Prefácio.
A hermenêutica é uma nobre arte, que permeia todo o
saber e que é importantíssima para todo o escopo da universitas litterarum;
mas, esta arte está em crise; e isto se constata pelo seguinte fato: há muita
interpretação errada, seja por falta de conhecimento, seja pela destruição da
percepção interpretativa natural; o que é algo alarmante, pois, a atividade
interpretativa coaduna-se com a existência humana e com o desenvolvimento da
vida humana. Pois, sem uma interpretação correta, a vida humana tende a degringolar
e a não se desenvolver.
Assim sendo, se faz necessário compreender os aspectos
fundamentais sobre a hermenêutica e daquilo que concerne a hermenêutica
enquanto arte e técnica da interpretação, tanto para compreender a própria
hermenêutica quanto para compreender as aporias que assola esta tão nobre arte;
e este ensaio procura aclarar esta pressuposição: primeiro, a fim de se
alcançar uma compreensão geral sobre a hermenêutica e, assim, delinear os
insights e perspectivas fundamentais sobre a hermenêutica enquanto arte e
técnica; segundo, para se compreender os problemas que assola a hermenêutica e
suas raízes fundamentais, que açambarcam não somente a hermenêutica, mas uma
disciplina amalgamada, a crítica.
Deste modo, este ensaio busca compreender estes
aspectos concernentes aos preceitos e princípios da hermenêutica enquanto arte
e técnica; pois, a natureza da hermenêutica, sua tarefa e função, são parte
preponderante da elucubração racional e da análise filosófica; pois, como
elucubrara Schleiermacher, diante das várias hermenêuticas regionais, se faz
necessário delinear e evocar uma hermenêutica universal; e elucubrar sobre a
hermenêutica universal, enquanto arte e técnica, é uma das tarefas da reflexão
filosófica, que se constitui de todo um vasto campo do saber, pois, a
hermenêutica enquanto arte e técnica é amplíssima tanto em si mesma quanto na
inter-relação com outros saberes.
Portanto, ao se compreender sobre a hermenêutica,
também se compreende sobre os problemas concernentes a hermenêutica - bem como
os que concernem a crítica; por isso, elucubrar sobre a hermenêutica é tarefa
inerente a qualquer edificação e em qualquer construção do conhecimento, em
todas as áreas que permeiam a enciclopédia do saber humano; mas não somente em
relação ao conhecimento específico de alguma área do saber ou sobre o
conhecimento teorético, mas principalmente sobre os aspectos do cotidiano da
vida humana, os quais, mesmo nos afazeres simples, também tem algo da
interpretação; e isto, constitui-se de um dos mais eficazes elementos de
entendimento e compreensão sobre o estado da hermenêutica e de sua tarefa, mas
também, para a partir disso, se elucubrar sobre a racionalidade humana.
Pois, a hermenêutica não somente serve para o
desenvolvimento do saber, mas também para a compreensão de como está a
racionalidade humana; evidentemente, isso não ocupa o lugar central na
hermenêutica; mas da compreensão sobre a hermenêutica se consegue aclarar este
aspecto de maneira cirúrgica e com isso se constatar o estado da racionalidade
do ser humano e/ou de toda uma sociedade. Portanto, adentremos a compreensão
sobre a hermenêutica e compreendamos quão significativos aspectos esta arte e
técnica tem a contribuir com o saber e com a vida humana.
Soli Deo Gloria!
In Nomine Iesus!
05 de julho de 2024.
Prólogo.
1. O Filósofo, no livro das Categorias, afirma:
“um fragmento de conhecimento de gramática existe na alma” (Cat. 1a27);
esta sentença, um pouco enigmática e obscura, estabelece um pressuposto
fundamental da compreensão sobre o saber e do entendimento sobre como se
compreende o saber; pois, existe um conhecimento de gramática na alma, pois, o
ser humano, como ser racional, expressa-se por meio da linguagem, e a expressão
pela linguagem necessariamente diz respeito a gramática. E a gramática, por sua
vez, como elemento indiscutível da vida humana, pressupõe outro aspecto, o da
interpretação; sendo um fragmento de conhecimento de gramática inerente a alma,
também o é o da interpretação.
Pois, a gramática sendo as regras da linguagem, é
evidente que o ser humano não nasce sabendo defini-las, todavia, a medida que
cresce e se desenvolve, se as exerce, muitas das vezes sem nem se aperceber
destas regras; o mesmo se dá com a interpretação, imbuída necessariamente no
desenvolvimento do ser humano e do domínio deste da linguagem a partir da
vivência diária; logo, é correta a sentença do Filósofo em afirmar que existe
um fragmento de conhecimento de gramática na alma.
2. No entanto, a designação da interpretação a partir
deste preceito do Filósofo de que existe um fragmento de conhecimento de
gramática na alma, demonstra que o ato da interpretação também é inerente ao
ser humano, conquanto muitos poucos conheçam e entendam as regras da
interpretação; todavia, na simples acepção do termo interpretação, se
compreende que todos os seres humanos praticam algo da interpretação muito
devido a serem seres racionais; a racionalidade pressupõem a interpretação, e
vice-versa; razão e hermenêutica são amalgamadas; logo, a interpretação, em
consonância com a linguagem, faz parte do desenvolvimento da vida humana,
inclusive do desenvolvimento da personalidade do indivíduo, pois, pela análise
da percepção interpretativa do indivíduo se consegue compreender o grau de
racionalidade que o mesmo possui, isto é, no sentido de verificar se há
racionalidade ou não. Portanto, se a percepção interpretativa for ruim ou
defasada, é sinal e/ou evidência de irracionalidade (seja irracionalidade restrita
a apenas um ou outro aspecto desconhecido ou irracionalidade plena, mais
conhecida como burrice).
3. Deste modo, se compreender sobre a interpretação,
ou mais propriamente sobre a hermenêutica, é de fundamental importância para se
entender o estado geral da percepção interpretativa dos indivíduos de uma
sociedade, e, com isso, se compreender o estado da inteligência de determinado
ou povo ou de determinados povos; portanto, a hermenêutica, e sua disciplina
amalgamada, a crítica, são fundamentais não somente para quem lida com
interpretação acadêmica de textos, mas também para a compreensão de fatos referentes
a própria vida humana; por isso, a hermenêutica e a crítica, quando se
estabelecem como elemento de investigação, pressupõem um outro aspecto, a
saber, a gramática; Schleiermacher afirma: “A hermenêutica e a crítica, para
serem exercidas, pressupõem que se tenha a gramática dentro de si, e o uso
correto da gramática pressupõe que a hermenêutica e a crítica sejam exercidas
corretamente”[1];
com isso, se pode afirmar que a hermenêutica e a crítica só são entendidas
corretamente, quando se tem a compreensão de que a gramática, ou mais
propriamente a função da linguagem e sua tarefa interpretativa, é algo que o
ser humano possui em sua alma. E, neste quesito, se afirma inclusive, que
hermenêutica também tem a ver com psicologia, e vice-versa; etc.
