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04/01/2026

Explicação de “Invocação de um Desesperado” de Karl Marx

Proêmio

 

O poema “Invocação de um Desesperado” (1837)[1] de Karl Marx, desvela o princípio motor do que é a religiosidade de Marx; pois, mesmo os ateus ou incrédulos vivenciam algum tipo de invocação, ainda que seja para esconjurar o divino de diante de si mesmos.

Com Marx isso não é diferente: ele apresenta sua invocação, e desvela quem é diante de Deus a partir do que ele mesmo faz, não no sentido de uma confissão de arrependimento, mas muito pelo contrário: no sentido de reafirmar descaradamente a própria obstinação contra os preceitos divinos.

Ora, isto, por si, evidencia o que ocasiona a desobediência aos preceitos divinos naqueles que são influenciados pelo marxismo; a cultura dominada pelo marxismo será cultura com a mesma invocação de Marx, a saber, o desespero diante dos preceitos divinos, e, por consequência, a obstinação em rejeitar e desobedecer a tais preceitos e laborar contra os mesmos.

Por isso, aqueles que são dominados pelo marxismo acabam por se tornar indivíduos que rejeitam totalmente os preceitos divinos, ainda que digam ser “cristãos”. Pois, se não se desvela a causa do desespero espiritual, o desespero espiritual se tornará em ímpeto contra os preceitos divinos, atentando contra suas mais variadas manifestações.

Assim, se faz necessário uma explicação deste poema, para se entender no que consiste a religiosidade de Marx; embora, em outros poemas Marx tenha desvelado no que consiste sua religião, que ele fez um pacto com Satanás, etc., neste poema ele descreve como vivencia sua “religião”, a saber, como a invocação de um desesperado; e isso tem muitas implicações.

Adentremos, pois, a explicação deste poema para compreender estas implicações.

 

§ 1

 

Quando um homem culpa a Deus por suas próprias ações. A falta de ordem na vida ocasiona o ímpeto para se acusar outrem pelas próprias vicissitudes; no caso, de quem se acostumou com o descaro e a canalhice, se culpa a Deus e aos seus servos pelas próprias ações; Marx, ao ter vendido a alma para Satanás, como ele próprio declara, ao ver as consequências de suas ações diante de si, afirma: “Então um deus arrancou de mim meu tudo”, isto é, Marx fala que um “deus” arrancou dele tudo que ele tinha; ou dito em outros termos, Marx acusa outrem pelas consequências de suas próprias ações.  

Ora, se Marx fez um pacto com o “deus” deste século, então ele atribui a culpa por suas ações ao próprio Demônio. Mas, ao ter feito isso, retira de si a responsabilidade pelas próprias ações, e o faz de maneira pensada, não somente para culpar outrem pelas próprias ações, mas principalmente para arrolar algum motivo hediondo para seus labores.

Por isso, Marx fala o modo como o tal “deus” arrancou dele tudo, a saber: “Na maldição e cremalheira do Destino”, isto é, Marx atribui a roda do destino seus infortúnios, mas não numa compreensão racional do Destino que é imprevisível a todos os homens, mas do destino como maldição; para Marx, o destino que lhe sobreviera era uma maldição; no entanto, fora o próprio Marx quem seguira este caminho; logo, quem escolhera a maldição foi Marx.

Com isso, Marx constata: "Todos os seus mundos se foram além da memória!”, isto é, na maldição e cremalheira do destino, não existe mais nada a se pensar nem a se lembrar; novamente, Marx reclama de seu destino, o qual ele próprio escolheu de maneira consciente e deliberada, dizendo que todos os seus mundos se foram além da memória, e já não há mais nada a se lembrar.

Ora, se não há memória então não se tem a responsabilidade pelas próprias ações; Marx, deliberadamente, diz que todos os mundos estão perdidos além da memória, então ele já não lembra de mais nada; e isto não é uma declaração para indicar memória ruim, antes é a canalhice de esconder os próprios erros, feitos de maneira consciente e deliberada, ao ter diante de si as consequências dos mesmos.

Assim, ao ter colocado a responsabilidade na roda do Destino, e não em suas próprias ações, Marx se arrola o que lhe resta após um “deus” ter arrancado tudo dele, declarando: “Nada além de vingança me resta!”, isto é, para Marx a única coisa que lhe resta após tudo ter lhe sido tirado é a vingança, a vingança contra tudo e contra todos; a vingança total é o ímpeto que move o “eu” interior de Marx em seus labores.

Ao invés de evocar as maravilhas da memória, Marx prefere ser dominado pela vingança; na verdade, se adentrasse com sinceridade aos quarteirões da memória, veria que a roda do Destino lhe adveio devido a consequências de suas próprias ações, e não por outro motivo; a consolação de Marx em meio a cremalheira do Destino não é a verdade, mas sim a vingança.

E este é o primeiro aspecto da invocação de um desesperado, o desejo por vingança, não em função de alguma justiça, mas para velar a consciência da própria miséria advinda como consequência das próprias ações.

 

§ 2

 

A vingança contra Deus. Após descrever que lhe restara apenas a vingança, Marx passa a explicar especificamente contra quem ele busca vingança, a saber, contra Deus; pois, a vingança dominou de tal modo a alma de Marx, que segundo ele mesmo ele se tornou a própria vingança; Marx afirma: “Em mim mesmo vingança eu vou causar orgulho”, isto é, o desejo de vingança dominou Marx de tal modo que através de seu ímpeto para a vingança, nos seus labores se gera orgulho.

Por isso, para Marx, sua vingança fora talhada com o propósito de gerar orgulho; e de fato o desejo de vingança inerente ao pensamento marxista gera sempre orgulho (ou soberba); na verdade, o pensamento marxista só se instaura através da vingança, e como consequência, gesta os gérmens do orgulho, que frutificam rapidamente; e o marxismo assoma para seus propósitos toda forma de orgulho, principalmente a de seus adversários; o orgulho e a soberba nos adversários do marxismo é um combustível ainda maior para o domínio marxista.  

E a vingança de Marx é contra Deus, tal como ele afirma: “Naquele ser, aquele Senhor entronizado”, isto é, Marx direciona sua vingança contra o Senhor entronizado; os labores de Marx, em função de sua busca por vingança, tem por objetivo atingir o Senhor entronizado.

No entanto, apesar de evocar sua vingança e luta contra o Senhor entronizado, Marx ainda lhe faz um rogo: “Faça da minha força uma colcha de retalhos do que é fraco”, isto é, Marx pede a Deus que sua força seja tal como uma colcha de retalhos feita de tudo o que é fraco.

Por esta razão, o marxismo sempre se diz do lado dos oprimidos e mais fracos, o proletariado; todas as espécies de opressão que Marx identifica, ele quer que seja uma parte de sua colcha de retalhos (força). Por isso, o mote do marxismo é que todos os fracos (oprimidos), o proletariado como um todo, se reúna e se una em uma luta comum.

Além disso, Marx também exclama diante de Deus: “Deixe o meu melhor eu sem recompensa!”, isto é, Marx não reclama nenhuma recompensa diante de Deus; no entanto, Marx não busca nenhuma recompensa diante do Deus verdadeiro, mas busca uma recompensa diante do deus deste século; e a recompensa do deus deste século é que quem o adora recebe em troca as glórias demoníacas deste mundo (cf. Mt 4.8-9).

