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03/04/2021

Os Tópicos da Graça Comum

I

 

A contemplação das obras de Deus gera uma série infinda de estudos; vários são os campos de estudo que procuram trabalhar as questões sobre a obra da Criação; e realmente o senso de admiração que enche a mente e o coração humano ao se contemplar a Criação é o que fomenta o caminho para o estudo da natureza. O salmista assevera: “Como são maravilhosas as coisas que ele faz! Todos os que se alegram por causa delas querem entendê-las” (Sl 111.2 NTLH).

Que expressão magnífica: “todos os que se alegram (isto é, aqueles que as admiram) por causa delas querem entendê-las”. E é este anseio primordial que se conflui com o senso do bem, do belo e da verdade, que impulsiona o homem estudar e a querer entender a essência dos entes; e só há a possibilidade deste conhecimento a luz do próprio Criador; sem o Criador não há como se entender a criação; por isso, o Pregador assevera: “Porque o Senhor dá a sabedoria, e da sua boca vem o conhecimento e o entendimento” (Pv 2.6). Portanto, provém do próprio Senhor, o Criador de todas as coisas, a fonte de entendimento e conhecimento para que o homem possa entender a Criação (cf. Sl 94.10b).

Na verdade, o Criador em Sua infinita bondade e sabedoria traçara um caminho para a ciência, para que também sua obra pudesse ser entendida e compreendida; o profeta proclama sobre a sublimidade e majestade do Criador na criação: “Com quem tomou conselho, para que lhe desse entendimento, e lhe mostrasse as veredas do juízo, e lhe ensinasse sabedoria, e lhe fizesse notório o caminho da ciência?” (Is 40.14).

A questão que o profeta elenca, demonstra que o próprio Senhor talhou um caminho para a ciência, um caminho para o conhecimento; isto é realmente fantástico, pois além de demonstrar a incalculável sabedoria do Criador, também demonstra que é Ele mesmo quem define o que o homem sabe, bem como o que pode saber; se o conhecimento tem um caminho, logo, há de se ter também um caminho para se chegar a este conhecimento.

 

II

 

A sabedoria da obra divina, demonstrada na Criação, é um reflexo tanto da divindade do Criador como de Seu eterno poder (cf. Rm 1.20), e assim, também são um reflexo do que o Criador usou na Criação. A Criação tem em si reflexos das virtudes do Criador.

O livro de provérbios faz uma alusão a Sabedoria com a qual o Senhor criara todas as coisas; e a própria sabedoria personifica-se e toma a palavra dizendo qual foi sua obra na Criação: “O Senhor me possuiu no princípio de seus caminhos e antes de suas obras mais antigas. Desde a eternidade, fui ungida; desde o princípio, antes do começo da terra. Antes de haver abismos, fui gerada; e antes ainda de haver fontes carregadas de águas. Antes que os montes fossem firmados, antes dos outeiros, eu fui gerada. Ainda ele não tinha feito a terra, nem os campos, nem sequer o princípio do pó do mundo. Quando ele preparava os céus, aí estava eu; quando compassava ao redor a face do abismo; quando firmava as nuvens de cima, quando fortificava as fontes do abismo; quando punha ao mar o seu termo, para que as águas não trespassassem o seu mando; quando compunha os fundamentos da terra” (Pv 8.22-29).

A expressão salomônica encontra uma gloriosa e excelsa explicação no prólogo do evangelho de João, onde o evangelista dos segredos de Deus afirma: “No princípio, era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez” (Jo 1.1-3). E ainda, a expressão salomônica encontra amparo naquilo que o Apóstolo diz: “o qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades; tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele” (Cl 1.15-17).

A questão tratada tanto pelo evangelista dos segredos de Deus quanto pelo Apóstolo, mostram a sublimidade do Verbo de Deus, que é antes de todas as coisas, pois é Deus mesmo, bem como é através d’Ele que tudo o que existe se mantém; assim, a sabedoria divina na Criação, que o apóstolo João aplica como Logos, isto é, razão, é a própria razão da Criação, bem como de sua subsistência; assim, pode-se falar que a Criação é algo racional, que é a concreção do pensamento divino na realidade. A substância e a subsistência da Criação foram estabelecidas através do Logos.

Por isso, Abraham Kuyper diz: “Portanto, se o pensamento de Deus é eterno, e se a totalidade da criação deve ser compreendida simplesmente como o fluxo deste pensamento divino, de tal modo que todas as coisas vieram à existência e continuam a existir por meio do Logos - isto é, mediante a razão divina, ou mais particularmente, através do Verbo -, então o caso é: o pensamento divino se encontra incorporado em todas as coisas criadas. Então, não há nada no universo que deixe de expressar - de encarnar - a revelação do pensamento de Deus [...] Todas a criação nada mais é do que a cortina visível por detrás da qual irradia a operação excelsa desse pensamento divino[1].

A Criação é a concreção dos pensamentos divinos, e quem se dedica a estudá-la, elucubra e descobre estes pensamentos, ainda que apenas de raspão; mas mesmo assim já é algo e tanto, pois estabelece as formas como o Criador se deu a conhecer nas entranhas de Sua Criação. É por isso que o salmista diz que todos os que admiram a Criação querem entender estas maravilhas. Rui Barbosa assevera: “Ouvi-nos Senhor..., cujos tesoiros não diminuem, por mais que se despendam em maravilhas com a criação; em liberalidades com as criaturas. Para que estas se venham a multiplicar em descendentes, que os sigam no vosso caminho, e mais uma geração e outras e outras passem, contemplando, abençoando e servindo o Criador benfazejo de todas as coisas[2].

 

III

 

A Criação, como tal, fora obra do Logos divino (cf. Jo 1.1-3; Cl 1.15-17); como se sabe logos significa razão, lógica; portanto, a Criação é racional, tem uma lógica intrínseca presente em suas entranhas. A lógica intrínseca presente em cada esfera da Criação é a assinatura de Seu autor, é o carimbo da obra divina. Assim, poder-se-á falar em lógica da Criação; lógica no sentido de precisão, e ligação entre todas as partes apontando para o todo, e o todo demonstrando a excelência das partes.

No livro do profeta Jeremias, há uma efusiva declaração sobre a obra do Criador: “Ele fez a terra com o seu poder, e ordenou o mundo com a sua sabedoria, e estendeu os céus com o seu entendimento. Fazendo ele ouvir a sua voz, grande estrondo de águas há nos céus, e sobem os vapores desde o fim da terra; faz os relâmpagos com a chuva e tira o vento dos seus tesouros” (Jr 51.14-15).

A expressão no livro do profeta Jeremias tem alguns pontos interessantes: (i) primeiro, diz que o Senhor ordenou o mundo com Sua sabedoria; (ii) segundo, diz que Ele estendeu os céus com Seu entendimento; (iii) terceiro, diz que Ele faz os relâmpagos com a chuva; (iv) quarto, diz que tira o vento dos Seus tesouros.

Estes quatro pontos demonstram que a sabedoria e o entendimento do Criador se exemplificam em suas obras, ordenadas com sabedoria; a expressão ordenada com sabedoria denota o logos, já que todas as ordenações do cosmos foram criadas em perfeita ordem, e se mantém esta ordem devido a obra da Graça Comum.