4. No entanto, o problema que se estabelece a partir
de tal pressuposição, não é dos mais simples; aliás, é assaz dificultoso, pois,
está imbuído em uma série de questões aporéticas que permeiam tanto a teologia
quanto a filosofia, já que, a questão da hermenêutica enquanto arte da
interpretação, enquanto regras e leis da interpretação fora substituída pela
ideia da “interpretação subjetiva”, isto é, passa a ser o “eu” que define as
regras de interpretação e as implementa na realidade, e não a realidade que
apresenta estas regras, como por exemplo, se constata no psicologismo, no
historicismo, no ideologismo, no marxismo-comunismo, no juridicismo, etc.;
estes e muitos outros “ismos” também evocam esta transmogrifação da
hermenêutica, chegando até mesmo a influenciar a crítica em termos subjetivos;
e, quando a crítica se torna expressão de métodos subjetivos - como por exemplo
as fases da busca pelo Jesus histórico[2] -,
é sinal da decadência total da hermenêutica e da destruição da percepção
interpretativa natural do ser humano, a qual fora substituída pelos elementos
da vontade corrompida e da inteligência destruída.
Portanto, se faz necessário compreender a
hermenêutica; pois, assim se compreende a natureza e a essência da
hermenêutica, para deste modo abalizar novamente a interpretação sem os
subjetivismos doentios que tem assolado o saber humano no que tange a
interpretação.
I. A Hermenêutica.
5. Com isso, de início, se investiga o vocábulo
hermenêutica; e, como Schleiermacher já falara em suas singulares preleções,
definir hermenêutica como ciência universal é algo muito difícil; o que, há, de
certo, são várias hermenêuticas diversas, que compreendem especificamente as
várias esferas do saber; certamente, a hermenêutica que mais fora abalizada e
desenvolvimento enquanto arte e técnica, foi a hermenêutica sacra, a
hermenêutica ligada a interpretação dos textos bíblicos, que foi a hermenêutica
mais utilizada durante a história.
6. No entanto, a hermenêutica enquanto arte e técnica,
fora realmente estabilizada a partir das preleções de Schleiermacher (embora a
principal proposição da hermenêutica universal não provenha de Schleiermacher,
mas de Dannhauer); pois, Schleiermacher soubera como captar o verdadeiro
sentido da hermenêutica em meio as muitas hermenêuticas; Schleiermacher soubera
encontrar as regras da hermenêutica em meio as diversas hermenêuticas; em
especial, porque se utiliza de duas delas: a hermenêutica sagrada e a hermenêutica
filosófica; mas, como se pode observar, na própria ideia de hermenêutica se tem
um conflito de interpretações; o que, se pode fazer, tal como Schleiermacher
fizera, é abalizar a hermenêutica enquanto arte e técnica, o que livra a
investigação dos perigos e dos desvios das confusões a respeito da
interpretação.
7. Pois, se a hermenêutica é uma arte e técnica, então
suas leis, se estabelecem como verdadeiras em qualquer esfera do saber,
bastando apenas aplicá-las deste modo, o que muitas das ciências já o fazem,
todavia, sem a consciência da hermenêutica universal; e este é o problema
central que tem rondado a hermenêutica também em tempos hodiernos; embora,
Schleiermacher tenha tido de se defrontar com estes problemas e os tenha solucionado
dando forma a hermenêutica enquanto arte e técnica da interpretação, os problemas
subjetivistas em relação a interpretação, se avolumaram novamente não na
questão de se ter uma hermenêutica universal, mas no sentido de se ter apenas
esta hermenêutica como regra emitida a partir de juízo de valor subjetivos;
Schleiermacher laborou para estabelecer a validação da hermenêutica universal
no séc. XIX – o mesmo que Dannhauer houvera feito no séc. XVII, mas sem o
“sucesso” obtido posteriormente por Schleiermacher -, em tempos hodiernos se
tem de laborar para que haja uma volta a este princípio, e isto sem se perder
nos labirintos dos reducionismos hermenêuticos que são parte preponderante do
que se entende por interpretação no âmbito da universitas litterarum. Pois,
a confusão de princípios interpretativos é tão grande e tão aguda que se tornou
parte preponderante da existencialidade das ciências e que caractere
inconfundível das universidades.
8. Assim sendo, pode-se afirmar que a hermenêutica
universal não é uma ciência, mas muito mais do que ciência, é uma arte e
técnica, dir-se-ia uma Kunstlehre, uma “tecnologia” que mescla filologia
e exegese na medida certa; no entanto, tal proposição, ao ser afirmada diante
das aporias que assolam a hermenêutica, há de se fundamentar em bases sólidas;
e, para compreender isso, voltar-se-á a descrição de Schleiermacher;
Schleiermacher apresenta três aspectos para o conceito científico de
hermenêutica, os quais são: “(a) arte de apresentar corretamente os
pensamentos; (b) arte de comunicar corretamente a um terceiro o discurso de um
outro; (c) arte de entender corretamente o discurso de um outro. O conceito
científico se refere a este terceiro, como intermédio entre o primeiro e o
segundo”[3].
Logo, se tem três pressupostos singulares para a compreensão da hermenêutica
universal, que estabelece a proposição de uma hermenêutica como ciência, mas
não somente como uma disciplina separada, mas principalmente como arte e
técnica, isto é, como uma disciplina que se conduz em conjunto com outras
disciplinas.
9. Além disso, estes três princípios evocados por
Schleiermacher também servem de base para novamente se abalizar o entendimento
da hermenêutica diante do subjetivismo interpretativo característico da
existência na contemporaneidade; pois, o problema da hermenêutica não é
problema de método, e a dialógica entender-interpretar não é algo apenas da
ciência, mas algo fundamentalmente humano, dir-se-ia naturalmente humano,
intrinsecamente humano; por isso, Gadamer afirma: “entender e interpretar os
textos não é somente empenho da ciência, já que pertence claramente ao todo da
experiência do homem no mundo. Na sua origem, o fenômeno hermenêutico não é, de
forma alguma, um problema de método”[4]. A
descrição de Gadamer é precisa e lida fundamentalmente com dois problemas que
assolam a hermenêutica em tempos hodiernos, a saber: primeiro, o problema da
compreensão do lugar da hermenêutica; segundo, o problema do fenômeno
hermenêutico.
10. Estes dois problemas, se coadunam e se
inter-relacionam; e o entendimento sobre estes dois problemas, clarifica o
entendimento sobre a correta aplicação da hermenêutica como meio termo entre a
filologia e a exegese, ou mais propriamente, entre o princípio filosófico e o
princípio exegético, que ao serem aplicados na medida certa, no “meio-termo”,
formam a Kunstlehre, a tecnologia correta para a interpretação; ou mais
propriamente, dando forma real a definição da hermenêutica como arte e técnica
da interpretação.
