo em um irmão amado para o Apóstolo. E o testemunho do Apóstolo é suficiente para demonstrar sua virtude, tal como o próprio Apóstolo houvera testemunhado de Filemom. Pois, se o testemunho do Apóstolo sobre Filemon é fidedigno, ao ouvir sobre seu amor e fé, então, o testemunho do Apóstolo sobre Onésimo também e fidedigno ao testemunhar pessoalmente a sua conversão.

e quanto mais de ti. Ora, se é um irmão amado para o Apóstolo, deve ser ainda mais para Filemom.

assim na carne como no Senhor. A descrição do Apóstolo é para que o receba tanto na carne, isto é, de acordo com a natureza e as questões temporais, quanto o receba no Senhor, isto é, de acordo com a graça. O Apóstolo ensina que Filemom deve receber Onésimo de volta tanto em ordem a natureza, para demonstrar o testemunho da fé numa questão temporal, quanto em ordem a graça, para dar testemunho da fé entre os fiéis.

V. 16: A dupla descrição do Apóstolo para que Filemom receba Onésimo, demonstra o propósito desta epístola, a saber, apresentar a graça no que concerne as questões temporais, isto é, tanto em relação as coisas da natureza, quanto em relação as coisas da graça.

1.17: Assim, pois, se me tens por companheiro, recebe-o como a mim mesmo.

Assim, pois. Ora, o Apóstolo prossegue e apresenta mais uma razão para seu pedido.

se me tens por companheiro. Isto é, se Filemom, tem o Apóstolo como um irmão na fé e como um companheiro na proclamação do Evangelho; esta é uma razão do Apóstolo em seu pedido a Filemom, isto é, demonstrar a igualdade diante de Deus de todos os fiéis, embora pudesse por seu ministério apostólico ab-rogar a autoridade para ordenar o que convinha a Igreja.

recebe-o como a mim mesmo. Ou seja, Filemom deveria receber a Onésimo do mesmo modo como receberia o próprio Apóstolo. Este pedido demonstra a importância de Onésimo para o Apóstolo, e de sua utilidade para o maior proveito do Evangelho, ao ponto de pedir para outro irmão na fé de receber alguém como se fosse a si mesmo.

V. 17: A petição do Apóstolo baseia-se agora em seu relacionamento pessoal com Filemom, ao ponto de pedir para que recebesse Onésimo como se fosse a si mesmo. Ora, em relação as coisas naturais, Filemom muito bem poderia rejeitar Onésimo e isto não mancharia seu testemunho; pois, estava em consonância com a justiça; mas, o Apóstolo também faz um apelo em ordem a graça, apelando a Filemom para que receba Onésimo de acordo com os preceitos evangélicos. E, isto, demonstra um modo da graça atuando e sobrelevando-se as questões temporais, inclusive para dignificar ainda mais os assuntos temporais; e também fora em algo acoplado neste sentido que o Senhor Jesus Cristo afirmara que o reino dos céus é como o fermento que aos poucos leveda a massa (cf. Mt 13.33), o que se aplica a proposição do Apóstolo em se tratando do assunto evocado que tinha algo a ver com o tema da escravidão. Certamente, através do testemunho de Filemom, haveria a primeira medida de fermento do Evangelho no tocante a escravidão, que aos poucos iria levedar toda a massa da escravidão, para no momento certo a mesma ser vencida e a igualdade de todos os homens fosse testemunhada não somente pelos fiéis, mas por todas as gentes. O primeiro passo neste quesito, sem sombra de dúvida, foi a epístola do Apóstolo a Filemom.

1.18: E, se te fez algum dano ou te deve alguma coisa, põe isso na minha conta.

E. Ora, se mesmo que diante do que fora afirmado no v. 17, Filemom ainda não o quisesse receber, o Apóstolo ainda propõe mais um aspecto.

se te fez algum dano. Isto é, se Onésimo houvera causado algum dano a Filemom, seja de qual tipo: seja moral, financeiro, espiritual, etc.

ou te deve alguma coisa. Ou seja, se Onésimo deve alguma coisa a Filemom, tanto em relação a sua função quanto em relação a finanças ou danos materiais.

põe isso na minha conta. O Apóstolo afirma a Filemom que se Onésimo o deve alguma coisa, seja em que esfera for, que ele coloque isso na conta do Apóstolo; ou seja, o Apóstolo se propõe a pagar a dívida de Onésimo se por acaso ele tiver alguma com Filemom; e isto tanto demonstra o zelo paternal do Apóstolo por seu filho na fé gerado entre as prisões, quanto sua solicitude pastoral para resolver um assunto simples, mas que pelas circunstâncias poderia gerar alguma impugnação em e para Filemom.

V. 18: A conta do Apóstolo para com Filemom, diz respeito aos inúmeros bens que Filemom recebeu de Deus através da vida e da obra do Apóstolo; portanto, se houver alguma coisa, que Filemom o ponha na conta do Apóstolo, que supera qualquer dano, financeiro e/ou moral, cometido por Onésimo. A conta aqui refere-se ao caráter e ao testemunho do Apóstolo, que são dignos de crédito mesmo diante do dano e do erro cometido por alguém.

V. 8-18: O Apóstolo houvera descrito, a partir de seu pedido a Filemom e de apresentar as razões deste pedido, quais são as ações de quem perdoa; embora não o faça de modo afirmativo, o faz na intenção, como fica claro no texto; pois, evoca as ações de quem perdoa não em ordem a natureza, mas em ordem a graça, demonstrando que para o fiel, ainda que existam razões naturais para perdoar ou não perdoar, pela graça, deve perdoar sempre, ainda que não se deva aceitar as injustiças. Assim, o Apóstolo apresenta as ações de quem perdoa como efeito da graça em onze aspectos: primeiro, o perdão é um mandamento (cf. Mt 6.14-15, 18.21-22); por isso, o Apóstolo o pode ordenar (v. 8); e como é um mandamento concerne a graça. Segundo, o perdão também deve ser praticado por amor (v. 9); pois, quem ama é nascido de Deus (cf. 1Jo 4.7). Terceiro, o perdão deve ser ainda mais evidente entre os fiéis (v. 10); pois, se deve fazer o bem a todos, mas principalmente aos da fé (cf. Gl 6.10). Quarto, o perdão é reconhecer a preciosidade da misericórdia de Deus em transformar o coração arrependido (v. 11); por isso, o perdão é imperativo da graça, pois, se alguém perdoa mostra de quem é nascido (cf. Ef 4.32). Quinto, o perdão é receber no coração a graça para limpar o dano cometido por outrem (v. 12). Sexto, o perdão mostra a excelência do coração transformado pela graça para o progresso do Evangelho (v. 13); pois, aquele que perdoa recebe graça e demonstra graça a quem perdoa (cf. 1Jo 3.18). Sétimo, o perdão é exercido, fundamentalmente em benefício de quem perdoa (v. 14); pois, o perdão leva a um caminho excelente ao se entendê-lo em ordem a providência de Deus (v. 15). Nono, o perdão é colocar o outro que foi perdoado em honra a si mesmo (v. 16); e a graça demonstra que cada um deve considerar o outro superior a si mesmo (cf. Fp 2.3-4). Décimo, o perdão é olhar o outro a partir daquilo que Cristo pode fazer nele (v. 17); pois, a graça é suficiente para transformar o pior pecador num santo e vaso de honra nas mãos de Deus, como o exemplo do próprio Apóstolo demonstra. Décimo-Primeiro, o perdão é colocar o erro do outro no sacrífico vicário de Jesus Cristo (v. 18); pois, aquele que perdoa o faz porque também fora perdoado através do derramar do precioso sangue de Jesus Cristo, isto é, perdoa porque seu próprio erro fora colocado na conta de outro (de Jesus Cristo).

§ 4. As razões de quem perdoa, doutrinas da graça (1.19-25).

1.19: Eu, Paulo, de minha própria mão o escrevi: Eu o pagarei, para te não dizer que ainda mesmo a ti próprio a mim te deves.

Eu, Paulo. O Apóstolo novamente evoca a importância do assunto tratado, ao demonstrar que ele mesmo que escreveu esta epístola.

de minha própria mão o escrevi. O Apóstolo escreveu pessoalmente esta epístola, que se reveste de importância, já que muitas das outras epístolas foram ditadas para um amanuense.

