I
Uma questão que, de certa forma, suscitou debates e
mais debates em relação a teologia foi a respeito da relação entre o
cristianismo e a graça comum.
No entanto, a graça comum para o cristianismo é uma
doutrina fundamental, principalmente no que diz respeito as operações divinas
no mundo; mas, nem sempre as formas, o conteúdo e as explanações da doutrina
estão límpidas e harmoniosas tal como devem ser; por isso, tem-se tanta
confusão a respeito deste assunto.
Para clarificar esta questão, propomo-nos a analisar a
questão sob alguns prismas, os quais são: a questão de um ponto de contato nas
Escrituras, a questão do resgate do lugar e da importância da doutrina da Graça
Comum para o cristianismo, a questão do entendimento das manifestações da Graça
Comum no mundo como um todo, a questão da salvação e sua relação com a Graça
Comum, e a questão do senhorio de Cristo e sua relação com a Graça Comum.
II
Para começarmos a entender a relação entre
cristianismo e graça comum, temos de voltar brevemente ao período apostólico;
elencar-se-á um exemplo, o discurso do Apóstolo no Areópago, que situa-nos
muito bem nesta questão; o Apóstolo faz um discurso explicando aos filósofos
ali presentes sobre o “Deus Desconhecido”: “Nem tampouco é servido
por mãos de homens, como que necessitando de alguma coisa; pois ele mesmo é
quem dá a todos a vida, a respiração e todas as coisas; e de um só fez toda a
geração dos homens para habitar sobre toda a face da terra, determinando os tempos
já dantes ordenados e os limites da sua habitação, para que buscassem ao
Senhor, se, porventura, tateando, o pudessem achar, ainda que não está longe de
cada um de nós; porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos, como também
alguns dos vossos poetas disseram: Pois somos também sua geração” (At
17.25-28).
O discurso do Apóstolo é um monumental exemplo de como
se deve tratar essa questão. O Apóstolo diz que o Deus que aqueles homens no
Areópago chamavam de “Desconhecido”, era o Criador de todas as coisas, o
Deus verdadeiro; e isto é algo interessante, isto é, o Apóstolo encontrou um “ponto
de contato” na filosofia grega para falar do Deus verdadeiro, como também o
encontrou na poesia: “como também disseram alguns de vossos poetas”.
Este “ponto de contato” fora ampliado por alguns
teólogos posteriores na tentativa de entender a filosofia de forma geral, e a
cultura grega como um todo, e sua contribuição para a fé cristã, como por
exemplo, fizeram São Justino Mártir, São Clemente de Alexandria e outros;
assim, figurou na patrística a tentativa de entender como era essa relação de
filosofia grega e teologia cristã, das contribuições do saber grego para a
reflexão teológica.
No decorrer dos tempos, houveram outros teólogos que
trabalharam a questão; na escolástica medieval houve a síntese com o pensamento
aristotélico, o qual grandemente contribuiu para a estrutura granítica, límpida,
harmoniosa e estupenda das Summaes; Santo Tomás Aquino é o maior exemplo
deste tipo de síntese.
III
O polímata holandês Abraham Kuyper diz que houve um “longo
esquecimento” da doutrina da graça comum; e nisso está totalmente certo; Kuyper
assevera: “... era necessário, portanto, que séria e precisamente o antigo
dogma da graça comum fosse removido do pó das eras e colocado diante de nós em
clara luz. Aquele que se fecha no círculo de sua instituição eclesiástica fica
satisfeito com o estudo da graça particular; mas quem recebeu a vocação de
atuar também no campo científico, cívico e pedagógico, deve orientar-se também
no campo que está além da instituição das igrejas, e esse mesmo campo permanece
além do horizonte de nossa fé, a menos que cheguemos seriamente a termos com
aquela maravilhosa doutrina da graça comum, que nos explica o regimento de Deus
na vida extra-eclesiástica”[1].