A vingança de Marx contra Deus lhe conduz às glórias deste mundo, ao domínio do sistema que jaz no maligno; no entanto, a vingança contra Deus também conduz Marx ao mais profundo abismo, posto tal vingança se efetivar não somente contra Deus, mas gesta uma soberba tal em Marx que ele busca se tornar um deus; e a obra de Satanás é justamente colocar os homens contra Deus prometendo-lhes que eles vão também se tornar como “deus” (cf. Gn 3.5).

 

§ 3

 

O plano para se tornar “deus”. Após evocar sua vingança contra Deus, Marx desvela qual o real propósito desta vingança, a saber, se tornar “deus”; por isso, Marx declara: “Construirei meu trono no alto”, isto é, Marx quer se entronizado no lugar de Deus; Marx quer subir ao alto e construir seu trono nas alturas, em usurpação ao trono do Deus verdadeiro; isto, por si, é outra evidência cabal do satanismo de Marx, proveniente do fato de ele ter vendido sua alma para Satanás.

Marx prossegue e descreve a propriedade de seu trono nas alturas: “Frio, tremendo será seu cume”, isto é, será frio, ou seja, não terá amor e nem misericórdia; e “tremendo será seu cume”, isto é, será algo grandioso; Marx ao buscar instaurar seu trono em sua busca de vingança contra Deus, antevê que seu trono, seu domínio, será grandioso; não da grandeza verdadeira, mas da grandeza galgada pelo pacto com o demônio.

Depois, Marx faz suas descrições do que constituirá seu trono nas alturas, do que se constituirá sua entronização como “deus”; Marx afirma que seu trono vai ter um baluarte e um Marshall; ora, quanto ao baluarte, Marx o descreve assim: “Por seu baluarte - pavor supersticioso”, isto é, o baluarte da entronização de Marx é o pavor supersticioso.

E este é o mote existencial do marxismo, pavor e superstição, pavor supersticioso, pois assim se gera medo e discórdia, preparando o terreno para o domínio daquele que propaga o pavor supersticioso; pois, se uma sociedade é dominada por este pavor supersticioso, então quem propaga o mesmo dominará toda a sociedade.

E, quanto ao Marshall, Marx o descreve assim: “Por seu Marshall - a mais negra agonia”, isto é, o plano de Marx é instaurar a mais negra agonia; o Marshall, o comandante do império de Marx, é a mais negra agonia; o domínio marxista é para gerar a mais negra agonia; e realmente, aqueles que buscam vingança contra Deus são dominados pela mais negra agonia, pois a rejeição a Deus ocasiona na alma os terrores da mais negra agonia.

Por isso, o plano de Marx para se tornar “deus” tem um baluarte, isto é, uma palavra de ordem, um mote, um jargão, que é o pavor supersticioso, ou tudo que gere o pavor supersticioso; mas também tem um Marshall, isto é, um mordomo que conduz os indivíduos sob o sistema marxista, que é a mais negra agonia[2].

Com isso, onde houver pavor supersticioso e onde houver a mais negra agonia, certamente se tem ou a manifestação do sistema marxista ou então a preparação para a instauração total do mesmo.

 

§ 4

 

A felicidade da vingança é como preparar o próprio túmulo. Após descrever seu plano para se tornar “deus”, Marx descreve o efeito da vingança: primeiro, naqueles que se defrontam com o marxismo; segundo, em sua própria vida. Marx assevera: “Quem olha para ela com um olho saudável”, isto é, quem olha de maneira saudável para seu baluarte e seu Marshall, ou seja, para a entronização de Marx, terá um efeito terrível em si mesmo, tal como Marx afirma: “Voltará, mortalmente pálido e mudo”, isto é, perderá aquilo em que é saudável e voltará mortalmente pálido e mudo.

No entanto, a saúde a que Marx se refere não é simplesmente a saúde física, mas a saúde psíquica; por isso, aqueles possuem a alma saudável, ao se defrontarem com o instaurar do trono de Marx, acabam por encaminhar-se em caminhos mortais, em palidez e mudez, pois o marxismo ocasiona desordem na alma, e alma desordenada é alma ordenada ao inferno como o próprio Marx asseverara em outro poema.

Assim, aquele que se defronta com o marxismo, acabará, tal como Marx afirma, “Agarrado pela cega e fria Mortalidade”, isto é, perderá o sentido da vida, perderá o real sentido de viver; é isto que significa ser agarrado pela cega e fria mortalidade; aquele que se defronta com o marxismo será dominado pelo senso de mortalidade, não para apreender quem é, mas para gerar em si mesmo o ímpeto da vingança contra Deus. A contemplação da própria mortalidade ou induz a se entender a própria miséria ou induz ao desespero.

No caso de Marx, induz ao desespero. E esta é a consequência da mortalidade apregoada pelo marxismo. Pois, no materialismo, a proposição da mortalidade é para gerar alguma práxis hedionda para velar a consciência da compreensão sobre no que consiste realmente a mortalidade; assim, tem-se não mais a mortalidade pela mortalidade, mas a mortalidade é assomada para uma práxis em vingança contra Deus.

Com isso, Marx descreve o efeito de seu ímpeto para a vingança contra Deus; e do mesmo modo como a compreensão verdadeira sobre a mortalidade encaminha a alma para a alegria, a compreensão sobre a mortalidade tal como transmogrifada pelo marxismo encaminha a alma para a falsa alegria engendrada pelo espírito de vingança.

Por isso, Marx constata: “Que sua felicidade prepare seu túmulo”, isto é, ao buscar o caminho da vingança contra Deus, Marx encontra a falsa felicidade do espírito de vingança, a qual tem por efeito a preparação do próprio túmulo, ou seja, do próprio destino eterno.

Portanto, aqueles que buscam vingança a ponto de serem dominados pelo espírito de vingança, encontrarão a falsa alegria da vingança, a qual tem por consequência irrevogável a preparação do próprio túmulo; pois, aqueles que encontram a falsa felicidade do espírito da vingança contra Deus preparam o próprio caminho para o inferno.

 

§ 5

 

A obstinação contra Deus. Após descrever os efeitos de seu plano para se tornar “deus”, Marx desvela toda a obstinação de seu coração contra Deus; Marx afirma: “E o relâmpago do Todo-Poderoso deve ricochetear”, isto é, após declarar as consequências de seu ímpeto de vingança contra Deus, Marx evoca o juízo de Deus através de uma comparação do ricochetear do relâmpago; pois, ao lutar contra Deus, Marx tenta antevê uma “reação” de Deus, através de algum juízo; no entanto, mesmo que entenda que a vingança contra Deus por si já o coloca sob o juízo de Deus, Marx ainda escarnece do juízo divino.