Eu o pagarei. Isto é, se Onésimo deve alguma coisa a Filemom, que Filemom o descreva para o Apóstolo, pois ele mesmo pagará se assim for necessário.

para te não dizer. Ou seja, mesmo que o Apóstolo tiver de pagar algo em favor de Onésimo, Filemom deve se lembrar de algo; isto é, o Apóstolo ao colocar-se como o pagador da dívida de Onésimo, também traz a memória de Filemom que, se fosse pesar na balança os erros dos envolvidos diante de Deus, haveria “dívida” de todos os envolvidos - tal como houvera afirmado em Rm 3.23, e tal como afirmara o Príncipe dos Profetas (cf. Is 64.6).

que ainda mesmo a ti próprio a mim te deves. E o que o Apóstolo traz a memória que o próprio Filemom também deve a ele o fato de ter conhecido o Evangelho, bem como em outras coisas; por isso, o Apóstolo diz a Filemom que ele deve a si mesmo ao Apóstolo, isto é, que o que de mais precioso Filemom possui, o possui em função do ministério do Apóstolo.

V. 19: A razão de quem perdoa, não está em ordem as coisas naturais, mas em ordem as coisas da graça; pois, quem perdoa, o faz, porque também foi perdoado; e quem mais dá a graça do perdão, mais recebe das dádivas da graça do próprio perdão, tanto em si mesmo quanto das bênçãos outorgadas por Deus. Por isso, a primeira razão de quem perdoa é a graça, que foi recebida de graça, e em relação ao perdão, deve ser outorgada de graça.

1.20: Sim, irmão, eu me regozijarei de ti no Senhor; reanima o meu coração, no Senhor.

Sim, irmão. O Apóstolo retoma a sua pressuposição, ao declarar o sim em relação ao perdão; ora, o Sim de Deus é em Cristo (cf. 2Co 1.20); por isso, quem perdoa, está no Sim de Deus, bem como recebe a vida deste Sim, já que quem perdoa, é perdoado (cf. Mt 6.14). Logo, o Apóstolo demonstra o sim de Deus a um irmão querido na fé.

eu me regozijarei de ti no Senhor. Se Filemom aceitar este sim, isto produzirá um efeito peculiar no Apóstolo, a saber, fará com o que o Apóstolo se regozije no Senhor; pois, a glória de um servo de Deus é ver e ouvir que seus filhos andam na verdade e que praticam o Evangelho. Aliás, a alegria no Senhor, mesmo em meio as prisões, é algo que contribui para a alegria do Apóstolo; então, Filemom, ao saber do estado presente do Apóstolo, “prisioneiro de Jesus Cristo”, certamente, é comovido por estas palavras em seu coração a efetuar de boa vontade o pedido do Apóstolo, também para a alegria do próprio Apóstolo.

reanima o meu coração. Além da alegria, o cumprimento do pedido do Apóstolo por parte de Filemom, iria trazer ânimo ao coração do Apóstolo; a graça do perdão alegra o coração, pois, perdoar é amar, e quem ama é nascido de Deus (cf. 1Jo 4.7).

no Senhor. A reanimação do coração do Apóstolo, se dará no Senhor; pois, mesmo que o Apóstolo possa não ter motivos humanos para se alegrar, no Senhor, ele sempre se alegra (cf. Fp 4.4), mesmo nas situações mais adversas (cf. 2Co 12.9-10); e assim, Filemom ao cumprir o pedido do Apóstolo, proporcionaria ao Apóstolo ter seu coração reanimado ao ver os frutos de seu trabalho, principalmente ao permear um assunto truncado e difícil como aqueles que, em sua época, tocavam o tema da escravidão ou a ele se referiam de algum modo.

V. 20: As razões do perdão, sustentadas pela graça, são motivo de alegria e de bom ânimo; por isso, o perdão permeia o coração, e, por conseguinte, todas as potências da alma; portanto, as razões de quem perdoa, sendo embasadas nas doutrinas da graça, são sempre razões que tocam todo o ser do indivíduo.

1.21: Escrevi-te confiado na tua obediência, sabendo que ainda farás mais do que digo.

Escrevi-te. Ou seja, o Apóstolo escreveu para Filemom com um propósito bem específico.

confiado na tua obediência. Isto é, confiado que Filemom irá efetuar cabalmente o pedido do Apóstolo; pois, a fé demonstra-se na obediência; portanto, a obediência aos mandamentos é o corolário da fé.

sabendo que ainda farás mais do que digo. A petição do Apóstolo a Filemom, se baseia na obediência de Filemom; e, como a obediência do fiel é sempre alegre e confiante, o Apóstolo bem sabe que Filemom irá fazer ainda mais do que lhe pede; no caso de Onésimo, provavelmente lhe outorgando a carta de manumissão; ou melhor, lhe dando o desquite da escravidão e o mantendo dignamente como seu criado e/ou funcionário e, principalmente, como um irmão na fé.

V. 21: As razões de quem perdoa, são razões firmadas na obediência; e o Senhor é conhecido, a medida que se o conhece no entendimento e cumprimento dos mandamentos. E o perdão é um imperativo da graça. Por isso, a ordenança concernente ao perdão, é sempre feita em função da obediência do fiel ao seu Senhor.

1.22: E juntamente prepara-me também pousada, porque espero que, pelas vossas orações, vos hei de ser concedido.

E juntamente. Além de efetuar o pedido com relação a Onésimo, o Apóstolo também faz outro pedido, agora para si mesmo.

prepara-me também pousada. Ou seja, o Apóstolo pede para que Filemom prepare para ele uma pousada, isto é, um local para repouso; e isto demonstra a importância de Filemon para o Apóstolo, a ponto de pedir pousada para si na casa do próprio Filemom. Ora, a amizade entre Filemom e o Apóstolo, transcendia a comunhão dos santos, embora nesta fosse mais bem demonstrada para a glória de Deus; por isso, o Apóstolo pode pedir à Filemom algo que concerne aos assuntos temporais, mas que versa sobre a influência da graça de Deus nas ações dos fiéis no que concerne a este mundo.

porque espero que. Ora, o Apóstolo faz mais esse pedido a Filemom, porque tem uma esperança concernente a sua situação na prisão.

pelas vossas orações. Ou seja, o Apóstolo tem uma esperança, devido as orações dos fiéis, principalmente as de Filemom, de sua família e da Igreja que se reunia em sua casa.

vos hei de ser concedido. A esperança do Apóstolo era em breve ser libertado da prisão, para novamente poder estar com eles.

V. 22: As ações de quem perdoa, demonstram a esperança como proveniência da graça; pois, pela esperança, ordenam a fé ao devido fim, pelo testemunho do perdão e no perdão.

1.23: Saúdam-te Epafras, meu companheiro de prisão por Cristo Jesus,

Saúdam-te. Além do Apóstolo, e do irmão Timóteo que com ele estava, outros também enviam saudações a Filemom, e estão cientes da invectiva do Apóstolo e a apoiam.

Epafras. Um companheiro do Apóstolo, um amado conservo de Jesus Cristo, e um estimado intercessor (cf. Cl 4.12).

meu companheiro de prisão por Cristo Jesus. Ou seja, ele estava preso com o Apóstolo por causa do Evangelho.

1.24: Marcos, Aristarco, Demas e Lucas, meus cooperadores.

Marcos. Outro companheiro do Apóstolo, com o qual tivera alguns problemas (cf. At 15.36-39), mas que depois se reconciliou com o Apóstolo e novamente lhe foi útil para o ministério apostólico (cf. Cl 4.10; 2Tm 4.11b). A menção de Marcos aqui, retoma uma situação similar a de Filemom e Onésimo, certamente para também influenciar Filemom com um exemplo do próprio Apóstolo no tocante ao perdão.

Aristarco. Outro cooperador do Apóstolo, que também estava preso (cf. Cl 4.10).

Demas. Um fiel companheiro do Apóstolo na propagação do Evangelho; mas que depois abandonou a fé amando o “presente século” (cf. 2Tm 4.9a).

Lucas. O autor do terceiro Evangelho e de Atos dos Apóstolos, que era médico e que em muitas ocasiões acompanhou o Apóstolo em suas viagens missionárias. O Apóstolo o chamava de “médico amado” (cf. Cl 4.14).

meus cooperadores. Ou seja, todos estes eram cooperadores do Apóstolo, em seu ministério de propagação do Evangelho a todas as gentes.

V. 23-24: A saudação de todos aqueles que estão com o Apóstolo, os quais, Filemom também sabiam quem eram, demonstra que as ações de quem perdoa, permeia toda a vida eclesial e toda a comunhão dos santos, pois, versa sobre o tema fundamental diante do qual todos são devedores; e, por isso, todos devem perdoar.

1.25: A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja com o vosso espírito. Amém!

A graça de nosso Senhor Jesus Cristo. O tema fundamental desta epístola, e sua aplicação no que concerne a um assunto temporal.

seja com o vosso espírito. Isto é, seja com todo o vosso coração, com toda a sede de vosso ser, donde possa emanar para todas as outras potências interiores. O coração é a casa da graça no ser humano, nonde o Espírito Santo atua e move tudo pneumaticamente. Por isso, a razão da bênção do Apóstolo ser em razão do espírito, isto é, do coração do fiel.

