22/02/2026

O que é a Fenomenologia do Espírito?

I

 

O que dizer de um dos mais densos tratados filosóficos já escritos entre os homens? Alguns talvez arrolariam a necessidade de se ensinar como se deve ler este tratado, ou no que é necessário conhecer para se entender este tratado, etc.; e estes aspectos tem alguma utilidade; mas, para compreender um tratado filosófico denso, principalmente sendo um dos mais densos entre os tratados filosóficos, é necessário não somente o domínio pleno da arte da leitura, mas também muitos conhecimentos prévios.

A leitura e a compreensão da Fenomenologia do Espírito de Hegel não é algo simples e nem é algo fácil; na verdade, a compreensão da Fenomenologia do Espírito é da mais alta dificuldade: tanto pelos muitos conhecimentos prévios que são necessários, quanto pela necessidade de uma boa formação filosófica anterior a leitura deste livro; por isso, poucos, ou quase ninguém, compreenderam adequadamente este tratado de Hegel, sendo superado em toda a história da filosofia em dificuldade e densidade apenas por outra obra do próprio Hegel, a Ciência da Lógica. Com certeza, a Fenomenologia do Espírito, em grau de dificuldade e densidade, é o segundo livro mais difícil da história da filosofia.

Ora, a Fenomenologia do Espírito é um denso tratado filosófico por três razões: primeiro, pela síntese sistêmica que Hegel desenvolve neste livro, que acopla todas as áreas do saber, com observações sintéticas sobre os fatos da vida cotidiana, ao mesmo tempo em que propugna a transmogrifação de toda a compreensão sobre a realidade ao tecer observações sobre esses fatos.  

Segundo, pela concatenação precisa dos conteúdos e pelas referenciações cruzadas, que acopla todo o saber universal para os propósitos de Hegel delineados na própria Fenomenologia do Espírito, os quais já estavam antevistos em outras obras anteriores do próprio Hegel; estas referenciações são tão profundas e são de uma imensidão tão grande que se pode falar da Fenomenologia do Espírito como uma “bíblia” filosófica.

Terceiro, pelo fato que a Fenomenologia do Espírito não é uma obra de filosofia pura e simples, antes é uma obra que acopla observações históricas, observações literárias, elucubrações filosóficas, mas com um propósito teológico; Hegel trabalha toda a Fenomenologia do Espírito em argumentação filosófica (cf. Ph I-VII), para no final da mesma (cf. Ph VIII), desvelar seu propósito, que é um propósito teológico - denominado por Hegel como saber absoluto.

Deste modo, se compreende nesta tríplice razão o porque a Fenomenologia do Espírito é um tratado filosófico de profundíssima densidade; pois, não somente se tem o sentido filosófico do texto, acoplado pelo sentido literário e o sentido histórico, os quais por si já são de extrema dificuldade de compreender – e poucos foram os que compreenderam alguns destes aspectos. Mas, além disso se tem o sentido religioso (teológico no sentido do sistema hegeliano), que é de uma profundidade ainda mais abrupta - e que quase ninguém compreendeu adequadamente.

Analogamente, a compreensão do sentido filosófico seria como mergulhar até o oceano profundo (mais de 1000 metros de profundidade), e para adentrar a compreensão do sentido religioso seria como mergulhar na zona hadopelágica (mais de 6000 metros de profundidade). Em suma, esta é a densidade dupla da Fenomenologia do Espírito; e isto é colocado desta forma sem nenhuma hipérbole; aliás, é uma analogia muito adequada para se compreender no que consiste a profundidade e a densidade da Fenomenologia do Espírito.

Ademais, a densidade da Fenomenologia do Espírito é evidenciada pela linguagem utilizada; Hegel não se utilizou de linguagem filosófica demasiadamente rebuscada; mas, o linguajar de Hegel possui dois sentidos: (1) o do texto filosófico em si; e, (2) o das entrelinhas ontológicas, que por sua vez se subdivide três aspectos: símbolos, signos e enigmas; os quais, muitas das vezes, possuem mais de uma dezena de significações.

