I
Acostumou-se, infelizmente, a se falar de
credibilidade no “cristianismo brasileiro” sem sequer se saber o que de
fato é credibilidade; aliás, até mesmo muitos que se dizem “cristãos” estão com
uma perspectiva pecaminosa sobre no que consiste credibilidade (cf. Is 58.1-14);
e pior, falam de credibilidade quando nem sequer vivenciam a vida em retidão; a
falsa credibilidade arrolada por quem não vive em retidão é embasada totalmente
em estereótipos e/ou aparências; e a Sagrada Escritura ensina que não é bom ter
respeito por aparências (cf. Pv 28.21), isto é, quem tem respeito, ou faz juízo
de valor, apenas a partir de aparências, está fora do caminho do bem, está
longe do caminho da santidade.
Aliás, quem faz juízo de valor por estereótipos
criados em si mesmo ou por estereótipos previamente instituídos, demonstra que
está sob a influência de algo que sequer consegue se aperceber, pois o juízo de
valor a partir de aparências é próprio de quem é dominado pelo espírito de
luxúria.
Portanto, a falsidade dos estereótipos não se
manifesta apenas em que os evoca, mas principalmente em quem efetua juízo de
valor a partir de aparências; por isso, a falta de retidão, assomada com
qualquer vício na alma, atina falsas concepções sobre no que consiste a
credibilidade ou caráter de outrem; assim, o que de fato tiver credibilidade se
tornará em algo que não passa credibilidade, enquanto que o que não tiver
credibilidade se tornará em algo que passa credibilidade.
Outrossim, é que o juízo de valor a partir
estereótipos diz mais a respeito de quem assim procede do que de quem é
estereotipado; pois, o juízo de valor a partir de estereótipos evidencia os
falsos estereótipos criados por quem faz este tipo de juízo de valor; ora, os
estereótipos criados na mente são expressão do que está no coração; então, se
existe o tender para falsas aparências e falsos estereótipos, então o coração é
permeado por insinceridade; a falta de sinceridade consigo, a falta de
contemplar as próprias misérias, induz a mente a formar para si falsos
estereótipos sobre si, os quais se manifestam nos estereótipos sobre outrem.
Pois, em suma, isto é a criação de uma autoimagem de
si, para si, e sobre outrem; e toda autoimagem, seja em que sentido for, é uma
perversão da sinceridade e a evocação de máscaras para se velar quem se é; ora,
só se compreende adequadamente o outro, sem estereótipos e sem aparências,
quando não se tem autoimagem de si mesmo, ou seja, quando não se tem nem
estereótipos e nem falsas aparências sobre si mesmo; pois, quem esconde-se de
si mesmo com estereótipos ou falsas aparências, olhará para o outro com estereótipos
e falsas aparências.
Além do que, pelo modo como se manifesta os
estereótipos criados sobre o outrem, isto geralmente demonstra desejo por
outrem (desejo sexual por outrem ou desejo pelo que é de outrem). Pois, como é
preceito da caridade que só se ama a Deus no outro, então a partir do outro é
que se mostra quem se é, não por causa do outro ou pelo outro, mas pelo modo
como se ama outrem; ora, se se cria estereótipos sobre outrem, então pelos
estereótipos se mostra como se ama outrem; e se se cria estereótipos sobre
outrem, já não se ama outrem como se é devido, mas se institui sobre outrem o
que a vontade pecaminosa quer; por isso, a formação de estereótipos ou
aparências sobre outrem é algo que vitupera o preceito da caridade.
Portanto, quem vive a caridade requerida por Deus não
cria estereótipos sobre outrem e não se fundamenta em aparências para fazer
juízos de valor. A cultura dos estereótipos e das aparências é a transformação
da caridade em erotização, é a saída do ágape para o eros; o amor
que é devido pela caridade se transforma em formas diversas de erotização
quando se tem estereótipos ou falsas aparências sobre outrem; ou em casos mais
específicos, o desejo sexual por outrem se manifesta em falsas aparências,
tanto para velar de si mesmo o desejo quanto para velar diante de outrem que se
tem de fato o desejo por alguém.
II
A credibilidade verdadeira, ou a verdadeira
credibilidade, não consiste em aparências e estereótipos; antes, consiste no
caráter e na vida virtuosa; pois, em sentido teológico a verdadeira
credibilidade consiste na vida piedosa; e a piedade não se afere por aparências
ou estereótipos; por isso, querer aferir piedade ou caráter por estereótipos ou
aparências é evidência de falta de maturidade espiritual, bem como é evidência
de desvios graves na própria vida espiritual, a maior parte dos quais
engendrado pela luxúria.