Logo, se pode afirmar que os dois problemas inerentes
que permeiam a pergunta pela hermenêutica são, na verdade, um problema do
“meio-termo”, ou mais propriamente, um “problema” que versa não sobre assuntos
técnicos ou científicos, mas que açambarca problemas de desequilíbrio entre o
meio-termo em relação ao entendimento, ou, em termos científicos, a raiz do
desequilíbrio entre o princípio filológico e o princípio exegético.
Portanto, se pode falar nesta raiz, como um problema
de percepção ou como um problema de entendimento; e, tanto um quanto o outro, também
dizem respeito a alma; então, em última análise os problemas inerentes que
permeiam a pergunta pela hermenêutica são problemas que dizem respeito a alma,
tanto do indivíduo quanto da sociedade.
11. Por isso, o problema da hermenêutica é um problema
tanto da alma do indivíduo quanto da alma da sociedade; mas não propriamente
uma morbidade da alma, embora possa surgir de uma, mas uma defasagem,
ocasionada por algum motivo, nas faculdades intelectivas da alma, provocada por
alguma ideologia ou pela instauração de algum sistema anti-conhecimento; esta
defasagem na alma do indivíduo se torna, as mais das vezes, a defasagem da alma
de uma sociedade, demonstrando a castificação de uma sociedade onde os indivíduos
não consegue interpretar nada de maneira adequada (o que, por si, é algo
alarmante); e não se fala num primeiro momento no sentido de interpretação
científica, mas da percepção interpretativa natural. Portanto, esta percepção
interpretativa natural é a base de qualquer formulação hermenêutica, e a
hermenêutica sóbria e racional, sempre é embasada nesta percepção bem
estabelecida e estruturada; se esta percepção interpretativa natural for
corrompida, então, a hermenêutica também se torna corrompida.
12. E esta é a raiz primária do problema da
hermenêutica, não só na contemporaneidade, mas sempre que ideologias nefastas
dominam a cultura e a sociedade; por isso, se estabelece o problema
identificado por Gadamer, da compreensão do lugar da hermenêutica; e, uma vez
que a percepção interpretativa natural for corrompida, então, não se terá a
compreensão sobre a importância e o lugar da hermenêutica, e a mesma acaba por
ser rejeitada, ou como acontece, se torna desvirtuada pelo subjetivismo
interpretativo; mas, é também por isso que se estabelece o segundo problema
identificado por Gadamer, o problema do fenômeno hermenêutico, que não é mais
reconhecido, e nem sequer é percebido como fenômeno digno de interpretação, e,
com isso, se estabelece o que pode ser definido como a transmutação do fenômeno
hermenêutico da realidade para a fenomenização da compreensão corrompida
do “eu”, gerando o que se pode chamar de “neurose” hermenêutica, isto é,
cria-se algo fora da realidade e a partir deste algo passa-se a interpretar as
coisas e os textos, calcificando enormes confusões e aporias, tanto em relação
ao conhecimento quanto na alma; em relação ao conhecimento, gera-se o
anti-conhecimento e/ou a imbecilização; em relação a alma, gera-se desordem.
13. E, diante deste cenário, a fonte da solução está
em novamente em se pensar sobre a hermenêutica, para que alguns poucos que
ainda não foram açambarcados na destruição da percepção interpretativa natural,
possam novamente voltar a hermenêutica tal como ela é; e, para isso, se evoca
novamente a descrição feita por Schleiermacher; portanto, neste sentido, se
volta aos três aspectos propostos por Schleiermacher (n. 8).
Em relação ao primeiro aspecto, se coaduna mais com a
interpretação que é expressa de maneira adequada num discurso, pois, o próprio
discurso ou a enunciação, pressupõe alguma interpretação que é expressa por
palavras num enunciado ou em vários enunciados, o que, pressupõe a
interpretação e sua expressão enquanto evidência da própria interpretação.
Em relação ao segundo aspecto, se pode afirmar que a
partir da compreensão de um texto, necessariamente, esta compreensão se formula
com relação a um outro, ou que se efetiva na comunicação a um segundo ou a um
terceiro, ou a ambos, o sentido do texto interpretado - e é neste sentido que se
forma a interpretação oral, ou que se edifica bons diálogos e sóbrias
discussões.
E, em relação ao terceiro aspecto apresentado por
Schleiermacher, se pode formular uma definição de hermenêutica; por exemplo,
Paul Ricouer afirma: “a hermenêutica é a teoria das operações da compreensão
em sua relação com a interpretação de textos”[5]. Logo,
se tem uma definição basilar de hermenêutica a partir da compreensão do modo
como o fenômeno hermenêutico se estabelece, delineado magistralmente por
Schleiermacher nestes três aspectos evocados.
14. A definição de Ricouer, embora sintética,
açambarca uma compreensão adequada a partir do terceiro aspecto apresentado por
Schleiermacher; mas, não somente isso, pois, delineia os dois aspectos
preponderantes do fenômeno hermenêutico, a saber: as operações da compreensão e
a interpretação dos textos; as operações da compreensão são a forma como se
compreende naturalmente e a forma como se compreende a partir de um estudo mais
aprofundado sobre a própria compreensão[6]
(em sentido aristotélico as três operações do intelecto), pois, quando se
compreende que se compreende e o modo como se compreende, a própria compreensão
se torna mais efetiva e adequada, pois, quanto mais se compreende, melhor se
compreende que se compreende; e, de igual modo, a interpretação dos textos, que
por sua vez, é a junção equilibrada entre os princípios da tarefa filológica e
a da tarefa exegética; logo, estes dois aspectos fundamentais do fenômeno
hermenêutico, são abalizados a partir de uma simples definição, uma definição
geral, sobre a hermenêutica como teoria das operações da compreensão e sua
relação com a interpretação do texto. Mas, a definição de Ricouer, apesar de
ser simples, delineia mais um aspecto de suma importância para a hermenêutica,
a função de se entender como se efetua a compreensão.
15. A hermenêutica não somente lida com a
interpretação, mas também lida com a compreensão; e, mesmo que a análise
específica da compreensão não seja função propriamente dita da hermenêutica,
pois, pertence a outras esferas do saber, a hermenêutica pelo menos lida com o
fato da compreensão e sua relação com a interpretação; pois, só há
interpretação onde houve compreensão; e a hermenêutica, indaga não a
possibilidade e as nuances da compreensão (embora pressuponha esta indagação),
mas indaga se a compreensão realmente tem sido compreensão e quais suas
manifestações; a hermenêutica não pergunta pela razão da compreensão, mas por
suas operações, que basicamente se dão em dois aspectos: primeiro, a evidência
ou não da compreensão; segundo, a forma da expressão da compreensão.
Portanto, a hermenêutica, ao lidar com a
interpretação, primeiro lida necessariamente com a compreensão e se realmente
houve alguma compreensão ou se o que há é uma compreensão distorcida;
evidentemente, tal proposição, parece aferir para a hermenêutica uma série de
outras funções, mas, especificamente, afere apenas o aspecto da verificação da
existência ou não da compreensão sóbria e racional, o que é necessário como
parte da hermenêutica primeira antes de adentrar na interpretação dos textos.