Amém! Ora, a conclusão litúrgica das orações e das saudações orantes, com significado de “assim seja!”, isto é, que se cumpra tudo conforme foi designado para a glória de Deus.

V. 19-25: As ações de quem perdoa, são demonstradas doutrinariamente como doutrinas da graça, porque versam sobre a graça e são pressupostas pela graça; e, sobre isso, o Apóstolo faz seis coisas: primeiro, foi Cristo quem pagou a dívida dos homens diante de Deus (cf. Cl 2.13-14), do mesmo modo como fora o Apóstolo quem testemunhara do Evangelho para Filemom (v. 19); segundo, o perdão, como proveniência da graça, ao ser praticado, traz os efeitos da graça ao coração, a saber, alegria e ânimo ao coração (v. 20); terceiro, o perdão é mandamento evangélico, e, é parte da obediência que concerne ao fiel (v. 21); quarto, o perdão traz esperança diante das situações difíceis, pois, traz a memória a graça outorgada na regeneração, a qual também pode ser outorgada para o livramento das tribulações (v. 22); quinto, o perdão é testemunhado por todos os fiéis como algo necessário e assaz importante, como muitos fiéis já o testemunharam (v. 23-24); sexto, o perdão é fundamentado na graça outorgada ao coração, para que do mesmo emane a todo o ser, influindo as saídas da vida com a graça de Deus (v. 25). Ora, as ações de quem perdoa estão fundamentadas na graça, e em si demonstram algo das doutrinas da graça, pois, estão embasadas nos preceitos da graça. E, por isso, influem em relação as questões temporais; no caso do assunto desta epístola, na inter-relação senhor-servo e servo-senhor; mas os princípios evocados são suficientes para basicamente tudo quanto concerne a graça nos assuntos temporais, ao se colocar esta epístola em ordem ao todo da Sagrada Escritura.

***

E termina aqui este comentário menor a epístola a Filemom. Bendito seja Deus por Sua Santa Palavra. Amém. 


19/10/2024

Glosas a Epístola de Judas

Sinopse: esta epístola do novo testamento, um dos menores livros bíblicos, tem apenas um capítulo, e é dividida em quatro partes: (§ 1) prefácio e saudação (1.1-2); (§ 2) exortação a batalhar pela fé contra os apóstatas (1.3-19); (§ 3) exortação a edificação da fé (1.20-23); (§ 4) doxologia (1.24-25).

 

§ 1. Prefácio e saudação (1.1-2).

1.1: Judas, servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago, aos chamados, queridos em Deus Pai e conservados por Jesus Cristo:

Judas. O autor desta epístola; este nome grego é proveniente do hebraico Judá, e significa abençoado.

servo. Isto é, escravo (δοῦλος), aquele que serve e se submete totalmente ao senhorio de seu senhor. Ora, se há um servo, também há um senhor. Ao se declarar servo, Judas está se colocando sob o senhorio de seu Senhor.

de Jesus Cristo. O qualificativo de servo é em função de quem se é servo, a saber, de Jesus Cristo; servir a Cristo, ser servo de Cristo, é se submeter ao Seu senhorio e viver de modo a agradar a Ele em tudo (cf. 1Co 10.31).

e irmão de Tiago. Ora, este que é servo de Jesus Cristo, também é irmão de Tiago; e Tiago aqui é aquele a que se refere o Apóstolo em Gl 1.19 como irmão do Senhor; logo, o Judas que escreve esta epístola é irmão do Senhor Jesus.

aos chamados. Após apresentar a si mesmo, Judas começa a falar as características daqueles a quem direciona esta epístola. E a primeira característica é sobre o chamado; os cristãos são aqueles que foram chamados à salvação, e que vivem de acordo com este chamado. E este chamado possui duas características: primeiro, é direcionado a todos os homens (cf. 1Tm 2.3-4). Segundo, é eficaz nos eleitos (cf. Ef 1.4s), isto é, naqueles que aceitam e vivem de acordo com este chamado. Pois, aqueles que são chamados e aceitam este chamado, vivem em santidade e de maneira irrepreensível. E, nisto, são verdadeiramente reconhecidos como filhos de Deus.

queridos em Deus Pai. A segunda característica que Judas menciona é que são queridos, amados, em Deus Pai; ora, os chamados são aqueles que são amados em Deus Pai mediante o Filho, pois, todos quantos recebem o Filho são feitos filhos de Deus (cf. Jo 1.12); logo, são queridos em Deus Pai e por Deus Pai, já que estes creem em Seu Filho Amado. Pois, os eleitos são amados no Amado, já que nEle são feitos agradáveis a Deus (cf. Ef 1.6).

e conservados por Jesus Cristo. A terceira característica que Judas menciona é que são conservados, preservados, por Jesus Cristo; ora, os eleitos são conservados por Jesus Cristo, e isto tem dois sentidos: primeiro, conservados na eleição; segundo, conservados da corrupção do mundo. Logo, os eleitos, aqueles que são queridos em Deus Pai, são conservados e guardados pelo cuidado soberano de Jesus Cristo; pois, aqueles que servem a Cristo, são por Ele protegidos e estão sob Suas mãos poderosas e benfazejas (cf. Jo 10.27-28).

V. 1: A tríplice característica dos eleitos demonstra a eficaz obra da graça em todos aqueles que creem em Cristo como único e suficiente Salvador, bem como dos efeitos da graça naqueles que vivem de acordo com o glorioso chamado desta graça; e esta tríplice característica demonstra os efeitos benditos da salvação nos eleitos e na forma como estes vivem diante de Deus e dos homens, isto é, como chamados, amados e conservados.

1.2: a misericórdia, e a paz, e o amor vos sejam multiplicadas.

a misericórdia. Um vocábulo comum na saudação judaica; pois, a misericórdia de Deus é eterna (cf. Sl 100.5), é infinita (cf. Lm 3.22b), e é abundante àqueles que temem a Deus (cf. Sl 103.17-18). Pois, a misericórdia de Deus é plenamente desvelada como efeito da graça (cf. Ef 2.4), gerando paz e amor em abundância (cf. Rm 5.1, 5), pois, aquele que se achega a Deus por mediação de Cristo, encontra misericórdia (cf. Hb 4.16).

e a paz. A paz é efeito da graça, já que fora o próprio Deus quem outorgara Sua paz (cf. Sl 147.14), pois, Ele é a nossa paz (cf. Ef 2.14); e a paz advém juntamente com a misericórdia. E como Tomás propriamente afirma, a paz é o fim dos homens (cf. Ad II Thessal., I, lect. 1). Logo, a paz é efeito glorioso da graça, pacificando o coração e a mente da desordem do Pecado.

e o amor. Ora, o efeito da graça, ao proporcionar ao coração a misericórdia e a paz, também traz um bem sem igual ao coração, o amor, a caridade; e o amor é evidência do novo nascimento (cf. 1Jo 4.7); por isso, o amor é o fim da lei (cf. Rm 13.10b), e o amor é o fim do mandamento (cf. 1Tm 1.5).

vos sejam multiplicadas. Isto é, aumentem abundantemente, já que para estes gloriosos efeitos da graça não existe limite, pois, são sempre infinitamente perfectíveis, e emanam de Deus como fonte inesgotável.

V. 2: A misericórdia, a paz e o amor, são três efeitos da graça, e compõem a tríade da ação do Amor nos eleitos, a fim de transformar-lhes de glória em glória na imagem de Cristo (cf. 2Co 3.18).

V. 1-2: Estes versículos são envoltos em tríplice perspectiva; pois, como os efeitos da graça são obra do Deus Trino, então, tais efeitos sempre serão trinitários, e estarão em tríplice perspectiva: chamados, amados e conversados; e, misericórdia, paz e caridade; etc. Portanto, tudo na fé está em ordem a Santíssima Trindade, ou seja, está em tríplice perspectiva.

§ 2. Exortação a batalhar pela fé contra os apóstatas (1.3-19).

1.3: Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da comum salvação, tive por necessidade escrever-vos e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos.

