02/02/2026

Equívocos

Prólogo.

 

A prudência necessária para o saudável desenvolvimento intelectual se manifesta, as mais das vezes, no exame rigoroso das próprias ideias e dos próprios escritos; a humildade inerente a quem alcançou maturidade intelectual no saber é manifesta na censura e/ou recensão dos próprios erros, seja porque foram confutados por outros, seja porque foram percebidos por si próprio. Pois, somente os imprudentes e insolentes é que se esquivam da repreensão de si mesmos por algum erro; ora, feliz é aquele que condena a si mesmo naquilo que reprova ou no que está errado.

Tendo, pois, isto em mente, ao defrontar-me com minhas próprias ideias para ver se havia necessidade de alguma revisão mais aprofundada em meus escritos, ao analisá-los de maneira geral, percebi alguns equívocos; deste modo, resolvi, de boa vontade, fornecer uma explicação mais detalhada sobre no que consiste estes equívocos e quais são as reprimendas, recensões e/ou rejeições que faço sobre os mesmos.

Evidentemente, não me refiro a todos os meus escritos anteriores, pois a maior parte dos primeiros escritos não contém equívocos ou erros teológicos, principalmente os sermões e as exposições bíblicas. No entanto, alguns de meus primeiros escritos, tais como artigos, análises, e preleções mais gerais, saíram com alguns equívocos: seja porque foram mal reportados, seja porque foram corrompidos ao editá-los com aplicativos tecnológicos, seja por qualquer outro motivo.

 

Capítulo I: Acerca de lições e exposições.

 

A primeira menção que gostaria de fazer é sobre as lições e exposições, ou qualquer das preleções “avulsas”; proferi muitas lições, e fiz várias exposições e preleções “avulsas”; as lições, muitas das quais, infelizmente foram perdidas, eram explicação de tópicos filosóficos ou teológicos a respeito de vários assuntos; as preleções “avulsas” não foram muitas, algumas foram preservadas na íntegra, outras foram perdidas, e outras sobreviveram apenas como reportações fragmentárias e/ou parciais; no entanto, as exposições bíblicas foram preservadas na íntegra.

Ora, quanto as lições, quem as ouviu ou as que restaram, talvez podem causar algum estranhamento pela simplicidade, mas dado os ouvintes e as necessidades de cada lição, não possuem equívocos neste sentido; quanto as exposições “avulsas”, algumas são de muita importância porque testemunham de meu desenvolvimento intelectual, mas como a maior parte se perdeu, restam apenas os fragmentos parciais das mesmas.

Ademais, quanto as exposições bíblicas, nestas se tem o que de melhor produzi no sentido puramente teológico, porque foram exposições bíblicas feitas ao modo de síntese escolástica, o que tanto facilita para os ouvintes atentos e desejosos de aprender da Sagrada Escritura, quanto demonstram a profunda capacidade intelectual e conhecimento teológico aos proferi-las deste modo.

Assim sendo, quanto as lições e as exposições, tenha-se isso em mente, porque não possuem equívocos, a não ser pelos “acidentes intelectuais” mencionados.

 

Capítulo II: Anotações sobre o Conceito de Graça Comum.

 

Outro escrito que considero por bem informar alguns equívocos é “Anotações sobre o Conceito de Graça Comum” (de agosto de 2021), que foram lições, conversas e notas sobre o conceito de graça comum; ora, apesar de nesta época já ter me afastado do protestantismo, e graças a Deus já estar livre da heresia protestante, considerei por bem abalizar este assunto através de um autor protestante que fora quem escrevera de forma mais aprofundada sobre este tópico.

Todavia, nas três lições proferidas, nas conversas e nas anotações feitas, pareceu que havia uma sujeição a doutrina protestante e que havia ainda participação na doutrina protestante, como alguns me indagaram e reclamaram; este escrito que foi feito para justamente evocar algumas perspectivas sobre o conceito de graça comum, que apesar de ter sido formulado mais propriamente por um autor protestante, é um conceito que remonta aos Padres da Igreja.

No entanto, que os equívocos gerados por isto sejam entendidos corretamente, porque não falei como protestante, mas simplesmente analisei a obra de um protestante, que foi o único que escreveu diretamente sobre o assunto, a fim de extrair os ensinamentos adequados sem os erros da doutrina protestante; mas, no que pareceu o contrário, que se me escuse de erro, pois não foi esta a intenção, como está claro no próprio escrito.

