I
O que dizer de um dos mais densos tratados filosóficos
já escritos entre os homens? Alguns talvez arrolariam a necessidade de se
ensinar como se deve ler este tratado, ou no que é necessário conhecer para se
entender este tratado, etc.; e estes aspectos tem alguma utilidade; mas, para
compreender um tratado filosófico denso, principalmente sendo um dos mais
densos entre os tratados filosóficos, é necessário não somente o domínio pleno
da arte da leitura, mas também muitos conhecimentos prévios.
A leitura e a compreensão da Fenomenologia do
Espírito de Hegel não é algo simples e nem é algo fácil; na verdade, a
compreensão da Fenomenologia do Espírito é da mais alta dificuldade:
tanto pelos muitos conhecimentos prévios que são necessários, quanto pela
necessidade de uma boa formação filosófica anterior a leitura deste livro; por
isso, poucos, ou quase ninguém, compreenderam adequadamente este tratado de
Hegel, sendo superado em toda a história da filosofia em dificuldade e
densidade apenas por outra obra do próprio Hegel, a Ciência da Lógica.
Com certeza, a Fenomenologia do Espírito, em grau de dificuldade e
densidade, é o segundo livro mais difícil da história da filosofia.
Ora, a Fenomenologia do Espírito é um denso
tratado filosófico por três razões: primeiro, pela síntese sistêmica que
Hegel desenvolve neste livro, que acopla todas as áreas do saber, com
observações sintéticas sobre os fatos da vida cotidiana, ao mesmo tempo em que
propugna a transmogrifação de toda a compreensão sobre a realidade ao tecer
observações sobre esses fatos.
Segundo, pela concatenação precisa
dos conteúdos e pelas referenciações cruzadas, que acopla todo o saber
universal para os propósitos de Hegel delineados na própria Fenomenologia do
Espírito, os quais já estavam antevistos em outras obras anteriores do
próprio Hegel; estas referenciações são tão profundas e são de uma imensidão
tão grande que se pode falar da Fenomenologia do Espírito como uma “bíblia”
filosófica.
Terceiro, pelo fato que a Fenomenologia
do Espírito não é uma obra de filosofia pura e simples, antes é uma obra
que acopla observações históricas, observações literárias, elucubrações
filosóficas, mas com um propósito teológico; Hegel trabalha toda a Fenomenologia
do Espírito em argumentação filosófica (cf. Ph I-VII), para no final da
mesma (cf. Ph VIII), desvelar seu propósito, que é um propósito teológico -
denominado por Hegel como saber absoluto.
Deste modo, se compreende nesta tríplice razão o
porque a Fenomenologia do Espírito é um tratado filosófico de
profundíssima densidade; pois, não somente se tem o sentido filosófico do
texto, acoplado pelo sentido literário e o sentido histórico, os quais por si
já são de extrema dificuldade de compreender – e poucos foram os que
compreenderam alguns destes aspectos. Mas, além disso se tem o sentido
religioso (teológico no sentido do sistema hegeliano), que é de uma
profundidade ainda mais abrupta - e que quase ninguém compreendeu
adequadamente.
Analogamente, a compreensão do sentido filosófico
seria como mergulhar até o oceano profundo (mais de 1000 metros de
profundidade), e para adentrar a compreensão do sentido religioso seria como
mergulhar na zona hadopelágica (mais de 6000 metros de profundidade). Em suma,
esta é a densidade dupla da Fenomenologia do Espírito; e isto é colocado
desta forma sem nenhuma hipérbole; aliás, é uma analogia muito adequada para se
compreender no que consiste a profundidade e a densidade da Fenomenologia do
Espírito.
Ademais, a densidade da Fenomenologia do Espírito
é evidenciada pela linguagem utilizada; Hegel não se utilizou de linguagem
filosófica demasiadamente rebuscada; mas, o linguajar de Hegel possui dois
sentidos: (1) o do texto filosófico em si; e, (2) o das entrelinhas
ontológicas, que por sua vez se subdivide três aspectos: símbolos, signos e
enigmas; os quais, muitas das vezes, possuem mais de uma dezena de
significações.
Por exemplo, um único vocábulo filosófico, o termo
alienação, tem cerca de dezessete símbolos enumerados e emaranhados em diversas
significações além do que significado filosófico do próprio vocábulo alienação;
e este é apenas um dos vocábulos, sem falar ainda nos signos e enigmas que vem
imbuídos na maior parte dos vocábulos que possuem um ou mais símbolos.
