I
O entendimento sobre a Graça Comum também é um
excelente meio, um axioma apodíctico, para o estudo da cultura; da mesma forma
que a graça especial ou graça salvífica é um ponto doutrinário fundamental da Igreja,
a graça comum é para o estudo das questões extra-eclesiásticas; por isso, a
graça comum é premissa fundamental para o cristão, seja o filósofo, ou qualquer
outra área do saber que o cristão se dedica, para o encontro com o estudo da
cultura, e para tanto, deve se munir com as nuances da graça comum para o
estudo da cultura.
As Escrituras afirmam que Deus é o criador de todas as
coisas (cf. Gn 1.1); a partir deste pressuposto, sabe-se que a soberania de
Deus sobre sua criação é total e absoluta; por isso o salmista diz que do
Senhor é a terra e sua plenitude, o mundo e os que nele habitam (cf. Sl 24.1);
a expressão do salmista aponta duas questões: a primeira, do Senhor é a terra e
sua plenitude, isto é, toda a criação material, tudo o universo físico; a
segunda, do Senhor é o mundo e os que nele habitam, isto é, todo o
desenvolvimento da vida humana, ou em outros termos, a cultura e a história
humana. Tudo pertence ao Senhor. E se tudo pertence a Ele, então, se deve
laborar numa definição para a atividade cristã na esfera cultura; não uma
subserviência para com a cultura pecaminosa (cf. Jr 10.3a), mas um entendimento
da cultura que vise a ação virtuosa e santa na cultura para a glória de Deus e
em benefício das pessoas de bem.
Por isso, se afirma que no amplo escopo do sistema da
verdade cristã, existe uma doutrina que urgentemente precisa ser tornada uma
disciplina do currículo teológico, que ajuda a clarificar esta questão, que é a
doutrina da Graça Comum. Pois, a doutrina da graça comum ajuda aqueles que tem
de exercer suas funções na esfera extra-eclesiástica.
A questão de se ter a graça comum como premissa para o
estudo da cultura evita que se incorra nos excessos da teoria da correlação,
caminho trilhado por Paul Tillich; conquanto o caminho proposto por Tillich deva
sempre ser avaliado, como diz Barth, no entanto, muitas das conclusões de
Tillich podem ferir a ortodoxia doutrinária. No entanto, a perspectiva de
Tillich deve ser salientada: “Se abstrairmos o conceito de religião do
Grande Mandamento, podemos dizer que religião é estar concernido de maneira
última com aquilo que é e deveria ser nossa preocupação última. O cristianismo
reivindica que o Deus que se manifestou em Jesus Cristo é o verdadeiro Deus, o
verdadeiro objeto de uma preocupação última e incondicional [...] A partir
disto segue-se, antes de tudo, que a reivindicação do cristianismo não está
relacionada à Igreja Cristã, mas ao evento sobre o qual a Igreja está baseada
[...] Uma segunda consequência deste conceito de religião, que nós podemos
chamar de existencial, é o desaparecimento da lacuna entre o sagrado e o
profano no campo secular que evoca. Se religião é o estado em que se é tomado
por uma preocupação última, este estado não pode se restringir a um domínio em
especial. O caráter incondicional desta preocupação implica que ela se refere a
todos os momentos de nossa vida, a todos os aspectos e a todas as esferas. O
universo é o santuário de Deus. Todo dia de trabalho é um dia do Senhor, todo
jantar uma ceia do Senhor, todo trabalho o cumprimento de uma tarefa divina,
toda alegria uma alegria em Deus”[1].
A proposta de Tillich de se analisar a filosofia e a
cultura com a teologia deve ser avaliada e analisada em suas nuances e
perspectivas; conquanto, se a reflexão for feita vagamente, as conclusões podem
ferir a ortodoxia da fé; e para se evitar isso, a graça comum deve ser tida
como premissa fundamental no estudo e na análise cultural; o princípio é
apodítico: todas as esferas da vida estão implicadas na preocupação última e
incondicional a respeito do caráter da religião cristã, e, sendo que Cristo é o
Senhor de todos os aspectos da vida humana e de cada esfera do cosmos, sua obra
redentiva deve ser aplicada a cada uma destas esferas; assim, a preocupação
última e incondicional da religião mostra-se em seu caráter único e singular, o
qual se mostra no entendimento e na ruptura entre a esfera secular e a esfera
sacra, muito propugnada pela cristandade que deixa de se manter debaixo da
autoridade bíblica para o julgamento de si mesma.