A Graça Comum é o elemento que ajuda aqueles que tem
vocação extra-eclesial, isto é, aqueles que atuam no mundo, sejam nas ciências,
nas artes, na política, no ensino, e para estes, a Graça Comum funciona como um
elemento ordenador e unificador para que entendam a realidade a partir das
Escrituras, e assim a aplicação da Graça Comum a cada esfera da vida comum
funciona como este elemento que unifica suas crenças como cristãos e suas
atividades nas mais diversas esferas da vida.
Ainda, o resgate da Graça Comum do “pó das eras”
também funciona como um propulsor no resgate de um dogma de suma importância
para a Igreja; tende-se a se valorizar somente a questão da graça particular,
da salvação, e isto, porque muito em sua vocação única em relação a Igreja, não
conheciam a questão da graça comum, ou não se interessam para ajudar nas
questões envolvendo este mundo e ação cristã. No entanto, o resgate da Graça
Comum é de vital importância, e mesmo àqueles que não tenham vocação pública
secular é necessário que também ensinem todo conselho de Deus, de maneira
eficaz e eficiente.
Entretanto, este resgate não é algo muito simples,
apesar da latente necessidade; assim, pensa-se no resgate do baú do tempo deste
dogma essencialmente cristão, mas, no entanto, a figuração desta doutrina ainda
enfrenta sérias dificuldades em relação a aceitação e entendimento por parte de
muitos na Igreja.
Isto provém devido a um entendimento obscurecido a
respeito da Criação; os cristãos sabem e confessam que Deus criou todas as
coisas do nada, que Ele mesmo sustenta sua criação pela sua palavra criadora
(cf. Jo 1.1-3; Hb 1.3); também sabem da corrupção do pecado, e de suas consequências
nefastas, porém, não entendem a maneira como as Escrituras denotam a questão de
que Deus preserva ainda as coisas da corrupção total pela sua Graça, que
preserva e conserva na humanidade coisas boas, as quais ainda que não sirvam
para a salvação, no entanto, em relação as atividades humanas são essenciais.
Se não fora esta obra de preservação pela Graça divina
para com a Criação, o mundo a muito já estaria num caos interminável. Por isso,
o filósofo holandês Herman Dooyeweerd diz: “Pela Palavra criadora, por meio
da qual todas as coisas foram feitas e que se fez carne como Redentor, Deus
também sustenta o mundo caído pela 'graça comum', ou seja, a graça dada à
comunidade da humanidade como um todo, sem distinção entre pessoas regeneradas
e apóstatas. Porque também o homem redimido, em sua natureza pecaminosa,
continua a ser parte da humanidade caída. Por meio da graça comum, a difusão do
pecado é restringida e a demonização universal da humanidade caída é refreada,
de modo que centelhas da luz do poder, da bondade, da verdade, da justiça e da
beleza de Deus ainda brilham mesmo em culturas conduzidas pela apostasia”[2].
IV
Ora, basta olhar para a história das religiões e
observar quanta coisa elas construíram em algumas culturas e que permanecem até
hoje com o sensus aestheticus, com o sensus religare, e o sensus
relere; todas as religiões procuram dar uma resposta a estes dois sensos: o
de religar e o de reler. Dois sensos que trabalham juntos no coração humano, já
que este é o órgão da religião: religar para poder reler, reler para poder
religar.
Rudolf Bultmann fala sobre uma espécie de conexão
existente entre a fé cristã, enquanto religião, e as religiões em geral; Bultmann
afirma: “No caso de se entender a fé cristã como fenômeno da religião em
geral e, segundo a sua conceituação cristã, como o fenômeno religioso supremo,
e se além disso se entender ainda a religião como fenômeno do espírito humano,
fica naturalmente subentendido por si mesmo que existe uma concatenação
contínua entre a religião cristã e as religiões não-cristãs. A observação
histórico-religiosa parece confirmar esse parecer, pois sem dúvida alguma
pode-se encarar as religiões pagãs como estágios preliminares ou fenômenos
paralelos à religião cristã; poder-se-á afirmar ainda que nesta alcançou seu
desenvolvimento pleno aquilo que naquelas está presente apenas de forma
embrionária, ou que neste veio a se consumar aquilo que naquelas, por causa de
algum descaminho, atingiu forma distorcida ou menos perfeita”[3].