Pois, ao comparar o juízo de Deus com o relâmpago e ao mencionar que este relâmpago ricocheteia, ou seja, que não cumpre seu propósito, Marx descreve onde este relâmpago ricocheteia, a saber: “Daquele gigante de ferro maciço”, isto é, diante de um gigante de ferro; mas quem é este gigante de ferro? Ora, é o próprio Marx; diante do juízo de Deus, Marx se considera um gigante de ferro que resiste ao relâmpago de Deus ao ponto de fazer o juízo de Deus ricochetear de diante de si; isso é um escárnio que demonstra a mais vil e fétida obstinação contra Deus.

Por isso, Marx assevera: “Se ele derrubar meus muros e torres”, isto é, se o juízo de Deus derrubar suas edificações, seus muros e torres; Marx considera a possibilidade do juízo de Deus falhar; e isto também é escárnio e zombaria contra Deus; para Marx, se o relâmpago de Deus, ao ricochetear contra o gigante de ferro maciço, destruir suas obras, as mesmas se reerguerão, tal como o próprio Marx afirma: “A eternidade os levantará, desafiador”, isto é, se os labores de Marx, comparados com muros e torres, forem derrubados, a própria eternidade os levantará em tom desafiador ao próprio Deus.

Na verdade, Marx evoca um desafio a Deus; em suma, o marxismo é permeado pela ideia de desafiar a Deus, enquanto que na Escritura se tem o mandamento de não tentar, de não desafiar a Deus (cf. Mt 4.7); logo, o marxismo busca ser algo desafiador a Deus; embora, seja óbvio que isso é impossível, já que Deus é Todo-Poderoso e nada escapa ao Seu senhorio, a busca do marxismo mais tem a ver com a destruição da criação do que propriamente com a destruição do Criador, que por si é algo impossível; embora não possam nada contra o Criador, os marxistas conseguem laborar para destruir a criação, para destruir a ordem da realidade e para destruir os fundamentos da ordem social.

Assim, a obstinação contra Deus é algo inerente ao marxismo; não somente na doutrina marxiana em si mesma, mas em todo o desenvolvimento do pensamento marxista; por isso, todas as saídas teoréticas do marxismo são manifestação, em maior ou menor grau, de obstinação contra Deus; na verdade, os marxistas e aqueles que são dominados pelo marxismo, conscientes disso ou não, manifestam em seus pensamentos e ações a obstinação contra Deus.

 

§ 6

 

O marxismo como fruto da invocação de um desesperado. Este poema de Marx desvela muita coisa do próprio Marx, e sobre no que consiste a religiosidade marxista; pois, embora o marxismo seja materialista, e os marxistas de fato sejam ateus, existe no marxismo algo como que uma “religiosidade”; não uma religiosidade confessional teística, mas uma religiosidade em torno do próprio pensamento marxista; o marxismo, tal como os marxistas o expressam e o vivenciam, é uma forma de religiosidade totalmente em obstinação contra Deus.

Com isso, se constata que a invocação de um desesperado é, na verdade, a apresentação de no que consiste a religiosidade do marxismo; e a partir das perspectivas evocadas neste poema, se pode constatar onde há influência do marxismo, já que a invocação de um desesperado apresenta características não só de Marx, mas também de todos os marxistas.

Portanto, a partir das perspectivas deste poema, que evidenciam no que consiste a religiosidade do marxismo e dos marxistas, se tem vários aspectos que são de suma importância se entender, para que, ao se analisar as práticas de determinada sociedade, se observar se esta sociedade é dominada ou não pelo marxismo; se tais práticas forem expressão das perspectivas deste poema, então o marxismo dominou totalmente determinada sociedade, já que a religiosidade marxista só é manifesta a partir de quando o marxismo dominou totalmente a cultura.

Assim, se uma ou mais das características descritas neste poema forem observadas, então o que há é evidência do domínio do marxismo sob os indivíduos, ou sobre toda uma sociedade; assim sendo, se alguém manifesta algumas destas características é marxista, aceitando isso ou não, tendo consciência disso ou não; além do que, estas características também são úteis para se entender a influência do marxismo em muitos que se dizem “cristãos”; basta observá-las e constatá-las com cuidado e sinceridade, que se entenderá que onde há “religiosidade” marxista, que é religiosidade em revolta contra Deus mesmo se estiver com invólucros “cristãos”, se tem na verdade uma das mais abruptas formas de anti-cristianismo.

 

***

 

Epílogo. Ora, o que fora dito basta quanto a explicação deste enigmático e assustador poema de Marx; este poema é assaz necessário para se entender o mote da práxis marxista, pois o marxismo, apesar de anti-religioso, tem uma religiosidade intrínseca, já que os preceitos marxianos são seguidos de maneira dogmática, sem filtragem crítica, por aqueles que se deixam dominar, conscientes ou não, pelo marxismo.

Portanto, compreender este poema é compreender no que consiste, e quais são as implicações, da religiosidade marxista, que é sumariada justamente a partir do título deste poema, como a invocação de um desesperado. O marxismo é a invocação de um desesperado e os marxistas são invocadores desesperados; e esta definição abarca plenamente o marxismo a partir da perspectiva religiosa.

E termina aqui esta explicação. θεῷ χάρις!



[1] In: Karl Marx e Friedrich Engels, Marx-Engels Collected Works Vol. 1: Karl Marx 1835-1843 [Lawrence & Wishart, 1975], pág. 563-564.

[2] A descrição da mais negra agonia difere da pura e simples agonia, causada por algum sofrimento abrupto; a agonia normal é algo que pode se acometer a natureza humana de forma natural devido a algum sofrimento muito angustiante, tal como ocorrera com o Senhor Jesus no jardim do Getsêmani ao suar gotas de sangue (cf. Lc 22.44); no entanto, a mais negra agonia é obra do demônio, para gerar e cristalizar na alma as consequências do medo. 


26/12/2025

Explicação do “Epigrama sobre Hegel” de Karl Marx

Proêmio

 

O “Epigrama II” ou “Epigrama sobre Hegel” (1837)[1] é um texto fundamental da filosofia marxiana, e é um dos textos mais impressionantes sobre a interpretação de Hegel; certamente, neste poema, Marx evidencia que compreendeu Hegel melhor do que muitos de seus intérpretes mais eruditos; aliás, neste poema se tem mais princípios para compreender Hegel do que muitas análises que comportam centenas páginas.

Assim, compreender este poema é uma chave hermenêutica fundamental para se entender o marxismo; pois, o marxismo é fruto do sistema da ciência de Hegel; além do que, compreender este poema é compreender o efeito da efetivação do sistema da ciência; na verdade, compreender a análise marxiana sobre a filosofia de Hegel, ainda que feita em poucos versos, é compreender o modo mais adequado para se entender Hegel; pois, certamente numa coisa o pensamento marxista é útil, a saber: para compreender adequadamente a filosofia de Hegel; os marxistas são mestres por excelência na filosofia de Hegel.

Deste modo, este poema tem muito a ensinar, não somente sobre Hegel, mas sobre o próprio Marx; pois, ao descortinar no que consiste a filosofia de Hegel e o laborar de Hegel, Marx também demonstra no que consistirá sua filosofia e o seu laborar do ponto de vista intelectual.

