I
A relação entre fé, ciência e
cultura ao se adentrar os quarteirões do século XXI, traz uma série de questões
que ainda não foram analisadas; questões essas que, as mais das vezes, se
apresentam aos cristãos de uma maneira quase que oceânica; no entanto, esta
gama de questões, só podem ser evidenciadas a partir de uma perspectiva cristã,
sob os princípios da cosmovisão cristã; e não somente a partir dos princípios
da cosmovisão, mas principalmente a partir de uma teologia da cultura; pois, a
teologia da cultura é a necessidade primordial e fundamental, a necessidade
primeira, para a correta intersecção entre fé, ciência e cultura no século XXI,
e para o decorrer dos tempos e das épocas.
A noção de teologia da cultura é a
de uma teologia que explique a cultura, de uma teologia que tenha por expressão
explicar e entender a cultura a partir do conhecimento sobre as coisas divinas;
a teologia da cultura não é a redução da cultura ao sistema teológico, mas a
explicação da cultura a partir da perspectiva teológica - a única maneira
verdadeiramente englobante e frutífera de se entender a cultura; na verdade, a
cultura só é corretamente explicada a partir do princípio teológico; pois, a
cultura, em primeira e última instância, tem uma raiz teológica, já que, o ator
cultural, o ser humano, é um ser religioso em sua essência, e, por isso também
é um ser cultural. O antecedente prova o consequente: se o homem é um ser
religioso e um ser cultural, então, a cultura, como expressão da ação humana,
possui imbuída em si uma raiz religiosa, uma raiz teológica.
Portanto, todo ato cultural, é um
ato crente; por isso, todo ato cultural é um ato de fé. Paul Tillich assevera:
“A fé é a orientação em direção ao Incondicional na ação teórica e na
prática. O Incondicional enquanto tal, porém, nunca pode ser um objeto, senão
só o símbolo no qual se intui e significa o Incondicional. A fé é a orientação
em direção ao Incondicional mediante símbolos extraídos da ordem condicionada.
Todo ato de fé, portanto, possui um dublo significado. Se dirige de maneira
imediata em direção a um objeto sagrado. Mas não significa, porém, este objeto,
senão o Incondicional, que se expressa de maneira simbólica. A fé chega mais
além do imediatismo de todas as coisas, alcançado o fundamento e o abismo de
qual todas as coisas dependem. Em contraste com a fé temos a atitude incrédula.
Sua essência não é que não chegue a reconhecer ou realizar algo de caráter
objetivo; sua essência é que detém nas atualidades, ou seja, nos objetivos em
seu imediatismo, em suas formas condicionadas, sem aprofundar seu fundamento
constitutivo do significado. A incredulidade, portanto, é sinal da típica
atitude autônoma da cultura; mas o é somente quanto a intenção. Na realidade,
todo ato cultural criativo é também um ato crente; nele está o significado do
Incondicional. De outro modo, em última análise careceria de significado”[1].
Assim, a partir desta asseveração de
Tillich, se estabelece com certeza singular que todo ato cultural é um ato
crente, pois, neste ato cultural, como em todo ato cultural, está o significado
do Incondicional, e por isso é um ato crente; do contrário, o ato cultural
careceria de significado, e assim, não seria um ato cultural; todo ato cultural
é um ato com significado, significado esse delineado por este Incondicional.
E é interessante o falar sobre este
significado, pois, o ato cultural, em si, é a busca pelo significado na
expressão cultural; e a própria busca pelo significado em si tem uma raiz
teológica; pois, a busca pelo significado é a busca que procura responder as
perguntas fundamentais da razão humana, a saber: “donde vim? Por que estou
aqui? Para onde vou?”; esta tríplice indagação constitui-se o mote singular
que é expresso pela busca de significado que o ser humano evidencia em sua
atividade como um ser cultural.
