06/07/2024

A Hermenêutica - Insights e Perspectivas

Prefácio.

 

A hermenêutica é uma nobre arte, que permeia todo o saber e que é importantíssima para todo o escopo da universitas litterarum; mas, esta arte está em crise; e isto se constata pelo seguinte fato: há muita interpretação errada, seja por falta de conhecimento, seja pela destruição da percepção interpretativa natural; o que é algo alarmante, pois, a atividade interpretativa coaduna-se com a existência humana e com o desenvolvimento da vida humana. Pois, sem uma interpretação correta, a vida humana tende a degringolar e a não se desenvolver. 

Assim sendo, se faz necessário compreender os aspectos fundamentais sobre a hermenêutica e daquilo que concerne a hermenêutica enquanto arte e técnica da interpretação, tanto para compreender a própria hermenêutica quanto para compreender as aporias que assola esta tão nobre arte; e este ensaio procura aclarar esta pressuposição: primeiro, a fim de se alcançar uma compreensão geral sobre a hermenêutica e, assim, delinear os insights e perspectivas fundamentais sobre a hermenêutica enquanto arte e técnica; segundo, para se compreender os problemas que assola a hermenêutica e suas raízes fundamentais, que açambarcam não somente a hermenêutica, mas uma disciplina amalgamada, a crítica.

Deste modo, este ensaio busca compreender estes aspectos concernentes aos preceitos e princípios da hermenêutica enquanto arte e técnica; pois, a natureza da hermenêutica, sua tarefa e função, são parte preponderante da elucubração racional e da análise filosófica; pois, como elucubrara Schleiermacher, diante das várias hermenêuticas regionais, se faz necessário delinear e evocar uma hermenêutica universal; e elucubrar sobre a hermenêutica universal, enquanto arte e técnica, é uma das tarefas da reflexão filosófica, que se constitui de todo um vasto campo do saber, pois, a hermenêutica enquanto arte e técnica é amplíssima tanto em si mesma quanto na inter-relação com outros saberes.

Portanto, ao se compreender sobre a hermenêutica, também se compreende sobre os problemas concernentes a hermenêutica - bem como os que concernem a crítica; por isso, elucubrar sobre a hermenêutica é tarefa inerente a qualquer edificação e em qualquer construção do conhecimento, em todas as áreas que permeiam a enciclopédia do saber humano; mas não somente em relação ao conhecimento específico de alguma área do saber ou sobre o conhecimento teorético, mas principalmente sobre os aspectos do cotidiano da vida humana, os quais, mesmo nos afazeres simples, também tem algo da interpretação; e isto, constitui-se de um dos mais eficazes elementos de entendimento e compreensão sobre o estado da hermenêutica e de sua tarefa, mas também, para a partir disso, se elucubrar sobre a racionalidade humana.

Pois, a hermenêutica não somente serve para o desenvolvimento do saber, mas também para a compreensão de como está a racionalidade humana; evidentemente, isso não ocupa o lugar central na hermenêutica; mas da compreensão sobre a hermenêutica se consegue aclarar este aspecto de maneira cirúrgica e com isso se constatar o estado da racionalidade do ser humano e/ou de toda uma sociedade. Portanto, adentremos a compreensão sobre a hermenêutica e compreendamos quão significativos aspectos esta arte e técnica tem a contribuir com o saber e com a vida humana.

Soli Deo Gloria!

In Nomine Iesus!

05 de julho de 2024.

 

Prólogo.

 

1. O Filósofo, no livro das Categorias, afirma: “um fragmento de conhecimento de gramática existe na alma” (Cat. 1a27); esta sentença, um pouco enigmática e obscura, estabelece um pressuposto fundamental da compreensão sobre o saber e do entendimento sobre como se compreende o saber; pois, existe um conhecimento de gramática na alma, pois, o ser humano, como ser racional, expressa-se por meio da linguagem, e a expressão pela linguagem necessariamente diz respeito a gramática. E a gramática, por sua vez, como elemento indiscutível da vida humana, pressupõe outro aspecto, o da interpretação; sendo um fragmento de conhecimento de gramática inerente a alma, também o é o da interpretação.

Pois, a gramática sendo as regras da linguagem, é evidente que o ser humano não nasce sabendo defini-las, todavia, a medida que cresce e se desenvolve, se as exerce, muitas das vezes sem nem se aperceber destas regras; o mesmo se dá com a interpretação, imbuída necessariamente no desenvolvimento do ser humano e do domínio deste da linguagem a partir da vivência diária; logo, é correta a sentença do Filósofo em afirmar que existe um fragmento de conhecimento de gramática na alma.

2. No entanto, a designação da interpretação a partir deste preceito do Filósofo de que existe um fragmento de conhecimento de gramática na alma, demonstra que o ato da interpretação também é inerente ao ser humano, conquanto muitos poucos conheçam e entendam as regras da interpretação; todavia, na simples acepção do termo interpretação, se compreende que todos os seres humanos praticam algo da interpretação muito devido a serem seres racionais; a racionalidade pressupõem a interpretação, e vice-versa; razão e hermenêutica são amalgamadas; logo, a interpretação, em consonância com a linguagem, faz parte do desenvolvimento da vida humana, inclusive do desenvolvimento da personalidade do indivíduo, pois, pela análise da percepção interpretativa do indivíduo se consegue compreender o grau de racionalidade que o mesmo possui, isto é, no sentido de verificar se há racionalidade ou não. Portanto, se a percepção interpretativa for ruim ou defasada, é sinal e/ou evidência de irracionalidade (seja irracionalidade restrita a apenas um ou outro aspecto desconhecido ou irracionalidade plena, mais conhecida como burrice).

3. Deste modo, se compreender sobre a interpretação, ou mais propriamente sobre a hermenêutica, é de fundamental importância para se entender o estado geral da percepção interpretativa dos indivíduos de uma sociedade, e, com isso, se compreender o estado da inteligência de determinado ou povo ou de determinados povos; portanto, a hermenêutica, e sua disciplina amalgamada, a crítica, são fundamentais não somente para quem lida com interpretação acadêmica de textos, mas também para a compreensão de fatos referentes a própria vida humana; por isso, a hermenêutica e a crítica, quando se estabelecem como elemento de investigação, pressupõem um outro aspecto, a saber, a gramática; Schleiermacher afirma: “A hermenêutica e a crítica, para serem exercidas, pressupõem que se tenha a gramática dentro de si, e o uso correto da gramática pressupõe que a hermenêutica e a crítica sejam exercidas corretamente[1]; com isso, se pode afirmar que a hermenêutica e a crítica só são entendidas corretamente, quando se tem a compreensão de que a gramática, ou mais propriamente a função da linguagem e sua tarefa interpretativa, é algo que o ser humano possui em sua alma. E, neste quesito, se afirma inclusive, que hermenêutica também tem a ver com psicologia, e vice-versa; etc.

