Prólogo
A Europa, como se sabe, em todos os sentidos, está em
crise; e a fim de compreender esta crise há de se compreender a causa desta
crise; mas para entender a causa da crise europeia, que em suma, é um signo
para designar toda a crise da sociedade ocidental, se faz necessário fazer uma
anamnese da Europa; ora, para se fazer isso o procedimento mais utilizado é
para designar um ponto onde a crise se torna mais visível; por exemplo, Ortega
y Gasset descreveu que pensava que é em Berlim que se deveria falar da Europa.
No caso de Ortega y Gasset, ao rememorar os
acontecimentos terríveis do séc. XX, sem sombra de dúvida, se fala da Europa a
partir de Berlim; todavia, os acontecimentos terríveis do séc. XX são apenas um
dos efeitos do real problema europeu; por isso, a causa da crise da Europa não
provém de Berlim; no entanto, é possível se entender a crise da Europa a partir
de um ponto único? Sim é possível; mas, para se fazer isso, se deve voltar no tempo
um pouco mais, a uma cidade que não existe a quase 600 anos, a antiga capital
do Império Bizantino, Constantinopla.
De fato, para se entender a crise da Europa se faz
necessário voltar na história e compreender as crises que rondaram o Império
Bizantino em seus últimos duzentos anos de existência. E isso é algo
impreterível para se fazer uma anamnese da Europa.
Iniciemos, pois, esta meditação a fim de se entender o
modo da crise da Europa.
I
A Europa como hoje se a conhece deve seu ponto de
partida com a atitude do Imperador Constantino o Grande, já um cristão de fato,
de reedificar a antiga cidade de Bizâncio para ser a capital do Império Romano;
esta cidade foi chamada de Nova Roma por Constantino, mas se tornou
Constantinopla em sua homenagem; nas gerações seguintes a esta mudança, a
antiga Europa pagã foi aos poucos desmoronando até a Queda de Roma, a chamada
Queda do Império Romano Ocidental; conquanto a Queda do Império Romano
Ocidental tenha trago inúmeros problemas, a preservação e a conservação do que
havia de bom na cultura romana, purificado e abalizado pela cultura cristã,
fora preservada nas obras de nomes como Santo Agostinho, São Bento, Boécio,
Cassiodoro, entre outros.
Mas, de início esta crise não assolou o Império Romano
Oriental, que havia se tornado no final do séc. IV em Império Bizantino; assim,
as glórias da Europa foram preservadas e conservadas no Império Bizantino; as
glórias da Europa Ocidental foram preservadas e enobrecidas pela Europa
Oriental; assim, a dialógica da crise europeia sempre orbitara entre Europa
Ocidental, ou Ocidente Latino, e Europa Oriental, ou Ocidente Grego; se uma
parte estava em crise, a outra conservava e preservava a camada nuclear da
cultura.
No entanto, desde a Queda de Constantinopla, a Europa
Oriental, o Ocidente Grego, não tem mais um ponto de representação; assim, a
preservação da cultura europeia não mais tem por artífice uma sociedade cristã,
mas uma sociedade secularizada.
As glórias da Europa ou se tornaram parte da expansão
árabe, que preservaram muitos aspectos da história cristã, ou se tornaram parte
da decadência secularista; e, como nos últimos duzentos anos até mesmo os
árabes foram engendrados pelo secularismo, a fronteira da preservação da
cultura cristã ficou na mão de tolos, fraudes, imbecis, demagogos e
feiticeiros; com isso, as glórias da Europa foram aos poucos se desintegrando;
a fragmentação da sociedade hodierna, a chamada sociedade pós-moderna, com os
paradigmas pós-modernos, são o fruto final desta secularização que nada
preserva por inteiro, antes despedaçara tal qual urso selvagem as verdadeiras
glórias da Europa.
Mas, quais são estas glórias? Ora, três são as glórias
da Europa: primeiro, a cultura grega; segundo, a cultura romana; terceiro, a
cultura cristã.