 

§ 1

 

Hegel como “deus”. Nos cerca de vinte versos de Marx sobre Hegel, se compreende algo fundamental, que muitos, mesmo após análises aprofundadas da Fenomenologia do Espírito não compreendem, a saber, que Hegel se coloca como “deus”. As sentenças de Marx não somente interrogam de maneira exclamativa aspectos da filosofia de Hegel, mas principalmente Marx se coloca como Hegel para poder interpretá-lo; e, sob esta perspectiva, dir-se-ia que a análise de Marx sobre Hegel é quase que fenomenológica (no sentido husserliano).

Por isso, o primeiro verso, neste sentido, é assaz elucidador: “Desde que eu encontrei o mais alto das coisas e as profundezas delas também”, isto é, Hegel é aquele que encontrou, que conhece, o mais alto das coisas e as profundezas delas também; ou dito em outros termos, é aquele que tem o conhecimento do bem (o mais alto das coisas) e do mal (as profundezas delas também). Ora, só quem tem o conhecimento do bem e do mal é Deus; então, obviamente quem arrola para si isso quer se tornar como “deus”.

E isso também se comprova pelo próximo verso: “Rude sou eu como um Deus, envolto pela escuridão como um Deus”; o próprio Marx constata que o propósito de Hegel é ser como “deus”; mas, não como o Deus verdadeiro que por si é impossível; mas como um “deus” é que rude e envolto em escuridão; o Deus que Hegel quer se tornar, embora seja a tentativa de usurpar o verdadeiro Deus, na verdade é o que na Escritura se chama de “deus deste século (cf. 2Co 4.4); o “deus” que Hegel se torna é o “deus” rude e envolto em escuridão, a saber, Satanás.

E isto está em perfeita conformidade com o real propósito de Hegel em seu sistema da ciência; pois, a própria busca de Hegel é uma busca que envolve toda sua vida; por isso, Marx acertadamente afirma: “Por muito tempo procurei e naveguei no oceano profundo e ondulante do Pensamento”, isto é, Hegel adentrou as profundezas do pensamento, ou como ele mesmo diz as profundezas da Coisa, e assim ele navegou, ou seja, palmilhou por muito tempo o oceano profundo e ondulante do Pensamento para compreender a Coisa, pois só se chega as profundezas da Coisa pelo rigor do conceito[2], isto é, através do conceito de Ideia.

E ao chegar ao oceano profundo do Pensamento, Hegel descobre algo: “Lá eu encontrei a Palavra: agora eu me agarro a ela rapidamente”, isto é, na profundidade da Coisa, ele encontra a Palavra; mas, será que esta Palavra é Cristo ou a Escritura? Não, esta Palavra que Hegel encontra não é Cristo e não é a Sagrada Escritura; então, que significa esta Palavra? É a Ideia; Hegel encontrou a Ideia, e a ela se agarra rapidamente, ele a toma para si, e a estabelece em si rapidamente; ou seja, Hegel se torna a própria Ideia, pois para Hegel ele se torna a Palavra.

Por esta razão, Hegel afirmara que a Ideia é o poder absoluto que se dá a luz[3]; por isso, quem domina a Ideia domina todas as coisas; assim, é mais do que óbvio que o propósito de Hegel (e Marx o segue cabalmente nisso) é se tornar “deus”, o “deus” que concebe a Ideia. A filosofia de Hegel é uma filosofia de auto-deificação do próprio Hegel, o que se sumaria na seguinte proposição: com Hegel, em Hegel e para Hegel; e quem é subjugado por esta filosofia, procura fazer o mesmo que Hegel, só que sob o domínio de Hegel, como o próprio Marx constata no penúltimo verso.

 

§ 2

 

A consequência da filosofia de Hegel, confusão diabólica. A proposição de que ideias tem consequências é totalmente evidente em Hegel; pois, ao Hegel procurar ser como “deus”, ele na verdade instaura uma filosofia sistêmica com terríveis consequências; por isso, Marx sentencia as consequências da filosofia de Hegel (e de sua filosofia): “Palavras que eu ensino todas misturadas em uma confusão diabólica”, isto é, as palavras, os ensinamentos de Hegel, toda sua filosofia, ao serem misturadas, geram uma confusão diabólica, a qual destrói a inteligência e obnubila a consciência.

Ora, esta confusão por sua vez, não somente é para destruir a inteligência e obnubilar a consciência de uma vez, mas sim para gerar de início outra consequência, a saber: “Assim, qualquer um pode pensar exatamente o que quiser”, isto é, gerar ceticismo quanto ao conhecimento, já que se todo mundo pode pensar exatamente o que quiser não se tem mais certezas quanto ao conhecimento; em suma, fora isso que Kant propugnara; mas, Hegel vai além, ele estabelece que cada um pode pensar exatamente o que quiser, não em função do ato de livre pensar, algo inerente ao ser humano, mas sim que cada um institua a própria realidade ao pensar; em Hegel, o ato de pensar é o mesmo que criar a realidade (no marxismo também se tem a mesma proposição, embora seja algo mais específico quanto a esfera sócio-política).

E isso gera uma confusão total, já que assim não se tem certeza e nem verdade. No entanto, ainda que Hegel consiga efetuar isso cabalmente, ele defronta-se com alguns problemas, como Marx afirma: “Nunca, pelo menos, ele é cercado por limitações estritas”, isto é, ele nunca defronta-se com limitações estritas, apenas com limitações não-estritas (flexíveis), pois ainda que ele possa instituir que o ato de pensar é o mesmo que criar a realidade, e ordenar isso a partir das categorias do sistema da ciência, ele não pode medir e nem regular as consequências disso; por isso, Hegel não é cercado por limitações estritas, mas sim por limitações flexíveis, as quais, ele pode adequar ao seu próprio sistema.

Ora, estas limitações são descritas com duas metáforas, a saber: “Borbulhando para fora da inundação, caindo do penhasco”, isto é, é como algo que borbulha para fora de uma inundação, e como o cair do penhasco; no entanto, estas duas metáforas não dizem respeito àqueles que são dominados por Hegel, mas sim sobre aqueles que buscam sair deste domínio; estes, por sua vez, serão como algo borbulhando fora da inundação, isto é, não conseguirão nadar contra a correnteza da inundação, ou então serão como aquele que cai do penhasco; e se sabe quais são os efeitos de se nadar contra a correnteza em uma inundação e de cair do penhasco.

Por isso, Marx continua a descrever no que consiste as palavras de Hegel: “Assim são as palavras e pensamentos de seu Amado que o Poeta inventa”, isto é, Hegel faz filosofia em função de um ser amado; e Hegel inventa palavras e pensamentos sobre este ser amado; no caso, o Amado seria para se referir a Deus; mas, como Hegel não busca ao Deus Verdadeiro, mas sim a Satanás, então o ser amado de Hegel é o próprio Demônio.

Por esta razão, se diz de Hegel que, “Ele entende o que pensa, inventa livremente o que sente”, isto é, Hegel entende o que pensa, e inventa livremente o que sente; ora, se Hegel inventa o que sente, ele não consegue entender o que pensa; se ele inventa o sentir, então ele também inventa o pensar; e de fato Hegel faz isso: ele inventa uma nova forma de pensar, com uma nova doutrina sobre as operações do intelecto, e com isso, institui o que as pessoas devem sentir.

