14/02/2020

Breves Respostas sobre Problemas Atuais

Nota Preliminar.

 

Escrito são respostas a indagações que foram me feitas dentro de um ônibus já por volta das 21 ou 22 horas por um colega que fazia faculdade; devido a necessidade de respostas breves e rápidas sobre estes tópicos indagados, e devido ao horário, falei rapidamente e brevemente sobre estes assuntos aos quais ele me indagou; depois, este colega gentilmente me enviou estas respostas transcritas, as quais constituem este simplório escrito. 


I

 

O aborto não encontra amparo na lei divina, ainda que nas leis de alguns países este vilipêndio moral tenha se tornado permissível. De fato, o aborto não deve ser permitido, e isso se prova de três maneiras:

Primeiro, com a significação da germinação; se no ato da concepção já há uma vida com todas as características e informações de no que consiste um ser humano, então a partir da concepção se tem uma vida completa, que precisa apenas se desenvolver; portanto, qualquer ato que mate este feto, seja em que tempo da gestação for, é assassinato.

Segundo, com a significação da gestação por nove meses; a partir da concepção, se tem o processo posterior, a gestação, para que a vida concebida se desenvolva física e emocionalmente, a partir de todos os dados já existentes, no qual há a necessidade deste contato íntimo com a mãe, que oferece ao bebe 40 % de seu cálcio, sem contar outras vitaminas, etc.; por isso, é clarividente que, no ensejo de demonstrar a maravilha que é a vida, o Criador interpôs no caminho da vida, a gestação, onde uma vida gera a outra, onde uma vida se comunica com a outra; por isso, o assassinato do feto na prática do aborto afeta profundamente a saúde da mulher, com consequências irreversíveis.

Terceiro, com a grande evidência da magnitude da vida; se perante o Doador da vida, naquele momento da concepção se tem uma vida, só quem tem o direito e o poder de tornar a tomá-la é o próprio Doador. O salmista diz: “Os teus olhos viram o meu corpo ainda informe; e no teu livro todas estas coisas foram escritas; as quais em continuação foram formadas, quando nem ainda uma delas havia” (Sl 139.16). Se a magnitude da vida ocorre desta forma, a grandiosidade a inviolabilidade da vida se dão pelo fato de que vida provém de vida, a vida humana provém do Deus Vivo. Por isso, no mandato cultural a todo o homem, o Criador ordena: multiplicai-vos (cf. Gn 1.28), isto é, formem novas vidas humanas. Não seguir esta ordenança, ou cometer algum ato que a impeça, tal como a vileza do aborto, é afrontar a Deus. O aborto é afronta a Deus.

Portanto, se no ato da concepção já se tem uma vida, com todos os dados genéticos, com todas as informações necessárias, e assim a partir da concepção já se tem um ser humano, a prática do aborto é assassinato, pois é morte deliberada de um ser humano.

 

II

 

O problema com a barriga de aluguel é que se extravia da ética relacional bíblica entre homem e mulher, pois se insemina numa mulher que não é a esposa para se ter um filho de outrem, no sentido de usar uma mulher apenas para engravidar, o que é muito pior do que o concubinato; o problema é que não se estabelece uma comunhão intima erguida pela égide do amor conjugal que se desdobra na prole, e nem pontifica o caminho para o elo amoroso ser fortificado, pois ali está a benção divina outorgada por graça de ser pai e mãe.

E diante da crise da relação entre homem e mulher, muitos têm preferido uma barriga de aluguel, onde a barriga se transforma num objeto de caráter econômico e a mulher em uma espécie de incubadora; esta questão precisa ser refletida, e refleti-la biblicamente, pois ao se constatar o ensinamento das Escrituras chega-se a uma ética bíblica pra esta situação.

Na Sagrada Escritura há um caso de barriga de aluguel; Abraão e Sara não podiam ter filhos, então Sara tem a ideia de Abraão coabitar com sua escrava Agar, para ter um filho; todavia, o final desta história foi o filho da escrava perseguindo o filho de sua senhora. Além do que, isso quebra a ética familiar bíblica que estabelece o padrão da junção entre homem e mulher, e partir dos dois, e somente destes, a prole para a fixação da descendência – e em determinados casos a permissão com o concubinato a fim de se ter mais prole. Agar não era concubina de Abraão, era escrava de Sara; por isso, a ideia de Sara utilizá-la para engravidar de Abraão é um caso de barriga de aluguel.