4. No entanto, o problema que se estabelece a partir de tal pressuposição, não é dos mais simples; aliás, é assaz dificultoso, pois, está imbuído em uma série de questões aporéticas que permeiam tanto a teologia quanto a filosofia, já que, a questão da hermenêutica enquanto arte da interpretação, enquanto regras e leis da interpretação fora substituída pela ideia da “interpretação subjetiva”, isto é, passa a ser o “eu” que define as regras de interpretação e as implementa na realidade, e não a realidade que apresenta estas regras, como por exemplo, se constata no psicologismo, no historicismo, no ideologismo, no marxismo-comunismo, no juridicismo, etc.; estes e muitos outros “ismos” também evocam esta transmogrifação da hermenêutica, chegando até mesmo a influenciar a crítica em termos subjetivos; e, quando a crítica se torna expressão de métodos subjetivos - como por exemplo as fases da busca pelo Jesus histórico[2] -, é sinal da decadência total da hermenêutica e da destruição da percepção interpretativa natural do ser humano, a qual fora substituída pelos elementos da vontade corrompida e da inteligência destruída.

Portanto, se faz necessário compreender a hermenêutica; pois, assim se compreende a natureza e a essência da hermenêutica, para deste modo abalizar novamente a interpretação sem os subjetivismos doentios que tem assolado o saber humano no que tange a interpretação.

 

I. A Hermenêutica.

 

5. Com isso, de início, se investiga o vocábulo hermenêutica; e, como Schleiermacher já falara em suas singulares preleções, definir hermenêutica como ciência universal é algo muito difícil; o que, há, de certo, são várias hermenêuticas diversas, que compreendem especificamente as várias esferas do saber; certamente, a hermenêutica que mais fora abalizada e desenvolvimento enquanto arte e técnica, foi a hermenêutica sacra, a hermenêutica ligada a interpretação dos textos bíblicos, que foi a hermenêutica mais utilizada durante a história.

6. No entanto, a hermenêutica enquanto arte e técnica, fora realmente estabilizada a partir das preleções de Schleiermacher (embora a principal proposição da hermenêutica universal não provenha de Schleiermacher, mas de Dannhauer); pois, Schleiermacher soubera como captar o verdadeiro sentido da hermenêutica em meio as muitas hermenêuticas; Schleiermacher soubera encontrar as regras da hermenêutica em meio as diversas hermenêuticas; em especial, porque se utiliza de duas delas: a hermenêutica sagrada e a hermenêutica filosófica; mas, como se pode observar, na própria ideia de hermenêutica se tem um conflito de interpretações; o que, se pode fazer, tal como Schleiermacher fizera, é abalizar a hermenêutica enquanto arte e técnica, o que livra a investigação dos perigos e dos desvios das confusões a respeito da interpretação.

7. Pois, se a hermenêutica é uma arte e técnica, então suas leis, se estabelecem como verdadeiras em qualquer esfera do saber, bastando apenas aplicá-las deste modo, o que muitas das ciências já o fazem, todavia, sem a consciência da hermenêutica universal; e este é o problema central que tem rondado a hermenêutica também em tempos hodiernos; embora, Schleiermacher tenha tido de se defrontar com estes problemas e os tenha solucionado dando forma a hermenêutica enquanto arte e técnica da interpretação, os problemas subjetivistas em relação a interpretação, se avolumaram novamente não na questão de se ter uma hermenêutica universal, mas no sentido de se ter apenas esta hermenêutica como regra emitida a partir de juízo de valor subjetivos; Schleiermacher laborou para estabelecer a validação da hermenêutica universal no séc. XIX – o mesmo que Dannhauer houvera feito no séc. XVII, mas sem o “sucesso” obtido posteriormente por Schleiermacher -, em tempos hodiernos se tem de laborar para que haja uma volta a este princípio, e isto sem se perder nos labirintos dos reducionismos hermenêuticos que são parte preponderante do que se entende por interpretação no âmbito da universitas litterarum. Pois, a confusão de princípios interpretativos é tão grande e tão aguda que se tornou parte preponderante da existencialidade das ciências e que caractere inconfundível das universidades.

8. Assim sendo, pode-se afirmar que a hermenêutica universal não é uma ciência, mas muito mais do que ciência, é uma arte e técnica, dir-se-ia uma Kunstlehre, uma “tecnologia” que mescla filologia e exegese na medida certa; no entanto, tal proposição, ao ser afirmada diante das aporias que assolam a hermenêutica, há de se fundamentar em bases sólidas; e, para compreender isso, voltar-se-á a descrição de Schleiermacher; Schleiermacher apresenta três aspectos para o conceito científico de hermenêutica, os quais são: “(a) arte de apresentar corretamente os pensamentos; (b) arte de comunicar corretamente a um terceiro o discurso de um outro; (c) arte de entender corretamente o discurso de um outro. O conceito científico se refere a este terceiro, como intermédio entre o primeiro e o segundo[3]. Logo, se tem três pressupostos singulares para a compreensão da hermenêutica universal, que estabelece a proposição de uma hermenêutica como ciência, mas não somente como uma disciplina separada, mas principalmente como arte e técnica, isto é, como uma disciplina que se conduz em conjunto com outras disciplinas.

9. Além disso, estes três princípios evocados por Schleiermacher também servem de base para novamente se abalizar o entendimento da hermenêutica diante do subjetivismo interpretativo característico da existência na contemporaneidade; pois, o problema da hermenêutica não é problema de método, e a dialógica entender-interpretar não é algo apenas da ciência, mas algo fundamentalmente humano, dir-se-ia naturalmente humano, intrinsecamente humano; por isso, Gadamer afirma: “entender e interpretar os textos não é somente empenho da ciência, já que pertence claramente ao todo da experiência do homem no mundo. Na sua origem, o fenômeno hermenêutico não é, de forma alguma, um problema de método[4]. A descrição de Gadamer é precisa e lida fundamentalmente com dois problemas que assolam a hermenêutica em tempos hodiernos, a saber: primeiro, o problema da compreensão do lugar da hermenêutica; segundo, o problema do fenômeno hermenêutico.

10. Estes dois problemas, se coadunam e se inter-relacionam; e o entendimento sobre estes dois problemas, clarifica o entendimento sobre a correta aplicação da hermenêutica como meio termo entre a filologia e a exegese, ou mais propriamente, entre o princípio filosófico e o princípio exegético, que ao serem aplicados na medida certa, no “meio-termo”, formam a Kunstlehre, a tecnologia correta para a interpretação; ou mais propriamente, dando forma real a definição da hermenêutica como arte e técnica da interpretação.

