30/12/2025

A confissão como gênero literário

I

 

O gênero autobiográfico foi desenvolvido ao longo dos séculos por vários autores; a necessidade de se preservar a vida e os feitos dos homens ilustres fora manifesta desde os tempos antigos, mais propriamente desde quando os grandes Faraós ou os grandes reis eram enterrados com a descrição de seus feitos; depois, surgiram propriamente os biógrafos, como Plutarco e Diógenes Laércio, que escreveram sobre a vida dos homens ilustres de suas épocas.

A primeira autobiografia de que se tem notícia é a obra “Tristias” de Ovídio, poeta romano; depois, alguns dos Padres da Igreja e dos escritores eclesiásticos também trataram de relatar a vida dos santos; entre estes, sobressai-se, por exemplo, a autobiografia de São Gregório Nazianzeno; etc.

No entanto, o gênero autobiográfico é talhado e fundado por Santo Agostinho em sua obra “Confissões”; embora tenha havido, mesmo entre os Padres da Igreja, notáveis obras autobiográficas, é com o bispo de Hipona que o gênero é fundado propriamente dito, dado a mestria e profundidade que Santo Agostinho dera a confissão em sua expressão literária; embora não tenha sido a primeira autobiografia cristã, sem sombra de dúvida, fora com as “Confissões” que a confissão tornara-se propriamente dito um gênero literário.

Posteriormente, muitos foram os que escreveram autobiografias verdadeiras, algumas notabilíssimas, como o escrito de Algazali, “A Libertação do Erro”, e também a “Historia Calamitatum” de Pedro Abelardo, ou a “Lamentatio in misfortunam vitae suae de São Genádio Escolário, ou ainda o “Ecce Homo” de Nietzsche, ou o “Surpreendido pela Alegria” de C. S. Lewis, etc.; mas, com o despontar da modernidade, surgiram aqueles que quiseram mascarar a própria vida através deste gênero, desfigurando o preceito da verdade sobre si mesmo como iniciação do saber. Assim, a sentença tão cara a Sócrates: “conhece-te a ti mesmo”, foi transmogrifada por outra sentença: “desconhece-te a ti mesmo”; em suma, a contemporaneidade é a época dos homens que desconhecem a si mesmos.

Por exemplo, Descartes ao descrever a si mesmo chega ao ponto de pulular e se glorificar por mascarar a si mesmo através do que escreve; outro que faz isso é Rousseau, em uma obra intitulada “Confissões”, que alguém dissera acertadamente que é um amontoado bem escrito de mentiras; as confissões de Rousseau são as confissões mais mentirosas já escritas; entre outros exemplos neste quesito.

Na verdade, a vida espiritual na modernidade filosófica, em suma, é a busca por mascarar a própria vida através de mentiras e canalhices; e isto, infelizmente, se assomou totalmente na cristandade hodierna.

Além do que, isto também trouxera consigo uma gravíssima consequência; pois, o saber não mais desenvolveu-se a partir do autoconhecimento, mas a partir de mentiras inventadas sobre si mesmo, que por sua vez tornam o conhecimento sujeito a mentiras de quem não tem conhecimento, o que tornam o saber em anti-saber; e isto tem permeado a vida na contemporaneidade; por esta razão, Nietzsche chega a afirmar que os homens do conhecimento são aqueles que desconhecem a si mesmos; logo, não são dignos de serem chamados de homens do conhecimento; pois, quem não conhece a si mesmo não tem autoridade para falar sobre o conhecimento.

Pois, a primeira e mais fundamental característica para adentrar no templo da sabedoria é o conhecimento de si e a sinceridade sobre si.

 

II

 

Este artificio de mascarar quem se é, que em suma é hipocrisia, foi manifesto até mesmo nos grandes filósofos; Hegel escondeu quem era realmente, e tentou camuflar seu tédio através de um grande divertimento que é seu sistema da ciência; Marx fez o mesmo, só que em relação a esfera sócio-política; Heidegger nem fez questão de esconder as hipocrisias, mas demonstrou total descaro; o único entre os mais conhecidos filósofos que não teve máscaras para desvelar a si mesmo foi Nietzsche, mas é tão mal compreendido que fica parecendo que é canalha e que não presta, quando na verdade é um dos poucos que prestam e um dos poucos que não é canalha.

Ora, isto, por sua vez, mostra que o artifício de se mascarar quem é, é contradição em relação ao ato da confissão; pois, quem mascara a si mesmo, velando as próprias hipocrisias, não possui sinceridade para se relacionar com Deus; a fé verdadeira é a fé que não tem máscaras, é a fé que é permeada pela sinceridade total consigo mesmo sobre si, diante de Deus e diante dos homens.

Por isso, a confissão é elemento preponderante não somente em relação ao relacionamento com Deus, mas para que alguém conheça a si mesmo; aquele que esquece a si mesmo, ou não tem a veracidade sobre o próprio eu como algo clarividente a si, é alguém que se acostumou a esconder-se de si mesmo e de Deus; o pecado não confessado é que se esconde de si mesmo (cf. Gn 3.9-10); aqueles que não confessam o pecado, é porque os atos pecaminosos que cometem não tidos como pecaminosos embora de fato o sejam; ora, se alguém peca mas a consciência não o deixa irrequieto, então a consciência está cauterizada (cf. 1Tm 4.2).

O pecador não deve ter vergonha de confessar o próprio pecado. Pois, o verdadeiro arrependimento é mostrado na sinceridade da confissão e na contrição pela própria miséria; onde não há sinceridade na confissão e nem contrição e compunção profunda pela própria miséria não houve verdadeiro arrependimento.

A confissão sincera e verdadeira ajuda a desenvolver a consciência de si como miserável pecador; e isto deve ser desenvolvido de tal modo que não haja artifícios e nem máscaras, nem para si mesmo sobre si mesmo nem diante de Deus, nem diante de outrem.

Ademais, a confissão tomou forma como gênero literário com Santo Agostinho, também para ajudar os cristãos a entenderem no que consiste a confissão para evitar estes erros acima descritos; pois, embora se tenha as sentenças das Sagradas Escrituras sobre a confissão, e os Santos Padres tenham ensinado sobre a confissão, muitos ainda não prosseguem neste caminho por falta de um exemplo adequado; ora, o exemplo de Santo Agostinho neste quesito é cabal e de suma autoridade.

Quem quer aprender a ser sincero consigo mesmo, deve palmilhar o mesmo caminho que Santo Agostinho, ainda que não venha a publicar uma autobiografia. A imitação de Santo Agostinho neste quesito não tem a ver com publicações escritas, mas no desenvolver uma sólida consciência de si, para si, sobre si, tanto diante de si, quanto diante de Deus, bem como diante do próximo.

Pois, ser sincero sobre si mesmo livra o eu de buscar máscaras para velar a si mesmo, isto é, livra o eu da fétida cultura da autoimagem; bem como livra o eu de querer enveredar-se pelos grimórios da canalhice, manifesta naqueles que buscam velar quem são através de algum estereótipo e/ou através da tentativa de ridicularizar quem pela vida virtuosa traz luz as hipocrisias na qual vivem.

Mas, por que isso ocorre? Simples, pela falta da prática da confissão, e pelas canalhices de homens que mentem sobre si mesmos, assomados a falta da compreensão sobre o pecado; pois, ao não praticarem a confissão, cria-se o mal costume de não analisar se uma determinada prática é pecado, bem como cria-se o costume de rejeitar como pecaminoso tudo que supostamente faz “bem” a alguém; no entanto, que se saiba que nada que é errado faz bem; na verdade, o que é errado traz muitos males para o indivíduo.

