28/02/2026

Oração de anátema contra a heresia protestante

A Ti, Senhor, louvamos e adoramos; diante de Ti, pois, confessamos a fé verdadeira, contra as perniciosas heresias que vituperam vossa honra e corrompem a retidão; contra estes inimigos da fé, pronunciamos diante de Ti, e de todos os santos do passado, as seguintes sentenças:

Aos artífices da doutrina protestante, Lutero, Zwinglio, Calvino e outros, homens desonrados e plagiadores: Anátema!

A heresia protestante como um todo, tanto na doutrina quanto em suas práticas: Anátema!

Ao luteranismo, doutrina da obstinação espiritual: Anátema!

Ao calvinismo, doutrina da desonra intelectual e da insolência: Anátema!

Ao kantismo enquanto sistema: Anátema!

A lixaria intelectual e espiritual da teologia de John Wesley: Anátema!

A fétida linhagem wesleyana: Anátema! Anátema! Anátema!

Ao pentecostalismo: Anátema!

Ao neopentecostalismo: Anátema!

As novas congregações protestantes: Anátema!

As práticas luxuriosas inerentes ao protestantismo: Anátema!

A imoralidade sexual inerente ao protestantismo hodierno: Anátema!

As insolências dos vis defensores do protestantismo: Anátema!

As ações contra a liberdade propagada pelos pastores protestantes: Anátema!

A musicologia protestante: Anátema!

As denominações sionistas: Anátema!

A tentativa dos pastores protestantes de dominarem outras pessoas: Anátema!

A politicagem protestante: Anátema!

A tudo que emerge do protestantismo que são manifestações destas e de outras abominações: Anátema!

As abomináveis manipulações protestantes que se assomaram as sés apostólicas: Anátema!

Anátema! Anátema! Anátema!

Estas e muitas outras sentenças pronunciamos diante de Vós, ó Deus Altíssimo, contra estas vilezas que a doutrina protestante comete contra a verdade, contra a liberdade e contra a verdadeira religião; diante de Ti, Senhor Todo-Poderoso nos rendemos e nos prostramos, para poder lutar e vociferar contra as inomináveis aberrações que emergem da heresia protestante. Glória seja dada a Ti, Senhor, por ter nos libertado da escravidão espiritual do protestantismo. Por Cristo, Senhor nosso. Amém. 


26/02/2026

A fé reta e sólida

I

 

A Sagrada Escritura é o fundamento da fé reta, isto é, é o fundamento da vida correta; portanto, o fundamento da retidão é estar em conformidade com tudo o que é transmitido na Sagrada Escritura quanto a conduta correta; por isso, a retidão é a conformidade plena, em todos os preceitos, com o que é ensinado na Sagrada Escritura.

A ortopraxia não aceita os melindres da falta de retidão. Pois, a maior evidência da fé verdadeira é a retidão; na verdade, a retidão na conduta atesta e comprova a verdadeira experiência com Deus; a graça de Deus conduz à retidão; além do que, a retidão é expressão da vida em obediência aos mandamentos divinos.

O coração reto tem prazer em obedecer aos mandamentos divinos, e o coração obediente a Deus se deleita na retidão.

 

II

 

A Sagrada Escritura é o fundamento da fé sólida, isto é, é o fundamento da doutrina correta; portanto, o fundamento da doutrina verdadeira é estar em conformidade com tudo o que é transmitido na Sagrada Escritura quanto a crença correta; por isso, a ortodoxia na doutrina é a conformidade plena, em todas as doutrinas, com o que é ensinado na Sagrada Escritura.

A ortodoxia não aceita os desvios das falsas doutrinas. Pois, as falsas doutrinas não iniciam com erros doutrinários, mas com falta de retidão; os hereges não iniciam contradizendo as doutrinas, mas pervertendo a moral (cf. Jd 1.4ss); por isso, quando não há retidão, não haverá compreensão adequada da doutrina sagrada, já que para compreender os mistérios divinos é necessário a piedade. E a doutrina correta é a doutrina segundo a piedade.

Assim, a doutrina correta é compreendida por quem vive uma vida correta, e quem vive uma correta tem prazer na doutrina correta; e a Sagrada Escritura transmite o que concerne a doutrina correta, tanto para evitar erros e manipulações humanas, quanto para que o conteúdo da fé seja manifesto de forma perfeita para o bem dos eleitos.

 

III

 

A verdadeira Igreja é a que manifesta tanto a fé reta quanto a fé sólida; os verdadeiros cristãos são aqueles que ao confessarem a fé verdadeira demonstram isso na plena retidão com a qual vivem; a Sagrada Tradição confirma isso plenamente ao manter-se fiel as tradições transmitidas pelos Santos Apóstolos (cf. 2Ts 2.15). De fato, o cristianismo verdadeiro é o que é manifesto na doutrina correta e na conduta correta, os quais são fundamentados na Sagrada Escritura e que são expressos na Sagrada Tradição.

A Tradição Apostólica é expressão do cultivo da Sagrada Escritura e da interpretação fiel da Sagrada Escritura; deste modo, a Santa Igreja, ao manifestar tanto a fé reta quanto a fé sólida, mantém-se fiel ao depósito da fé confiado pelo Senhor Jesus Cristo aos Santos Apóstolos, e destes aos seus sucessores e assim por diante; a Igreja permanece fiel em sua missão a medida que cultiva este depósito e a medida que o desenvolve de maneira correta.

Portanto, a fé reta e sólida, é a que se fundamenta na Sagrada Escritura, e que se disciplina segundo a Tradição Apostólica; a separação entre Escritura e Tradição é obra de elementos estranhos a doutrina cristã: seja dos árabes ao errarem na interpretação da relação entre a Escritura e a Tradição, seja dos protestantes que ao serem movidos por este mesmo erro buscam “criar” outra “tradição” que vitupera a Tradição Apostólica.

Que se saiba, portanto: a fé reta e sólida é a que tem seu fundamento na Sagrada Escritura, e que tem sua formulação na Sagrada Tradição.

θεῷ χάρις


24/02/2026

Introdução à Leitura de Ser e Tempo de Martin Heidegger

Prólogo.

 

Considerando, pois, que vossa indagação é assaz pertinente, não só pelo assunto em si, mas porque versa sobre uma obra imprescindível para se entender os caminhos do mundo contemporâneo, decidi, na medida de minhas capacidades, responder-lhe da maneira como considerei adequado.

A obra sobre a qual me indagaste, “Ser e Tempo” de Martin Heidegger, é um dos marcos filosóficos do séc. XX; por isso, compreender este livro é entender uma ampla gama de perspectivas que se assomaram na reflexão filosófica, tornando este livro de Heidegger leitura obrigatória a todo aquele que quer compreender filosofia - e não só filosofia, mas toda a pós-modernidade.

Por isso, tendo em vista vossa indagação sobre o que é necessário saber para ler e compreender esta obra, resolvi escrever-te três lições para lhe ajudarem nesta tarefa fundamental da filosofia de ler e entender “Ser e Tempo”; todavia, estas lições são uma introdução à leitura, não uma introdução propriamente dita à “Ser e Tempo”; uma introdução à leitura, a fim de facilitar a compreensão quanto ao propósito de Heidegger e a disposição desta obra, que num sentido geral são as dificuldades iniciais da grande maioria daqueles que se põem a ler “Ser e Tempo”.

Ora, o desenrolar da minha resposta a vossa indagação, articula-se em três pressupostos gerais:

I) No que consiste o livro “Ser e Tempo” de Heidegger.

II) O Dasein e o propugnar da nova história da ontologia.

III) A continuidade do livro “Ser e Tempo”.

Deste modo, ao aclarar estes três pressupostos, de modo respectivo, subsequente e complementar, nas lições que compõem este escrito, se estabelece a explicação do que é necessário entender de antemão para uma salutar e benéfica leitura de “Ser e Tempo”. Além do que, estas lições também tem por propósito explicar o modo, a causa e a razão deste livro de Heidegger.

 

Lição 1.

 

1. O livro “Ser e Tempo” de Martin Heidegger, foi estruturado em duas partes, cada parte com três seções[1]; no entanto, apenas as duas primeiras seções da primeira parte vieram a lume, e constituem-se do todo deste livro; mas por que o livro não foi completado? Simples, Heidegger acoplou o desenvolvimento de sua obra de maneira distinta dada as circunstâncias de sua época que se atinaram para o seu verdadeiro propósito.