Por esta razão, é algo assaz surpreendente a
quantidade de referenciações cruzadas na Fenomenologia do Espírito, o
que a torna ainda mais difícil de ser compreendida adequadamente; a quantidade
de símbolos, signos e enigmas que os vocábulos chave da Fenomenologia do
Espírito possuem são de dezenas, sem contar as referenciações subsidiárias
e secundárias, que se forem contabilizadas, sem sombra de dúvida, são de
centenas e centenas.
Com isso, a Fenomenologia do Espírito, em
sentido puramente filosófico, é um tratado denso por excelência; Hegel
conseguiu adequar a excelência da densidade filosófica com precisão de
linguagem escrita como quase nenhum outro filósofo, com a exceção dos filósofos
escolásticos e de Kant; assim, o que primeiro se deve compreender na Fenomenologia
do Espírito é sua densidade, e quais os graus de densidade de cada
capítulo, e de cada parte de cada capítulo, os quais desmembram-se em uma
imensa gama de observações filosóficas e históricas.
Compreender isso, e entender o desenrolar real da Fenomenologia
do Espírito, no propósito de cada capítulo que aponta para o capítulo
seguinte, é a chave hermenêutica fundamental para se entender no que consiste e
quais os caminhos da Fenomenologia do Espírito; de fato, compreender
isso é entender o modo, a causa e a razão da Fenomenologia do Espírito.
II
Além do que, a Fenomenologia do Espírito tem
esta densidade não somente pelas propriedades ora descritas, mas também porque
neste tratado Hegel concatena de modo preciso observações dialéticas sobre a
história humana, não só de feitos históricos e/ou de fatos historiáveis, mas da
própria vida cotidiana que é o ímpeto humano que move a história; por isso,
entre as muitas observações dialéticas sobre a história humana que Hegel
descreve, mencionar-se-á apenas algumas[1], com
o significado dialético de tal observação e uma breve explicação sobre tal
significado de acordo com o propósito de Hegel sem as infernoses da
parafernalia dialética.
Vejamos, pois, estes aspectos:
1. O método filosófico (pref.); ora, no início do
sistema da ciência, Hegel elucubra sobre o método filosófico; não para
apresentar no que consiste o método filosófico, mas para designar o método
filosófico que seguirá, o do sistema científico da verdade, no qual segundo
Hegel é onde a verdade está manifesta.
2. O método pseudo-filosófico (pref.); ora, para Hegel
pressupor o método do sistema científico da verdade, ele evoca os métodos
pseudo-filosóficos, entre os quais, Schelling e outros filósofos; para Hegel,
os métodos filosóficos que não conduzem ao sistema científico da verdade são
métodos pseudo-filosóficos.
3. Crítica a epistemologia de Kant (introd.); ora, na
introdução Hegel efetua uma crítica a epistemologia de Kant; resumidamente, a
epistemologia de Kant é ceticismo quanto a possibilidade de conhecer; Hegel não
critica propriamente isso, mas crítica Kant pelo fato de que ele estabelece o
temor de errar, o qual introduz desconfiança na ciência; se se tem desconfiança
na ciência não haverá confiança na possibilidade de um sistema científico da
verdade; logo, o ceticismo epistemológico kantiano impede que se forme o
sistema hegeliano. Por isso, o sistema hegeliano, pressuposto de modo
epistemológico, inicia com uma crítica a Kant e aos frutos da filosofia
kantiana em relação a epistemologia.
4. Sentença contra a teologia cristã (cap. III); ora,
numa das observações dialéticas, Hegel estabelece uma sentença cabal contra a
teologia cristã; pois, uma das colunas da história ocidental é a teologia
cristã; assim, a observação dialética sobre a teologia cristã, em suma, é para
desfigurar uma das colunas da sociedade ocidental; mas não somente para isso,
pois Hegel estabelece esta sentença contra a teologia cristã porque seu
propósito final é teológico, a saber: substituir a teologia cristã pelo saber
absoluto.