Aliás, soma-se a isso também o desprezo continuado pelo que é ensinado na Sagrada Escritura. Formou-se, em uma geração inteira de “cristãos”, o argumento ad ignorantiam sobre os ensinamentos bíblicos, ou seja, os “cristãos” hodiernos desconhecem os ensinamentos bíblicos e a partir deste desconhecimento aferem o que é pecado e o que não é pecado; evidentemente, se não conhecem as Escrituras Sagradas, então não vão discernir adequadamente o que é pecado e o que não é pecado. Ora, se alguém se diz “cristão” e pratica atos proibidos na Sagrada Escritura, então a fé que diz ter é pior do que a fé dos demônios.

Assim sendo, formou-se uma cultura que valora a hipocrisia, a qual descamba na vida descarada; aqueles que se acostumam a pecar contra o que dizem crer, desenvolvem em si mesmos o ímpeto para o descaro, já que não sentem mais vergonha diante de Deus e diante de si mesmos por praticarem atos pecaminosos.

E, isto tudo, provém de uma pequena, mas terrível mudança efetuada sobre o gênero literário da confissão; os filósofos começaram a escrever mentiras sobre si mesmos, então isso passou ao próprio ímpeto da cultura, e gerou-se uma cultura que busca tudo para velar de si o autoconhecimento; Pascal chamou isso de busca por divertimentos; séculos antes, Cícero chamou isso de morbidade na alma; por isso, aqueles que não sentem mais vergonha diante de Deus por pecar já foram imbuídos no descaro, o qual é velado na busca costumeira e obstinada por divertimentos.

Os homens buscam divertimentos para si a fim de não precisarem se confessar e se arrepender de práticas pecaminosas; tanto o é, que aqueles que praticam atos pecaminosos, logo após praticarem tais atos, ao invés de se arrependerem, tratam de procurar divertimentos para dopar a consciência a fim de que a mesma não fique irrequieta por causa da prática pecaminosa, e assim desembocam na luxuria, manifesta as mais das vezes através dos risos (cf. Jr 5.7-8).

 

III

 

A confissão, tendo se tornado um gênero literário, acoplou-se com o gênero autobiográfico; ora, o gênero autobiográfico é permeado por três tipos principais: primeiro, daqueles que descrevem quem são a partir dos próprios feitos; segundo, daqueles que descrevem quem são a partir das próprias falhas e dos próprios pecados; terceiro, daqueles que descrevem quem são para defender a si mesmos.

1. Primeiro, daqueles que descrevem quem são a partir dos próprios feitos; neste estilo de autobiografia, pouco se sabe sobre o verdadeiro eu do indivíduo, mas sabe-se sempre mais a respeito de quem é e do que fez tal indivíduo; isso foi muito utilizado pelos imperadores e pelos heróis dos povos antigos para descreverem a si mesmos; e este tipo de autobiografia só tem utilidade naqueles que viveram uma vida virtuosa a luz da verdade desde a infância; mas, tal espécie de autobiografia tem um defeito: pouco ensina sobre no que consiste a confissão; embora, tenha algo benéfico: ensina a reconhecer, sem rodeios e falsas modéstias, quem se é e o os feitos realizados.

2. Segundo, daqueles que descrevem quem são a partir das próprias falhas e dos próprios pecados; neste estilo de autobiografia, se conhece plenamente o eu de uma pessoa, ao ponto de tal pessoa desvelar a si mesmo, não somente diante de si, mas principalmente diante de Deus, e assim não esconde-se nada sobre si, nem diante de Deus e nem diante dos homens; neste estilo de autobiografia, não se esconde nada do que se lembra, antes coloca-se tudo em voga, justamente para que a justificativa do eu seja manifesta pela sinceridade e verdade para consigo mesmo; e é nesta espécie de autobiografia que se estabelecem as “Confissões” de Santo Agostinho; e esta espécie de autobiografia ensina com maestria e com profundidade sobre no que consiste a confissão.

3. Terceiro, daqueles que descrevem quem são para defender a si mesmos; neste estilo de autobiografia, menos utilizada de maneira verídica, também se conhece plenamente o eu de uma pessoa, não só no sentido da sinceridade e verdade sobre si, mas principalmente para apologizar sobre si mesmo quando isto se faz necessário; nem sempre se faz necessário defender-se a si mesmo, principalmente em questões espirituais; no entanto, nas raras vezes em que isto se faz necessário, surgem obras autobiográficas excelentes, que não somente descreve a si mesmo diante de si e diante de Deus, mas se coloca com coragem e verdade contra os caluniadores e os orgulhosos que atentam contra o bom testemunho de alguém, ao ponto de ter de apologizar sobre a própria vida; um grande exemplo neste quesito, é a obra de John Henry Newman, “Apologia pro vita sua”, na qual Newman apologiza sobre a própria vida confessando quem é diante de si, diante de Deus e diante dos contradizentes/caluniadores orgulhosos.

Estes três tipos de autobiografias, foram acoplados na fundação da confissão como gênero literário; embora já houvesse a autobiografia como gênero literário, Santo Agostinho deu a expressão autobiográfica a significação sacramental necessária à mesma, tanto para se evitar mentiras quanto para se evitar falsas modéstias; pois, tendo a confissão ganhado expressão literária, o ato de descrever a si mesmo, sem mentiras e sem máscaras, se evidenciara como parte do que concerne a própria formação da personalidade.

 

IV

 

Ora, destes três tipos ou espécies de autobiografia se extrai três princípios basilares que devem orientar a busca pela sinceridade: primeiro, reconhecer quem se é e quais os feitos e qualidades pessoais; segundo, não ter vergonha diante de si e nem diante de Deus dos próprios pecados e das próprias falhas; terceiro, quando necessário defender quem se é sem preocupação com o que outras pessoas dirão.

1. Primeiro, reconhecer quem se é e quais os feitos e qualidades pessoais; antes de tudo, a pessoa deve reconhecer quem é com suas qualidades e defeitos, tanto para se evitar se sobrelevar a quem não se é, quanto para se evitar rebaixar a quem não se é. Esta é a sina que cumpre aos homens: compreender a própria grandeza sem deixar de compreender a própria miséria.

2. Segundo, não ter vergonha diante de si e nem diante de Deus dos próprios pecados e das próprias falhas; a seiva da sinceridade está em reconhecer a si mesmo diante de si e diante de Deus tal como se é, sem acréscimos e nem decréscimos; pois, não se deve esconder nada daquele que vê todas as coisas, já que “não há criatura nenhuma encoberta diante dele; antes, todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele com quem temos de tratar” (Hb 4.13). Por isso, a sinceridade diante de Deus, que vê e conhece todas as coisas, é o ponto de partida da sinceridade consigo mesmo.

3. Terceiro, quando necessário defender quem se é sem preocupação com o que outras pessoas dirão; pois, a sinceridade sobre si e a sinceridade da vida na verdade abalizam e dão autoridade para que alguém defenda a si mesmo quando assim se faz necessário; aqueles que criticam quem se defende quando isto é necessário afirmando que isto é arrogância ou similares, nada entende da necessidade de apologizar sobre a própria sinceridade diante da verdade; no entanto, aqueles que sabem quem são e que sabem em quem creem (cf. 2Tm 1.12), tem obrigação de apologizar sobre si mesmos quando as circunstâncias assim reclamam; pois, a apologia da própria vida, se feita corretamente de acordo com as circunstâncias que exigem isso, e ao descrever a sinceridade com que se vive, sempre é um testemunho grandiloquente em honra a Deus e para ensinamento de outrem, principalmente para ensinamento e testemunho aos incrédulos, aos caluniadores e aos falsos cristãos.

 

V

 

A necessidade da confissão, evidenciada na compreensão sobre a confissão como gênero literário, é atestada pelo fato que um indivíduo carrega diante de si a verdade sobre o seu próprio ser; sobre isso, Olavo de Carvalho tem uma sentença assaz oportuna: “Você carrega diante de si a verdade do seu ser, e é mediante ela que deve modelar seus pensamentos, e não o contrário”; ora, a modelação da própria personalidade, em sua forma pura, que é a base do caráter, se dá mediante a verdade do próprio ser, da verdade do indivíduo sobre si mesmo e diante de si mesmo.

