Prólogo.
Com muita satisfação recebo vossa confirmação de que
minhas respostas lhe serviram bem, e que sanaram vossas dúvidas; no entanto,
vós ainda encontrastes dificuldades com uma questão moral, a respeito da bebida
alcoólica; apesar de ter evocado algo a respeito numa das respostas, não
expliquei detalhadamente isso; no entanto, já que vossa dileção houvera me
indagado se o consumo de bebida alcoólica é pecado, responder-lhe-ei neste
escrito a respeito disso, tendo em vista não somente a reta razão, e a autoridade
da Sagrada Escritura, mas também o contexto de nosso país, já que estes três
aspectos devem ser observados ao se elucubrar sobre a questão da bebida
alcoólica.
Capítulo I: A fé e a bebida alcoólica.
A fé verdadeira é manifesta na obediência ao que é
transmitido na Sagrada Escritura, em tudo quanto diz respeito a fé; mas a fé
verdadeira também é a fé que está em concórdia com a reta razão, pois as
conclusões da reta razão são todas elas demonstradas, de um modo ou de outro,
na Sagrada Escritura; por isso, o que primeiro se deve ter em mente é se a fé
se relaciona ou pode comportar consumo de bebida alcoólica.
Ora, neste quesito, primeiro se deve entender o que a
Sagrada Escritura fala sobre bebida alcoólica; embora o texto sagrado não
utilize este termo, mas fala sobre o que concerne ao mesmo; na Escritura se
fala sobre o vinho, tanto sobre o consumo do mesmo, quanto uma exortação ao
consumo do mesmo para tratar um problema de saúde (cf. 1Tm 5.23); a Escritura
também ensina que Deus se alegrou com os recabitas que respeitaram o
ensinamento de seu ancestral ao este proibir o consumo de vinho (cf. Jr 35); além
disso, a Escritura diz que Deus se alegra com aquele que bebe seu vinho com bom
coração (cf. Ec 9.7); etc.
Então, pelo critério da Sagrada Escritura, se tem
tanto a possibilidade de permissão quanto a possibilidade de proibição; portanto,
que isto se estabeleça de acordo com os princípios que norteiam os costumes
disciplinares de cada um; aliás, é por esta razão também que algumas
denominações cristãs proíbem o consumo de bebida alcoólica e outras não; por
isso, cumpre que se siga o que convém a cada um no que estabelece para si: se
alguém é parte de uma denominação que proíbe o consumo de bebida alcoólica, que
respeite isso; agora se alguém é parte de uma que permite isso, que o faça sem
querer perturbar ou ironizar quem não consome bebida alcoólica.
Outrossim, é que se deve observar esta questão também sobre
o critério da reta razão; ora, pelas conclusões da reta razão, não se tem nada
que proíba; no entanto, a reta razão é sólida quanto ao preceito do equilíbrio
e da moderação; por isso, se alguém consome bebida alcoólica e perde a
sobriedade, então tal consumo é pecado; por isso, pela reta razão só pode haver
consumo de bebida alcoólica se houver moderação, temperança e sobriedade, e se
isto não fizer mal a saúde; se o consumo de bebida alcoólica for imoderado,
causar intemperança, tirar a sobriedade, e fizer mal a saúde, então é pecado.
Além do que, para aqueles que tiveram vício em bebida
alcoólica, o consumo da mesma sempre é pecado; portanto, se alguém teve vicio
em bebida alcoólica, e venceu este vício, que não volte a consumir uma gota de álcool,
pois para este isto é pecado mortal.
Capítulo II: A observação do contexto.
No entanto, não somente estes aspectos devem ser
observados, os quais, num geral são mais do que suficientes; pois, para se
averiguar se o consumo de bebida alcoólica é pecado ou não, se deve
primordialmente levar em conta o contexto; pois, num país temperado/frio não se
tem problemas quanto ao consumo de bebida alcoólica, e nestes países poucos são
aqueles que decaem em vicio em bebida alcoólica; por exemplo, na Alemanha é
costume o consumo de cerveja, e isso no contexto alemão não é pecado; na Rússia
se tem o costume do consumo de Vodka, e isto no contexto russo não é pecado;
mas por que? Simples, pelo fato de serem países temperados/frios, o consumo de
bebida alcoólica não traz problemas a saúde e nem causa problemas na sobriedade
(nestes casos, só se consumido em excessos exorbitantes).