Amados. Os fiéis são chamados de amados, porque realmente são amados em Deus Pai.

procurando eu escrever-vos com toda a diligência. Ora, Judas teve um intento no coração de escrever aos cristãos, com toda a diligência, isto é, com todo esmero e preocupação.

acerca da comum salvação. O tema da epístola de Judas é sobre a salvação comum a todos os fiéis, isto é, tudo quanto concerne a obra reconciliadora de Jesus Cristo; ou mais propriamente, o que concerne a Sua graça.

tive por necessidade. Ora, Judas escreveu esta epístola devido a uma necessidade premente, que está em consonância com o tema desta epístola.

escrever-vos e exortar-vos. Judas escreve para exortar os fiéis, isto é, para repreendê-los e alertá-los dos perigos sobre os quais escreve, os quais também já haviam sido alertados noutros escritos bíblicos.

a batalhar pela fé. A exortação de Judas é para que os fiéis batalhem pela fé, isto é, que lutem pela fé; e fé aqui não no sentido de fiducia, mas no sentido de notitia; é a respeito do conhecimento que concerne a fé, que Judas exorta os fiéis a batalharem e a lutarem. Pois, quando o conteúdo da fé é atacado ou subvertido, os cristãos tem de lutar para manter incólume o conteúdo desta fé que receberam por divina revelação.

que uma vez foi dada aos santos. E, esta fé, a saber, o conteúdo desta fé, fora dada a todos os santos, ou seja, a todos os cristãos; a fé foi outorgada por Deus aos eleitos, na revelação dada de forma permanente, a saber, a Sagrada Escritura.

1.4: Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo.

Porque. A razão da exortação de se batalhar pela fé. Ora, a exortação é feita com vista ao que Judas passa a declarar a partir do v. 4.

se introduziram alguns. Pois, alguns se introduziram no meio do povo de Deus tal como ervas daninhas numa plantação.

que já antes estavam escritos para este mesmo juízo. Ora, estes que se introduziram, já haviam sido de antemão previstos pelos outros escritos bíblicos, a saber, as profecias a respeito dos falsos mestres e sobre os falsos profetas; pois, sobre estes, fora escrito a respeito do juízo que os mesmos seriam submetidos.

homens ímpios. E dá a característica primordial dos mesmos, a saber, ímpios. E os ímpios estão em guerra contra Deus; na sabedoria judaica, a designação de ímpios é para aqueles que estão em completa aversão a Deus.

que convertem em dissolução a graça de Deus. Ora, estes homens ímpios que se introduziram produziram um efeito terrível, a saber, converteram em dissolução a graça de Deus, isto é, tornaram a graça de Deus em instrumento de dissolução, de promiscuidade, e de libertinagem, de heresia, e de coisas similares; na verdade, estes, tornaram a graça de Deus em obra da carne (cf. Gl 5.19ss). E, a dissolução da graça de Deus ocorre de dois modos: primeiro, pela corrupção da conduta; segundo, pela corrupção da doutrina. E, nesta epístola se coadunam os dois aspectos: houvera a corrupção da doutrina e da conduta, logo, houvera a completa blasfêmia da graça de Deus.

e negam a Deus, único dominador. A conversão da graça em dissolução, gera a negação de Deus; e negação absoluta; pois, a transmutação da graça, acaba por gerar ídolos, e ocasionar a negação de Deus; donde, afirmar o salmista que o ímpio diz em seu coração que não há Deus (cf. Sl 53.1), ou seja, nega deliberadamente, seja em palavras seja em ações, ou em ambos, palavras e ações; ora, os homens ímpios negam o domínio e a soberania de Deus.

e Senhor nosso, Jesus Cristo. E também negam a soberania de Jesus Cristo; aqueles que convertem em dissolução a graça de Deus, acabam por negar a fonte da graça e por desprezar esta fonte deliberadamente e conscientemente. Por isso, os que negam a Cristo estão com o espírito do anticristo, que já atua no mundo (cf. 1Jo 4.3). A negação da soberania de Cristo em todas as esferas da vida é evidência terrível de apostasia; não só a negação por palavras, mas também por ações, ou seja, tanto a negação na doutrina quanto a negação na moral.

V. 4: Os que negam a Deus Pai e os que negam a Jesus Cristo estão com o espírito do anticristo (cf. 1Jo 2.22b). Por isso, onde há a conversão da graça de Deus em dissolução seja por libertinagem seja por rejeição a algum dogma da revelação, se tem o espírito do anticristo atuando; ou mais propriamente, para utilizar a linguagem paulina, se tem a atuação do mistério da iniquidade (cf. 2Ts 2.7).

1.5: Mas quero lembrar-vos, como a quem já uma vez soube isto, que, havendo o Senhor salvo um povo, tirando-o da terra do Egito, destruiu, depois, os que não creram;

Mas quero lembrar-vos. Judas traz a memória dos cristãos uma série de exemplos bíblicos sobre os modos e os efeitos da conversão da graça de Deus em dissolução, em libertinagem.

como a quem já uma vez soube isto. Ora, esta epístola traz a lembrança estes fatos, porque estes já foram conhecidos por aqueles a quem é direcionada esta epístola. Isto é, os cristãos devem conhecer adequadamente estes preceitos, porque as Escrituras os afirmam reiteradas vezes, principalmente os escritos neotestamentários.

que, havendo o Senhor salvo um povo. Isto é, o povo de Israel.

tirando-o da terra do Egito. Os salvou, tirando-os da terra do Egito, os resgatando do meio da terra da servidão.

destruiu, depois, os que não creram. Ora, após salvá-los do Egito, o Senhor destruiu os que não creram, isto é, os infiéis e os apóstatas, que tentaram a Deus no deserto. Pois, a incredulidade é a antessala da destruição.

V. 5: A apostasia traz a destruição; e, o próprio Deus destrói os apóstatas pelas maldades e malignidade da apostasia que os mesmos engendram em seus corações e que praticam de maneira dissoluta e descarada.

1.6: e aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande Dia;

e aos anjos que não guardaram o seu principado. Os anjos que não mantiveram o estado de pureza original, mas que caíram na Queda de Satanás, e se tornaram em demônios, os quais, agem em apostasia neste mundo, tal como houvera sido descrito em Gn 6.1-3. Ora, onde há apostasia, há uma grande ação demoníaca por detrás, para preparar, moldar e castificar os homens na ação maligna.

mas deixaram a sua própria habitação. Isto é, deixaram a habitação celeste e a hierarquia celeste, e foram habitar no inferno sob a hierarquia de Satanás.

reservou na escuridão e em prisões eternas. Aos demônios, Deus os reservou na escuridão e em prisões eternas, no inferno (cf. 2Pe 2.4).

até ao juízo daquele grande Dia. Até o dia do juízo final, onde serão lançados no lago de fogo e enxofre (cf. Mt 25.41).

V. 6: Deus não preservou os anjos que caíram, do mesmo modo como não preservara os apóstatas e infiéis que não creram.

1.7: assim como Sodoma, e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se corrompido como aqueles e ido após outra carne, foram postas por exemplo, sofrendo a pena do fogo eterno.

assim como Sodoma, e Gomorra. Do mesmo modo como ocorrera com Sodoma e Gomorra (cf. Gn 18-19).

e as cidades circunvizinhas. E as cidades que estavam sob a influência de Sodoma e Gomorra.

que, havendo-se corrompido como aqueles. Isto é, que se corromperam de tal modo como os anjos que caíram se tornaram em demônios. Os homens e as mulheres de Sodoma e Gomorra, se corromperam tanto que deixaram o estado natural com que foram criados, tanto em relação as coisas naturais quanto em relação as coisas espirituais. E, cometeram prostituição, o que se referem tanto as luxurias sexuais (cf. Gn 19.8), quanto aos atos homossexuais (cf. Gn 19.4-5).

e ido após outra carne. E, cometeram prostituição com outros; não somente se contaminaram, mas também contaminaram outros.

foram postas por exemplo. O juízo de Deus contra Sodoma e Gomorra fora colocado como exemplo do justo juízo de Deus contra as práticas infames provenientes da ação dos demônios.

sofrendo a pena do fogo eterno. A ação do juízo de Deus foi colocar Sodoma e Gomorra sob a pena do fogo eterno, isto é, a destruição pelo fogo. Sodoma e Gomorra sofreram o juízo de Deus, do mesmo modo como todos aqueles que cometem as mesmas práticas também sofrerão.

V. 5-7: Judas evoca três exemplos daqueles que Deus destrói: primeiro, os apóstatas (v. 5); segundo, os demônios (v. 6); terceiro, aqueles que cometem as mesmas práticas de Sodoma e Gomorra (v. 7). Estes três exemplos conhecidos, são postos e trazidos a memória para lembrar o terrível juízo de Deus sobre aqueles que transformam em libertinagem a graça de Deus. Por isso, diz a Escritura que horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo (cf. Hb 10.31).

1.8: E, contudo, também estes, semelhantemente adormecidos, contaminam a sua carne, e rejeitam a dominação, e vituperam as autoridades.