 

Capítulo III: Investigações sobre a Cosmovisão Cristã.

 

Outra menção que gostaria de fazer, e a mais importante, é sobre o escrito “Investigações sobre a Cosmovisão Cristã” (de setembro de 2021); ora, este obra fora o primeiro grande tratado que escrevi; inicialmente planejei esta obra para comportar sete volumes; e o primeiro volume foi publicado; todavia, saiu com um problema terrível: a edição fora corrompida; ao utilizar um aplicativo tecnológico para facilitar e apressar a edição, o aplicativo corrompeu o texto o desfigurando e fazendo outra junção em muitos aspectos que escrevi, formando quase que um novo livro; e se não fosse por um dileto leitor que me indagou sobre alguns erros, nem sequer teria me apercebido destes problemas.

Por esta razão, retirei este livro de publicação, e vou arrumá-lo até estar corretamente editado e formatado sem erros para a publicação; como foi algo que me deu muita dor de cabeça, não posso ao certo prometer quando será novamente publicado; mas, será publicado em um único tomo não mais com sete volumes, mas com sete livros, melhor dispostos e melhor sintetizados; por isso, afirmo que não desisti da análise da cosmovisão cristã do ponto de vista filosófico.

Portanto, aqueles que leram este primeiro volume defrontaram-se com erros de edição, e de formatação e um embaralhamento do conteúdo em muitas partes; num geral o conteúdo deste primeiro volume (que será o livro I na nova edição) não tem modificações, apenas a correção dos erros de edição e deste embaralhamento que formou quase que um novo conteúdo; os que leram e entenderam minhas pressuposições evocadas, afirmo que estas pressuposições continuam as mesmas, apenas são melhor dispostas e melhor sintetizadas na nova edição que será publicada daqui mais a alguns anos.

Quanto a este escrito a evocação de “equívocos” se dá por este aspecto ora mencionado.

 

Capítulo IV: Ensaios sobre Problemas Intelectuais da Teologia Moderna.

 

Outra menção de suma importância que gostaria de fazer é sobre meus escritos sobre a teologia moderna, publicados entre dezembro de 2023 e julho de 2024; estes escritos, na verdade ensaios, foram apresentados neste período, mas em sua grande maioria são provenientes de anotações a partir de leituras feitas entre 2015 e 2020; apenas não consegui publicar tais escritos antes.

Pois, vendo a confusão inerente a estes tópicos, resolvi publicar estes ensaios, os quais versam sobre problemas intelectuais da teologia moderna. Poderia ter escrito vários outros ensaios; mas decidi não tocar mais neste assunto e abandonar esta invectiva, já que a heresia protestante é insolúvel,

Ora, embora estes ensaios tenham sido publicados sob o signo protestante, não os fiz propriamente dito como um protestante[1], mas como alguém que ao ter lido e analisado os principais tópicos da teologia moderna, defrontou-se com problemas e aporias intelectuais, e decidiu escrever sobre os mesmos; neste sentido é que estes escritos sobre a teologia moderna devem ser analisados.

Além do que, apesar de não ser mais protestante, e de ter analisado tópicos concernentes a teologia protestante, posso afirmar que estes ensaios são muito melhores do que grande parte do que foi escrito pelos próprios protestantes sobre a teologia moderna.

Por isso, mantenho tais escritos em minha obra, apenas mencionando alguns equívocos gerados pelos mesmos ou que estão nos mesmos por algum motivo (seja por desatenção, seja por erro de digitação ou edição, etc.).

Ora, estes ensaios são os seguintes:

1. “O que é Teologia Evangélica?” (de dezembro 2023); um ensaio escrito para explicar no que consiste o signo de “teologia evangélica” que se tornou comum desde o final do séc. XIX; embora não se refira propriamente a chamada “igreja” evangélica, este ensaio busca explicar este signo que se tornou um ponto de inflexão da pesquisa acadêmica da teologia no séc. XX; além disso, é um ensaio que busca explicar as bases teoréticas nas quais a cristandade latino-americana está edificada, algo que é pouco elucubrado e deixado de lado pelas confissões cristãs mais antigas dado estas bases serem provenientes da heresia protestante.