Além do que, na obra da Criação denota-se que o Criador tirou muitas coisas de Seus tesouros para embelezar Sua obra magnífica. É obviamente uma figura de linguagem comum àquele tempo do profeta Jeremias, mas sua colocação é muito precisa, já que ao se investigar as belezas e maravilhas da Criação, se tem justamente esta impressão, a saber: que muitos tesouros foram colocados de modo preciso em vários aspectos da Criação, e que se tornam imprescindíveis ao funcionamento da mesma, como é o caso do relâmpago e da chuva, do vento, etc. A beleza da Criação é aferida a partir da Suma-Beleza do Criador.

 

IV

 

Nesta mesma perspectiva, ainda surge outra questão, a qual se elenca: se o Criador fez todas as coisas com beleza, sabedoria e entendimento, e isso é expressão do seu pensamento concretizado na obra da Criação como um todo, então toda a criação segue este ordenamento de forma precisa e inconfundível.

No entanto, há outra coisa a se falar sobre isso, que é a corrupção do Pecado; o pecado corrompeu a ordem perfeita da criação original, tirando-a do eixo; e o mal moral se infiltrou no coração do homem, bem como corrompeu a perfeição moral da Criação original; mas o próprio Criador mantém sua obra da corrupção total do cosmos. Sobre isso o salmista diz: “Todos esperam de ti que lhes dês o seu sustento em tempo oportuno. Dando-lho tu, eles o recolhem; abres a tua mão, e enchem-se de bens. Escondes o teu rosto, e ficam perturbados; se lhes tiras a respiração, morrem e voltam ao próprio pó. Envias o teu Espírito, e são criados, e assim renovas a face da terra” (Sl 104.27-30).

A expressão do salmista é sobre a obra de Deus ao enviar seu Espírito na obra de preservação e conservação do mundo para que ele continue “funcionando”; na verdade é a operação divina para que o cosmos seja preservado em suas funções primordiais, as quais são: a temporização em dia e noite, e com isto as estações do ano; o orvalho, que refresca pela noite a terra, dando-lhe nutrientes; etc. Assim, compreende-se o porquê de o salmista dizer que se o Senhor esconder o rosto, isto é, deixar de fazer sua obra, a Criação perece, e morre.

Assim, quando o Senhor envia o Espírito sobre a face da terra, logo, as coisas são criadas e recriadas de novo no sentido de se fortalecerem para suas funções determinadas, e a terra é renovada para a labuta do outro dia. É isso também que o salmista diz quanto o sol sai do seu lugar e vai andando e andando até voltar para ele novamente (cf. Sl 19.4-6), quando então aparece a lua para governar a noite, assim, um dia conversa com outro dia e uma noite conversa com outra noite (cf. Sl 19.2-3), etc.

 

V

 

Outra questão que é sobre a existência do povo de Deus, e sua relação com as instituições fundamentais da vida humana; na verdade, é a expressão da relação entre a missão do povo de Deus, tanto da Antiga Aliança quanto da Nova Aliança, e sua relação com o funcionamento e o desenvolvimento das instituições humanas fundamentais.

O povo da Antiga Aliança, fora o guardião das revelações de Deus a humanidade, bem como da existência da Revelação escrita de Deus. O Apóstolo diz que os israelitas são os guardiões desta “primeira” revelação de Deus a humanidade: “... são israelitas, dos quais é a adoção de filhos, e a glória, e os concertos, e a lei, e o culto, e as promessas; dos quais são os pais, e dos quais é Cristo, segundo a carne, o qual é sobre todos, Deus bendito eternamente. Amém!” (Rm 9.4-5).

O Israel Antigo é herdeiro da revelação divina através da lei, dos concertos, do culto, das promessas, dos pais, de Cristo, que veio pela carne ao mundo através da cultura judaica e como cumprimento as promessas de Israel.

Eric Voegelin fala sobre a história e importância de Israel como criadora do próprio sentido de história para as elucubrações culturais e revelacionais posteriores sobre o assunto; a partir do Salmo 136, Voegelin traça este paralelo sobre a história de Israel, numa expressão muito singular, na qual ele diz: “O drama da criação divina passa por três grandes atos: a criação do mundo, o resgate do Egito e a conquista de Canaã. Cada um dos três atos arranca significado do que não tem sentido: o mundo emerge do nada, Israel do Sheol do Egito e a terra prometida do deserto. Os atos, portanto, interpretam uns aos outros como obras da criação divina e como as etapas históricas nas quais um reino de significado cresce: Na história, Deus continua sua obra de criação, e a criação do mundo é o primeiro evento na história. A essa concepção, o termo história do mundo pode ser aplicado no sentido prenhe de um processo que é criação do mundo e história ao mesmo tempo. Em sua extensão, a narrativa do Antigo Testamento examina o processo desde a solidão criativa de Deus até sua conclusão através do estabelecimento dos servos de Yahweh na terra da promessa. Como nos Hinos de Amon, podiam-se discernir estruturas especulativas que na história posterior seriam diferenciadas, então podemos discernir na compactação do simbolismo histórico israelita os contornos dos três grandes blocos de especulação tomista: Deus, a criação e o retorno da criação para Deus. Que a história israelita contém essa estrutura especulativa, embora ainda em forma indiferenciada, é o segredo de sua perfeição dramática[3].

A questão elencada por Voegelin demonstra a importância do povo de Deus no todo da sociedade ocidental, e até mesmo da oriental; se como o Apóstolo diz que de Israel provém a estrutura da teologia sacra, e de suas nuances fundamentais, e no cristianismo isto se cumpre cabalmente no sentido de cumprimento das profecias sobre Cristo e a Salvação, logo, a ordem da história, e de suas instituições, passa pelo legado hebraico-cristão[4].

Isto observa-se na confluência da relação na sociedade, entre, por exemplo, filosofia grega, direito romano e religião cristã. As instituições edificadas sobre estes três aspectos, foram sublimadas pela resolução que a Igreja é expressão formativa e visível do povo de Deus aqui na terra.  O fermento do reino de Deus já começou levedar a massa do mundo aos poucos, preparando-o para a Consumação dos séculos, e em relação a isso a Igreja é a guardiã do depositum fidei.

Aqui se há de fazer uma diferença sobre que algo que já se falou anteriormente; a Igreja é a comunidade visível que vive sob os ensinamentos de Cristo e dos Apóstolos, bem como configura-se como um corpo sob um cabeça, e isto não só em relação a vida eclesial, mas também em relação a humanidade; o mundo é um corpo visível, que também tem um cabeça que é Cristo, conquanto sua explicitação seja apenas para o funcionamento da humanidade como tal, não sendo expressão da salvação individual, mas sim do domínio universal de Cristo. Cristo é Rei sobre tudo e sobre todos.

A expressão da vivência do povo de Deus em relação a vivência da sociedade humana é uma chave pela qual se entende em qual posição cada um está, bem como é a chave para se entender como o cristão deve se relacionar com ambas, e com base neste entendimento, poder-se-á falar em uma espécie de duas esferas gerais: a da Igreja e a do Mundo.