Entretanto, em países tropicais, a questão é
diferente; pois, em um país tropical qualquer consumo de bebida alcoólica
desfigura a sobriedade, já que álcool no sangue em um país tropical sempre gera
efeitos nocivos a sobriedade; por exemplo, no Brasil ainda que se tenha costume
de consumir todos os tipos de bebida alcoólica, tal consumo faz mal e gera
efeitos nocivos à sobriedade; e isto ocorre por fatores inerentes ao fato do
Brasil ser um país tropical; portanto, no Brasil o consumo de bebida alcoólica
quase sempre leva ao pecado, posto a bebida alcoólica gerar efeitos nocivos a
saúde.
Deste modo, embora nem na Sagrada Escritura e nem na
reta razão se tenha contrariedades absolutas com o consumo de bebida alcoólica,
ao se observar o contexto brasileiro, se deve levar em conta os efeitos que a
bebida alcoólica causa no corpo; por exemplo, um russo consume uma garrafa de Vodka,
em locais muitos frios, e isto não causa problemas à sua saúde, mas se um
brasileiro consume 5ml de Vodka, isto já gera efeitos nocivos à saúde e à
sobriedade.
E por que? Simples, como fora dito, o contexto do
país: enquanto na Rússia o clima é temperado e isto gera firmeza do corpo e da
saúde quanto ao consumo de bebida alcoólica, no Brasil o clima é tropical e
isto gera fraqueza no corpo e na saúde quanto ao consumo de bebida alcoólica;
na verdade, não se precisa nem evocar o exemplo com a Vodka para explicar isso,
pois até mesmo um bombom de licor alcoólico é suficiente para gerar efeitos
nocivos na sobriedade em pelo menos 95% dos brasileiros.
Portanto, a vida num país tropical ou num país
temperado/frio tem seus benefícios e tem seus malefícios; no caso do país
tropical, em relação a fé, é necessário a vigilância excessiva com práticas que
possa desatinar e descontrolar a sobriedade e fazer mal a saúde, tal como o
consumo de bebida alcoólica.
Capítulo III: A exortação é que se evite a bebida
alcoólica.
Por isso, se o consumo de uma bebida alcoólica não faz
mal a saúde, não gera efeitos nocivos a sobriedade e não é vício, então tal
consumo não é pecado, desde que feito com bom senso e equilíbrio; no entanto,
que se tome cuidado com isso, principalmente se for brasileiro, já que como
fora afirmado álcool no sangue em um país tropical sempre gera efeitos nocivos
a sobriedade.
Então, o conselho é que se evite os tipos de bebida
alcoólica que fazem mal a saúde, tal como cerveja artificial e similares[1]; aliás,
se aconselha que se tenha predileção pelo vinho, que se for consumido com equilíbrio
e bom senso, não é pecado; aliás, se ainda for possível, que se busque o suco
de uva natural, que não tem o perigo de ocasionar alguma falta de sobriedade no
corpo.
A exortação para se evitar o consumo de bebida
alcoólica é justamente a problemática em torno dos efeitos nocivos do álcool à
saúde e à sobriedade nos povos que nascem, crescem e vivem num país tropical;
por isso, quanto ao contexto brasileiro a exortação, num geral, é que se evite
o consumo de bebida alcoólica, justamente para se evitar decair nos problemas
gerados à sobriedade e à saúde.
Pois, embora não seja pecado o consumo de bebida
alcoólica, se uma pessoa consume alguma bebida alcoólica e isto gera efeitos
nocivos seja para a saúde seja para a sobriedade, isto é pecado, ainda que a
própria pessoa possa não se aperceber disso.