A confissão é a pedra de amolar da personalidade; quanto mais sincera e contínua é a prática da confissão, mais amolada e burilada vai ser a personalidade, a qual quanto mais for burilada mais vai ser moldada em função da forma da personalidade pura, que como fora dito, é a base do caráter; então, a confissão é elemento preponderante para a formação do próprio caráter, a fim de se evitar as máculas da insinceridade. A confissão impede que se crie ou invente ceras para tapar os buracos pecaminosos na alma.

Portanto, é mais do que evidente que a confissão é necessária, pois a confissão ajuda a desenvolver de maneira natural e sincera, o que concerne a compreensão sobre si diante da verdade sobre o próprio eu; além do que, a compreensão sobre si está intimamente interligada com o conhecimento de Deus, pois somente com o conhecimento de Deus é que o indivíduo conhece a si mesmo; além do que, Deus fala no íntimo do coração: a verdade não apenas está do lado de fora do ser humano, mas a verdade está dentro do ser humano; não a verdade como um dado ou informação, mas a verdade que habita no ser do homem.

Pois, o próprio Deus colocara a eternidade no coração do homem (cf. Ec 3.10); portanto, nada pode satisfazer o ser humano a não ser o próprio Deus que é eterno; n’Ele se encontra a verdadeira felicidade, tal como diz o salmista: “Far-me-ás ver a vereda da vida; na tua presença há abundância de alegrias; à tua mão direita há delícias perpetuamente” (Sl 16.11).

Deste modo, o ser humano encontra o caminho da felicidade através da confissão; pois, aquele que confessa o pecado e abandona a prática pecaminosa encontra misericórdia e graça (cf. Pv 28.13); além do que, aquele que se confessa a Deus encontra a alegria que convém a alma redimida, a alegria da presença do Senhor, a qual é a força do fiel no caminho da vida (cf. Ne 8.10c). A confissão, portanto, é parte sacramental da vida cristã, isto é, não existe vida cristã verdadeira sem confissão sincera.

Com isso, se entende que a mestria e genialidade de Santo Agostinho, manifesta em sua imorredoura obra “Confissões”, não somente conduz para uma compreensão sobre a verdade dentro do ser humano, mas principalmente conduz o indivíduo, através da confissão como gênero literário, a formar o próprio imaginário em ordem a prática da confissão; pois, mesmo o mais simples entre os homens pode ter seu imaginário bem formado, ainda que não tenha possibilidade de ter uma adequada formação humanística, desde que pratique com sinceridade, constância e perseverança o ato da confissão; e isto, por sua vez, forma uma muralha para impedir que o coração seja dominado por enganos e engodos demoníacos.

Portanto, a confissão enquanto gênero literário abaliza a compreensão não somente sobre as confissões pessoais, as autobiografias pessoais ou as autobiografias fictícias, mas abaliza a necessidade da prática da confissão como elemento sacramental da vida cristã, não somente em relação a Deus, mas em relação a si mesmo e em benefício de si mesmo e do próximo.

A confissão é um ato de amor: amor a Deus e amor a si mesmo, a fim de amar a Deus e amar a si mesmo no próximo; só se ama a Deus e se ama a si mesmo no próximo, e o ato da confissão comporta isso plenamente, já que pelo ato da confissão se aprender o que é amar. 

θεῷ χάρις


26/12/2025

Explicação do “Epigrama sobre Hegel” de Karl Marx

Proêmio

 

O “Epigrama II” ou “Epigrama sobre Hegel” (1837)[1] é um texto fundamental da filosofia marxiana, e é um dos textos mais impressionantes sobre a interpretação de Hegel; certamente, neste poema, Marx evidencia que compreendeu Hegel melhor do que muitos de seus intérpretes mais eruditos; aliás, neste poema se tem mais princípios para compreender Hegel do que muitas análises que comportam centenas páginas.

Assim, compreender este poema é uma chave hermenêutica fundamental para se entender o marxismo; pois, o marxismo é fruto do sistema da ciência de Hegel; além do que, compreender este poema é compreender o efeito da efetivação do sistema da ciência; na verdade, compreender a análise marxiana sobre a filosofia de Hegel, ainda que feita em poucos versos, é compreender o modo mais adequado para se entender Hegel; pois, certamente numa coisa o pensamento marxista é útil, a saber: para compreender adequadamente a filosofia de Hegel; os marxistas são mestres por excelência na filosofia de Hegel.

Deste modo, este poema tem muito a ensinar, não somente sobre Hegel, mas sobre o próprio Marx; pois, ao descortinar no que consiste a filosofia de Hegel e o laborar de Hegel, Marx também demonstra no que consistirá sua filosofia e o seu laborar do ponto de vista intelectual.

 

§ 1

 

Hegel como “deus”. Nos cerca de vinte versos de Marx sobre Hegel, se compreende algo fundamental, que muitos, mesmo após análises aprofundadas da Fenomenologia do Espírito não compreendem, a saber, que Hegel se coloca como “deus”. As sentenças de Marx não somente interrogam de maneira exclamativa aspectos da filosofia de Hegel, mas principalmente Marx se coloca como Hegel para poder interpretá-lo; e, sob esta perspectiva, dir-se-ia que a análise de Marx sobre Hegel é quase que fenomenológica (no sentido husserliano).

Por isso, o primeiro verso, neste sentido, é assaz elucidador: “Desde que eu encontrei o mais alto das coisas e as profundezas delas também”, isto é, Hegel é aquele que encontrou, que conhece, o mais alto das coisas e as profundezas delas também; ou dito em outros termos, é aquele que tem o conhecimento do bem (o mais alto das coisas) e do mal (as profundezas delas também). Ora, só quem tem o conhecimento do bem e do mal é Deus; então, obviamente quem arrola para si isso quer se tornar como “deus”.

E isso também se comprova pelo próximo verso: “Rude sou eu como um Deus, envolto pela escuridão como um Deus”; o próprio Marx constata que o propósito de Hegel é ser como “deus”; mas, não como o Deus verdadeiro que por si é impossível; mas como um “deus” é que rude e envolto em escuridão; o Deus que Hegel quer se tornar, embora seja a tentativa de usurpar o verdadeiro Deus, na verdade é o que na Escritura se chama de “deus deste século (cf. 2Co 4.4); o “deus” que Hegel se torna é o “deus” rude e envolto em escuridão, a saber, Satanás.

E isto está em perfeita conformidade com o real propósito de Hegel em seu sistema da ciência; pois, a própria busca de Hegel é uma busca que envolve toda sua vida; por isso, Marx acertadamente afirma: “Por muito tempo procurei e naveguei no oceano profundo e ondulante do Pensamento”, isto é, Hegel adentrou as profundezas do pensamento, ou como ele mesmo diz as profundezas da Coisa, e assim ele navegou, ou seja, palmilhou por muito tempo o oceano profundo e ondulante do Pensamento para compreender a Coisa, pois só se chega as profundezas da Coisa pelo rigor do conceito[2], isto é, através do conceito de Ideia.

E ao chegar ao oceano profundo do Pensamento, Hegel descobre algo: “Lá eu encontrei a Palavra: agora eu me agarro a ela rapidamente”, isto é, na profundidade da Coisa, ele encontra a Palavra; mas, será que esta Palavra é Cristo ou a Escritura? Não, esta Palavra que Hegel encontra não é Cristo e não é a Sagrada Escritura; então, que significa esta Palavra? É a Ideia; Hegel encontrou a Ideia, e a ela se agarra rapidamente, ele a toma para si, e a estabelece em si rapidamente; ou seja, Hegel se torna a própria Ideia, pois para Hegel ele se torna a Palavra.