A esfera da Igreja, aquele governada primariamente em vista as coisas eternas, enquanto corpo de Cristo, sob a liderança constituinte, graciosa e advocatícia de Cristo; já a esfera do Mundo, governada em relação as coisas físicas, enquanto corpo da humanidade, também sobre a liderança monárquica de Cristo, o Rei. Mas ainda, nesta diferenciação, deve ficar evidente que a Igreja é definida basicamente como vida corporativa na Redenção em Jesus Cristo em sua realidade orgânica, e o Mundo é definido basicamente como vida corporativa nas Instituições fundamentais da vida humana sob a influência do Pecado, mas sujeitos a Soberania de Cristo.

Friedrich Schleiermacher tem uma expressão interessante, a saber: sobre a diferença entre a vida corporativa no pecado e a vida corporativa a partir de redenção em Jesus Cristo: “Estamos cientes de todas as aproximações na vida cristã ao estado de bem-aventurança, baseada em uma nova vida corporativa divinamente efetuada, que funciona em oposição a vida corporativa de pecado e a miséria que nela se desenvolveram[5].

A questão proposta por Schleiermacher é, de forma geral, muito pertinente já que ajuda a elencar a diferença que existe entre a Igreja e o Mundo em relação as perspectivas da Graça Comum; e mundo aqui, novamente digo, não é o sistema governado por Satanás, o qual jaz no maligno (cf. 1Jo 5.19), mas o cosmos criado por Deus, e sustentado pela atividade do próprio Deus para não sucumbir a corrupção completa do Pecado. Ainda que o mundo jaz no maligno devido ao Pecado, e ao distanciamento do homem de Deus, entretanto, o próprio Deus preserva o mundo para que siga seu caminho até o fim.

Assim, quando Schleiermacher faz a diferenciação entre “a vida corporativa na redenção em Jesus Cristo” e “a vida corporativa de pecado e miséria”, logo ele também está apenas explicitando a questão sobre a realidade da ação da Graça de Deus no mundo: a Graça Comum e também a Graça Salvadora, conquanto ajam de maneiras diferentes, mas para um mesmo propósito, a saber: a glória de Cristo! Por isso, Kuyper diz: “... a graça particular não se limita à herança espiritual, mas realmente reivindica o mundo das coisas visíveis. A partir deste ponto, agora é demonstrável que a graça particular..., não poderia ter seguido seu curso sem a graça comum. Pois é precisamente a graça comum que, em face da maldição e da morte, manteve e ainda mantém a realidade das coisas[6].

Assim, tem-se que a Graça Comum mantém a realidade das coisas para que a redenção total seja executada; a redenção total de todas as coisas é elencada pela expressão “redenção cósmica”. A questão da redenção fora elencada pelo Apóstolo: “E tudo isso provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados, e pôs em nós a palavra da reconciliação” (2Co 5.18-19).

A expressão que o Apóstolo utiliza para mundo é κόσμον, isto é, cosmos, designando todo o universo; logo, a redenção é para todo o cosmos; e isto é também atestado ao longo das Escrituras; elenca-se dois exemplos:

O primeiro exemplo, é na expressão do próprio Apóstolo, em relação a expectação da Criação como um todo: “Porque a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa do que a sujeitou, na esperança de que também a mesma criatura será libertada da servidão da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora” (Rm 8.20-22).

O segundo exemplo, é na expressão do Príncipe dos Apóstolos, dizendo que este cosmos será desfeito pelo fogo: “aguardando e apressando-vos para a vinda do Dia de Deus, em que os céus, em fogo, se desfarão, e os elementos, ardendo, se fundirão?” (2Pe 3.12).

Assim, observa-se que estes dois textos apontam para duas perspectivas distintas, mas através de uma mesma realidade, a saber: a redenção de Jesus Cristo é cósmica, redime todo o universo, entretanto, o universo corrompido pelo pecado terá de ser desfeito, destruído, para a criação de um novo céu e uma nova terra (cf. Ap 21.1-7), para a consumação definitiva e eterna da redenção de todas as coisas.

Ainda, resta-nos uma explicação sobre a questão do povo de Deus e sua relação com as instituições gerais da humanidade; na verdade, exemplificar-se-á a partir da questão pela qual se forma um dos mais importantes fios da civilização ocidental, a saber: o direito romano. Na expressão do direito romano encontra-se uma questão, ao se voltar a formação do direito romano, chamada de jus civile ou direito quiritário. 

A jus civile tem como fonte os costumes e as leis régias[7]; os costumes são a continuidade histórica de alguma tradição que se forma em norma e padrão de comportamento na esfera social, já as leis régias são a expressão de regulamentos daqueles que tem a autoridade religiosa e civil para guiar povo, que muitas vezes era exercida pela mesma pessoa, na figura de um rei-sacerdote, que era muito comum nos primórdios do desenvolvimento da civilização humana, e como ainda o é nas religiões xamânicas.

Assim, a jus civile tem suas fontes: os costumes e as leis régias, que foram a forma como se edificara a questão do direito quiritário; e como a base geral do direito romano começa com esta questão, logo tê-la-á como princípio também do desenvolvimento posterior deste. Da mesma forma é com a questão do povo de Deus e a instituições humanas gerais; o povo de Deus é como a figura de ampliação e desenvolvimento destes povos, no sentido de a expressão e a configuração do povo de Deus aqui na terra ser como o fermento que ao ser aplicado no bolo (a civilização como um todo) leveda toda a massa (cf. Mt 13.33); assim como foi verificada na questão do jus civile e sua atuação a partir de suas fontes em relação ao direito romano, também o é em relação ao povo de Deus e sua relação com as instituições humanas fundamentais.

A existência do povo de Deus sublima esta questão, e como tal, gera uma fonte interna que permite manter o que de melhor fora gerado nas civilizações clássicas, as mesmas civilizações que sob a égide da Graça Comum preparam o mundo para a πλήρωμα τοῦ χρόνου (a plenitudes dos tempos: cf. Gl 4.4); a presença do povo de Deus é o que sublima o que de melhor estes povos geraram e cunharam em relação a existência humana, bem como como é o que demonstra sobre a realidade de uma vida superior, a saber: a realidade da vida eterna.

 

VI

 

Assim, pode-se prosseguir, após estas elucubrações em relação a Graça Comum e a Salvação, a Graça Comum e o Senhorio de Cristo, bem como a exposição do lugar do povo de Deus e o desenvolvimento das instituições da vida humana; agora, passar-se-á a questão dos homônimos teológicos para o conceito de Graça Comum. Os homônimos mais comuns, são aqueles que estão inseridos a questão da própria Graça, a saber: Graça Particular e Graça Preveniente.

Quanto a isso, a expressão de Herman Bavinck é categórica: “É a graça comum que torna possível a Graça especial, prepara o caminho para ela, e depois lhe dá o suporte; e a Graça especial por sua vez, ergue a graça comum ao seu próprio nível e coloca-a a seu serviço. Ambas as revelações têm como proposito a conservação da raça humana; a primeira sustentando-a e a segunda redimindo-a; e desta forma as duas cumprem a sua finalidade, que é glorificar todas as excelências de Deus[8].