Logo, se pode afirmar que os dois problemas inerentes que permeiam a pergunta pela hermenêutica são, na verdade, um problema do “meio-termo”, ou mais propriamente, um “problema” que versa não sobre assuntos técnicos ou científicos, mas que açambarca problemas de desequilíbrio entre o meio-termo em relação ao entendimento, ou, em termos científicos, a raiz do desequilíbrio entre o princípio filológico e o princípio exegético.

Portanto, se pode falar nesta raiz, como um problema de percepção ou como um problema de entendimento; e, tanto um quanto o outro, também dizem respeito a alma; então, em última análise os problemas inerentes que permeiam a pergunta pela hermenêutica são problemas que dizem respeito a alma, tanto do indivíduo quanto da sociedade.

11. Por isso, o problema da hermenêutica é um problema tanto da alma do indivíduo quanto da alma da sociedade; mas não propriamente uma morbidade da alma, embora possa surgir de uma, mas uma defasagem, ocasionada por algum motivo, nas faculdades intelectivas da alma, provocada por alguma ideologia ou pela instauração de algum sistema anti-conhecimento; esta defasagem na alma do indivíduo se torna, as mais das vezes, a defasagem da alma de uma sociedade, demonstrando a castificação de uma sociedade onde os indivíduos não consegue interpretar nada de maneira adequada (o que, por si, é algo alarmante); e não se fala num primeiro momento no sentido de interpretação científica, mas da percepção interpretativa natural. Portanto, esta percepção interpretativa natural é a base de qualquer formulação hermenêutica, e a hermenêutica sóbria e racional, sempre é embasada nesta percepção bem estabelecida e estruturada; se esta percepção interpretativa natural for corrompida, então, a hermenêutica também se torna corrompida.

12. E esta é a raiz primária do problema da hermenêutica, não só na contemporaneidade, mas sempre que ideologias nefastas dominam a cultura e a sociedade; por isso, se estabelece o problema identificado por Gadamer, da compreensão do lugar da hermenêutica; e, uma vez que a percepção interpretativa natural for corrompida, então, não se terá a compreensão sobre a importância e o lugar da hermenêutica, e a mesma acaba por ser rejeitada, ou como acontece, se torna desvirtuada pelo subjetivismo interpretativo; mas, é também por isso que se estabelece o segundo problema identificado por Gadamer, o problema do fenômeno hermenêutico, que não é mais reconhecido, e nem sequer é percebido como fenômeno digno de interpretação, e, com isso, se estabelece o que pode ser definido como a transmutação do fenômeno hermenêutico da realidade para a fenomenização da compreensão corrompida do “eu”, gerando o que se pode chamar de “neurose” hermenêutica, isto é, cria-se algo fora da realidade e a partir deste algo passa-se a interpretar as coisas e os textos, calcificando enormes confusões e aporias, tanto em relação ao conhecimento quanto na alma; em relação ao conhecimento, gera-se o anti-conhecimento e/ou a imbecilização; em relação a alma, gera-se desordem.

13. E, diante deste cenário, a fonte da solução está em novamente em se pensar sobre a hermenêutica, para que alguns poucos que ainda não foram açambarcados na destruição da percepção interpretativa natural, possam novamente voltar a hermenêutica tal como ela é; e, para isso, se evoca novamente a descrição feita por Schleiermacher; portanto, neste sentido, se volta aos três aspectos propostos por Schleiermacher (n. 8).

Em relação ao primeiro aspecto, se coaduna mais com a interpretação que é expressa de maneira adequada num discurso, pois, o próprio discurso ou a enunciação, pressupõe alguma interpretação que é expressa por palavras num enunciado ou em vários enunciados, o que, pressupõe a interpretação e sua expressão enquanto evidência da própria interpretação.

Em relação ao segundo aspecto, se pode afirmar que a partir da compreensão de um texto, necessariamente, esta compreensão se formula com relação a um outro, ou que se efetiva na comunicação a um segundo ou a um terceiro, ou a ambos, o sentido do texto interpretado - e é neste sentido que se forma a interpretação oral, ou que se edifica bons diálogos e sóbrias discussões.

E, em relação ao terceiro aspecto apresentado por Schleiermacher, se pode formular uma definição de hermenêutica; por exemplo, Paul Ricouer afirma: “a hermenêutica é a teoria das operações da compreensão em sua relação com a interpretação de textos[5]. Logo, se tem uma definição basilar de hermenêutica a partir da compreensão do modo como o fenômeno hermenêutico se estabelece, delineado magistralmente por Schleiermacher nestes três aspectos evocados.

14. A definição de Ricouer, embora sintética, açambarca uma compreensão adequada a partir do terceiro aspecto apresentado por Schleiermacher; mas, não somente isso, pois, delineia os dois aspectos preponderantes do fenômeno hermenêutico, a saber: as operações da compreensão e a interpretação dos textos; as operações da compreensão são a forma como se compreende naturalmente e a forma como se compreende a partir de um estudo mais aprofundado sobre a própria compreensão[6] (em sentido aristotélico as três operações do intelecto), pois, quando se compreende que se compreende e o modo como se compreende, a própria compreensão se torna mais efetiva e adequada, pois, quanto mais se compreende, melhor se compreende que se compreende; e, de igual modo, a interpretação dos textos, que por sua vez, é a junção equilibrada entre os princípios da tarefa filológica e a da tarefa exegética; logo, estes dois aspectos fundamentais do fenômeno hermenêutico, são abalizados a partir de uma simples definição, uma definição geral, sobre a hermenêutica como teoria das operações da compreensão e sua relação com a interpretação do texto. Mas, a definição de Ricouer, apesar de ser simples, delineia mais um aspecto de suma importância para a hermenêutica, a função de se entender como se efetua a compreensão.

15. A hermenêutica não somente lida com a interpretação, mas também lida com a compreensão; e, mesmo que a análise específica da compreensão não seja função propriamente dita da hermenêutica, pois, pertence a outras esferas do saber, a hermenêutica pelo menos lida com o fato da compreensão e sua relação com a interpretação; pois, só há interpretação onde houve compreensão; e a hermenêutica, indaga não a possibilidade e as nuances da compreensão (embora pressuponha esta indagação), mas indaga se a compreensão realmente tem sido compreensão e quais suas manifestações; a hermenêutica não pergunta pela razão da compreensão, mas por suas operações, que basicamente se dão em dois aspectos: primeiro, a evidência ou não da compreensão; segundo, a forma da expressão da compreensão.

Portanto, a hermenêutica, ao lidar com a interpretação, primeiro lida necessariamente com a compreensão e se realmente houve alguma compreensão ou se o que há é uma compreensão distorcida; evidentemente, tal proposição, parece aferir para a hermenêutica uma série de outras funções, mas, especificamente, afere apenas o aspecto da verificação da existência ou não da compreensão sóbria e racional, o que é necessário como parte da hermenêutica primeira antes de adentrar na interpretação dos textos.