16. Deste modo, se não se tem uma compreensão natural
adequada, a qual é pressuposto em todo ser humano sóbrio e racional, então, não
se terá uma interpretação adequada; por isso, a verificação da compreensão como
fenômeno natural, infere à hermenêutica os gérmens para estabelecer a
interpretação dos textos, bem como serve de instrumento para verificar quando a
percepção interpretativa natural se encontra desvirtuada e desfigurada;
evidentemente, tal conhecimento, na verdade, é fundamental para a hermenêutica,
para que a mesma seja utilizada como Kunstlhere para a interpretação dos
textos. Com isso, se observa que para a tecnologia referente a hermenêutica
possa ser utilizada tem de haver a linguagem como expressão da realidade, e,
por consequência, a interpretação desta linguagem; a Kunstlehre
pressupõem este princípio. E a linguagem é o que demonstra a percepção
interpretativa do ser humano; pois, a própria linguagem é a descrição da
sobriedade ou não desta percepção.
17. Por isso, que a linguagem, mais especificamente os
textos, são o que propriamente designam a proposição da interpretação; pois, o
trabalho mais elementar referente a interpretação está justamente delineado a
partir do texto, ou da linguagem expressa em texto; pois, a interpretação tanto
diz respeito a elaboração deste discurso ou enunciado, quanto diz respeito ao
entendimento da intenção deste discurso; por isso, o próprio Ricouer afirma: “Produzir
um discurso relativamente unívoco com palavras polissêmicas, identificar essa
intenção de univocidade na recepção das mensagens, eis o primeiro e mais
elementar trabalho da interpretação”[7]; e
é deste trabalho mais elementar da interpretação que surge a hermenêutica como
arte e técnica, pois, lida fundamentalmente com a linguagem e com suas formas,
principalmente a linguagem escrita ou texto; portanto, a partir da linguagem,
se estabelece o que Gadamer chama de medium da interpretação; por isso
Gadamer diz: “A linguagem é o meio em que se realiza o acordo dos
interlocutores e o entendimento sobre a coisa”[8].
Por exemplo, são por estas e outras razões que o Filósofo estabelece a
proposição de que um fragmento de gramática está na alma no livro dos Predicamentos,
pois, linguagem e interpretação se coadunam com a própria existência dos seres
humanos e são expressão da própria alma do ser humano.
Por isso, em relação as várias disciplinas existem
hermenêuticas regionais, que se estabelecem de acordo com a linguagem e a
tarefa da interpretação em cada área do saber; e, em contrapartida, o
estabelecimento de uma hermenêutica universal, que pressupõem esse aspecto,
tira a tarefa da interpretação da regionalidade das várias disciplinas, e a
aplica como arte e técnica da interpretação, que pode ser aplicada as várias
disciplinas específicas, sem com isso se tornar reduzida a linguagem e a
interpretação dentro do escopo de determinada disciplina; e este mesmo aspecto
também vale para a tentativa de reduzir a tarefa hermenêutica de acordo com
algum “ismo” deificatório, que tenta tornar a hermenêutica em expressão de
apenas um aspecto da realidade temporal, como por exemplo o psicologismo que
tenta tornar a hermenêutica apenas questão de assentimento mental, ou o
historicismo que tenta tornar a hermenêutica apenas como expressão de um fato
histórico, ou o comunismo que tenta implementar uma hermenêutica sob o sistema
marxista; etc.
18. Assim sendo, pode-se evocar outra perspectiva
sobre a hermenêutica; pois, se o discurso ou o enunciado está amalgamado a arte
de entender, então, estas duas esferas se relacionam na hermenêutica; por isso,
Schleiermacher afirma: “Já que a arte de discursar e a arte de entender
(correspondentemente) estão em paralelo uma com a outra, mas discursar é apenas
o lado externo do pensar, a hermenêutica está em conexão com a arte de pensar e
é, portanto, filosófica. Mas de tal modo que a arte da interpretação é
dependente da composição e a pressupõe. O paralelismo consiste nisto: onde o
discurso não tem arte, tampouco necessita de arte para ser entendido”[9]. Portanto,
como Schleiermacher assevera, hermenêutica enquanto arte pressupõe o discurso
como arte, ou mais propriamente, a retórica; e, onde a retórica deixa de
existir, isto é, onde a arte do discurso e da boa escrita deixam de existir,
então, não haverá possibilidade de interpretação; por isso, hermenêutica e
retórica se coadunam; e, o paralelismo entre a arte de discursar e a arte de
interpretar, é que uma pressupõe a outra, e onde não existe uma não existe a
outra.
Além disso, como a hermenêutica está lidada com a arte
de pensar, se fala da hermenêutica filosófica; a hermenêutica filosófica seria
a forma mais apropriada de se pensar a hermenêutica em consonância com a
linguagem; o simples ato de falar, de se pronunciar, já adentra ao terreno da
filosofia; e como a hermenêutica também lida com a linguagem, então, a
hermenêutica lida com a filosofia, logo, hermenêutica filosófica; por isso, o
paralelismo entre a arte do discurso, ou mais propriamente, a arte de se expressar
corretamente, e a arte de interpretar está justamente no qualificativo “arte”;
onde há arte do se expressar, há de haver a arte de interpretar; e onde não há
preocupação com a arte do se expressar, ou qualquer outra corrupção da
linguagem, logo haverá o desprezo pela hermenêutica ou a rejeição a
hermenêutica, que se manifestam, as mais das vezes, pela corrupção do princípio
objetivo da hermenêutica.
19. E, diante destas proposições, se pode afirmar que
a hermenêutica tem algo de científico; e a natureza científica da hermenêutica
está intimamente ligada aos três pressupostos delineados por Schleiermacher; os
quais, ao serem melhor observados e compreendidos, pode ser aferidos a partir
das três coisas que definem o conhecimento; para os antigos, “o que se
entendia por conhecimento eram três coisas que se resumem em três palavras: (a)
teoria, do verbo theorein, olhar; (b) ón, ser; e (c) lógos, palavra. Olhar o
ser e dizer o que ele é: nisso consistia o ideal científico”[10];
logo, a tríplice descrição da hermenêutica, é açambarcada na proposição
fundamental do conhecimento; assim, a hermenêutica é compreender o texto e
dizer o que ele significa, e não o que o “eu” acha ou o que supostamente se
quer intitular, seja na hermenêutica sacra, seja na hermenêutica filosófica.
20. E, esta simples descrição, livra a hermenêutica de
todos os problemas que surgem sobre o fenômeno hermenêutico, alguns dos quais,
abordados de raspão; pois, a tríplice descrição de Schleiermacher, abalizada
pela tríplice descrição do conhecimento, livra a hermenêutica dos dois
problemas elencados por Gadamer, a saber, o problema da compreensão do lugar da
hermenêutica, e o problema do fenômeno hermenêutico; pois, sabendo-se o que é
hermenêutica e como se manifesta o fenômeno hermenêutico, logo, se terá os
pressupostos que definem e delineiam a função e a tarefa da hermenêutica.