Assim, Graça Comum prepara o caminho para a Graça Particular, dando forma a Graça que antecede a Graça Salvadora, a chamada Graça Preveniente. Kuyper afirma: “por esta ‘graça preparatória’ entende-se certa preparação, não na graça comum, mas na graça particular, uma preparação que tem um caráter geral ou surge do homem[9].

A questão sobre a Graça Preparatória, conquanto seja um termo costumeiramente tido como homônimo a Graça Comum, contudo, em relação aos seus princípios fundamentais e funcionais, difere da mesma em relação ao propósito; pois, embora seja uma expressão homônima a Graça Comum, ocorre-se alguns enganos em relação a Graça Preveniente, mas deve se dizer prontamente que apesar de serem homônimas num primeiro momento, Graça Comum e Graça Preparatória não são sinônimas; por isso, há de se ter sempre em conta que os limites de atuação de cada um destes termos; portanto, há de se ter em mente que tudo o que é praeviens ou preaparans é do terreno da Graça Comum, não do terreno da Graça Salvadora, mas é um preâmbulo em relação a Graça Salvadora.

Com efeito, tudo o que é preparatório é comum e por isso disposto a todos os homens, tudo o que particular é somente aos cristãos, por isso disposto somente a partir da eleição em Cristo. Assim, a Graça Salvadora é disponível a todos indistintamente (cf. 1Tm 2.4), conquanto só recebam a salvação aqueles que foram graciosamente eleitos, escolhidos, vocacionados e chamados em glória, isto é, aqueles que creem (cf. Rm 8.29-30).

 

VII

 

Ora, com isso se compreender os tópicos da Graça Comum, isto é, os lugares comuns da Graça Comum; na verdade, cada perspectiva elencada tem seu lugar nos lugares comuns desta doutrina tão maravilhosa; infelizmente não se explorou todos estes lugares comuns, mas com certeza, os que aqui foram evocados certamente dão suporte para um debate sobre este assunto na esfera teórica.

Desde a questão da Graça Comum e seu relacionamento com a doutrina da vida cristã, no seu relacionamento com a ética cristã até as perspectivas da Graça Comum em relação com a salvação, com o senhorio de Cristo, a existência do povo de Deus, na Antiga e na Nova Aliança e sua relação com as instituições humanas, e também na explicação do sendo religioso presente no ser humano, e demonstrado em sua religiosidade idólatra, tem-se os lugares comuns da doutrina da Graça Comum, entendidos e compreendidos através de vários aspectos, desde as manifestações religiosas do homem natural (idolatria) até o desenvolvimento de aspectos necessários para a vida humana, como a ciência e a filosofia.

Todos estes aspectos são de suma importância ao se elencar a questão da Graça Comum; e existem muitos outros que não foram elencados aqui, mas que certamente devem e serão trabalhados em outros escritos, obviamente formando uma compreensão mais apurada a este respeito; no entanto, como estrutura de elucubração inicial, estes tópicos são essenciais para se começar a compreensão a respeito do assunto.

No mais, que a doutrina da Graça Comum eleve o nosso coração em gratidão ao Senhor, por Sua tão maravilhosa Graça, concedida gloriosamente em Cristo Jesus, nosso Senhor.

Laudate Deo



[1] Abraham Kuyper, Sabedoria e Prodígios: Graça Comum na Ciência e na Arte [1° edição. Brasília, DF: Monergismo, 2018], pág. 37-38.

[2] Rui Barbosa, Discursos no Instituto dos Advogados Brasileiros - Discurso no Colégio Anchieta [São Paulo: Martin Claret, 2010], pág. 151.

[3] Eric Voegelin, The Collected Works of Eric Voegelin Volume 14: Order and History Volume I - Israel and Revelation [Columbia: University of Missouri Press, 2001], pág. 177-178.

[4] Aqui isto se refere a questão hebraica enquanto povo da revelação no Antigo Testamento; pois, a pressuposição aqui refere-se ao Israel antigo e não ao Estado de Israel moderno. Refere-se a cultura hebraica antes de Cristo e não ao sionismo.

[5] Friedrich Schleiermacher, The Christian Faith in Outline [Edimburgo: W. F. Henderson Publisher, 1922], pág. 37.

[6] Abraham Kuyper, De Gemeene Gratie Tweede Deel: Het Leerstellig Gedeelte [4° edição. Kampen: J. H. Kok, 1939], pág. 683.

[7] cf. Luiz Antonio Rolim, Instituições de Direito Romano [2° edição. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2003], pág. 45-46.

[8] Herman Bavinck, Teologia Sistemática [Santa Bárbara d'Oeste, SP: SOCEP, 2001], pág. 39-40.

[9] Kuyper, Op. Cit., pág. 199. 


18/02/2021

Cristianismo e Graça Comum

I

 

Uma questão que, de certa forma, suscitou debates e mais debates em relação a teologia foi a respeito da relação entre o cristianismo e a graça comum.

No entanto, a graça comum para o cristianismo é uma doutrina fundamental, principalmente no que diz respeito as operações divinas no mundo; mas, nem sempre as formas, o conteúdo e as explanações da doutrina estão límpidas e harmoniosas tal como devem ser; por isso, tem-se tanta confusão a respeito deste assunto.

Para clarificar esta questão, propomo-nos a analisar a questão sob alguns prismas, os quais são: a questão de um ponto de contato nas Escrituras, a questão do resgate do lugar e da importância da doutrina da Graça Comum para o cristianismo, a questão do entendimento das manifestações da Graça Comum no mundo como um todo, a questão da salvação e sua relação com a Graça Comum, e a questão do senhorio de Cristo e sua relação com a Graça Comum.

 

II

 

Para começarmos a entender a relação entre cristianismo e graça comum, temos de voltar brevemente ao período apostólico; elencar-se-á um exemplo, o discurso do Apóstolo no Areópago, que situa-nos muito bem nesta questão; o Apóstolo faz um discurso explicando aos filósofos ali presentes sobre o “Deus Desconhecido”: “Nem tampouco é servido por mãos de homens, como que necessitando de alguma coisa; pois ele mesmo é quem dá a todos a vida, a respiração e todas as coisas; e de um só fez toda a geração dos homens para habitar sobre toda a face da terra, determinando os tempos já dantes ordenados e os limites da sua habitação, para que buscassem ao Senhor, se, porventura, tateando, o pudessem achar, ainda que não está longe de cada um de nós; porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos, como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois somos também sua geração” (At 17.25-28).

O discurso do Apóstolo é um monumental exemplo de como se deve tratar essa questão. O Apóstolo diz que o Deus que aqueles homens no Areópago chamavam de “Desconhecido”, era o Criador de todas as coisas, o Deus verdadeiro; e isto é algo interessante, isto é, o Apóstolo encontrou um “ponto de contato” na filosofia grega para falar do Deus verdadeiro, como também o encontrou na poesia: “como também disseram alguns de vossos poetas”.