Por isso, é mais sábio evitar algo ainda que este algo
não seja pecado do que praticar este algo e o mesmo se tornar em pecado. Evitar
algo que não é pecado, mas que pode se tornar pecado ou que tende a se tornar
ou levar ao pecado, é parte da sabedoria que concerne a vida cristã.
Capítulo IV: Alguns conselhos bíblicos.
Ora, estas ponderações acima evocadas dão um escopo
geral sobre este assunto; no entanto, considero ainda por bem evocar alguns
conselhos bíblicos a respeito do consumo de bebida alcoólica, os quais são:
1. Em Pv 20.1 diz que o vinho é escarnecedor e a bebida
forte é alvoroçadora; por isso, se alguém erra nestes dois, isto é, se alguém
erra no consumo do vinho ou de qualquer bebida alcoólica, então o tal nunca
alcança o caminho da sabedoria; portanto, se há escárnio e alvoroço, a bebida
alcoólica é pecado e se torna empecilho para alcançar a sabedoria. Portanto,
neste texto salomônico se ensina a como verificar as consequências de quando a
bebida alcoólica é consumida de maneira imoderada, ou de quando o próprio ato
de consumir bebida alcoólica, em certos contextos, em si mesmo já é algo
imoderado.
2. Em Pv 23.31 se aconselha a não se olhar o vinho,
isto é, a não se desejar o vinho quando este se mostra palatável; pois, os ais,
os pesares, as pelejas, as queixas, a falta de sobriedade, entre outras coisas,
são para aqueles que consumem bebida alcoólica de maneira imoderada ou então
naqueles que ao consumir bebida alcoólica perdem a sobriedade.
3. Em Pv 31.6 se fala que aqueles que perecem e os
amargosos de espírito são dados a bebida alcoólica; por isso, se o consumo de
bebida alcoólica causa algum perecer, ou se causa alguma amargura de espírito,
ou se se é levado ao consumo de bebida alcoólica por algum perecer ou por
alguma amargura de espírito, então o consumo de bebida alcoólica é pecado;
aqueles que pelas amarguras de espírito são levados ao consumo de bebida
alcoólica sempre pecarão por falta de moderação, e as mais das vezes são
levados aos estágios mais terríveis do vício em álcool.
4. Em Rm 14.21 se aconselha que o que é bom é o que
não traz escândalo, nem tropeço e nem fraqueza; ora, se a bebida alcoólica, ou
alguma comida, ou fazer qualquer outra coisa, traz escândalo ou tropeço na fé
ou enfraquece a fé de outrem, então tal ato é pecado. Por isso, se o consumo de
bebida alcoólica ocasiona ou escândalo para alguém, ou gera algum tropeço na fé
ou para a fé, ou se enfraquece a fé de outrem, então o consumo de bebida
alcoólica se torna em pecado grave.
Ora, se se seguir estes conselhos e os meditar com
calma e paciência se entenderá como se deve lidar com a questão da bebida
alcoólica; certamente, é um assunto intrincado e tido como bobagem para muitos,
mas que deve ser tratado com ordem e disciplina, a fim de se evitar o descaro
num ato que de primeiro momento não é tido como pecado, mas que por um povo que
vive na indisciplina e desordem, como é o caso do povo brasileiro, tal ato
sempre se torna em pecado e induz a pecaminosidade.
E por ora o que fora dito basta para uma compreensão
adequada sobre o assunto elucubrado.
Laudate Deo!
[1] A distinção entre cerveja artificial
e cerveja artesanal é necessária, posto que a cerveja artificial (a cerveja produzida
artificialmente) sempre traz efeitos nocivos à saúde, enquanto que a cerveja artesanal
não traz malefícios a saúde, apenas à sobriedade se for consumida de maneira
imoderada. Por isso, consumir cerveja artificial sempre tende a ser pecado,
enquanto que o consumo de cerveja artesanal pode não ser pecado, se tal consumo não ocasionar
problemas a sobriedade.
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