Pois, ao fazer isso, chega-se ao estado de total sujeição ao seu sistema através da confusão diabólica causada, tal como Marx assevera: “Assim, cada um pode sugar por si mesmo o néctar nutritivo da sabedoria”, isto é, cada um inventa para si o que é a sabedoria, e toma esta sabedoria disposta por Hegel, que na verdade é confusão diabólica, como o néctar para si; ora, se alguém se alimenta de confusão diabólica, então será dominado por confusão diabólica - pois, do que a alma é alimentada delineia no que a alma se torna. E isto, por sua vez, instaura um subjetivismo terrível e enlouquecedor, já que se cada um pensa o que quer no sentido anteriormente descrito, então cada um se torna um “deus”. A cultura hegeliana é a cultura em que cada ser humano se torna um “deus”, ou no dizer de Nietzsche, no super-homem.

Assim, Hegel se torna o iniciador dos homens no conhecimento do bem e do mal; e isso o coloca como adjutor de Satanás; com isso, Marx constata o que Hegel causa e como Hegel se coloca ao causar isso: “Agora você sabe tudo, já que eu não disse nada para você!”, isto é, Hegel que conduz os homens por este caminho sem volta, ao instaurar o que quer, e ao seduzir os homens, não assume nada do que faz e se retira de cena; é como o processo bíblico da tentação do demônio: o demônio tenta, arma o laço, mas depois que alguém cai, ele sai de cena e trata de acusar aquele a quem engodou para cair no laço.

Hegel conduz os homens para a perdição, mas em hipótese nenhuma assume isso em seu sistema da ciência; e os frutos do sistema hegeliano procederão do mesmo modo. E, no sentido moral, isso é canalhice da pior espécie, da mais hedionda e abjeta forma de destruir uma pessoa. E esta é nuance por excelência da filosofia de Hegel.

 

§ 3

 

A falsa busca por descrever a realidade. Depois, de evocar uma espécie de “reviravolta”, não em si mesma, mas para demonstrar a confusão que é inerente a filosofia de Hegel, Marx prossegue para a terceira estrofe, onde explica em quatro versos a posição histórica da filosofia de Hegel entre Kant e Fichte. Pois, Hegel é homem de seu tempo, e sua filosofia também reflete isso; na verdade, ao explicar a posição histórica da filosofia de Hegel, ainda que veladamente, Marx descortina no que realmente consiste o sistema hegeliano em comparação com Kant e Fichte (também poderia ter comparado Hegel com Schelling ou com Schleiermacher).

Marx afirma: “Kant e Fichte sobem para o céu azul”, isto é, as filosofias de Kant e Fichte segundo a concepção de Hegel (e de Marx) são utopias, pois sobem ao céu azul sem trazer nada de útil para a vida cotidiana; pois, Kant e Fichte, estão “Procurando por alguma terra distante”, isto é, estão procurando algo no além, algo que não podem encontrar; em suma, esta é a concepção de Hegel sobre Kant e Fichte (e sobre Schelling também); Hegel os concebe como filósofos que não entendem a realidade; e nisso Hegel está em parte certo, pois com a exceção de Schelling, Kant e Fichte não concebem e nem entendem adequadamente a realidade.

E, embora Hegel os critique assim, principalmente na Fenomenologia do Espírito, o próprio Hegel também não compreende a realidade; tanto o é, que procura criar outra realidade, a saber, a Segunda Realidade, a realidade fora da realidade, a realidade paralela, a Matrix; no entanto, Marx assevera a concepção de Hegel diante de outras filosofias de sua época: “Eu apenas procuro compreender profundo e verdadeiro”, isto é, Hegel se concebe como aquele que procura compreender o profundo e verdadeiro, ou seja, a própria realidade, ou: “Aquilo que – na rua eu encontro”, isto é, aquilo que ele mesmo vê e entende no cotidiano. Para Hegel, apenas sua filosofia é a forma de compreender a realidade, os outros filósofos são “utópicos”.

Ora, embora Hegel arrole isso para si em contraste a Kant e a Fichte, tanto Kant quanto Fichte ainda continuam sob a realidade, ainda que não a compreendam e ainda que tenham ceticismo quanto a possibilidade de compreender a realidade; e, Hegel, nem sequer isso faz, ele busca transmogrifar a realidade, busca criar outra realidade, aprisionando as consciências dos homens a seu sistema da ciência.

Portanto, Hegel arrola uma falsa busca da realidade para descrever a realidade; e todo filósofo que não se baseia na realidade para fazer suas reflexões filosóficas, sempre é movido por algum propósito nefasto; e a filosofia de um filósofo que não se baseia na realidade sempre é expressão do divertimento de um homem em estado de tédio, de um niilista no sentido pleno do termo. A filosofia de Hegel, na verdade, é o desnudar niilista do próprio Hegel.

 

§ 4

 

A sujeição de todos a Hegel. E tendo feito estas considerações, Marx prossegue a quarta e última estrofe, fornecendo alguns princípios de sua análise cirúrgica da filosofia de Hegel em poucos versos; Marx, termina seu epigrama retomando a si a palavra, e não com o “eu-poético” de Hegel como faz em quase todos os versos anteriores; Marx afirma: “Perdoe-nos epigramatistas”, isto é, busca a benevolência dos epigramatistas dado as nuances dialéticas que foram manifestas neste epigrama sobre Hegel; aliás, Marx descortina a razão de buscar esta benevolência ao asseverar: “Para cantar músicas com reviravoltas desagradáveis”, isto é, ao poetizar sobre a filosofia de Hegel não pode deixar de manifestar as reviravoltas inerentes ao sistema hegeliano, ou mais propriamente não pode deixar de se expressar de acordo com a parafernalia dialética do sistema hegeliano.  

E, assim, Marx termina constatando um fato indubitável da vida na contemporaneidade, a saber: “Em Hegel estamos todos tão completamente submersos”, isto é, todos estão sujeitos a filosofia de Hegel, todos estão submersos no oceano do sistema hegeliano, todos estão na beira do penhasco do sistema da ciência; isto, por si, constitui-se na mais precisa sentença já escrita sobre a filosofia de Hegel; na verdade, Marx descortina o propósito da filosofia hegeliana, a saber: subjugar todos ao sistema da ciência; e, de fato, Hegel, de maneira cabal, conseguira efetuar tal domínio.

No entanto, Marx termina com uma sentença pragmática no último verso, ao afirmar: “Mas com sua Estética ainda temos que ser purgados”, isto é, Marx afirma que em conjunto com a estética de Hegel os homens vão enfrentar o purgatório, mas purgatório no sentido existencial-social; ou seja, os homens vão ser purgados em conjunto e em consonância com a estética de Hegel; o “purgatório” da vida sócio-cultural será feito com a estética de Hegel e pela estética de Hegel.

E aqui está uma das chaves hermenêuticas fundamentais para se antevê o que surgirá no âmbito da vida sócio-cultural até que este purgar seja completo, isto é, até que não exista mais expressão de beleza real na vida social; ou dito em outros termos, até subjugue todas as expressões reais, e transmogrife o ímpeto pela realidade, em ímpeto “artificial” movido pelo sistema da ciência.