Como se sabe, a primeira parte fora concluída plenamente ainda que tenha faltado a terceira seção, por razões que depois explicar-se-á; todavia, a segunda parte inteira faltou: Heidegger conclui seus aspectos teóricos em outros escritos, embora a continuidade de “Ser e Tempo”, na parte que faltou, não seja propriamente algo teorético, mas algo em relação a práxis da nova história da ontologia que Heidegger buscara estabelecer.

2. Ora, o livro “Ser e Tempo” foi planejado em duas partes, precedidas de uma introdução; na primeira parte, Heidegger estabeleceu a ideia da interpretação do Dasein, a manifestação do ser, a partir da realidade temporal ou temporalidade, e a partir da explicação do conceito de tempo, os quais estabelecem o horizonte transcendental da indagação pelo ser; neste sentido, isso se assemelha ao pressuposto da epistemologia kantiana, da explicação da estética transcendental a partir da exposição do conceito de tempo (cf. KrV, B, I, § 4-8).

A ideia de estética transcendental em Kant tem a ver com a experiência de beleza, que é o que primeiro atina o homem para o saber; ao buscar compreender como se dá o saber, se deve no sentido kantiano indagar sobre as propriedades da temporalidade diante do ser, e vice-versa; Heidegger acopla este princípio, e estabelece a interpretação do Dasein a partir da temporalidade, isto é, a partir da experiência transcendental.

A diferença é que Kant encaminha-se para um epistemologismo, ou seja, para um ceticismo epistemológico, enquanto que Heidegger encaminha-se para um ontologismo, ou seja, para um ceticismo ontológico.

3. Na segunda parte, Heidegger planejou a explicação das linhas fundamentais da destruição da história da ontologia, a partir do método fenomenológico, embasado na problemática da temporalidade; ou seja, a partir da doutrina kantiana, Heidegger buscou destruir a história da ontologia diante da contingência e finitude do homem diante do tempo; e o problema da temporalidade se for tomado de maneira errônea se torna um instrumento para todo e qualquer tipo de sofisma; assim, a partir do problema da temporalidade, Heidegger pressupõe a concepção dos limites da ontologia antiga, e ao fazê-lo tem o caminho aberto para instituir uma nova ontologia como uma nova história da ontologia.

O ontologismo de Heidegger é ao mesmo tempo a saída destes limites e a destruição da antiga ontologia por conta destes limites, os quais são mais do que evidentes para quem conhece o que Aristóteles elucubrara sobre o tempo; etc. Todavia, isso não é base para a invectiva de Heidegger; pois, a problemática da temporalidade se dá devido as limitações humanas, as quais sempre são parte da vida humana; evocar a problemática da temporalidade para criar um outro homem é uma utopia, posto o problema da temporalidade ser um problema indissolúvel da vida humana; pois, se o homem é homem, então há o problema da temporalidade.

4. Mas, antes de explicar o caminho de Heidegger nestas duas partes, convém compreender no que consiste a introdução de “Ser e Tempo”; assim, concentremo-nos, portanto, na introdução de “Ser e Tempo”; nesta introdução, ou prolegômena, Heidegger procura, seguindo as normas da arte retórica, estabelecer o ponto de partida de sua reflexão sobre o ser; na verdade, esta introdução é para pôr em voga a questão sobre o ser e a diretiva que a mesma vai tomar a partir deste livro; e esta introdução se subdivide em dois capítulos: o primeiro, no qual Heidegger designa o primado da questão do ser para a filosofia; e o segundo, no qual Heidegger explica as duas tarefas concernentes a investigação sobre o ser, a saber, a destruição da história da ontologia e a reedificação de outra história da ontologia a partir do método fenomenológico designado pelo próprio Heidegger neste livro.

5. Ora, a designação do primado do ser para a filosofia, ao invés de valorar a questão do ser em si mesma, na verdade institui um ontologismo irracional; pois, embora exista de fato um primado do ser na filosofia, a análise sobre o ser não pula etapas (o que por si é algo óbvio!); a designação de Heidegger sobre o ser perpassa a lógica e a física sem analisar o ser; ora, não existe análise filosófica real sobre o ser que não concatene lógica, física e metafísica - neste quesito, o que passa disso é ontologismo.

Por isso, o que Heidegger propõe é ontologismo; e entender esta questão impede de se decair no erro da consideração de Heidegger, já que este erro coloca a reflexão filosófica sujeita aos ditames deste ontologismo; a ontologia não pode se tornar ontologismo, senão se destrói a própria ontologia; além do que, se a ontologia se tornar ontologismo, então se tem o raiar do domínio da filosofia de Heidegger sobre a ontologia.

6. Deste modo, para se entender corretamente este livro de Heidegger há de se não deixar levar pelo ontologismo propagado no mesmo; na verdade, a análise de Heidegger sobre o ser, além de extensa e profunda, tem muitos aspectos extremamente úteis e benéficos; mas o sistema ontológico de Heidegger é ontologismo; portanto, se se compreender os insights e perspectivas de Heidegger sobre o ser de modo adequado, isso em muito tem a contribuir com a boa formação filosófica; todavia, se se decair nos grimórios deste ontologismo, então se ficará preso na “nova” história do ser propugnada por Heidegger - e esta “nova” história do ser é a base para um estado de sonho. A nova história do ser que Heidegger propõe não é uma nova história da ontologia filosófica, mas uma nova história que é instaurada na vida humana por alguém, o que manifesta o Dasein, ou o “espírito superior enviado pelo céu” de que falara Hegel[2], para instaurar uma nova humanidade[3].

7. Assim sendo, o livro “Ser e Tempo” constitui-se de uma obra metafísica, com vista a instaurar uma nova perspectiva ontológica; conquanto as observações filosóficas sobre a ontologia sejam geniais e assaz necessárias, a proposição de destruir a história da ontologia para criar uma nova história da ontologia deve ser rejeitada e logo compreendida, pois em todo o livro as observações dialéticas (ao estilo de Hegel) são para não somente refletir criticamente sobre a ontologia, mas para levar adiante o instaurar desta nova história da ontologia. Isso se clarifica já na introdução; mas, a introdução não apenas é para clarificar estes aspectos, os quais estão implicitamente instituídos; a introdução tem por propósito clarificar um novo propósito para o filosofar diante da manifestação do Ser do Dasein.

8. Deste modo, no primeiro capítulo, Heidegger estabelece o que concerne a elucubração do ser, a questão-do-ser; e assim Heidegger estabelece a necessidade, a estrutura e o propósito da questão-do-ser; a necessidade em se evocar novamente a busca pela explicação do ser; a estrutura ao delinear como a elucubração sobre o ser deve ser disposta; e o propósito, ao demonstrar a precedência ontológica e a precedência ôntica da questão-do-ser, para com isso elaborar uma outra pressuposição sobre o primado da questão-do-ser.

E, evidentemente, Heidegger faz isso não do ponto de vista puramente teórico; mas estabelece a questão-do-ser a partir da manifestação do Ser do Dasein; o ponto de inflexão é o Dasein, a partir do qual o Ser se torna conhecível; é no Dasein, que se manifesta na vida, em quem o Ser é desvelado; assim, em Heidegger é o Ser do Dasein que torna o Ser conhecido; portanto, no ontologismo de Heidegger, o Ser só é conhecido através do Dasein.

E, isso, por sua vez, institui implicitamente uma pergunta, que Heidegger deixa em aberto nesta obra, a saber: quem é o Dasein? Ao aplicar temporalidade e “pessoalidade” ao Dasein, o próprio Dasein passa a ter caracteres pessoais e temporais, que se consumam em temporalidade e “pessoalidade”; assim, diante das argumentações de Heidegger se leva cabalmente a esta indagação; o ontologismo de Heidegger é em função de guiar à esta pergunta e de guiar para a resposta a esta pergunta.

O propósito do ontologismo é por esta pergunta de maneira inescapável, ao ponto de no próprio ontologismo haver um guia inescapável para a solução heideggeriana a esta pergunta. Nisto se constitui o propósito primordial de “Ser e Tempo”; aliás, num geral a filosofia de Heidegger também serve a este propósito.

9. E no segundo capítulo da introdução, Heidegger delineia a dupla tarefa que permeia a elaboração da questão-do-ser; a primeira tarefa é o que Heidegger designa como a analítica ontológica do Dasein, isto é, a analítica filosófica que põe a liberdade do horizonte para uma interpretação do ser; e este pôr em liberdade diz respeito a libertação da ontologia da antiga ontologia, isto é, aquilo que é chamado desde Wolff como dogmatismo metafísico.

A libertação do horizonte para a interpretação do ser que Heidegger propõe na verdade é a retomada do preceito kantiano de que se tem que abolir a fé para dar lugar ao saber - ou dito em outros termos, a libertação do horizonte para a interpretação do ser tem como pressuposto fundante a separação entre teologia e metafísica ocasionada desde Scotus.

