§ 1
A manifestação da Glória do Senhor é clarividente na
Eleição, na Providência e na Restauração do povo de Deus; esta Glória,
portanto, é o objeto mais fulgurante com o qual os cristãos nesta vida
concentram-se e dedicam-se a contemplar e a experenciar.
§ 2
A contemplação da Glória do Senhor por aqueles que
creem é fruto do holofote pneumático, o qual é pressuposto fundamental do múnus
da teologia evangélica, pois abaliza e sublima este encargo e dá-lhe amplo
escopo intelectual e espiritual sob o Guiar do Espírito Santo.
§ 3
A crença no Espírito Santo é princípio para a formação
e desenvolvimento da teologia; é o Espírito Santo quem guia o caminho da
teologia; pois, somente assim a teologia vinga, isto é, se estabelece, cresce e
desenvolve, pois fora guiada pelo Divino Preceptor; portanto, a teologia sempre
é teologia pneumática; em sentido credal, é teologia do terceiro artigo.
§ 4
A teologia tem defronte de si o Evangelho, isto é, a
promessa e a graça; mas este mesmo Evangelho é o que se coloca à teologia como
mandamento e juízo; o Evangelho conquanto seja promessa também é mandamento, e
conquanto seja graça também é juízo. Esta é a estrutura dialógica da teologia
evangélica: o Evangelho como promessa e graça, mas ao mesmo tempo como
mandamento e juízo.
§ 5
A fé é uma realidade singular; é a realidade do
relacionamento entre Deus e os homens por meio de Jesus Cristo; uma realidade
de promessa e mandamento, no tempo e na eternidade, que se inicia pela
predestinação, consuma-se pelo chamado, confirma-se pela justificação e
conclui-se na glorificação (cf. Rm 8.30).
§ 6
A fé é um vocábulo polissêmico; na religião cristã, o
termo fé é designativo para várias questões e situações bíblicas e
existenciais, que se figuram com o prisma englobante do que a fé significa e
representa; mas esta polissemia do vocábulo fé, é uma polissemia dentro de um âmbito
comum; conquanto as outras religiões falem de fé, todavia, a estrutura polissêmica
da fé, isto é, toda a riqueza que este vocábulo tem em si imbuída, é encontrado
somente no cristianismo, a religião da fé em Jesus Cristo.
§ 7
A fé, portanto, em se tratando do cristianismo, a
única religião a desenvolver um conceito e uma estruturação da fé de forma
plena, lógica e orgânica, tem toda uma significação harmônica e com riquezas de
distinções; esta significação harmônica, refere-se a que em todas as
conceituações da fé, que a fé traz em si imbuídas são complementares umas às
outras, e subsequentes umas às outras; e esta riqueza de distinções refere-se a
que nas conceituações que a fé traz imbuída em si, as distinções particulares
nestas conceituações são por demais efusivas e dão uma gama de princípios e
proposições sobre a sublimidade da fé cristã.
§ 8
A significação harmônica da fé tem uma estrutura
lógica, orgânica e genética; pois, tal estrutura possui uma harmonia em todas
as suas partes e significados; esta significação, portanto, é sistêmica; deste
modo, a análise desta significação tem uma estruturação sistêmica-sistemática;
não que a fé seja haurida por esta estruturação, mas que através desta a
compreensão sobre a fé torna-se mais latente. E a significação da fé tem cinco
pressuposições fundamentais: (i) a fé é expressão para designar a crença no ato
revelatório de Deus; (ii) a fé é expressão para designar o relacionamento entre
Deus e os homens; (iii) a fé é expressão para designar a comunhão entre Deus e
os homens; (iv) a fé é expressão para designar a prevalência de Deus em toda a
extensão da fé; (v) a fé é expressão para designar o modo de viver daqueles que
creem.
§ 9
A
designação da teologia como ciência é para melhor servir ao propósito primário
da teologia, isto é, ser teologia para a Igreja; mas ao mesmo tempo, para que a
teologia também possa contribuir no estudo das ciências comparadas, com as
outras ciências, principalmente com as ciências naturais, dando forma ao que
fora definido como “teologia científica”. A teologia científica é a
utilização da teologia na esfera das ciências naturais; é o aproveitamento do
escopo teológico, em sua amplidão, para influenciar o estudo e a investigação
teórica sobre os fenômenos naturais, bem como para que as perspectivas das
ciências não sejam destoadas por reducionismos teóricos. A teologia científica
tem uma perspectiva que sublima a compreensão que se deve ter da capacidade da
teologia de atuar no campo das ciências como a ciência que ilumina o saber
humano com a luz de um conhecimento superior. Por isso, as outras ciências são
subsidiárias a teologia; este conceito ajuda muito a clarear a questão do
encontro da teologia com as outras ciências, pois sendo a teologia a rainha das
ciências, as outras ciências são subsidiárias a ciência sagrada, já que o
objeto da ciência sagrada é Deus, e as outras ciências analisam a realidade, a
qual fora criada por Deus.
