19/10/2024

Glosas a Epístola de Judas

Sinopse: esta epístola do novo testamento, um dos menores livros bíblicos, tem apenas um capítulo, e é dividida em quatro partes: (§ 1) prefácio e saudação (1.1-2); (§ 2) exortação a batalhar pela fé contra os apóstatas (1.3-19); (§ 3) exortação a edificação da fé (1.20-23); (§ 4) doxologia (1.24-25).

 

§ 1. Prefácio e saudação (1.1-2).

1.1: Judas, servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago, aos chamados, queridos em Deus Pai e conservados por Jesus Cristo:

Judas. O autor desta epístola; este nome grego é proveniente do hebraico Judá, e significa abençoado.

servo. Isto é, escravo (δοῦλος), aquele que serve e se submete totalmente ao senhorio de seu senhor. Ora, se há um servo, também há um senhor. Ao se declarar servo, Judas está se colocando sob o senhorio de seu Senhor.

de Jesus Cristo. O qualificativo de servo é em função de quem se é servo, a saber, de Jesus Cristo; servir a Cristo, ser servo de Cristo, é se submeter ao Seu senhorio e viver de modo a agradar a Ele em tudo (cf. 1Co 10.31).

e irmão de Tiago. Ora, este que é servo de Jesus Cristo, também é irmão de Tiago; e Tiago aqui é aquele a que se refere o Apóstolo em Gl 1.19 como irmão do Senhor; logo, o Judas que escreve esta epístola é irmão do Senhor Jesus.

aos chamados. Após apresentar a si mesmo, Judas começa a falar as características daqueles a quem direciona esta epístola. E a primeira característica é sobre o chamado; os cristãos são aqueles que foram chamados à salvação, e que vivem de acordo com este chamado. E este chamado possui duas características: primeiro, é direcionado a todos os homens (cf. 1Tm 2.3-4). Segundo, é eficaz nos eleitos (cf. Ef 1.4s), isto é, naqueles que aceitam e vivem de acordo com este chamado. Pois, aqueles que são chamados e aceitam este chamado, vivem em santidade e de maneira irrepreensível. E, nisto, são verdadeiramente reconhecidos como filhos de Deus.

queridos em Deus Pai. A segunda característica que Judas menciona é que são queridos, amados, em Deus Pai; ora, os chamados são aqueles que são amados em Deus Pai mediante o Filho, pois, todos quantos recebem o Filho são feitos filhos de Deus (cf. Jo 1.12); logo, são queridos em Deus Pai e por Deus Pai, já que estes creem em Seu Filho Amado. Pois, os eleitos são amados no Amado, já que nEle são feitos agradáveis a Deus (cf. Ef 1.6).

e conservados por Jesus Cristo. A terceira característica que Judas menciona é que são conservados, preservados, por Jesus Cristo; ora, os eleitos são conservados por Jesus Cristo, e isto tem dois sentidos: primeiro, conservados na eleição; segundo, conservados da corrupção do mundo. Logo, os eleitos, aqueles que são queridos em Deus Pai, são conservados e guardados pelo cuidado soberano de Jesus Cristo; pois, aqueles que servem a Cristo, são por Ele protegidos e estão sob Suas mãos poderosas e benfazejas (cf. Jo 10.27-28).

V. 1: A tríplice característica dos eleitos demonstra a eficaz obra da graça em todos aqueles que creem em Cristo como único e suficiente Salvador, bem como dos efeitos da graça naqueles que vivem de acordo com o glorioso chamado desta graça; e esta tríplice característica demonstra os efeitos benditos da salvação nos eleitos e na forma como estes vivem diante de Deus e dos homens, isto é, como chamados, amados e conservados.