16. Deste modo, se não se tem uma compreensão natural adequada, a qual é pressuposto em todo ser humano sóbrio e racional, então, não se terá uma interpretação adequada; por isso, a verificação da compreensão como fenômeno natural, infere à hermenêutica os gérmens para estabelecer a interpretação dos textos, bem como serve de instrumento para verificar quando a percepção interpretativa natural se encontra desvirtuada e desfigurada; evidentemente, tal conhecimento, na verdade, é fundamental para a hermenêutica, para que a mesma seja utilizada como Kunstlhere para a interpretação dos textos. Com isso, se observa que para a tecnologia referente a hermenêutica possa ser utilizada tem de haver a linguagem como expressão da realidade, e, por consequência, a interpretação desta linguagem; a Kunstlehre pressupõem este princípio. E a linguagem é o que demonstra a percepção interpretativa do ser humano; pois, a própria linguagem é a descrição da sobriedade ou não desta percepção.

17. Por isso, que a linguagem, mais especificamente os textos, são o que propriamente designam a proposição da interpretação; pois, o trabalho mais elementar referente a interpretação está justamente delineado a partir do texto, ou da linguagem expressa em texto; pois, a interpretação tanto diz respeito a elaboração deste discurso ou enunciado, quanto diz respeito ao entendimento da intenção deste discurso; por isso, o próprio Ricouer afirma: “Produzir um discurso relativamente unívoco com palavras polissêmicas, identificar essa intenção de univocidade na recepção das mensagens, eis o primeiro e mais elementar trabalho da interpretação[7]; e é deste trabalho mais elementar da interpretação que surge a hermenêutica como arte e técnica, pois, lida fundamentalmente com a linguagem e com suas formas, principalmente a linguagem escrita ou texto; portanto, a partir da linguagem, se estabelece o que Gadamer chama de medium da interpretação; por isso Gadamer diz: “A linguagem é o meio em que se realiza o acordo dos interlocutores e o entendimento sobre a coisa[8]. Por exemplo, são por estas e outras razões que o Filósofo estabelece a proposição de que um fragmento de gramática está na alma no livro dos Predicamentos, pois, linguagem e interpretação se coadunam com a própria existência dos seres humanos e são expressão da própria alma do ser humano.

Por isso, em relação as várias disciplinas existem hermenêuticas regionais, que se estabelecem de acordo com a linguagem e a tarefa da interpretação em cada área do saber; e, em contrapartida, o estabelecimento de uma hermenêutica universal, que pressupõem esse aspecto, tira a tarefa da interpretação da regionalidade das várias disciplinas, e a aplica como arte e técnica da interpretação, que pode ser aplicada as várias disciplinas específicas, sem com isso se tornar reduzida a linguagem e a interpretação dentro do escopo de determinada disciplina; e este mesmo aspecto também vale para a tentativa de reduzir a tarefa hermenêutica de acordo com algum “ismo” deificatório, que tenta tornar a hermenêutica em expressão de apenas um aspecto da realidade temporal, como por exemplo o psicologismo que tenta tornar a hermenêutica apenas questão de assentimento mental, ou o historicismo que tenta tornar a hermenêutica apenas como expressão de um fato histórico, ou o comunismo que tenta implementar uma hermenêutica sob o sistema marxista; etc.

18. Assim sendo, pode-se evocar outra perspectiva sobre a hermenêutica; pois, se o discurso ou o enunciado está amalgamado a arte de entender, então, estas duas esferas se relacionam na hermenêutica; por isso, Schleiermacher afirma: “Já que a arte de discursar e a arte de entender (correspondentemente) estão em paralelo uma com a outra, mas discursar é apenas o lado externo do pensar, a hermenêutica está em conexão com a arte de pensar e é, portanto, filosófica. Mas de tal modo que a arte da interpretação é dependente da composição e a pressupõe. O paralelismo consiste nisto: onde o discurso não tem arte, tampouco necessita de arte para ser entendido[9]. Portanto, como Schleiermacher assevera, hermenêutica enquanto arte pressupõe o discurso como arte, ou mais propriamente, a retórica; e, onde a retórica deixa de existir, isto é, onde a arte do discurso e da boa escrita deixam de existir, então, não haverá possibilidade de interpretação; por isso, hermenêutica e retórica se coadunam; e, o paralelismo entre a arte de discursar e a arte de interpretar, é que uma pressupõe a outra, e onde não existe uma não existe a outra.

Além disso, como a hermenêutica está lidada com a arte de pensar, se fala da hermenêutica filosófica; a hermenêutica filosófica seria a forma mais apropriada de se pensar a hermenêutica em consonância com a linguagem; o simples ato de falar, de se pronunciar, já adentra ao terreno da filosofia; e como a hermenêutica também lida com a linguagem, então, a hermenêutica lida com a filosofia, logo, hermenêutica filosófica; por isso, o paralelismo entre a arte do discurso, ou mais propriamente, a arte de se expressar corretamente, e a arte de interpretar está justamente no qualificativo “arte”; onde há arte do se expressar, há de haver a arte de interpretar; e onde não há preocupação com a arte do se expressar, ou qualquer outra corrupção da linguagem, logo haverá o desprezo pela hermenêutica ou a rejeição a hermenêutica, que se manifestam, as mais das vezes, pela corrupção do princípio objetivo da hermenêutica.

19. E, diante destas proposições, se pode afirmar que a hermenêutica tem algo de científico; e a natureza científica da hermenêutica está intimamente ligada aos três pressupostos delineados por Schleiermacher; os quais, ao serem melhor observados e compreendidos, pode ser aferidos a partir das três coisas que definem o conhecimento; para os antigos, “o que se entendia por conhecimento eram três coisas que se resumem em três palavras: (a) teoria, do verbo theorein, olhar; (b) ón, ser; e (c) lógos, palavra. Olhar o ser e dizer o que ele é: nisso consistia o ideal científico[10]; logo, a tríplice descrição da hermenêutica, é açambarcada na proposição fundamental do conhecimento; assim, a hermenêutica é compreender o texto e dizer o que ele significa, e não o que o “eu” acha ou o que supostamente se quer intitular, seja na hermenêutica sacra, seja na hermenêutica filosófica.

20. E, esta simples descrição, livra a hermenêutica de todos os problemas que surgem sobre o fenômeno hermenêutico, alguns dos quais, abordados de raspão; pois, a tríplice descrição de Schleiermacher, abalizada pela tríplice descrição do conhecimento, livra a hermenêutica dos dois problemas elencados por Gadamer, a saber, o problema da compreensão do lugar da hermenêutica, e o problema do fenômeno hermenêutico; pois, sabendo-se o que é hermenêutica e como se manifesta o fenômeno hermenêutico, logo, se terá os pressupostos que definem e delineiam a função e a tarefa da hermenêutica.