5. A observação sobre as leis (cap. III); ora, a
observação dialética sobre as leis que Hegel efetua não é para descrever a
existência das leis ou para a investigação sobre a lei, mas sim para efetuar a
mudança na compreensão sobre a lei; em Hegel, a lei não surge mais do direito
natural, mas surge do direito da consciência; o ordenamento jurídico em Hegel
não é mais jusnaturalista ou juspositivista, mas jusconscientivo; a
observação sobre as leis é para transmogrifar a ideia sobre as leis e
institui-las a partir da realidade da consciência. A filosofia do direito de
Hegel não tem por base a razão, mas a consciência; e isso, por sua vez, gesta
uma jusfilosofia subjetivista.
6. A vitória do Estado e a desforra da família (cap.
VI, A); ora, noutra das observações dialéticas, Hegel pressupõe a vitória do
Estado a medida da desforra da família; para Hegel, a vitória do Estado se dá
quando a família é desmontada; não simplesmente o desmonte da família a ponto
da mesma deixar de existir, mas a transmogrifação da vida privada da família em
propriedade do Estado, bem como a transmogrifação do conceito tradicional de
família; por isso, a partir de Hegel se tira a privacidade da vida familiar e a
torna subserviente ao Estado. Nisto, consiste, pois, parte da vitória das
ideologias históricas sobre a liberdade e sobre a religião.
7. O conflito entre o Estado e o capital privado (cap.
VI, B); ora, uma das observações dialéticas mais intrigantes do ponto de vista
social, é o conflito entre o Estado e o capital privado; o Estado em Hegel não
é mais o facilitador do capital privado, antes o Estado se torna o empecilho
para o capital privado; e a assim o Estado hegeliano se torna inimigo do ímpeto
capitalista; ou mais propriamente, o Estado a partir da proposição de Hegel se
torna um empecilho para o desenvolvimento econômico: não porque o
desenvolvimento econômico não deva existir na concepção de Hegel, mas porque o
capital privado gera dominadores da sociedade.
8. A decomposição da sociedade burguesa (cap. VI, B);
ora, outra observação dialética diz respeito a decomposição da sociedade
burguesa; em outros termos, para Hegel a burguesia é um mal que se destrói por
si mesmo; mas, é um mal que sempre existirá nas sociedades mais desenvolvidas;
pois, a sociedade burguesa é um estágio do desenvolvimento das ideologias
históricas; na verdade, na concepção de Hegel, a sociedade burguesa se tornou
artífice de uma sociedade que domina tudo com uma “mão-invisível”; assim, para
haver o caminho para o saber absoluto, Hegel institui algumas formas de
decomposição da sociedade burguesa.
9. A teologia cristã para Hegel é antropologia
hegeliana (cap. VII, C); ora, noutra observação dialética, Hegel desvela seu
verdadeiro propósito com o sistema da ciência, a saber, sair da religião cristã
para o saber absoluto; por isso, Hegel estabelece que a teologia cristã nada
mais é do que a própria antropologia hegeliana; neste sentido, a teologia se
reduz e se transforma a mera antropologia – donde a crítica cirúrgica de
Feuerbach; para Hegel a função da teologia cristã é ser acoplada por sua
antropologia como um aspecto a mais em vista de alcançar seu verdadeiro
objetivo, o saber absoluto; ou seja, Hegel designa que a teologia cristã ao
defrontar-se com o saber absoluto se torna em mera antropologia.
[...]
E este é apenas um magro esquema das observações
dialéticas apresentadas por Hegel; embora tais observações sejam geniais pela
síntese que concatenam, tais observações são para demonstrar o fio que guia a
história até seu cumprimento no próprio Hegel; as observações dialéticas sobre
a história feitas por Hegel são para desembocar em seu reino do pensamento
puro, a lógica hegeliana - a Segunda Realidade ou Matrix.
Por isso, estas observações dialéticas por si
confluem-se no propósito de Hegel para se chegar ao saber absoluto; por isso,
não são apenas observações filosóficas, mas observações dialéticas que tem uma
estrutura comum em todas elas, a saber: a observação sobre determinado fato
histórico ou cotidiano, não apenas se dá para descrever a significação deste
fato, mas para transmogrifá-lo em outro algo, a partir daquilo que o sistema da
ciência busca instaurar.