Este “ponto de contato” fora ampliado por alguns teólogos posteriores na tentativa de entender a filosofia de forma geral, e a cultura grega como um todo, e sua contribuição para a fé cristã, como por exemplo, fizeram São Justino Mártir, São Clemente de Alexandria e outros; assim, figurou na patrística a tentativa de entender como era essa relação de filosofia grega e teologia cristã, das contribuições do saber grego para a reflexão teológica.

No decorrer dos tempos, houveram outros teólogos que trabalharam a questão; na escolástica medieval houve a síntese com o pensamento aristotélico, o qual grandemente contribuiu para a estrutura granítica, límpida, harmoniosa e estupenda das Summaes; Santo Tomás Aquino é o maior exemplo deste tipo de síntese.

 

III

 

O polímata holandês Abraham Kuyper diz que houve um “longo esquecimento” da doutrina da graça comum; e nisso está totalmente certo; Kuyper assevera: “... era necessário, portanto, que séria e precisamente o antigo dogma da graça comum fosse removido do pó das eras e colocado diante de nós em clara luz. Aquele que se fecha no círculo de sua instituição eclesiástica fica satisfeito com o estudo da graça particular; mas quem recebeu a vocação de atuar também no campo científico, cívico e pedagógico, deve orientar-se também no campo que está além da instituição das igrejas, e esse mesmo campo permanece além do horizonte de nossa fé, a menos que cheguemos seriamente a termos com aquela maravilhosa doutrina da graça comum, que nos explica o regimento de Deus na vida extra-eclesiástica[1].

A Graça Comum é o elemento que ajuda aqueles que tem vocação extra-eclesial, isto é, aqueles que atuam no mundo, sejam nas ciências, nas artes, na política, no ensino, e para estes, a Graça Comum funciona como um elemento ordenador e unificador para que entendam a realidade a partir das Escrituras, e assim a aplicação da Graça Comum a cada esfera da vida comum funciona como este elemento que unifica suas crenças como cristãos e suas atividades nas mais diversas esferas da vida.

Ainda, o resgate da Graça Comum do “pó das eras” também funciona como um propulsor no resgate de um dogma de suma importância para a Igreja; tende-se a se valorizar somente a questão da graça particular, da salvação, e isto, porque muito em sua vocação única em relação a Igreja, não conheciam a questão da graça comum, ou não se interessam para ajudar nas questões envolvendo este mundo e ação cristã. No entanto, o resgate da Graça Comum é de vital importância, e mesmo àqueles que não tenham vocação pública secular é necessário que também ensinem todo conselho de Deus, de maneira eficaz e eficiente.

Entretanto, este resgate não é algo muito simples, apesar da latente necessidade; assim, pensa-se no resgate do baú do tempo deste dogma essencialmente cristão, mas, no entanto, a figuração desta doutrina ainda enfrenta sérias dificuldades em relação a aceitação e entendimento por parte de muitos na Igreja.

Isto provém devido a um entendimento obscurecido a respeito da Criação; os cristãos sabem e confessam que Deus criou todas as coisas do nada, que Ele mesmo sustenta sua criação pela sua palavra criadora (cf. Jo 1.1-3; Hb 1.3); também sabem da corrupção do pecado, e de suas consequências nefastas, porém, não entendem a maneira como as Escrituras denotam a questão de que Deus preserva ainda as coisas da corrupção total pela sua Graça, que preserva e conserva na humanidade coisas boas, as quais ainda que não sirvam para a salvação, no entanto, em relação as atividades humanas são essenciais.

Se não fora esta obra de preservação pela Graça divina para com a Criação, o mundo a muito já estaria num caos interminável. Por isso, o filósofo holandês Herman Dooyeweerd diz: “Pela Palavra criadora, por meio da qual todas as coisas foram feitas e que se fez carne como Redentor, Deus também sustenta o mundo caído pela 'graça comum', ou seja, a graça dada à comunidade da humanidade como um todo, sem distinção entre pessoas regeneradas e apóstatas. Porque também o homem redimido, em sua natureza pecaminosa, continua a ser parte da humanidade caída. Por meio da graça comum, a difusão do pecado é restringida e a demonização universal da humanidade caída é refreada, de modo que centelhas da luz do poder, da bondade, da verdade, da justiça e da beleza de Deus ainda brilham mesmo em culturas conduzidas pela apostasia[2].

IV

 

Ora, basta olhar para a história das religiões e observar quanta coisa elas construíram em algumas culturas e que permanecem até hoje com o sensus aestheticus, com o sensus religare, e o sensus relere; todas as religiões procuram dar uma resposta a estes dois sensos: o de religar e o de reler. Dois sensos que trabalham juntos no coração humano, já que este é o órgão da religião: religar para poder reler, reler para poder religar.

Rudolf Bultmann fala sobre uma espécie de conexão existente entre a fé cristã, enquanto religião, e as religiões em geral; Bultmann afirma: “No caso de se entender a fé cristã como fenômeno da religião em geral e, segundo a sua conceituação cristã, como o fenômeno religioso supremo, e se além disso se entender ainda a religião como fenômeno do espírito humano, fica naturalmente subentendido por si mesmo que existe uma concatenação contínua entre a religião cristã e as religiões não-cristãs. A observação histórico-religiosa parece confirmar esse parecer, pois sem dúvida alguma pode-se encarar as religiões pagãs como estágios preliminares ou fenômenos paralelos à religião cristã; poder-se-á afirmar ainda que nesta alcançou seu desenvolvimento pleno aquilo que naquelas está presente apenas de forma embrionária, ou que neste veio a se consumar aquilo que naquelas, por causa de algum descaminho, atingiu forma distorcida ou menos perfeita[3].

Por exemplo, a China, uma cultura milenar, que se mantém através dos tempos com os mesmos princípios, os quais, quando analisados no fundo, se observa algo em comum com os princípios que conduziram a sociedade ocidental, conquanto o motivo religioso chinês (ou o de qualquer outra religião oriental) seja totalmente oposto ao cristianismo.

Outrossim, o Dr. Albert Schweitzer dissera algo interessante sobre o pensamento e a cultura indiana; ele elenca que o pensamento indiano, em toda a sua grandeza e extensão, difere do pensamento do Ocidente, devido a questão de sua cosmovisão ser diferente; Schweitzer diz: “Sabemos muito pouco sobre qualquer pensamento exceto o nosso, especialmente sobre o pensamento indiano. A razão pela qual é tão difícil familiarizar-se com isso é que o pensamento indiano, em sua própria natureza, é totalmente diferente do nosso próprio, em grande parte devido ao que a ideia de mundo e negação da vida desempenha nele. Ao passo que nossa visão de mundo europeia moderna, como a de Zaratustra e dos pensadores chineses, é, em princípio, uma afirmação do mundo e da vida. A afirmação do mundo e da vida consiste nisto: que o homem considera a existência como ele a experimenta em si mesmo e como ela se desenvolveu no mundo como algo de valor per se e, portanto, se esforça para deixá-la atingir a perfeição em si mesmo, enquanto dentro de sua própria esfera de influência ele se esforça para preservá-lo e promovê-lo. A negação do mundo e da vida, por outro lado, consiste em considerar a existência como ele a experimenta em si mesmo e como ela é desenvolvida no mundo como algo sem sentido e doloroso, e ele resolve de acordo (1) paralisar a vida em si mesmo mortificando sua vontade de viver, e (2) renunciar a todas as atividades que visam a melhoria das condições de vida neste mundo[4].