Isso, por sua vez, tanto sobrenaturaliza a razão quanto seculariza a revelação. Assim, a primeira tarefa que Heidegger propõe tem por propósito último “sobrenaturalizar” a ontologia a partir da manifestação do Ser do Dasein.

10. E, em relação a segunda tarefa, Heidegger designa o que estabeleceu na primeira tarefa; pois, ao “sobrenaturalizar” a ontologia do Ser do Dasein, ele não somente temporaliza o Dasein como alguém ou alguma coisa, mas propriamente dito institui uma nova história da ontologia que tem seu acontecimento apropriador neste Dasein que serve como “mediador” para a compreensão do Ser a partir de seu ser; este acontecimento apropriador também é chamado por Heidegger de “evento” - o “evento” que dá origem e consumação ao desvelar do Ser.

Ora, na tarefa da destruição da história da ontologia que Heidegger propõe, ao isto ser efetivado então se tem a “coisa” efetiva do “evento” do desvelar do Ser do Dasein; este “evento” se confirma, primeiramente e fundamentalmente, com a destruição da história da filosofia a partir de quando se toma consciência do acontecimento apropriador deste desvelar do Ser do Dasein. E com o delinear da segunda tarefa Heidegger conclui a introdução, demonstrando a causa, o modo e a razão do que se propõe a fazer através de “Ser e Tempo”.

 

Lição 2.

 

1. Após a introdução ou prolegômena, se inicia a parte 1 do livro; como fora dito, Heidegger planejou o livro em duas partes, cada qual com três seções; em relação a primeira parte, Heidegger a pensou em três seções: (1) A análise fundamental preparatória do Dasein; (2) Dasein e temporalidade; e (3) Tempo e Ser. Destas três seções apenas as duas primeiras vieram a lume, e constituem-se o todo de “Ser e Tempo”; propriamente, a reflexão sobre a terceira seção, sobre tempo e ser, foram abalizadas em perspectivas de outras obras, pois como o próprio Heidegger dissera a respeito da reflexão filosófica sobre o tempo não se tem muito o que falar além do que Santo Agostinho elucubrara no livro XI das “Confissões”. Assim, o que Heidegger tem a falar sobre tempo e ser está delineado em outras obras, tanto anteriores ao livro referido quanto posteriores ao mesmo; quanto a isso, não há grandes mudanças no pensamento de Heidegger[4].

2. Ora, em relação as duas primeiras seções, há uma linha tênue de argumentação; quanto a primeira seção, Heidegger faz uma análise fundamental preparatória do Dasein, isto é, uma análise inicial para designar o que irá propor em relação a elucubração do Ser a partir do Ser do Dasein; e a primeira seção é subdividida em seis capítulos. Ora, no primeiro capítulo, Heidegger explica a exposição da tarefa concernente a análise preparatória do Dasein, isto é, o que é, o como é e o porquê é do Dasein; pois, a compreensão sobre o Dasein por si mesmo não se constitui um problema filosófico, mas a busca pela pessoalidade do Dasein se constitui um problema, posto ter que encarnar o Dasein em alguém ou alguma coisa; por isso, Heidegger expõe o que concerne a tarefa de analisar o Dasein em sentido preparatório a fim de embasar uma reflexão mais específica sobre o Dasein. Esta tarefa é a que se constitui como preâmbulo da nova história da ontologia propugnada por Heidegger.

3. No segundo capítulo, Heidegger explica a primeira esfera de compreensão do Dasein, a saber, como ser-no-mundo; em primeira instância, o Dasein está presente no mundo, mas não está manifesto; ou mais propriamente, o ser-no-mundo em geral é que constitui o próprio Dasein; e este em geral refere-se a existência como um todo, pois o Dasein neste sentido tem uma existência em conformidade com o mundo, com o ser-do-mundo; por isso, o Dasein manifesta-se primeiramente como ser-no-mundo; ora, isto é muito mais do que apenas um jogo de palavras; são esferas de manifestação de pessoalidade: primeiro, se tem o Dasein a partir do ser-no-mundo, o que designa que o Dasein está fora do mundo e vem de “outro-mundo”; segundo, se tem o Dasein como constituído propriamente de ser-no-mundo, isto é, o Dasein se torna Dasein a partir do momento, do acontecimento apropriador, em que se torna plenamente ser-no-mundo, ou seja, a medida que é encarnado em alguém ou alguma coisa (ou alguma instituição, ou ideologia, ou partido, etc.). Esta é a primeira etapa, ou primeira manifestação temporal, da nova história da ontologia propugnada por Heidegger, a saber, a existência do Dasein e sua necessidade de encarnação temporal na mundanidade do mundo.

4. No terceiro capítulo, Heidegger explica o que concerne a mundanidade do mundo, isto é, a mundanidade temporal e existencial do mundo - não sua existência física; portanto, Heidegger delimita a manifestação do Dasein na mundanidade do mundo, ou seja, no âmbito da vida temporal-existencial; neste sentido, demonstra-se que o Dasein não estará além-da-natureza, mas será parte da própria natureza - mais especificamente, da natureza humana. Por isso, a mundanidade do mundo não somente clarifica a humanidade do mundo, ou a mundanidade da humanidade, mas demonstra fundamentalmente que tudo o que é manifesto na temporalidade, como e a partir do ser-no-mundo, estará sujeito a esta mundanidade; pelo fato de os homens serem seres humanos - o que por si é óbvio -, evidencia que o Dasein estará sujeito a este mundanidade; assim, se o Dasein é, ao se tornar o que é, ele se torna ser-no-mundo, e com isso participada plenamente de tudo o que diz respeito a mundanidade do mundo. Esta é a segunda etapa, ou a segunda manifestação temporal, da nova história da ontologia propugnada por Heidegger, a saber, que o Dasein se manifesta na mundanidade do mundo.

5. No quarto capítulo, Heidegger explica no que consiste o ser-no-mundo, isto é, como ser-com e ser-próprio; o ser-com designa relação, e o ser-próprio designa individualidade; por isso, o Dasein de início possui impessoalidade, e a medida que se manifesta como ser-no-mundo se torna ser-com, isto é, ser-em-relação, e se torna ser-próprio, isto é, ser-em-si; ora, a relacionalidade e a individualidade do Dasein demonstra sua dupla natureza: primeiro, a natureza em si; segundo, a natureza em outrem. Portanto, o Dasein enquanto “impessoal” tem seu ser como ser-no-mundo em geral, pois tem seu ser em si e em outrem; o Dasein não se torna apenas uma pessoa em específico, embora possa ser manifesto em alguém; mas o Dasein se torna a manifestação do ser-em-relação e do ser-em-si, do ser que se torna manifesto na mundanidade do mundo porque esteve em relação e descobriu a si mesmo como ser-no-mundo; e este “descobrir” - o “evento” -, é que torna o Dasein como ser-com e como ser-próprio. Esta é a terceira etapa, ou a terceira manifestação temporal, da nova história da ontologia propugnada por Heidegger, a saber, que o Dasein se torna manifesto como ser-com e como ser-próprio, e ao fazê-lo, o Dasein consegue em sua individualidade dar norte para a coletividade.

6. No quinto capítulo, Heidegger explica outra manifestação do Dasein enquanto ser-no-mundo, a saber, como ser-em como tal; o Dasein não somente é em si e em outrem, mas é ser-no-mundo como ser-em, isto é, como ser que se manifesta em, como ser que se manifesta em toda a mundanidade do mundo; o ser-em como tal, é a identidade do Dasein enquanto ser que está em relação consigo e com outrem; esta relação é tridimensional: o Dasein se relaciona com consigo, com outrem e em tudo o que está manifesto na mundanidade do mundo; e o Dasein como ser-em como tal, demonstra a si mesmo como o desvelador do Ser em seu ser. Neste sentido, o “impessoal” ser-com e ser-próprio se torna pessoal a medida que cada indivíduo reconhece o Dasein como algo que lhe é próprio ou em algo que o representa. O ser-em como tal é o que designa a tarefa do Dasein após ter sido manifesto de maneira “impessoal”, dando-lhe assim “pessoalidade”; etc. Esta é a quarta etapa, ou quarta manifestação temporal, da nova história da ontologia propugnada por Heidegger, na qual o Dasein sai da “impessoalidade” da individualidade e/ou da coletividade, para se tornar em expressão tanto dos indivíduos em si quanto da coletividade de tudo o que está como ser-no-mundo.

