16/01/2026

O que é “credibilidade”?

I

 

Acostumou-se, infelizmente, a se falar de credibilidade no “cristianismo brasileiro” sem sequer se saber o que de fato é credibilidade; aliás, até mesmo muitos que se dizem “cristãos” estão com uma perspectiva pecaminosa sobre no que consiste credibilidade (cf. Is 58.1-14); e pior, falam de credibilidade quando nem sequer vivenciam a vida em retidão; a falsa credibilidade arrolada por quem não vive em retidão é embasada totalmente em estereótipos e/ou aparências; e a Sagrada Escritura ensina que não é bom ter respeito por aparências (cf. Pv 28.21), isto é, quem tem respeito, ou faz juízo de valor, apenas a partir de aparências, está fora do caminho do bem, está longe do caminho da santidade.

Aliás, quem faz juízo de valor por estereótipos criados em si mesmo ou por estereótipos previamente instituídos, demonstra que está sob a influência de algo que sequer consegue se aperceber, pois o juízo de valor a partir de aparências é próprio de quem é dominado pelo espírito de luxúria.

Portanto, a falsidade dos estereótipos não se manifesta apenas em que os evoca, mas principalmente em quem efetua juízo de valor a partir de aparências; por isso, a falta de retidão, assomada com qualquer vício na alma, atina falsas concepções sobre no que consiste a credibilidade ou caráter de outrem; assim, o que de fato tiver credibilidade se tornará em algo que não passa credibilidade, enquanto que o que não tiver credibilidade se tornará em algo que passa credibilidade.

Outrossim, é que o juízo de valor a partir estereótipos diz mais a respeito de quem assim procede do que de quem é estereotipado; pois, o juízo de valor a partir de estereótipos evidencia os falsos estereótipos criados por quem faz este tipo de juízo de valor; ora, os estereótipos criados na mente são expressão do que está no coração; então, se existe o tender para falsas aparências e falsos estereótipos, então o coração é permeado por insinceridade; a falta de sinceridade consigo, a falta de contemplar as próprias misérias, induz a mente a formar para si falsos estereótipos sobre si, os quais se manifestam nos estereótipos sobre outrem.

Pois, em suma, isto é a criação de uma autoimagem de si, para si, e sobre outrem; e toda autoimagem, seja em que sentido for, é uma perversão da sinceridade e a evocação de máscaras para se velar quem se é; ora, só se compreende adequadamente o outro, sem estereótipos e sem aparências, quando não se tem autoimagem de si mesmo, ou seja, quando não se tem nem estereótipos e nem falsas aparências sobre si mesmo; pois, quem esconde-se de si mesmo com estereótipos ou falsas aparências, olhará para o outro com estereótipos e falsas aparências.

Além do que, pelo modo como se manifesta os estereótipos criados sobre o outrem, isto geralmente demonstra desejo por outrem (desejo sexual por outrem ou desejo pelo que é de outrem). Pois, como é preceito da caridade que só se ama a Deus no outro, então a partir do outro é que se mostra quem se é, não por causa do outro ou pelo outro, mas pelo modo como se ama outrem; ora, se se cria estereótipos sobre outrem, então pelos estereótipos se mostra como se ama outrem; e se se cria estereótipos sobre outrem, já não se ama outrem como se é devido, mas se institui sobre outrem o que a vontade pecaminosa quer; por isso, a formação de estereótipos ou aparências sobre outrem é algo que vitupera o preceito da caridade.

Portanto, quem vive a caridade requerida por Deus não cria estereótipos sobre outrem e não se fundamenta em aparências para fazer juízos de valor. A cultura dos estereótipos e das aparências é a transformação da caridade em erotização, é a saída do ágape para o eros; o amor que é devido pela caridade se transforma em formas diversas de erotização quando se tem estereótipos ou falsas aparências sobre outrem; ou em casos mais específicos, o desejo sexual por outrem se manifesta em falsas aparências, tanto para velar de si mesmo o desejo quanto para velar diante de outrem que se tem de fato o desejo por alguém.

 

II

 

A credibilidade verdadeira, ou a verdadeira credibilidade, não consiste em aparências e estereótipos; antes, consiste no caráter e na vida virtuosa; pois, em sentido teológico a verdadeira credibilidade consiste na vida piedosa; e a piedade não se afere por aparências ou estereótipos; por isso, querer aferir piedade ou caráter por estereótipos ou aparências é evidência de falta de maturidade espiritual, bem como é evidência de desvios graves na própria vida espiritual, a maior parte dos quais engendrado pela luxúria.