O grandioso, profundo e sempre atual estudo do Dr. Schweitzer nos mostra algo interessante, a saber: a estrutura interna do pensamento indiano e seu caráter de antítese totalmente enraizado no que o bom doutor chama de “negação do mundo e da vida”; é uma espécie de misticismo indiano, que demonstra que a vida é, para o pensamento indiano, algo extremamente doloroso, algo que não vale a pena; deste princípio no pensamento indiano surge a questão das castas, e muitas outras coisas.

No entanto, ainda não seja nosso objetivo analisar a questão do pensamento indiano em profundidade, a questão que o bom doutor trabalha, ajuda-nos muito a compreender a antítese do pensamento indiano, onde, devido a questão da formação religiosa indiana, com raízes no antigo xamanismo, é um exemplo apodítico de uma cultura que se edificou em oposição ao que se entende por graça comum.

Aí surge o questionamento: como eles poderiam edificar o pensamento em relação a graça comum, se naquela época nem existia o conceito? Simples, uma raiz da graça comum nas culturas ao longo da história é vista pela questão da afirmação do mundo e da vida; quando não, a rejeição da lei natural foi tão profunda que gerou uma rejeição do mundo e da vida; entretanto, mesmo assim, ainda existe ali a questão da Graça Comum, no entanto, muito obnubilada pela forma como se encara a realidade.

O Dr. Schweitzer também fala que o princípio de negação do mundo e da vida também se conflui na recusa e na renúncia a todas as atividades que visam a melhoria das condições de vida neste mundo; se há esta rejeição no campo prático da própria ação humana, logo, não há possibilidade de se ter uma doutrina que fale sobre esta questão; agora observe a situação, em algumas áreas do cristianismo ocorre a mesma rejeição, nos mesmos princípios do pensamento indiano; o que é uma lástima, mas é justamente por isso que se faz necessário resgatar o dogma da graça comum do “pó das eras”.  

 

V

 

Analisemos, pois, a questão das manifestações da graça comum; ainda se pode observá-la na edificação literária dos povos; grandes obras foram talhadas; entre os gregos a obra de Homero, um grande monumento da inteligência humana: uma poesia incomparável; entre os romanos, basta lembrar de Virgílio, o grande poeta ocidental; e muitos outros exemplos: Dante, Camões, Cervantes, Shakespeare, Milton, Vieira, Dickens, Dostoiévski, Machado, etc.

Isto é um reflexo da graça comum, bem como a filosofia grega, o direito romano, ou ainda a filosofia árabe, e similares; e isto, porque Deus, pela sua Palavra criadora sustenta todas as coisas; agora, imagina se não houvessem leis que freassem as situações adversas do meio social, imagina se não houvesse o direito para estabelecer as normas naturais e positivas para a formação de um Estado de Direito; quanto a isso, basta observar a ordem social indiana, uma estrutura da negação do mundo e da vida, a qual é totalmente desordenada.

Por isso, Dooyeweerd assevera: “Por meio da graça comum, Deus, em primeiro lugar, sustenta as ordenanças de sua criação e por meio delas mantém a ‘natureza humana’. Essas ordenanças são as mesmas para cristãos e não cristãos. A graça comum de Deus é evidente no fato de que, mesmo o mais ímpio governante deve, continuamente, inclinar-se e capitular diante dos decretos de Deus se quiser que os resultados positivos de suas obras sejam duradouros. Mas, sempre que essas ordenanças, diversificadas no tempo, não sejam compreendidas a aceitas à luz de sua raiz religiosa (o mandamento religioso de amor, de serviço a Deus e ao próximo), uma capitulação ou sujeição a elas permanecerá como algo meramente incidental ou fragmentário. É por isso que a cultura apóstata sempre revela uma desarmonia, proveniente de uma atitude idólatra, que torna absolutos certos aspectos da criação de Deus à custa de outros aspectos igualmente essenciais[5].

A questão vai desde a preservação da natureza humana em sua forma única, isto é, nas características que o definem como ser humano, ainda que distante de Deus: é isso que diz o filósofo quando fala em manter a “natureza humana”, isto é, as características essenciais do ser humano em seu corpo, alma e espírito.

Outra coisa dita é sobre a graça comum que opera nos governantes; é a verdade, a qual diz o profeta Daniel: “ele remove os reis e estabelece os reis” (cf. Dn 2.21b); também, a sabedoria bíblica adverte que pela sabedoria divina é que os reis governam: “Por mim governam os reis, e os príncipes ordenam justiça” (Pv 8.15).

A sabedoria bíblica também exclama sobre a forma como o Senhor conduz os reis e os governantes deste mundo: “Como ribeiros de águas, assim é o coração do rei na mão do SENHOR; a tudo quando quer o inclina” (Pv 21.1). O Senhor inclina o coração dos governantes, seja através de sua vontade soberana, seja através de vontade permissiva, seja através dos elementos da graça comum; pois quando o rei se ensoberbece contra as ordenanças divinas, ocorre aquilo que o filósofo holandês dissera: então a sujeição e o respeito do povo serão apenas algo fragmentado e pueril, e, logo, o principado, o governo, o reinado se tornará algo imperito, ineficiente, corrompível e corruptível, e assim, não honrará a Deus nem a sua Palavra e não servirá para o bem do povo. 

Assim, compreende-se que a graça comum não tira a completa diferença entre os princípios bíblicos e os princípios pagãos; na verdade, torna-os mais límpidos, principalmente na esfera extra-eclesial; Dooyeweerd afirma: “Em tudo isso, é imperativo entender que a ‘graça comum’ não enfraquece nem elimina a antítese (oposição) entre o motivo básico da religião cristã e os motivos básicos apóstatas. A graça comum, de fato, só pode ser entendida sobre a base da antítese. Teve início com a promessa feita no paraíso de que Deus poria inimizade entre a semente da serpente e a semente da mulher, da qual Cristo haveria de nascer. A raiz religiosa da graça comum é Jesus Cristo, o Rei, sem o qual Deus não olharia para sua criação caída com graça[6].

 

VI

 

A graça comum além de ser um dogma importantíssimo do cristianismo também contribui para que a vivência da Igreja neste mundo seja feita com prudência e equilíbrio, para não cair numa espécie de misticismo oriental que, como no pensamento indiano, estabelece para si a negação do mundo e da vida. Notadamente, a fé cristã é diametralmente oposta a esta perspectiva de negação do mundo e da vida, conforme aparece no pensamento indiano, que, por mais incrível que pareça, está se formando em muitos locais do mundo ocidental. 

Herman Bavinck fala sobre a importância do cristianismo, que as pessoas percebem sua importância a medida que se desvinculam dos ídolos da época: “Quem se liberta dos ídolos da época, da opinião pública, dos preconceitos dominantes na ciência e na escola; quem olha para si mesmo, sóbrio e vigilante, e que assume o mundo e o homem, a natureza e a história, como eles realmente o fazem, a convicção é sempre mais fortemente imposta a si mesmo de que o cristianismo é a única religião cuja contemplação do mundo e da vida se ajusta ao mundo e à vida[7].