7. No sexto capítulo, Heidegger explica a necessidade do Dasein; pois, as etapas anteriores, descritas nos cinco capítulos anteriores, demonstram de maneira inconsciente que o Dasein é possível, e por isso é necessário; esta necessidade do Dasein se manifesta como necessidade da cura do ser, isto é, da cura do ato de ser, para que o ato de ser conduza tudo aquilo que está manifesto como ser-no-mundo, a ser de fato ser-com e ser-próprio; ora, se o Dasein é ser-com e ser-próprio, então o próprio Dasein é que manifesta a cura do ato de ser[5]; por isso, Heidegger pressupõe que a cura para isso é o próprio ser do Dasein; o Dasein passa a ter um caractere ontológico terapêutico, isto é, ontologicamente o Dasein efetua a cura dos males provenientes do não-ato de ser (pois, esta é a preocupação fundamental da ontologia heideggeriana); portanto, a cura como ser do Dasein é manifesta e é apropriada a todos aqueles que como ser-no-mundo encontram no Dasein o “mediador” que lhes conduz ao ato de ser, isto é, que os conduz a cura de sua existência como ser-no-mundo; assim, o Dasein se torna o ponto arquimédico. Esta é a quinta etapa, ou quinta manifestação temporal, da nova história da ontologia propugnada por Heidegger, na qual o Dasein se mostra como a “solução” para o problema ou preocupação da falta do ato de ser, e, por conseguinte, de todos os problemas que se manifestam na mundanidade do mundo.

8. E, em relação a segunda seção, Heidegger evoca uma análise a respeito da relação entre Dasein e temporalidade, ou seja, entre o ser do Dasein e os prospectos da temporalidade; portanto, após evocar no que consiste a nova história da ontologia, a da manifestação correta da compreensão do Ser a partir do ser do Dasein, Heidegger passa a elucubrar sobre os problemas do ser do Dasein no ser-do-mundo, ou mais propriamente da relação entre o Dasein e as contingências da temporalidade; ou dito em outros termos, a relação entre Dasein e temporalidade é para demonstrar os modos de manifestação do Dasein na mundanidade do mundo.

9. Ora, em função disto, a segunda seção é subdividida em seis capítulos: no primeiro capítulo, Heidegger explica a possibilidade do Dasein enquanto ser-todo e ser-para-a-morte, isto é, explica as grandezas e as misérias do Dasein; pois, enquanto ser-todo, o Dasein tem diante de si o todo e tudo, ou seja, tudo quanto é parte da mundanidade do mundo; mas, o Dasein também tem diante de si o problema de ser-para-a-morte, algo que também lhe é inescapável; portanto, o Dasein tem as grandezas que são inerentes a mundanidade do mundo e as misérias que são próprias desta mundanidade; ou dito em outros termos, tem diante de si o todo e tem diante de si tudo quanto diz respeito ao ser-no-mundo, ao mesmo tempo que ao ter isso diante de si se defronta com o ser-para-a-morte, ou seja, com algo inescapável de ser-no-mundo. Esta é a sexta etapa, ou sexta manifestação temporal, da nova história da ontologia propugnada por Heidegger, na qual o Dasein se defronta com as limitações da mundanidade do mundo, as quais são inescapáveis.

10. No segundo capitulo, Heidegger explica o testemunho do Dasein enquanto o poder de um poder-ser, isto é, enquanto a possibilidade do ser do Dasein de poder-ser que se manifesta no sentido própria de uma decisão; assim, o ato de ser se torna uma decisão; o Dasein diante da contingência da temporalidade enquanto ser-no-mundo só é o que é quando decide pode-ser na decisão; o ato de ser é a de-cisão, a cisão com a falta de ato de ser ou com a preocupação existencial, para o testemunho de ser-no-mundo, ser-em enquanto tal; com efeito, este testemunho é especificamente o “evento” que torna o Dasein manifesto enquanto tal, tanto em si mesmo quanto para outrem; e este testemunho é próprio do modo de ser do Dasein, que lhe torna ser-com e ser-próprio. Esta é a sétima etapa, ou sétima manifestação temporal, da nova história da ontologia propugnada por Heidegger, na qual o Dasein se torna o que é a partir do ato de poder-ser e no qual efetivamente é o que é, isto é, na decisão [ou na grafia heideggeriana, na de-cisão].

11. No terceiro capítulo, Heidegger explica no que consiste este poder-ser do Dasein; pois, o poder-ser todo, isto é, completo e pleno, no sentido que compete aos modos de ser do Dasein, defronta-se com a temporalidade diante da preocupação/cura; e assim esta preocupação/cura se dá como o estágio ontológico para a própria preocupação/cura; na verdade, o poder-ser todo do Dasein é o que desvela como Dasein; o simples fato de poder-ser como se é, é o que demonstra que o Dasein está como ser-no-mundo a partir de seus modos de ser; portanto, o sentido próprio do Dasein é esta de-cisão de poder-ser diante da temporalidade e da mundanidade do mundo. Esta é a oitava etapa, ou oitava manifestação temporal, da nova história da ontologia propugnada por Heidegger, na qual o Dasein desvela sua de-cisão de poder-ser o que a temporalidade e a mundanidade do mundo requer que ele seja.

12. No quarto capítulo, Heidegger explica a relação entre temporalidade e cotidianidade; pois, a temporalidade se manifesta enquanto problemática do ato de ser diante da cotidianidade; o ser do Dasein se torna manifesto na cotidianidade da temporalidade; o ato de ser é efetivado na cotidianidade; por isso, as contingências da temporalidade são manifestas mais propriamente em relação aos prospectos da cotidianidade. Esta é a nona etapa, ou nona manifestação temporal, da nova história da ontologia propugnada por Heidegger, na qual o Dasein se manifesta como ser-no-mundo enquanto ser-próprio, ser-em e ser-com diante das expressões da cotidianidade.

13. No quinto capítulo, Heidegger explica a relação entre temporalidade e historicidade; pois, o que é temporal nem sempre é histórico; por isso, a temporalidade enquanto cotidianidade é algo histórico; a cotidianidade está diante da historicidade; portanto, o Dasein ao se manifestar na cotidianidade, se manifesta nos aspectos da historicidade; ao mesmo tempo, esta historicidade se refere ao mais singular dos “eventos”, pois ao Dasein se manifestar enquanto historicidade, o ser do Dasein ocupa toda uma época que estiver sujeita a esta historicidade; assim, a temporalidade, enquanto algo específico, se torna a historicidade dos modos de ser do Dasein; e assim o Dasein se torna algo histórico e historiável. Esta é a décima etapa, ou décima manifestação temporal, da nova história da ontologia propugnada por Heidegger, na qual o Dasein ao estar como ser-no-mundo, diante da cotidianidade, se manifesta plenamente na historicidade, e passa a ser não mais ser-próprio e ser-com, mas ser-em-todos e ser-em-tudo, ou seja, o Dasein passa a permear tudo e todos como agente histórico arquimédico.

14. No sexto capítulo, Heidegger explica a dialógica entre temporalidade e intratemporalidade, ou seja, entre os problemas e manifestações próprios da temporalidade, e seu defrontar com os problemas da intratemporalidade; pois, nem sempre a historicidade do Dasein se dará de modo adequado nos prospectos da temporalidade, mas se manifestará nos prospectos da intratemporalidade; por isso, a dialógica entre temporalidade e intratemporalidade é a origem do conceito vulgar de tempo; e assim nem sempre o manifestar do Dasein será percebido por todos aqueles que estão sujeito ao tempo - em suma, isto é intratemporalidade; e quando o manifestar do Dasein for percebido por todos aqueles que estão sujeitos ao tempo, isto é o que propriamente Heidegger acopla como temporalidade.

Esta é a décima-primeira etapa, ou décima-primeira manifestação temporal, da nova história da ontologia propugnada por Heidegger, na qual o Dasein demonstra seu ser e seu não-ser, isto é, seu ser enquanto manifesto, a temporalidade, e seu ser enquanto não-manifesto, a intratemporalidade; se aperceber desta problemática, e saber como curá-la, é o último estágio para a manifestação cabal do Dasein.

E à guisa de conclusão quanto a proposição da nova história da ontologia, estes onze estágios mencionados são subsequentes e complementares, e cumprem-se de maneira passiva a medida que se desenrola as propriedades de “Ser e Tempo”; a história alemã dos anos 1930 é um modo de compreender como esta nova história da ontologia se manifesta e se congrui como algo temporal e espiritual.