A estética de Hegel é para purgar os transcendentais da vida humana, ou seja, para retirá-los totalmente da vida humana ou transmogrifá-los a partir das categorias do sistema da ciência.

 

***

 

Ora, o que fora dito basta quanto a uma explicação deste epigrama de Marx sobre Hegel; no entanto, que se saiba que neste epigrama são apresentadas, de maneira velada, várias referências cruzadas a filosofia de Hegel, que a explicam de maneira simples e sintética; e que se saiba uma coisa, tudo o que Marx afirma neste epigrama sobre a filosofia de Hegel é corretíssimo e assaz útil; quem quiser entender Hegel adequadamente, há de se debruçar sobre a interpretação aprofundada deste epigrama, e certamente colherá excelentes princípios para compreender o pensamento hegeliano. 

E termina aqui esta explicação. θεῷ χάρις



[1] In: Karl Marx e Friedrich Engels, Marx-Engels Collected Works Vol. 1: Karl Marx 1835-1843 [Lawrence & Wishart, 1975], pág. 576-577.

[2] cf. G. W. F. Hegel, Fenomenologia do Espírito [2ª ed. Petropólis, RJ: Vozes, 2003], pref., § 4, pág. 27.

[3] In: Johannes Hoffmeister, Dokument zu Hegels Entwicklung [Sttutgart: Frommann, 1936], pág. 348. 


24/12/2025

Explicação de “O Violinista” de Karl Marx

Proêmio

 

A poesia “O Violinista” (1837) é um dos textos mais impressionantes de Karl Marx[1] (mesmo que seja uma de suas obras de juventude); pois, Marx descreve a si mesmo, quem é e o que procurará fazer, através da alegoria com um violinista; Marx compara sua vida, suas capacidades, seus labores, ao laborar de um violinista; não porque não pudesse falar de si mesmo de maneira aberta e desvelada, mas porque através dos símbolos concernentes a atividade do violinista, ele poderia descrever melhor o ímpeto que o moveria em tudo o que procuraria fazer e as consequências de seus labores. E a procura por tais símbolos é evidência cabal de sujeição a Hegel.

Assim, o “violinista” neste poema é um signo que se refere, em primeiro lugar, ao próprio Marx, mas que, em segundo lugar e de maneira derivada, também diz respeito a todos os marxistas. O violinista mor, Marx, e os violinistas acompanhantes, os marxistas; a orquestra do marxismo só comporta violinos, não só pela falta de pluralidade na verdade do pensamento marxista, mas principalmente por causa do propósito que os move de maneira indivisa e inconcussa, tal como é assustadoramente desvelado nesta poesia.

Expliquemos, pois, alguns aspectos desse poema, o qual é a base para a exegese do pensamento marxiano, do qual se origina o pensamento marxista. Então, a compreensão desse poema (e de outros poemas de Marx) é o fundamento para quem busca entender e compreender o marxismo como um todo; pois, quem quer compreender filosoficamente e espiritualmente o propósito de Marx e do marxismo, deve iniciar pela análise e estudo das obras poéticas de Marx.

 

§ 1

 

O símbolo do violinista. A busca por símbolos, seja através de metáforas seja através de alegorias, demonstra ou a necessidade de encontrar meios de expressar sentimentos difíceis de serem descritos em prosa narrativa, ou então demonstra a tentativa de desvelar algo que está oculto, que se for expresso de maneira direta, descortinará o propósito real de quem escreve; por isso, alguns autores, movidos por propósitos hediondos, escondem seus verdadeiros propósitos através de metáforas e figuras em obras poéticas.

No caso de Marx, ele descortina quem é e o que faz através da figura do violinista. O violinista é aquele que serra as cordas, isto é, quem exerce uma arte com maestria: do mesmo modo é com Marx, é alguém que quer exercer sua arte com maestria (a arte de Marx é a eficácia em estabelecer seus propósitos, os propósitos do marxismo); pois, o violinista ao exercer sua arte com maestria, torna a mesma um hábito pelo qual ele é reconhecido; do mesmo modo é com aqueles que sabem exercer a arte a qual se dedicam de maneira maestrina.

Assim, se Marx conseguir exercer sua arte com maestria, ele conseguirá colocar todos aqueles a que influencia, de maneira direta ou indireta, conscientemente ou não, sujeitos aos propósitos do marxismo; ao serrar as cordas do marxismo, aqueles que são dominados pelos sons do violino da doutrina marxista, são por este sujeitados ao propósito marxista.

Por isso, o símbolo do violinista é para descrever alguém que exerce uma arte com maestria, bem como para descrever aas consequências que este exercer uma arte com maestria traz àquele que assim faz.

Mas, por que Marx se utiliza da alegoria do violinista? Simples, assim como muitos de sua época, alegorias com instrumentos musicais servia para demonstrar o que concerne a execução da arte praticada e seus efeitos naqueles a quem é direcionada.

Marx não é o único que se utiliza desta alegoria, vários no séc. XIX também o fizeram, mas Marx é o único que o faz com outros propósitos do que aqueles que também se utilizaram da mesma alegoria; outros autores utilizam desta alegoria apenas com propósitos poéticos, Marx além dos propósitos poéticos também a utiliza com propósitos descritivos tanto de si mesmo quanto de seus labores.

Pois, através da alegoria do violinista, Marx descreve a si mesmo e explica as consequências de seus labores.

 

§ 2

 

O frenesi na música, expressão de alma em desordem. A primeira descrição é sobre o frenesi da música; a indagação de Marx, “por que esse som frenético?”, não é tanto em relação a um som dissonante; mas, é a indagação sobre a raiz do frenesi; pois, se Marx se descreve como um violinista (e de fato, ele entendia realmente de música), ele não indaga sobre a razão harmônica do som frenético, mas sim sobre sua causa; por isso, Marx indaga: “por que você olha tão descontroladamente em volta?”, isto é, indaga a causa do descontrole e da inquietação; depois, indaga ainda: “por que salta seu sangue, como o mar agitado?”, isto é, indaga a causa da ansiedade psíquica (música frenética causa ansiedade na alma); e, por fim, indaga: “o que impulsiona seu arco tão desesperadamente?”, isto é, indaga a causa do desespero.

Ou seja, através da música frenética, o próprio Marx constatou os efeitos deste tipo de música no indivíduo, a saber: descontrole, inquietação, ansiedade, desespero. Por isso, o frenesi na música e o frenesi ocasionado pela música é expressão de alma em desordem; assim, através da música frenética se consegue colocar as massas populares em desordem, isto é, em inquietação, ansiedade, desespero e similares.

Portanto, Marx constata uma coisa através da alegoria do violinista, dos efeitos da música frenética, isto é, da música ideologizada, da música utilizada com propósitos ideológicos; com isso, ele se compara ao violinista não somente para constatar isso, como de fato em poucos versos constatou de maneira magistral e de modo muito mais apurado do que os mais eruditos críticos musicais, mas principalmente para poder efetuar o mesmo através da impregnação ideológica nas mais variadas artes, isto é, em todas as manifestações culturais (em suma, o marxismo cultural é isso).