§ 10
A
religião é vocábulo fundamental da reflexão teológica e pressuposto irrevogável
da análise dogmática; pois, a revelação abole a falsas religiões e tornam
evidente a verdadeira religião; e isto demonstra que tanto a religião quanto a
revelação se inter-relacionam na reflexão teológica, e que aquela precede esta
na análise dogmática, tanto por ordem racional quanto por preceito
revelacional.
§ 11
A
reflexão sobre a fé se efetua somente na e a partir da religião; sem religião
não há reflexão sobre a fé; logo, a reflexão sobre a fé é permeada de maneira
indiscutível pelo princípio da religião; e ainda que a fé não se reduza somente
ao ato da religião, a reflexão sobre a fé se evidencia a partir deste ato, o
qual é expressão pública da fé, principalmente pelos atos elícitos de
misericórdia.
§ 12
A
religião deve ser valorada porque é um aspecto indissolúvel da vida humana, e
porque onde há a religião firme, sóbria e forte, se dissolve as aporias que
deificam um aspecto da realidade, tal como o racionalismo, ou o empirismo, etc.
A religião verdadeira é um freio e uma proteção contra a deificação de um
aspecto da realidade criada; por isso, a religião deve ser valorada para que
não se descambe em racionalismo ou empirismo, ou qualquer outro “ismo”
deificatório.
§ 13
O
vocábulo religião deve ser definido, pois é um dos vocábulos fundamentais da
reflexão teológica; e a correta definição e compreensão do vocábulo religião
pontifica o caminho para se entender o uso corrente da religião, naquilo que a
manifestação religiosa infere diretamente na vida humana. E com isso se
compreende que a religião de alguém se manifesta pelo que essa pessoa prática. A
conduta demonstra qual a crença religiosa.
§ 14
A
religião possui um uso corrente, um uso comum em todos os seres humanos; isto
evidencia a universalidade da ideia de religião, que está presente em todos os
seres humanos, já que a ação humana por si intrinsecamente constitui-se de um
ato religioso.
§ 15
A
compreensão sobre a religião é amalgamada a existência teológica; o estudo da
religião é parte integrante da reflexão teológica, no todo das disciplinas
teológicas, tanto como preâmbulo a estas (theologiae praecognitis),
quanto como parte da apologética inerente a cada uma das disciplinas
teológicas. Deste modo, como a teologia lida com Deus, mas também com o ser
humano, então há de lidar necessariamente com a religião, tanto na perspectiva
humana, através da natureza e da consciência, quanto na perspectiva divina,
através da revelação.
§ 16
A
teologia, de acordo com o preceito origenista, é fundamentalmente explicação da
Sagrada Escritura; pois, é uma teologia que é abalizada, justificada e julgada
pela própria Palavra de Deus; este é o encargo que permeia a ciência teológica;
e o que afere este encargo é a própria Glória do Senhor, onde o próprio Deus,
ao se dar a conhecer aos homens, coloca diante desses a Vida, o Belo, a Bondade
e a Verdade. Neste encargo que sempre se renova e sempre é impulsionado pelo
Senhor, o contemplar a Glória é fruto do holofote pneumático presente em toda a
Revelação, e que constitui um princípio fundamental para que o múnus da teologia
seja entendido desde suas fontes e raízes mais profundas, desvelando aos homens
o propósito de toda reflexão teológica, a saber: a Glória de Deus na face de
Cristo através do Espírito.