15. E, estes aspectos são suficientes para dar um panorama do que se constitui o livro “Ser e Tempo”; todavia, à guisa de conclusão deste lição, e em função do que fora descrito, convém explicar um aspecto que não é mencionado sobre os fatos filosóficos desta nova história da ontologia de Heidegger; pois, neste sentido o Dasein, apesar de Heidegger insistir plenamente em sua temporalidade, passa a ter não mais temporalidade, mas eternidade; o que Heidegger propõe com o Dasein na filosofia, fora o que na teologia fora manifesto através do Verbo de Deus (ou Logos); com efeito, o Dasein de Heidegger tem o mesmo propósito na filosofia do que o Logos tem na revelação de Deus; assim, deixo a indagação, que o leitor atento deve buscar elucubrar e meditar ao ler e estudar o livro “Ser e Tempo”, a saber: será o Dasein de Heidegger uma tentativa de substituir o Logos, o Verbo de Deus? Não responderei a esta indagação aqui, mas fica a mesma para elucubração e reflexão[6]; pois, é uma indagação que quem busca realmente compreender Heidegger tem de adentrar por si mesmo.

 

Lição 3.

 

1. O livro “Ser e Tempo”, como fora falado, ficou incompleto; a última seção da primeira parte, e toda a segunda parte não foram escritas; mas por que? Em relação a questão da última seção da primeira parte, já se explicou a razão de Heidegger tê-la deixado incompleta; entretanto, em relação a segunda parte, Heidegger deliberadamente não a escreveu; e isto por várias razões; pois, a completude do desenrolar de “Ser e Tempo” não se daria por reflexões teoréticas, mas na práxis; a continuidade de “Ser e Tempo” não foi pensada por Heidegger de acordo com o modo socrático de morrer, mas de acordo com a morte no campo de batalha da revolução; ou dito em outros termos, a continuidade do livro de Heidegger manifesta-se na encarnação plena do Dasein na história.

2. Ora, o livro “Ser e Tempo” é de 1927; a continuidade histórica que Heidegger esperava iniciou-se seis anos depois, quando Hitler sobe ao poder em janeiro de 1933; na verdade, como o próprio Heidegger declara em uma preleção de 1933: “O povo alemão como um todo está chegando a si mesmo, isto é, está encontrando orientação[7]; esta orientação, o “evento” que tornou o povo alemão consciente de si mesmo, é manifesta no Führer e no nacional-socialismo, aqueles que encarnam o levar adiante da missão da Germânia (a Alemanha); Heidegger enfim houvera encontrado a continuidade histórica de “Ser e Tempo”, do ser que se desvela no tempo apropriado, a partir do estalo de um grande “evento” - no caso, a subida de Hitler ao poder.

3. E isso é assaz evidente, por exemplo, nas “confissões” pessoais de Heidegger nos “Cadernos Negros”; Heidegger encontrou a continuidade de seu livro não em elucubrações teoréticas, mas no propósito do partido nazista; o ser do Dasein passa a ser aquele não que fora elucubrado na ontologia, mas aquele que desvela-se a partir da ideologia; para entender melhor este aspecto, utilizar-se-á da terminologia de Lukács, ou seja, a partir do princípio lukacsiano se pode evocar que a concreção de “Ser e Tempo”, da nova história da ontologia, se manifesta na “dança da morte da ideologia”: Hitler e o nacional-socialismo são a dança final no espetáculo causado pela nova história da ontologia que Heidegger edificara em “Ser e Tempo” e em escritos subjacentes. O caminho da floresta fora delineado por Heidegger, mas quem levou adiante o corte das árvores e a pavimentação do caminho fora o Führer e o partido nazista.

4. Em suma, nisto se delineia a continuidade do livro de Heidegger; no entanto, convém evocar esta continuidade também nas sentenças filosóficas do próprio Heidegger; pois, além obviamente da continuidade em escritos que versam sobre os temas que constituiriam a segunda parte, os quais são vários, a continuidade propriamente dita de “Ser e Tempo” se manifesta em três princípios:

I) A missão político-espiritual.

II) O núcleo filosófico-ontológico do hino “Germânia” de Hölderlin.

III) A luta pela essência.

5. [ad. I] Em sua preleção “eufórica” de 1933, Heidegger inicia pondo a questão da existência filosófica enquanto uma missão político-espiritual; mas, esta missão político-espiritual só se manifesta na práxis política, na ideologia; portanto, quando Heidegger designa esta missão político-espiritual, está delineando a mesma à ideologia; ou seja, a missão político-espiritual que o desvelar do ser do Dasein conduz os homens, todo um povo, toda uma nação, para Heidegger é a que se encarna na ideologia; com isso, a continuidade de “Ser e Tempo” é a que se dá na missão político-espiritual da Alemanha, que é levada adiante pelo nacional-socialismo e por seu líder, o Führer. A continuidade histórica de “Ser e Tempo”, em grande medida, é o nazismo.

6. [ad. II] A concreção de “Ser e Tempo” numa ideologia do povo alemão, se manifesta também naquilo que o próprio Heidegger explica a partir do hino “Gêrmania” de Hölderlin; este notabilíssimo hino de Hölderlin contém elementos patrióticos formidáveis, embora tenha sido desfigurado para embasar um nacionalismo doentio; e Heidegger a partir das ideias patrióticas deste hino, e das ideias filosóficas que assomaram no mesmo desde o início do séc. XIX, utilizou o núcleo filosófico-ontológico deste hino, para embasar o advento da missão político-espiritual do povo alemão.

Por isso, Heidegger afirma que o conteúdo deste hino se manifesta na seguinte sentença: “os velhos deuses morreram, deuses novos querem levantar-se. Para o seu advento, a Germânia tem uma missão especial[8]; assim, para Heidegger a missão político-espiritual da Germânia (Alemanha), é o levantar de novos deuses, a ascensão dos hiperbóreos, e neste advento dos novos deuses, a Germânia tem uma missão especial - a missão político-espiritual.

Portanto, o núcleo filosófico-ontológico desse hino de Hölderlin é acoplado por Heidegger em função de outro estágio da concreção de “Ser e Tempo” de maneira histórica através do nazismo.

7. [ad. III] A ideia da luta pela essência que Heidegger descreve nos “Cadernos Negros[9], principalmente porque se refere a missão político-espiritual do povo alemão, não diz respeito a busca filosófica pela essência, como Heidegger elucubrou em muitos escritos; a luta pela essência que Heidegger propõe nos “Cadernos Negros” não tem uma significação teorética, mas tem obviamente uma significação prática; a luta pela essência é base filosófica da ideia de purificação racial; e isso se coaduna plenamente com o desenvolvimento histórico da concepção de “solução final” propugnada pelo nazismo; a ideia de luta pela essência é uma das continuidades históricas de “Ser e Tempo”, e a consequência desta ideia foi assaz terrível e hedionda; assim, entre tantos aspectos, a continuidade de “Ser e Tempo” tem a ver com superioridade racial e com purificação racial.

8. Ora, estes três princípios são por si suficientes para aclarar o propósito de Heidegger quanto a continuidade real de “Ser e Tempo”; embora existam dezenas e dezenas de outros princípios, dispostos por toda a extensa obra de Heidegger, estes três princípios são por si suficientes para demonstrar no que consiste de fato a continuidade de “Ser e Tempo”, a saber, o que fora levado adiante pelo nazismo; embora se tenha outros escritos que desenvolvam aspectos do que fora planejado para a segunda parte deste livro, é nestes princípios que a concreção plena do propósito de Heidegger se manifesta, e nos mesmos se desvelam as razões do porque Heidegger deixara o livro incompleto. E esta completude, vez ou outra, busca se manifestar em ideologias históricas[10], a fim de levar a cabo a concreção da nova história da ontologia, que não apenas é em si mesma filosófica, mas fundamentalmente é algo político-espiritual; assim, a filosofia passa não a ser reflexão racional, mas a filosofia passa a ser religião.

 

Apêndice: Breve Glossário.

 

A dificuldade com muitas das sentenças heideggerianas são manifestas não só em “Ser e Tempo”, mas em toda a extensa obra de Heidegger; por isso, de acordo com os vocábulos evocados, considerei por bem também fornecer um breve glossário a fim de ajudar na compreensão definitória destes vocábulos e de alguns neologismos evocados nestas lições que também são uteis para a compreensão da filosofia de Heidegger.

Acontecimento Apropriador = É o acontecimento interior que se manifesta a partir da experiência da apropriação do ser humano em relação a si mesmo enquanto ser-aí, a medida que o próprio Dasein é apropriado pelo ato de ser, que se manifesta tanto através da aletheia que o Dasein desvela, quanto da própria história do ser.

Dasein = Literalmente Ser-aí; refere-se ao modo da existência do Ser, ou particularmente da existência de cada ente que se defronta com o ato de ser.