Por exemplo, a China, uma cultura milenar, que se
mantém através dos tempos com os mesmos princípios, os quais, quando analisados
no fundo, se observa algo em comum com os princípios que conduziram a sociedade
ocidental, conquanto o motivo religioso chinês (ou o de qualquer outra religião
oriental) seja totalmente oposto ao cristianismo.
Outrossim, o Dr. Albert Schweitzer dissera algo
interessante sobre o pensamento e a cultura indiana; ele elenca que o
pensamento indiano, em toda a sua grandeza e extensão, difere do pensamento do
Ocidente, devido a questão de sua cosmovisão ser diferente; Schweitzer diz: “Sabemos
muito pouco sobre qualquer pensamento exceto o nosso, especialmente sobre o
pensamento indiano. A razão pela qual é tão difícil familiarizar-se com isso é
que o pensamento indiano, em sua própria natureza, é totalmente diferente do
nosso próprio, em grande parte devido ao que a ideia de mundo e negação da vida
desempenha nele. Ao passo que nossa visão de mundo europeia moderna, como a de
Zaratustra e dos pensadores chineses, é, em princípio, uma afirmação do mundo e
da vida. A afirmação do mundo e da vida consiste nisto: que o homem considera a
existência como ele a experimenta em si mesmo e como ela se desenvolveu no
mundo como algo de valor per se e, portanto, se esforça para deixá-la atingir a
perfeição em si mesmo, enquanto dentro de sua própria esfera de influência ele
se esforça para preservá-lo e promovê-lo. A negação do mundo e da vida, por
outro lado, consiste em considerar a existência como ele a experimenta em si
mesmo e como ela é desenvolvida no mundo como algo sem sentido e doloroso, e ele
resolve de acordo (1) paralisar a vida em si mesmo mortificando sua vontade de
viver, e (2) renunciar a todas as atividades que visam a melhoria das condições
de vida neste mundo”[4].
O grandioso, profundo e sempre atual estudo do Dr.
Schweitzer nos mostra algo interessante, a saber: a estrutura interna do
pensamento indiano e seu caráter de antítese totalmente enraizado no que o bom
doutor chama de “negação do mundo e da vida”; é uma espécie de
misticismo indiano, que demonstra que a vida é, para o pensamento indiano, algo
extremamente doloroso, algo que não vale a pena; deste princípio no pensamento
indiano surge a questão das castas, e muitas outras coisas.
No entanto, ainda não seja nosso objetivo analisar a
questão do pensamento indiano em profundidade, a questão que o bom doutor
trabalha, ajuda-nos muito a compreender a antítese do pensamento indiano, onde,
devido a questão da formação religiosa indiana, com raízes no antigo xamanismo,
é um exemplo apodítico de uma cultura que se edificou em oposição ao que se entende
por graça comum.
Aí surge o questionamento: como eles poderiam edificar
o pensamento em relação a graça comum, se naquela época nem existia o conceito?
Simples, uma raiz da graça comum nas culturas ao longo da história é vista pela
questão da afirmação do mundo e da vida; quando não, a rejeição da lei natural
foi tão profunda que gerou uma rejeição do mundo e da vida; entretanto, mesmo
assim, ainda existe ali a questão da Graça Comum, no entanto, muito obnubilada
pela forma como se encara a realidade.
O Dr. Schweitzer também fala que o princípio de
negação do mundo e da vida também se conflui na recusa e na renúncia a todas as
atividades que visam a melhoria das condições de vida neste mundo; se há esta
rejeição no campo prático da própria ação humana, logo, não há possibilidade de
se ter uma doutrina que fale sobre esta questão; agora observe a situação, em
algumas áreas do cristianismo ocorre a mesma rejeição, nos mesmos princípios do
pensamento indiano; o que é uma lástima, mas é justamente por isso que se faz
necessário resgatar o dogma da graça comum do “pó das eras”.