E, contudo, também estes. Ora, mesmo com os exemplos evocados nos vs. 5-7, houveram aquelas que se enveredaram pelos menos caminhos. Por isso, estes, isto é, os que foram mencionados no v. 4, também enveredaram pelo caminho da destruição.

semelhantemente adormecidos. A primeira característica que estava adormecidos, isto é, estavam mortos espiritualmente. Mas o termo para adormecidos é literalmente estarem em estado de sonho, como que hipnotizados; estão em estado de sonho, porque converteram em libertinagem a graça de Deus, não somente praticando atos promíscuos, mas semelhantemente, arrolando para si algum sonho contrário a Palavra de Deus, a Palavra da Verdade e da Graça. O caminho da destruição é um caminho de estado de sonho; ou dito em outros, é um caminho contrário a realidade natural e contrário a realidade espiritual. Todo e qualquer sonho que esteja contra a natureza e contra a graça, é evidência de que a graça de Deus fora convertida em libertinagem, e da própria aversão maligna a natureza.

contaminam a sua carne. E, corromperam em suas carnes, isto é, praticaram obras que contaminaram seus corpos e suas almas. O pecado que se comete contra o corpo, contamina e vicia a alma.

e rejeitam a dominação. E, esta contaminação, produziu o efeito da rejeição a dominação, isto é, a rejeição a soberania de Deus, o único dominador.

e vituperam as autoridades. E, ao mesmo tempo, também vituperam as autoridades, isto é, colocam em vitupério as autoridades que foram colocadas por Deus (cf. Rm 13.1). Ora, vituperar a autoridade, é blasfemar, difamar, recusar-se a reconhecer o bem nas autoridades; por isso, aqueles que vituperam as autoridades invertem os valores morais, pois, negam não apenas o reconhecimento a alguma autoridade, mas negam a Deus que instituiu a autoridade.

V. 8: A descrição deste versículo demonstra quatro frutos da apostasia: primeiro, a sujeição ao estado de sonho; segundo, a contaminação da carne; terceiro, a rejeição a dominação [de Deus]; quarto, a blasfêmia contra as autoridades.

1.9: Mas o arcanjo Miguel, quando contendia com o diabo e disputava a respeito do corpo de Moisés, não ousou pronunciar juízo de maldição contra ele; mas disse: O Senhor te repreenda.

Mas o arcanjo. O líder dos anjos.

Miguel. O arcanjo responsável por guardar Israel (cf. Dn 10.13, 21; 12.1) e liderar os anjos (cf. Ap 12.7).

quando contendia com o diabo. O arcanjo Miguel disputou com o diabo, lutou contra Satanás.

e disputava a respeito do corpo de Moisés. E lutou a respeito do corpo de Moisés, para não permitir ao Diabo utilizar-se do corpo de Moisés para algum fim demoníaco, provavelmente para idolatria. E, com isso, entregou o corpo de Moisés a Deus e este o enterrou (cf. Dt 34.5-6).

não ousou pronunciar juízo de maldição contra ele. Ora, em sua luta contra o diabo, o próprio arcanjo Miguel não ousou, isto é, não baseou-se em sua própria autoridade para se pronunciar contra o diabo.

mas disse: O Senhor te repreenda. Na verdade, o arcanjo Miguel fundamentou-se na autoridade de Deus, e evocou que Deus repreendesse o diabo, dado que a autoridade de Deus é infinitamente maior do que a do diabo.

V. 9: Este versículo é posto como exemplo para demonstrar a atitude de não ousar contra alguma autoridade, isto é, não se presumir sobre alguma autoridade, pois, isto demonstra orgulho e soberba, que é algo próprio de Satanás (cf. Ez 28.15-16). E, isto seja em qual esfera for sob a qual se tenta vituperar alguma autoridade, desde a esfera do conhecimento a esfera das autoridades públicas, etc. A vituperação das autoridades é evidência de apostasia.

1.10: Estes, porém, dizem mal do que não sabem; e, naquilo que naturalmente conhecem, como animais irracionais, se corrompem.

Estes. Isto é, os mesmos que foram descritos no v. 4, e os do v. 8.

porém, dizem mal do que não sabem. Os apóstatas falam do que não sabem; isto é, a apostasia além de os colocar contra Deus, também os coloca contra o saber que provêm de Deus, já que é Deus quem outorga o conhecimento (cf. Sl 94.10). Logo, os apóstatas também são bestas estupidas. Pois, falam mal do que não sabem; ora, se falar mal do que não se sabe, é o mesmo que falar mal de si, pois, ao fazer tal ato, coloca-se o “eu” como aferidor de medida naquilo que se desconhece, o que por si também é presunção, orgulho e soberba.

e, naquilo que naturalmente conhecem. E, estes, mesmo no que conhecem naturalmente, isto é, mesmo nas coisas evidentíssimas, as quais são demonstráveis a todos.

como animais irracionais. A apostasia produz tal efeito, que mesmo naquilo que se pode conhecer naturalmente, pois é algo evidentíssimo, os apóstatas ficam como animais irracionais, ou como diz o salmista, ficam como cavalos ou como mulas que não tem entendimento (cf. Sl 32.9). E é justamente este exemplo que este texto evoca ao afirmar que os apóstatas ficam como animais irracionais. A apostasia é a mãe da irracionalidade deliberada.

se corrompem. Os apóstatas ficam como animais irracionais naquilo que naturalmente podem conhecer, e assim, se corrompem, pois, tal conhecimento ao invés de o fazerem glorificar a Deus como Deus, na verdade, os fazem adorar a ídolos, e, por isso, seus corações e suas mentes se tornam obscurecidos e desvanecidos (cf. Rm 1.18-25).

V. 10: Este versículo demonstra os efeitos da apostasia no indivíduo: primeiro, no intelecto (v. 10a); segundo, na vontade (v. 10b).

1.11: Ai deles! Porque entraram pelo caminho de Caim, e foram levados pelo engano do prêmio de Balaão, e pereceram na contradição de Corá.

Ai deles! Isto é, ai dos apóstatas que foram descritos nos vs. 4, 8 e 10. E o termo “ai” na Escritura, é expressão do juízo de Deus (cf. Lc 6.24-26).

Porque entraram pelo caminho de Caim. Os apóstatas sempre enveredam pelo mesmo caminho de Caim (cf. Gn 4.2ss). E o caminho de Caim é o caminho da inveja (cf. Gn 4.7-8); a inveja é a podridão dos ossos (cf. Pv 14.30), e onde há inveja há todo tipo de obra maligna (cf. Tg 3.16). Onde há inveja há a conversão da graça de Deus em libertinagem, e um dos frutos é enveredar pelo caminho de Caim, um caminho de morte e de juízo, o caminho da meritocracia diante de Deus.

e foram levados pelo engano do prêmio de Balaão. Os apóstatas também sempre se enveredam pelo engano do prêmio de Balaão, isto é, buscam receber algo de ímpios para amaldiçoar os servos de Deus (cf. Nm 22-25). Ora, o prêmio da desonestidade e da desonra nunca é eficaz e sempre é enganoso, pois, é ilusório; aqueles que se enveredam por este caminho são levados pelo mesmo engano de Balaão, e perecem nos frutos e nos efeitos do engano.

e pereceram na contradição de Corá. Os apóstatas também sempre perecem na contradição de Corá (cf. Nm 16.1-32). E os apóstatas hão de sucumbir no mesmo castigo de Corá; pois, Corá ao rejeitar a autoridade de Deus em Moisés e Arão, ao afirmar que estes faziam as vontades pessoais ao invés da vontade de Deus, acabou por cometer contradição (literalmente hipocrisia) já que quis impor sua vontade no lugar da vontade de Deus para o povo de Israel; isto é, cometera o mesmo pecado que usara para supostamente justificar seu levante contra Moisés e Arão. Ora, a apostasia inverte os valores morais e espirituais ao ponto de os homens decaírem na mesma contradição de Corá.

V. 11: Os apóstatas são novamente evocados em três características bíblicas: primeiro, do caminho da inveja; segundo, do caminho do engano; terceiro, do caminho da contradição ou da hipocrisia. Estes, sofrerão o justo castigo de Deus, já que não há perdão para os apóstatas (cf. Hb 6.4-6), pois, o caminho de Caim, o engano de Balaão e a contradição de Corá, trouxera destruição sobre estes; pois, os que pecam voluntariamente depois de haverem conhecido a verdade, diz a Escritura que para estes não resta mais sacrifício pelo perdão dos pecados (cf. Hb 10.26). Por isso, o versículo inicia pronunciando o juízo de Deus: “Ai deles!”, pois se enveredaram pelo caminho da apostasia.

