26/01/2026

Nótulas sobre o espírito dialético

Prólogo.

 

A designação do espírito dialético é um neologismo para descrever o estado da mente daqueles que são dominados pela dialética hegeliana; o espírito dialético é o “eu” interior que ao compreender algo da verdade passa a agir contra a verdade compreendida para dizer que entendeu a verdade; e isto é loucura; mas não propriamente uma loucura psíquica, embora possa se tornar em loucura psíquica, ao desenvolver os estágios mais avançados da morbidade na alma; mais propriamente, o espírito dialético é manifestação de loucura espiritual.

A dialética hegeliana coloca os seres humanos em estado de loucura espiritual, a tal ponto da mente de um indivíduo ser dominada pelo espírito dialético, o que faz desenvolver o modo dialético de pensar; e a alma da sociedade onde há muitos indivíduos dominados pelo espírito dialético, também será expressão do espírito dialético, mas não apenas com consequências individuais, mas com consequências sociais.

Com isso, a sociedade se torna em sociedade dialética, isto é, em sociedade de indivíduos dominados pelo espírito dialético; na analogia cinematográfica, nisto consiste literalmente a Matrix. A Matrix é instaurada quando os indivíduos, e em consequência a sociedade, são dominados pelo espírito dialético.

Portanto, tecer-se-á algumas considerações sobre o espírito dialético a guisa de apresentação/introdução, para se aclarar de maneira mais adequada este neologismo conceitual, extremamente útil para se fazer uma anatomia da contemporaneidade.

 

§ 1

 

A definição de espírito dialético é um complemento filosófico para uma explicação racional daquilo que a Sagrada Escritura fala sobre o espírito de luxúria (cf. Os 4.12); mais propriamente, o espírito de luxúria atua na consciência; no entanto, os efeitos da ação do espírito de luxúria também permeiam o intelecto; ora, os efeitos do espírito de luxúria no intelecto é o que aqui se define como espírito dialético. Portanto, o espírito dialético é o mesmo que o espírito de luxúria, só que em específico se refere ao intelecto, aos efeitos da luxúria no intelecto; enquanto que o espírito de luxúria é descrito na Sagrada Escritura, a descrição do espírito dialético advém pelo lume da luz interior, mas em conformidade com o que a Sagrada Escritura ensina sobre o espírito de luxúria.

 

§ 2

 

A luxúria ao dominar a consciência, torna a consciência cauterizada bem como instaura na consciência o tender para laborar contra os mandamentos divinos; o prazer da luxúria é atentar contra os preceitos divinos; mas, a luxúria não somente age na consciência, mas também age no intelecto; e a luxúria ao cauterizar a consciência, obstrui com uma muralha o funcionamento do intelecto; além do que, o intelecto obnubilado pela luxúria será permeado pelas formas dialéticas da luxúria; ou dito em outros termos, as formas dialéticas da luxúria, as quais atentam contra a verdade e vituperam a verdade, atinarão a inteligência para ir contra a verdade quando a inteligência compreender algo da verdade. O prazer do espírito dialético é laborar contra a verdade ao compreender algo da própria verdade; e isto é evidência da obstinação no coração contra os preceitos da verdade - que em suma é soberba.

 

§ 3

 

A amplidão de ações que o espírito dialético instaura na mente, além de gerar o vício da melindre na personalidade, também calcifica o ímpeto para o descaro na vontade; ou seja, em sua personalidade o indivíduo fica melindroso, e volitivamente se deleitará no descaro; estas são consequências do instaurar do espírito dialético num indivíduo, o qual ao ser dominado pelo espírito dialético não conseguirá entender os melindres no qual está inserido e nem entenderá as ações de descaro que pratica costumeiramente; por isso, o espírito dialético é a mais abrupta manifestação do espírito de luxúria; pois, o espírito dialético é evidência inegável da destruição total da inteligência; e se a inteligência está destruída não haverá moralidade - na verdade, através da destruição da inteligência se instaurará de modo absoluto a mais hedionda imoralidade através das mais variadas formas de prostituição.

 

§ 4

 

Assim, o demônio da luxúria tanto atua na consciência quanto no intelecto; ora, em relação ao agir do demônio da luxúria na consciência se o define como espírito de luxúria; e quanto ao agir do demônio da luxúria no intelecto se o define como espírito dialético. Outrossim, é que a definição de espírito dialético não somente abaliza a compreensão do modo como o demônio da luxúria age no intelecto a partir do que a Sagrada Escritura ensina sobre isso; mas também a definição de espírito dialético é útil para se compreender o modo como algumas filosofias utilizam-se das distorções dialéticas para aprisionar as inteligências a grimórios de feitiçaria. Na verdade, se evoca a questão do espírito dialético, especialmente para designar o modo como algumas filosofias instauram de maneira inconsciente o espírito dialético através da impregnação passiva de hábitos cristalizada pelo modo dialético de pensar.