E essa inter-relação abaliza três aspectos, e nestes três aspectos fica clarividente a função e a tarefa da hermenêutica; estes três aspectos são: (i) primeiro, a tarefa rudimentar da hermenêutica; (ii) segundo, a natureza e o propósito da hermenêutica; (iii) terceiro, o escopo da hermenêutica.

21. [i] Primeiro, a tarefa rudimentar da hermenêutica; a tarefa rudimentar da hermenêutica é a simples e costumeira ação da interpretação, que provêm da percepção interpretativa natural; pois, tendo o ser humano esta percepção interpretativa natural, que se demonstra através da linguagem, o próprio ser humano interpretará os fatos do cotidiano tal como eles se demonstram e se evidenciam; portanto, a tarefa rudimentar da hermenêutica está coaduna com esta pressuposição auto-evidente, a qual, tendo sido estabelecida de maneira sóbria e racional, é a base que permite o desenvolvimento da hermenêutica; mas, pelo contrário, quando existe alguma aporia ou aporias sobre a hermenêutica, a mesma tem por raiz justamente a corrupção, por qual meio for - as mais das vezes, pela ideologização -, da percepção interpretativa natural; com isso, a base fundamental e apodítica da hermenêutica sempre é a partir de sua tarefa rudimentar, bem como é a através da compreensão sobre esta tarefa e sua existencialidade que se verifica a sobriedade ou não da hermenêutica enquanto arte e técnica da interpretação; pois, a hermenêutica só pode ser uma arte e uma técnica ao se tornar bem estabelecida, porque antes fora algo coadunado com a realidade e com os preceitos do que é real - isto é, se se estabelecer a partir da percepção interpretativa natural.

22. [ii] Segundo, a natureza e propósito da hermenêutica; a natureza e o propósito da hermenêutica se tornam mais evidentes a partir do pleno estabelecimento da tarefa rudimentar da hermenêutica, a qual é a base donde provêm a elucidação da hermenêutica enquanto arte e técnica; e, em sua natureza, a hermenêutica lida com a linguagem, sua expressão, e, por consequência, sua interpretação; linguagem, expressão da linguagem (falada ou escrita) e a interpretação desta expressão; isto, é o que se constitui a natureza da hermenêutica; e nesta natureza se estabelece o propósito mais específico da hermenêutica enquanto arte e técnica; pois, o propósito específico da hermenêutica é a interpretação, por isso, arte e técnica da interpretação; por isso, a hermenêutica é Kunstlehre, é a tecnologia que sendo arte e técnica, tem outros aspectos englobados, mas que tem por propósito a compreensão do texto e de seu significado tal como expresso pelo próprio texto.

23. [iii] Terceiro, o escopo da hermenêutica; o escopo da hermenêutica está em consonância com a natureza e o propósito da mesma; pois, se a natureza da hermenêutica lida com a linguagem, a expressão da linguagem e a interpretação, então, o escopo da hermenêutica se formará tendo em vista a relação entre esta tríade, e a partir do propósito da hermenêutica; como a hermenêutica lida com esta tríade e com a interpretação enquanto arte e técnica, então, a hermenêutica no que tange a estes aspectos, terá uma ampla gama de princípios e pressupostos.

Portanto, o escopo da hermenêutica pode ser definido a partir do seguinte axioma: a hermenêutica, por lidar com textos e com a interpretação de textos, com a arte de discursar como Schleiermacher afirma, então, pelo próprio discurso, se tem o escopo da hermenêutica, pois, o “discurso é mediação para a comunidade do pensamento, e daí se explicam a interdependência de retórica e hermenêutica e a relação conjunta de ambas com a dialética[11]; logo, no escopo da hermenêutica, se entende que a mesma se relaciona com a retórica e com a dialética; com a retórica enquanto arte do pensamento correto; e com a dialética enquanto elemento unificador da unidade do saber, tanto expresso de maneira adequada com a retórica quanto entendido de maneira adequada pela hermenêutica; a dialética unifica este dois polos, formando um único pressuposto estruturante da hermenêutica enquanto arte e técnica, embora, tanto a hermenêutica quanto a retórica permaneçam artes interdependentes, que se relacionam com a dialética de maneira conjunta no âmbito da junção de ambas na hermenêutica, e de maneira separada no âmbito da existência específica de cada arte.

24. Deste modo, se consegue compreender que quando há uma interpretação errada, pela simples demonstração da interpretação correta, se consegue entender este erro; mas, isto, somente quando a interpretação é um erro por equívoco ou por não-entendimento; mas, quando a interpretação é errada pela corrupção da tarefa rudimentar da hermenêutica, então nem mesmo a mais bela interpretação correta se torna suficiente para corrigir os desvios intelectivos da corrupção da percepção interpretativa natural; logo, o problema da hermenêutica se dá não com a interpretação teorética errada, que se ocorrer, basta apenas a demonstração da interpretação correta, mas a raiz do problema em relação a interpretação se dá na corrupção da percepção interpretativa, que faz com que aqueles que foram açambarcados nesta corrupção arrolem para si interpretações fora da realidade e além da interpretação do próprio fato ou de algum texto.

25. Estes aspectos são fundamentais na elucubração sobre a hermenêutica; pois, a hermenêutica tanto lida com a interpretação, quando lida com os problemas da interpretação; com a tarefa da interpretação e com os problemas inerentes a esta tarefa ou os problemas que vituperam esta tarefa; logo, os problemas na hermenêutica, tais como se tem demonstrado em tempos hodiernos, vão muito além de um simples erro de interpretação ou de desconhecimento de técnicas de interpretação, que também são constantes; mas, a raiz do problema da hermenêutica é a corrupção da percepção interpretativa, que é fruto da corrupção e da destruição da inteligência; e, evidentemente, se compreende que a hermenêutica em si não é difícil, e mesmo os textos difíceis de serem interpretados também possuem certo denominativo comum de interpretação e compreensão; a problemática está na corrupção da percepção interpretativa e na não-compreensão e entendimento desta corrupção por parte daqueles que interpretam as coisas erradas.

 

II. O caminho da hermenêutica.

 

26. Ora, tendo descrito e compreendido a hermenêutica, sua natureza e sua tarefa, a partir de vários insights e de suas perspectivas fundamentais, se pode prosseguir para aquilo que necessariamente se segue após uma descrição geral, a saber, a ponderação e a reflexão sobre o modo de se desenvolver desta Kunstlehre; logo, se pode afirmar sobre o caminho da hermenêutica, sobre o modo necessário da hermenêutica enquanto arte e técnica; e o caminho da hermenêutica é uma forma de descrever como a hermenêutica universal deve ser estabelecida, além das hermenêuticas regionais, bem como em consonância com a universalidade necessária da hermenêutica, isto é, aquele aspecto que se estabelece a partir da cientificidade da hermenêutica.