Por esta razão, Hegel afirmara que a Ideia é o poder absoluto que se dá a luz[3]; por isso, quem domina a Ideia domina todas as coisas; assim, é mais do que óbvio que o propósito de Hegel (e Marx o segue cabalmente nisso) é se tornar “deus”, o “deus” que concebe a Ideia. A filosofia de Hegel é uma filosofia de auto-deificação do próprio Hegel, o que se sumaria na seguinte proposição: com Hegel, em Hegel e para Hegel; e quem é subjugado por esta filosofia, procura fazer o mesmo que Hegel, só que sob o domínio de Hegel, como o próprio Marx constata no penúltimo verso.

 

§ 2

 

A consequência da filosofia de Hegel, confusão diabólica. A proposição de que ideias tem consequências é totalmente evidente em Hegel; pois, ao Hegel procurar ser como “deus”, ele na verdade instaura uma filosofia sistêmica com terríveis consequências; por isso, Marx sentencia as consequências da filosofia de Hegel (e de sua filosofia): “Palavras que eu ensino todas misturadas em uma confusão diabólica”, isto é, as palavras, os ensinamentos de Hegel, toda sua filosofia, ao serem misturadas, geram uma confusão diabólica, a qual destrói a inteligência e obnubila a consciência.

Ora, esta confusão por sua vez, não somente é para destruir a inteligência e obnubilar a consciência de uma vez, mas sim para gerar de início outra consequência, a saber: “Assim, qualquer um pode pensar exatamente o que quiser”, isto é, gerar ceticismo quanto ao conhecimento, já que se todo mundo pode pensar exatamente o que quiser não se tem mais certezas quanto ao conhecimento; em suma, fora isso que Kant propugnara; mas, Hegel vai além, ele estabelece que cada um pode pensar exatamente o que quiser, não em função do ato de livre pensar, algo inerente ao ser humano, mas sim que cada um institua a própria realidade ao pensar; em Hegel, o ato de pensar é o mesmo que criar a realidade (no marxismo também se tem a mesma proposição, embora seja algo mais específico quanto a esfera sócio-política).

E isso gera uma confusão total, já que assim não se tem certeza e nem verdade. No entanto, ainda que Hegel consiga efetuar isso cabalmente, ele defronta-se com alguns problemas, como Marx afirma: “Nunca, pelo menos, ele é cercado por limitações estritas”, isto é, ele nunca defronta-se com limitações estritas, apenas com limitações não-estritas (flexíveis), pois ainda que ele possa instituir que o ato de pensar é o mesmo que criar a realidade, e ordenar isso a partir das categorias do sistema da ciência, ele não pode medir e nem regular as consequências disso; por isso, Hegel não é cercado por limitações estritas, mas sim por limitações flexíveis, as quais, ele pode adequar ao seu próprio sistema.

Ora, estas limitações são descritas com duas metáforas, a saber: “Borbulhando para fora da inundação, caindo do penhasco”, isto é, é como algo que borbulha para fora de uma inundação, e como o cair do penhasco; no entanto, estas duas metáforas não dizem respeito àqueles que são dominados por Hegel, mas sim sobre aqueles que buscam sair deste domínio; estes, por sua vez, serão como algo borbulhando fora da inundação, isto é, não conseguirão nadar contra a correnteza da inundação, ou então serão como aquele que cai do penhasco; e se sabe quais são os efeitos de se nadar contra a correnteza em uma inundação e de cair do penhasco.

Por isso, Marx continua a descrever no que consiste as palavras de Hegel: “Assim são as palavras e pensamentos de seu Amado que o Poeta inventa”, isto é, Hegel faz filosofia em função de um ser amado; e Hegel inventa palavras e pensamentos sobre este ser amado; no caso, o Amado seria para se referir a Deus; mas, como Hegel não busca ao Deus Verdadeiro, mas sim a Satanás, então o ser amado de Hegel é o próprio Demônio.

Por esta razão, se diz de Hegel que, “Ele entende o que pensa, inventa livremente o que sente”, isto é, Hegel entende o que pensa, e inventa livremente o que sente; ora, se Hegel inventa o que sente, ele não consegue entender o que pensa; se ele inventa o sentir, então ele também inventa o pensar; e de fato Hegel faz isso: ele inventa uma nova forma de pensar, com uma nova doutrina sobre as operações do intelecto, e com isso, institui o que as pessoas devem sentir.

Pois, ao fazer isso, chega-se ao estado de total sujeição ao seu sistema através da confusão diabólica causada, tal como Marx assevera: “Assim, cada um pode sugar por si mesmo o néctar nutritivo da sabedoria”, isto é, cada um inventa para si o que é a sabedoria, e toma esta sabedoria disposta por Hegel, que na verdade é confusão diabólica, como o néctar para si; ora, se alguém se alimenta de confusão diabólica, então será dominado por confusão diabólica - pois, do que a alma é alimentada delineia no que a alma se torna. E isto, por sua vez, instaura um subjetivismo terrível e enlouquecedor, já que se cada um pensa o que quer no sentido anteriormente descrito, então cada um se torna um “deus”. A cultura hegeliana é a cultura em que cada ser humano se torna um “deus”, ou no dizer de Nietzsche, no super-homem.

Assim, Hegel se torna o iniciador dos homens no conhecimento do bem e do mal; e isso o coloca como adjutor de Satanás; com isso, Marx constata o que Hegel causa e como Hegel se coloca ao causar isso: “Agora você sabe tudo, já que eu não disse nada para você!”, isto é, Hegel que conduz os homens por este caminho sem volta, ao instaurar o que quer, e ao seduzir os homens, não assume nada do que faz e se retira de cena; é como o processo bíblico da tentação do demônio: o demônio tenta, arma o laço, mas depois que alguém cai, ele sai de cena e trata de acusar aquele a quem engodou para cair no laço.

Hegel conduz os homens para a perdição, mas em hipótese nenhuma assume isso em seu sistema da ciência; e os frutos do sistema hegeliano procederão do mesmo modo. E, no sentido moral, isso é canalhice da pior espécie, da mais hedionda e abjeta forma de destruir uma pessoa. E esta é nuance por excelência da filosofia de Hegel.

 

§ 3

 

A falsa busca por descrever a realidade. Depois, de evocar uma espécie de “reviravolta”, não em si mesma, mas para demonstrar a confusão que é inerente a filosofia de Hegel, Marx prossegue para a terceira estrofe, onde explica em quatro versos a posição histórica da filosofia de Hegel entre Kant e Fichte. Pois, Hegel é homem de seu tempo, e sua filosofia também reflete isso; na verdade, ao explicar a posição histórica da filosofia de Hegel, ainda que veladamente, Marx descortina no que realmente consiste o sistema hegeliano em comparação com Kant e Fichte (também poderia ter comparado Hegel com Schelling ou com Schleiermacher).

Marx afirma: “Kant e Fichte sobem para o céu azul”, isto é, as filosofias de Kant e Fichte segundo a concepção de Hegel (e de Marx) são utopias, pois sobem ao céu azul sem trazer nada de útil para a vida cotidiana; pois, Kant e Fichte, estão “Procurando por alguma terra distante”, isto é, estão procurando algo no além, algo que não podem encontrar; em suma, esta é a concepção de Hegel sobre Kant e Fichte (e sobre Schelling também); Hegel os concebe como filósofos que não entendem a realidade; e nisso Hegel está em parte certo, pois com a exceção de Schelling, Kant e Fichte não concebem e nem entendem adequadamente a realidade.

E, embora Hegel os critique assim, principalmente na Fenomenologia do Espírito, o próprio Hegel também não compreende a realidade; tanto o é, que procura criar outra realidade, a saber, a Segunda Realidade, a realidade fora da realidade, a realidade paralela, a Matrix; no entanto, Marx assevera a concepção de Hegel diante de outras filosofias de sua época: “Eu apenas procuro compreender profundo e verdadeiro”, isto é, Hegel se concebe como aquele que procura compreender o profundo e verdadeiro, ou seja, a própria realidade, ou: “Aquilo que – na rua eu encontro”, isto é, aquilo que ele mesmo vê e entende no cotidiano. Para Hegel, apenas sua filosofia é a forma de compreender a realidade, os outros filósofos são “utópicos”.