Por exemplo, um único vocábulo filosófico, o termo alienação, tem cerca de dezessete símbolos enumerados e emaranhados em diversas significações além do que significado filosófico do próprio vocábulo alienação; e este é apenas um dos vocábulos, sem falar ainda nos signos e enigmas que vem imbuídos na maior parte dos vocábulos que possuem um ou mais símbolos.

Por esta razão, é algo assaz surpreendente a quantidade de referenciações cruzadas na Fenomenologia do Espírito, o que a torna ainda mais difícil de ser compreendida adequadamente; a quantidade de símbolos, signos e enigmas que os vocábulos chave da Fenomenologia do Espírito possuem são de dezenas, sem contar as referenciações subsidiárias e secundárias, que se forem contabilizadas, sem sombra de dúvida, são de centenas e centenas.

Com isso, a Fenomenologia do Espírito, em sentido puramente filosófico, é um tratado denso por excelência; Hegel conseguiu adequar a excelência da densidade filosófica com precisão de linguagem escrita como quase nenhum outro filósofo, com a exceção dos filósofos escolásticos e de Kant; assim, o que primeiro se deve compreender na Fenomenologia do Espírito é sua densidade, e quais os graus de densidade de cada capítulo, e de cada parte de cada capítulo, os quais desmembram-se em uma imensa gama de observações filosóficas e históricas.

Compreender isso, e entender o desenrolar real da Fenomenologia do Espírito, no propósito de cada capítulo que aponta para o capítulo seguinte, é a chave hermenêutica fundamental para se entender no que consiste e quais os caminhos da Fenomenologia do Espírito; de fato, compreender isso é entender o modo, a causa e a razão da Fenomenologia do Espírito.

 

II

 

Além do que, a Fenomenologia do Espírito tem esta densidade não somente pelas propriedades ora descritas, mas também porque neste tratado Hegel concatena de modo preciso observações dialéticas sobre a história humana, não só de feitos históricos e/ou de fatos historiáveis, mas da própria vida cotidiana que é o ímpeto humano que move a história; por isso, entre as muitas observações dialéticas sobre a história humana que Hegel descreve, mencionar-se-á apenas algumas[1], com o significado dialético de tal observação e uma breve explicação sobre tal significado de acordo com o propósito de Hegel sem as infernoses da parafernalia dialética.

Vejamos, pois, estes aspectos:

1. O método filosófico (pref.); ora, no início do sistema da ciência, Hegel elucubra sobre o método filosófico; não para apresentar no que consiste o método filosófico, mas para designar o método filosófico que seguirá, o do sistema científico da verdade, no qual segundo Hegel é onde a verdade está manifesta.

2. O método pseudo-filosófico (pref.); ora, para Hegel pressupor o método do sistema científico da verdade, ele evoca os métodos pseudo-filosóficos, entre os quais, Schelling e outros filósofos; para Hegel, os métodos filosóficos que não conduzem ao sistema científico da verdade são métodos pseudo-filosóficos.

3. Crítica a epistemologia de Kant (introd.); ora, na introdução Hegel efetua uma crítica a epistemologia de Kant; resumidamente, a epistemologia de Kant é ceticismo quanto a possibilidade de conhecer; Hegel não critica propriamente isso, mas crítica Kant pelo fato de que ele estabelece o temor de errar, o qual introduz desconfiança na ciência; se se tem desconfiança na ciência não haverá confiança na possibilidade de um sistema científico da verdade; logo, o ceticismo epistemológico kantiano impede que se forme o sistema hegeliano. Por isso, o sistema hegeliano, pressuposto de modo epistemológico, inicia com uma crítica a Kant e aos frutos da filosofia kantiana em relação a epistemologia.

4. Sentença contra a teologia cristã (cap. III); ora, numa das observações dialéticas, Hegel estabelece uma sentença cabal contra a teologia cristã; pois, uma das colunas da história ocidental é a teologia cristã; assim, a observação dialética sobre a teologia cristã, em suma, é para desfigurar uma das colunas da sociedade ocidental; mas não somente para isso, pois Hegel estabelece esta sentença contra a teologia cristã porque seu propósito final é teológico, a saber: substituir a teologia cristã pelo saber absoluto.