1. Primeiro, a cultura grega; a cultura grega ou
cultura helênica foi o primeiro marco da formação da Europa; o helenismo, com
seus altos e baixos, foi o que preparou a formação da Europa no sentido
intelectual; as descobertas e os ensinamentos dos sábios gregos, entre os
quais, poetas, oráculos, filósofos, cientistas, etc., deram o ímpeto cultural
para o desenvolvimento da Europa; assim, a cultura helênica é a primeira base,
o primeiro fundamento, que deu forma a Europa; na verdade, o helenismo desenvolveu
o saber antigo e o compendiou este saber culturalmente, de modo que este saber
serviu para a formação de uma nova cultura – a cultura europeia.
2. Segundo, a cultura romana; a cultura romana ou
cultura latina foi o segundo marco da formação da Europa; a latinidade, com
seus paradoxos inexplicáveis, foi o que preparou a formação da Europa no
sentido social; a praticidade dos sábios romanos, entre os quais, literatos,
juristas, intelectuais, filósofos, etc., deram o ímpeto social para o
desenvolvimento da Europa e para seu desenvolvimento civilizacional; assim, a
cultura romana é a segunda base, o segundo fundamento, que deu forma a Europa;
enquanto que o helenismo deu forma a cultura europeia, a latinidade deu
amplidão e universalidade a esta cultura e a institui sob a práxis romana; na
verdade, a latinidade desenvolveu o modo de vida das sociedades antigas, os
acoplando e os melhorando de modo tal que se criou uma sociedade extremamente
voltada à práxis.
3. Terceiro, a cultura cristã; a cultura cristã foi o
terceiro marco da formação da Europa; o cristianismo foi o que abalizou a
formação da Europa entre os erros e acertos do helenismo e da latinidade; o
cristianismo foi o elemento purificador dos excessos do helenismo e dos
excessos da latinidade; a vitalidade da religião cristã, entre seus
intelectuais, filósofos, teólogos, etc., deram o ímpeto religioso necessário
para que a Europa não se perdesse ou em idealismo ou em praticismo; assim, a
cultura cristã é a terceira base, o terceiro fundamento, que deu forma a
Europa; na verdade, o cristianismo deu forma final a Europa; o cristianismo
desenvolveu o que o helenismo tinha de bom e desenvolveu o que a latinidade
tinha de benéfico, e os acoplou num sentido doutrinal-ético que permitiu tanto
a formação de uma doutrina sóbria quanto de uma praticidade sóbria. Com efeito,
a Europa se tornou intelectualmente uma sociedade helenista, socialmente uma
sociedade romana, e religiosamente uma sociedade cristã.
Ora, estas são as glórias da Europa, as quais
infelizmente foram se desintegrando a medida que a secularização adentrou os
núcleos da cultura europeia, permeando cristãos, judeus e árabes, e
desembocando nos paradigmas pós-modernos. O secularismo que tomou conta do
núcleo da cultura europeia, ao se consumar plenamente na fragmentação social,
torna a cultura europeia sujeita a doutrinas e práticas que atentam contra os
elementos fundantes da Europa.
A secularização da Europa criou um monstro, o qual
destrói a si mesmo e tudo aquilo que busca lutar contra esta secularização. As
glórias da Europa foram tornadas em elementos infaustos devido ao secularismo.
II
No entanto, ao se mencionar a secularização da Europa,
se pensa que a vida europeia foi algo perfeito, tal como um paraíso na terra;
no entanto, como se sabe a vida na Europa sempre foi permeada por uma
duplicidade sombria e opaca, conquanto não houvesse secularidade; o problema
foi a secularidade justamente porque saiu do que é humano para algo anti-humano
e/ou como gostam de afirmar os arautos da pós-modernidade: algo transhumano;
a secularidade gerou um anti-humanismo e um transhumanismo que desfigurou a
face da Europa e que continua a desfigurar cada vez mais.