1.2: a misericórdia, e a paz, e o amor vos sejam multiplicadas.

a misericórdia. Um vocábulo comum na saudação judaica; pois, a misericórdia de Deus é eterna (cf. Sl 100.5), é infinita (cf. Lm 3.22b), e é abundante àqueles que temem a Deus (cf. Sl 103.17-18). Pois, a misericórdia de Deus é plenamente desvelada como efeito da graça (cf. Ef 2.4), gerando paz e amor em abundância (cf. Rm 5.1, 5), pois, aquele que se achega a Deus por mediação de Cristo, encontra misericórdia (cf. Hb 4.16).

e a paz. A paz é efeito da graça, já que fora o próprio Deus quem outorgara Sua paz (cf. Sl 147.14), pois, Ele é a nossa paz (cf. Ef 2.14); e a paz advém juntamente com a misericórdia. E como Tomás propriamente afirma, a paz é o fim dos homens (cf. Ad II Thessal., I, lect. 1). Logo, a paz é efeito glorioso da graça, pacificando o coração e a mente da desordem do Pecado.

e o amor. Ora, o efeito da graça, ao proporcionar ao coração a misericórdia e a paz, também traz um bem sem igual ao coração, o amor, a caridade; e o amor é evidência do novo nascimento (cf. 1Jo 4.7); por isso, o amor é o fim da lei (cf. Rm 13.10b), e o amor é o fim do mandamento (cf. 1Tm 1.5).

vos sejam multiplicadas. Isto é, aumentem abundantemente, já que para estes gloriosos efeitos da graça não existe limite, pois, são sempre infinitamente perfectíveis, e emanam de Deus como fonte inesgotável.

V. 2: A misericórdia, a paz e o amor, são três efeitos da graça, e compõem a tríade da ação do Amor nos eleitos, a fim de transformar-lhes de glória em glória na imagem de Cristo (cf. 2Co 3.18).

V. 1-2: Estes versículos são envoltos em tríplice perspectiva; pois, como os efeitos da graça são obra do Deus Trino, então, tais efeitos sempre serão trinitários, e estarão em tríplice perspectiva: chamados, amados e conversados; e, misericórdia, paz e caridade; etc. Portanto, tudo na fé está em ordem a Santíssima Trindade, ou seja, está em tríplice perspectiva.

§ 2. Exortação a batalhar pela fé contra os apóstatas (1.3-19).

1.3: Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da comum salvação, tive por necessidade escrever-vos e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos.

Amados. Os fiéis são chamados de amados, porque realmente são amados em Deus Pai.

procurando eu escrever-vos com toda a diligência. Ora, Judas teve um intento no coração de escrever aos cristãos, com toda a diligência, isto é, com todo esmero e preocupação.

acerca da comum salvação. O tema da epístola de Judas é sobre a salvação comum a todos os fiéis, isto é, tudo quanto concerne a obra reconciliadora de Jesus Cristo; ou mais propriamente, o que concerne a Sua graça.

tive por necessidade. Ora, Judas escreveu esta epístola devido a uma necessidade premente, que está em consonância com o tema desta epístola.

escrever-vos e exortar-vos. Judas escreve para exortar os fiéis, isto é, para repreendê-los e alertá-los dos perigos sobre os quais escreve, os quais também já haviam sido alertados noutros escritos bíblicos.

a batalhar pela fé. A exortação de Judas é para que os fiéis batalhem pela fé, isto é, que lutem pela fé; e fé aqui não no sentido de fiducia, mas no sentido de notitia; é a respeito do conhecimento que concerne a fé, que Judas exorta os fiéis a batalharem e a lutarem. Pois, quando o conteúdo da fé é atacado ou subvertido, os cristãos tem de lutar para manter incólume o conteúdo desta fé que receberam por divina revelação.

que uma vez foi dada aos santos. E, esta fé, a saber, o conteúdo desta fé, fora dada a todos os santos, ou seja, a todos os cristãos; a fé foi outorgada por Deus aos eleitos, na revelação dada de forma permanente, a saber, a Sagrada Escritura.

1.4: Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo.