O cristianismo é a única religião que em sua contemplação do mundo e da vida oferece respostas satisfatórias e necessárias a estas questões. Por isso, o cristianismo é a única religião que se ajusta ao mundo e à vida, não porque se ajusta no sentido de se submeter, mas se ajusta no sentido se ser a única cosmovisão que demonstra o todo como ele é, e as partes como elas são.

Assim, é um fato inegável que a graça comum é um elemento presente na história da humanidade, e como o cristianismo também faz parte desta história, logo, sua importância como coluna e firmeza da verdade (cf. 1Tm 3.15) para guardar a verdade.

Dooyeweerd afirma: “A revelação da graça comum de Deus, apresentada à sua criação caída como uma totalidade ainda integral, protege a cristandade bíblica do orgulho sectário que leva um cristão a fugir do mundo e a rejeitar, sem motivo, tudo o que surge na cultura ocidental, além da imediata influência da religião. Lampejos da glória original da criação de Deus brilharão em todas as fases da cultura, em maior ou menor grau, mesmo que o desenvolvimento humano tenha ocorrido sob a orientação de poderes espirituais apóstatas. A humanidade não pode negar esse fato sem ser acusada de grande ingratidão[8].

A história, bem como a cultura caminham sob a égide do comando divino, sob a atuação da Graça Comum; este é o princípio fundamental da filosofia cristã da história, bem como o ponto de partida para a investigação a respeito do conteúdo e da formação da história como um todo organizado e sistemático.

E esta questão se sobreleva no entendimento de que “a graça comum...  coloca todo o curso da cultura humana em seu campo de visão. Ele afirma que a graça comum é, em grande medida, responsável por fazer da história como um todo o que foi, é e continuará sendo[9].

A questão é por demais complexa e requer uma série exaustiva de explicações, no entanto, para clarificar brevemente a questão, esta sentença acima evocada é uma chave hermenêutica no entendimento sobre graça comum; e uma chave, porque, se todo o desenvolvimento da história o é desta forma, devido a operação da graça comum, logo, só há a possibilidade de se entender a história, quando se entende a graça comum; por isso, a graça comum é uma parte integrante da filosofia cristã da história.

Assim, o cristianismo enquanto coluna e firmeza da verdade, assim como uma religião histórica, também é fonte para que a doutrina da Graça Comum seja preservada; desta forma, cristianismo e graça comum se interligam tanto por causa desta ser uma doutrina fundamental, bem como por causa da mesma ser um elemento fundamental para que o cristão interprete a história, e ainda, por causa da validade desta se formar como uma fonte para elucubração sobre como a Igreja e o cristão devem agir no mundo nas mais diversas esferas da vida humana: da família ao trabalho, da Igreja ao estado, da universidade ao seminário, da catedral a humildade capela, da religião a ciência, do homem de estudos ao simples camponês, da mansão a palafita, da filosofia a teologia, etc.

 

VII

 

A questão a respeito da Graça Comum só é entendida cabalmente quando se entende seu lugar em relação a graça particular, isto é, em relação a Salvação. Assim, salvação e graça comum se confluem num mesmo patamar doutrinário, pois são manifestações da graça de Deus, esta uma graça irradiada a todos os homens, os daquela, uma graça particular, irradiada aos eleitos para a salvação eterna.

Há uma expressão do salmista que muito se eleva devido a sua simplicidade tanto quando por sua profundidade; é quando ele fala sobre as benignidades do Senhor para com seu povo, e dentre estas, ele fala sobre a maior destas, a saber: a salvação, a redenção; o salmista diz: “É ele que perdoa todas as tuas iniquidades e sara todas as tuas enfermidades; quem redime a tua vida da perdição e te coroa de benignidade e de misericórdia” (Sl 103.3-4).

A questão sobre a salvação deve ser demonstrada em seus termos bíblicos, a saber: como uma obra divina; somos salvos, e somo-lo por causa da atuação divina; não é por obras, mas pela fé, mediante a graça; o Apóstolo diz: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isso não vem de vós; é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2.8-9).

E Deus ao salvar é soberano, Ele é totalmente livre para salvar quem quer; o profeta Isaias pronuncia que o Senhor é o Salvador: “Porque eu sou o Senhor, teu Deus, o Santo de Israel, o teu Salvador; dei o Egito por teu resgate, a Etiópia e Sebá, por ti” (Is 43.14); e ainda nas palavras do próprio Senhor: “Olhai para mim e sereis salvos, vós, todos os termos da terra; porque eu sou Deus, e não há outro” (Is 45.22), e também: “Faço chegar a minha justiça, e não estará ao longe, e a minha salvação não tardará; mas estabelecerei em Sião a salvação e em Israel, a minha glória” (Is 46.13).

E, a partir destes aspectos, chega-se a algumas conclusões:

Primeiro, se a doutrina da liberdade soberana de Deus, na qual Ele escolhe quem quer, é um pilar da fé.

Segundo, se o Redentor é o próprio Senhor, logo, é Ele mesmo quem dá vida a Igreja tenha vida.  

Terceiro, se o Redentor é quem anuncia a Salvação, e conclama aos homens que se voltem a Ele, e olhem para Ele, logo, a própria conceituação da salvação é a partir da obra divina.

Quarto, se a graça salvífica é obra divina, logo, a graça comum também o é, já que ambas estão interligadas, e que Deus somente olha com graça para com sua criação, devido a morte de Seu Filho, o qual estava morto antes da fundação do mundo (cf. Ap 13.8); assim, a graça comum é uma obra divina, a qual o Criador concede aos homens a capacidade de entender seu pensamento imbuído na Criação, e isto devido a Redenção.

Por isso, Bavinck assevera: “É a graça comum que torna possível a Graça especial, prepara o caminho para ela, e depois lhe dá o suporte; e a Graça especial por sua vez, ergue a graça comum ao seu próprio nível e coloca-a a seu serviço. Ambas as revelações têm como proposito a conservação da raça humana; a primeira sustentando-a e a segunda redimindo-a; e desta forma as duas cumprem a sua finalidade, que é glorificar todas as excelências de Deus[10].

 

VIII

 

Outra questão que se sobressai a respeito da graça comum e o cristianismo é sobre o senhorio de Cristo; Cristo é soberano sobre todas as coisas (cf. Fp 2.9-11), e sua soberania observa-se tanto na Igreja quanto no mundo, apesar de que no mundo nem sempre consegue se observar isto com clareza, conquanto seja uma realidade inegável. Por isso, o Senhor Jesus afirmara: “Outra parábola lhes disse: O Reino dos céus é semelhante ao fermento que uma mulher toma e introduz em três medidas de farinha, até que tudo esteja levedado” (Mt 13.33).

