19/02/2026

A soberba de Lutero

I

 

A honra intelectual de um autor ou de um pensador, seja em qual campo do saber for, se manifesta pelo modo como este autor ou pensador se porta diante daqueles que lhe são superiores em relação ao conhecimento; se alguém escarnece ou tenta desmerecer alguém que lhe é superior então este alguém é soberbo; é próprio dos soberbos o querer desmerecer e/ou escarnecer de quem lhes é superior em relação ao saber ou em relação a qualquer outra coisa.

Ora, entre os autores e pensadores modernos a figura de Lutero sem sombra de dúvida não pode deixar de ser mencionada; as dezenas de volumes bem extensos das obras completas de Lutero mostram um autor que escreveu muito durante sua vida: de preleções bíblicas a tratados, de disputas a respostas, de escritos condenatórios a tradução da Bíblia, de prefácios a cartas, etc., os escritos de Lutero perfazem-se durante as maiores confusões da primeira metade do séc. XVI.

E os escritos de Lutero, muitos dos quais, de boa qualidade no sentido intelectual, contém muitas informações necessárias para se entender o séc. XVI e toda a modernidade; todavia, surge uma indagação: será Lutero um homem de honra intelectual? Ou será apenas um demagogo ou sofista que se utilizou do dom da escrita e do saber para fins nefastos? Teria Lutero se enganado quanto a honra intelectual do ele desenvolvia diante da crise da Igreja Católica? Estas e outras indagações advêm amalgamadas a pergunta pela honra intelectual de Lutero.

A extensa obra de Lutero demostra um autor prolífico e que acoplou em sua obra os mais variados problemas de sua época; mas, não é difícil se perceber que falta em Lutero a honra intelectual própria a um autor digno de respeito; a importância de Lutero não se mede por sua honra intelectual - a qual lhe falta totalmente -, mas pura e simplesmente pelo fato de Lutero ser uma das personagens mais emblemáticas das crises do séc. XVI. A importância de Lutero não se dá porque ele se tornou um autor digno, uma auctoritas, mas porque é figura central nos problemas religiosos e sociais do séc. XVI.

Pois, se se comparar a honra intelectual de Lutero enquanto um autor e pensador com as autoridades do passado, se perceberá quão soberbo Lutero é; a soberba de Lutero é algo assombroso, e tão aterradora pelo fato de que todo o protestantismo o valora como um autor digno de respeito; Lutero não possui honra intelectual, não só pelo fato de ter plagiado o Alcorão e ter somatizado a vontade de poder dos otomanos, etc., mas principalmente pelo fato de não ter reconhecido sua pequenez diante daqueles que lhe eram superiores tanto intelectualmente quanto em santidade.

E à guisa de excurso - e para mencionar apenas um exemplo -, a “autoridade” de Lutero é palha seca perto da autoridade de Alberto Magno.

 

II

 

A soberba de Lutero se mostra cabalmente quando Lutero se defronta com a Summa Theologiae de Tomás de Aquino; conta-se que ao defrontar com as obras de Tomás de Aquino, Lutero queimou a Summa e as obras do aquinate em ato público; observe-se bem: Lutero queimou a maior obra escrita por um ser humano em ato público, e queimou as obras de um dos maiores gênios da humanidade; ao queimar as obras de Tomás de Aquino, Lutero procurou destruir as obras daquele a quem Cristo dissera: “escreveste bem de mim Tomás”.

E este ato infame de Lutero demonstra de maneira cabal e apodítica toda a desonra intelectual de Lutero; na verdade, o ato de Lutero demonstra sua total soberba; pois, em sentido intelectual Lutero é um pigmeu em relação a Tomás de Aquino, e isso para ser ainda um pouco bondoso com Lutero; Lutero não passa de um inútil pensador diante do Anjo da Escolástica; na verdade, a atitude de Lutero diante de alguém que como autor, como auctoritas, lhe é imensamente superior, demonstra por si que Lutero não possui nenhuma honra intelectual.

Aliás, esta infamante atitude de Lutero cristalizou o espírito do homem moderno para a desonra intelectual; pois, gosta-se ou não, as atitudes de Lutero se assomaram na cultura moderna, no sentido de permear o constructo do mundo moderno; por isso, como sabiamente Chesterton constatara, Lutero “destruiu a razão e a substituiu por sugestão”; a rejeição a razão dos homens modernos é cristalizada pela soberba de Lutero contra as autoridades da sagrada teologia, evidenciada na atitude de Lutero em queimar publicamente as obras do aquinate.