Pois, embora a hermenêutica não seja descrita propriamente como uma ciência, possui cientificidade, e desta, é que surge a proposição da hermenêutica como arte e técnica; assim sendo, a hermenêutica, em sua natureza e tarefa, é uma arte e é uma técnica; ao mesmo tempo arte e técnica, e que possui regras e preceitos apodíticos no que concerne a interpretação; portanto, o caminho da hermenêutica abaliza esta compreensão a partir da elucubração da natureza e da tarefa da hermenêutica.

27. Com isso, se pode afirmar que elucubrar sobre o caminho da hermenêutica é, antes de tudo, demonstrar o lugar da hermenêutica no âmbito das ideias; pois, as próprias ideias fundamentais só atravessam a história devido a interpretação; a interpretação funciona como instrumento da tradição; Ricouer afirma: “Sentimos que a interpretação tem uma história e que essa história é um segmento da própria tradição; não se interpreta de nenhuma parte, mas para explicitar, prolongar e assim manter viva a própria tradição na qual nos mantemos. E assim que o tempo da interpretação pertence de algum modo ao tempo da tradição. Mas em troca a tradição, mesmo entendida como transmissão dum depositum, permanece tradição morta, se não é interpretação continua desse depósito: uma ‘herançanão é um pacote fechado que se passa de mão em mão sem o abrir, mas antes um tesouro que tiramos as mãos cheias e que renovamos na própria operação de o esgotar. Toda a tradição vive graças a interpretação; e por este preço que ela dura, isto é, permanece viva[12]. Por isso, a interpretação se relaciona com a tradição, e vice-versa, já que na própria existência da interpretação se evoca uma tradição que emerge do conteúdo desta interpretação; pois, assim, se demonstra o caminho da hermenêutica, que é delineado em três aspectos: primeiro, a preservação do correto ímpeto da interpretação; segundo, o cultivo de um múnus hermenêutico; terceiro, a efetivação de uma tradição a partir dos legados provenientes da interpretação.

28. No primeiro aspecto, se compreende que a interpretação ao ser efetivada de maneira constante, e, com isso, evocar uma tradição interpretativa, preserva o ímpeto da hermenêutica, pois, o princípio rudimentar da hermenêutica é preservado a medida que a própria interpretação se desenvolve em consonância com a sobriedade da percepção interpretativa natural; e a preservação deste princípio constitui-se uma das tarefas inerentes ao desenvolvimento da interpretação, já que a própria interpretação só se desenvolve com a correta preservação deste princípio; na verdade, a hermenêutica só se desenvolve, e, assim, se gera uma tradição que emerge da interpretação, com a preservação do ímpeto interpretativo natural, o qual, ao ser preservado na e partir da interpretação, preserva a própria interpretação a medida que esta serve como elemento fundacional de uma tradição interpretativa. Assim sendo, na tradição interpretativa se observa se o princípio rudimentar da hermenêutica fora preservado ou não, ou se está desfigurado e quais as causas desta desfiguração. O ímpeto da interpretação serve como aferidor da tarefa hermenêutica bem como serve de sustentáculo à própria interpretação.

29. No segundo aspecto, ao se efetivar a interpretação, e a partir da tradição interpretativa se preservar o correto ímpeto da interpretação, e vice-versa, então, nestas operações fundamentais da hermenêutica, se forma o cultivo de um múnus hermenêutico; e o múnus hermenêutico, é a linha indivisível que demonstra a interpretação ao longo da história, mesmo nas várias hermenêuticas regionais; e fora o cultivo deste múnus que proporcionou a busca e a efetivação de uma hermenêutica universal; e a própria hermenêutica universal, só se estabelece como Kunstlehre, como arte e técnica, a partir do cultivo e do desenvolvimento do múnus hermenêutico; portanto, a partir da interpretação se compreende o múnus hermenêutico, o qual, mesmo nas hermenêuticas regionais possuem um tronco comum, que se estabelece a partir da percepção interpretativa natural; cultivar este tronco comum, fora o que fizeram as hermenêuticas regionais, dando forma a cientificidade da hermenêutica, bem como cultivando a universalidade da mesma enquanto arte e técnica.

30. No terceiro aspecto, se demonstra a efetivação de uma tradição a partir dos legados provenientes da interpretação; pois, se houvera a formação e o cultivo de um múnus hermenêutico, então, necessariamente, deste múnus surgirá uma tradição, tanto em relação as especificidades da hermenêutica inerente a cada esfera do saber, quanto em relação a universalidade da interpretação enquanto arte e técnica; por isso, da tradição que surge dos legados provenientes da interpretação, que vão além da mera compreensão do texto, pois além de englobar exegese, análise filológica e regras gramaticais, e com isso abalizar e fundamentar estas, o que provêm da interpretação estabelece três coisas: primeiro, cria identidade; segundo, cristaliza esta identidade através do hábito interpretativo e do hábito que emana do dado interpretado; terceiro, a partir do dado interpretado e da amalgama de vários dados, surge alguns elementos necessários para o ímpeto do desenvolvimento da cultura, pois, ao criar identidade, a interpretação fomenta o desenvolvimento da inteligência, e, por consequência, da cultura; e a inteligência, neste sentido, serve de elemento propulsor à própria cultura; na verdade, o único meio propulsor da cultura. Por isso, da observação e compreensão sobre a interpretação, se consegue entender o estado da inteligência de um indivíduo e/ou de uma sociedade.

31. Assim sendo, o amplo escopo do caminho da hermenêutica pressupõem uma série de fatores filosóficos e interpretativos, os quais, tanto se relacionam com a natureza e a tarefa da hermenêutica, como estabelecem a relação da hermenêutica com as intenções interpretativas, já que do caminho da hermenêutica não somente se observa a função da interpretação, mas também da ação humana em suas mais variadas esferas, pois, as ações humanas, sempre estão em consonância com alguma interpretação, mesmo se forem as falsas interpretações que emanam da corrupção da percepção interpretativa natural; logo, se compreende aspectos que vão desde a interpretação até a compreensão sobre a sobriedade da psique e da inteligência, etc., com a compreensão adequada e racional sobre a tarefa e a função da hermenêutica, e sobre o caminho da hermenêutica.

32. Por isso, o caminho da hermenêutica é um caminho amplo e dialógico; pois, enquanto arte e técnica, a hermenêutica se relaciona com as mais variadas disciplinas, em estreita conexão com a retórica e a dialética, formando assim os princípios universais da interpretação, ou hermenêutica universal.