V
Analisemos, pois, a questão das manifestações da graça
comum; ainda se pode observá-la na edificação literária dos povos; grandes
obras foram talhadas; entre os gregos a obra de Homero, um grande monumento da
inteligência humana: uma poesia incomparável; entre os romanos, basta lembrar
de Virgílio, o grande poeta ocidental; e muitos outros exemplos: Dante, Camões,
Cervantes, Shakespeare, Milton, Vieira, Dickens, Dostoiévski, Machado, etc.
Isto é um reflexo da graça comum, bem como a filosofia
grega, o direito romano, ou ainda a filosofia árabe, e similares; e isto,
porque Deus, pela sua Palavra criadora sustenta todas as coisas; agora, imagina
se não houvessem leis que freassem as situações adversas do meio social,
imagina se não houvesse o direito para estabelecer as normas naturais e
positivas para a formação de um Estado de Direito; quanto a isso, basta
observar a ordem social indiana, uma estrutura da negação do mundo e da vida, a
qual é totalmente desordenada.
Por isso, Dooyeweerd assevera: “Por meio da graça
comum, Deus, em primeiro lugar, sustenta as ordenanças de sua criação e por
meio delas mantém a ‘natureza humana’. Essas ordenanças são as mesmas para
cristãos e não cristãos. A graça comum de Deus é evidente no fato de que, mesmo
o mais ímpio governante deve, continuamente, inclinar-se e capitular diante dos
decretos de Deus se quiser que os resultados positivos de suas obras sejam
duradouros. Mas, sempre que essas ordenanças, diversificadas no tempo, não
sejam compreendidas a aceitas à luz de sua raiz religiosa (o mandamento
religioso de amor, de serviço a Deus e ao próximo), uma capitulação ou sujeição
a elas permanecerá como algo meramente incidental ou fragmentário. É por isso
que a cultura apóstata sempre revela uma desarmonia, proveniente de uma atitude
idólatra, que torna absolutos certos aspectos da criação de Deus à custa de
outros aspectos igualmente essenciais”[5].
A questão vai desde a preservação da natureza humana
em sua forma única, isto é, nas características que o definem como ser humano,
ainda que distante de Deus: é isso que diz o filósofo quando fala em manter a “natureza
humana”, isto é, as características essenciais do ser humano em seu corpo,
alma e espírito.
Outra coisa dita é sobre a graça comum que opera nos
governantes; é a verdade, a qual diz o profeta Daniel: “ele remove os reis e
estabelece os reis” (cf. Dn 2.21b); também, a sabedoria bíblica adverte que
pela sabedoria divina é que os reis governam: “Por mim governam os reis, e
os príncipes ordenam justiça” (Pv 8.15).
A sabedoria bíblica também exclama sobre a forma como
o Senhor conduz os reis e os governantes deste mundo: “Como ribeiros de
águas, assim é o coração do rei na mão do SENHOR; a tudo quando quer o inclina”
(Pv 21.1). O Senhor inclina o coração dos governantes, seja através de sua
vontade soberana, seja através de vontade permissiva, seja através dos
elementos da graça comum; pois quando o rei se ensoberbece contra as ordenanças
divinas, ocorre aquilo que o filósofo holandês dissera: então a sujeição e o
respeito do povo serão apenas algo fragmentado e pueril, e, logo, o principado,
o governo, o reinado se tornará algo imperito, ineficiente, corrompível e
corruptível, e assim, não honrará a Deus nem a sua Palavra e não servirá para o
bem do povo.
Assim, compreende-se que a graça comum não tira a
completa diferença entre os princípios bíblicos e os princípios pagãos; na
verdade, torna-os mais límpidos, principalmente na esfera extra-eclesial; Dooyeweerd
afirma: “Em tudo isso, é imperativo entender que a ‘graça comum’ não
enfraquece nem elimina a antítese (oposição) entre o motivo básico da religião
cristã e os motivos básicos apóstatas. A graça comum, de fato, só pode ser
entendida sobre a base da antítese. Teve início com a promessa feita no paraíso
de que Deus poria inimizade entre a semente da serpente e a semente da mulher,
da qual Cristo haveria de nascer. A raiz religiosa da graça comum é Jesus
Cristo, o Rei, sem o qual Deus não olharia para sua criação caída com graça”[6].