1.12: Estes são manchas em vossas festas de fraternidade, banqueteando-se convosco e apascentando-se a si mesmos sem temor; são nuvens sem água, levadas pelos ventos de uma para outra parte; são como árvores murchas, infrutíferas, duas vezes mortas, desarraigadas;

Estes. Isto é, os descritos nos vs. 4, 8, 10 e 11.

são manchas. Ora, os apóstatas são como manchas, isto é, são repreensíveis e abomináveis.

em vossas festas de fraternidade. Isto é, os apóstatas haviam se introduzido no meio do povo de Deus, e se infiltraram nas festas de fraternidade, isto é, nos momentos da reunião da comunhão dos santos e para partilha de uma rejeição, a qual o Apóstolo houvera mencionado (cf. 1Co 11.20-30). Por isso, os apóstatas se infiltraram e se tornaram como que manchas e imundice nas vestes da Igreja.

banqueteando-se convosco. Os apóstatas desfrutaram do banquete feito apenas para os fiéis, fazendo com que os fiéis se tornassem participes das práticas hediondas que cometeram. E a Escritura alerta que com estes não se deve comungar conjuntamente (cf. 2Jo 1.10).

e apascentando-se a si mesmos sem temor. Os apóstatas apascentam a si mesmos sem temor, isto é, sem o temor do Senhor na mente e no coração; pois, aqueles que deliberadamente se colocam contra o Senhor e Sua palavra, apascentam a si mesmo sem temor, ou seja, sem o conhecimento de Deus. Logo, são como guias cegos, guiando-se com cegueira espiritual, terminando evidentemente, caindo nos abismos calcinados pelos demônios.

são nuvens sem água. Por isso, os apóstatas são chamados de nuvens em água, isto é, inconstantes e sujeitos a qualquer manipulação diabólica.

levadas pelos ventos de uma para outra parte. Eles são levados de uma parte para outra, por qualquer vento de doutrina (cf. Ef 4.14), assim como as nuvens sem água.

são como árvores murchas. Além de serem descritos como nuvens sem água, também são descritos como árvores murchas, isto é, árvores que não tem raiz saudável pois não tem contato direto com os nutrientes necessários para crescerem, isto é, não tem comunhão com Deus e nem conhecimento de Sua palavra.

infrutíferas. Por isso, são árvores infrutíferas; árvores que não dão fruto; logo, são como árvores sem vida.  

duas vezes mortas. Tão infrutíferas que é como se houvessem sido duas vezes mortas; e a descrição de uma árvore duas vezes mortas, é para demonstrar a maldição de Deus sobre a árvore, tal como aconteceu no caso da figueira estéril (cf. Lc 13.6-9).

desarraigadas. Estas árvores infrutíferas são desarraigadas, isto é, não possuem raízes. Ora, uma árvore desarraigada, isto é, sem raiz, não frutifica. A bênção da frutificação é reservada a árvore enraizada; mas a árvore sem raiz está sob a maldição de ser infrutífera.

1.13: ondas impetuosas do mar, que escumam as suas mesmas abominações, estrelas errantes, para os quais está eternamente reservada a negrura das trevas.

ondas impetuosas do mar. Os apóstatas também são como as onde impetuosas do mar, isto é, agitam de uma parte para a outra, produzindo caos na fé e naufrágios espirituais. Os ímpios são descritos de maneira semelhante como o mar bravo (cf. Is 57.20-21); logo, os apóstatas ao serem comparados com as ondas impetuosas do mar também são qualificados com os mesmos efeitos produzidos pelos ímpios.

que escumam as suas mesmas abominações. Os apóstatas são como ondas impetuosas, escumam abominações, isto é, dos mesmos emanam e provêm todo tipo de imundice espiritual e todo tipo de abominação a Deus. Enquanto que dos ímpios emana lodo e sujeira espiritual, dos apóstatas escumam abominações.

estrelas errantes. Os apóstatas também são como estrelas errantes, isto é, como um cometa que surge no horizonte, mas que não possui direção duradoura. Ou seja, os apóstatas estão longe do caminho da verdade, já que não possuem direção segura e não estão de acordo com a verdade.

para os quais está eternamente reservada a negrura das trevas. Ora, para os apóstatas, mais uma vez descritos, está reservada a negrura das trevas, isto é, o justo juízo de Deus, a saber, o inferno.

V. 12-13: Os apóstatas são descritos novamente, mas agora através de figuras da natureza; a infiltração dos apóstatas na Igreja, é evidenciada através de cinco descrições: primeiro, apascentam a si mesmos sem temor, isto é, sem reverência e sem conhecimento da Palavra de Deus; segundo, são como nuvens sem água; terceiro, são como árvores infrutíferas; quarto, são como ondas impetuosas do mar; quinto, são como estrelas errantes.

1.14: E destes profetizou também Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: Eis que é vindo o Senhor com milhares de seus santos,

E destes. Isto é, dos que foram descritos nos vs. 4, 8, 10, 11, 12 e 13.

profetizou também Enoque. A respeito dos apóstatas, profetizou Enoque, aquele que andava com Deus (cf. Gn 5.24; Hb 11.5). Ora, a respeito da profecia de Enoque, se registra num livro apócrifo, sem valor revelacional, mas com valor literário e de informações históricas importantes, chamado Livro de Enoque. A profecia de Enoque descrita nesta epístola é a que também está descrita no Livro de Enoque (I Eno., 1.6).

o sétimo depois de Adão. Enoque foi o sétimo depois de Adão segundo a lista de Gn 5.1-24 e de 1Cr 1.1-3. A sétima geração, simbolizando a geração que alcançou testemunho agradável diante de Deus (cf. Hb 11.5), que alcançou a plenitude diante de Deus.

dizendo: Eis que é vindo o Senhor com milhares de seus santos. A profecia de Enoque é que o Senhor irá vir com milhares de seus santos, tantos os fiéis quanto os anjos (cf. Mt 24.31; 1Ts 3.13; 2Ts 1.7). A profecia de Enoque era a respeito de uma vinda do Senhor para executar e efetuar juízo; ora, na ordem das profecias esta profecia de Enoque refere-se a Segunda Vinda do Messias, pois, em Gn 3.15 há a profecia que refere-se a Primeira Vinda.

1.15: para fazer juízo contra todos e condenar dentre eles todos os ímpios, por todas as suas obras de impiedade que impiamente cometeram e por todas as duras palavras que ímpios pecadores disseram contra ele.

para fazer juízo contra todos. Ora, a profecia de Enoque refere-se ao juízo de Deus pelos atos de apostasia ocasionado pelos anjos caídos, que realmente ocorreu no dilúvio (cf. Gn 6-7), e que acontecerá no fim dos tempos no juízo final. O juízo de Deus é feito contra todos aqueles que praticam os atos apostasiosos. Somente os eleitos são livrados do dano da segunda morte (cf. Ap 2.11).

e condenar dentre eles todos os ímpios. Mas não somente contra todos, mas efetivamente e particularmente para condenar dentre eles os que são ímpios, pois estes são objeto do juízo de Deus.

por todas as suas obras de impiedade. O juízo de Deus contra os ímpios, é um justo juízo, pois, é juízo feito por causa das obras de impiedade praticadas pelos ímpios.

que impiamente cometeram. Os ímpios não somente praticaram obras más, mas suas obras de impiedade são obras que impiamente cometeram, isto é, deliberadamente e consciente se enveredaram pelo caminho da impiedade.

e por todas as duras palavras que ímpios pecadores disseram contra ele. E, além de praticarem obras ímpias, os apóstatas também se vociferavam contra aqueles que serviam a Deus; a apostasia faz com que os homens profiram palavras vis e infames contra os verdadeiros servos de Deus, tal como ocorrera com Enoque. Os ímpios pecadores proferem palavras duras, isto é, palavras de vaidade contra os servos de Deus. A dureza das palavras dos ímpios não está em serem repreensões severas, mas em serem palavras de inveja e movidas pelo engano diabólico.

V. 14-15: A profecia de Enoque tem quatro características peculiares: primeiro, é a primeira profecia sobre a Segunda Vinda; segundo, atesta o juízo de Deus sobre os ímpios; terceiro, demonstra a condenação dos ímpios por suas ações; quarto, demonstra a condenação dos ímpios por suas palavras. Ou seja, os ímpios são condenados justamente e sofrem o justo juízo de Deus devido as suas palavras ímpias e suas obras de impiedade.

1.16: Estes são murmuradores, queixosos da sua sorte, andando segundo as suas concupiscências, e cuja boca diz coisas mui arrogantes, admirando as pessoas por causa do interesse.