Portanto, se a barriga de aluguel não é descendência provinda diretamente, ou indiretamente através de concubinas, a prática da barriga de aluguel deve ser evitada, ainda que seja tida com boas intenções. Eis alguns motivos: primeiro, não deve haver, pois não estabelece a relação mãe-filho, advinda da gravidez; segundo, não é proveniente da ética sexual matrimonial cristã; terceiro, não é proveniente do fruto da relação sexual matrimonial, que é o amor conjugal; etc.

Sendo assim, a pratica da barriga de aluguel é imoral, pois, segundo Pio XII, somente “os esposos possuem o direito recíproco sobre seus próprios corpos, para gerar uma vida nova, direito que exclusivo e inalienável dos esposos”.

 

III

 

A questão da fertilização in vitro, juntamente com a reprodução assistida, tem algo em comum, pois tem haver com as tecnologias medicinais; porém, ao tratar da fertilização in vitro, sendo, que para este procedimento possa ocorrer, o óvulo e o espermatozoide são fertilizados dentro de um laboratório, e depois é colocado na mulher para haver a gestação.

A questão é também problemática, pois trata de questões envolvendo a ética bíblica. Tanto a fertilização realizada dentro do casamento quanto fora dele é contrária a ética bíblica do casamento, pois ocorre a concepção da vida fora do leito conjugal e fora do amor recíproco dos esposos, pelo qual e como fruto do tal se concebe uma nova vida.

A procriação de uma nova não pode ser aceitável senão sob os limites da sexualidade entre os esposos e dentro dos limites sacrossantos da comunhão marital. Portanto, a fertilização in vitro é imoral e é pecado, embora se tenha uma série de implicações ao se lidar com esta questão.

 

IV

 

A reprodução assistida engloba as técnicas medicas para a reprodução humana, como a fertilização e a inseminação, etc. Esta prática também entra em desacordo com a ética bíblica, pois faz da reprodução humana algo que possa ocorrer longe dos laços benditos do casamento. Sendo a ética bíblica muito específica sobre a condição única e absoluta onde pode haver reprodução, a saber: através da sexualidade usufruída sob o amor do casal entre si, no casamento, qualquer técnica que ultrapasse este limite é anti-bíblica, anti-racional e imoral.

Outro aspecto que tem levado a consideração é que o poder na técnica medicinal não significa poder moral, e ainda mais: não existe moralidade para estabelecer outros padrões de reprodução. Precisa-se, urgentemente, redescobrir os padrões naturais, aos quais a ética cristã estabelece que sejam mantidos em seus limites bem expostos; por isso, não se pode conceber avanço científico e tecnológico como avanço moral, pois o que é tido em tempos hodiernos como avanço científico, na verdade é destituição dos valores morais da Palavra de Deus e a destruição da própria dignidade do ser humano.

E um elemento para ajudar neste entendimento é a linguística; os termos utilizados para ética no idioma alemão, estabelecem-se sobre duas palavras; a primeira können, saber fazer, ter o poder e a técnica para fazer; e a segunda, dürfen, ter licença para fazer. É interessante que, ao constatar isso, o poder fazer, ou ter técnicas avançadas para fazer, não significa ter a licença ética e moral para fazê-lo. As técnicas medicinais podem ter avançado muitíssimo, mas isso não significa que os homens tenham licença ética e moral para poder realizar procedimentos medicinais anti-naturais e anti-racionais, os quais são vileza até mesmo para a ética médica.

 

V

 

O termo eutanásia provém do grego, numa junção de duas palavras, a saber: “eu”, que significa boa, e “thanatos”, que significa morte; portanto, eutanásia significa boa morte. O termo tornou-se célebre na época da filosofia cientifica experimental, no século XVII, quando Francis Bacon, em 1623, publicou “Historia Vitaes et Mortis[1], uma obra na qual fala sobre as doenças incuráveis como passíveis de morte, retomando um tema tratado pelos filósofos antigos, onde estes pensadores infelizmente defendiam a legitimidade da boa morte e do suicídio assistido. No entanto, os gênios responsáveis pela sistematização da medicina – como, por exemplo, Hipócrates -, condenavam a boa morte (eutanásia) e o suicídio assistido.