2. “Teologia da Cultura - Considerações Introdutórias” (de dezembro de 2023); um ensaio escrito para apresentar os pressupostos fundamentais de uma teologia da cultura no sentido intelectual e acadêmico, valendo-me para isso de seus principais artífices na teologia acadêmica moderna.

3. “Schleiermacher e o Estudo Teológico” (de dezembro de 2023); um ensaio escrito para explicar a perspectiva de Schleiermacher sobre o estudo teológico, que é a perspectiva que abaliza o curriculum teológico na modernidade em todas as confissões cristãs. Neste sentido é que este ensaio deve ser entendido.

4. “Axiomas para a Interpretação de Schleiermacher” (de fevereiro de 2024); um ensaio escrito para explicar os principais aspectos que devem ser levados em conta para a interpretação de Schleiermacher; pois, ao ler e estudar a obra de Schleiermacher e ao consultar seus mais conhecidos interpretes, vi uma maledicência e uma inveja tão grande que destorceram e vituperaram um pensador de alto coturno sendo injustos com sua obra. Este ensaio foi escrito justamente para explicar e aplainar o que é necessário para ser justo com a interpretação da obra de Schleiermacher.

5. “Karl Barth (1886-1968) – O Homem e Sua Obra” (de fevereiro 2024); um ensaio escrito para apresentar, a guisa de introdução geral, a vida, a obra e o pensamento de Karl Barth.

6. “Sobre a Teologia de Schleiermacher” (de março de 2024); um ensaio escrito para explicar a parte acadêmica da teologia de Schleiermacher, que é algo que influi na pesquisa acadêmica da teologia desde o séc. XIX.

7. “O Discipulado de Bonhoeffer” (de maio de 2024); um ensaio que procura explicar as causas e as consequências da invectiva de Bonhoeffer a respeito do discipulado e quais seus efeitos para a cristandade como um todo.

8. “Köhlbrugge e a Oração” (de julho de 2024); um ensaio para explicar a pressuposição de um dos artífices do fundamentalismo protestante a respeito da oração; Köhlbrugge em tempos atuais é completamente desconhecido, mas boa parte das pressuposições do protestantismo fundamentalista, isto é, o chamado protestantismo anti-liberal, tem suas raízes no que este velho calvinista holandês desenvolvera no séc. XIX.

 

Capítulo V: Zwinglio para Hoje.

 

E, por fim, outro escrito que gostaria de mencionar é o ensaio “Zwinglio para Hoje” (de julho de 2024); ora, este ensaio sobre Zwinglio foi escrito para talhar a necessidade intelectual de se retomar Zwinglio, não pela qualidade ou não de sua teologia, mas para aclarar sua importância histórica; apesar de ser cultor de uma das linhas da heresia protestante, alguns tópicos da teologia de Zwinglio desenvolveram aspectos problemáticos da baixa escolástica, e principalmente porque a “teologia” de Zwinglio concatenou-se com a virada sócio-cultural da reforma da Federação Suíça de sua época, dando forma a outro tipo de princípio político além daqueles provenientes dos imperialismos que terminaram e dos que se iniciaram nos sécs. IV e V - este outro tipo de princípio sócio-político pode ser chamado de proto-capitalismo, que nasce, cresce e se desenvolve pela influência de Zwinglio.

Além disso, as invectivas em torno de se recuperar Zwinglio do pó das épocas tem por propósito mostrar toda a usurpação inerente ao calvinismo; pois, geralmente se tem Calvino como o “pai do capitalismo”, e isso é um erro; na verdade, o “pai do capitalismo” é Zwinglio; e a teologia de Zwinglio se desenvolveu de acordo com a mutação da perspectiva das altas-sociedades de sua época, muito mais do que o luteranismo nascente.

Por isso, se aparecer algum erro ou equívoco quanto a esta invectiva que tende a parecer alguma aprovação ou participação nos erros teológicos de Zwinglio e do protestantismo, saiba que isso foi um erro; e no que não tiver erro, se compreenda a necessidade intelectual de se revisitar Zwinglio e entendê-lo para se compreender a falta de honra intelectual que permeia a doutrina protestante, e não só a doutrina protestante, mas também as teorias sócio-econômicas da modernidade.

