12/02/2023

A intersecção entre fé, ciência e cultura no séc. XXI

I

 

A relação entre fé, ciência e cultura ao se adentrar os quarteirões do século XXI, traz uma série de questões que ainda não foram analisadas; questões essas que, as mais das vezes, se apresentam aos cristãos de uma maneira quase que oceânica; no entanto, esta gama de questões, só podem ser evidenciadas a partir de uma perspectiva cristã, sob os princípios da cosmovisão cristã; e não somente a partir dos princípios da cosmovisão, mas principalmente a partir de uma teologia da cultura; pois, a teologia da cultura é a necessidade primordial e fundamental, a necessidade primeira, para a correta intersecção entre fé, ciência e cultura no século XXI, e para o decorrer dos tempos e das épocas.

A noção de teologia da cultura é a de uma teologia que explique a cultura, de uma teologia que tenha por expressão explicar e entender a cultura a partir do conhecimento sobre as coisas divinas; a teologia da cultura não é a redução da cultura ao sistema teológico, mas a explicação da cultura a partir da perspectiva teológica - a única maneira verdadeiramente englobante e frutífera de se entender a cultura; na verdade, a cultura só é corretamente explicada a partir do princípio teológico; pois, a cultura, em primeira e última instância, tem uma raiz teológica, já que, o ator cultural, o ser humano, é um ser religioso em sua essência, e, por isso também é um ser cultural. O antecedente prova o consequente: se o homem é um ser religioso e um ser cultural, então, a cultura, como expressão da ação humana, possui imbuída em si uma raiz religiosa, uma raiz teológica.

Portanto, todo ato cultural, é um ato crente; por isso, todo ato cultural é um ato de fé. Paul Tillich assevera: “A fé é a orientação em direção ao Incondicional na ação teórica e na prática. O Incondicional enquanto tal, porém, nunca pode ser um objeto, senão só o símbolo no qual se intui e significa o Incondicional. A fé é a orientação em direção ao Incondicional mediante símbolos extraídos da ordem condicionada. Todo ato de fé, portanto, possui um dublo significado. Se dirige de maneira imediata em direção a um objeto sagrado. Mas não significa, porém, este objeto, senão o Incondicional, que se expressa de maneira simbólica. A fé chega mais além do imediatismo de todas as coisas, alcançado o fundamento e o abismo de qual todas as coisas dependem. Em contraste com a fé temos a atitude incrédula. Sua essência não é que não chegue a reconhecer ou realizar algo de caráter objetivo; sua essência é que detém nas atualidades, ou seja, nos objetivos em seu imediatismo, em suas formas condicionadas, sem aprofundar seu fundamento constitutivo do significado. A incredulidade, portanto, é sinal da típica atitude autônoma da cultura; mas o é somente quanto a intenção. Na realidade, todo ato cultural criativo é também um ato crente; nele está o significado do Incondicional. De outro modo, em última análise careceria de significado[1].

Assim, a partir desta asseveração de Tillich, se estabelece com certeza singular que todo ato cultural é um ato crente, pois, neste ato cultural, como em todo ato cultural, está o significado do Incondicional, e por isso é um ato crente; do contrário, o ato cultural careceria de significado, e assim, não seria um ato cultural; todo ato cultural é um ato com significado, significado esse delineado por este Incondicional.

E é interessante o falar sobre este significado, pois, o ato cultural, em si, é a busca pelo significado na expressão cultural; e a própria busca pelo significado em si tem uma raiz teológica; pois, a busca pelo significado é a busca que procura responder as perguntas fundamentais da razão humana, a saber: “donde vim? Por que estou aqui? Para onde vou?”; esta tríplice indagação constitui-se o mote singular que é expresso pela busca de significado que o ser humano evidencia em sua atividade como um ser cultural.

 

II

 

Deste modo, falar sobre a teologia da cultura é imprescindível para o entendimento das relações e das intersecções entre a fé, a ciência e a própria cultura, já que todo ato com significado, em primeira e última instância, reclama para si uma pressuposição teológica; e se reclama esta pressuposição também reclama uma explicação; e assim, somente a partir de uma teologia da cultura é que se pode entender a estrutura singular que constitui o ato cultural, bem como a natureza peculiar a qual flui do ato cultural.

Neste interim, surge a questão: como se estabelecer uma teologia da cultura? A resposta a está questão se dá em duas formulações gerais: (i) a primeira, pelo entendimento da relação entre teologia e cultura; (ii) a segunda, pelo entendimento dos fundamentos da ordem social. Analisar-se-á, portanto, estas duas formulações gerais:

1. [i] A primeira formulação, pelo entendimento da relação entre teologia e cultura. Esta primeira formulação é de fundamental importância, pois a partir desta se estabelece o princípio para o entendimento de uma teologia da cultura que se estabelece a partir da relação entre a teologia e a cultura. Assim, pode-se falar que teologia se relaciona com a cultura de dois modos principais:

a. Primeiro, devido a que a cultura ser obra causada pela Criação de Deus, e pela criação do homem a imago Dei e a instituição do mandato cultural; portanto, em primeira instância, a cultura tem a raiz teológica; por isso, cultura e religião estão intimamente interligadas; donde a afirmação de Tillich ser deveras certeira: “A religião, no sentido básico e mais abrangente da palavra, é ‘preocupação suprema’ [ultimate concern], manifesta em todas as funções criativas do espírito bem como na esfera moral na qualidade de seriedade incondicional que essa esfera exige[2].