E essa inter-relação abaliza três aspectos, e nestes
três aspectos fica clarividente a função e a tarefa da hermenêutica; estes três
aspectos são: (i) primeiro, a tarefa rudimentar da hermenêutica; (ii) segundo,
a natureza e o propósito da hermenêutica; (iii) terceiro, o escopo da
hermenêutica.
21. [i] Primeiro, a tarefa rudimentar da hermenêutica;
a tarefa rudimentar da hermenêutica é a simples e costumeira ação da
interpretação, que provêm da percepção interpretativa natural; pois, tendo o
ser humano esta percepção interpretativa natural, que se demonstra através da
linguagem, o próprio ser humano interpretará os fatos do cotidiano tal como
eles se demonstram e se evidenciam; portanto, a tarefa rudimentar da
hermenêutica está coaduna com esta pressuposição auto-evidente, a qual, tendo
sido estabelecida de maneira sóbria e racional, é a base que permite o
desenvolvimento da hermenêutica; mas, pelo contrário, quando existe alguma
aporia ou aporias sobre a hermenêutica, a mesma tem por raiz justamente a
corrupção, por qual meio for - as mais das vezes, pela ideologização -, da
percepção interpretativa natural; com isso, a base fundamental e apodítica da
hermenêutica sempre é a partir de sua tarefa rudimentar, bem como é a através
da compreensão sobre esta tarefa e sua existencialidade que se verifica a
sobriedade ou não da hermenêutica enquanto arte e técnica da interpretação;
pois, a hermenêutica só pode ser uma arte e uma técnica ao se tornar bem
estabelecida, porque antes fora algo coadunado com a realidade e com os
preceitos do que é real - isto é, se se estabelecer a partir da percepção
interpretativa natural.
22. [ii] Segundo, a natureza e propósito da
hermenêutica; a natureza e o propósito da hermenêutica se tornam mais evidentes
a partir do pleno estabelecimento da tarefa rudimentar da hermenêutica, a qual
é a base donde provêm a elucidação da hermenêutica enquanto arte e técnica; e,
em sua natureza, a hermenêutica lida com a linguagem, sua expressão, e, por
consequência, sua interpretação; linguagem, expressão da linguagem (falada ou
escrita) e a interpretação desta expressão; isto, é o que se constitui a natureza
da hermenêutica; e nesta natureza se estabelece o propósito mais específico da
hermenêutica enquanto arte e técnica; pois, o propósito específico da
hermenêutica é a interpretação, por isso, arte e técnica da interpretação; por
isso, a hermenêutica é Kunstlehre, é a tecnologia que sendo arte e
técnica, tem outros aspectos englobados, mas que tem por propósito a
compreensão do texto e de seu significado tal como expresso pelo próprio texto.
23. [iii] Terceiro, o escopo da hermenêutica; o escopo
da hermenêutica está em consonância com a natureza e o propósito da mesma;
pois, se a natureza da hermenêutica lida com a linguagem, a expressão da
linguagem e a interpretação, então, o escopo da hermenêutica se formará tendo
em vista a relação entre esta tríade, e a partir do propósito da hermenêutica;
como a hermenêutica lida com esta tríade e com a interpretação enquanto arte e
técnica, então, a hermenêutica no que tange a estes aspectos, terá uma ampla
gama de princípios e pressupostos.
Portanto, o escopo da hermenêutica pode ser definido a
partir do seguinte axioma: a hermenêutica, por lidar com textos e com a
interpretação de textos, com a arte de discursar como Schleiermacher afirma,
então, pelo próprio discurso, se tem o escopo da hermenêutica, pois, o “discurso
é mediação para a comunidade do pensamento, e daí se explicam a
interdependência de retórica e hermenêutica e a relação conjunta de ambas com a
dialética”[11];
logo, no escopo da hermenêutica, se entende que a mesma se relaciona com a
retórica e com a dialética; com a retórica enquanto arte do pensamento correto;
e com a dialética enquanto elemento unificador da unidade do saber, tanto
expresso de maneira adequada com a retórica quanto entendido de maneira
adequada pela hermenêutica; a dialética unifica este dois polos, formando um
único pressuposto estruturante da hermenêutica enquanto arte e técnica, embora,
tanto a hermenêutica quanto a retórica permaneçam artes interdependentes, que
se relacionam com a dialética de maneira conjunta no âmbito da junção de ambas
na hermenêutica, e de maneira separada no âmbito da existência específica de
cada arte.
24. Deste modo, se consegue compreender que quando há
uma interpretação errada, pela simples demonstração da interpretação correta,
se consegue entender este erro; mas, isto, somente quando a interpretação é um
erro por equívoco ou por não-entendimento; mas, quando a interpretação é errada
pela corrupção da tarefa rudimentar da hermenêutica, então nem mesmo a mais
bela interpretação correta se torna suficiente para corrigir os desvios
intelectivos da corrupção da percepção interpretativa natural; logo, o problema
da hermenêutica se dá não com a interpretação teorética errada, que se ocorrer,
basta apenas a demonstração da interpretação correta, mas a raiz do problema em
relação a interpretação se dá na corrupção da percepção interpretativa, que faz
com que aqueles que foram açambarcados nesta corrupção arrolem para si
interpretações fora da realidade e além da interpretação do próprio fato ou de
algum texto.
25. Estes aspectos são fundamentais na elucubração
sobre a hermenêutica; pois, a hermenêutica tanto lida com a interpretação,
quando lida com os problemas da interpretação; com a tarefa da interpretação e
com os problemas inerentes a esta tarefa ou os problemas que vituperam esta
tarefa; logo, os problemas na hermenêutica, tais como se tem demonstrado em
tempos hodiernos, vão muito além de um simples erro de interpretação ou de
desconhecimento de técnicas de interpretação, que também são constantes; mas, a
raiz do problema da hermenêutica é a corrupção da percepção interpretativa, que
é fruto da corrupção e da destruição da inteligência; e, evidentemente, se
compreende que a hermenêutica em si não é difícil, e mesmo os textos difíceis
de serem interpretados também possuem certo denominativo comum de interpretação
e compreensão; a problemática está na corrupção da percepção interpretativa e
na não-compreensão e entendimento desta corrupção por parte daqueles que
interpretam as coisas erradas.
II. O caminho da
hermenêutica.
26. Ora, tendo descrito e compreendido a hermenêutica,
sua natureza e sua tarefa, a partir de vários insights e de suas perspectivas
fundamentais, se pode prosseguir para aquilo que necessariamente se segue após
uma descrição geral, a saber, a ponderação e a reflexão sobre o modo de se
desenvolver desta Kunstlehre; logo, se pode afirmar sobre o caminho da
hermenêutica, sobre o modo necessário da hermenêutica enquanto arte e técnica;
e o caminho da hermenêutica é uma forma de descrever como a hermenêutica
universal deve ser estabelecida, além das hermenêuticas regionais, bem como em
consonância com a universalidade necessária da hermenêutica, isto é, aquele
aspecto que se estabelece a partir da cientificidade da hermenêutica.