Assim, para se entender adequadamente a crise da
Europa, se há de entender também os problemas que rondaram a Europa em sua
existência até o domínio do secularismo; a isso chamar-se-á de “confusões
europeias”; e as confusões europeias evidenciam essa duplicidade sombria e
opaca que rondou a Europa em sua história: intrigas, conspirações, usurpações,
assassinatos, guerras, etc., foram assomadas com excesso de riqueza, poder,
notáveis líderes e intelectuais, um áureo desenvolvimento da religião cristã,
etc.; na história da Europa, glória e duplicidade caminham juntas: enquanto
haviam esta duplicidade em meio a conspirações e coisas similares, também havia
em contrapartida um desenvolvimento humano notável.
Todavia, mesmo diante de confusões e problemas
humanos, a glória da Europa está em ter sido a parte da civilização após o
advento de Cristo que mais conseguiu se desenvolver humanamente; e
desenvolveu-se enquanto teve Cristo por Rei; ao deixarem de lado o senhorio de
Cristo, tornaram-se novamente bestializados, e abriu-se o caminho para a hidra
da secularização.
As confusões europeias deixaram de ter um viés
puramente humano, e se tornaram em confusões permeadas por feitiçaria e
bruxaria; soma-se a isso, o fato de que a secularização que foi agravada em
Hegel trouxe de volta o ímpeto das antigas religiões xamânicas do crescente
fértil, e assim o culto a Moloque, a Baal, etc., foi ressuscitado na Europa.
Os “senhores” da Europa ao deixaram Cristo de lado por
causa da secularização acabaram por se bestializar em práticas de bruxaria e
feitiçaria. As confusões europeias deixaram de ser confusões humanas e se
tornaram em luta contra Deus. Esta é a consequência-mor do secularismo na
esfera religiosa em toda a cultura europeia.
Com isso, ao se evocar as glórias da Europa e a
desfiguração destas glórias por causa do secularismo, se deve também descrever
que as glórias e as inglórias da Europa não é monopólio europeu; o monopólio
das guerras, intrigas e usurpações não é somente parte da Europa, mas é algo
que permeia a vida humana desde sempre; da antiga Mesopotâmia, ao auge do
Império Babilônico, o Império Medo-Persa, o Império Grego, o Império Romano,
etc., todas as civilizações foram permeadas por glórias e inglórias; a
diferença é que após uma glória tamanha alcançada pela civilização cristã, a
mesma se secularizou de tal modo que a fez regredir aos piores estágios dos
povos xamânicos; a Europa cristã se secularizou de tal modo que se tornou em
Europa xamânica; e isso é um fato inegável.
E, ao invés de se aperceber deste fato, cria-se uma
imagem irreal do que foi de fato a Europa; criou-se uma imagem envernizada da
cultura europeia como se a mesma tivesse sido no passado de uma perfeição
celeste; a Europa nunca foi perfeita; todavia, a degradação chegou a um nível
tão abrupto que a falta de compreensão sobre a realidade tenta rememorar um
tipo de perfeição inexistente para tentar “conter” esta degradação.
Todavia, como é evidente, esta degradação não tem
solução rápida; pois, o problema da Europa não foi a falta de perfeição, mas
sim a decadência abaixo do limite humano aceitável; a inglória que emana da
Europa secularizada é tão medonha que fora suficiente para desfigurar as glórias
passadas - e assim um “Alzheimer” total tomou conta da memória da
Europa. A Europa já não sabe quem foi, e por isso não pode entender quem é e
nem quem será; pois, a falta de memória é a falta de presente e falta de
futuro.