Por exemplo, se Hegel faz uma observação sobre a
dialética do senhor-escravo, ou sobre a família, etc., ele o faz não com o
intuito de preservar estas instituições da vida tal como as mesmas são e devem
ser, mas para transmutá-las de acordo com aquilo que é instaurado no sistema da
ciência. As observações dialéticas são para colocar os objetos elucubrados
sobre a parafernalia dialética da lógica hegeliana; e Hegel fizera isso com
maestria e precisão assombrosas.
Em suma, este é o propósito das observações dialéticas
sobre a história humana que Hegel apresenta principalmente na Fenomenologia
do Espírito, mas que também apresenta em outros escritos pessoais
(principalmente nos chamados Dokumente), especialmente as chamadas “preleções
de Jena” (Aus Jenenser Vorlesungen)[2].
III
E será que a Fenomenologia do Espírito é apenas
um denso tratado filosófico? Pois, ao que parece é algo mais; e realmente, a Fenomenologia
do Espírito, além de ser um denso tratado filosófico, também é algo mais, a
saber: é um manual de feitiçaria; a Fenomenologia do Espírito não
somente é obra de filosofia, mas também é obra de magia; aliás, a Fenomenologia
do Espírito é a maior das obras de feitiçaria, dado nenhum outro livro de
feitiçaria ter conseguido instituir a magia de maneira plena.
Ora, Eric Voegelin descreve a Fenomenologia do
Espírito, “como uma tentativa de encontrar as Zauberworte e a
Zauberkraft, as palavras mágicas e a força mágica, que determinarão o curso
futuro da história, levando a ‘consciência’ até o estado de perfeição”[3];
na verdade, o sistema da ciência de Hegel é a evocação da força mágica (Zauberkraft),
que conduz às palavras mágicas (Zauberworte), e vice-versa; pois, sendo
a Fenomenologia do Espírito um manual de feitiçaria, suas “fórmulas”
grimóricas instituem não só o ato mágico, mas também um reino mágico - ou em
termos filosóficos-hegelianos: não só instituem os preceitos da lógica
hegeliana, mas o reino do pensamento puro, a mais perfeita obra de Hegel.
Além disso, outra forma de definir a Fenomenologia
do Espírito, é através de um enigmático parágrafo de Nietzsche, onde ele
fala sobre a magia do extremo: “O fascínio que combate por nós, o olho de
Vênus, que torna cegos e cativa mesmo os nossos adversários, é a magia do
extremo, a sedução exercida por tudo que é mais extremo”[4]; e
a Fenomenologia do Espírito é magia do extremo: (1) torna os homens
cegos na consciência e na inteligência; e, (2) exerce uma sedução inescapável
pois é a conjunção de tudo o que é mais extremo.
Assim, define-se o sistema da ciência de Hegel a
partir desta enigmática sentença nietzschiana; pois, literalmente o sistema da
ciência é magia do extremo: a mais extrema magia do mais profundo e mais
abrupto extremo. Por esta razão, o sistema da ciência fora instaurado
plenamente na vida contemporânea.
Com efeito, se pode evocar a filosofia de Hegel não
como pura e simples filosofia, mas como magia; a sentença da filosofia como
magia se cumpre cabalmente em Hegel; pois, na filosofia moderna Hegel é o
feiticeiro por excelência e o sistema da ciência a magia por excelência.
E ao se evocar estas proposições, muitos ficam
estupefatos e chegam ao ponto de escarnecer de tais declarações; mas, estas
proposições são assaz verídicas, as quais se comprovam no próprio sistema da
ciência; ora, se evocará, entre as dezenas e dezenas, três sentenças que
comprovam o fato de que o sistema da ciência é feitiçaria, as quais são:
1. O pronunciamento das palavras mágicas (Zauberworte)[5]; ora, palavras mágicas não é uma
simples alocução, nem é desatenção e nem é paralogismo; palavras mágicas são
palavras mágicas, no sentido ocultista do termo; por isso, o sistema da ciência
é o pronunciamento das palavras mágicas, o qual cria uma força mágica para
instaurar a Segunda Realidade. Em suma, isto é ato de feitiçaria; além do que,
o ato de pronunciar as palavras mágicas de acordo com Hegel dão autoridade
criacional a quem as pronuncia – no caso, o próprio Hegel.
2. O conhecimento gnosial revelado pela
filosofia[6] -
no caso a filosofia de Hegel; para Hegel, sua filosofia desvela um conhecimento
iniciático através das palavras mágicas, que preparam o iniciado para uma
imersão plena no reino do pensamento puro (a Segunda Realidade); isso é magia
pesada; pois, não só é uma iniciação, mas antes é a transmogrifação da própria
realidade através de um grimório.