No caso de Bacon, ir contra o pensamento aristotélico que dominou a cultura ocidental, ele normalmente teria de ir contra a concepção aristotélica e hipocrática a este respeito. De Bacon até os dias atuais a questão permanecesse a mesma; porém, o termo ganhou conotações de um serviço médico, pelo qual se acelera a morte de um paciente tido em poucas condições de vida. No entanto, a prática da eutanásia está em completo desacordo com a ética bíblica, pois somente Deus é o doador da vida, e qualquer coisa que é contraria a vida é contrária ao Criador e a dignidade humana. Por isso, a prática da eutanásia é anti-bíblica, anti-racional e é destruição da dignidade humana, a qual é inviolável mesmo diante de doenças graves e incuráveis.

 

VI

 

A questão a respeito do planejamento familiar tem de ser enfrentada com juízo e equilíbrio, sem quebrar o princípio bíblico contido na criação do homem, edificado pela palavra divina: “frutificai, multiplicai, enchei a terra”, etc. O juízo e o equilíbrio têm haver com as condições emocionais e financeiras para a edificação de uma família, os quais tem de ser pensados, porém não podem ser os únicos motivos, pois a benção da família na aliança é dada por Deus. Com a fé em Cristo, a benção divina para a família é usufruída, porém o juízo e o equilíbrio de um planejamento equilibrado também são assaz necessários.

 

VII

 

A posição conhecidamente cristã a este respeito é de que quem tira a própria vida está em condenação eterna; não vamos discutir isso, que está de fato já estabelecido na doutrina cristã há séculos, mas vamos apenas entender o problema do suicídio. Durkheim falava das condições sociais do suicídio, ou seja, as condições factuais de uma sociedade onde ocorre suicídio.

Por isso, Durkheim entendia o suicídio em três manifestações:

Primeiro, o suicídio altruísta, onde o ego individual se empodera demasiadamente a ponto de desmerecer a vida social; nisto, as mutuas relações entre indivíduo e indivíduo, e entre indivíduo e sociedade, se rechaçam e o indivíduo não vê mais sentido na vida; neste caso, se impõe quase como que uma ordem social a prática do suicídio.

Segundo, o suicídio egoísta, onde a pessoa desiste de viver, pois sua existência está tão em crise que pensa que a única solução é tirar a própria vida. É o ato em que o ego não pertence a si mesmo, então, em nome deste algo ou alguém, comete-se o vilipêndio eterno de tirar a própria vida.

Terceiro, o suicídio anômico, onde ocorre uma anomia social, ou seja, a sociedade se torna anárquica, e então, o indivíduo não vendo normalidade social, como normalidade econômica, política, educacional, religiosa, etc., e assim entra em colapso consigo mesmo chegando ao ponto de se suicidar.

Para Durkheim, o suicídio é sempre social. No entanto, na perspectiva cristã se ergue de dois aspectos para a compreensão do suicídio: primeiro, é a relação do indivíduo consigo mesmo; sendo o homem criado a imagem e semelhança de Deus, sempre há esperança, sempre há solução para os problemas interiores do mesmo sob a luz divinal de Jesus Cristo, o Sol da Justiça. Segundo, é a realidade das abnegações institucionais que levam o ser humano a muitas vezes deixar de ser humano, podendo desembocar no caso do suicídio, como por exemplo, no caso de muitos líderes que pela pressão excessiva e desumana acabam cometendo suicídio; etc.

O problema do suicídio e o suicídio como problema, tem uma série de implicações; as teses de Durkheim são assaz elucidativas para se compreender o suicídio enquanto fenômeno a partir da esfera social; mas o problema do suicídio é ainda mais grave se olhado do ponto de vista da doutrina cristã, já que quem se suicida conscientemente está em condenação eterna (inferno).

 

VIII

 

A violência no contexto urbano se estabelece sob duas condições primordiais: a primeira é a situação moral de uma sociedade, pois quando a sociedade está moralmente degrada a violência urbana tende a ser mais agravante e agônica; a segunda é a falta de políticas públicas que adequem a segurança, e ofereçam dignidade a todos indistintamente, produzindo uma apologia não ao crime, mas a sobriedade de ser viver justamente, diferentemente do que ocorre costumeiramente no Brasil onde culturalmente se estabelece que o crime compensa, tanto para quem o pratica quanto para quem usufruí dos benefícios da criminalidade.