II
Deste modo, falar sobre a teologia
da cultura é imprescindível para o entendimento das relações e das intersecções
entre a fé, a ciência e a própria cultura, já que todo ato com significado, em
primeira e última instância, reclama para si uma pressuposição teológica; e se
reclama esta pressuposição também reclama uma explicação; e assim, somente a
partir de uma teologia da cultura é que se pode entender a estrutura singular
que constitui o ato cultural, bem como a natureza peculiar a qual flui do ato
cultural.
Neste interim, surge a questão: como
se estabelecer uma teologia da cultura? A resposta a está questão se dá em duas
formulações gerais: (i) a primeira, pelo entendimento da relação entre teologia
e cultura; (ii) a segunda, pelo entendimento dos fundamentos da ordem social.
Analisar-se-á, portanto, estas duas formulações gerais:
1. [i] A primeira formulação, pelo
entendimento da relação entre teologia e cultura. Esta primeira formulação é de
fundamental importância, pois a partir desta se estabelece o princípio para o
entendimento de uma teologia da cultura que se estabelece a partir da relação
entre a teologia e a cultura. Assim, pode-se falar que teologia se relaciona
com a cultura de dois modos principais:
a. Primeiro, devido a que a cultura
ser obra causada pela Criação de Deus, e pela criação do homem a imago Dei
e a instituição do mandato cultural; portanto, em primeira instância, a cultura
tem a raiz teológica; por isso, cultura e religião estão intimamente
interligadas; donde a afirmação de Tillich ser deveras certeira: “A
religião, no sentido básico e mais abrangente da palavra, é ‘preocupação
suprema’ [ultimate concern], manifesta em todas as funções criativas do
espírito bem como na esfera moral na qualidade de seriedade incondicional que
essa esfera exige”[2].
Esta “preocupação suprema”,
como é expressa em todas as funções criativas do espírito, é clarividente que,
em todo ato cultural com significado, estará fundamentada em uma preocupação
com este Incondicional; preocupação essa, a qual também foi expressa na
singularíssima por Schleiermacher com as seguintes palavras: “A religião foi
o corpo material, em cuja sagrada obscuridade se alimentou minha vida juvenil e
se preparou para o mundo, que todavia constituía para ela uma realidade não
decifrada; na religião tem respirado meu espírito, antes mesmo que ele houvesse
encontrado seus objetos externos, a experiência e a ciência; ela me ajudou
quando comecei a examinar a fé paterna e a purificar o coração dos desejos do
passado; ela permaneceu em pé para mim quando Deus e a imortalidade se
enfumaçaram ante os olhos vacilantes; ela me conduziu à vida ativa; ela me tem
ensinado a manter-me a mim mesmo como algo sagrado, com minhas virtudes e meus
defeitos, em minha existência indivisa, e só mediante a ela tenho realizado a
aprendizagem da amizade e do amor”[3].
Esta sentença de Schleiermacher sobre
a religião, não somente denota a importância da religião, mas clarifica o
entendimento daquilo que o movia profundamente; no caso, o princípio religioso
o levou a análise do Incondicional na cultura, e vice-versa.
Por isso, essa preocupação suprema,
manifesta em todas as funções criativas do espírito, é o que constitui o múnus do
desenvolvimento cultural - que as mais das vezes, por ser manifesto em
expressão de confessionalismo estrito.
Deste modo, cultura se relaciona com
a teologia pela natureza intrínseca da própria cultura, e do “ator cultural”
(no sentido dramático), a saber, o ser humano; e quanto mais rica for a
tradição confessional, mais rica será a expressão de uma teologia da cultura e
de uma análise teológica profunda dos elementos e das funções culturais.
b. Segundo, diz respeito as
realizações humanas na esfera cultural; pois, ao realizar as atividades na
esfera cultural, o ser humano exercita as funções criativas do espírito, e ao
fazê-las demonstra de maneira apodítica que é um ser religioso; pois, as funções
criativas do espírito, como o fazer cultural do ser humano, são expressão de
que o ser humano é religioso em sua essência mais profunda, da qual, nenhum ser
humano pode se desvincular sem deixar de ser humano; o que faz do ser humano um
ser humano é sua raiz religiosa, a qual é manifesta nas funções criativas do
espírito; deste modo, a cultura se relaciona com a teologia, porque o ser
humano é um ser teológico em suas entranhas mais profundas.
