1. A indagação de vossa senhoria: “se é pecado se
entregar a jogos de azar?”, além de ser muito pertinente, também evoca um
problema que se assomou na cristandade em sociedades onde a cultura fora
totalmente corrompida; assim, ao ter diante de mim vossa indagação, e ao
observar o decair de muitos que se dizem “cristãos” na prática
pecaminosa dos jogos de azar, respondo-lhe de modo a explicar o porquê se
entregar aos jogos de azar é pecado, e para explicar qual deve ser o
procedimento disciplinar contra os “cristãos” que se entregam aos jogos de
azar.
2. Ora, em relação a isso fundamentalmente se deve
compreender o que a Sagrada Escritura ensina, pois tal como afirmara São
Gregório de Nissa, a Sagrada Escritura é a verdadeira regra e fundamento da fé
reta e sólida (cf. Epist. V); por isso, a fé verdadeira e reta é a que
está em conformidade com o que é ensinado na Sagrada Escritura; assim, se
alguém se diz “cristão” que mostre sua fé em conformidade com o que é ensinado
na Sagrada Escritura, pois se alguém se diz “cristão” e desobedece ao que é
ensinado na Sagrada Escritura então a fé que diz ter é pior do que a fé dos
demônios (cf. Tg 2.19); pois, fé sem obediência aos ensinamentos bíblicos é fé
sem obras, já que a primeira das obras da fé verdadeira é a obediência aos mandamentos
divinos (cf. Jo 14.21-23, 15.10).
3. E isso também é observado quanto a prática dos
jogos de azar; a Sagrada Escritura condena veementemente a prática dos jogos de
azar; embora na Escritura não se utilize o termo “jogos de azar”, o texto
sagrado se refere ao que concerne aos jogos de azar, pois os jogos de azar se
referem a tudo aquilo que atina o coração para o amor pelo dinheiro, e qualquer
jogo que busque ganhar dinheiro pela sorte ou pela participação em sorteio onde
houveram muitos que pagaram para acumular certo dinheiro para determinado “prêmio
financeiro”; e atualmente os jogos de azar são mais manifestos em jogos em
lotéricas e similares.
E a Sagrada Escritura ensina os seguintes princípios
que condenam os jogos de azar como uma prática pecaminosa:
(i) No Sl 119.36 se ensina que se deve rogar a Deus
para que o coração seja inclinado para os mandamentos divinos e não à cobiça;
ora, a obediência aos mandamentos divinos livra o coração da cobiça; e a
desobediência aos mandamentos divinos evidencia coração dominado pela cobiça.
Portanto, como o se entregar aos jogos de azar é manifestação de cobiça, então
quem se entrega a jogos de azar está contra os mandamentos divinos.
(ii) Em Ec 5.10 se ensina que o amor ao dinheiro é
vaidade, bem como se ensina que o amor ao dinheiro é luxúria; pois, o que ama o
dinheiro nunca se farta, e é próprio da luxúria a insaciabilidade com práticas
cobiçosas; portanto, como o se entregar a jogos de azar é manifestação de
cobiça, então o se entregar a jogos de azar também é manifestação de luxúria.
(iii) Em Mt 6.24 se ensina que não se pode servir a
Deus e servir ao dinheiro (Mamom); pois, quem ama ao dinheiro está
dominado pela cobiça e pela luxúria (cf. 1Tm 6.10); portanto, como o se
entregar a jogos de azar é cobiça e luxúria, quem se entrega a jogos de azar
tem o dinheiro como “deus”, o que engendra a avareza, que é idolatria (cf. Ef.
5.5); assim, quem se entrega a jogos de azar não serve e nem teme a Deus.
(iv) Em 1Tm 6.9 se ensina aqueles que buscam dinheiro
sem medida, ou seja, aqueles que amam ao dinheiro e que cobiçam
desmesuradamente o dinheiro submergem em perdição e ruína; portanto, como o se
entregar a jogos de azar é cobiça e luxúria, então aqueles que se entregam a
jogos de azar estão no caminho da perdição e da ruína, ou seja, estão ordenados
ao inferno.
Portanto, se alguém peca ao praticar jogos de azar,
então está contra os ensinamentos bíblicos; logo, se alguém se diz cristão e se
entrega aos jogos de azar a fé que diz ter é pior do que a fé dos demônios.
4. Além dos ensinamentos bíblicos que declaram como
pecaminoso o ato de participar de jogos de azar, os ensinamentos da Sagrada
Tradição também são categóricos quanto a esta proibição; e nem sequer
mencionarei os ensinamentos dos Padres da Igreja a este respeito; a disciplina
apostólica é categórica quanto a isso: “Se um Bispo, sacerdote ou diácono se
entregar a jogos de azar ou embriaguez, que cesse imediatamente ou seja
destituído. Se um diácono, leitor ou cantor praticar os mesmos vícios, deve
cessar ou será excomungado. O mesmo se aplica a um leigo”[1].
Com isso, de acordo com a disciplina dos apóstolos, se
alguém que está no Santo Sacerdócio, seja Bispo, Padre ou Diácono, se se
entrega a jogos de azar ou a embriaguez, que seja destituído; do mesmo modo, se
um leigo se entregar aos jogos de azar, primeiro deve ser repreendido, e se não
cessar, deve ser excomungado.
5. Além disso, num Concílio Ecumênico se institui uma
regra cabal e irrevogável contra jogos de azar: “Nenhum leigo ou clérigo se
entregará a jogos de azar. Clérigos serão destituídos; leigos, excomungados”[2]; por
isso, se algum clérigo - Bispo, Padre ou Diácono -, ou mesmo alguém que
participa do serviço eclesial, seja leitor, cantor, entre outros, se entregar a
jogos de azar, devem ser destituídos, e após ser destituído, se ainda se
entregar a jogos de azar deve ser excomungado; e se um leigo se entregar a
jogos de azar deve ser excomungado.
Na verdade, por esta regra do Concílio Ecumênico, se
um leigo se entregar a jogos de azar está automaticamente excomungado e um
sacerdote está automaticamente destituído; ora, a excomunhão quando por motivos
corretos, instituída pela correta autoridade da Tradição Apostólica, é um ato
que impede a participação nos meios de graça, mesmo se for excomunhão
automática; se alguém pratica algo que traz excomunhão automática deixa de
participar na graça e decai em apostasia.
6. Assim, aquele que se entrega a jogos de azar está
automaticamente excomungado e está em estado de apostasia; por esta razão não
recebe mais nada da graça ainda que participe nos meios de graça (sacramentos).
Deste modo, se alguém é automaticamente excomungado, mas participa nos
sacramentos não recebe nada da graça, pois a desobediência a disciplina bíblica
e apostólica tornam o indivíduo indigno para receber a graça, já que esta
desobediência é rejeição e escárnio contra a misericórdia de Deus; e não há
mais perdão para quem vitupera a misericórdia de Deus, o que é chamado pelo
autor aos Hebreus de “pisar o Filho de Deus” (cf. Hb 10.29).
7. Ora, o que fora dito deve ser suficiente para responder a indagação de vossa senhoria a respeito do por que se entregar aos jogos de azar é pecado; não só é pecado, mas é um tipo de apostasia, que desemboca em apostasia total posto a cobiça e a luxúria levarem à perdição; se a resposta lhe servir bem, e sanar a vossa indagação, não deixei de me informar, e se por acaso ainda restar alguma dúvida, não hesite em me indagar, que lhe responderei o mais rápido possível. Bendito seja Deus para sempre. Amém.
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