Porque. A razão da exortação de se batalhar pela fé. Ora, a exortação é feita com vista ao que Judas passa a declarar a partir do v. 4.

se introduziram alguns. Pois, alguns se introduziram no meio do povo de Deus tal como ervas daninhas numa plantação.

que já antes estavam escritos para este mesmo juízo. Ora, estes que se introduziram, já haviam sido de antemão previstos pelos outros escritos bíblicos, a saber, as profecias a respeito dos falsos mestres e sobre os falsos profetas; pois, sobre estes, fora escrito a respeito do juízo que os mesmos seriam submetidos.

homens ímpios. E dá a característica primordial dos mesmos, a saber, ímpios. E os ímpios estão em guerra contra Deus; na sabedoria judaica, a designação de ímpios é para aqueles que estão em completa aversão a Deus.

que convertem em dissolução a graça de Deus. Ora, estes homens ímpios que se introduziram produziram um efeito terrível, a saber, converteram em dissolução a graça de Deus, isto é, tornaram a graça de Deus em instrumento de dissolução, de promiscuidade, e de libertinagem, de heresia, e de coisas similares; na verdade, estes, tornaram a graça de Deus em obra da carne (cf. Gl 5.19ss). E, a dissolução da graça de Deus ocorre de dois modos: primeiro, pela corrupção da conduta; segundo, pela corrupção da doutrina. E, nesta epístola se coadunam os dois aspectos: houvera a corrupção da doutrina e da conduta, logo, houvera a completa blasfêmia da graça de Deus.

e negam a Deus, único dominador. A conversão da graça em dissolução, gera a negação de Deus; e negação absoluta; pois, a transmutação da graça, acaba por gerar ídolos, e ocasionar a negação de Deus; donde, afirmar o salmista que o ímpio diz em seu coração que não há Deus (cf. Sl 53.1), ou seja, nega deliberadamente, seja em palavras seja em ações, ou em ambos, palavras e ações; ora, os homens ímpios negam o domínio e a soberania de Deus.

e Senhor nosso, Jesus Cristo. E também negam a soberania de Jesus Cristo; aqueles que convertem em dissolução a graça de Deus, acabam por negar a fonte da graça e por desprezar esta fonte deliberadamente e conscientemente. Por isso, os que negam a Cristo estão com o espírito do anticristo, que já atua no mundo (cf. 1Jo 4.3). A negação da soberania de Cristo em todas as esferas da vida é evidência terrível de apostasia; não só a negação por palavras, mas também por ações, ou seja, tanto a negação na doutrina quanto a negação na moral.

V. 4: Os que negam a Deus Pai e os que negam a Jesus Cristo estão com o espírito do anticristo (cf. 1Jo 2.22b). Por isso, onde há a conversão da graça de Deus em dissolução seja por libertinagem seja por rejeição a algum dogma da revelação, se tem o espírito do anticristo atuando; ou mais propriamente, para utilizar a linguagem paulina, se tem a atuação do mistério da iniquidade (cf. 2Ts 2.7).

1.5: Mas quero lembrar-vos, como a quem já uma vez soube isto, que, havendo o Senhor salvo um povo, tirando-o da terra do Egito, destruiu, depois, os que não creram;

Mas quero lembrar-vos. Judas traz a memória dos cristãos uma série de exemplos bíblicos sobre os modos e os efeitos da conversão da graça de Deus em dissolução, em libertinagem.

como a quem já uma vez soube isto. Ora, esta epístola traz a lembrança estes fatos, porque estes já foram conhecidos por aqueles a quem é direcionada esta epístola. Isto é, os cristãos devem conhecer adequadamente estes preceitos, porque as Escrituras os afirmam reiteradas vezes, principalmente os escritos neotestamentários.

que, havendo o Senhor salvo um povo. Isto é, o povo de Israel.

tirando-o da terra do Egito. Os salvou, tirando-os da terra do Egito, os resgatando do meio da terra da servidão.

destruiu, depois, os que não creram. Ora, após salvá-los do Egito, o Senhor destruiu os que não creram, isto é, os infiéis e os apóstatas, que tentaram a Deus no deserto. Pois, a incredulidade é a antessala da destruição.