§ 17
A santificação é ponto de partida para a investigação
da doutrina cristã; e isso, por sua vez, tem quatro implicações: (i) Deus é a
causa da santificação; deste modo, analisar a doutrina é dar toda glória a Deus
no ato santificador que Ele opera nos cristãos. (ii) A doutrina ensina a
entender as diferenciações entre a liberdade para viver e a obra soberana de
Deus em nossa salvação; por isso, a santificação pode-se ser chamada de dogma
ético por excelência. (iii) A doutrina demonstra que a santificação se liga
diretamente com a eleição, que conquanto não seja objeto de estudo específico
da doutrina da santificação, a eleição está imbuída em todo o múnus da
santificação. (iv) A doutrina demonstra que a vontade de Deus, Sua Soberana
vontade, permanece inacessível aos homens naturais; todavia, o próprio Deus em
Sua Revelação dá a conhecer aspectos de Sua Vontade, para que os eleitos possam
adorá-Lo, reverenciá-Lo e prosternar-se diante de Sua Majestade. Por isso, entender
a soberania de Deus a luz da santificação é fonte de consolo, de ânimo, de
força, de edificação e de esperança, pois, desvela-se aos eleitos cada vez mais
a expressão paulina: “E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente
para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados por seu decreto”
(Rm 8.28).
§ 18
A santificação é um imperativo bíblico fundamental;
pois, cerca de mil vezes no Antigo Testamento, e cerca de trezentas vezes no
Novo, o vocábulo santificação (ou correlatos próximos) aparece em toda a
Escritura. É como se em cada capítulo da Bíblia, a raiz da palavra
santificação, santidade, aparecesse, anunciando o propósito de nossa salvação e
o rumo de nosso viver e a forma do testemunho cristão, a saber: em santidade de
vida. Por isso, para contemplar as maravilhas de Deus, para entender as
gloriosas bênçãos que Ele nos outorga em Cristo, é necessário a santificação,
para que os mistérios de Deus sejam desvelados cada vez mais. O mistério da
divindade, um Mistério inesgotável, só é estudado na oração e através da
oração; e sabemos, pela expressão paulina, que quem nos ajuda na oração é o
Espírito Santo (cf. Rm 8.26).
§ 19
No batismo de Cristo, o próprio Deus começa a desvelar
os mistérios ocultos desde a eternidade, e a desvelar os mistérios velados da
Antiga Aliança; pois, o batismo de Cristo é onde é desvelado o mistério da
justiça divina, e onde a bendita Santíssima Trindade é vista no raiar da Nova
Aliança; todo o evento do batismo de Cristo anuncia a Nova Aliança bem como é a
sublimação de todas as revelações veterotestamentárias, pois o batismo de
Cristo é sinal que as revelações e as instituições do Antigo Testamento tem em
Cristo o seu pleno cumprimento, donde a vida, sofrimentos, morte, ressurreição
e ascensão de Cristo tornam o centro da Nova Aliança e de toda a revelação, bem
como consumam o Velho Testamento e confirmam o Novo Testamento.
§ 20
A revelação de Deus em Cristo, que cumpre toda a
revelação veterotestamentária - aliás, também cumpre toda a revelação natural
nos diversos modos que fora formada na reflexão racional - é atestada pelo
batismo de Cristo. Por que pelo batismo? Porque a figura do batismo tem
estreita conexão com os modos da revelação instituídos por Deus para a formação
de Seu povo na Antiga Aliança; mas também a figura do batismo é eminentemente
dialética, pois diante da realidade do batismo, na significação singular do
termo, é anúncio da vida e da morte, do sim e do não, do já e ainda não, da
justiça imputada e da justiça implantada, do tempo e da eternidade. Aliás,
porque a figura do descer e do levantar da água do batismo, como na formula
batismal, refere-se, respectivamente, a morte e a ressurreição de Cristo.
§ 21
A noção da cosmovisão revelacional conduz ao entendimento sobre como a revelação deve ser entendida em relação a cosmovisão, o que consequentemente leva ao entendimento da aplicação da cosmovisão revelacional as várias esferas da vida e do conhecimento. Para isso, é necessário falar sobre a teoria tridimensional da revelação, isto é, a teoria sobre a revelação formada de três dimensões básicas, as quais são muito necessárias às afirmações teoréticas que são amalgamas a análise da cosmovisão cristã. Com isso, para clarificar e explicar o entendimento a respeito da teoria tridimensional da cosmovisão, é necessário elucidá-la num argumento quádruplo: (i) A explicação do fato, do valor e da norma da cosmovisão revelacional. (ii) A eficácia, o fundamento e a vigência da cosmovisão revelacional. (iii) A ampliação da teoria tridimensional da cosmovisão, em respectivamente: apriorisma, axioma e ponto arquimédico. (iv) A concreção da ampliação da teoria tridimensional da cosmovisão.
***
E terminam aqui estas teses sobre generalidades
teológicas. θεῷ χάρις!
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