26/01/2024

Fé e Religião sob o Escrutínio da Razão Prática

Parte I.

 

A importância da elucubração sobre a fé a partir do escrutínio da razão prática se demonstra em três proposições: primeiro, porque a fé é uma dádiva concedida por Deus; segundo, porque a fé foi entregue aos santos; terceiro, devido a realidade da fé.

1. Primeiro, porque a fé é uma dádiva concedida por Deus. A fé é repartida por Deus a cada um (cf. Rm 12.3); a fé é uma dádiva que Deus outorga aos homens para que possam vir a conhecê-Lo e a se relacionar com Ele; pois, enquanto nesse mundo, enquanto peregrinos no caminho, segundo São Boaventura, “podemos contemplar a imensidão divina mediante o raciocínio e a admiração[1]. E a fé é admiração insuflada no coração pelo Espírito Santo para que se possa ascender na contemplação de Deus; por isso, o próprio Deus outorga a fé aos seres humanos, para que estes possam contemplá-Lo e se relacionar com Ele.

A fé é uma dádiva outorgada por Deus para que os homens possam ir a Ele, a fim de que na contemplação de Deus usufruam de novas e mais gloriosas dádivas; a fé é a dádiva inicial, que abre o caminho à riqueza inexaurível das dádivas divinas; a fé é a porta de entrada às bênçãos divinas; a fé é a antessala do salão das virtudes espirituais; a fé é a chave para o castelo dos dons; a fé é a ponte inicial que leva à terra das maravilhas divinas; por isso, tal como diz o doctor magnificus: “cheio dela o coração, cheia a mente, cheia a alma, cheio de todo o homem dessa alegria, ela ainda sobrará além de toda a medida[2].

2. Segundo, porque a fé foi entregue aos santos. A fé, como um todo relacionado a Cristo e sua obra, foi entregue de uma vez por todas aos santos (cf. Jd 1.3); a fé é patrimônio espiritual de todo aquele que crê; por isso, quem crê tem diante de si toda a sublimidade a qual configura a realidade da fé; por isso, quem crê deve batalhar pela fé, tanto para mantê-la incólume diante do mundo pecaminoso, quanto para mantê-la inalterável diante do espírito de época.

A fé que foi entregue aos santos é uma bênção e uma responsabilidade; uma bênção porque é dádiva divina; uma responsabilidade porque a fé requer aquiescência total ao objeto ao qual se tem fé; a fé é algo que permeia toda a existência humana, porque permeia todo o ser humano, tal como diz o Apóstolo: “E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (1Ts 5.23).

3. Terceiro, devido a realidade da fé. A reflexão sobre a fé é necessária devido a própria natureza da fé; no ato crente está imbuído a importância e a necessidade de se refletir a própria fé, que é o encargo conferido àquele que crê (cf. Is 7.9b). Pois, a fé, iniciada pelo ato crente não termina num juízo, mas tal como diz Santo Tomás, termina numa realidade; e a própria fé é que conduz esta realidade, uma realidade onde Deus se desvela como o Sumo-Bem, a Suma-Verdade e a Suma-Beleza, de modo a aquecer a vontade, iluminar a mente e acalentar o coração na contemplação efetuada através da fé, na antevisão nesta vida da visão beatífica da vida eterna.

[...]

Por isso, a fé é a realidade do relacionamento entre Deus e os homens por meio de Jesus Cristo na comunhão do Espírito; uma realidade de promessa e mandamento, no tempo e na eternidade, que inicia-se pela predestinação, estabelece-se pelo chamado à reconciliação, confirma-se pela justificação, aperfeiçoa-se pela santificação e consuma-se na glorificação; é o raciocínio imbuído da lógica do preceito paulino: “E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (Rm 8.30).

Esta é a realidade da fé, vivenciada através de fatos bem ordenados, os quais são “o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que se não veem” (Hb 11.1). A realidade da fé é que conduz à verdadeira esperança, a qual não decepciona (cf. Rm 5.5), bem como é a fé que conduz a certeza de que, “é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que é galardoador dos que o buscam” (Hb 11.6).