Epistemologismo = A transmutação que apregoa que as leis do pensamento são as leis da epistemologia crítica. Ou seja, a transmutação da operação do intelecto, na lógica, para operações epistemológicas da crítica; por isso, o epistemologismo é ceticismo, pois fragmenta o modo da mente funcionar.

Evento = O momento, ocasião ou acontecimento onde o Dasein desvela a aletheia em função de seu próprio ser. Na concepção de Heidegger, somente a partir do “evento” é que se conhece a verdade e a realidade.

Ontologismo = A transmutação da ontologia clássica na nova ontologia propugna por Heidegger; em suma, o ontologismo é tornar o pensamento ontológico ao invés de lógico; ou: é a afirmação de que as leis do pensamento são ontológicas e não lógicas - no caso, ontológicas segundo a configuração heideggeriana.

Poder-ser = A descrição de que um ente, em relação ao ato de ser, pode ou não ser; e geralmente o poder-ser é aplicado ao ente que decide pelo ato de ser.

Ser-com = A descrição Ser em relação com algo ou alguém; isto demonstra a propriedade relacional do Ser.

Ser-em = A descrição do Ser em algo ou alguém; isto demonstra a propriedade permeadora do ato de ser.

Ser-em-si = A descrição do Ser em si mesmo, do Ser por si; isto demonstra a natureza geral do Ser.

Ser-no-mundo = A descrição do Ser enquanto no mundo, do Ser enquanto presente no mundo; isto demonstra o caráter da mundanidade do Ser.

Ser-próprio = A descrição do Ser que é em si mesmo, do Ser que é Ser em si mesmo e a partir de si mesmo; isto demonstra o caráter individual do Ser.

 

Epílogo.

 

Ora, nestas três lições, expliquei o que me parece adequado para uma introdução à leitura de “Ser e Tempo” de Martin Heidegger; e reafirmo novamente uma introdução à leitura, não uma introdução a leitura; pois, com o que fora apresentado certamente vossa dileção terá os pressupostos necessários para adentrar a leitura e ao estudo de “Ser e Tempo”; evidentemente, são indicações propedêuticas a fim de mostrar o caminho a ser seguido, bem como a fim de explicar os propósitos de Heidegger nas entrelinhas, os quais, as mais das vezes, passam desapercebidos mesmo do leitor que tem algum preparo para a compreensão de assuntos filosóficos. Portanto, adentre a leitura de “Ser e Tempo” a partir das perspectivas elencadas, e elucubre e investigue o que for necessário; se isso for feito de modo adequado, tenho por certo que compreenderá corretamente este livro de Heidegger. 

E termina aqui esta explicação. θεῷ χάρις! 



[1] cf. Martin Heidegger, Ser e Tempo Parte I [15ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2005], § 8, pág. 70-71.

[2] In: Johannes Hoffmeister (ed.), Dokument zu Hegels Entwicklung [Sttutgart: Frommann, 1936], pág. 221.

[3] Para Heidegger este “alguém enviado por Deus” se manifestara em Hitler, e a nova história era a propugnada pelo nacional-socialismo e encarnada no modus vivendi do Terceiro Reich.

[4] Sobre a questão do tempo em Heidegger, consulte-se os seguintes escritos: “Der Zeitbegriff in der Geschichtswissenschaft” (1916); “Der Begriff der Zeit” (1924); “Zeit und Sein” (1962). Destes, me parece que o primeiro e o último não têm tradução em português. Mas, a leitura de “O Conceito de Tempo” constitui-se uma boa base para a compreensão das reflexões de Heidegger sobre o tempo; acrescenta-se a isso a palestra de 1930, “Augustinus: Quid est tempus? Confessiones lib. XI” (In: GA 80, pág. 429-456), e os seminários de 1930-1931 sobre o conceito de tempo em Santo Agostinho (cf. GA 83, pág. 41-84).

[5] Esta ideia de cura tem a ver com o que Heidegger também chama de preocupação; não preocupação no sentido existencial, etc., mas preocupação com de abertura à verdade a partir da temporalidade do Dasein; por isso, ao se encontrar esta cura, se defronta com esta preocupação, que é parte inerente desta cura; então, ao se falar de cura neste sentido também se fala desta preocupação, e vice-versa. Por esta razão, a tradução desta parte oscila entre os termos cura e preocupação; mas, para a compreensão adequada deste aspecto, se deve levar em conta esta pressuposição evocada.

[6] Esta indagação será o tópico de um artigo filosófico que escreverei posteriormente. Mas, antes de ler este artigo, aconselho que reflita e medite nesta indagação a partir da leitura do livro de Heidegger.

[7] Martin Heidegger, Ser e Verdade [2ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012], § 1, pág. 21.

[8] Martin Heidegger, Hinos de Hölderlin [Lisboa: Instituto Piaget, 2004], cap. I, § 2, pág. 24.

[9] cf. Martin Heidegger, Cuadernos Negros (1938-1939): Reflexiones VII-XI [Madrid: Editorial Trotta, 2017], VII, prol., pág. 9.

[10] Nos últimos decênios a ideologia que também segue esta concreção heideggeriana é o nacional-bolchevismo ou eurasianismo. 


22/02/2026

O que é a Fenomenologia do Espírito?

I

 

O que dizer de um dos mais densos tratados filosóficos já escritos entre os homens? Alguns talvez arrolariam a necessidade de se ensinar como se deve ler este tratado, ou no que é necessário conhecer para se entender este tratado, etc.; e estes aspectos tem alguma utilidade; mas, para compreender um tratado filosófico denso, principalmente sendo um dos mais densos entre os tratados filosóficos, é necessário não somente o domínio pleno da arte da leitura, mas também muitos conhecimentos prévios.

A leitura e a compreensão da Fenomenologia do Espírito de Hegel não é algo simples e nem é algo fácil; na verdade, a compreensão da Fenomenologia do Espírito é da mais alta dificuldade: tanto pelos muitos conhecimentos prévios que são necessários, quanto pela necessidade de uma boa formação filosófica anterior a leitura deste livro; por isso, poucos, ou quase ninguém, compreenderam adequadamente este tratado de Hegel, sendo superado em toda a história da filosofia em dificuldade e densidade apenas por outra obra do próprio Hegel, a Ciência da Lógica. Com certeza, a Fenomenologia do Espírito, em grau de dificuldade e densidade, é o segundo livro mais difícil da história da filosofia.

Ora, a Fenomenologia do Espírito é um denso tratado filosófico por três razões: primeiro, pela síntese sistêmica que Hegel desenvolve neste livro, que acopla todas as áreas do saber, com observações sintéticas sobre os fatos da vida cotidiana, ao mesmo tempo em que propugna a transmogrifação de toda a compreensão sobre a realidade ao tecer observações sobre esses fatos.  

Segundo, pela concatenação precisa dos conteúdos e pelas referenciações cruzadas, que acopla todo o saber universal para os propósitos de Hegel delineados na própria Fenomenologia do Espírito, os quais já estavam antevistos em outras obras anteriores do próprio Hegel; estas referenciações são tão profundas e são de uma imensidão tão grande que se pode falar da Fenomenologia do Espírito como uma “bíblia” filosófica.

Terceiro, pelo fato que a Fenomenologia do Espírito não é uma obra de filosofia pura e simples, antes é uma obra que acopla observações históricas, observações literárias, elucubrações filosóficas, mas com um propósito teológico; Hegel trabalha toda a Fenomenologia do Espírito em argumentação filosófica (cf. Ph I-VII), para no final da mesma (cf. Ph VIII), desvelar seu propósito, que é um propósito teológico - denominado por Hegel como saber absoluto.

Deste modo, se compreende nesta tríplice razão o porque a Fenomenologia do Espírito é um tratado filosófico de profundíssima densidade; pois, não somente se tem o sentido filosófico do texto, acoplado pelo sentido literário e o sentido histórico, os quais por si já são de extrema dificuldade de compreender – e poucos foram os que compreenderam alguns destes aspectos. Mas, além disso se tem o sentido religioso (teológico no sentido do sistema hegeliano), que é de uma profundidade ainda mais abrupta - e que quase ninguém compreendeu adequadamente.

Analogamente, a compreensão do sentido filosófico seria como mergulhar até o oceano profundo (mais de 1000 metros de profundidade), e para adentrar a compreensão do sentido religioso seria como mergulhar na zona hadopelágica (mais de 6000 metros de profundidade). Em suma, esta é a densidade dupla da Fenomenologia do Espírito; e isto é colocado desta forma sem nenhuma hipérbole; aliás, é uma analogia muito adequada para se compreender no que consiste a profundidade e a densidade da Fenomenologia do Espírito.