E, com isso, se descortina outro propósito de Marx, a saber, o de propagar cabalmente o que parece que ele na verdade critica; isso é fruto do sistema hegeliano, apresentar algo com aparência de “crítica”, mas na verdade propagar justamente este algo sob as máscaras da “crítica”; é isso que Marx descortina sobre si nesta poesia, ao ponderar sobre o frenesi na música; pois, parece que Marx critica ferrenhamente este frenesi, quando na verdade o próprio Marx desvela que é isso o que ele pretende fazer, não somente na música e nas artes, mas em toda a sociedade.

Por isso, os efeitos do marxismo na vida sócio-cultural são da mesma espécie que os efeitos do frenesi na música.

 

§ 3

 

A alma em desordem é ordenada ao inferno. A alma em desordem, pelo frenesi da música, tem um destino; pois, o frenesi, ao ocasionar desordem, traz consigo as consequências desta desordem; por esta razão, Marx indaga a razão dele tocar violino: “por que eu toco violino?”, isto é, indaga a razão do porque utiliza deste ofício, ou seja, a razão de seu laborar; e, na verdade, Marx não toca apenas o violino, ele produz ondas selvagem; por isso, indaga: “ou as ondas selvagens rugem?”, isto é, Marx compara o seu ofício como violinista, uma alegoria, como o rugir de ondas selvagens; ou seja, as consequências do frenesi musical produzido pelo Marx violinista é o rugir das “ondas selvagens”. O frenesi do pensamento marxista é uma tsunâmi contra os fundamentos da ordem social.

Ora, e por que Marx faz isso? Simples, ele mesmo responde: “para que eles possam bater na costa rochosa”, ou seja, Marx toca o violino para levar as embarcações – no caso aqui, alegoria para representa os seres humanos - a bater nas costas rochosas, a naufragar na vida; o frenesi propagado por Marx tem dois modos de levar as pessoas a naufragar na vida, como o próprio Marx assevera: “que o olho fique cego, que o peito inche”, isto é, que cegue a visão, ou seja, que cegue a capacidade de discernir racionalmente, e que seja inchado pela soberba; o propósito de Marx ao executar sua arte é fazer com que as pessoas naufraguem na vida através da cegueira da razão e da soberba no coração. E estes são os efeitos do pensamento marxista: cegueira da razão e soberba no coração.

Por isso, ao frenesi da música causar desordem na alma, ele causa desordem em todo o ser; e alma em desordem é alma gritante, é alma que ao ser dominada pela desordem, tem por consequência ser dominada pelo reino da desordem (aliás, pode-se explicar este grito aqui através de uma comparação com a explicação da obra “O Grito” de Edvard Munch); assim, alma em desordem é alma ordenada ao inferno, tal como Marx afirma: “o grito dessa alma desce para o inferno”; ora, a alma que desce ao inferno é a alma que entrou em desordem pelo frenesi propagado, seja por qual meio for (na alegoria de Marx neste poema, através da música).

E a guisa de complemento a explicação da sentença desta estrofe, se entende que tudo no pensamento marxiano tem dois sentidos: um literal e outro alegórico (um sentido além da letra); e isso, que não é mera coincidência, se assemelha muito com a exegese das coisas sagradas; por isso, o pensamento marxista busca substituir a religião e os dogmas religiosos; na verdade, o pensamento marxista busca substituir a Sagrada Escritura pelos textos de Marx; os sentidos do pensamento marxista buscam transmogrifar os sentidos da exegese religiosa; e embora não façam isso de jure, de facto conseguem açambarcar muitos nesta invectiva, até aqueles que se dizem “cristãos”.

Além do que, é por esta razão que é de ínvia dificuldade compreender o marxismo, já que não se entende o que está por detrás do texto escrito, isto é, não se entende as entrelinhas (os alegorismos marxianos); e nisso Marx segue a risca o que Hegel fizera, a saber, esconder seu real propósito através de figuras, alegorias, símbolos, signos, etc.

Outrossim, é que Marx compreende o que concerne ao destino eterno das almas; no entanto, o que ele propugna em seu laborar é para colocar uma desordem tal nas almas dos indivíduos que os leve para o inferno. Isso é o próprio Marx quem afirma de maneira direta e sem dubiedades. Portanto, o pensamento marxista tem por propósito encaminhar as almas para o inferno.

 

§ 4

 

O desprezo aos dons divinos. Após ter designado seu propósito, Marx passa a indagar a si mesmo como violinista; na verdade, não uma indagação do eu para com o próprio eu, mas utiliza-se da função do narrador, para indagar ao próprio violinista (no caso o próprio Marx indagando a si mesmo); por isso, Marx afirma: “violinista, com desprezo você rasga seu coração”, isto é, o violinista desvela a si mesmo, rasga o próprio coração, mas o faz com desprezo; não desprezo por si, mas desprezo por Deus. Marx despreza a Deus. Este é o sentido deste verso.

Ora, desprezar a si mesmo no “rasgar” do coração é o que Nietzsche chamara de niilismo, ou o que Dostoiévski chama de doença em “O Homem do Subsolo”; e essa doença é algo grave, pois, se “um Deus radiante emprestou-te a tua arte”, ou seja, se suas capacidades provém da bondade divina, então rejeitá-las é o mesmo que rejeitar a si mesmo; e Deus outorga tais capacidades para conduzir à beleza: “para deslumbrar com ondas de melodia”, isto é, para comover e deleitar, e também “para voar para a dança das estrelas no céu”, isto é, para encantar. Por isso, rejeitar estas capacidades é o mesmo que rejeitar a comoção, a deleição e a admiração.

Na verdade, nestes versos Marx descortina o propósito dos dons e capacidades de cada um, e num sentido geral, acerta; pois, Deus outorga os dons para as artes, a fim de que os homens conheçam a verdade, e conduzam os homens a comoção, a deleição e ao encantamento.

No entanto, Marx o faz não somente para designar no que consiste isso; se assim fosse, seria uma definição assaz útil; Marx delineia esta concepção para demonstrar não o que ele de fato busca fazer, mas para mostrar que vai fazer completamente o contrário.

Nesta concepção, Marx propugna outra forma da encarnação do “espírito dialético”, isto é, aquele estado de alma que ao compreender algo da verdade, por ter compreendido este algo, passa a se portar contra este algo. E o “espírito dialético” é a pior forma de descaro já instituída entre os seres humanos.

Assim sendo, se compreende que Marx indaga a si mesmo enquanto violinista, não para mostrar que a arte que executa provém das capacidades que Deus lhe outorgou, mas sim para mostrar que a maestria que ele possui não provém do “Deus radiante”, mas de outro alguém.

Por isso, Marx descortinará o que está por detrás dele enquanto violinista, ou sem a alegoria, o que o conduz no que ele faz e labora. Assim, Marx não somente demonstra seu total desprezo para com os dons divinos, mas também seu total desprezo aos transcendentais; por isso, o pensamento marxista é um pensamento anti-transcendental.

