05/07/2023

Nótula a respeito da ideia de regulamentação

1. “A liberdade, excelente bem da natureza e exclusivo apanágio dos seres dotados de inteligência ou de razão, confere ao homem uma dignidade”; esta expressão de Leão XIII, constitui um belo testemunho do que é a liberdade, a qual confere dignidade ao ser humano; e diante de tão bela expressão, se apercebe os perigos que a ela se concorrem, principalmente em tempos hodiernos, onde se tem tanto infligido contra a liberdade, e pior, os estamentos do Estado tem lutado institucionalmente contra a liberdade.

2. Diante de tal situação, urge se levantar a voz para a defender a liberdade; seja diante dos falsos religiosos, que querem usurpar e inferir a liberdade de outra pessoa; seja diante de magistrados que movidos pelo ódio comunista estão a se colocar contra a liberdade e a usar da magistratura para afligirem o povo e desrespeitarem a razão; seja diante dos déspotas, os políticos hediondos, que querem matar a liberdade; por isso, seja diante de quem for, grande ou pequenos, ricos ou pobres, poderosos ou pessoas comuns, doutores ou analfabetos, a liberdade deve ser defendida; pois, ao se defender e proteger a liberdade dos ataques hórridos que a mesma tem sofrido, se defende e se protege a própria dignidade humana; pois, sem liberdade não há dignidade.

3. Com isso, pretende-se demonstrar que não existem bases teológicas, nem bases filosóficas, nem bases racionais, nem bases jurídicas, nem bases sociológicas, nem bases psicológicas para que a liberdade seja atacada; e mesmo diante das novas roupagens dos ataques a liberdade, sob o epíteto de “regulamentação”, a liberdade deve ser defendida; por isso, não a destruição da liberdade, não a regulamentação; e é justamente contra esta nova roupagem da destruição da liberdade, a regulamentação, é que se deve levantar voz em prol da liberdade; contra a regulamentação é que se deve posicionar diante da verdade e diante da justiça em prol da liberdade.

4. Contra a regulamentação deve ser o lema das pessoas de bem e dos cristãos; não existe cristãos verdadeiros que sejam favoráveis a morte da liberdade, e não existem conservadores verdadeiros que sejam favoráveis a qualquer que seja o tipo de regulamentação. E é função da Igreja, como guardiã da liberdade, bem como é função dos conservadores, como arautos da liberdade na política, se pronunciarem com um severo não a qualquer forma de não-liberdade, mesmo que esteja velada sob o rótulo de regulamentação.

 

I. O primeiro aspecto a ser salientado é: a regulamentação não tem bases teológicas.

 

5. A regulamentação não bases teológicas, porque a ciência sagrada, em suas reflexões sobre este princípio, desde os primórdios da história da igreja, tem a conclusão de que a liberdade não pode ser inferida por nenhuma forma de regulamentação; e como a regulamentação é apenas uma nova roupagem para a não-liberdade, pois é uma forma de não-liberdade, logo, qualquer forma de regulamentação não tem bases teológicas; portanto, a não liberdade é condenada severamente pela ciência sagrada.

6. E a acepção inicial de que a regulamentação não tem bases teológicas afere uma questão fundamental, a saber, sobre a liberdade religiosa; a partir da noção de liberdade religiosa, promulgada na Declaração Universal dos Direitos Humanos, sabe-se que tudo aquilo que de maneira específica infere a proposição da liberdade religiosa, infere diretamente as proposições que são a base da ideia da liberdade em se tratando dos Direitos Humanos; pois, a ideia da Declaração Universal dos Direitos Humanos, provêm de Franklin D. Roosevelt, a partir de seu inesquecível discurso “The four freedoms” (as quatro liberdades); a ideia dos Direitos Humanos, provêm da ideia da liberdade, das quatro liberdades como elencadas por Franklin Roosevelt, e como já haviam sido anunciadas por tantos outros; por isso, se qualquer uma destas quatro liberdades for desrespeitada, as outras três o são igualmente; donde, ao se falar de liberdade religiosa também se fala de liberdade de imprensa, de liberdade para viver e de liberdade contra a miséria; e a liberdade religiosa é a primeira razão do porque a ciência sagrada é veementemente contrária a qualquer forma de regulamentação; e as outras razões, respectivamente, se estabelecem a partir da realidade das outras três liberdades.