Ademais, a densidade da Fenomenologia do Espírito é evidenciada pela linguagem utilizada; Hegel não se utilizou de linguagem filosófica demasiadamente rebuscada; mas, o linguajar de Hegel possui dois sentidos: (1) o do texto filosófico em si; e, (2) o das entrelinhas ontológicas, que por sua vez se subdivide três aspectos: símbolos, signos e enigmas; os quais, muitas das vezes, possuem mais de uma dezena de significações.

Por exemplo, um único vocábulo filosófico, o termo alienação, tem cerca de dezessete símbolos enumerados e emaranhados em diversas significações além do que significado filosófico do próprio vocábulo alienação; e este é apenas um dos vocábulos, sem falar ainda nos signos e enigmas que vem imbuídos na maior parte dos vocábulos que possuem um ou mais símbolos.

Por esta razão, é algo assaz surpreendente a quantidade de referenciações cruzadas na Fenomenologia do Espírito, o que a torna ainda mais difícil de ser compreendida adequadamente; a quantidade de símbolos, signos e enigmas que os vocábulos chave da Fenomenologia do Espírito possuem são de dezenas, sem contar as referenciações subsidiárias e secundárias, que se forem contabilizadas, sem sombra de dúvida, são de centenas e centenas.

Com isso, a Fenomenologia do Espírito, em sentido puramente filosófico, é um tratado denso por excelência; Hegel conseguiu adequar a excelência da densidade filosófica com precisão de linguagem escrita como quase nenhum outro filósofo, com a exceção dos filósofos escolásticos e de Kant; assim, o que primeiro se deve compreender na Fenomenologia do Espírito é sua densidade, e quais os graus de densidade de cada capítulo, e de cada parte de cada capítulo, os quais desmembram-se em uma imensa gama de observações filosóficas e históricas.

Compreender isso, e entender o desenrolar real da Fenomenologia do Espírito, no propósito de cada capítulo que aponta para o capítulo seguinte, é a chave hermenêutica fundamental para se entender no que consiste e quais os caminhos da Fenomenologia do Espírito; de fato, compreender isso é entender o modo, a causa e a razão da Fenomenologia do Espírito.

 

II

 

Além do que, a Fenomenologia do Espírito tem esta densidade não somente pelas propriedades ora descritas, mas também porque neste tratado Hegel concatena de modo preciso observações dialéticas sobre a história humana, não só de feitos históricos e/ou de fatos historiáveis, mas da própria vida cotidiana que é o ímpeto humano que move a história; por isso, entre as muitas observações dialéticas sobre a história humana que Hegel descreve, mencionar-se-á apenas algumas[1], com o significado dialético de tal observação e uma breve explicação sobre tal significado de acordo com o propósito de Hegel sem as infernoses da parafernalia dialética.

Vejamos, pois, estes aspectos:

1. O método filosófico (pref.); ora, no início do sistema da ciência, Hegel elucubra sobre o método filosófico; não para apresentar no que consiste o método filosófico, mas para designar o método filosófico que seguirá, o do sistema científico da verdade, no qual segundo Hegel é onde a verdade está manifesta.

2. O método pseudo-filosófico (pref.); ora, para Hegel pressupor o método do sistema científico da verdade, ele evoca os métodos pseudo-filosóficos, entre os quais, Schelling e outros filósofos; para Hegel, os métodos filosóficos que não conduzem ao sistema científico da verdade são métodos pseudo-filosóficos.

3. Crítica a epistemologia de Kant (introd.); ora, na introdução Hegel efetua uma crítica a epistemologia de Kant; resumidamente, a epistemologia de Kant é ceticismo quanto a possibilidade de conhecer; Hegel não critica propriamente isso, mas crítica Kant pelo fato de que ele estabelece o temor de errar, o qual introduz desconfiança na ciência; se se tem desconfiança na ciência não haverá confiança na possibilidade de um sistema científico da verdade; logo, o ceticismo epistemológico kantiano impede que se forme o sistema hegeliano. Por isso, o sistema hegeliano, pressuposto de modo epistemológico, inicia com uma crítica a Kant e aos frutos da filosofia kantiana em relação a epistemologia.

4. Sentença contra a teologia cristã (cap. III); ora, numa das observações dialéticas, Hegel estabelece uma sentença cabal contra a teologia cristã; pois, uma das colunas da história ocidental é a teologia cristã; assim, a observação dialética sobre a teologia cristã, em suma, é para desfigurar uma das colunas da sociedade ocidental; mas não somente para isso, pois Hegel estabelece esta sentença contra a teologia cristã porque seu propósito final é teológico, a saber: substituir a teologia cristã pelo saber absoluto.

5. A observação sobre as leis (cap. III); ora, a observação dialética sobre as leis que Hegel efetua não é para descrever a existência das leis ou para a investigação sobre a lei, mas sim para efetuar a mudança na compreensão sobre a lei; em Hegel, a lei não surge mais do direito natural, mas surge do direito da consciência; o ordenamento jurídico em Hegel não é mais jusnaturalista ou juspositivista, mas jusconscientivo; a observação sobre as leis é para transmogrifar a ideia sobre as leis e institui-las a partir da realidade da consciência. A filosofia do direito de Hegel não tem por base a razão, mas a consciência; e isso, por sua vez, gesta uma jusfilosofia subjetivista.

6. A vitória do Estado e a desforra da família (cap. VI, A); ora, noutra das observações dialéticas, Hegel pressupõe a vitória do Estado a medida da desforra da família; para Hegel, a vitória do Estado se dá quando a família é desmontada; não simplesmente o desmonte da família a ponto da mesma deixar de existir, mas a transmogrifação da vida privada da família em propriedade do Estado, bem como a transmogrifação do conceito tradicional de família; por isso, a partir de Hegel se tira a privacidade da vida familiar e a torna subserviente ao Estado. Nisto, consiste, pois, parte da vitória das ideologias históricas sobre a liberdade e sobre a religião.

7. O conflito entre o Estado e o capital privado (cap. VI, B); ora, uma das observações dialéticas mais intrigantes do ponto de vista social, é o conflito entre o Estado e o capital privado; o Estado em Hegel não é mais o facilitador do capital privado, antes o Estado se torna o empecilho para o capital privado; e a assim o Estado hegeliano se torna inimigo do ímpeto capitalista; ou mais propriamente, o Estado a partir da proposição de Hegel se torna um empecilho para o desenvolvimento econômico: não porque o desenvolvimento econômico não deva existir na concepção de Hegel, mas porque o capital privado gera dominadores da sociedade.

8. A decomposição da sociedade burguesa (cap. VI, B); ora, outra observação dialética diz respeito a decomposição da sociedade burguesa; em outros termos, para Hegel a burguesia é um mal que se destrói por si mesmo; mas, é um mal que sempre existirá nas sociedades mais desenvolvidas; pois, a sociedade burguesa é um estágio do desenvolvimento das ideologias históricas; na verdade, na concepção de Hegel, a sociedade burguesa se tornou artífice de uma sociedade que domina tudo com uma “mão-invisível”; assim, para haver o caminho para o saber absoluto, Hegel institui algumas formas de decomposição da sociedade burguesa.

9. A teologia cristã para Hegel é antropologia hegeliana (cap. VII, C); ora, noutra observação dialética, Hegel desvela seu verdadeiro propósito com o sistema da ciência, a saber, sair da religião cristã para o saber absoluto; por isso, Hegel estabelece que a teologia cristã nada mais é do que a própria antropologia hegeliana; neste sentido, a teologia se reduz e se transforma a mera antropologia – donde a crítica cirúrgica de Feuerbach; para Hegel a função da teologia cristã é ser acoplada por sua antropologia como um aspecto a mais em vista de alcançar seu verdadeiro objetivo, o saber absoluto; ou seja, Hegel designa que a teologia cristã ao defrontar-se com o saber absoluto se torna em mera antropologia.

[...]

E este é apenas um magro esquema das observações dialéticas apresentadas por Hegel; embora tais observações sejam geniais pela síntese que concatenam, tais observações são para demonstrar o fio que guia a história até seu cumprimento no próprio Hegel; as observações dialéticas sobre a história feitas por Hegel são para desembocar em seu reino do pensamento puro, a lógica hegeliana - a Segunda Realidade ou Matrix.

Por isso, estas observações dialéticas por si confluem-se no propósito de Hegel para se chegar ao saber absoluto; por isso, não são apenas observações filosóficas, mas observações dialéticas que tem uma estrutura comum em todas elas, a saber: a observação sobre determinado fato histórico ou cotidiano, não apenas se dá para descrever a significação deste fato, mas para transmogrifá-lo em outro algo, a partir daquilo que o sistema da ciência busca instaurar.