Esta “preocupação suprema”, como é expressa em todas as funções criativas do espírito, é clarividente que, em todo ato cultural com significado, estará fundamentada em uma preocupação com este Incondicional; preocupação essa, a qual também foi expressa na singularíssima por Schleiermacher com as seguintes palavras: “A religião foi o corpo material, em cuja sagrada obscuridade se alimentou minha vida juvenil e se preparou para o mundo, que todavia constituía para ela uma realidade não decifrada; na religião tem respirado meu espírito, antes mesmo que ele houvesse encontrado seus objetos externos, a experiência e a ciência; ela me ajudou quando comecei a examinar a fé paterna e a purificar o coração dos desejos do passado; ela permaneceu em pé para mim quando Deus e a imortalidade se enfumaçaram ante os olhos vacilantes; ela me conduziu à vida ativa; ela me tem ensinado a manter-me a mim mesmo como algo sagrado, com minhas virtudes e meus defeitos, em minha existência indivisa, e só mediante a ela tenho realizado a aprendizagem da amizade e do amor[3].

Esta sentença de Schleiermacher sobre a religião, não somente denota a importância da religião, mas clarifica o entendimento daquilo que o movia profundamente; no caso, o princípio religioso o levou a análise do Incondicional na cultura, e vice-versa.

Por isso, essa preocupação suprema, manifesta em todas as funções criativas do espírito, é o que constitui o múnus do desenvolvimento cultural - que as mais das vezes, por ser manifesto em expressão de confessionalismo estrito.

Deste modo, cultura se relaciona com a teologia pela natureza intrínseca da própria cultura, e do “ator cultural” (no sentido dramático), a saber, o ser humano; e quanto mais rica for a tradição confessional, mais rica será a expressão de uma teologia da cultura e de uma análise teológica profunda dos elementos e das funções culturais.

b. Segundo, diz respeito as realizações humanas na esfera cultural; pois, ao realizar as atividades na esfera cultural, o ser humano exercita as funções criativas do espírito, e ao fazê-las demonstra de maneira apodítica que é um ser religioso; pois, as funções criativas do espírito, como o fazer cultural do ser humano, são expressão de que o ser humano é religioso em sua essência mais profunda, da qual, nenhum ser humano pode se desvincular sem deixar de ser humano; o que faz do ser humano um ser humano é sua raiz religiosa, a qual é manifesta nas funções criativas do espírito; deste modo, a cultura se relaciona com a teologia, porque o ser humano é um ser teológico em suas entranhas mais profundas.

2. [ii] A segunda formulação, pelo entendimento dos fundamentos da ordem social. A ordem social possui fundamentos; sem estes fundamentos, a própria vida social torna-se doentia e tropega; pois, do mesmo modo como uma casa não subsiste sem seus fundamentos, a sociedade não permanece sem seus fundamentos; e os fundamentos da ordem social são sempre fundamentos assentados num credo, numa confissão religiosa. Rousas J. Rushdoony afirma: “Toda ordem social assenta-se num credo, num conceito da vida e da lei, e representa, pois, uma religião em ação. A cultura é religião externalizada, e, como Henry Van Til observou, ‘a religião de um povo se manifesta em sua cultura e os cristãos não podem ficar satisfeitos com nada menos que uma organização cristã da sociedade’. Sempre que há um ataque à organização da sociedade, há também um ataque à sua religião. A fé fundamental de uma sociedade implica o desenvolvimento com base nessa fé, ao passo que qualquer intervenção nessa estrutura básica configura-se como atividade revolucionária. Os marxistas são, nesse tocante, mais astutos que seus adversários: eles reconhecem a hostilidade à sua estrutura como sendo atividade contrarrevolucionária, como hostilidade à seu próprio establishment. A vida de uma sociedade é seu credo; um credo agonizante depara-se prontamente com a deserção ou subversão. Todo credo, por mais saudável que seja, encontra-se no entanto sob constante ataque; a cultura que negligencia a defesa e a promoção de sua base confessional está expondo seu coração à faca de seus inimigos[4].

A ordem social, deste modo, sempre é confessional; onde não há confessionalidade não há ordem; mas, na questão dos fundamentos da ordem social, desenrola-se a estrutura dramática do núcleo confessionalidade cristã; a confessionalidade é o fundamento da ordem, porque a confessionalidade expõe a raiz e a natureza da tensão; somente quando se entende a raiz das tensões e das crises, pode-se falar na ordem e na ordenação social; e a estrutura dramática[5] da confessionalidade cristã, que estabelece os fundamentos da ordem social, é a estrutura singular que apresenta os motes pelos quais a teologia da cultura, a partir do entendimento das relações entre teologia e cultura, e do entendimento dos fundamentos da ordem social, é talhada e então edificada.