VI
A graça comum além de ser um dogma importantíssimo do
cristianismo também contribui para que a vivência da Igreja neste mundo seja
feita com prudência e equilíbrio, para não cair numa espécie de misticismo
oriental que, como no pensamento indiano, estabelece para si a negação do mundo
e da vida. Notadamente, a fé cristã é diametralmente oposta a esta perspectiva
de negação do mundo e da vida, conforme aparece no pensamento indiano, que, por
mais incrível que pareça, está se formando em muitos locais do mundo
ocidental.
Herman Bavinck fala sobre a importância do
cristianismo, que as pessoas percebem sua importância a medida que se
desvinculam dos ídolos da época: “Quem se liberta dos ídolos da época, da
opinião pública, dos preconceitos dominantes na ciência e na escola; quem olha
para si mesmo, sóbrio e vigilante, e que assume o mundo e o homem, a natureza e
a história, como eles realmente o fazem, a convicção é sempre mais fortemente
imposta a si mesmo de que o cristianismo é a única religião cuja contemplação
do mundo e da vida se ajusta ao mundo e à vida”[7].
O cristianismo é a única religião que em sua
contemplação do mundo e da vida oferece respostas satisfatórias e necessárias a
estas questões. Por isso, o cristianismo é a única religião que se ajusta ao
mundo e à vida, não porque se ajusta no sentido de se submeter, mas se ajusta
no sentido se ser a única cosmovisão que demonstra o todo como ele é, e as
partes como elas são.
Assim, é um fato inegável que a graça comum é um
elemento presente na história da humanidade, e como o cristianismo também faz
parte desta história, logo, sua importância como coluna e firmeza da verdade
(cf. 1Tm 3.15) para guardar a verdade.
Dooyeweerd afirma: “A revelação da graça comum de
Deus, apresentada à sua criação caída como uma totalidade ainda integral,
protege a cristandade bíblica do orgulho sectário que leva um cristão a fugir
do mundo e a rejeitar, sem motivo, tudo o que surge na cultura ocidental, além
da imediata influência da religião. Lampejos da glória original da criação de
Deus brilharão em todas as fases da cultura, em maior ou menor grau, mesmo que
o desenvolvimento humano tenha ocorrido sob a orientação de poderes espirituais
apóstatas. A humanidade não pode negar esse fato sem ser acusada de grande
ingratidão”[8].
A história, bem como a cultura caminham sob a égide do
comando divino, sob a atuação da Graça Comum; este é o princípio fundamental da
filosofia cristã da história, bem como o ponto de partida para a investigação a
respeito do conteúdo e da formação da história como um todo organizado e
sistemático.
E esta questão se sobreleva no entendimento de que “a
graça comum... coloca todo o curso da
cultura humana em seu campo de visão. Ele afirma que a graça comum é, em grande
medida, responsável por fazer da história como um todo o que foi, é e
continuará sendo”[9].
A questão é por demais complexa e requer uma série
exaustiva de explicações, no entanto, para clarificar brevemente a questão, esta
sentença acima evocada é uma chave hermenêutica no entendimento sobre graça
comum; e uma chave, porque, se todo o desenvolvimento da história o é desta
forma, devido a operação da graça comum, logo, só há a possibilidade de se
entender a história, quando se entende a graça comum; por isso, a graça comum é
uma parte integrante da filosofia cristã da história.