5. A observação sobre as leis (cap. III); ora, a observação dialética sobre as leis que Hegel efetua não é para descrever a existência das leis ou para a investigação sobre a lei, mas sim para efetuar a mudança na compreensão sobre a lei; em Hegel, a lei não surge mais do direito natural, mas surge do direito da consciência; o ordenamento jurídico em Hegel não é mais jusnaturalista ou juspositivista, mas jusconscientivo; a observação sobre as leis é para transmogrifar a ideia sobre as leis e institui-las a partir da realidade da consciência. A filosofia do direito de Hegel não tem por base a razão, mas a consciência; e isso, por sua vez, gesta uma jusfilosofia subjetivista.

6. A vitória do Estado e a desforra da família (cap. VI, A); ora, noutra das observações dialéticas, Hegel pressupõe a vitória do Estado a medida da desforra da família; para Hegel, a vitória do Estado se dá quando a família é desmontada; não simplesmente o desmonte da família a ponto da mesma deixar de existir, mas a transmogrifação da vida privada da família em propriedade do Estado, bem como a transmogrifação do conceito tradicional de família; por isso, a partir de Hegel se tira a privacidade da vida familiar e a torna subserviente ao Estado. Nisto, consiste, pois, parte da vitória das ideologias históricas sobre a liberdade e sobre a religião.

7. O conflito entre o Estado e o capital privado (cap. VI, B); ora, uma das observações dialéticas mais intrigantes do ponto de vista social, é o conflito entre o Estado e o capital privado; o Estado em Hegel não é mais o facilitador do capital privado, antes o Estado se torna o empecilho para o capital privado; e a assim o Estado hegeliano se torna inimigo do ímpeto capitalista; ou mais propriamente, o Estado a partir da proposição de Hegel se torna um empecilho para o desenvolvimento econômico: não porque o desenvolvimento econômico não deva existir na concepção de Hegel, mas porque o capital privado gera dominadores da sociedade.

8. A decomposição da sociedade burguesa (cap. VI, B); ora, outra observação dialética diz respeito a decomposição da sociedade burguesa; em outros termos, para Hegel a burguesia é um mal que se destrói por si mesmo; mas, é um mal que sempre existirá nas sociedades mais desenvolvidas; pois, a sociedade burguesa é um estágio do desenvolvimento das ideologias históricas; na verdade, na concepção de Hegel, a sociedade burguesa se tornou artífice de uma sociedade que domina tudo com uma “mão-invisível”; assim, para haver o caminho para o saber absoluto, Hegel institui algumas formas de decomposição da sociedade burguesa.

9. A teologia cristã para Hegel é antropologia hegeliana (cap. VII, C); ora, noutra observação dialética, Hegel desvela seu verdadeiro propósito com o sistema da ciência, a saber, sair da religião cristã para o saber absoluto; por isso, Hegel estabelece que a teologia cristã nada mais é do que a própria antropologia hegeliana; neste sentido, a teologia se reduz e se transforma a mera antropologia – donde a crítica cirúrgica de Feuerbach; para Hegel a função da teologia cristã é ser acoplada por sua antropologia como um aspecto a mais em vista de alcançar seu verdadeiro objetivo, o saber absoluto; ou seja, Hegel designa que a teologia cristã ao defrontar-se com o saber absoluto se torna em mera antropologia.

[...]

E este é apenas um magro esquema das observações dialéticas apresentadas por Hegel; embora tais observações sejam geniais pela síntese que concatenam, tais observações são para demonstrar o fio que guia a história até seu cumprimento no próprio Hegel; as observações dialéticas sobre a história feitas por Hegel são para desembocar em seu reino do pensamento puro, a lógica hegeliana - a Segunda Realidade ou Matrix.

Por isso, estas observações dialéticas por si confluem-se no propósito de Hegel para se chegar ao saber absoluto; por isso, não são apenas observações filosóficas, mas observações dialéticas que tem uma estrutura comum em todas elas, a saber: a observação sobre determinado fato histórico ou cotidiano, não apenas se dá para descrever a significação deste fato, mas para transmogrifá-lo em outro algo, a partir daquilo que o sistema da ciência busca instaurar.