Ora, este Alzheimer existencial e histórico da Europa,
não somente tem por consequência a perda da memória da Europa propriamente
dita, mas é expressão da degeneração da Europa em vias de submissão a poderes
de mando, ou na expressão mais moderna, na subserviência ao Estado Total (seja
no âmbito nacional, seja no âmbito internacional); no passado muitos
imperadores ditos cristãos se mascararam através da fé para implementar um
Estado Total sob invólucros cristãos; o Império Bizantino foi submetido a isso
em muitos momentos, e em alguns casos isso chegou até influir na religião
cristã, onde as decisões eclesiais foram moldadas pela vontade de poder de
líderes que se diziam cristãos mas na verdade queriam usurpar a autoridade
divina sobre a Santa Igreja, como por exemplo, na vil condenação das obras de
Orígenes, na hedionda perseguição contra São Máximo o Confessor, etc.
E nisto está a raiz primeira da secularização da
Europa; pois, o início da secularização da Europa é semeado com a aceitação da
usurpação contra a maior das autoridades da Santa Teologia, a saber, Orígenes;
a vituperação da autoridade de Orígenes, a maior e a mais abalizada autoridade
em teologia e filosofia, algo reconhecido por todos os Padres da Igreja, e por
grandes filósofos, germinara as sementes da secularização da Europa cristã; e
como foi algo muito aceito na época, o que evoca um certo assombro, os frutos
da usurpação no momento inicial foram velados através de conquistas e grandes
construções; mas a consequência adveio, demorou mais adveio, e fora cabal,
total e inalterável - o fim do Império Bizantino e o fim da cultura
greco-cristã. Aliás, se menciona que a maior parte das confusões europeias
sempre foram motivadas por usurpação contra autoridades - e o caso de Orígenes
é a mais abrupta e hedionda usurpação já feita contra uma autoridade no âmbito
religioso.
E, após esta usurpação inominável, o que selou o
destino da Europa cristã para seu fim, ainda que isso tenha demorado séculos
para ocorrer, fez ressurgir no âmbito da cultura europeia, em toda a extensão
do que foi o Império Romano, as confusões inerentes a época da religião
primeira; por esta razão houve nesta época um ressurgir das antigas culturas
mesopotâmicas; aliás, houve um aperfeiçoamento pleno da cultura do crescente
fértil através do surgimento do Islam; o Islam é o grau máximo do aperfeiçoamento
da cultura mesopotâmica; com efeito, após o selamento do destino da Europa
cristã por causa da usurpação contra Orígenes, isso fez necessário o surgimento
do elemento corregedor, ou elemento de correção - o Islam. O Islam surge como
necessidade histórica dado as infâmias que se instauraram na civilização
europeia, tal como os impérios da antiguidade surgiam para combater as infâmias
do povo de Israel.
E aqui está a sabedoria necessária para se compreender
o futuro da Europa; a Europa cristã como se conhece certamente definhará e
acabará; no entanto, cumpre àqueles que disto se apercebem, salvaguardar o que
é necessário da cultura europeia para o futuro, para que após as consequências
da secularização dissolverem, se possa novamente reedificar a cultura europeia;
e, que ninguém se assuste, esta é a mais otimista das esperanças em relação a
Europa.
III
A consequência final desta secularização pode ser
evocada a partir da Queda de Constantinopla; pois, como fora dito, se para se
entender o séc. XX seria necessário ter como ponto de apoio Berlim, para se
entender toda a crise da Europa, há de se retornar a Constantinopla, a antiga
capital do Império Bizantino; e se evoca aqui a Queda de Constantinopla, não
porque fora da cultura bizantina apenas que surgira a secularidade da Europa,
mas porque a secularidade da Europa foi “processualizada” do mesmo modo
como ocorrera a secularização de Constantinopla; embora a secularização da
Europa seja uma secularização muito mais abrupta do que a secularização que
dominou a capital do Império Bizantino.