Assim sendo, no que tiver algum erro, que se entenda a partir do que fora descrito, e que se rejeite como erro ou como heresia; mas no que tiver algum proveito em função do propósito descrito, algo sumamente necessário, que se entenda corretamente o que fora descrito, principalmente porque fora uma tentativa de ser justo com um autor analisado, o qual mesmo esquecido influi em quase tudo na vida moderna.

Portanto, no que houver algum erro que se rejeite sem meio termos, mas no que não houver erro que se leve adiante esta invectiva intelectual de acordo com os propósitos evocados.

 

Capítulo VI: Considerações Finais.

 

Com isso, os meus escritos anteriores que não foram mencionados aqui não possuem equívocos, principalmente porque foram diretamente abalizados ou porque foram exposições bíblicas feitas em forma de síntese escolástica; evidentemente, estes equívocos mencionados, ainda não são retratações ao estilo de Santo Agostinho; quiçá, e se assim me permitir o Senhor, farei algo similar quando chegar a velhice, pois é algo que já tenho como resolução em meu coração; no entanto, até chegar neste estágio, tenho muito o que escrever, e rogo para que que o bondoso Deus me livre de erros deliberados nas argumentações racionais.

Entretanto, decidi escrever sobre estes equívocos, a fim de que aqueles que leem estes e outros textos que escrevi fiquem atentos quanto a estes equívocos, bem como para que evitem os deslizes que nos mesmos foram cometidos; ora, estes escritos mencionados, ou algum outro que tiver algum equívoco que faltou a minha solicitude a percepção para descrevê-los aqui, podem ser lidos sem nenhum problema; e a respeito disso, faço minhas as palavras de Santo Agostinho, que estes escritos “podem ser lidos com proveito, se se desculpam seus deslizes, ou, se não se desculpam, não se aceite o que está errado”, ao que também exorto que “todo aquele que ler estes escritos não me imite em seus erros, mas em meu progresso para melhor[2]. 

Pois, é impossível não se ter erros no que se escreve - mesmo os autores mais excelentes na escrita defrontam-se com erros no que escrevem devido as limitações humanas; todavia, em tudo o que escrevi, no que escrevo e no que escreverei não se terá nenhum sofisma, mas talvez possa ser encontrado algum paralogismo ou algum erro de escrita ou edição, tal como os que foram mencionados. E falo deste modo não por soberba ou por arrogância, mas pela certeza e sinceridade de minha diante da verdade e diante de todo o meu desenvolvimento intelectual e espiritual.

Todo o meu caminho está diante de mim e diante de Deus, em sinceridade e verdade; por esta razão posso falar nestes termos a respeito do que escrevi, do que escrevo e do que escreverei. Pois, os meus escritos não são reflexos de uma mente ociosa ou que salta voos cósmicos, mas são reflexo de uma vida ordenada na verdade, que procura glorificar a Deus em doutrinas quanto a filosofia, e que procura viver, explicar e defender a fé cristã quanto a teologia. E isso, graças a Deus, tenho feito de maneira incólume e perseverante ao longo dos anos, e o próprio Deus me é testemunha e o que escrevi comprova isso cabalmente.

No mais, louvo a Deus, tanto por ter me direcionado em tudo o que escrevi de bom, seja nas exposições bíblicas por me livrar de erros ao ter me iluminado com Seu Santo Espírito, seja nos outros escritos que me permitiu escrever ou que minha solicitude intelectual me conduziu a escrever por alguma necessidade, mas também, e principalmente por isso, por ter me feito perceber os equívocos que foram mencionados e por me fazer descrevê-los com sinceridade; a Ele glória e majestade para sempre. Amém. 



[1] Estas publicações foram disponibilizadas numa plataforma digital, em ebook, que constava na biografia do autor que o mesmo era protestante; isso não pode ser arrumado devido a plataforma digital não se ter aceitado mudar esta descrição biográfica; mas, de fato, nestas publicações, não era mais protestante, como constava na biografia do autor, ainda que as mesmas tenham saído com algum equívoco que podem tender para a heresia protestante. 

[2] Santo Agostinho, Retractationum, prol., n. 3. 


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