Por exemplo, se Hegel faz uma observação sobre a dialética do senhor-escravo, ou sobre a família, etc., ele o faz não com o intuito de preservar estas instituições da vida tal como as mesmas são e devem ser, mas para transmutá-las de acordo com aquilo que é instaurado no sistema da ciência. As observações dialéticas são para colocar os objetos elucubrados sobre a parafernalia dialética da lógica hegeliana; e Hegel fizera isso com maestria e precisão assombrosas.

Em suma, este é o propósito das observações dialéticas sobre a história humana que Hegel apresenta principalmente na Fenomenologia do Espírito, mas que também apresenta em outros escritos pessoais (principalmente nos chamados Dokumente), especialmente as chamadas “preleções de Jena” (Aus Jenenser Vorlesungen)[2].

 

III

 

E será que a Fenomenologia do Espírito é apenas um denso tratado filosófico? Pois, ao que parece é algo mais; e realmente, a Fenomenologia do Espírito, além de ser um denso tratado filosófico, também é algo mais, a saber: é um manual de feitiçaria; a Fenomenologia do Espírito não somente é obra de filosofia, mas também é obra de magia; aliás, a Fenomenologia do Espírito é a maior das obras de feitiçaria, dado nenhum outro livro de feitiçaria ter conseguido instituir a magia de maneira plena.

Ora, Eric Voegelin descreve a Fenomenologia do Espírito, “como uma tentativa de encontrar as Zauberworte e a Zauberkraft, as palavras mágicas e a força mágica, que determinarão o curso futuro da história, levando a ‘consciência’ até o estado de perfeição[3]; na verdade, o sistema da ciência de Hegel é a evocação da força mágica (Zauberkraft), que conduz às palavras mágicas (Zauberworte), e vice-versa; pois, sendo a Fenomenologia do Espírito um manual de feitiçaria, suas “fórmulas” grimóricas instituem não só o ato mágico, mas também um reino mágico - ou em termos filosóficos-hegelianos: não só instituem os preceitos da lógica hegeliana, mas o reino do pensamento puro, a mais perfeita obra de Hegel.

Além disso, outra forma de definir a Fenomenologia do Espírito, é através de um enigmático parágrafo de Nietzsche, onde ele fala sobre a magia do extremo: “O fascínio que combate por nós, o olho de Vênus, que torna cegos e cativa mesmo os nossos adversários, é a magia do extremo, a sedução exercida por tudo que é mais extremo[4]; e a Fenomenologia do Espírito é magia do extremo: (1) torna os homens cegos na consciência e na inteligência; e, (2) exerce uma sedução inescapável pois é a conjunção de tudo o que é mais extremo.

Assim, define-se o sistema da ciência de Hegel a partir desta enigmática sentença nietzschiana; pois, literalmente o sistema da ciência é magia do extremo: a mais extrema magia do mais profundo e mais abrupto extremo. Por esta razão, o sistema da ciência fora instaurado plenamente na vida contemporânea.

Com efeito, se pode evocar a filosofia de Hegel não como pura e simples filosofia, mas como magia; a sentença da filosofia como magia se cumpre cabalmente em Hegel; pois, na filosofia moderna Hegel é o feiticeiro por excelência e o sistema da ciência a magia por excelência.

E ao se evocar estas proposições, muitos ficam estupefatos e chegam ao ponto de escarnecer de tais declarações; mas, estas proposições são assaz verídicas, as quais se comprovam no próprio sistema da ciência; ora, se evocará, entre as dezenas e dezenas, três sentenças que comprovam o fato de que o sistema da ciência é feitiçaria, as quais são:

1. O pronunciamento das palavras mágicas (Zauberworte)[5]; ora, palavras mágicas não é uma simples alocução, nem é desatenção e nem é paralogismo; palavras mágicas são palavras mágicas, no sentido ocultista do termo; por isso, o sistema da ciência é o pronunciamento das palavras mágicas, o qual cria uma força mágica para instaurar a Segunda Realidade. Em suma, isto é ato de feitiçaria; além do que, o ato de pronunciar as palavras mágicas de acordo com Hegel dão autoridade criacional a quem as pronuncia – no caso, o próprio Hegel.

2. O conhecimento gnosial revelado pela filosofia[6] - no caso a filosofia de Hegel; para Hegel, sua filosofia desvela um conhecimento iniciático através das palavras mágicas, que preparam o iniciado para uma imersão plena no reino do pensamento puro (a Segunda Realidade); isso é magia pesada; pois, não só é uma iniciação, mas antes é a transmogrifação da própria realidade através de um grimório.