Assim, o cristianismo enquanto coluna e firmeza da
verdade, assim como uma religião histórica, também é fonte para que a doutrina
da Graça Comum seja preservada; desta forma, cristianismo e graça comum se
interligam tanto por causa desta ser uma doutrina fundamental, bem como por
causa da mesma ser um elemento fundamental para que o cristão interprete a
história, e ainda, por causa da validade desta se formar como uma fonte para
elucubração sobre como a Igreja e o cristão devem agir no mundo nas mais
diversas esferas da vida humana: da família ao trabalho, da Igreja ao estado,
da universidade ao seminário, da catedral a humildade capela, da religião a
ciência, do homem de estudos ao simples camponês, da mansão a palafita, da
filosofia a teologia, etc.
VII
A questão a respeito da Graça Comum só é entendida
cabalmente quando se entende seu lugar em relação a graça particular, isto é,
em relação a Salvação. Assim, salvação e graça comum se confluem num mesmo
patamar doutrinário, pois são manifestações da graça de Deus, esta uma graça
irradiada a todos os homens, os daquela, uma graça particular, irradiada aos eleitos
para a salvação eterna.
Há uma expressão do salmista que muito se eleva devido
a sua simplicidade tanto quando por sua profundidade; é quando ele fala sobre
as benignidades do Senhor para com seu povo, e dentre estas, ele fala sobre a
maior destas, a saber: a salvação, a redenção; o salmista diz: “É ele que
perdoa todas as tuas iniquidades e sara todas as tuas enfermidades; quem redime
a tua vida da perdição e te coroa de benignidade e de misericórdia” (Sl
103.3-4).
A questão sobre a salvação deve ser demonstrada em
seus termos bíblicos, a saber: como uma obra divina; somos salvos, e somo-lo
por causa da atuação divina; não é por obras, mas pela fé, mediante a graça; o
Apóstolo diz: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isso não vem
de vós; é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Ef
2.8-9).
E Deus ao salvar é soberano, Ele é totalmente livre
para salvar quem quer; o profeta Isaias pronuncia que o Senhor é o Salvador: “Porque
eu sou o Senhor, teu Deus, o Santo de Israel, o teu Salvador; dei o Egito por
teu resgate, a Etiópia e Sebá, por ti” (Is 43.14); e ainda nas palavras do
próprio Senhor: “Olhai para mim e sereis salvos, vós, todos os termos da
terra; porque eu sou Deus, e não há outro” (Is 45.22), e também: “Faço
chegar a minha justiça, e não estará ao longe, e a minha salvação não tardará;
mas estabelecerei em Sião a salvação e em Israel, a minha glória” (Is
46.13).
E, a partir destes aspectos, chega-se a algumas
conclusões:
Primeiro, se a doutrina da liberdade soberana de Deus,
na qual Ele escolhe quem quer, é um pilar da fé.
Segundo, se o Redentor é o próprio Senhor, logo, é Ele
mesmo quem dá vida a Igreja tenha vida.
Terceiro, se o Redentor é quem anuncia a Salvação, e
conclama aos homens que se voltem a Ele, e olhem para Ele, logo, a própria
conceituação da salvação é a partir da obra divina.
Quarto, se a graça salvífica é obra divina, logo, a
graça comum também o é, já que ambas estão interligadas, e que Deus somente
olha com graça para com sua criação, devido a morte de Seu Filho, o qual estava
morto antes da fundação do mundo (cf. Ap 13.8); assim, a graça comum é uma obra
divina, a qual o Criador concede aos homens a capacidade de entender seu
pensamento imbuído na Criação, e isto devido a Redenção.
Por isso, Bavinck assevera: “É a graça comum que
torna possível a Graça especial, prepara o caminho para ela, e depois lhe dá o
suporte; e a Graça especial por sua vez, ergue a graça comum ao seu próprio
nível e coloca-a a seu serviço. Ambas as revelações têm como proposito a
conservação da raça humana; a primeira sustentando-a e a segunda redimindo-a; e
desta forma as duas cumprem a sua finalidade, que é glorificar todas as
excelências de Deus”[10].