Ora, embora Hegel arrole isso para si em contraste a Kant e a Fichte, tanto Kant quanto Fichte ainda continuam sob a realidade, ainda que não a compreendam e ainda que tenham ceticismo quanto a possibilidade de compreender a realidade; e, Hegel, nem sequer isso faz, ele busca transmogrifar a realidade, busca criar outra realidade, aprisionando as consciências dos homens a seu sistema da ciência.

Portanto, Hegel arrola uma falsa busca da realidade para descrever a realidade; e todo filósofo que não se baseia na realidade para fazer suas reflexões filosóficas, sempre é movido por algum propósito nefasto; e a filosofia de um filósofo que não se baseia na realidade sempre é expressão do divertimento de um homem em estado de tédio, de um niilista no sentido pleno do termo. A filosofia de Hegel, na verdade, é o desnudar niilista do próprio Hegel.

 

§ 4

 

A sujeição de todos a Hegel. E tendo feito estas considerações, Marx prossegue a quarta e última estrofe, fornecendo alguns princípios de sua análise cirúrgica da filosofia de Hegel em poucos versos; Marx, termina seu epigrama retomando a si a palavra, e não com o “eu-poético” de Hegel como faz em quase todos os versos anteriores; Marx afirma: “Perdoe-nos epigramatistas”, isto é, busca a benevolência dos epigramatistas dado as nuances dialéticas que foram manifestas neste epigrama sobre Hegel; aliás, Marx descortina a razão de buscar esta benevolência ao asseverar: “Para cantar músicas com reviravoltas desagradáveis”, isto é, ao poetizar sobre a filosofia de Hegel não pode deixar de manifestar as reviravoltas inerentes ao sistema hegeliano, ou mais propriamente não pode deixar de se expressar de acordo com a parafernalia dialética do sistema hegeliano.  

E, assim, Marx termina constatando um fato indubitável da vida na contemporaneidade, a saber: “Em Hegel estamos todos tão completamente submersos”, isto é, todos estão sujeitos a filosofia de Hegel, todos estão submersos no oceano do sistema hegeliano, todos estão na beira do penhasco do sistema da ciência; isto, por si, constitui-se na mais precisa sentença já escrita sobre a filosofia de Hegel; na verdade, Marx descortina o propósito da filosofia hegeliana, a saber: subjugar todos ao sistema da ciência; e, de fato, Hegel, de maneira cabal, conseguira efetuar tal domínio.

No entanto, Marx termina com uma sentença pragmática no último verso, ao afirmar: “Mas com sua Estética ainda temos que ser purgados”, isto é, Marx afirma que em conjunto com a estética de Hegel os homens vão enfrentar o purgatório, mas purgatório no sentido existencial-social; ou seja, os homens vão ser purgados em conjunto e em consonância com a estética de Hegel; o “purgatório” da vida sócio-cultural será feito com a estética de Hegel e pela estética de Hegel.

E aqui está uma das chaves hermenêuticas fundamentais para se antevê o que surgirá no âmbito da vida sócio-cultural até que este purgar seja completo, isto é, até que não exista mais expressão de beleza real na vida social; ou dito em outros termos, até subjugue todas as expressões reais, e transmogrife o ímpeto pela realidade, em ímpeto “artificial” movido pelo sistema da ciência.

A estética de Hegel é para purgar os transcendentais da vida humana, ou seja, para retirá-los totalmente da vida humana ou transmogrifá-los a partir das categorias do sistema da ciência.

 

***

 

Ora, o que fora dito basta quanto a uma explicação deste epigrama de Marx sobre Hegel; no entanto, que se saiba que neste epigrama são apresentadas, de maneira velada, várias referências cruzadas a filosofia de Hegel, que a explicam de maneira simples e sintética; e que se saiba uma coisa, tudo o que Marx afirma neste epigrama sobre a filosofia de Hegel é corretíssimo e assaz útil; quem quiser entender Hegel adequadamente, há de se debruçar sobre a interpretação aprofundada deste epigrama, e certamente colherá excelentes princípios para compreender o pensamento hegeliano. 

E termina aqui esta explicação. θεῷ χάρις



[1] In: Karl Marx e Friedrich Engels, Marx-Engels Collected Works Vol. 1: Karl Marx 1835-1843 [Lawrence & Wishart, 1975], pág. 576-577.

[2] cf. G. W. F. Hegel, Fenomenologia do Espírito [2ª ed. Petropólis, RJ: Vozes, 2003], pref., § 4, pág. 27.

[3] In: Johannes Hoffmeister, Dokument zu Hegels Entwicklung [Sttutgart: Frommann, 1936], pág. 348. 


24/12/2025

Explicação de “O Violinista” de Karl Marx

Proêmio

 

A poesia “O Violinista” (1837) é um dos textos mais impressionantes de Karl Marx[1] (mesmo que seja uma de suas obras de juventude); pois, Marx descreve a si mesmo, quem é e o que procurará fazer, através da alegoria com um violinista; Marx compara sua vida, suas capacidades, seus labores, ao laborar de um violinista; não porque não pudesse falar de si mesmo de maneira aberta e desvelada, mas porque através dos símbolos concernentes a atividade do violinista, ele poderia descrever melhor o ímpeto que o moveria em tudo o que procuraria fazer e as consequências de seus labores. E a procura por tais símbolos é evidência cabal de sujeição a Hegel.

Assim, o “violinista” neste poema é um signo que se refere, em primeiro lugar, ao próprio Marx, mas que, em segundo lugar e de maneira derivada, também diz respeito a todos os marxistas. O violinista mor, Marx, e os violinistas acompanhantes, os marxistas; a orquestra do marxismo só comporta violinos, não só pela falta de pluralidade na verdade do pensamento marxista, mas principalmente por causa do propósito que os move de maneira indivisa e inconcussa, tal como é assustadoramente desvelado nesta poesia.

Expliquemos, pois, alguns aspectos desse poema, o qual é a base para a exegese do pensamento marxiano, do qual se origina o pensamento marxista. Então, a compreensão desse poema (e de outros poemas de Marx) é o fundamento para quem busca entender e compreender o marxismo como um todo; pois, quem quer compreender filosoficamente e espiritualmente o propósito de Marx e do marxismo, deve iniciar pela análise e estudo das obras poéticas de Marx.

 

§ 1

 

O símbolo do violinista. A busca por símbolos, seja através de metáforas seja através de alegorias, demonstra ou a necessidade de encontrar meios de expressar sentimentos difíceis de serem descritos em prosa narrativa, ou então demonstra a tentativa de desvelar algo que está oculto, que se for expresso de maneira direta, descortinará o propósito real de quem escreve; por isso, alguns autores, movidos por propósitos hediondos, escondem seus verdadeiros propósitos através de metáforas e figuras em obras poéticas.

No caso de Marx, ele descortina quem é e o que faz através da figura do violinista. O violinista é aquele que serra as cordas, isto é, quem exerce uma arte com maestria: do mesmo modo é com Marx, é alguém que quer exercer sua arte com maestria (a arte de Marx é a eficácia em estabelecer seus propósitos, os propósitos do marxismo); pois, o violinista ao exercer sua arte com maestria, torna a mesma um hábito pelo qual ele é reconhecido; do mesmo modo é com aqueles que sabem exercer a arte a qual se dedicam de maneira maestrina.

Assim, se Marx conseguir exercer sua arte com maestria, ele conseguirá colocar todos aqueles a que influencia, de maneira direta ou indireta, conscientemente ou não, sujeitos aos propósitos do marxismo; ao serrar as cordas do marxismo, aqueles que são dominados pelos sons do violino da doutrina marxista, são por este sujeitados ao propósito marxista.