O conceito de Graça Comum ajuda a dissipar as neblinas
que envolvem estas questões, bem como estabelece a perspectiva correta de como
se enfrentar e entender a vida cultural, a vida pública, como uma vocação de
Deus, para a glória de Deus. De fato, como se observa desde os Pais da Igreja,
as ordenanças de Deus conforme expressas nas Escrituras (revelação) bem como na
Criação (graça comum), devem reestabelecidas para o bem dos indivíduos e da sociedade
como um todo.
Aliás, a própria saúde institucional da Igreja também
está vinculada em a mesma negar ou honrar a Graça Comum[2];
se negar, certamente a Igreja cairá e sucumbirá a sua tarefa de ter uma
teologia de resposta ao mundo, uma teologia objetiva para servir de base aos
cristãos para enfrentarem os problemas atuais; se honrar, certamente a Igreja
também está suscetível a erros e a problemas, mas estes se tornam certamente
mais facilmente entendidos e combatidos, pois há o conhecimento disponível e
necessário para se formular e expor uma teologia sólida que aplique-se a todas
os aspectos da vida extra-eclesial.
Por isso, o polímata holandês, Abraham Kuyper,
asseverara: “[...] era necessário, portanto, que séria e precisamente o
antigo dogma da graça comum fosse removido do pó das eras e colocado diante de
nós em clara luz. Aquele que se fecha no círculo de sua instituição
eclesiástica fica satisfeito com o estudo da graça particular; mas quem recebeu
a vocação de atuar também no campo científico, cívico e pedagógico, deve
orientar-se também no campo que está além da instituição das igrejas, e esse
mesmo campo permanece além do horizonte de nossa fé, a menos que cheguemos seriamente
a termos com aquela maravilhosa doutrina da graça comum, que nos explica o
regimento de Deus na vida extra-eclesiástica. Foi motivado por esta
consideração que assumimos a responsabilidade de elucidar essa doutrina com
algum grau de integridade, pois nesta última série esperamos rastreá-la em sua
aplicação prática. E se há irmãos que pensam conhecer um caminho melhor, eles
não se livram dele atirando em nós de vez em quando, mas então eles têm a
obrigação moral e muito séria de sua parte de apontar uma melhor maneira, e
pleitear tão extensivamente como fizemos, para pleitear diante do tribunal dos
princípios verdadeiramente bíblicos [...] Eles também devem fornecer a
construção de princípios para o relatório agitando a vida dentro e fora das
igrejas instituídas[...]”[3].
II
A doutrina da Graça Comum, ainda é um pouco indigesta
a alguns teólogos e para alguns pensadores cristãos; embora o conceito tenha
sido reelaborado por um autor protestante, a ideia da graça dispensada a todos
os homens, diferente da graça salvadora, é algo que está estabelecido desde os
Padres da Igreja.
No entanto, a maior objeção levantada pelos pensadores
contrários a Graça Comum é que a mesma pode desembocar no universalismo; o
universalismo advoga que todas as pessoas, justos e ímpios, serão salvas no
juízo final; uma heresia mortífera; as Escrituras afirmam que somente aqueles
que creem em Cristo como único e suficiente Senhor e Salvador serão salvos.
Mas, porque se dá esta confusão em relação a doutrina
da Graça Comum? Eis algumas repostas:
Primeiro, por que muitos acham que graça comum é graça
salvífica; graça comum não é graça salvadora; esta distinção é simples e
fundamental; a graça comum, como fora dito, é a graça dispensada a todo o
universo, em todas as esferas da vida, para que a Criação não seja totalmente
corrompida pelo pecado, bem como para preservar a realidade das coisas (cf. Sl
104.30), e prepará-las para a manifestação da graça salvadora em Jesus Cristo. Como
dissera o aquinate, a graça não tolhe, mas aperfeiçoa a natureza (cf. STh Ia,
q. 1, a. 8, ad. 2).
Segundo, porque muitos pensam na graça comum como uma
doutrina que não tem importância; muitos estudiosos e muitos teólogos preterem
a graça comum, por considerar que a mesma não tem importância e que a mesma
fere a fé ortodoxia, por ter sido algo formulado por protestantes; lego engano;
a graça comum ajuda a sublimar a doutrina cristã, e sua estrutura doutrinária
não é obra protestante, embora tenha sido um autor protestante que tenha bem
elaborado sua concepção na teologia moderna; a rejeição a graça comum não passa
de uma ignorância teológica, que no mais das vezes, sempre gera maus frutos nos
arraiais cristãos. A rejeição a graça comum é parte do secularismo que se
assomou a vida eclesial.