 

III

 

A teologia da cultura, portanto, se estabelece e desenvolve sobre o mote de a cultura - por ser desenvolvida por um ser cultural, que ao mesmo tempo é um ser espiritual -, ter uma raiz teológica, e esta raiz se torna imprescindível para o entendimento da cultura; pois, sem uma teologia da cultura o entendimento sobre a própria cultura não é delineado de maneira plena e englobante; mas uma teologia da cultura é necessária para adequar este aspecto primordial e inolvidável da cultura, como um ato crente, a partir do único entendimento que é possível sobre a confessionalidade, a racionalidade e a fé, a saber, a partir da ciência sagrada.

Com isso, a intersecção entre ciência, fé e cultura se tornam mais viçosas e frutuosas já que uma fé que pensa, no ato de pensar, descobre como encontrar o gáudio da racionalidade da fé expresso em ato cultural e no múnus sempre recorrente da reforma da cultura a partir da vida dos cristãos que estão inseridos nas mais variadas esferas culturais. Teologia da cultura é tanto ensinamento, para a possibilidade de uma correta relação entre fé, ciência e cultura, quanto é ética, para a vivência correta dos cristãos também servir de ponto de contato e testemunho sobre o desenvolvimento científico e cultural.

A intersecção entre fé, ciência e cultura se estabelece de maneira singular a partir de uma teologia da cultura, principalmente porque a teologia é a sacra doctrina. A conceituação da sacra doctrina é a asseveração de que a teologia é a mais digna das ciências, tanto das ciências especulativas quanto das ciências práticas (cf. STh Ia, q. 1, a. 5, co.).

A teologia da cultura, por ser teologia, e assim, ser ciência mais digna do que as outras ciências, estabelece-se como “da” cultura, porque é tanto especulativa quanto prática; pois, o ato cultural tem em si uma estrutura especulativa e também uma evidenciação prática; portanto, a teologia da cultura também adentra o terreno da ciência cultural especulativa (filosofia da cultura) e da ciência cultural prática (manifestações culturais); por isso, na intersecção entre ciência, fé e cultura, que engloba intrinsecamente tanto teoria quanto prática, estabelece-se a noção fundamental que pressupõe estes dois aspectos, que são tal qual as duas asas de um pássaro sem as quais o mesmo não pode voar.

Assim, a teologia da cultura é imprescindível; toda e qualquer asseveração e distinção nas relações entre fé, ciência e cultura se estabelecem de maneira correta e plena a partir do entendimento de tudo o que engloba a teologia da cultura; portanto, a fim de que se possa analisar a cosmovisão e assim adentrar aos aspectos singulares os quais são necessários para uma correta vivência cultural e o testemunho cristão como sal da terra e luz do mundo, é de fundamental importância elaborar uma teologia da cultura que guie e amplie estes aspectos, para que, quando da análise da cosmovisão, possa se ter todas as ferramentas de maneira adequada a fim de serem corretamente utilizadas.

E a importância inconcussa da teologia da cultura, além de proporcionar estes instrumentos também serve de aferidora de medida do estado das coisas numa cultura; pois, se a religião cristã, base da teologia da cultura, estiver fortalecida e imbuída de sua racionalidade intrínseca, então haverá uma frutuosa ação cristã na sociedade; mas se a religião estiver enfraquecida a sociedade se enfraquecerá; portanto, a teologia da cultura serve de modo de análise sobre o estado da alma da sociedade.

Certamente este deve ser o objetivo do laborar no testemunho na vida extra-eclesial para fomentar a correta intersecção entre fé, ciência e cultura no séc. XXI e nos tempos vindouros. Pois, certamente este é o esquema indubitável da teologia da cultura e sua necessidade se renova a cada geração.

Laudate Deo!



[1] Paul Tillich, Filosofía de La Religión [Buenos Aires: Ediciones Megapólis, 1973], pág. 65-66.

[2] Paul Tillich, Teologia da Cultura [São Paulo: Fonte Editorial, 2009], pág. 44.

[3] Friedrich Schleiermacher, Sobre a Religião [São Paulo: Fonte Editorial, 2000], pág. 14.

[4] Rousas J. Rushdoony, Fundamentos da Ordem Social [Edição Eletrônica. Brasília, DF: Monergismo, 2019], pág. 216.

[5] O aspecto dramático na teologia pode-se ser entendido a partir das palavras de Hans Urs von Balthasar: “a teologia nunca poderia ser outra coisa senão uma explicação da revelação da Antiga e da Nova Aliança, suas pressuposições (o mundo criado) e propósitos (sua infusão com a vida divina). Essa revelação, porém, em sua forma total, em grande escala e em pequena escala, é dramática. É a história de uma iniciativa da parte de Deus para o seu mundo, a história de uma luta entre Deus e a criatura sobre o sentido e a salvação deste último” (Hans Urs von Balthasar, Theo-Drama Vol. 1: Prolegomena [San Francisco: Ignatius Press, 1988], pág. 125). 


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