Pois, embora a hermenêutica não seja descrita
propriamente como uma ciência, possui cientificidade, e desta, é que surge a
proposição da hermenêutica como arte e técnica; assim sendo, a hermenêutica, em
sua natureza e tarefa, é uma arte e é uma técnica; ao mesmo tempo arte e
técnica, e que possui regras e preceitos apodíticos no que concerne a
interpretação; portanto, o caminho da hermenêutica abaliza esta compreensão a
partir da elucubração da natureza e da tarefa da hermenêutica.
27. Com isso, se pode afirmar que elucubrar sobre o
caminho da hermenêutica é, antes de tudo, demonstrar o lugar da hermenêutica no
âmbito das ideias; pois, as próprias ideias fundamentais só atravessam a
história devido a interpretação; a interpretação funciona como instrumento da
tradição; Ricouer afirma: “Sentimos que a interpretação tem uma história e
que essa história é um segmento da própria tradição; não se interpreta de
nenhuma parte, mas para explicitar, prolongar e assim manter viva a própria
tradição na qual nos mantemos. E assim que o tempo da interpretação pertence de
algum modo ao tempo da tradição. Mas em troca a tradição, mesmo entendida como
transmissão dum depositum, permanece tradição morta, se não é interpretação
continua desse depósito: uma ‘herança’ não é um pacote fechado que se passa de mão em mão sem
o abrir, mas antes um tesouro que tiramos as mãos cheias e que renovamos na
própria operação de o esgotar. Toda a tradição vive graças a interpretação; e
por este preço que ela dura, isto é, permanece viva”[12]. Por
isso, a interpretação se relaciona com a tradição, e vice-versa, já que na
própria existência da interpretação se evoca uma tradição que emerge do
conteúdo desta interpretação; pois, assim, se demonstra o caminho da
hermenêutica, que é delineado em três aspectos: primeiro, a preservação do
correto ímpeto da interpretação; segundo, o cultivo de um múnus hermenêutico;
terceiro, a efetivação de uma tradição a partir dos legados provenientes da
interpretação.
28. No primeiro aspecto, se compreende que a
interpretação ao ser efetivada de maneira constante, e, com isso, evocar uma
tradição interpretativa, preserva o ímpeto da hermenêutica, pois, o princípio
rudimentar da hermenêutica é preservado a medida que a própria interpretação se
desenvolve em consonância com a sobriedade da percepção interpretativa natural;
e a preservação deste princípio constitui-se uma das tarefas inerentes ao
desenvolvimento da interpretação, já que a própria interpretação só se desenvolve
com a correta preservação deste princípio; na verdade, a hermenêutica só se
desenvolve, e, assim, se gera uma tradição que emerge da interpretação, com a
preservação do ímpeto interpretativo natural, o qual, ao ser preservado na e
partir da interpretação, preserva a própria interpretação a medida que esta
serve como elemento fundacional de uma tradição interpretativa. Assim sendo, na
tradição interpretativa se observa se o princípio rudimentar da hermenêutica
fora preservado ou não, ou se está desfigurado e quais as causas desta
desfiguração. O ímpeto da interpretação serve como aferidor da tarefa
hermenêutica bem como serve de sustentáculo à própria interpretação.
29. No segundo aspecto, ao se efetivar a
interpretação, e a partir da tradição interpretativa se preservar o correto
ímpeto da interpretação, e vice-versa, então, nestas operações fundamentais da
hermenêutica, se forma o cultivo de um múnus hermenêutico; e o múnus
hermenêutico, é a linha indivisível que demonstra a interpretação ao longo da
história, mesmo nas várias hermenêuticas regionais; e fora o cultivo deste
múnus que proporcionou a busca e a efetivação de uma hermenêutica universal; e
a própria hermenêutica universal, só se estabelece como Kunstlehre, como
arte e técnica, a partir do cultivo e do desenvolvimento do múnus hermenêutico;
portanto, a partir da interpretação se compreende o múnus hermenêutico, o qual,
mesmo nas hermenêuticas regionais possuem um tronco comum, que se estabelece a
partir da percepção interpretativa natural; cultivar este tronco comum, fora o
que fizeram as hermenêuticas regionais, dando forma a cientificidade da
hermenêutica, bem como cultivando a universalidade da mesma enquanto arte e
técnica.
30. No terceiro aspecto, se demonstra a efetivação de
uma tradição a partir dos legados provenientes da interpretação; pois, se
houvera a formação e o cultivo de um múnus hermenêutico, então,
necessariamente, deste múnus surgirá uma tradição, tanto em relação as especificidades
da hermenêutica inerente a cada esfera do saber, quanto em relação a
universalidade da interpretação enquanto arte e técnica; por isso, da tradição
que surge dos legados provenientes da interpretação, que vão além da mera
compreensão do texto, pois além de englobar exegese, análise filológica e
regras gramaticais, e com isso abalizar e fundamentar estas, o que provêm da
interpretação estabelece três coisas: primeiro, cria identidade; segundo,
cristaliza esta identidade através do hábito interpretativo e do hábito que
emana do dado interpretado; terceiro, a partir do dado interpretado e da
amalgama de vários dados, surge alguns elementos necessários para o ímpeto do
desenvolvimento da cultura, pois, ao criar identidade, a interpretação fomenta
o desenvolvimento da inteligência, e, por consequência, da cultura; e a
inteligência, neste sentido, serve de elemento propulsor à própria cultura; na
verdade, o único meio propulsor da cultura. Por isso, da observação e
compreensão sobre a interpretação, se consegue entender o estado da
inteligência de um indivíduo e/ou de uma sociedade.
31. Assim sendo, o amplo escopo do caminho da
hermenêutica pressupõem uma série de fatores filosóficos e interpretativos, os
quais, tanto se relacionam com a natureza e a tarefa da hermenêutica, como
estabelecem a relação da hermenêutica com as intenções interpretativas, já que
do caminho da hermenêutica não somente se observa a função da interpretação,
mas também da ação humana em suas mais variadas esferas, pois, as ações
humanas, sempre estão em consonância com alguma interpretação, mesmo se forem
as falsas interpretações que emanam da corrupção da percepção interpretativa
natural; logo, se compreende aspectos que vão desde a interpretação até a
compreensão sobre a sobriedade da psique e da inteligência, etc., com a
compreensão adequada e racional sobre a tarefa e a função da hermenêutica, e
sobre o caminho da hermenêutica.
32. Por isso, o caminho da hermenêutica é um caminho
amplo e dialógico; pois, enquanto arte e técnica, a hermenêutica se relaciona
com as mais variadas disciplinas, em estreita conexão com a retórica e a
dialética, formando assim os princípios universais da interpretação, ou
hermenêutica universal.