VIII
Outra questão que se sobressai a respeito da graça
comum e o cristianismo é sobre o senhorio de Cristo; Cristo é soberano sobre
todas as coisas (cf. Fp 2.9-11), e sua soberania observa-se tanto na Igreja
quanto no mundo, apesar de que no mundo nem sempre consegue se observar isto
com clareza, conquanto seja uma realidade inegável. Por isso, o Senhor Jesus
afirmara: “Outra parábola lhes disse: O Reino dos céus é semelhante ao
fermento que uma mulher toma e introduz em três medidas de farinha, até que
tudo esteja levedado” (Mt 13.33).
Por isso, Kuyper afirma: “Em primeiro lugar, na
natureza, porque todos os poderes que Deus cria neste mundo como o Criador
gradualmente chegam à plenitude. Em segundo lugar, a ação do pecado, que ataca
a ordem de Deus. Terceiro, a ação da Graça Comum nas vidas de todas as nações.
E em quarto lugar, procedendo da ação de Cristo, que sempre significa a
manifestação do reino dos céus e abrange todo o campo de nossa vida humana. A
ação da natureza continuou por todas essas idades e, nos últimos séculos, levou
a revelações que mudaram completamente a face deste mundo. A ação do pecado não
cessou em todas aquelas eras, para suscitar nova justiça e enganar as nações. E
da mesma forma a ação da Graça Comum não cessou de trabalhar contra essa
injustiça, em parte para detê-la e tornar possível uma vida humana fecunda sob
o Governo dado por Deus nos Estados que se tornaram históricos. Agora tudo isso
aconteceu, e essa tríplice ação funcionou incansavelmente, cada uma de seu
próprio princípio e em virtude de sua própria ordem, e o complexo desse tríplice
ação está diante de nós no curso histórico desses dezenove séculos”[11].
A questão proposta é um todo bem explicado, sobre o
desenrolar da história, a da sagrada e a da profana, que andando juntamente,
tem seus governos controlados pelo mesmo Senhor, a saber, Cristo, conquanto, na
Igreja seja um governo pessoal e absoluto, e no mundo, um governo permissivo,
isto é, na Igreja Cristo governa como o cabeça de um corpo, que é o seu próprio
corpo, o qual, tem seus membros, e esses membros são chamados pelo próprio
Cristo de irmãos (cf. Hb 2.11), e no mundo, que também é um corpo, mas o corpo
da humanidade, onde os homens todos são membros do corpo da humanidade, e
assim, estão todos sob o olhar atento do Rei dos Reis; outra questão é a
diferença de relacionamento, enquanto todos estão sob a autoridade de Cristo,
somente os da Igreja, isto é, aqueles que creem em seu nome, estão sob seus
cuidados singulares, e com sua presença eterna.
De fato, a história é o palco dos grandes feitos de
Deus, seja em seu povo, seja nas nações; o salmista declara: “O SENHOR tem
estabelecido seu trono nos céus, e o seu reino domina sobre tudo” (Sl
103.19). O próprio Senhor declara ao seu povo: “Atendei-me, povo meu e nação
minha! Inclinai os ouvidos para mim, porque de mim sairá a lei, e o meu juízo
se estabelecerá como luz dos povos” (Is 51.4).
Desta forma, sendo que provém do próprio Senhor a luz
dos povos, bem como o seu reino domina sobre tudo, sabe-se que a manifestação
geral do reino de Deus vai dando seus reflexos aos poucos, igual ao fermento
que leveda a massa; este é o senso do progresso histórico, bem como a fonte de
entendimento que o próprio Senhor, o Salvador, através do estabelecimento de
seu Reino, dos princípios e regulamentos deste reino, vai conduzindo a história
para seu derradeiro fim, na Consumação.