Por isso, entender a Queda de Constantinopla
corretamente abaliza o entendimento sobre a crise da Europa. Pois, as práticas hediondas
que se instauraram em Constantinopla no passado, são em menor expressão, os
erros da cultura europeia dos últimos séculos. Anteriormente, fora mencionado
duas ações terríveis praticadas em Constantinopla, a usurpação contra Orígenes
e a perseguição contra São Máximo o Confessor; e estas são apenas duas das
muitas ações terríveis praticadas; entretanto, em suma, nestes dois exemplos
evocados se tem o que é necessário para se entender a causa da Queda de
Constantinopla.
1. Em relação a usurpação contra Orígenes, se
evidenciam três coisas: (i) primeiro, a inveja contra aqueles que são
superiores moralmente e intelectualmente; ora, não podendo os imbecis e
invejosos falar nada contra Orígenes, trataram de atacar sua imensa obra; e as
mentiras e falácias inventadas contra as obras de Orígenes, sem terem
conseguido sequer “refutar” algum destes erros demonstram que Orígenes foi
vituperado por causa da inveja e da maledicência devido a sua superioridade
moral e intelectual em relação a todos os outros teólogos da cristandade; e não
só entre os teólogos, mas também entre os filósofos.
(ii) Segundo, as sandices e maledicências dos
medíocres contra as autoridades teológicas; ora, os medíocres se levantaram
contra a mais alta e a maior autoridade teológica não por conta de erro ou
heresia, mas devido a sandice que a burrice e a luxúria promovem entre aqueles
que pensam ter alguma capacidade diante de supostos erros e desvios daqueles
que são mais excelentes. As sandices inventadas contra Orígenes demonstram a
sobre-excelência de Orígenes tanto em teologia quanto em filosofia, e
evidenciam a burrice que começou a tomar conta da dita intelectualidade europeia
desde então.
(iii) Terceiro, a tentativa de se sobrelevar a uma
autoridade através da usurpação; ora, as sandices inventadas contra a obra de
Orígenes foi a tentativa de homens medíocres e imbecis, e de líderes públicos que
queriam dominar a fé, de tentarem se sobrelevar a uma autoridade teológica;
usurparam Orígenes para tentar destruir sua autoridade; e embora tenham
destruído quase toda a obra de Orígenes, e tenham-no anematizado de maneira vil
e afrontosa, a autoridade de Orígenes em nada foi minada, pois os usurpadores
que acharam que se sobrelevaram a autoridade de Orígenes destruindo sua obra
acabaram por escrever em tábuas de bronze o destino da cultura cristã, a saber,
ser usurpada, dominada e destruída.
2. Em relação a perseguição contra São Máximo o
Confessor, se evidenciam três coisas: (i) primeiro, o ódio contra quem vive uma
vida santa; ora, a vida santa de São Máximo o Confessor se tornara no juízo da
sociedade constantinopolitana da época; a santidade de São Máximo desvelou a
hipocrisia e o descaro do cristianismo em Constantinopla em seu tempo; por
isso, São Máximo o Confessor fora odiado, pois sua vida santa testemunhara da
doutrina correta; e quando os homens ímpios querem perverter a doutrina a
primeira coisa que fazem é odiar e promover ódio contra os que vivem em
santidade.
(ii) Segundo, as ações promovidas em conjunto para
ridicularizar a retidão da fé verdadeira; ora, o ódio contra São Máximo o
Confessor na sociedade constantinopolitana de sua época se tornara em ações
conjuntas entre a sociedade e os líderes públicos a fim de tentarem
ridicularizar a retidão da fé verdadeira; vituperaram São Máximo publicamente
para escarnecerem e ridicularizarem a fé verdadeira na tentativa de destruir a
fé, mas o testemunho e a perseverança de São Máximo o Confessor fizeram com que
a chama da fé verdadeira e da doutrina correta permanecessem acesas.