3. O conhecimento gnosial é alcançado pelo conhecimento dialético, e este conhecimento dialético é um círculo que se fecha em si mesmo, que retorna sobre si e que pressupõe seu começo apenas quando atinge seu fim[7]; ou dito em outros termos, é um círculo cabalístico, da mais extrema feitiçaria cabalística; esta “regra” do conhecimento dialético é instaurada tal como se invoca o grimório no círculo cabalístico, e possui os mesmos efeitos, já que muda-se apenas o instrumento: nos rituais cabalísticos utiliza-se sangue e outros elementos ocultistas, enquanto que Hegel utiliza-se do jogo de palavras do sistema da ciência para instaurar através da filosofia um grande grimoire. E a prisão neste círculo cabalístico tem por consequência a perdição.

[...]

Deste modo, se comprova cabalmente a partir das próprias sentenças de Hegel que a Fenomenologia do Espírito não apenas é um denso tratado filosófico com geniais observações dialéticas sobre a história humana, mas principalmente a Fenomenologia do Espírito é um manual de feitiçaria; o sistema da ciência é um grimoire, que coloca a sociedade em um estado de sonho perpétuo; analogamente, a Fenomenologia do Espírito institui à vida humana a Matrix.

A Matrix não apenas é uma metáfora-alegoria cinematográfica, a Matrix de fato fora instituída pelo sistema da ciência; obviamente não nos moldes do filme, mas com consequências ainda mais terríveis e muito mais devastadoras. A alegoria cinematográfica demonstra que existe uma Matrix, a qual domina tudo e todos sem que estes se apercebam; esta Matrix fora instituída por Hegel com o sistema da ciência, dando forma ao que se cumpre na Ciência da Lógica como reino do pensamento puro - de fato, a Matrix real é este reino do pensamento puro instituído por Hegel.

Portanto, a Fenomenologia do Espírito é um manual de feitiçaria que é instituído para colocar toda a realidade, a verdadeira realidade, a Primeira Realidade, subjugada a um estado de sonho irreal, a falsa realidade, a Segunda Realidade; pois, a esconjuração da Primeira Realidade para a Segunda Realidade sempre é um ato de feitiçaria; com isso, se entende o modo e a razão da Fenomenologia do Espírito enquanto manual de feitiçaria ou grimoire.

 

***

 

Epílogo. Ora, aqui se conclui este estudo filosófico, posto que as perspectiva evocadas, mesmo que num panorama geral, são suficientes para aclarar no que consiste a Fenomenologia do Espírito, a saber, um denso tratado filosófico, mas também num livro de feitiçaria; o sistema da ciência de Hegel é ao mesmo tempo filosofia e magia; assim, Hegel institui no pensamento teórico a densidade da elucubração filosófica, mas também institui a prisão espiritual da feitiçaria. E este é um fato inegável e indubitável; e o que fora dito basta à guisa de introdução para a compreensão de no que consiste o sistema da ciência.

θεῷ χάρις!



[1] cf. Alexandre Kojève, Introdução à Leitura de Hegel [Rio de Janeiro: Contraponto, 2014], pág. 539-557.

[2] In: Johannes Hoffmeister (ed.), Dokument zu Hegels Entwicklung [Sttutgart: Frommann, 1936], pág. 335-352.

cf. G. W. F. Hegel, Hegel Gesammelte Werke Band 5: Schriften und Entwürfe (1799-1808) [Hamburg: Felix Meiner Verlag, 1998], pág. 455-476).

[3] Eric Voegelin, Ensaios Publicados 1966-1985 [1ª ed. São Paulo: É Realizações, 2019], pág. 393.

[4] Friedrich Nietzsche, A Vontade de Poder [1ª ed. Rio de Janeiro: Contraponto, 2008], livro III, § 749, pág. 376.

[5] cf. Hoffmeister (ed.), Op. Cit., pág. 324.

[6] Ibidem. Pág. 325.

[7] cf. G. W. F. Hegel, Fenomenologia do Espírito [2ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003], cap. VIII, § 802, pág. 539. 


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