Com efeito, se deve compreender no que consiste a
verdadeira credibilidade, no que consiste a vida piedosa, a partir dos
preceitos da Sagrada Escritura, tanto para se evitar erro quanto para evitar
subjetivismos doentios que velam da mente o que se formou no próprio coração;
ora, se evoca cinco preceitos bíblicos sobre no que consiste a vida piedosa, na
qual consiste a verdadeira credibilidade:
1. A vida piedosa constitui-se no recebimento dos dons
da graça outorgados para os que vivem em retidão (cf. Sl 84.11). Portanto, a
verdadeira credibilidade está na vida em retidão, a qual não é manifesta por
holofotes ou sucesso midiático, mas sim no recebimento de graça e glória da
parte de Deus.
2. A vida piedosa constitui-se da vida em sabedoria, a
qual Deus reserva para os que são retos (cf. Pv 2.7a). Portanto, a verdadeira
credibilidade está na vida reta, a qual é demonstra pela sabedoria que Deus
infunde, e não pelas falsas aparências das vãs sabedorias; além do que, a
sabedoria que Deus reserva para os que são retos lhes é como um escudo quando
estes caminham em sinceridade (cf. Pv 2.7b); por isso, a verdadeira
credibilidade é ter a sabedoria como escudo, e não ter os estereótipos criados
pelas viseiras dos imbecis e dos insinceros.
3. A vida piedosa constitui-se em entender juízo,
justiça, equidade e todas as boas veredas (cf. Pv 2.9). Portanto, a verdadeira
credibilidade está em entender e discernir todas as boas veredas; além do que,
entender e discernir todas as boas veredas também é evitar aparências e
estereótipos, já que a verdadeira equidade se manifesta em evitar respeito
pelas aparências.
4. A vida piedosa constitui-se em achar graça e bom
entendimento aos olhos de Deus e dos homens (cf. Pv 3.4). Portanto, a
verdadeira credibilidade está em achar graça diante de Deus pela vida em
obediência aos mandamentos divinos; a verdadeira credibilidade está em quem ama
e obedece aos mandamentos divinos; e esta credibilidade não é manifesta por
aparências ou estereótipos, já que as coisas de Deus são escondidas daqueles
que não vivem em retidão; as pérolas espirituais não são outorgadas aos porcos
que vivem no chiqueiro dos estereótipos.
5. A vida piedosa constitui-se em aborrecer o mal (cf.
Pv 8.13a). Portanto, a verdadeira credibilidade está em aborrecer o mal; pois,
quem não aborrece o mal acaba por agir com arrogância; e o respeito por
aparências ou estereótipos é agir com arrogância já que o preceito bíblico
ordena a não se ter respeito por aparências. Por isso, todos aqueles que tem
por credibilidade a aparência ou algum estereótipo estão no caminho do mal.
[...]
Ora, estes sete preceitos são por si suficientes para
se aclarar no que consiste a verdadeira credibilidade; se alguém não vive estes
preceitos, então diante de Deus não tem nenhuma “credibilidade”; agora, se
alguém vive de acordo com estes preceitos, em vida irrepreensível diante de
Deus e dos homens, então possui a verdadeira credibilidade, a qual jamais deve
ser aferida por estereótipos ou aparências.
Pois, a verdadeira piedade, a vida piedosa, nunca é
aferida por aparências ou estereótipos; pois, quem assim procede tanto
demonstra quem não vive em piedade quanto demonstra que não entende nada de
piedade. Aliás, quem não vive em piedade não entende nada do que concerne a
piedade; pois, quem não vive em piedade forma falsos estereótipos de no que
consiste a santidade.
E que o Deus Altíssimo nos livre da cultura da
credibilidade, uma cultura permeada pelo endeusamento pessoal da autoimagem,
uma cultura permeada pelos juízos de valor efetuados por aparências e/ou
estereótipos, os quais sempre estão contra o que concerne a verdadeira
humildade.
A verdadeira humildade não tolera o juízo feito por
estereótipos ou aparências; quem assim o faz, vive longe da humildade ensinada
no Santo Evangelho; entretanto, quem vencera a falta de sinceridade e
desprezara a busca por uma autoimagem fabricada sobre si, conseguira se livrar
de grande pecado (cf. Sl 19.13), e certamente está bem encaminhado na senda da
virtude e da piedade.
θεῷ χάρις!
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