V. 5: A apostasia traz a destruição; e, o próprio Deus destrói os apóstatas pelas maldades e malignidade da apostasia que os mesmos engendram em seus corações e que praticam de maneira dissoluta e descarada.

1.6: e aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande Dia;

e aos anjos que não guardaram o seu principado. Os anjos que não mantiveram o estado de pureza original, mas que caíram na Queda de Satanás, e se tornaram em demônios, os quais, agem em apostasia neste mundo, tal como houvera sido descrito em Gn 6.1-3. Ora, onde há apostasia, há uma grande ação demoníaca por detrás, para preparar, moldar e castificar os homens na ação maligna.

mas deixaram a sua própria habitação. Isto é, deixaram a habitação celeste e a hierarquia celeste, e foram habitar no inferno sob a hierarquia de Satanás.

reservou na escuridão e em prisões eternas. Aos demônios, Deus os reservou na escuridão e em prisões eternas, no inferno (cf. 2Pe 2.4).

até ao juízo daquele grande Dia. Até o dia do juízo final, onde serão lançados no lago de fogo e enxofre (cf. Mt 25.41).

V. 6: Deus não preservou os anjos que caíram, do mesmo modo como não preservara os apóstatas e infiéis que não creram.

1.7: assim como Sodoma, e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se corrompido como aqueles e ido após outra carne, foram postas por exemplo, sofrendo a pena do fogo eterno.

assim como Sodoma, e Gomorra. Do mesmo modo como ocorrera com Sodoma e Gomorra (cf. Gn 18-19).

e as cidades circunvizinhas. E as cidades que estavam sob a influência de Sodoma e Gomorra.

que, havendo-se corrompido como aqueles. Isto é, que se corromperam de tal modo como os anjos que caíram se tornaram em demônios. Os homens e as mulheres de Sodoma e Gomorra, se corromperam tanto que deixaram o estado natural com que foram criados, tanto em relação as coisas naturais quanto em relação as coisas espirituais. E, cometeram prostituição, o que se referem tanto as luxurias sexuais (cf. Gn 19.8), quanto aos atos homossexuais (cf. Gn 19.4-5).

e ido após outra carne. E, cometeram prostituição com outros; não somente se contaminaram, mas também contaminaram outros.

foram postas por exemplo. O juízo de Deus contra Sodoma e Gomorra fora colocado como exemplo do justo juízo de Deus contra as práticas infames provenientes da ação dos demônios.

sofrendo a pena do fogo eterno. A ação do juízo de Deus foi colocar Sodoma e Gomorra sob a pena do fogo eterno, isto é, a destruição pelo fogo. Sodoma e Gomorra sofreram o juízo de Deus, do mesmo modo como todos aqueles que cometem as mesmas práticas também sofrerão.

V. 5-7: Judas evoca três exemplos daqueles que Deus destrói: primeiro, os apóstatas (v. 5); segundo, os demônios (v. 6); terceiro, aqueles que cometem as mesmas práticas de Sodoma e Gomorra (v. 7). Estes três exemplos conhecidos, são postos e trazidos a memória para lembrar o terrível juízo de Deus sobre aqueles que transformam em libertinagem a graça de Deus. Por isso, diz a Escritura que horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo (cf. Hb 10.31).

1.8: E, contudo, também estes, semelhantemente adormecidos, contaminam a sua carne, e rejeitam a dominação, e vituperam as autoridades.

E, contudo, também estes. Ora, mesmo com os exemplos evocados nos vs. 5-7, houveram aquelas que se enveredaram pelos menos caminhos. Por isso, estes, isto é, os que foram mencionados no v. 4, também enveredaram pelo caminho da destruição.