 

§ 5

 

O que está por detrás do violinista, o Demônio. Ao indagar a si mesmo, Marx então passa a resposta pessoal a esta indagação com uma sentença exclamativa: “como assim!”, isto é, como se pode perguntar algo deste tipo, como se pode fazer tal indagação, pois o que ele faz está mais do que evidente do porque faz e para quem faz; Marx diz: “Eu mergulho, mergulho sem falhar”, isto é, ele exerce sua arte sem falha, pelo menos no que ele se propõe a fazer; no entanto, ele não diz que toca as cordas do violino, mas que mergulha; ou seja, no exercício de sua arte, o violinista Marx não o faz a fim de tirar os sons belos do violino, mas de mergulhar algo.

Mas o que é este algo? O próprio Marx afirma: “Meu sabre de sangue negro em sua alma”; Marx não toca as cordas do violino apenas, isto é, ele não apenas executa sua arte, mas mergulha o sabre negro dele (sabre negro é específico para ser usado em rituais de bruxaria, ainda mais sendo sabre de sangue), na alma de outrem, ou seja, este é o real propósito de Marx; ou dito de outro modo, Marx executa sua arte para colocar um sabre de sangue negro na alma dos indivíduos.

Por isso, ele mesmo constata: “Essa arte Deus não quer nem deseja”, ou seja, este tipo de arte Deus abomina (a arte imbuída de feitiçaria); pois, não é uma arte que cumpre seu propósito natural, mas a arte que Marx executa é a arte em função da bruxaria, com o sabre de sangue negro em suas mãos para adentrar as almas das pessoas.

Portanto, aquele que assim o faz não vai deslumbrar ou encantar; mas, antes, como o próprio Marx assevera: “Salta para o cérebro das névoas negras do Inferno”, isto é, aquele que exerce sua arte com o sabre de sangue negro para mergulhá-lo na alma de outrem, salta para a as névoas negras do inferno; ou seja, o destino da arte que não cumpre seu propósito é o inferno.

A arte que é anti-arte é permeada pelas névoas negras do inferno, pois estas névoas já dominaram o cérebro, a mente daquele que executa a arte deste modo. E é esta espécie de arte que Marx propaga; então, o pensamento marxista tem a mente permeada pelas névoas negras do inferno.

 

§ 6

 

O acordo do violinista com Satanás. E Marx assim o faz não somente tal como o mergulhar, isto é, como algo rápido e feroz, mas “até que o coração esteja enfeitiçado”, ou seja, até que o coração seja dominado pela bruxaria do sabre de sangue negro; e mais: “até os sentidos cambalearem”, isto é, até os sentido serem corrompidos de seu propósito natural; ora, em suma este é o linguajar da magia, da feitiçaria; por isso, quando Marx diz que ele usa o sabre de sangue negro para mergulhar nas almas, ele dá a entender que o propósito real é outro, e assim a alegoria com o violino desvela-se em seu real significado, a saber: evidenciar a feitiçaria que Marx propaga.

Por isso, o próprio Marx afirma: “Com Satanás eu fiz meu acordo”, isto é, Marx descreve em rodeios e sem metáforas, em meio a uma alegoria, que ele faz um acordo com Satanás; por isso, ao invés de usar o arco de violinista, ele usa o sabre negro dos rituais de bruxaria. O Marx violinista não é aquele que toca o violino, mas aquele que usa o sabre de sangue negro para os propósitos da bruxaria. E nisto o pensamento marxista se engendra: propaga bruxaria e impregna bruxaria não só nas artes, mas em todo o ímpeto das manifestações culturais.

Portanto, ao fazer seu acordo com Satanás, ao fazer seu pacto com Satanás, Marx desvela que é Satanás quem o conduz em sua arte, ao afirmar: “Ele risca os sinais, marca o tempo para mim”, isto é, Marx afirma que é Satanás quem o conduz em sua arte, ou seja, é Satanás quem o conduz no que ele faz e labora.

Assim, a arte que Marx propaga, e as artes que são influenciadas pelo marxismo, produzem um efeito terrível, tal como o próprio Marx afirma: “Eu toco a marcha da morte rápido e grátis”, isto é, ao ter Satanás como seu condutor, Marx afirma que o exercício de sua arte é a marcha da morte, ou seja, é o que conduz a morte, e isto de maneira “rápida e grátis”; por isso, o pensamento marxista é uma orquestra em função da marcha da morte, isto é, em função da propagação da morte e do inferno.

E Marx o faz totalmente consciente disso; por isso, o próprio Marx evoca a contradição hegeliana: “Devo jogar escuro, devo jogar luz”, isto é, ao mesmo tempo em que desvela o que concerne ao exercício da arte, também desvela que seu propósito está além disso, a saber, ao mostrar no que concerne a arte na verdade vela o que faz através da arte. E, ao ter feito diametralmente o oposto nos versos anteriormente, ao evocar esta contradição hegeliana, demonstra sua total sujeição a Hegel.

Além do que, Marx faz isso até que todo o seu ser seja dominado completamente: “Até que as cordas do arco partam meu coração completamente”, isto é, até que ele não tenha mais sentimentos, até que ele morra; Marx propugna ser um serviçal de Satanás enquanto viver, até a hora de sua morte, ou seja, até que seu coração seja partido pelo próprio sabre que ele se utiliza como arco.

Outrossim, é que esta última sentença evoca uma síntese com o sistema hegeliano; assim como em Hegel, a meta (Ziel), só é alcançada na morte; por isso, no último capítulo do sistema da ciência de Hegel, morre-se a própria determinação individual, ou seja, morre o homem para Deus, e Deus morre para o homem; esta é a dialógica hegeliana; e Marx a segue a risca: não que Deus de fato tenha morrido, mas ao propugnar a própria morte para Deus e a morte de Deus para o homem, o homem pode partir seu coração completamente, isto é, pode ser completamente despessoalizado e despersonalizado.

E Marx faz isso: propugna a própria morte, e a morte de Deus para ele, para pode ser totalmente um serviçal de Satanás. Pois, tal como Hegel, somente assim Marx alcança seus reais objetivos, tal como já fora descrito. Mas, Marx não propugna a própria morte através de figuras fúnebres, mas através da alegoria do coração completamente partido.

E a guisa de conclusão, se deve explicar que a morte de Deus descrita por Nietzsche, fora propugna e sistematizada por Hegel, e vivenciada plenamente por Marx e pelos marxistas.

 

***

 

Ora, não se fizera uma explicação muito aprofundada deste poema, mas apenas explicou-se os principais aspectos alegóricos que servem para entender o real propósito de Marx e do marxismo; pois, Marx, na alegoria do violinista, um tipo de alegoria corriqueira em sua época, desvelou o real propósito de seus labores; por isso, compreender as nuances deste poema é o fundamento para a interpretação e compreensão do marxismo, dos fenômenos inerentes ao marxismo, já que neste poema é desvelado o motivo-base de todo o pensamento de Marx e, por consequência, de todos os marxistas. 

E termina aqui esta explicação. θεῷ χάρις



[1] In: Karl Marx e Friedrich Engels, Marx-Engels Collected Works Vol. 1: Karl Marx 1835-1843 [Lawrence & Wishart, 1975], pág. 22-23. 


Soneto 9

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