2. [ii] A segunda formulação, pelo
entendimento dos fundamentos da ordem social. A ordem social possui
fundamentos; sem estes fundamentos, a própria vida social torna-se doentia e
tropega; pois, do mesmo modo como uma casa não subsiste sem seus fundamentos, a
sociedade não permanece sem seus fundamentos; e os fundamentos da ordem social
são sempre fundamentos assentados num credo, numa confissão religiosa. Rousas
J. Rushdoony afirma: “Toda ordem social assenta-se num credo, num conceito
da vida e da lei, e representa, pois, uma religião em ação. A cultura é
religião externalizada, e, como Henry Van Til observou, ‘a religião de um povo
se manifesta em sua cultura e os cristãos não podem ficar satisfeitos com nada
menos que uma organização cristã da sociedade’. Sempre que há um ataque à
organização da sociedade, há também um ataque à sua religião. A fé fundamental
de uma sociedade implica o desenvolvimento com base nessa fé, ao passo que
qualquer intervenção nessa estrutura básica configura-se como atividade revolucionária.
Os marxistas são, nesse tocante, mais astutos que seus adversários: eles
reconhecem a hostilidade à sua estrutura como sendo atividade
contrarrevolucionária, como hostilidade à seu próprio establishment. A vida de
uma sociedade é seu credo; um credo agonizante depara-se prontamente com a
deserção ou subversão. Todo credo, por mais saudável que seja, encontra-se no
entanto sob constante ataque; a cultura que negligencia a defesa e a promoção
de sua base confessional está expondo seu coração à faca de seus inimigos”[4].
A ordem social, deste modo, sempre é
confessional; onde não há confessionalidade não há ordem; mas, na questão dos
fundamentos da ordem social, desenrola-se a estrutura dramática do núcleo
confessionalidade cristã; a confessionalidade é o fundamento da ordem, porque a
confessionalidade expõe a raiz e a natureza da tensão; somente quando se
entende a raiz das tensões e das crises, pode-se falar na ordem e na ordenação
social; e a estrutura dramática[5]
da confessionalidade cristã, que estabelece os fundamentos da ordem social, é a
estrutura singular que apresenta os motes pelos quais a teologia da cultura, a
partir do entendimento das relações entre teologia e cultura, e do entendimento
dos fundamentos da ordem social, é talhada e então edificada.
III
A teologia da cultura, portanto, se
estabelece e desenvolve sobre o mote de a cultura - por ser desenvolvida por um
ser cultural, que ao mesmo tempo é um ser espiritual -, ter uma raiz teológica,
e esta raiz se torna imprescindível para o entendimento da cultura; pois, sem
uma teologia da cultura o entendimento sobre a própria cultura não é delineado
de maneira plena e englobante; mas uma teologia da cultura é necessária para
adequar este aspecto primordial e inolvidável da cultura, como um ato crente, a
partir do único entendimento que é possível sobre a confessionalidade, a
racionalidade e a fé, a saber, a partir da ciência sagrada.
Com isso, a intersecção entre
ciência, fé e cultura se tornam mais viçosas e frutuosas já que uma fé que
pensa, no ato de pensar, descobre como encontrar o gáudio da racionalidade da
fé expresso em ato cultural e no múnus sempre recorrente da reforma da cultura
a partir da vida dos cristãos que estão inseridos nas mais variadas esferas
culturais. Teologia da cultura é tanto ensinamento, para a possibilidade de uma
correta relação entre fé, ciência e cultura, quanto é ética, para a vivência
correta dos cristãos também servir de ponto de contato e testemunho sobre o desenvolvimento
científico e cultural.