 

§ 5

 

O espírito dialético engendra no coração a obstinação contra as definições corretas; ora, Tomás de Aquino afirma que a definição é o que concerne a segunda operação do intelecto (cf. In De An., I, lect. 2); logo, se se tem as definições, mais propriamente definições corretas, então a segunda operação do intelecto está em pleno funcionamento; todavia, se não se tem definições corretas, então a segunda operação do intelecto está obstruída ou destruída; por isso, o espírito dialético engendra a obstinação no coração e no próprio intelecto contra as definições corretas; além do que, como é próprio da luxúria, o espírito dialético induz o coração ao escárnio contra definições corretas, não somente na rejeição das mesmas, mas principalmente nas risadas contra as definições corretas. Ora, se alguém escarnece, por palavras ou por ações, das definições corretas, isto é evidência inegável de inteligência destruída. As risadas são apenas o modo mais simples de se averiguar e constatar isso.

 

§ 6

 

A imaginação é totalmente sujeitada pelo espírito dialético aos tentáculos da luxúria; por isso, o intelecto se sujeita ao desejo pelo que é do próximo, seja cônjuge, casa, bens (cf. Êx 20.17), etc.; o desejo pelo que é do próximo é evidência que o espírito dialético dominou o modo de operar da imaginação, atinando esta para o desejo pelo que é de outrem; além do que, o espírito dialético calcina o indivíduo nas perspectivas da anti-liberdade. Por isso, a imaginação sujeitada pelo espírito dialético aos tentáculos da luxúria se divertirá com as ações inerentes ao descaro.

Pois, imaginação dialetizada pelo espírito dialético gera somente ídolos vãos para o coração; por causa da imaginação pervertida pelo espírito dialético, o coração se sujeita a toda a podridão da soberba contra Deus formando para si falsos fantasmas abstrativos que se estabelecem contra as verdades eternas; assim, tudo o que provir do espírito dialético, atinará uma imaginação anti-verdade, anti-liberdade e anti-religião; ou dito em outros termos, tudo o que provir do espírito dialético formará uma imaginação que atenta contra qualquer das formas verdadeiras que emanam da verdade, da liberdade ou da religião.

 

§ 7

 

O espírito dialético instaura a maneira dialética de pensar; e isso é a pior forma já manifesta entre os homens para a destruição da inteligência; pois, uma coisa é a utilização da dialética para se encontrar o que concerne ao saber, outra coisa é se ter o modo dialético de pensar; pois, o modo dialético de pensar sujeita o ato de pensar ao domínio que é efetuado através do espírito dialético; ora, se o espírito dialético é proveniente do espírito de luxúria, então quem é dominado pelo espírito dialético estará sujeito a quem instaurou este ímpeto para a luxúria na camada nuclear da cultura; pois, a camada nuclear da cultura é a nascente donde flui tudo o que se entende como manifestação cultural; uma vez que esta camada nuclear é imbuída de luxúria, então todas as manifestações culturais serão em maior ou menor grau permeadas pela luxúria; ou mais propriamente, pelo espírito dialético. E as manifestações culturais são o que guiam uma sociedade a ter certo modo de pensar, induz a certas ações, gostos, modas, costumes, etc., os quais se instauram pela impregnação passiva de hábitos; pois, o domínio da luxúria na consciência enfraquece a vontade e a inteligência para que estas não se apercebam que são dominadas por hábitos contrários a própria natureza humana.

 

***

 

Epílogo. Ora, fora evocado algumas pressuposições e princípios sobre o espírito dialético a guisa de apresentação deste neologismo conceitual; pois, a Sagrada Escritura fala sobre o espírito de luxúria que age na consciência; mas, pelo lume da luz interior se chega a compreensão dos efeitos da luxuria no intelecto; e isto é o que se chama de espírito dialético; assim, a fim de abalizar algo compreendido pelo lume da luz interior, e sob a autoridade da Sagrada Escritura, se põe este conceito, não só para compreender as manifestações da luxúria no intelecto, mas principalmente para se compreender quais filosofias que propagam o espírito dialético. 

E termina aqui esta explicação. θεῷ χάρις


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