Estes. Isto é, os que foram mencionados nos vs. anteriores.

são murmuradores. Os ímpios também são murmuradores, ou seja, murmuram contra Deus e contra os homens.

queixosos da sua sorte. Os apóstatas são queixosos de sua sorte; com efeito, os apóstatas também são imbuídos da doutrina da retribuição, aquela segundo a qual os justos não podem sofrer e os ímpios devem sofrer; e, como todos aqueles que propugnam a doutrina da retribuição são presunçosos, então, aqueles que se queixam de sua sorte são orgulhos e soberbos, pois, segundo o Pregador, o mesmo sucede a todos os homens (cf. Ec 9.2-3a).

andando segundo as suas concupiscências. Os murmuradores e os queixosos de sua sorte, são pecadores contumazes, pois, andam segundo suas paixões; na verdade, são queixosos de sua sorte, mas na verdade, são frutos de suas próprias paixões pecaminosas.

e cuja boca diz coisas mui arrogantes. Os murmuradores proferem coisas arrogantes, isto é, suas palavras são ímpias e soberbas; por isso, diz a Escritura que a boca dos ímpios derriba uma cidade (cf. Pv 11.11). Pois, existem duas formas de arrogância: primeiro, a arrogância hipócrita, aquela que se não profere palavras arrogantes, mas que evidencia-se em obras de impiedade; segundo, a arrogância descarada, aquela que profere palavras arrogantes antes, durante ou após se ter cometido obras de impiedade; o texto refere-se ao segundo tipo, pois, os apóstatas proferem palavras arrogantes antes, durante e/ou após terem cometido obras de impiedade.

admirando as pessoas por causa do interesse. Os murmuradores também são interesseiros, isto é, movem em direção a algumas pessoas por causa do interesse carnal; por isso, a murmuração engendra no coração a luxuria, ou torna a luxuria a senhora do coração. Por isso, os apóstatas, ao serem murmuradores e proferirem palavras de arrogância descaradas, também são interesseiros e luxuriosos.

V. 16: Os apóstatas são aqui descritos a partir das paixões que possuem em suas almas; e as paixões dos apóstatas expressam o estado de alma completamente contrário a Deus que os apóstatas possuem; e, são descritos em cinco características: primeiro, são murmuradores; segundo, são queixosos e descontentes; terceiro, andam segundo suas paixões; quarto, dizem coisas arrogantes; quinto, são luxuriosos.

1.17: Mas vós, amados, lembrai-vos das palavras que vos foram preditas pelos apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo,

Mas vós. Ou seja, em contrapartida a tudo o que foi descrito do v. 4-16, os cristãos devem agir de forma diversa; o em contrário que os cristãos expressam, são luminares contra os efeitos terríveis das ações dos apóstatas.

amados. Os cristãos são chamados de amados, isto é, aqueles que são amados por Deus Pai e em Deus Pai através do Filho Amado de Deus. (ver o v. 1).

lembrai-vos das palavras. Os cristãos devem se lembrar da palavra de Deus, que tanto os alertara contra os apóstatas e sobre o juízo que os espera, quanto os ensina a como viver de modo a agradar a Deus. Se deve lembrar das palavras de Deus, tanto por causa da consciência quanto para manter a pureza no coração (cf. Sl 119.11).

que vos foram preditas pelos apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo. As palavras a que se refere Judas, são as proferidas pelos apóstolos, a doutrina dos apóstolos (cf. Ef 2.20). Pois, os apóstolos reiteradas vezes alertaram sobre os falsos mestres e os falsos profetas, os quais, procurariam se introduzir no meio da Igreja para tornarem a graça de Deus em libertinagem.

1.18: os quais vos diziam que, no último tempo, haveria escarnecedores que andariam segundo as suas ímpias concupiscências.

os quais vos diziam que. Os apóstolos também afirmaram sobre o que as Escrituras de antemão também afirmaram, tal como os exemplos evocados nesta epístola.

no último tempo. Isto é, no tempo do fim. Mas também em relação a todas as épocas onde a apostasia se torna mais corriqueira e incisiva.

haveria escarnecedores. A profecia é de que haveriam escarnecedores, ou seja, de que haveria homens ímpios que promoveriam e propagariam o escárnio, isto é, a zombaria contra tudo aquilo que concerne a Deus.

que andariam segundo as suas ímpias concupiscências. Os apóstatas, que também são escarnecedores, andam segundo suas ímpias paixões e desejos; as paixões dos apóstatas sempre são ímpias e movidas pelos desejos da impiedade, sempre embebidos pelo desejo de Satanás.

V. 17-18: As exortações dos apóstolos sempre foram para alertar contra os terríveis efeitos dos apóstatas no meio da Igreja, causando males e adoecendo o corpo de Cristo. Por isso, Judas procura trazer a lembrança da Igreja a doutrina apostólica concernente aos apóstatas e ímpios, que sempre procuram destruir a graça de Deus e tornar a Igreja sujeita a libertinagem moral e a falta de fidelidade doutrinária.

1.19: Estes são os que causam divisões, sensuais, que não têm o Espírito.

Estes. Isto é, os que foram mencionados nos versículos anteriores (vs. 4-16). Mas, retomado a exortação dos vs. 17-18, os apóstatas agora são demonstrados em seus efeitos espirituais. E, os dois efeitos demonstrados, ao se propagarem, tornam-se um câncer espiritual na vida eclesial. Ou, tal como Apóstolo afirma, os efeitos espirituais da apostasia roem como a gangrena (cf. 2Tm 2.17).

são os que causam. Ora, os apóstatas sempre causam efeitos terríveis; e os efeitos da apostasia sempre são hediondos, libertinos, corruptores e luxuriosos.

divisões. Os apóstatas causam divisões, isto é, destroem a unidade onde haveria haver unidade.

sensuais. Os apóstatas são sensuais; e há dois tipos de sensualidade: uma boa, no relacionamento de um marido com sua mulher, e da mulher com seu marido; e uma ruim, a sensualidade que perverte a ordem da natureza e muda o estado natural. Além disso, sensuais também tem o sentido de embrutecidos, aqueles que ficaram com o entendimento embrutecido, e se tornaram tal como um animal irracional (cf. Sl 73.22). A sensualidade tira o entendimento (cf. Os 4.11), e, por isso, os sensuais são transtornados (cf. Os 4.14).

que não têm o Espírito. Os apóstatas, por serem dominados por paixões ímpias e por serem sensuais, não tem o Espírito; ora, a maior evidência de apostasia é a falta da ação do Espírito Santo. A apostasia vitupera a ação do Espírito Santo.

V. 19: Os apóstatas possuem três características espirituais: primeiro, causam divisões onde não deveria haver divisões, já que são movidos pela ação dos demônios; segundo, são sensuais, dominados pelo espírito da sensualidade; terceiro, não tem o Espírito Santo em seus corações. Logo, pela descrição espiritual dos apóstatas, se percebe que os mesmos não são cristãos, mas são ímpios e tem sua vontade movida por demônios.

* V. 8-19: A descrição dos apóstatas nestes versículos é apresentada de forma variada; e Judas, faz dez descrições diversas: primeiro, descreve a natureza dos apóstatas (v. 8); segundo, fornece um exemplo de respeito as autoridades (v. 9); terceiro, descreve os efeitos morais e intelectuais da apostasia (v. 10); quarto, evoca exemplos históricos das consequências da apostasia (v. 11); sexto, faz comparações os efeitos das ações dos apóstatas com elementos da natureza (v. 12-13); sétimo, evoca o exemplo da profecia de Enoque (v. 14-15); oitavo, faz outras descrições da natureza dos apóstatas (v. 16); nono, traz a lembrança a exortação dos apóstolos sobre os apóstatas (v. 17-18); décimo, descreve as características espirituais dos apóstatas (v. 19).

§ 3. Exortação à edificação da fé (1.20-23).

1.20: Mas vós, amados, edificando-vos a vós mesmos sobre a vossa santíssima fé, orando no Espírito Santo,

Mas vós. A descrição no mesmo sentido da do v. 17; em contrapartida aos apóstatas, que são sensuais e não tem o Espírito, os cristãos devem seguir o caminho da piedade, com radicalidade ainda maior em tempos de apostasia tal como a descrita anteriormente.

amados. Os cristãos são amados, isto é, amados por Deus em Cristo através do Espírito.

edificando-vos a vós mesmos. A fé verdadeira busca edificação em Deus e em Sua palavra, fortificando-se e fortalecendo-se no Senhor e na força de seu poder (cf. Ef 6.10).

sobre a vossa santíssima fé. A fé verdadeira é santíssima, porque tem por objeto a verdade primeira, Deus, que é Super-Santo, e por se estabelecer diante dEle e no relacionamento com Ele, o qual requer santidade (cf. Sl 93.5b; Hb 12.14). A fé é santíssima por seu objeto, seu princípio e sua órbita.

orando no Espírito Santo. Em contrapartida aos apóstatas que não têm o Espírito Santo, os cristãos são chamados a orar no Espírito Santo, isto é, a orar com Ele e na dependência dEle. Orar no Espírito, é orar crendo que o Espírito intercede pelos fiéis com gemidos inexprimíveis e que os ajuda a orar corretamente (cf. Rm 8.26).