Por isso, o símbolo do violinista é para descrever alguém que exerce uma arte com maestria, bem como para descrever aas consequências que este exercer uma arte com maestria traz àquele que assim faz.

Mas, por que Marx se utiliza da alegoria do violinista? Simples, assim como muitos de sua época, alegorias com instrumentos musicais servia para demonstrar o que concerne a execução da arte praticada e seus efeitos naqueles a quem é direcionada.

Marx não é o único que se utiliza desta alegoria, vários no séc. XIX também o fizeram, mas Marx é o único que o faz com outros propósitos do que aqueles que também se utilizaram da mesma alegoria; outros autores utilizam desta alegoria apenas com propósitos poéticos, Marx além dos propósitos poéticos também a utiliza com propósitos descritivos tanto de si mesmo quanto de seus labores.

Pois, através da alegoria do violinista, Marx descreve a si mesmo e explica as consequências de seus labores.

 

§ 2

 

O frenesi na música, expressão de alma em desordem. A primeira descrição é sobre o frenesi da música; a indagação de Marx, “por que esse som frenético?”, não é tanto em relação a um som dissonante; mas, é a indagação sobre a raiz do frenesi; pois, se Marx se descreve como um violinista (e de fato, ele entendia realmente de música), ele não indaga sobre a razão harmônica do som frenético, mas sim sobre sua causa; por isso, Marx indaga: “por que você olha tão descontroladamente em volta?”, isto é, indaga a causa do descontrole e da inquietação; depois, indaga ainda: “por que salta seu sangue, como o mar agitado?”, isto é, indaga a causa da ansiedade psíquica (música frenética causa ansiedade na alma); e, por fim, indaga: “o que impulsiona seu arco tão desesperadamente?”, isto é, indaga a causa do desespero.

Ou seja, através da música frenética, o próprio Marx constatou os efeitos deste tipo de música no indivíduo, a saber: descontrole, inquietação, ansiedade, desespero. Por isso, o frenesi na música e o frenesi ocasionado pela música é expressão de alma em desordem; assim, através da música frenética se consegue colocar as massas populares em desordem, isto é, em inquietação, ansiedade, desespero e similares.

Portanto, Marx constata uma coisa através da alegoria do violinista, dos efeitos da música frenética, isto é, da música ideologizada, da música utilizada com propósitos ideológicos; com isso, ele se compara ao violinista não somente para constatar isso, como de fato em poucos versos constatou de maneira magistral e de modo muito mais apurado do que os mais eruditos críticos musicais, mas principalmente para poder efetuar o mesmo através da impregnação ideológica nas mais variadas artes, isto é, em todas as manifestações culturais (em suma, o marxismo cultural é isso).

E, com isso, se descortina outro propósito de Marx, a saber, o de propagar cabalmente o que parece que ele na verdade critica; isso é fruto do sistema hegeliano, apresentar algo com aparência de “crítica”, mas na verdade propagar justamente este algo sob as máscaras da “crítica”; é isso que Marx descortina sobre si nesta poesia, ao ponderar sobre o frenesi na música; pois, parece que Marx critica ferrenhamente este frenesi, quando na verdade o próprio Marx desvela que é isso o que ele pretende fazer, não somente na música e nas artes, mas em toda a sociedade.

Por isso, os efeitos do marxismo na vida sócio-cultural são da mesma espécie que os efeitos do frenesi na música.

 

§ 3

 

A alma em desordem é ordenada ao inferno. A alma em desordem, pelo frenesi da música, tem um destino; pois, o frenesi, ao ocasionar desordem, traz consigo as consequências desta desordem; por esta razão, Marx indaga a razão dele tocar violino: “por que eu toco violino?”, isto é, indaga a razão do porque utiliza deste ofício, ou seja, a razão de seu laborar; e, na verdade, Marx não toca apenas o violino, ele produz ondas selvagem; por isso, indaga: “ou as ondas selvagens rugem?”, isto é, Marx compara o seu ofício como violinista, uma alegoria, como o rugir de ondas selvagens; ou seja, as consequências do frenesi musical produzido pelo Marx violinista é o rugir das “ondas selvagens”. O frenesi do pensamento marxista é uma tsunâmi contra os fundamentos da ordem social.

Ora, e por que Marx faz isso? Simples, ele mesmo responde: “para que eles possam bater na costa rochosa”, ou seja, Marx toca o violino para levar as embarcações – no caso aqui, alegoria para representa os seres humanos - a bater nas costas rochosas, a naufragar na vida; o frenesi propagado por Marx tem dois modos de levar as pessoas a naufragar na vida, como o próprio Marx assevera: “que o olho fique cego, que o peito inche”, isto é, que cegue a visão, ou seja, que cegue a capacidade de discernir racionalmente, e que seja inchado pela soberba; o propósito de Marx ao executar sua arte é fazer com que as pessoas naufraguem na vida através da cegueira da razão e da soberba no coração. E estes são os efeitos do pensamento marxista: cegueira da razão e soberba no coração.

Por isso, ao frenesi da música causar desordem na alma, ele causa desordem em todo o ser; e alma em desordem é alma gritante, é alma que ao ser dominada pela desordem, tem por consequência ser dominada pelo reino da desordem (aliás, pode-se explicar este grito aqui através de uma comparação com a explicação da obra “O Grito” de Edvard Munch); assim, alma em desordem é alma ordenada ao inferno, tal como Marx afirma: “o grito dessa alma desce para o inferno”; ora, a alma que desce ao inferno é a alma que entrou em desordem pelo frenesi propagado, seja por qual meio for (na alegoria de Marx neste poema, através da música).

E a guisa de complemento a explicação da sentença desta estrofe, se entende que tudo no pensamento marxiano tem dois sentidos: um literal e outro alegórico (um sentido além da letra); e isso, que não é mera coincidência, se assemelha muito com a exegese das coisas sagradas; por isso, o pensamento marxista busca substituir a religião e os dogmas religiosos; na verdade, o pensamento marxista busca substituir a Sagrada Escritura pelos textos de Marx; os sentidos do pensamento marxista buscam transmogrifar os sentidos da exegese religiosa; e embora não façam isso de jure, de facto conseguem açambarcar muitos nesta invectiva, até aqueles que se dizem “cristãos”.

Além do que, é por esta razão que é de ínvia dificuldade compreender o marxismo, já que não se entende o que está por detrás do texto escrito, isto é, não se entende as entrelinhas (os alegorismos marxianos); e nisso Marx segue a risca o que Hegel fizera, a saber, esconder seu real propósito através de figuras, alegorias, símbolos, signos, etc.

Outrossim, é que Marx compreende o que concerne ao destino eterno das almas; no entanto, o que ele propugna em seu laborar é para colocar uma desordem tal nas almas dos indivíduos que os leve para o inferno. Isso é o próprio Marx quem afirma de maneira direta e sem dubiedades. Portanto, o pensamento marxista tem por propósito encaminhar as almas para o inferno.

 

§ 4

 

O desprezo aos dons divinos. Após ter designado seu propósito, Marx passa a indagar a si mesmo como violinista; na verdade, não uma indagação do eu para com o próprio eu, mas utiliza-se da função do narrador, para indagar ao próprio violinista (no caso o próprio Marx indagando a si mesmo); por isso, Marx afirma: “violinista, com desprezo você rasga seu coração”, isto é, o violinista desvela a si mesmo, rasga o próprio coração, mas o faz com desprezo; não desprezo por si, mas desprezo por Deus. Marx despreza a Deus. Este é o sentido deste verso.