Terceiro, porque há quem discorde que Deus possa
conceder uma graça que seja comum; existem estudiosos que não aceitam a
doutrina da graça comum, por elucubrarem que Deus não pode outorgar uma graça
que não seja salvífica, que Deus não dá uma graça comum; novamente um engano;
pois, Deus concede graça e misericórdia para com a sua Criação, dando-lhe
bênçãos diárias, bênçãos não-salvíficas (cf. Sl 104.30; Mt 5.45).
Pois, através a graça comum é que Deus preserva e
sustenta todas as coisas da corrupção total do pecado, e também preserva a
inteligência e alma do ser humano; assim, Ele pode comunicar as bênçãos
salvíficas de Cristo, fundamento e base também da graça comum. Pois, Cristo é a
fonte de todas as graças outorgadas ao cosmos e aos homens.
III
A doutrina da graça comum é muito pouco estudada e
muito pouco valorizada; se bem que nos últimos anos tem surgido um crescente
interesse pelo assunto, sendo publicadas algumas obras, que tratam do assunto,
e mesmo alguns tratados que falam do assunto, ainda que só de relance,
infelizmente em sua grande maioria por autores protestantes.
No entanto, carece-se de um norte para se estudar a
doutrina da graça comum como uma disciplina da enciclopédia teológica. Na
verdade, não se conhece um “currículo” de estudos teológicos (salvo o engano!),
que apresente a doutrina da graça comum como uma disciplina única, do mesmo
modo como se tem, por exemplo, teologia sistemática, história da igreja e
outras matérias. É necessário que se coloque a Graça Comum como tema e
disciplina teológica no âmbito dos estudos teológicos.
Por isso, resolvi fazer também um breve resumo de como
se conduzir ao estudo da graça comum; na verdade, são alguns pressupostos
gerais, a partir da estrutura da “De Geemene Gratie” do Dr. Kuyper, que
são fundamentais para se estudar o assunto, e quem sabe formular uma grade
ensino, para colocar a graça comum no seu devido lugar no currículo do estudo
teológico; pois, hoje em dia se preocupa tanto com questões pueris, que
esquece-se de doutrinas e disciplinas importantíssimas ao estudo teológico.
Dito isso, posso elencar esta série de pressupostos
que clarificam a doutrina da graça comum, bem como servem de símbolos e signos
para o desenvolvimento mais profundo e exaustivo desta questão; são
pressupostos elencados a partir dos dois primeiros volumes da obra do Dr.
Kuyper, que são respectivamente, os volumes histórico e doutrinário; o terceiro
volume, é o volume das questões práticas; como sobre esta questão já se fala
muito, e tem-se já um número considerável de obras, não vou me pronunciar a
respeito neste escrito.
Com isso, segue trinta tópicos, os quais servem de
embasamento para todo aquele que busca estudar e compreender a questão sobre a
graça comum; ei-los:
1- O ponto de partida da doutrina.
2- O lugar do pacto noético.
3- Sobre a corrupção do Pecado antes de Noé.
4- A questão sobre a instituição da morte.
5- Da queda até o dilúvio.
6- A instituições primitivas do mundo antes do
Dilúvio.
7- O Dilúvio.
8- As instituições humanas após o Dilúvio.
9- Sobre a corrupção do Pecado após o Dilúvio.
10- O surgimento de um Novo Estado.
11- A construção da torre de Babel.
12- O chamado de Abrão.
13- Israel para as nações.
14- Jeová e as Nações.
15- O Messias e Israel.
16- A Luz na Escuridão.
17- As centelhas no mundo pagão.
18- Um problema a ser resolvido.
19- A graça comum baseada na criação.
20- A graça comum e a predestinação.
21- Jesus e a Preparação do Mundo.
22- A plenitude dos tempos.
23- A Igreja como instituição e como organismo.
24- A graça comum na santificação.
25- Enxertando a árvore selvagem.
26- O bem moral dos não regenerados.
27- A graça comum e ordem de Providência de Deus.
28- O conselho de Deus.
29- Transcendência e Imanência.
30- Providência e Criação.
O estudo e a comparação destes trinta tópicos tanto
com o aspecto doutrinário da graça comum, quanto com a filosofia da história
cristã, tem muito a contribuir com a formação de uma visão de mundo
genuinamente cristã, e assim servir como normativa para a estrutura da
enciclopédia teológica como um todo.
Laudate Deo!
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