Estes princípios possuem uma tríplice estrutura: primeiro, em parte são extraídos do saber inerente a cada disciplina a partir do desenvolvimento da própria disciplina; segundo, em certo sentido se coaduna com os princípios gerais e com os princípios específicos de cada disciplina, pois, em muitos aspectos são similares e/ou subsequentes e complementares; terceiro, ao se inter-relacionarem os princípios interpretações gerais e específicos de cada disciplina, formam uma tradição hermenêutica a partir da qual emerge a universalidade da interpretação, donde, se estabelece a possibilidade de se estabelecer uma hermenêutica universal (o que efetivamente se estabeleceu a partir de Dannhauer, e ganhou notoriedade a partir das análises e preleções de Schleiermacher).

Além disso, se pode estabelecer o caminho da hermenêutica a partir de uma pressuposição quadrilátera, a qual está em consonância com os princípios analisados anteriormente; e quatro aspectos são evocados ao se elucubrar sobre o caminho da hermenêutica, os quais são: (i) primeiro, a natureza da hermenêutica; (ii) segundo, a hermenêutica e a autoridade em relação ao conhecimento; (iii) terceiro, a hermenêutica e a verdade; (iv) quarto, a utilidade da hermenêutica.

33. [i] Primeiro, a natureza da hermenêutica; a hermenêutica possui uma natureza; e isto, é evidente; todavia, a investigação sobre a natureza da hermenêutica sempre se envereda por algumas das disposições das hermenêuticas regionais, o que, em relação a especificidade destas não conduz a nenhum erro evidente, mas que, ao se procurar compreender a natureza geral da hermenêutica, gera-se inúmeras aporias; por isso, para se elucubrar sobre o caminho da hermenêutica, o que tanto abaliza a hermenêutica em geral quanto as hermenêuticas específicas, há de se compreender em primeiro lugar a natureza da hermenêutica, que desdobra-se em dois aspectos: primeiro, em relação a natureza da hermenêutica enquanto arte; segundo, em relação a natureza da hermenêutica enquanto técnica.

Em relação ao primeiro aspecto, se compreende que a natureza da hermenêutica enquanto arte, é porque a hermenêutica não se constitui como uma ciência, mas que permeia todas as ciências; a hermenêutica é utilizada por todas as ciências não como ciência, mas como arte da interpretação, como arte que com suas leis e preceitos amalgama-se aos conteúdos das ciências, e fornece os instrumentos necessários para a interpretação, bem como se relaciona com outras artes, ao passo que com estas e a partir destas, fomenta os aspectos necessários para a interpretação. Logo, a natureza da hermenêutica enquanto arte, pressupõe a inter-relação com as ciências, não como ciência, mas enquanto técnica geral que se torna técnica aplicável a especificidade de cada campo do saber; somente uma arte é capaz de servir assim ao saber.

Em relação ao segundo aspecto, se compreende que a natureza da hermenêutica enquanto técnica, é fornecer os instrumentos técnicos às ciências; por isso, a hermenêutica é uma tecnologia no âmbito do saber que permite as ciências desenvolverem-se em seus saberes a partir da interpretação; a função da hermenêutica no âmbito do saber é englobante e ampla, permeia todos os campos do saber, sem ser uma ciência, e abaliza os campos específicos do saber enquanto técnica; a tecnicidade da hermenêutica abaliza as funções gerais de campo do saber, já que o saber se estabelece e se desenvolve a partir da interpretação. Logo, a natureza da hermenêutica enquanto técnica, pressupõe a inter-relação com as ciências, burilando e trabalhando os instrumentos das ciências, a partir das técnicas interpretativas e das técnicas que emergem da interpretação.

34. [ii] Segundo, a hermenêutica e a autoridade em relação ao conhecimento; sendo a hermenêutica uma arte e técnica, então, necessariamente, a hermenêutica estará imbuída na pergunta pela autoridade em relação ao conhecimento; pois, necessariamente, após o entendimento da natureza da hermenêutica, surge a pergunta sobre a autoridade (auctoritas) em relação ao conhecimento, a qual, está imbuída em questões interpretativas; pois, o conhecimento, para ser conhecimento possui uma autoridade abalizadora; nem tudo o que se afirma por conhecimento realmente é conhecimento; por isso, existe uma regra abalizada em relação ao conhecimento, que é definida como a autoridade em relação ao conhecimento; do mesmo como em relação aos saberes, se pode ter este ou aquele pensador como autoridade em relação a este ou aquele saber, em relação ao aspecto geral do conhecimento e do saber, existe uma regra abalizadora que define o que é e o que não é saber; ou, para se utilizar de uma distinção que os gregos antigos utilizavam, a distinção entre doxa (opinião) e episteme (saber).

Portanto, a partir desta distinção se evoca qual a autoridade em relação ao conhecimento, a saber, só é conhecimento o que é episteme; doxa não é conhecimento abalizado, embora possa ser a base para algum conhecimento e para o desenvolvimento do conhecimento; mas o saber, o conhecimento, abalizado em relação as ciências, é sempre o conhecimento definido como saber (episteme); a hermenêutica abaliza a questão, fornecendo os instrumentos que permitem discernir entre o que é doxa e o que é episteme; a doxa, entre outras coisas, não é permeada pela interpretação correta e nem é um saber apresentado de maneira apodítica, e por isso mesmo não possui interpretação universal válida; a episteme, pelo contrário, possui um saber abalizado, justificado pela interpretação correta e tido, por causa disso, como interpretação universal válida. Deste modo, se compreende que o problema entre o saber e a opinião, sempre tem por pano de fundo uma raiz hermenêutica, a saber, a não compreensão, por falta de conhecimento ou por imbecilidade, entre o que é saber e o que é opinião, bem como a diferença entre os dois no âmbito do saber humano. E as técnicas da hermenêutica ajudam a distinguir entre o que é saber e o que é opinião.

35. [iii] Terceiro, a hermenêutica e a verdade; a hermenêutica sendo arte e técnica da interpretação lida com a verdade; pois, a hermenêutica só existe fundamentalmente em consonância com a verdade; e a verdade enquanto algo que faz parte da realidade e que se demonstra tal como é; assim sendo, a interpretação só se estabelece enquanto arte e técnica em consonância com o real; e, mesmo na interpretação e entendimento sobre coisas não-reais, seja como possibilidade evocada ou em algum gênero literário, a interpretação é feita com parâmetros reais; pois, a hermenêutica dos sonhadores, os que estão fora da realidade, ou na Segunda Realidade, é uma hermenêutica que não se coaduna com a verdade e que não tem por objetivo alcançar por meio da interpretação a verdade; a verdadeira hermenêutica, a arte e técnica da interpretação, visa através das técnicas interpretativas alcançar a verdade do algo interpretado; com isso, hermenêutica se conforma a partir da verdade e para o conhecimento da verdade. Logo, onde não há conhecimento da verdade ou onde se tem algo de anti-realidade, não há correta interpretação e nem correta percepção[13].