Ora, desprezar a si mesmo no “rasgar” do coração é o que Nietzsche chamara de niilismo, ou o que Dostoiévski chama de doença em “O Homem do Subsolo”; e essa doença é algo grave, pois, se “um Deus radiante emprestou-te a tua arte”, ou seja, se suas capacidades provém da bondade divina, então rejeitá-las é o mesmo que rejeitar a si mesmo; e Deus outorga tais capacidades para conduzir à beleza: “para deslumbrar com ondas de melodia”, isto é, para comover e deleitar, e também “para voar para a dança das estrelas no céu”, isto é, para encantar. Por isso, rejeitar estas capacidades é o mesmo que rejeitar a comoção, a deleição e a admiração.

Na verdade, nestes versos Marx descortina o propósito dos dons e capacidades de cada um, e num sentido geral, acerta; pois, Deus outorga os dons para as artes, a fim de que os homens conheçam a verdade, e conduzam os homens a comoção, a deleição e ao encantamento.

No entanto, Marx o faz não somente para designar no que consiste isso; se assim fosse, seria uma definição assaz útil; Marx delineia esta concepção para demonstrar não o que ele de fato busca fazer, mas para mostrar que vai fazer completamente o contrário.

Nesta concepção, Marx propugna outra forma da encarnação do “espírito dialético”, isto é, aquele estado de alma que ao compreender algo da verdade, por ter compreendido este algo, passa a se portar contra este algo. E o “espírito dialético” é a pior forma de descaro já instituída entre os seres humanos.

Assim sendo, se compreende que Marx indaga a si mesmo enquanto violinista, não para mostrar que a arte que executa provém das capacidades que Deus lhe outorgou, mas sim para mostrar que a maestria que ele possui não provém do “Deus radiante”, mas de outro alguém.

Por isso, Marx descortinará o que está por detrás dele enquanto violinista, ou sem a alegoria, o que o conduz no que ele faz e labora. Assim, Marx não somente demonstra seu total desprezo para com os dons divinos, mas também seu total desprezo aos transcendentais; por isso, o pensamento marxista é um pensamento anti-transcendental.

 

§ 5

 

O que está por detrás do violinista, o Demônio. Ao indagar a si mesmo, Marx então passa a resposta pessoal a esta indagação com uma sentença exclamativa: “como assim!”, isto é, como se pode perguntar algo deste tipo, como se pode fazer tal indagação, pois o que ele faz está mais do que evidente do porque faz e para quem faz; Marx diz: “Eu mergulho, mergulho sem falhar”, isto é, ele exerce sua arte sem falha, pelo menos no que ele se propõe a fazer; no entanto, ele não diz que toca as cordas do violino, mas que mergulha; ou seja, no exercício de sua arte, o violinista Marx não o faz a fim de tirar os sons belos do violino, mas de mergulhar algo.

Mas o que é este algo? O próprio Marx afirma: “Meu sabre de sangue negro em sua alma”; Marx não toca as cordas do violino apenas, isto é, ele não apenas executa sua arte, mas mergulha o sabre negro dele (sabre negro é específico para ser usado em rituais de bruxaria, ainda mais sendo sabre de sangue), na alma de outrem, ou seja, este é o real propósito de Marx; ou dito de outro modo, Marx executa sua arte para colocar um sabre de sangue negro na alma dos indivíduos.

Por isso, ele mesmo constata: “Essa arte Deus não quer nem deseja”, ou seja, este tipo de arte Deus abomina (a arte imbuída de feitiçaria); pois, não é uma arte que cumpre seu propósito natural, mas a arte que Marx executa é a arte em função da bruxaria, com o sabre de sangue negro em suas mãos para adentrar as almas das pessoas.

Portanto, aquele que assim o faz não vai deslumbrar ou encantar; mas, antes, como o próprio Marx assevera: “Salta para o cérebro das névoas negras do Inferno”, isto é, aquele que exerce sua arte com o sabre de sangue negro para mergulhá-lo na alma de outrem, salta para a as névoas negras do inferno; ou seja, o destino da arte que não cumpre seu propósito é o inferno.

A arte que é anti-arte é permeada pelas névoas negras do inferno, pois estas névoas já dominaram o cérebro, a mente daquele que executa a arte deste modo. E é esta espécie de arte que Marx propaga; então, o pensamento marxista tem a mente permeada pelas névoas negras do inferno.

 

§ 6

 

O acordo do violinista com Satanás. E Marx assim o faz não somente tal como o mergulhar, isto é, como algo rápido e feroz, mas “até que o coração esteja enfeitiçado”, ou seja, até que o coração seja dominado pela bruxaria do sabre de sangue negro; e mais: “até os sentidos cambalearem”, isto é, até os sentido serem corrompidos de seu propósito natural; ora, em suma este é o linguajar da magia, da feitiçaria; por isso, quando Marx diz que ele usa o sabre de sangue negro para mergulhar nas almas, ele dá a entender que o propósito real é outro, e assim a alegoria com o violino desvela-se em seu real significado, a saber: evidenciar a feitiçaria que Marx propaga.

Por isso, o próprio Marx afirma: “Com Satanás eu fiz meu acordo”, isto é, Marx descreve em rodeios e sem metáforas, em meio a uma alegoria, que ele faz um acordo com Satanás; por isso, ao invés de usar o arco de violinista, ele usa o sabre negro dos rituais de bruxaria. O Marx violinista não é aquele que toca o violino, mas aquele que usa o sabre de sangue negro para os propósitos da bruxaria. E nisto o pensamento marxista se engendra: propaga bruxaria e impregna bruxaria não só nas artes, mas em todo o ímpeto das manifestações culturais.

Portanto, ao fazer seu acordo com Satanás, ao fazer seu pacto com Satanás, Marx desvela que é Satanás quem o conduz em sua arte, ao afirmar: “Ele risca os sinais, marca o tempo para mim”, isto é, Marx afirma que é Satanás quem o conduz em sua arte, ou seja, é Satanás quem o conduz no que ele faz e labora.

Assim, a arte que Marx propaga, e as artes que são influenciadas pelo marxismo, produzem um efeito terrível, tal como o próprio Marx afirma: “Eu toco a marcha da morte rápido e grátis”, isto é, ao ter Satanás como seu condutor, Marx afirma que o exercício de sua arte é a marcha da morte, ou seja, é o que conduz a morte, e isto de maneira “rápida e grátis”; por isso, o pensamento marxista é uma orquestra em função da marcha da morte, isto é, em função da propagação da morte e do inferno.

E Marx o faz totalmente consciente disso; por isso, o próprio Marx evoca a contradição hegeliana: “Devo jogar escuro, devo jogar luz”, isto é, ao mesmo tempo em que desvela o que concerne ao exercício da arte, também desvela que seu propósito está além disso, a saber, ao mostrar no que concerne a arte na verdade vela o que faz através da arte. E, ao ter feito diametralmente o oposto nos versos anteriormente, ao evocar esta contradição hegeliana, demonstra sua total sujeição a Hegel.

Além do que, Marx faz isso até que todo o seu ser seja dominado completamente: “Até que as cordas do arco partam meu coração completamente”, isto é, até que ele não tenha mais sentimentos, até que ele morra; Marx propugna ser um serviçal de Satanás enquanto viver, até a hora de sua morte, ou seja, até que seu coração seja partido pelo próprio sabre que ele se utiliza como arco.

Outrossim, é que esta última sentença evoca uma síntese com o sistema hegeliano; assim como em Hegel, a meta (Ziel), só é alcançada na morte; por isso, no último capítulo do sistema da ciência de Hegel, morre-se a própria determinação individual, ou seja, morre o homem para Deus, e Deus morre para o homem; esta é a dialógica hegeliana; e Marx a segue a risca: não que Deus de fato tenha morrido, mas ao propugnar a própria morte para Deus e a morte de Deus para o homem, o homem pode partir seu coração completamente, isto é, pode ser completamente despessoalizado e despersonalizado.

E Marx faz isso: propugna a própria morte, e a morte de Deus para ele, para pode ser totalmente um serviçal de Satanás. Pois, tal como Hegel, somente assim Marx alcança seus reais objetivos, tal como já fora descrito. Mas, Marx não propugna a própria morte através de figuras fúnebres, mas através da alegoria do coração completamente partido.