3. O conhecimento gnosial é alcançado pelo
conhecimento dialético, e este conhecimento dialético é um círculo que se fecha
em si mesmo, que retorna sobre si e que pressupõe seu começo apenas quando
atinge seu fim[7];
ou dito em outros termos, é um círculo cabalístico, da mais extrema feitiçaria
cabalística; esta “regra” do conhecimento dialético é instaurada tal como se
invoca o grimório no círculo cabalístico, e possui os mesmos efeitos, já que
muda-se apenas o instrumento: nos rituais cabalísticos utiliza-se sangue e
outros elementos ocultistas, enquanto que Hegel utiliza-se do jogo de palavras
do sistema da ciência para instaurar através da filosofia um grande grimoire.
E a prisão neste círculo cabalístico tem por consequência a perdição.
[...]
Deste modo, se comprova cabalmente a partir das
próprias sentenças de Hegel que a Fenomenologia do Espírito não apenas é
um denso tratado filosófico com geniais observações dialéticas sobre a história
humana, mas principalmente a Fenomenologia do Espírito é um manual de
feitiçaria; o sistema da ciência é um grimoire, que coloca a sociedade
em um estado de sonho perpétuo; analogamente, a Fenomenologia do Espírito
institui à vida humana a Matrix.
A Matrix não apenas é uma metáfora-alegoria
cinematográfica, a Matrix de fato fora instituída pelo sistema da
ciência; obviamente não nos moldes do filme, mas com consequências ainda mais
terríveis e muito mais devastadoras. A alegoria cinematográfica demonstra que
existe uma Matrix, a qual domina tudo e todos sem que estes se
apercebam; esta Matrix fora instituída por Hegel com o sistema da
ciência, dando forma ao que se cumpre na Ciência da Lógica como reino do
pensamento puro - de fato, a Matrix real é este reino do pensamento puro
instituído por Hegel.
Portanto, a Fenomenologia do Espírito é um
manual de feitiçaria que é instituído para colocar toda a realidade, a
verdadeira realidade, a Primeira Realidade, subjugada a um estado de sonho
irreal, a falsa realidade, a Segunda Realidade; pois, a esconjuração da
Primeira Realidade para a Segunda Realidade sempre é um ato de feitiçaria; com
isso, se entende o modo e a razão da Fenomenologia do Espírito enquanto
manual de feitiçaria ou grimoire.
***
Epílogo. Ora, aqui se conclui este
estudo filosófico, posto que as perspectiva evocadas, mesmo que num panorama
geral, são suficientes para aclarar no que consiste a Fenomenologia do
Espírito, a saber, um denso tratado filosófico, mas também num livro de
feitiçaria; o sistema da ciência de Hegel é ao mesmo tempo filosofia e magia; assim,
Hegel institui no pensamento teórico a densidade da elucubração filosófica, mas
também institui a prisão espiritual da feitiçaria. E este é um fato inegável e
indubitável; e o que fora dito basta à guisa de introdução para a compreensão
de no que consiste o sistema da ciência.
θεῷ χάρις!
[1] cf.
Alexandre Kojève, Introdução à Leitura de Hegel [Rio de Janeiro:
Contraponto, 2014], pág. 539-557.
[2] In: Johannes Hoffmeister (ed.), Dokument zu Hegels
Entwicklung [Sttutgart: Frommann, 1936], pág. 335-352.
cf. G. W. F. Hegel, Hegel Gesammelte Werke Band 5:
Schriften und Entwürfe (1799-1808) [Hamburg: Felix Meiner Verlag, 1998],
pág. 455-476).
[3] Eric
Voegelin, Ensaios Publicados 1966-1985 [1ª ed. São Paulo: É Realizações,
2019], pág. 393.
[4] Friedrich
Nietzsche, A Vontade de Poder [1ª ed. Rio de Janeiro: Contraponto,
2008], livro III, § 749, pág. 376.
[5] cf. Hoffmeister (ed.), Op. Cit., pág. 324.
[6] Ibidem.
Pág. 325.
[7] cf. G. W.
F. Hegel, Fenomenologia do Espírito [2ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes,
2003], cap. VIII, § 802, pág. 539.
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