A intersecção entre fé, ciência e
cultura se estabelece de maneira singular a partir de uma teologia da cultura,
principalmente porque a teologia é a sacra doctrina. A conceituação da sacra
doctrina é a asseveração de que a teologia é a mais digna das ciências,
tanto das ciências especulativas quanto das ciências práticas (cf. STh Ia, q.
1, a. 5, co.).
A teologia da cultura, por ser
teologia, e assim, ser ciência mais digna do que as outras ciências,
estabelece-se como “da” cultura, porque é tanto especulativa quanto prática;
pois, o ato cultural tem em si uma estrutura especulativa e também uma evidenciação
prática; portanto, a teologia da cultura também adentra o terreno da ciência
cultural especulativa (filosofia da cultura) e da ciência cultural prática
(manifestações culturais); por isso, na intersecção entre ciência, fé e
cultura, que engloba intrinsecamente tanto teoria quanto prática, estabelece-se
a noção fundamental que pressupõe estes dois aspectos, que são tal qual as duas
asas de um pássaro sem as quais o mesmo não pode voar.
Assim, a teologia da cultura é
imprescindível; toda e qualquer asseveração e distinção nas relações entre fé,
ciência e cultura se estabelecem de maneira correta e plena a partir do
entendimento de tudo o que engloba a teologia da cultura; portanto, a fim de
que se possa analisar a cosmovisão e assim adentrar aos aspectos singulares os
quais são necessários para uma correta vivência cultural e o testemunho cristão
como sal da terra e luz do mundo, é de fundamental importância elaborar uma
teologia da cultura que guie e amplie estes aspectos, para que, quando da
análise da cosmovisão, possa se ter todas as ferramentas de maneira adequada a
fim de serem corretamente utilizadas.
E a importância inconcussa da
teologia da cultura, além de proporcionar estes instrumentos também serve de
aferidora de medida do estado das coisas numa cultura; pois, se a religião
cristã, base da teologia da cultura, estiver fortalecida e imbuída de sua
racionalidade intrínseca, então haverá uma frutuosa ação cristã na sociedade;
mas se a religião estiver enfraquecida a sociedade se enfraquecerá; portanto, a
teologia da cultura serve de modo de análise sobre o estado da alma da
sociedade.
Certamente este deve ser o objetivo do laborar no
testemunho na vida extra-eclesial para fomentar a correta intersecção entre fé,
ciência e cultura no séc. XXI e nos tempos vindouros. Pois, certamente este é o
esquema indubitável da teologia da cultura e sua necessidade se renova a cada
geração.
Laudate Deo!
[1]
Paul Tillich, Filosofía de La Religión [Buenos Aires: Ediciones
Megapólis, 1973], pág. 65-66.
[2]
Paul Tillich, Teologia da Cultura [São Paulo: Fonte Editorial, 2009], pág.
44.
[3]
Friedrich Schleiermacher, Sobre a Religião [São Paulo: Fonte Editorial,
2000], pág. 14.
[4]
Rousas J. Rushdoony, Fundamentos da Ordem Social [Edição Eletrônica.
Brasília, DF: Monergismo, 2019], pág. 216.
[5] O aspecto dramático na teologia pode-se ser entendido a
partir das palavras de Hans Urs von Balthasar: “a teologia nunca poderia ser
outra coisa senão uma explicação da revelação da Antiga e da Nova Aliança, suas
pressuposições (o mundo criado) e propósitos (sua infusão com a vida divina).
Essa revelação, porém, em sua forma total, em grande escala e em pequena
escala, é dramática. É a história de uma iniciativa da parte de Deus para o seu
mundo, a história de uma luta entre Deus e a criatura sobre o sentido e a
salvação deste último” (Hans Urs von Balthasar, Theo-Drama Vol. 1:
Prolegomena [San Francisco: Ignatius Press, 1988], pág. 125).
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