(iii) Terceiro, a tentativa da sociedade de destruir a
firmeza de uma fé impoluta; ora, as ações promovidas pela sociedade corrupta
para tentar ridicularizar São Máximo o Confessor foi na verdade a tentativa de minar
e destruir a firmeza de uma fé impoluta; São Máximo foi torturado e
ridicularizado pela sociedade de sua época como espetáculo para o mundo (cf. 1Co
4.9); no entanto, o caráter impoluto e a firmeza granítica da fé de São Máximo
foi a pior condenação aos seus concidadãos: enquanto estavam rindo,
ridicularizando, torturando e escarnecendo de São Máximo o Confessor estavam na
verdade calcinando o próprio lugar no inferno; etc.
[...]
E estes dois exemplos evocados, o da usurpação contra Orígenes
e o da vituperação de São Máximo o Confessor, demonstram os erros que
infelizmente passaram a dominar a sociedade bizantina dos sécs. VI e VII; estes
erros, vez ou outra, retornavam e sempre com agudeza ainda maior; e estes erros
foram a causa da apostasia de Constantinopla, e o que levou ao fim do Império
Bizantino; Constantinopla foi saqueada e conquistada por causa da apostasia que
se avolumou de maneira horrenda na sociedade bizantina.
E, embora a maior parte prefira não mencionar isso,
principalmente em se tratando dos ortodoxos, é um fato que a Queda de
Constantinopla foi juízo de Deus pela maldade e apostasia que se assomou nesta
cidade que em tempos antigos foi uma das joias da cristandade e da cultura
europeia. E, por ter sido juízo de Deus, é um fato inegável que Constantinopla nunca
mais tornará a ser erguida. O juízo de Deus foi lançado contra Constantinopla,
e nada e nem ninguém tornará a reedificar esta cidade.
IV
Assim, para se compreender a crise da Europa e suas
consequências, há de se fazer uma anamnese da Europa, tendo em vista os “processos”
inerentes as crises de Constantinopla antes do fim do Império Bizantino; ora,
para se fazer isso, é necessário analisar três aspectos que concorrem em
conjunto para se fazer uma anamnese da Europa, os quais são: primeiro, a
memória intelectual da Europa; segundo, os estágios do Alzheimer da cultura
europeia; terceiro, o destino proveniente da secularização.
1. Primeiro, a memória intelectual da Europa; ora,
diante de um presente secularizado, e de um futuro desesperançado, convém
indagar sobre o passado; mais propriamente pela memória intelectual da Europa;
pois, ainda que no passado houvessem coisas ruins, é no passado que a Europa
vai recuperar sua memória para entender seu presente e compreender para onde
caminha (futuro); na verdade, a memória intelectual da Europa é onde se desvela
se há possibilidade de conter ou não o hediondo secularismo que se alastra de
maneira incontrolável; os erros e as glórias do passado são um fanal para
indicar o caminho: tanto para se evitar os mesmos erros quanto para encaminhar
nas sendas gloriosas da virtude e da honra.
Além do que, a memória intelectual da Europa não
simplesmente diz respeito a feitos ou conquistas propriamente ditas
intelectuais, mas ao desenvolvimento de um horizonte de consciência que acoplou
a cultura helênica, a cultura romana e a cultura cristã de modo a criar um modo
de vida que sublimou a vida greco-romana, bem como acoplou à ordem social
fundamentos religiosos racionais; assim, a memória intelectual da Europa não é
para criar um saudosismo doentio, mas para designar o caminho correto para a reconfiguração
da própria Europa diante do secularismo; pois, o secularismo ou cria Alzheimer
histórico ou gesta saudosismo utópico.
Mas, no que consiste a memória intelectual da Europa?
A memória intelectual da Europa consiste em: (i) manter o núcleo da cultura
helênica; (ii) conservar o ímpeto da cultura romana; (iii) cultivar a
consciência cristã; (iv) abrir-se para as múltiplas manifestações da verdade;
(v) preservar-se da barbárie (seja ela proveniente donde for e do que for);
(vi) cultivar e ensinar a vida de acordo com a lei moral natural.