Portanto, a reflexão sobre a fé, entendida em sua evidenciação prática através dos três aspectos acima elencados, demonstra que a fé é que conduz ao amor, tal como diz o Apóstolo: “a fé que opera por amor” (Gl 5.6). Pois, o que permanece são a fé, a esperança e o amor, porém o maior é o amor (cf. 1Co 13.13); e o amor, é o que conduz a fé na prática das boas-obras (cf. Ef 2.10; Tg 1.27); por isso, o Teólogo diz: “o ato de fé se dirige ao objeto da vontade, que é o bem, como ao fim. Ora, este bem que é o fim da fé, isto é, o bem divino, é o objeto próprio da caridade. E por isso a caridade é chamada forma da fé, na medida em que pela caridade o ato de fé é aperfeiçoado e formado” (STh IIaIIae, q. 4, art. 3, co.).

Com efeito, a fé é objeto de reflexão que conduz a prática de boas obras, impulsionada pelo amor. E é esta fé que justifica que abaliza e proporciona o início da reflexão teológica sobre a fé; é da fé que brota o amor, e o amor que aperfeiçoa e informa a fé, é donde brota o ímpeto para a elucubração racional, a qual tem por fruto a teologia sagrada.

Por isso, São Boaventura dissera que a teologia é “per adductionem[3], é apenas uma adição que sustenta e demonstra com mais vigor, pungência e racionalidade os mistérios da fé, vivenciados na obediência e na prática da caridade; assim, a fé é credível, como “adductionem”, “na medida em que o credível passa à razão do inteligível”; etc.

E estes mistérios vivenciados pela realidade da fé, mostram-se cada vez mais reluzentes diante dos sofrimentos e diante das vicissitudes; a reflexão sobre a fé que, as mais das vezes, é permeada com lutas e provações, sempre é mais precisa e gloriosa quando atravessa o vale das provas e torna a fé mais firme e a reflexão mais preciosa. A firmeza da fé é burilada através do sofrimento, o qual conduz o fiel para no caminho das virtudes justificantes (cf. Rm 5.3-5).

 

Parte II.

 

A importância da elucubração sobre a religião a partir do escrutínio da razão prática se demonstra em duas proposições: primeiro, porque o ser humano é essencialmente um ser religioso; segundo, porque a religião que brota da revelação ensina o caminho para o céu. 

1. Primeiro, porque o ser humano é essencialmente um ser religioso. Deus criara o ser humano para se relacionar com Si mesmo; portanto, o ser humano é essencialmente e intrinsecamente um ser religioso; Santo Agostinho assevera: “fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti[4]. O ser humano só encontra o real propósito da vida diante de Deus, quando repousa em Deus através da fé em Cristo (cf. Rm 5.1-2). Portanto, sendo o ser humano um ser essencialmente religioso, faz parte da natureza humana o requerer uma definição de religião, do mesmo modo como faz parte da natureza humana o conhecimento da essência das coisas; o ser humano tende para a definição de religião, porque é essencialmente um ser religioso.

O salmista descrevera o ímpeto religioso presente em seu coração com as seguintes palavras: “A minha alma está anelante e desfalece pelos átrios do SENHOR; o meu coração e a minha carne clamam pelo Deus vivo” (Sl 84.2). “O meu coração”, refere-se a seu interior, ao eu interior, a seu coração, sua consciência, que clamam pelo Deus vivo, que está inquieto em clamar e buscar o Deus vivo; “a minha carne”, refere-se a seu exterior, que também clama por Deus, que anela por Deus. Logo, todo o ser humano clama por Deus, seu coração e sua carne, clamam por Deus, pelo Deus vivo; e aqueles que anelam por Deus, que desfalecem pela presença de Deus, podem também exclamar como o salmista: “Porque o SENHOR Deus é um sol e escudo; o SENHOR dará graça e glória; não negará bem algum aos que andam na retidão” (Sl 84.11).