Com efeito, o homem tem de saber de sua necessidade de Deus e da Salvação, ou seja, ele necessita do evangelho que pode renová-lo para as boas obras; porém, ao mesmo tempo ele tem que crer que tem de haver ordem e decência, pois o pecado, no âmbito da graça comum, precisa ser mantido dentro de limites, que quando quebrados tem de haver a administração de punição de acordo com a reta justiça que emana da lei.

 

IX

 

A questão do divórcio é muito clara nas Escrituras; só é permitido em caso de adultério. Porém, há questões de grande relevância para a questão do divórcio, como por exemplo, um cônjuge que bate no outro, situações de morte, etc., que são similares a sentença bíblica sobre o adultério. No entanto, é bom ficar claro que o divórcio é algo delicado que precisa ser pensado, e na filosofia contemporânea da união, sobressaem-se ainda outras questões sobre a individualidade, a suposta não compatibilidade, o não-amor, etc., as quais também devem ser levadas em conta ao se elucubrar sobre o divórcio; entretanto, a ética bíblica é categórica quanto ao divórcio, só é permitido em casos de traição, a qual pode advir de vários modos, não somente com adultério. Assim, ao se tratar de divórcio, tem-se de ter pelo menos uma postura ética racional e bíblica, para não fazer do ato do divórcio um suporte para a libertinagem, o que de fato tem ocorrido muito no meio cristão.

 

X

 

A guerra, sem sombra de dúvida, é um dos piores horrores da civilização humana; pincipalmente, com o advento de tecnologias bélicas, onde é possível dizimar milhões de vidas apenas com um clique num botão. A guerra, ainda que lidimada com os mais áureos motivos, nunca é algo bom e justo; mesmo em condições em que é necessária uma intervenção, como por exemplo, o foi no caso da Alemanha Nazista, onde os direitos do indivíduo estavam sendo destruídos abruptamente, onde a dignidade de uma raça estava em risco e em grave perigo, onde haviam práticas inomináveis para construir uma raça pura, até mesmo assim a guerra é horrível e mostra sua carranca de forma brutal. É claro, que neste caso, a guerra teve seus heróis que lutaram em favor do bem comum, porém, para a população simples que estava envolvida foi algo indescritivelmente cruento. Um antigo capelão da FEB afirmara: “A guerra é a coisa mais horrível que há. Só quem viu de perto pode saber até que ponto é horrível. Não resta dúvida que há marcas de heroísmo, que empolgam, mas, para as populações civis, é um verdadeiro inferno”. Pois, “onde vai a guerra aí ronda a morte, a ruína material e moral apavora, contempla-se o sofrimento da orfandade desamparada, a vergonha da viuvez sem virtude, a desintegração do lar, a moléstia, a maldade, o desmoronamento de todos os valores. Que Deus guarde a nossa Terra e o nosso Povo de semelhante maldição”. Por isso, a guerra tem sempre de ser a última instância para solucionar problemas humanas, já que é um dos mais terríveis problemas humanos; tem de haver em todos os sentidos a tentativa de haver diálogo e comunicação em prol do bem comum a fim de se evitar chegar a extremos onde a guerra se faz necessária.

 

XI

 

A política é algo necessário à vida humana. Aristóteles já dizia que o homem é um animal racional e político. Por isso, a política assim entendida e praticada se torna um bem à raça humana que permite estabelecer normas e princípios bem estipulados a partir da lei moral intrínseca ao ser humano. Porém, quando não há estes princípios em quem é responsável pela administração política de um povo, a mesma se torna política corrupta e corrosiva à saúde social e cultural de determinada nação. Quando a política se torna isto, cumprem-se as sábias palavras de Rui Barbosa: “De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”. Nisto está a lápide que se ergue sobre a política corrupta. 

Laudate Deo



[1] cf. Francis Bacon, The Works of Francis Bacon Volume 3 [New York: Hurd & Houghton, 1864], pág. 327-502. 


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