Além disso, as sugestões luteranas, provenientes de Lutero, e que se assomaram totalmente na vida moderna, tornaram os homens sujeitos a qualquer loucura intelectual que é sugerida como algo correto; mas, em contrapartida, fez os homens rejeitarem os mestres do saber; certamente, a sentença de Nietzsche bem explica isso, de que os homens do saber são aqueles que desconhecem a si mesmos; e por que? Porque rejeitaram o próprio saber, ao destruírem a razão e substitui-la por sugestão.

Deste modo, Lutero é um dos artífices, assim como os humanistas, da rejeição das autoridades do saber na vida moderna; a rejeição as autoridades que se tornou leitmotiv das ideologias modernas têm uma de suas fontes na soberba de Lutero; com efeito, a soberba de alguém que trouxe mudanças significativas para o mundo se assoma em todas as transformações que são feitas; assim, o mundo moderno, entre tantas características, também é expressão da soberba de Lutero.

 

III

 

A soberba de Lutero em relação a sagrada teologia também se demonstra pelos princípios metodológicos talhados por Lutero; como se sabe, Melanchthon sumariou o princípio metodológico do luteranismo em relação a teologia como rejeição a síntese; ora, a síntese é algo feito apenas por alguém que de fato domina o assunto sintetizado, principalmente em se tratando da sagrada teologia; assim, a rejeição de Lutero, de Melanchthon, e dos outros que são chamados de “reformadores” protestantes, para com o método de síntese, por si demonstra a total falta de honra intelectual que domina a heresia protestante.

Ora, isso comprova na prática; por exemplo, se compare as preleções de Lutero, de Zwinglio, de Calvino em relação as epístolas paulinas com as exposições de Tomás de Aquino; as preleções dos protestantes geralmente são mais extensas, e as preleções do aquinate são mais sintéticas; enquanto que as preleções dos protestantes aparentam mais “conteúdo”, as preleções do aquinate se sobrelevam com agudeza de análise e preciosas intuições espirituais. Além do que, comparece as sentenças de Lutero sobre a Ética de Aristóteles com as sentenças do aquinate; nisto se torna mais do que óbvio a superioridade intelectual de Tomás de Aquino também em assuntos filosóficos; etc.

Ainda, compare-se mais um aspecto; por exemplo, se tome o comentário de Calvino ao evangelho de São João e se o compare com o comentário de Tomás de Aquino ao evangelho de São João; ora, a superioridade teológica e expositiva do aquinate em relação a Calvino e aos autores protestantes é tão imensa que não dá para se descrever; e isso para apenas mencionar a questão do evangelho de São João; etc.

Portanto, é mais do que evidente que nas sínteses do aquinate se tem a demonstração de um homem que realmente dominou o saber teológico para fazer teologia, diferentemente dos “reformadores” protestantes, que não dominavam a sagrada teologia e mesmo assim quiseram se passar como auctoritas na ciência sagrada; como fora dito, isso se prova pela rejeição insolente e luxuriosa que Lutero, Calvino e cia., fizeram em relação a proposição da síntese teológica.

E apenas este simples aspecto é mais do que suficiente para demonstrar a desonra intelectual do protestantismo, ou mais propriamente sua raiz, a saber, a soberba de Lutero; etc.

E à guisa de conclusão, é bom se relembrar que se acostumou a desmerecer os autores escolásticos como se fossem anti-bíblicos; o mote “biblicista” de Lutero, que nada tinha de propósito em honrar a Sagrada Escritura, era apenas um subterfúgio para mascarar a soberba contra as autoridades da sagrada teologia; ora, se comparar todos os famosos ditos de Lutero sobre a autoridade da Sagrada Escritura com o discurso “Rigans Montes” ou com a preleção “Hic est Liber” de Tomás de Aquino, se constatará que Lutero é uma ameba quando fala da autoridade da Sagrada Escritura.

O principium biblicum de Tomás, e suas exposições bíblicas, são qualitativamente muito superiores as preleções de Lutero ou de qualquer outro dos “reformadores” protestantes; e isso é um fato inegável. 

θεῷ χάρις


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