1.21: conservai a vós mesmos no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, para a vida eterna.

conservai a vós mesmos. Os cristãos devem se conservar; do mesmo modo como o Senhor os conserva, tal como fora afirmado no v. 1, os cristãos também devem buscar se conservar e preservar a fé incólume, tanto na doutrina quanto na vida cotidiana. A conservação é obra da graça, mas é buscada com temor e tremor pelos eleitos, sempre dependentes desta graça para serem conservados.

no amor de Deus. E o meio de conservar-se a si mesmo incontaminado do mundo, é o conservar-se no amor de Deus; o amor de Deus não somente salva, mas também protege, educa, repreende e conserva. A conservação da fé e do coração é eficaz no amor de Deus.

esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo. A conservação da fé, passa pela firmeza da esperança, que tal como diz a Escritura é tal qual âncora firme (cf. Hb 6.19); por isso, os eleitos esperam a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, tanto no sentido da volta do Senhor, quanto no sentido da paciência em esperar pelo livramento dEle em momentos de tribulação e sofrimento. A exortação a conservar-se a si mesmo, tem por base o amor de Deus, e tem por fundamento a correta apreensão sobre o que se deve esperar, para ordenar a vontade ao devido fim.

para a vida eterna. Os eleitos esperam a vida eterna, isto é, a vida na comunhão total e plena com Deus na glória; pois, só esperam pela vida eterna aqueles que usufruem nesta vida da graça, que é a antessala da glória. Por isso, uma das características do hábito da graça dos fiéis nesta vida, é estar fundamentado na viva esperança (cf. 1Pe 1.3), a qual não decepciona (cf. Rm 5.5).

1.22: E apiedai-vos de alguns que estão duvidosos;

E apiedai-vos. Isto é, tende piedade e misericórdia; mas, o apiedar-se de alguém, é ser movido pelo Espírito para que os mais fracos na fé sejam ajudados a se fortalecerem; na verdade, é procurar ajudar os que necessitam de piedade, não os que necessitam de justiça. Por isso, piedade aos que necessitam de piedade; justiça aos que necessitam de justiça.

de alguns. Ora, somente alguns, e não todos, são aqueles de quem se deve apiedar; pois, com todos se deve usar de misericórdia, mas apenas de alguns, isto é, dos que realmente precisam, se deve apiedar.

que estão duvidosos. E aqueles de quem se deve apiedar, são os que estão duvidosos, seja pela fraqueza do intelecto, seja pela falta de conhecimento, seja pela fraqueza da vontade. A dúvida, pode surgir, mas não se engendrar no coração, senão se transforma em incredulidade. Mas, os que se encontram duvidosos, por qual motivo for, devem ser ajudados e destes se deve apiedar.

1.23: e salvai alguns, arrebatando-os do fogo; tende deles misericórdia com temor, aborrecendo até a roupa manchada da carne.

e salvai alguns. Ora, entre os que estão duvidosos, os cristãos devem procurar salvá-los, isto é, encaminhá-los no caminho da salvação.

arrebatando-os do fogo. O encaminhar no caminho da salvação, é comparado ao retirar alguém do fogo; no caso aqui, do fogo do inferno.

tende deles misericórdia. Destes se deve ter misericórdia; pois, pela ação dos apóstatas muito se tornam duvidosos e fracos na fé; assim, destes se deve ter misericórdia e piedade com entranhas de amor.

com temor. E, se deve ter misericórdia com temor, isto é, no temor do Senhor; pois, misericórdia sem o temor do Senhor, se torna falsa misericórdia. A verdadeira misericórdia é com temor e tremor, em palavras e ações.

aborrecendo até a roupa manchada da carne. E, a evidência do temor na misericórdia, é o aborrecimento até da roupa que foi contaminada, isto é, se até a roupa for contaminada, até essa deve ser aborrecida; pois, ao se trabalhar com os duvidosos e com aqueles que devem ser salvos do fogo, pode se incorrer em pecado ou em manchas pecaminosas. Por isso, ao procurar salvar os outros, se deve manter irrepreensível diante do Senhor.

V. 20-23: Em contrapartida ao que fora afirmado nos versículos anteriores, Judas passa a descrever quais devem ser as características dos cristãos em meio a tamanhas apostasias; e, evoca oito características: primeiro, edificar a fé; segundo, orar no Espírito Santo; terceiro, conservar a si mesmo no amor de Deus; quarto, esperar a vinda do Senhor; quinto, apiedar-se dos duvidosos; sexto, salvá-los do fogo do inferno; sétimo, ter misericórdia com temor; oitavo, guardar-se incontaminado. Ou seja, Judas evoca as características da verdadeira religião.

§ 4. Doxologia (1.24-25).

1.24: Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar e apresentar-vos irrepreensíveis, com alegria, perante a sua glória,

Ora. Ou seja, diante das características que os cristãos devem ter diante da apostasia, Judas volta-se agora ao tema central de sua epístola, a saber, a soberania da Santíssima Trindade.

àquele que é poderoso. A descrição volta-se ao Deus Todo-Poderoso, o Deus soberano que faz o que quer e quando quer (cf. Sl 135.6).

para vos guardar de tropeçar. Ele é tão poderoso, que pode guardar os eleitos de tropeçar, isto é, os guardar dos tropeços em meio a influência hedionda dos apóstatas.

e apresentar-vos irrepreensíveis. O poder de Deus é tão grande, que Ele pode guardar os eleitos irrepreensíveis. Ora, o Espírito é poderoso para guardar os eleitos para apresentá-los irrepreensíveis diante de Deus.

com alegria. E o poder de Deus atua nos eleitos a fim de lhes outorgar a alegria, que é fruto do Espírito (cf. Gl 5.22). E, ao declarar esta palavra, não somente demonstra o efeito glorioso da graça, mas o próprio modo como os fiéis hão de haver-se com Deus, a saber, com alegria.

perante a sua glória. Ora, o objetivo do Espírito em guardar e conservar os fiéis, é mantê-los na alegria de Deus, para os apresentar na glória; pois, como diz o adágio escolástico, a graça é o começo da glória, então, a alegria, nesta vida, é a antessala do gozo da presença de Deus na eternidade.

1.25: ao único Deus, Salvador nosso, por Jesus Cristo, nosso Senhor, seja glória e majestade, domínio e poder, antes de todos os séculos, agora e para todo o sempre. Amém!

ao único Deus. Ora, a este Deus glorioso, o Deus único e verdadeiro (cf. Dt 6.4), que é poderoso para guardar os eleitos e os apresentar irrepreensíveis com alegria perante Sua glória, a este, somente a Ele, se deve prestar honra e glória.

Salvador nosso. Deus é o Salvador (cf. Is 43.3, 11). Portanto, a Ele pertence a salvação.

por Jesus Cristo, nosso Senhor. E, é o nosso Salvador, por intermédio de Jesus Cristo, nosso Senhor. Ora, o Deus Trino atua na obra da salvação, e no ofício régio na vida dos eleitos.

seja glória e majestade. Ao Deus único e verdadeiro, seja glória e majestade; são termos que expressam efusiva adoração, pois, somente a Ele pertencem a glória e a majestade, pois, Ele é o Rei da Glória (cf. Sl 24.7-10); ora, o Senhor da Graça, é também o Rei da Glória; donde, a graça ser proveniente dEle, e a glória ser a visão beatífica dEle. Portanto, a graça e a glória dizem respeito a Ele.

domínio e poder. Ao Deus único, também sejam o domínio e o poder; são termos para descrever a soberania absoluta de Deus; a Ele pertence o domínio e todo o poder (cf. Sl 62.11; Ap 4.11, 5.13).

antes de todos os séculos, agora e para todo o sempre. Ora, a doxologia de Judas, conclui-se com uma declaração de profunda convicção, ao declarar que a Deus sejam glória e majestade, domínio e poder, por todos os tempos: antes do tempo, no tempo, e depois do tempo; ou seja, de eternidade a eternidade; pois, Ele é de eternidade a eternidade (cf. Sl 90.2).

Amém! A conclusão da doxologia termina com o assim seja litúrgico, o fim adequado a toda oração e a toda expressão de adoração e louvor; isto é, tudo que Judas afirmou em sua doxologia, se confirma com o Amém, diante de Deus e diante dos homens; diante de Deus, que aceita a confissão sincera de lábios que o adoram (cf. Hb 13.15); diante dos homens, para ensiná-los o conteúdo da verdadeira adoração.

V. 24-25: A doxologia de Judas, certamente uma das mais belas de todo a Escritura, apresenta três pressupostos teológicos: primeiro, a certeza da perseverança dos eleitos como efeito da graça (v. 24); segundo, a confissão na soberania de Deus como parte da vida piedosa (v. 25); terceiro, as características da verdadeira adoração (v. 25).

***

E termina aqui este comentário menor a epístola de Judas. Bendito seja Deus por Sua Santa Palavra. Amém. 


Políticos-Feiticeiros

A maior parte dos líderes mundiais são do Demônio veros serviçais; a política dominada pela feitiçaria é do mal uma infame tapeçaria. ...