Portanto, na memória do que a Europa teve de bom, de
belo e de verdadeiro, se abstrai o que é necessário de como a Europa deve
entender seu estado atual, e se semeia os gérmens do que a Europa deve esperar
do futuro. A honra para com o passado, engendra a virtude e a honra para o
presente, a fim de que a colheita dos frutos no futuro seja benéfica e
frutuosa.
2. Segundo, os estágios do Alzheimer da cultura
europeia; ora, se não se entender adequadamente a memória intelectual da
Europa, pode-se até não se gestar um saudosismo utópico, mas com absoluta
certeza se gerará um Alzheimer na cultura europeia; este Alzheimer destrói a
identidade cultural da Europa, bem como retira a possibilidade de qualquer
memória intelectual adequada sobre as glórias do passado; e este Alzheimer não
se institui totalmente de uma vez, mas vai sendo instaurado por estágios; ora,
os estágios do Alzheimer da cultura europeia são assim sumariados: (i)
ceticismo em relação a verdade; (ii) rejeição da religião; (iii) rejeição da
humanidade; (iv) dogmatismo imoralista; (v) sedução para o extremo; (vi) transmutação
de todos os valores; etc.
Estes estágios são subsequentes, e muitas vezes um ou
outro advêm em conjunto; com isso, estes estágios instituem um Alzheimer tão
profundo na cultura europeia ao ponto de a Europa não saber mais quem foi; e a
falta da Europa em compreender a própria história é o que a torna sujeita as
prostituições intelectuais do secularismo, tornando a cultura europeia sujeita
as fragmentações da pós-modernidade, tornando a túnica da Europa um tecido
retalhado e totalmente fragilizado.
Com efeito, estes estágios vão se assomando aos
poucos, e um estágio prepara o seguinte; por isso, em cada estágio que se
instaura se forma uma camada cástica indestrutível, e a medida que se instauram
outros estágios, mais camadas cásticas vão se formando; e assim este Alzheimer
da cultura europeia se torna cada vez mais difícil de ser apercebido; quanto
mais profundas se tornam as raízes destes estágios mais difícil é a percepção
das consequências dos mesmos, e, por conseguinte, mais trabalhosa se torna a
busca por alguma solução.
O Alzheimer da cultura europeia é o atestado de óbito
da sociedade ocidental; goste-se ou não, aceite-se ou não, a cultura europeia
ao ser permeada por este Alzheimer, esquecera-se de quem é, e se tornou o que
jamais deveria ser – a própria antípoda de tudo o que fora no passado.
3. Terceiro, o destino proveniente da secularização;
ora, se os estágios do Alzheimer da cultura europeia foram instaurados, então a
secularização nasce, cresce e se desenvolve; e do mesmo modo como cada um
destes estágios possui suas consequências específicas, e ao serem todos
instaurados se tem outras consequências ainda piores, a secularização não só
tem suas terríveis consequências, mas instaura um fado inalterável sobre a
Europa; ou mais propriamente, um destino irrevogável para a Europa, o destino
da secularização.
Ora, o destino proveniente da secularização semeia
três sementes: (i) a semente da assolação; (ii) a semente da negação; (iii) a
semente da tormenta existencial. Assim, a primeira semente ao frutificar gera
destruição; a segunda semente ao frutificar gera negação de tudo o que existe
(que toma forma filosófica na dialética negativa); e a terceira semente ao
frutificar gera desespero, desencanto e tempestades psíquicas.
Portanto, o destino proveniente da secularização é
cabal e total: nada escapa e tudo é açambarcado pelas maldições inerentes a
secularização; pois, a semente de assolação gera destruição; e a Europa ao
perder sua identidade se submeteu a várias doutrinas e práticas que semeiam
assolação. Deste modo, a Europa perdeu sua primogenitura intelectual e espiritual
ao vender-se em troca dos pratos de lentilhas dos porcos secularistas.
