18/01/2026

Resposta sobre os jogos de azar

1. A indagação de vossa senhoria: “se é pecado se entregar a jogos de azar?”, além de ser muito pertinente, também evoca um problema que se assomou na cristandade em sociedades onde a cultura fora totalmente corrompida; assim, ao ter diante de mim vossa indagação, e ao observar o decair de muitos que se dizem “cristãos” na prática pecaminosa dos jogos de azar, respondo-lhe de modo a explicar o porquê se entregar aos jogos de azar é pecado, e para explicar qual deve ser o procedimento disciplinar contra os “cristãos” que se entregam aos jogos de azar.

2. Ora, em relação a isso fundamentalmente se deve compreender o que a Sagrada Escritura ensina, pois tal como afirmara São Gregório de Nissa, a Sagrada Escritura é a verdadeira regra e fundamento da fé reta e sólida (cf. Epist. V); por isso, a fé verdadeira e reta é a que está em conformidade com o que é ensinado na Sagrada Escritura; assim, se alguém se diz “cristão” que mostre sua fé em conformidade com o que é ensinado na Sagrada Escritura, pois se alguém se diz “cristão” e desobedece ao que é ensinado na Sagrada Escritura então a fé que diz ter é pior do que a fé dos demônios (cf. Tg 2.19); pois, fé sem obediência aos ensinamentos bíblicos é fé sem obras, já que a primeira das obras da fé verdadeira é a obediência aos mandamentos divinos (cf. Jo 14.21-23, 15.10).

3. E isso também é observado quanto a prática dos jogos de azar; a Sagrada Escritura condena veementemente a prática dos jogos de azar; embora na Escritura não se utilize o termo “jogos de azar”, o texto sagrado se refere ao que concerne aos jogos de azar, pois os jogos de azar se referem a tudo aquilo que atina o coração para o amor pelo dinheiro, e qualquer jogo que busque ganhar dinheiro pela sorte ou pela participação em sorteio onde houveram muitos que pagaram para acumular certo dinheiro para determinado “prêmio financeiro”; e atualmente os jogos de azar são mais manifestos em jogos em lotéricas e similares.

E a Sagrada Escritura ensina os seguintes princípios que condenam os jogos de azar como uma prática pecaminosa:

(i) No Sl 119.36 se ensina que se deve rogar a Deus para que o coração seja inclinado para os mandamentos divinos e não à cobiça; ora, a obediência aos mandamentos divinos livra o coração da cobiça; e a desobediência aos mandamentos divinos evidencia coração dominado pela cobiça. Portanto, como o se entregar aos jogos de azar é manifestação de cobiça, então quem se entrega a jogos de azar está contra os mandamentos divinos.

(ii) Em Ec 5.10 se ensina que o amor ao dinheiro é vaidade, bem como se ensina que o amor ao dinheiro é luxúria; pois, o que ama o dinheiro nunca se farta, e é próprio da luxúria a insaciabilidade com práticas cobiçosas; portanto, como o se entregar a jogos de azar é manifestação de cobiça, então o se entregar a jogos de azar também é manifestação de luxúria.

(iii) Em Mt 6.24 se ensina que não se pode servir a Deus e servir ao dinheiro (Mamom); pois, quem ama ao dinheiro está dominado pela cobiça e pela luxúria (cf. 1Tm 6.10); portanto, como o se entregar a jogos de azar é cobiça e luxúria, quem se entrega a jogos de azar tem o dinheiro como “deus”, o que engendra a avareza, que é idolatria (cf. Ef. 5.5); assim, quem se entrega a jogos de azar não serve e nem teme a Deus.

(iv) Em 1Tm 6.9 se ensina aqueles que buscam dinheiro sem medida, ou seja, aqueles que amam ao dinheiro e que cobiçam desmesuradamente o dinheiro submergem em perdição e ruína; portanto, como o se entregar a jogos de azar é cobiça e luxúria, então aqueles que se entregam a jogos de azar estão no caminho da perdição e da ruína, ou seja, estão ordenados ao inferno.

Portanto, se alguém peca ao praticar jogos de azar, então está contra os ensinamentos bíblicos; logo, se alguém se diz cristão e se entrega aos jogos de azar a fé que diz ter é pior do que a fé dos demônios.

4. Além dos ensinamentos bíblicos que declaram como pecaminoso o ato de participar de jogos de azar, os ensinamentos da Sagrada Tradição também são categóricos quanto a esta proibição; e nem sequer mencionarei os ensinamentos dos Padres da Igreja a este respeito; a disciplina apostólica é categórica quanto a isso: “Se um Bispo, sacerdote ou diácono se entregar a jogos de azar ou embriaguez, que cesse imediatamente ou seja destituído. Se um diácono, leitor ou cantor praticar os mesmos vícios, deve cessar ou será excomungado. O mesmo se aplica a um leigo[1].  

Com isso, de acordo com a disciplina dos apóstolos, se alguém que está no Santo Sacerdócio, seja Bispo, Padre ou Diácono, se se entrega a jogos de azar ou a embriaguez, que seja destituído; do mesmo modo, se um leigo se entregar aos jogos de azar, primeiro deve ser repreendido, e se não cessar, deve ser excomungado.

5. Além disso, num Concílio Ecumênico se institui uma regra cabal e irrevogável contra jogos de azar: “Nenhum leigo ou clérigo se entregará a jogos de azar. Clérigos serão destituídos; leigos, excomungados[2]; por isso, se algum clérigo - Bispo, Padre ou Diácono -, ou mesmo alguém que participa do serviço eclesial, seja leitor, cantor, entre outros, se entregar a jogos de azar, devem ser destituídos, e após ser destituído, se ainda se entregar a jogos de azar deve ser excomungado; e se um leigo se entregar a jogos de azar deve ser excomungado.

Na verdade, por esta regra do Concílio Ecumênico, se um leigo se entregar a jogos de azar está automaticamente excomungado e um sacerdote está automaticamente destituído; ora, a excomunhão quando por motivos corretos, instituída pela correta autoridade da Tradição Apostólica, é um ato que impede a participação nos meios de graça, mesmo se for excomunhão automática; se alguém pratica algo que traz excomunhão automática deixa de participar na graça e decai em apostasia.

6. Assim, aquele que se entrega a jogos de azar está automaticamente excomungado e está em estado de apostasia; por esta razão não recebe mais nada da graça ainda que participe nos meios de graça (sacramentos). Deste modo, se alguém é automaticamente excomungado, mas participa nos sacramentos não recebe nada da graça, pois a desobediência a disciplina bíblica e apostólica tornam o indivíduo indigno para receber a graça, já que esta desobediência é rejeição e escárnio contra a misericórdia de Deus; e não há mais perdão para quem vitupera a misericórdia de Deus, o que é chamado pelo autor aos Hebreus de “pisar o Filho de Deus” (cf. Hb 10.29).

7. Ora, o que fora dito deve ser suficiente para responder a indagação de vossa senhoria a respeito do por que se entregar aos jogos de azar é pecado; não só é pecado, mas é um tipo de apostasia, que desemboca em apostasia total posto a cobiça e a luxúria levarem à perdição; se a resposta lhe servir bem, e sanar a vossa indagação, não deixei de me informar, e se por acaso ainda restar alguma dúvida, não hesite em me indagar, que lhe responderei o mais rápido possível. Bendito seja Deus para sempre. Amém.



[1] In: Cânones Apostólicos, §§ 42-43.

[2] In: Sexto Concílio Ecumênico, cânone 47. 


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