Por exemplo, se Hegel faz uma observação sobre a dialética do senhor-escravo, ou sobre a família, etc., ele o faz não com o intuito de preservar estas instituições da vida tal como as mesmas são e devem ser, mas para transmutá-las de acordo com aquilo que é instaurado no sistema da ciência. As observações dialéticas são para colocar os objetos elucubrados sobre a parafernalia dialética da lógica hegeliana; e Hegel fizera isso com maestria e precisão assombrosas.

Em suma, este é o propósito das observações dialéticas sobre a história humana que Hegel apresenta principalmente na Fenomenologia do Espírito, mas que também apresenta em outros escritos pessoais (principalmente nos chamados Dokumente), especialmente as chamadas “preleções de Jena” (Aus Jenenser Vorlesungen)[2].

 

III

 

E será que a Fenomenologia do Espírito é apenas um denso tratado filosófico? Pois, ao que parece é algo mais; e realmente, a Fenomenologia do Espírito, além de ser um denso tratado filosófico, também é algo mais, a saber: é um manual de feitiçaria; a Fenomenologia do Espírito não somente é obra de filosofia, mas também é obra de magia; aliás, a Fenomenologia do Espírito é a maior das obras de feitiçaria, dado nenhum outro livro de feitiçaria ter conseguido instituir a magia de maneira plena.

Ora, Eric Voegelin descreve a Fenomenologia do Espírito, “como uma tentativa de encontrar as Zauberworte e a Zauberkraft, as palavras mágicas e a força mágica, que determinarão o curso futuro da história, levando a ‘consciência’ até o estado de perfeição[3]; na verdade, o sistema da ciência de Hegel é a evocação da força mágica (Zauberkraft), que conduz às palavras mágicas (Zauberworte), e vice-versa; pois, sendo a Fenomenologia do Espírito um manual de feitiçaria, suas “fórmulas” grimóricas instituem não só o ato mágico, mas também um reino mágico - ou em termos filosóficos-hegelianos: não só instituem os preceitos da lógica hegeliana, mas o reino do pensamento puro, a mais perfeita obra de Hegel.

Além disso, outra forma de definir a Fenomenologia do Espírito, é através de um enigmático parágrafo de Nietzsche, onde ele fala sobre a magia do extremo: “O fascínio que combate por nós, o olho de Vênus, que torna cegos e cativa mesmo os nossos adversários, é a magia do extremo, a sedução exercida por tudo que é mais extremo[4]; e a Fenomenologia do Espírito é magia do extremo: (1) torna os homens cegos na consciência e na inteligência; e, (2) exerce uma sedução inescapável pois é a conjunção de tudo o que é mais extremo.

Assim, define-se o sistema da ciência de Hegel a partir desta enigmática sentença nietzschiana; pois, literalmente o sistema da ciência é magia do extremo: a mais extrema magia do mais profundo e mais abrupto extremo. Por esta razão, o sistema da ciência fora instaurado plenamente na vida contemporânea.

Com efeito, se pode evocar a filosofia de Hegel não como pura e simples filosofia, mas como magia; a sentença da filosofia como magia se cumpre cabalmente em Hegel; pois, na filosofia moderna Hegel é o feiticeiro por excelência e o sistema da ciência a magia por excelência.

E ao se evocar estas proposições, muitos ficam estupefatos e chegam ao ponto de escarnecer de tais declarações; mas, estas proposições são assaz verídicas, as quais se comprovam no próprio sistema da ciência; ora, se evocará, entre as dezenas e dezenas, três sentenças que comprovam o fato de que o sistema da ciência é feitiçaria, as quais são:

1. O pronunciamento das palavras mágicas (Zauberworte)[5]; ora, palavras mágicas não é uma simples alocução, nem é desatenção e nem é paralogismo; palavras mágicas são palavras mágicas, no sentido ocultista do termo; por isso, o sistema da ciência é o pronunciamento das palavras mágicas, o qual cria uma força mágica para instaurar a Segunda Realidade. Em suma, isto é ato de feitiçaria; além do que, o ato de pronunciar as palavras mágicas de acordo com Hegel dão autoridade criacional a quem as pronuncia – no caso, o próprio Hegel.

2. O conhecimento gnosial revelado pela filosofia[6] - no caso a filosofia de Hegel; para Hegel, sua filosofia desvela um conhecimento iniciático através das palavras mágicas, que preparam o iniciado para uma imersão plena no reino do pensamento puro (a Segunda Realidade); isso é magia pesada; pois, não só é uma iniciação, mas antes é a transmogrifação da própria realidade através de um grimório.

3. O conhecimento gnosial é alcançado pelo conhecimento dialético, e este conhecimento dialético é um círculo que se fecha em si mesmo, que retorna sobre si e que pressupõe seu começo apenas quando atinge seu fim[7]; ou dito em outros termos, é um círculo cabalístico, da mais extrema feitiçaria cabalística; esta “regra” do conhecimento dialético é instaurada tal como se invoca o grimório no círculo cabalístico, e possui os mesmos efeitos, já que muda-se apenas o instrumento: nos rituais cabalísticos utiliza-se sangue e outros elementos ocultistas, enquanto que Hegel utiliza-se do jogo de palavras do sistema da ciência para instaurar através da filosofia um grande grimoire. E a prisão neste círculo cabalístico tem por consequência a perdição.

[...]

Deste modo, se comprova cabalmente a partir das próprias sentenças de Hegel que a Fenomenologia do Espírito não apenas é um denso tratado filosófico com geniais observações dialéticas sobre a história humana, mas principalmente a Fenomenologia do Espírito é um manual de feitiçaria; o sistema da ciência é um grimoire, que coloca a sociedade em um estado de sonho perpétuo; analogamente, a Fenomenologia do Espírito institui à vida humana a Matrix.

A Matrix não apenas é uma metáfora-alegoria cinematográfica, a Matrix de fato fora instituída pelo sistema da ciência; obviamente não nos moldes do filme, mas com consequências ainda mais terríveis e muito mais devastadoras. A alegoria cinematográfica demonstra que existe uma Matrix, a qual domina tudo e todos sem que estes se apercebam; esta Matrix fora instituída por Hegel com o sistema da ciência, dando forma ao que se cumpre na Ciência da Lógica como reino do pensamento puro - de fato, a Matrix real é este reino do pensamento puro instituído por Hegel.

Portanto, a Fenomenologia do Espírito é um manual de feitiçaria que é instituído para colocar toda a realidade, a verdadeira realidade, a Primeira Realidade, subjugada a um estado de sonho irreal, a falsa realidade, a Segunda Realidade; pois, a esconjuração da Primeira Realidade para a Segunda Realidade sempre é um ato de feitiçaria; com isso, se entende o modo e a razão da Fenomenologia do Espírito enquanto manual de feitiçaria ou grimoire.

 

***

 

Epílogo. Ora, aqui se conclui este estudo filosófico, posto que as perspectiva evocadas, mesmo que num panorama geral, são suficientes para aclarar no que consiste a Fenomenologia do Espírito, a saber, um denso tratado filosófico, mas também num livro de feitiçaria; o sistema da ciência de Hegel é ao mesmo tempo filosofia e magia; assim, Hegel institui no pensamento teórico a densidade da elucubração filosófica, mas também institui a prisão espiritual da feitiçaria. E este é um fato inegável e indubitável; e o que fora dito basta à guisa de introdução para a compreensão de no que consiste o sistema da ciência.

θεῷ χάρις!



[1] cf. Alexandre Kojève, Introdução à Leitura de Hegel [Rio de Janeiro: Contraponto, 2014], pág. 539-557.

[2] In: Johannes Hoffmeister (ed.), Dokument zu Hegels Entwicklung [Sttutgart: Frommann, 1936], pág. 335-352.

cf. G. W. F. Hegel, Hegel Gesammelte Werke Band 5: Schriften und Entwürfe (1799-1808) [Hamburg: Felix Meiner Verlag, 1998], pág. 455-476).

[3] Eric Voegelin, Ensaios Publicados 1966-1985 [1ª ed. São Paulo: É Realizações, 2019], pág. 393.

[4] Friedrich Nietzsche, A Vontade de Poder [1ª ed. Rio de Janeiro: Contraponto, 2008], livro III, § 749, pág. 376.

[5] cf. Hoffmeister (ed.), Op. Cit., pág. 324.

[6] Ibidem. Pág. 325.

[7] cf. G. W. F. Hegel, Fenomenologia do Espírito [2ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003], cap. VIII, § 802, pág. 539. 


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