Estes princípios possuem uma tríplice estrutura:
primeiro, em parte são extraídos do saber inerente a cada disciplina a partir
do desenvolvimento da própria disciplina; segundo, em certo sentido se coaduna
com os princípios gerais e com os princípios específicos de cada disciplina,
pois, em muitos aspectos são similares e/ou subsequentes e complementares;
terceiro, ao se inter-relacionarem os princípios interpretações gerais e
específicos de cada disciplina, formam uma tradição hermenêutica a partir da qual
emerge a universalidade da interpretação, donde, se estabelece a possibilidade
de se estabelecer uma hermenêutica universal (o que efetivamente se estabeleceu
a partir de Dannhauer, e ganhou notoriedade a partir das análises e preleções
de Schleiermacher).
Além disso, se pode estabelecer o caminho da
hermenêutica a partir de uma pressuposição quadrilátera, a qual está em
consonância com os princípios analisados anteriormente; e quatro aspectos são
evocados ao se elucubrar sobre o caminho da hermenêutica, os quais são: (i)
primeiro, a natureza da hermenêutica; (ii) segundo, a hermenêutica e a
autoridade em relação ao conhecimento; (iii) terceiro, a hermenêutica e a
verdade; (iv) quarto, a utilidade da hermenêutica.
33. [i] Primeiro, a natureza da hermenêutica; a
hermenêutica possui uma natureza; e isto, é evidente; todavia, a investigação
sobre a natureza da hermenêutica sempre se envereda por algumas das disposições
das hermenêuticas regionais, o que, em relação a especificidade destas não
conduz a nenhum erro evidente, mas que, ao se procurar compreender a natureza
geral da hermenêutica, gera-se inúmeras aporias; por isso, para se elucubrar
sobre o caminho da hermenêutica, o que tanto abaliza a hermenêutica em geral
quanto as hermenêuticas específicas, há de se compreender em primeiro lugar a
natureza da hermenêutica, que desdobra-se em dois aspectos: primeiro, em
relação a natureza da hermenêutica enquanto arte; segundo, em relação a
natureza da hermenêutica enquanto técnica.
Em relação ao primeiro aspecto, se compreende que a
natureza da hermenêutica enquanto arte, é porque a hermenêutica não se
constitui como uma ciência, mas que permeia todas as ciências; a hermenêutica é
utilizada por todas as ciências não como ciência, mas como arte da
interpretação, como arte que com suas leis e preceitos amalgama-se aos
conteúdos das ciências, e fornece os instrumentos necessários para a
interpretação, bem como se relaciona com outras artes, ao passo que com estas e
a partir destas, fomenta os aspectos necessários para a interpretação. Logo, a
natureza da hermenêutica enquanto arte, pressupõe a inter-relação com as
ciências, não como ciência, mas enquanto técnica geral que se torna técnica
aplicável a especificidade de cada campo do saber; somente uma arte é capaz de
servir assim ao saber.
Em relação ao segundo aspecto, se compreende que a
natureza da hermenêutica enquanto técnica, é fornecer os instrumentos técnicos
às ciências; por isso, a hermenêutica é uma tecnologia no âmbito do saber que
permite as ciências desenvolverem-se em seus saberes a partir da interpretação;
a função da hermenêutica no âmbito do saber é englobante e ampla, permeia todos
os campos do saber, sem ser uma ciência, e abaliza os campos específicos do
saber enquanto técnica; a tecnicidade da hermenêutica abaliza as funções gerais
de campo do saber, já que o saber se estabelece e se desenvolve a partir da
interpretação. Logo, a natureza da hermenêutica enquanto técnica, pressupõe a
inter-relação com as ciências, burilando e trabalhando os instrumentos das
ciências, a partir das técnicas interpretativas e das técnicas que emergem da
interpretação.
34. [ii] Segundo, a hermenêutica e a autoridade em
relação ao conhecimento; sendo a hermenêutica uma arte e técnica, então,
necessariamente, a hermenêutica estará imbuída na pergunta pela autoridade em
relação ao conhecimento; pois, necessariamente, após o entendimento da natureza
da hermenêutica, surge a pergunta sobre a autoridade (auctoritas) em
relação ao conhecimento, a qual, está imbuída em questões interpretativas;
pois, o conhecimento, para ser conhecimento possui uma autoridade abalizadora;
nem tudo o que se afirma por conhecimento realmente é conhecimento; por isso,
existe uma regra abalizada em relação ao conhecimento, que é definida como a
autoridade em relação ao conhecimento; do mesmo como em relação aos saberes, se
pode ter este ou aquele pensador como autoridade em relação a este ou aquele
saber, em relação ao aspecto geral do conhecimento e do saber, existe uma regra
abalizadora que define o que é e o que não é saber; ou, para se utilizar de uma
distinção que os gregos antigos utilizavam, a distinção entre doxa
(opinião) e episteme (saber).
Portanto, a partir desta distinção se evoca qual a
autoridade em relação ao conhecimento, a saber, só é conhecimento o que é episteme;
doxa não é conhecimento abalizado, embora possa ser a base para algum
conhecimento e para o desenvolvimento do conhecimento; mas o saber, o
conhecimento, abalizado em relação as ciências, é sempre o conhecimento
definido como saber (episteme); a hermenêutica abaliza a questão,
fornecendo os instrumentos que permitem discernir entre o que é doxa e o
que é episteme; a doxa, entre outras coisas, não é permeada pela
interpretação correta e nem é um saber apresentado de maneira apodítica, e por
isso mesmo não possui interpretação universal válida; a episteme, pelo
contrário, possui um saber abalizado, justificado pela interpretação correta e
tido, por causa disso, como interpretação universal válida. Deste modo, se
compreende que o problema entre o saber e a opinião, sempre tem por pano de
fundo uma raiz hermenêutica, a saber, a não compreensão, por falta de
conhecimento ou por imbecilidade, entre o que é saber e o que é opinião, bem
como a diferença entre os dois no âmbito do saber humano. E as técnicas da
hermenêutica ajudam a distinguir entre o que é saber e o que é opinião.
35. [iii] Terceiro, a hermenêutica e a verdade; a
hermenêutica sendo arte e técnica da interpretação lida com a verdade; pois, a
hermenêutica só existe fundamentalmente em consonância com a verdade; e a
verdade enquanto algo que faz parte da realidade e que se demonstra tal como é;
assim sendo, a interpretação só se estabelece enquanto arte e técnica em
consonância com o real; e, mesmo na interpretação e entendimento sobre coisas
não-reais, seja como possibilidade evocada ou em algum gênero literário, a interpretação
é feita com parâmetros reais; pois, a hermenêutica dos sonhadores, os que estão
fora da realidade, ou na Segunda Realidade, é uma hermenêutica que não se
coaduna com a verdade e que não tem por objetivo alcançar por meio da
interpretação a verdade; a verdadeira hermenêutica, a arte e técnica da
interpretação, visa através das técnicas interpretativas alcançar a verdade do
algo interpretado; com isso, hermenêutica se conforma a partir da verdade e
para o conhecimento da verdade. Logo, onde não há conhecimento da verdade ou
onde se tem algo de anti-realidade, não há correta interpretação e nem correta
percepção[13].