semelhantemente adormecidos. A primeira característica que estava adormecidos, isto é, estavam mortos espiritualmente. Mas o termo para adormecidos é literalmente estarem em estado de sonho, como que hipnotizados; estão em estado de sonho, porque converteram em libertinagem a graça de Deus, não somente praticando atos promíscuos, mas semelhantemente, arrolando para si algum sonho contrário a Palavra de Deus, a Palavra da Verdade e da Graça. O caminho da destruição é um caminho de estado de sonho; ou dito em outros, é um caminho contrário a realidade natural e contrário a realidade espiritual. Todo e qualquer sonho que esteja contra a natureza e contra a graça, é evidência de que a graça de Deus fora convertida em libertinagem, e da própria aversão maligna a natureza.

contaminam a sua carne. E, corromperam em suas carnes, isto é, praticaram obras que contaminaram seus corpos e suas almas. O pecado que se comete contra o corpo, contamina e vicia a alma.

e rejeitam a dominação. E, esta contaminação, produziu o efeito da rejeição a dominação, isto é, a rejeição a soberania de Deus, o único dominador.

e vituperam as autoridades. E, ao mesmo tempo, também vituperam as autoridades, isto é, colocam em vitupério as autoridades que foram colocadas por Deus (cf. Rm 13.1). Ora, vituperar a autoridade, é blasfemar, difamar, recusar-se a reconhecer o bem nas autoridades; por isso, aqueles que vituperam as autoridades invertem os valores morais, pois, negam não apenas o reconhecimento a alguma autoridade, mas negam a Deus que instituiu a autoridade.

V. 8: A descrição deste versículo demonstra quatro frutos da apostasia: primeiro, a sujeição ao estado de sonho; segundo, a contaminação da carne; terceiro, a rejeição a dominação [de Deus]; quarto, a blasfêmia contra as autoridades.

1.9: Mas o arcanjo Miguel, quando contendia com o diabo e disputava a respeito do corpo de Moisés, não ousou pronunciar juízo de maldição contra ele; mas disse: O Senhor te repreenda.

Mas o arcanjo. O líder dos anjos.

Miguel. O arcanjo responsável por guardar Israel (cf. Dn 10.13, 21; 12.1) e liderar os anjos (cf. Ap 12.7).

quando contendia com o diabo. O arcanjo Miguel disputou com o diabo, lutou contra Satanás.

e disputava a respeito do corpo de Moisés. E lutou a respeito do corpo de Moisés, para não permitir ao Diabo utilizar-se do corpo de Moisés para algum fim demoníaco, provavelmente para idolatria. E, com isso, entregou o corpo de Moisés a Deus e este o enterrou (cf. Dt 34.5-6).

não ousou pronunciar juízo de maldição contra ele. Ora, em sua luta contra o diabo, o próprio arcanjo Miguel não ousou, isto é, não baseou-se em sua própria autoridade para se pronunciar contra o diabo.

mas disse: O Senhor te repreenda. Na verdade, o arcanjo Miguel fundamentou-se na autoridade de Deus, e evocou que Deus repreendesse o diabo, dado que a autoridade de Deus é infinitamente maior do que a do diabo.

V. 9: Este versículo é posto como exemplo para demonstrar a atitude de não ousar contra alguma autoridade, isto é, não se presumir sobre alguma autoridade, pois, isto demonstra orgulho e soberba, que é algo próprio de Satanás (cf. Ez 28.15-16). E, isto seja em qual esfera for sob a qual se tenta vituperar alguma autoridade, desde a esfera do conhecimento a esfera das autoridades públicas, etc. A vituperação das autoridades é evidência de apostasia.

1.10: Estes, porém, dizem mal do que não sabem; e, naquilo que naturalmente conhecem, como animais irracionais, se corrompem.