Com efeito, se deve compreender no que consiste a verdadeira credibilidade, no que consiste a vida piedosa, a partir dos preceitos da Sagrada Escritura, tanto para se evitar erro quanto para evitar subjetivismos doentios que velam da mente o que se formou no próprio coração; ora, se evoca cinco preceitos bíblicos sobre no que consiste a vida piedosa, na qual consiste a verdadeira credibilidade:

1. A vida piedosa constitui-se no recebimento dos dons da graça outorgados para os que vivem em retidão (cf. Sl 84.11). Portanto, a verdadeira credibilidade está na vida em retidão, a qual não é manifesta por holofotes ou sucesso midiático, mas sim no recebimento de graça e glória da parte de Deus.

2. A vida piedosa constitui-se da vida em sabedoria, a qual Deus reserva para os que são retos (cf. Pv 2.7a). Portanto, a verdadeira credibilidade está na vida reta, a qual é demonstra pela sabedoria que Deus infunde, e não pelas falsas aparências das vãs sabedorias; além do que, a sabedoria que Deus reserva para os que são retos lhes é como um escudo quando estes caminham em sinceridade (cf. Pv 2.7b); por isso, a verdadeira credibilidade é ter a sabedoria como escudo, e não ter os estereótipos criados pelas viseiras dos imbecis e dos insinceros.

3. A vida piedosa constitui-se em entender juízo, justiça, equidade e todas as boas veredas (cf. Pv 2.9). Portanto, a verdadeira credibilidade está em entender e discernir todas as boas veredas; além do que, entender e discernir todas as boas veredas também é evitar aparências e estereótipos, já que a verdadeira equidade se manifesta em evitar respeito pelas aparências.

4. A vida piedosa constitui-se em achar graça e bom entendimento aos olhos de Deus e dos homens (cf. Pv 3.4). Portanto, a verdadeira credibilidade está em achar graça diante de Deus pela vida em obediência aos mandamentos divinos; a verdadeira credibilidade está em quem ama e obedece aos mandamentos divinos; e esta credibilidade não é manifesta por aparências ou estereótipos, já que as coisas de Deus são escondidas daqueles que não vivem em retidão; as pérolas espirituais não são outorgadas aos porcos que vivem no chiqueiro dos estereótipos.

5. A vida piedosa constitui-se em aborrecer o mal (cf. Pv 8.13a). Portanto, a verdadeira credibilidade está em aborrecer o mal; pois, quem não aborrece o mal acaba por agir com arrogância; e o respeito por aparências ou estereótipos é agir com arrogância já que o preceito bíblico ordena a não se ter respeito por aparências. Por isso, todos aqueles que tem por credibilidade a aparência ou algum estereótipo estão no caminho do mal.

[...]

Ora, estes sete preceitos são por si suficientes para se aclarar no que consiste a verdadeira credibilidade; se alguém não vive estes preceitos, então diante de Deus não tem nenhuma “credibilidade”; agora, se alguém vive de acordo com estes preceitos, em vida irrepreensível diante de Deus e dos homens, então possui a verdadeira credibilidade, a qual jamais deve ser aferida por estereótipos ou aparências.

Pois, a verdadeira piedade, a vida piedosa, nunca é aferida por aparências ou estereótipos; pois, quem assim procede tanto demonstra quem não vive em piedade quanto demonstra que não entende nada de piedade. Aliás, quem não vive em piedade não entende nada do que concerne a piedade; pois, quem não vive em piedade forma falsos estereótipos de no que consiste a santidade.

E que o Deus Altíssimo nos livre da cultura da credibilidade, uma cultura permeada pelo endeusamento pessoal da autoimagem, uma cultura permeada pelos juízos de valor efetuados por aparências e/ou estereótipos, os quais sempre estão contra o que concerne a verdadeira humildade.

A verdadeira humildade não tolera o juízo feito por estereótipos ou aparências; quem assim o faz, vive longe da humildade ensinada no Santo Evangelho; entretanto, quem vencera a falta de sinceridade e desprezara a busca por uma autoimagem fabricada sobre si, conseguira se livrar de grande pecado (cf. Sl 19.13), e certamente está bem encaminhado na senda da virtude e da piedade. 

θεῷ χάρις


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