Por isso, Kuyper afirma: “Em primeiro lugar, na natureza, porque todos os poderes que Deus cria neste mundo como o Criador gradualmente chegam à plenitude. Em segundo lugar, a ação do pecado, que ataca a ordem de Deus. Terceiro, a ação da Graça Comum nas vidas de todas as nações. E em quarto lugar, procedendo da ação de Cristo, que sempre significa a manifestação do reino dos céus e abrange todo o campo de nossa vida humana. A ação da natureza continuou por todas essas idades e, nos últimos séculos, levou a revelações que mudaram completamente a face deste mundo. A ação do pecado não cessou em todas aquelas eras, para suscitar nova justiça e enganar as nações. E da mesma forma a ação da Graça Comum não cessou de trabalhar contra essa injustiça, em parte para detê-la e tornar possível uma vida humana fecunda sob o Governo dado por Deus nos Estados que se tornaram históricos. Agora tudo isso aconteceu, e essa tríplice ação funcionou incansavelmente, cada uma de seu próprio princípio e em virtude de sua própria ordem, e o complexo desse tríplice ação está diante de nós no curso histórico desses dezenove séculos[11].

A questão proposta é um todo bem explicado, sobre o desenrolar da história, a da sagrada e a da profana, que andando juntamente, tem seus governos controlados pelo mesmo Senhor, a saber, Cristo, conquanto, na Igreja seja um governo pessoal e absoluto, e no mundo, um governo permissivo, isto é, na Igreja Cristo governa como o cabeça de um corpo, que é o seu próprio corpo, o qual, tem seus membros, e esses membros são chamados pelo próprio Cristo de irmãos (cf. Hb 2.11), e no mundo, que também é um corpo, mas o corpo da humanidade, onde os homens todos são membros do corpo da humanidade, e assim, estão todos sob o olhar atento do Rei dos Reis; outra questão é a diferença de relacionamento, enquanto todos estão sob a autoridade de Cristo, somente os da Igreja, isto é, aqueles que creem em seu nome, estão sob seus cuidados singulares, e com sua presença eterna.

De fato, a história é o palco dos grandes feitos de Deus, seja em seu povo, seja nas nações; o salmista declara: “O SENHOR tem estabelecido seu trono nos céus, e o seu reino domina sobre tudo” (Sl 103.19). O próprio Senhor declara ao seu povo: “Atendei-me, povo meu e nação minha! Inclinai os ouvidos para mim, porque de mim sairá a lei, e o meu juízo se estabelecerá como luz dos povos” (Is 51.4).

Desta forma, sendo que provém do próprio Senhor a luz dos povos, bem como o seu reino domina sobre tudo, sabe-se que a manifestação geral do reino de Deus vai dando seus reflexos aos poucos, igual ao fermento que leveda a massa; este é o senso do progresso histórico, bem como a fonte de entendimento que o próprio Senhor, o Salvador, através do estabelecimento de seu Reino, dos princípios e regulamentos deste reino, vai conduzindo a história para seu derradeiro fim, na Consumação.

Por isso, o desenvolvimento histórico é obra da graça de Deus; portanto, “... a graça comum deve ser distinguida. Por um lado, há um efeito isolado da graça comum que, limitado a tempo e lugar, abençoa alguns grupos étnicos, mas que possui apenas um poder limitado de desenvolvimento, e uma vez que o limite desse poder é atingido, ou fica parado ou declina e petrifica. As características dessas operações isoladas de graça comum são: 1°- que é limitado localmente e não se espalha por todo o mundo; 2°- que está temporariamente limitado e tem significado apenas por alguns séculos; e 3°- que depois de um curto período de tempo ela atingiu sua maturidade plena e não pode ir mais longe. E contra isso existe agora uma linha inteiramente diferente de graça comum, que carrega a vida de nossa geração como uma geração e, como tal, avança e avança em nossa vida humana. O fruto desta ação da graça comum é um desenvolvimento humano, que não está vinculado a nenhum grupo de pessoas, mas está destinado a abençoar todas as nações. Um desenvolvimento que não está limitado a um determinado século, mas que continua constantemente no decorrer de todas as épocas. E, finalmente, um desenvolvimento que não está limitado por um certo limite de progresso, mas progride cada vez mais, dando passos gigantescos em cada novo século, não em uma, mas em todas as áreas da vida humana. Ao primeiro tipo de graça comum pertence o que você vê na antiga América, na China, no Japão, na Índia e em parte o que você observa no Islã. O segundo tipo de operação da graça comum, por outro lado, inclui o desenvolvimento humano, que começou na Babilônia e no Egito, então floresceu provisoriamente na Grécia e em Roma, quando foi assumido pelo Cristianismo, e desde então sob os auspícios da Cruz de Cristo já se reproduziu na Europa e na América por dezoito séculos. Em suma, pode-se chamar a primeira de ação especial da graça comum a serviço de certos povos e épocas; a segunda, de ação geral da graça comum a serviço do desenvolvimento de nossa raça humana[12].

Assim sendo, como corolário, pode-se dizer que a graça comum é o meio como Deus concede aos homens a capacidade de entender os pensamentos que inseriu em suas obras; é como se cada aspecto da criação, desde o mais simples até o mais complexo, fosse uma “tese”, uma “resolução” a ser descoberta e estudada, para a glória do próprio Criador, bem como para o bem da humanidade; é isto que dá sentido a existência da ciência, pois sem este princípio a ciência se torna ressequida. E o mesmo se diz da filosofia, das artes e da história como um todo.

E, por fim, que se saiba que este é o propósito de se estudar a graça comum e de verificar as relações básicas e ordenativas entre o cristianismo enquanto religião e a graça comum.

Laudate Deo



[1] Abraham Kuyper, De Geemene Gratie Derde Deel: Het Practish Gedeelte [4° edição. Kampen: J. H. Kok, 1939], pág. 11.

[2] Herman Dooyeweerd, Raízes da Cultura Ocidental: As Opções Pagã, Secular e Cristã [1° edição. São Paulo: Cultural Cristã, 2015], pág. 52-53.

[3] Rudolf Bultmann, Crer e Compreender: Ensaios Selecionados [São Leopoldo, RS: Sinodal, 2001], pág. 218.

[4] Albert Schweitzer, Indian Thought and its Development [Londres: Hodder and Stoughton Limited, 1936], pág. 1-2.

[5] Dooyeweerd, Op. Cit., pág. 53.

[6] Ibidem.

[7] Herman Bavinck, Christelijke Wereidbeschouwing [Kampen: J. H. Bos, 1904], pág. 11.

[8] Dooyeweerd, Op. Cit., pág. 54.

[9] Cornelius Van Til, Graça Comum e o Evangelho [1° edição. São Paulo: Cultura Cristã, 2018], pág. 52.

[10] Herman Bavinck, Teologia Sistemática [Santa Bárbara d'Oeste, SP: SOCEP, 2001], pág. 39-40.

[11] Abraham Kuyper, Pro Rege Derde Deel: Het Koningschap van Christus in Zijn Werking [1° edição. Kampen: J. H. Kok, 1912], pág. 269.

[12] Abraham Kuyper, De Gemeene Gratie Tweede Deel: Het Leerstellig Gedeelte [4° edição. Kampen: J. H. Kok, 1939], pág. 181-182. 


Soneto 9

No tempo da infância, de criança, o aprendizado é tempera à personalidade; por isso, a verdadeira festança é progredir na decência, am...