E, infelizmente, este destino cumprir-se-á a risca; só
haverá algum futuro para a cultura europeia se no presente for preservado algo
de bom, tal como Santo Agostinho, São Bento, e outros, preservaram o que havia
de bom em meio as assolações que antecederam a Queda do Império Romano
Ocidental; somente assim, algo de bom da cultura europeia será preservado para
o futuro; pois, o destino do secularismo, levará a Europa para sua própria
destruição; e este é o fado da cultura europeia, iniciado de maneira inalterável
devido a usurpação inominável contra a autoridade de Orígenes.
[...]
Ora, estes três aspectos demonstram alguns
pressupostos do que é necessário para se fazer uma anamnese da Europa, e para
se fazer uma anatomia do estado existencial da Europa; a chaga mortal que
assola a Europa não tem solução rápida: e a gravidade desta chaga demonstra que
é dificílimo até mesmo curar esta doença; na verdade, se sabe que o destino da
Europa cristã fora selado; no entanto, é possível conservar e preservar alguns
elementos para que a cultura europeia não se perca em meio a esta terrível
secularização; esta é a tarefa primordial diante da hidra da secularização;
aliás, esta é a única atitude frutífera em vista da preservação de algo bom
para o futuro; pois, uma coisa é certa e cabal: a Europa cristã não existe mais
e não voltará a existir durante séculos; mas, como fora dito, é necessário
entender e compreender o que se deve salvaguardar da cultura europeia para o
futuro.
Certamente, isso pode parecer pessimismo; todavia, não
é pessimismo; seria pessimismo se houvesse possibilidade de se vencer a hidra
do secularismo; mas, infelizmente, onde a hidra do secularismo já se
estabeleceu a mesma se torna algo invencível; isso é realismo, não pessimismo;
aliás, não compreender isso seria idealismo utópico; a realidade europeia se
mostra como algo em plena decadência, decadência essa que não será parada por
nada.
Assim, diante da realidade europeia se deve ter um
realismo sincero, e não saudosismo dos imperialismos do passado ou utopias
grimóricas para o futuro; a glória da Europa não está em impérios ou
imperadores famosos, mas sim na concórdia entre os ensinamentos da revelação e
as conclusões da reta razão; na verdade, só se preservará algo de bom da Europa
se houver obediência aos mandamentos divinos e o cultivo da reta razão.
Epílogo
Assim,
conclui-se esta meditação sobre a Europa, a qual poderia também ser chamada de
uma meditação anamnésica sobre a Europa, já que se procurou descrever a crise
da Europa e sua causa; embora já se tenha mencionado um ou outro aspecto a
respeito disso em outros escritos, nesta meditação se pode evocar uma linha
tênue de compreensão que explica e desvela plenamente no que consiste a crise
da Europa, e, por consequência qual o destino da Europa e de toda a civilização
ocidental.
Ora,
se no passado Ortega y Gasset procurando entender a crise da Europa de sua
época evocou Berlim como seu ponto de partida, para se entender a causa da
crise da Europa foi necessário voltar a antiga capital do Império Bizantino,
Constantinopla, para se entender donde provém o núcleo de sentido do
secularismo que assola a Europa desde o séc. XIV; este secularismo foi semeado
no séc. VI, mas só frutificou de maneira plena na baixa idade média, no final
do séc. XIV e no início do séc. XV; e os frutos deste secularismo ainda
permanecerão por séculos antes de serem dissolvidos.
Portanto,
a atitude diante de secularismo já foi em parte evocada, e assim, deve-se
caminhar cada vez mais para se entender no que consiste este secularismo e as
crises europeias, para que pelo menos as consequências deste secularismo possam
ser diminuídas ao máximo possível, a fim de se preservar o que a cultura
europeia tem de bom, em função do bem comum e para a glória maior de Deus.
E
termina aqui esta meditação. θεῷ χάρις!
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