Esta é a certeza daqueles que clamam pelo Deus vivo, a saber, que o próprio Deus não negará nenhum bem aos que andam na retidão, entre os quais, o maior dos bens, a saber, o próprio Deus. Deus não negará a si mesmo àqueles que o buscam, para aqueles que em seus corações e em suas carnes clamam por Ele, tal como diz a promessa do Senhor Jesus: “Pedi, e dar-se-vos-á; buscai e encontrareis; batei, e abrir-se-vos-á. Porque aquele que pede recebe; e o que busca encontra; e, ao que bate, se abre” (Mt 7.7-8).

2. Segundo, porque a religião que brota da revelação ensina o caminho para o céu. A religião que brota da revelação, o cristianismo, ensina o caminho para o céu; sendo o ser humano essencialmente religioso, quando clama e anela por Deus e o encontra em Cristo, passa a viver como peregrino neste mundo (cf. 1Pe 1.17). E o caminho para o céu é um caminho na senda da virtude, da vida que agrada a Deus, da vida condigna do evangelho (cf. Fp 1.27).

Portanto, a definição de religião faz parte integrante deste caminho, já que enquanto povo que está a caminho do céu, o povo que vive em retidão e que busca anelantemente ao Senhor, passa a evidenciar em toda sua vida e ser, isto é, em todo seu coração, alma e pensamento, este caminho de virtude; o primeiro mandamento tem como imperativo esta realidade: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento” (Mt 22.37).

O caminho para o céu, o qual ensina a religião verdadeira, é imbuído essencialmente no ser humano pela definição de religião, a qual, quando experienciada no encontro com Cristo, passa a designar o modo correto de amar a Deus (a primeira parte da lei moral) e o modo correto de amar o próximo (a segunda parte da lei moral); portanto, a definição de religião se configura com vista a revelação que Deus faz de Si mesmo; da revelação que subjuga o ser humano e impera sobre este de modo a gerar neste a fé verdadeira, e a conduta condigna que desta provém.

A religião que ensina o caminho para o céu não somente deve ser definida, o que é de capitular importância, mas principalmente deve ser vivida e testemunhada de maneira a demonstrar nos passos da retidão o verdadeiro caminho para o céu.

[...]

Deste modo, a definição de religião é algo fundamental, pois, tanto designa o que é a religião, quanto evidencia o que é esta religião na prática; a definição de religião atesta e robora a designação de que religião é doutrina e vida, ortodoxia e ortopraxia; definir é aclarar aquilo que tem um significado intrínseco e já imbuído nas entranhas do ser; é tomar consciência daquilo que está na alma; é clarificar aquilo que está disposto de forma obscura na percepção predicativa; a definição de religião é a descrição do que já está na alma a respeito da religião e que se torna cada vez mais perceptível a medida da experiência com o verdadeiro fenômeno religioso.

A medida da experiência com o verdadeiro fenômeno religioso é o que demonstra a religião que brota da revelação; portanto, a medida do contato com a revelação, e da resposta sincera e consciente a esta revelação, o ser humano ascende ao fim para o qual fora criado; por isso, uma coisa só importa, a saber, a definição de religião tal como diz a Escritura: “A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e guardar-se da corrupção do mundo” (Tg 1.27). A verdadeira religião é praticar a verdadeira caridade, e principalmente a verdadeira religião é viver em retidão e santidade.

***

E termina aqui este escrito. θεῷ χάρις!



[1] São Boaventura, De Scientia Christi, q. 6, co. 

[2] Santo Anselmo da Cantuária, Proslogion, cap. XXVI. 

[3] São Boaventura, Commentaria in Libros Sententiarum, livro I, proem., q. 1, co., n. 3. 

[4] Santo Agostinho, Confissões [Coleção Clássicos de Bolso. São Paulo: Paulus, 2002], livro I, cap. 1, n. 1, pág. 19. 


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