Por isso, o desenvolvimento histórico é obra da graça
de Deus; portanto, “... a graça comum deve ser distinguida. Por um lado, há
um efeito isolado da graça comum que, limitado a tempo e lugar, abençoa alguns
grupos étnicos, mas que possui apenas um poder limitado de desenvolvimento, e
uma vez que o limite desse poder é atingido, ou fica parado ou declina e
petrifica. As características dessas operações isoladas de graça comum são: 1°-
que é limitado localmente e não se espalha por todo o mundo; 2°- que está
temporariamente limitado e tem significado apenas por alguns séculos; e 3°- que
depois de um curto período de tempo ela atingiu sua maturidade plena e não pode
ir mais longe. E contra isso existe agora uma linha inteiramente diferente de
graça comum, que carrega a vida de nossa geração como uma geração e, como tal,
avança e avança em nossa vida humana. O fruto desta ação da graça comum é um
desenvolvimento humano, que não está vinculado a nenhum grupo de pessoas, mas
está destinado a abençoar todas as nações. Um desenvolvimento que não está
limitado a um determinado século, mas que continua constantemente no decorrer
de todas as épocas. E, finalmente, um desenvolvimento que não está limitado por
um certo limite de progresso, mas progride cada vez mais, dando passos
gigantescos em cada novo século, não em uma, mas em todas as áreas da vida
humana. Ao primeiro tipo de graça comum pertence o que você vê na antiga
América, na China, no Japão, na Índia e em parte o que você observa no Islã. O
segundo tipo de operação da graça comum, por outro lado, inclui o
desenvolvimento humano, que começou na Babilônia e no Egito, então floresceu
provisoriamente na Grécia e em Roma, quando foi assumido pelo Cristianismo, e
desde então sob os auspícios da Cruz de Cristo já se reproduziu na Europa e na
América por dezoito séculos. Em suma, pode-se chamar a primeira de ação
especial da graça comum a serviço de certos povos e épocas; a segunda, de ação
geral da graça comum a serviço do desenvolvimento de nossa raça humana”[12].
Assim sendo, como corolário, pode-se dizer que a graça
comum é o meio como Deus concede aos homens a capacidade de entender os
pensamentos que inseriu em suas obras; é como se cada aspecto da criação, desde
o mais simples até o mais complexo, fosse uma “tese”, uma “resolução” a ser
descoberta e estudada, para a glória do próprio Criador, bem como para o bem da
humanidade; é isto que dá sentido a existência da ciência, pois sem este
princípio a ciência se torna ressequida. E o mesmo se diz da filosofia, das
artes e da história como um todo.
E, por fim, que se saiba que este é o propósito de se
estudar a graça comum e de verificar as relações básicas e ordenativas entre o
cristianismo enquanto religião e a graça comum.
Laudate Deo!
[1] Abraham Kuyper, De
Geemene Gratie Derde Deel: Het Practish Gedeelte [4° edição. Kampen: J. H.
Kok, 1939], pág. 11.
[2] Herman Dooyeweerd, Raízes
da Cultura Ocidental: As Opções Pagã, Secular e Cristã [1°
edição. São Paulo: Cultural Cristã, 2015], pág. 52-53.
[3] Rudolf Bultmann, Crer e Compreender: Ensaios Selecionados [São Leopoldo, RS:
Sinodal, 2001], pág. 218.
[4] Albert Schweitzer, Indian Thought and its Development [Londres:
Hodder and Stoughton Limited, 1936], pág. 1-2.
[5] Dooyeweerd, Op. Cit., pág. 53.
[6]
Ibidem.
[7] Herman Bavinck, Christelijke Wereidbeschouwing [Kampen: J. H.
Bos, 1904], pág. 11.
[8] Dooyeweerd, Op.
Cit., pág. 54.
[9] Cornelius Van
Til, Graça Comum e o Evangelho [1° edição. São Paulo: Cultura Cristã, 2018], pág. 52.
[10] Herman Bavinck, Teologia Sistemática [Santa Bárbara d'Oeste, SP:
SOCEP, 2001], pág. 39-40.
[11] Abraham Kuyper, Pro Rege Derde Deel: Het Koningschap van Christus in
Zijn Werking [1° edição. Kampen: J. H. Kok, 1912], pág. 269.
[12] Abraham Kuyper, De Gemeene Gratie Tweede Deel: Het Leerstellig
Gedeelte [4° edição. Kampen: J. H. Kok, 1939], pág. 181-182.