Portanto, hermenêutica tem seu sentido e importância, e sua utilidade, a partir da verdade; pois, a verdade, é o que proporciona o sentido e o múnus da percepção interpretativa; assim, as técnicas interpretativas se estabelecem primordialmente e fundamentalmente para o conhecimento da realidade, para haurir o saber da realidade; a hermenêutica se relaciona com a verdade justamente por este fato; logo, a hermenêutica, enquanto técnica e para fortificar-se como técnica, relaciona-se com a verdade e com os aspectos necessários para o conhecimento da verdade, formando assim princípios metodológicos para o cultivo e o desenvolvimento da tradição interpretativa; e, evoca-se, neste sentido, o exemplo de Gadamer, que elaborou a proposição da hermenêutica a partir da relação entre verdade e método. E, logicamente, a hermenêutica, se estabelece nesta dialógica entre verdade e método, bem como, ao se estabelecer plenamente no âmbito do saber, a própria hermenêutica é investigada a partir da dialógica entre verdade e método, da verdade para o método, e vice-versa.

36. [iv] Quarto, a utilidade da hermenêutica; e, por fim, se pode falar da utilidade da hermenêutica; e a utilidade da hermenêutica está em a mesma se conformar com a verdade e a partir da verdade; pois, a utilidade de algo se estabelece na excelência deste algo em conduzir a algum bem; e a hermenêutica, ao fornecer as técnicas necessárias para o entendimento e a compreensão, proporciona os elementos necessários para a interpretação de algo, e do conhecimento da verdade concernente a este algo (essência); e assim, se se conhece algo da verdade se compreende algo da verdade nesta coisa; logo, a hermenêutica possui excelente utilidade já que ajuda na compreensão da verdade; portanto, a tecnologia da hermenêutica possui utilidade que ajuda na compreensão da verdade; pois, uma arte só tem valor e importância a medida que expressa a verdade, e uma técnica só tem valor e importância a medida que se estabelece a partir da verdade. Logo, a hermenêutica enquanto arte e técnica, possui sua utilidade na medida que conforma a interpretação a partir da verdade e com a realidade do dado e/ou do fato interpretado.

Com isso, se pode falar das normas da hermenêutica; pois, a hermenêutica possui normas em conformidade com os princípios anteriormente evocados, mas que se demonstram justamente a partir da descrição e evidenciação da utilidade da hermenêutica; e as normas da hermenêutica se estabelecem com o propósito de abalizar a hermenêutica enquanto arte e técnica; logo, por esta razão, se fala da hermenêutica como Kunstlehre, pois, possui normas em conformidade com a arte e a técnica, bem como em vista a utilidade no conhecimento da verdade. Por isso, sem sombra de dúvida, entre as artes secundárias que servem as ciências, a hermenêutica ocupa lugar de importância em primeiro lugar, pois, se relaciona com as outras artes e se utiliza das mesmas em sua função e tarefa.

37. Deste modo, a partir destes quatro aspectos se estabelece o caminho da hermenêutica, a via da hermenêutica, a qual, se estabelece a partir de cada um destes aspectos, na relação e inter-relação dos mesmos no desenvolvimento da percepção interpretativa natural que germina a partir do conhecimento adquirido do contato com a realidade e do estudo constante; o caminho da hermenêutica se estabelece deste modo e em consonância com estes princípios e pressupostos. E isto basta no que concerne a compreensão geral sobre a hermenêutica.

38. E termina aqui esta elucubração sobre a hermenêutica. Bendito seja Deus por todas as coisas. Amém. 



[1] Friedrich Schleiermacher, Friedrich Schleiermacher Kritische Gesamtausgabe II. Abt. Band 4: Vorlesungen zur Hermeneutik und Kritik [Berlin/Boston: De Gruyter, 2012], pág. 453.

[2] As fases da busca pelo Jesus histórico são um exemplo de quando o subjetivismo adentra ao âmbito da crítica; por isso, Schweitzer define de maneira cirúrgica e brilhante o que realmente é a busca pelo Jesus histórico - o subjetivismo na crítica -, com as seguintes palavras: “Mas não foi apenas cada época que encontrou seu reflexo em Jesus; cada indivíduo criou-O de acordo com seu próprio caráter. Não há tarefa histórica que revela o verdadeiro interior de um homem como a de escrever uma Vida de Jesus” (Albert Schweitzer, A Busca pelo Jesus Histórico [3ª ed. São Paulo: Fonte Editorial, 2009], pág. 14).

[3] Friedrich Schleiermacher, Hermenêutica e Linguagem [São Paulo: Editora Clandestina, 2016], pág. 39.

[4] Hans-Georg Gadamer, Verdade e Método I [Petrópolis, RJ: Vozes, 1997], pág. 31.

[5] Paul Ricouer, Interpretação e Ideologias [4ª ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1990], pág. 17.

[6] Sobre este aspecto, consultar o excelente estudo de Bernard Lonergan, “Insight: Um Estudo do Conhecimento Humano” (São Paulo: É Realizações, 2010).

[7] Ricouer, Op. Cit., pág. 19.

[8] Gadamer, Op. Cit., pág. 559-560.

[9] Schleiermacher, Op. Cit., pág. 41.

[10] Olavo de Carvalho, O Saber e o Enigma: Introdução ao estudo dos esoterismos [Campinas, SP: Vide Editorial, 2021], pág. 75.

[11] Schleiermacher, Op. Cit., pág. 42.

[12] Paul Ricouer, O Conflito das Interpretações [Porto: RES Editora, 1988], pág. 28.

[13] Neste sentido, isto ou pode ser fruto da imbecilização, ou então, de morbidades na alma, ocasionadas pela recusa em se aperceber da realidade. As interpretações errôneas muitas vezes são excelentes meios de se compreender e se demonstrar as morbidades na alma; pois, as mais das vezes, a falta da percepção interpretativa natural, é fruto de doença na alma, a qual, por sua vez, faz com que o indivíduo queira justificar a interpretação não-real como se fosse realidade, ocasionando aquilo que Nietzsche bem definira como “magia do extremo” (cf. Friedrich Nietzsche, A Vontade de Poder [Rio de Janeiro: Editora Contraponto, 2008], livro III, § 749, pág. 376). A este respeito, da compreensão sobre a “magia do extremo” e a não-realidade (ou Segunda Realidade), consultar o excelente ensaio de Voegelin, “Sabedoria e Magia do Extremo: Uma Meditação” (In: Eric Voegelin, Ensaios Publicados: 1966-1985 [São Paulo: É Realizações, 2019], pág. 383-449). 


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