E a guisa de conclusão, se deve explicar que a morte de Deus descrita por Nietzsche, fora propugna e sistematizada por Hegel, e vivenciada plenamente por Marx e pelos marxistas.

 

***

 

Ora, não se fizera uma explicação muito aprofundada deste poema, mas apenas explicou-se os principais aspectos alegóricos que servem para entender o real propósito de Marx e do marxismo; pois, Marx, na alegoria do violinista, um tipo de alegoria corriqueira em sua época, desvelou o real propósito de seus labores; por isso, compreender as nuances deste poema é o fundamento para a interpretação e compreensão do marxismo, dos fenômenos inerentes ao marxismo, já que neste poema é desvelado o motivo-base de todo o pensamento de Marx e, por consequência, de todos os marxistas. 

E termina aqui esta explicação. θεῷ χάρις



[1] In: Karl Marx e Friedrich Engels, Marx-Engels Collected Works Vol. 1: Karl Marx 1835-1843 [Lawrence & Wishart, 1975], pág. 22-23. 


20/12/2025

Encómio ao Primeiro Concílio de Niceia

1. Ó tu, cidade de Niceia, antiga glória do Império Romano, joia do Império Bizantino, viste ocorrer em vossas ruas empoeiradas um dos maiores Concílios Ecumênicos da história.

Que cidade, pois, fora digna de dignatária assembleia?

Não somente uma dignatária assembleia, mas a própria Santa Igreja, representada pelos sucessores dos apóstolos, se ajuntou para resolver questões teológicas e aperfeiçoar o que concerne a Sagrada Tradição.

Ó Niceia, cidade lendária, viste as resoluções de bispos santos abalizar e definir adequadamente o símbolo da fé.

Ó Niceia, o que tu não teria a nos contar se tu pudesses falar.

2. Assim, ao rememorar os 1700 anos do Primeiro Concílio de Niceia, não se poderia deixar de saudá-la, ó antiga cidade; mas, principalmente saudar este notável Concílio Ecumênico, um dos maiores e mais importantes de toda a história.

A teologia nicena é a teologia da cristandade; não que as fórmulas nicenas acoplaram todo o desenvolvimento teológico, o que por si seria impossível; mas as fórmulas nicenas definiram com precisão e síntese no que consiste a fé cristã enquanto conjunto de doutrinas reveladas.

A fé cristã é fundamentalmente experiência com Cristo, mas esta experiência também deve ser manifesta em formulações racionais precisas e sintéticas, não só para testemunho entre as gentes, mas também para glorificar a Deus através dos dons da inteligência.

3. A fé nicena é uma fé que concatena a verdadeira experiência com a explicação racional adequada; pois, aquilo que se crê há de ser corretamente entendido (cf. Is 7.9b); e fora isso que os padres nicenos fizeram, a saber, definiram da melhor maneira possível a experiência da fé verdadeira que lhes fora transmitida, a qual verdadeiramente experienciaram, e a qual preservaram e conservaram sem nenhuma alteração.

A teologia nicena é expressão da fé imutável da Santa Igreja; a fé na Santíssima Trindade, na obra de Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo, nos quais está a beatitude da vida cristã, e o esplendor do hábito da glória.

Convocados para lidar com as heresias de Ário, lidaram não somente com estas terríveis heresias de maneira magistral, mas legaram à toda Igreja um tesouro inestimável, que enriquecera e enobrecera grandemente a Sagrada Tradição. O símbolo niceno é uma das glórias da Sagrada Tradição.

4. Deste modo, o que provém das fórmulas nicenas é a mais límpida e útil teologia: glorificar a Deus por quem Ele é e louvá-lo e honrá-lo pelo que Ele faz; glorificar a Jesus Cristo, nosso bendito Redentor, por sua obra da cruz para nos salvar e livrar do inferno; glorificar ao Espírito Santo, Senhor nosso e que vivifica nossas almas para os mistérios santificantes; mas também honrar e dignificar a Santa Igreja, na qual se administra os Santos Sacramentos, proclamando aos fiéis e ao mundo a esperança da vida eterna.

Em suma, isto constitui a teologia dos padres nicenos; o que para alguns parece apenas uma simples fórmula antiga, para os verdadeiros cristãos é motivo de alegria e veneração, já que as fórmulas nicenas ao estarem em perfeita conformidade com o que é transmitido na Sagrada Escritura, engendram o verdadeiro propósito da Sagrada Tradição, desenvolver a fé que de uma vez por todas foi entregue aos santos sempre em conformidade com o que os Santos Apóstolos ensinaram.

5. Por isso, veneramos o Primeiro Santo Concílio Ecumênico, por sua fidelidade ao mandamento de Cristo aos Apóstolos, e por terem laborado em honra a verdade, defendendo a reta fé, debelando os erros perniciosos dos hereges, e ensinando o caminho do bem, no qual se conforma disciplina correta e crença correta, ortodoxia e ortopraxia.

Ó Padres Nicenos, louvamos a Deus por vossas vidas e testemunho, que assistidos pelo imperador Constantino, preservastes a fé apostólica sob a liderança iluminada de São Ósio de Córdova, digno sucessor dos apóstolos, e testemunhastes a beleza da fé ortodoxa.

Por esta razão, a Santa Igreja, tanto no Oriente quanto no Ocidente, após algumas discussões, reafirmara em concórdia as fórmulas definidas, as quais deram testemunho fidedigno do que era proclamado desde os tempos apostólicos.

6. Assim sendo, a fé nicena é a manifestação da verdadeira unidade da Igreja, a unidade na verdade; a firmeza na verdade é o que manifesta plenamente a unidade da Igreja em todos os rincões do mundo; ó Padres Nicenos, vós fostes fanal para preservar a unidade e a proclamar em honra a verdade, que é o próprio Cristo (cf. Jo 14.6).

A beleza fulgurante da unidade da Igreja, se dá sempre que a Igreja confessa e honra toda a verdade, e permanece plenamente em conformidade com a verdade; assim a Santa Igreja cumpre sua função, sendo coluna e firmeza da verdade (cf. 1Tm 3.15).

A firmeza da verdade foste manifesta em vós, Padres Nicenos, que preservam esta firmeza na fidelidade a Tradição Apostólica, e em testemunharem de maneira fidedigna a fé que recebestes.

7. Por isso, diante da memória dos 1700 anos do Primeiro Concílio de Niceia, rendamos louvor ao Deus Trino, pelo testemunho e fidelidade dos Padres Nicenos, orando de maneira uníssona em todo o mundo:

Ó Santíssima Trindade, mistério altissonante de graça, bondade e comunhão, louvamos-te pelo Venerável Primeiro Concílio Ecumênico, pelos Padres Nicenos, os quais em razão da firmeza da fé que receberam e movidos pelo Espírito Santo, testemunharam da fé reta e sólida diante dos ataques dos hereges; Deus Glorioso, nos dê a graça de sermos fiéis a Ti como foram os Padres Nicenos, principalmente diante dos tempos difíceis que vivemos e diante das dificuldades que se apresentam a Santa Igreja; nos conduza, ilumine, e fortaleça no caminho da verdade, a fim de que sob o ímpeto niceno, testemunhemos da verdade e possamos sempre encontrar o mel saído da rocha, que o nosso bendito Senhor Jesus Cristo nos outorga sempre que o buscamos em Sua palavra revelada. Glória seja dada a Ti, Deus Uno e Trino, por Cristo nosso Senhor, na unidade do Espírito Santo, pelos séculos dos séculos. Amém”. 


Análise do Propósito do Eurasianismo

Capítulo I: A análise do propósito do eurasianismo.   1. “ Fugi pois destas plantas parasitas, que produzem fruto mortífero. Se alguém p...