7. E não somente pela acepção geral a respeito da liberdade que qualquer forma de regulamentação não possui bases teológicas; mas principalmente pela acepção teológica da própria liberdade; a liberdade é um vocábulo racional, mas também é um vocábulo revelacional; e ao ser um vocábulo revelacional, a liberdade é parte integrante da existência do povo de Deus; mesmo que biblicamente a liberdade tenha duas conotações diversas, a liberdade da vontade e a liberdade para viver exteriormente, como um todo a ideia de liberdade proveniente da Sagrada Escritura constitui um precioso testemunho sobre a inviolabilidade da liberdade; teologicamente, a liberdade para viver exteriormente; por isso, a partir da ciência sagrada sabe-se que a liberdade é inviolável; logo, qualquer forma de não-liberdade, ainda que velada sob o mote de “regulamentação”, é completamente rejeitada pela ciência sagrada, a qual atesta, confirma, corrobora, robora, testifica e ratifica a inviolabilidade da liberdade. Portanto, da ciência sagrada provêm um severo “Não” a qualquer forma de regulamentação.

 

II. O segundo aspecto a ser salientado é: a regulamentação é rechaçada pela Igreja.

 

8. A regulamentação, como uma nova forma de censura, como princípio da não-liberdade, é rechaçada pela Igreja, pelo simples fato de a Igreja ser guardiã da liberdade, como bem afirmara Leão XIII; portanto, toda forma de não-liberdade, ainda que venha assegurada sobre sob o rótulo de regulamentação, é rechaçada pela Igreja pelo de que a liberdade tem de existir plenamente e não regulada sob alguma forma; qualquer forma de regulamentação da liberdade, é a destruição da própria liberdade, e a transmutação da liberdade em não-liberdade.

9. A existência da Igreja no mundo, enquanto coluna e firmeza da verdade (cf. 1Tm 3.15), tem imbuída em si a guarda e a proteção pela liberdade; a Igreja vela e protege para que a liberdade, dom inigualável de Deus aos homens, seja preservada incólume; pois, a liberdade é pressuposto da existência humana neste mundo; se se tira a liberdade, acaba por se perder a própria dignidade humana; liberdade e dignidade, são indissolúveis: onde existe liberdade há dignidade, e onde se tem a dignidade é porque há a liberdade. Por isso, em sua existência neste mundo enquanto coluna e firmeza da verdade, a Igreja vela e preza pela liberdade.

10. Deste modo, a regulamentação infere na liberdade, pois, é a regulamentação uma forma de asfixiar e dopar a liberdade; sem a liberdade não é possível se perceber a verdade; e sem a verdade, a sustentação do templo da sociedade, rui e desmorona; por isso, a Igreja é guardiã da liberdade, para que a verdade seja preservada e com isso o templo da sociedade permaneça sustentado; e para isso, a Igreja rechaça, enquanto guardiã da liberdade, qualquer forma de não-liberdade, qualquer forma de regulamentação, qualquer forma de censura, pois, a não-liberdade, velada sob qualquer máscara, sempre desemboca em questões atrozes e vis, como a história da humanidade testemunha de maneira inconfundível.

 

III. O terceiro aspecto a ser salientado é: a regulamentação é pressuposto anti-razão.

 

11. A regulamentação é pressuposto anti-razão; e tudo aquilo que é anti-razão, representa a própria derrocada e a destruição da razão; a razão possui uma forma intrínseca, natural, indistinta em todos os seres humanos; tanto o é, que o ser humano, por possuir uma razão, tem uma dignidade que lhe é própria, a qual fora atestada de maneira inconfundível na Declaração da Independência de Thomas Jefferson e na Declaração Universal dos Direitos Humanos; logo, tudo aquilo que é anti-razão, por ser contra a razão, e por destruir e corromper a própria razão, é contra os próprios direitos humanos.

12. A anti-razão sempre é evocada por ideologias totalitárias; pois, as ditaduras sanguinárias só se implementam após doparem a sociedade com a anti-razão; e a forma mais eficaz de se iniciar este propósito de dopar a sociedade, é através de regulamentação; a regulamentação é o primeiro passo da censura; e a censura consumada é atestado de óbito da razão; e tudo o que provêm de uma sociedade sem razão, de uma sociedade anti-razão, será maléfico e prejudicial à dignidade humana; portanto, a regulamentação por ser pressuposto anti-razão, sempre desemboca em atrocidades contra a dignidade humana, como a própria história testemunha.

Por exemplo, como o comunismo, o fascismo e o nazismo, se implementaram e fizeram as atrocidades que fizeram? Simples, começaram por alguma forma de regulamentação e aos poucos foram regulamentando tudo, até chegar na censura total.

13. Deste modo, como a regulamentação é pressuposto anti-razão, logo é mais do que suficiente para uma rejeição plena a qualquer forma de regulamentação; na verdade, a única forma de a sociedade se desenvolver e crescer é sob a liberdade; portanto, a regulamentação é empecilho ao próprio desenvolvimento da sociedade; por isso, a regulamentação deve ser rejeitada, e isso em nome da própria razão; a reta razão é pressuposto mais do que suficiente para a rejeição de qualquer forma de regulamentação. E isto basta por enquanto, em relação a compreensão sobre a natureza da regulamentação. 

14. E termina aqui está nótula. Laudate Deo


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