Portanto, hermenêutica tem seu sentido e importância,
e sua utilidade, a partir da verdade; pois, a verdade, é o que proporciona o
sentido e o múnus da percepção interpretativa; assim, as técnicas
interpretativas se estabelecem primordialmente e fundamentalmente para o
conhecimento da realidade, para haurir o saber da realidade; a hermenêutica se
relaciona com a verdade justamente por este fato; logo, a hermenêutica,
enquanto técnica e para fortificar-se como técnica, relaciona-se com a verdade
e com os aspectos necessários para o conhecimento da verdade, formando assim
princípios metodológicos para o cultivo e o desenvolvimento da tradição
interpretativa; e, evoca-se, neste sentido, o exemplo de Gadamer, que elaborou
a proposição da hermenêutica a partir da relação entre verdade e método. E,
logicamente, a hermenêutica, se estabelece nesta dialógica entre verdade e
método, bem como, ao se estabelecer plenamente no âmbito do saber, a própria
hermenêutica é investigada a partir da dialógica entre verdade e método, da
verdade para o método, e vice-versa.
36. [iv] Quarto, a utilidade da hermenêutica; e, por
fim, se pode falar da utilidade da hermenêutica; e a utilidade da hermenêutica
está em a mesma se conformar com a verdade e a partir da verdade; pois, a
utilidade de algo se estabelece na excelência deste algo em conduzir a algum
bem; e a hermenêutica, ao fornecer as técnicas necessárias para o entendimento
e a compreensão, proporciona os elementos necessários para a interpretação de
algo, e do conhecimento da verdade concernente a este algo (essência); e assim,
se se conhece algo da verdade se compreende algo da verdade nesta coisa; logo,
a hermenêutica possui excelente utilidade já que ajuda na compreensão da
verdade; portanto, a tecnologia da hermenêutica possui utilidade que ajuda na
compreensão da verdade; pois, uma arte só tem valor e importância a medida que
expressa a verdade, e uma técnica só tem valor e importância a medida que se
estabelece a partir da verdade. Logo, a hermenêutica enquanto arte e técnica,
possui sua utilidade na medida que conforma a interpretação a partir da verdade
e com a realidade do dado e/ou do fato interpretado.
Com isso, se pode falar das normas da hermenêutica;
pois, a hermenêutica possui normas em conformidade com os princípios
anteriormente evocados, mas que se demonstram justamente a partir da descrição
e evidenciação da utilidade da hermenêutica; e as normas da hermenêutica se
estabelecem com o propósito de abalizar a hermenêutica enquanto arte e técnica;
logo, por esta razão, se fala da hermenêutica como Kunstlehre, pois,
possui normas em conformidade com a arte e a técnica, bem como em vista a
utilidade no conhecimento da verdade. Por isso, sem sombra de dúvida, entre as
artes secundárias que servem as ciências, a hermenêutica ocupa lugar de
importância em primeiro lugar, pois, se relaciona com as outras artes e se
utiliza das mesmas em sua função e tarefa.
37. Deste modo, a partir destes quatro aspectos se
estabelece o caminho da hermenêutica, a via da hermenêutica, a qual, se
estabelece a partir de cada um destes aspectos, na relação e inter-relação dos
mesmos no desenvolvimento da percepção interpretativa natural que germina a
partir do conhecimento adquirido do contato com a realidade e do estudo
constante; o caminho da hermenêutica se estabelece deste modo e em consonância
com estes princípios e pressupostos. E isto basta no que concerne a compreensão
geral sobre a hermenêutica.
38. E termina aqui esta elucubração sobre a hermenêutica. Bendito seja Deus por todas as coisas. Amém.
[1] Friedrich Schleiermacher, Friedrich Schleiermacher
Kritische Gesamtausgabe II. Abt. Band 4: Vorlesungen zur Hermeneutik und Kritik
[Berlin/Boston: De Gruyter, 2012], pág. 453.
[2] As fases da
busca pelo Jesus histórico são um exemplo de quando o subjetivismo adentra ao
âmbito da crítica; por isso, Schweitzer define de maneira cirúrgica e brilhante
o que realmente é a busca pelo Jesus histórico - o subjetivismo na crítica -,
com as seguintes palavras: “Mas não foi apenas cada época que encontrou seu
reflexo em Jesus; cada indivíduo criou-O de acordo com seu próprio caráter. Não
há tarefa histórica que revela o verdadeiro interior de um homem como a de
escrever uma Vida de Jesus” (Albert Schweitzer, A Busca pelo Jesus
Histórico [3ª ed. São Paulo: Fonte Editorial, 2009], pág. 14).
[3] Friedrich
Schleiermacher, Hermenêutica e Linguagem [São Paulo: Editora
Clandestina, 2016], pág. 39.
[4] Hans-Georg
Gadamer, Verdade e Método I [Petrópolis, RJ: Vozes, 1997], pág. 31.
[5] Paul
Ricouer, Interpretação e Ideologias [4ª ed. Rio de Janeiro: Francisco
Alves, 1990], pág. 17.
[6] Sobre este
aspecto, consultar o excelente estudo de Bernard Lonergan, “Insight: Um
Estudo do Conhecimento Humano” (São Paulo: É Realizações, 2010).
[7] Ricouer, Op.
Cit., pág. 19.
[8] Gadamer, Op.
Cit., pág. 559-560.
[9] Schleiermacher, Op. Cit., pág. 41.
[10] Olavo de
Carvalho, O Saber e o Enigma: Introdução ao estudo dos esoterismos
[Campinas, SP: Vide Editorial, 2021], pág. 75.
[11] Schleiermacher,
Op. Cit., pág. 42.
[12] Paul
Ricouer, O Conflito das Interpretações [Porto: RES Editora, 1988], pág.
28.
[13] Neste sentido, isto ou pode ser fruto da imbecilização, ou então, de
morbidades na alma, ocasionadas pela recusa em se aperceber da realidade. As
interpretações errôneas muitas vezes são excelentes meios de se compreender e
se demonstrar as morbidades na alma; pois, as mais das vezes, a falta da
percepção interpretativa natural, é fruto de doença na alma, a qual, por sua
vez, faz com que o indivíduo queira justificar a interpretação não-real como se
fosse realidade, ocasionando aquilo que Nietzsche bem definira como “magia
do extremo” (cf. Friedrich Nietzsche, A Vontade de Poder [Rio de
Janeiro: Editora Contraponto, 2008], livro III, § 749, pág. 376). A este
respeito, da compreensão sobre a “magia do extremo” e a não-realidade
(ou Segunda Realidade), consultar o excelente ensaio de Voegelin, “Sabedoria
e Magia do Extremo: Uma Meditação” (In: Eric Voegelin, Ensaios
Publicados: 1966-1985 [São Paulo: É Realizações, 2019], pág. 383-449).
Nenhum comentário:
Postar um comentário