Estes. Isto é, os mesmos que foram descritos no v. 4, e os do v. 8.

porém, dizem mal do que não sabem. Os apóstatas falam do que não sabem; isto é, a apostasia além de os colocar contra Deus, também os coloca contra o saber que provêm de Deus, já que é Deus quem outorga o conhecimento (cf. Sl 94.10). Logo, os apóstatas também são bestas estupidas. Pois, falam mal do que não sabem; ora, se falar mal do que não se sabe, é o mesmo que falar mal de si, pois, ao fazer tal ato, coloca-se o “eu” como aferidor de medida naquilo que se desconhece, o que por si também é presunção, orgulho e soberba.

e, naquilo que naturalmente conhecem. E, estes, mesmo no que conhecem naturalmente, isto é, mesmo nas coisas evidentíssimas, as quais são demonstráveis a todos.

como animais irracionais. A apostasia produz tal efeito, que mesmo naquilo que se pode conhecer naturalmente, pois é algo evidentíssimo, os apóstatas ficam como animais irracionais, ou como diz o salmista, ficam como cavalos ou como mulas que não tem entendimento (cf. Sl 32.9). E é justamente este exemplo que este texto evoca ao afirmar que os apóstatas ficam como animais irracionais. A apostasia é a mãe da irracionalidade deliberada.

se corrompem. Os apóstatas ficam como animais irracionais naquilo que naturalmente podem conhecer, e assim, se corrompem, pois, tal conhecimento ao invés de o fazerem glorificar a Deus como Deus, na verdade, os fazem adorar a ídolos, e, por isso, seus corações e suas mentes se tornam obscurecidos e desvanecidos (cf. Rm 1.18-25).

V. 10: Este versículo demonstra os efeitos da apostasia no indivíduo: primeiro, no intelecto (v. 10a); segundo, na vontade (v. 10b).

1.11: Ai deles! Porque entraram pelo caminho de Caim, e foram levados pelo engano do prêmio de Balaão, e pereceram na contradição de Corá.

Ai deles! Isto é, ai dos apóstatas que foram descritos nos vs. 4, 8 e 10. E o termo “ai” na Escritura, é expressão do juízo de Deus (cf. Lc 6.24-26).

Porque entraram pelo caminho de Caim. Os apóstatas sempre enveredam pelo mesmo caminho de Caim (cf. Gn 4.2ss). E o caminho de Caim é o caminho da inveja (cf. Gn 4.7-8); a inveja é a podridão dos ossos (cf. Pv 14.30), e onde há inveja há todo tipo de obra maligna (cf. Tg 3.16). Onde há inveja há a conversão da graça de Deus em libertinagem, e um dos frutos é enveredar pelo caminho de Caim, um caminho de morte e de juízo, o caminho da meritocracia diante de Deus.

e foram levados pelo engano do prêmio de Balaão. Os apóstatas também sempre se enveredam pelo engano do prêmio de Balaão, isto é, buscam receber algo de ímpios para amaldiçoar os servos de Deus (cf. Nm 22-25). Ora, o prêmio da desonestidade e da desonra nunca é eficaz e sempre é enganoso, pois, é ilusório; aqueles que se enveredam por este caminho são levados pelo mesmo engano de Balaão, e perecem nos frutos e nos efeitos do engano.

e pereceram na contradição de Corá. Os apóstatas também sempre perecem na contradição de Corá (cf. Nm 16.1-32). E os apóstatas hão de sucumbir no mesmo castigo de Corá; pois, Corá ao rejeitar a autoridade de Deus em Moisés e Arão, ao afirmar que estes faziam as vontades pessoais ao invés da vontade de Deus, acabou por cometer contradição (literalmente hipocrisia) já que quis impor sua vontade no lugar da vontade de Deus para o povo de Israel; isto é, cometera o mesmo pecado que usara para supostamente justificar seu levante contra Moisés e Arão. Ora, a apostasia inverte os valores morais e espirituais ao ponto de os homens decaírem na mesma contradição de Corá.

V. 11: Os apóstatas são novamente evocados em três características bíblicas: primeiro, do caminho da inveja; segundo, do caminho do engano; terceiro, do caminho da contradição ou da hipocrisia. Estes, sofrerão o justo castigo de Deus, já que não há perdão para os apóstatas (cf. Hb 6.4-6), pois, o caminho de Caim, o engano de Balaão e a contradição de Corá, trouxera destruição sobre estes; pois, os que pecam voluntariamente depois de haverem conhecido a verdade, diz a Escritura que para estes não resta mais sacrifício pelo perdão dos pecados (cf. Hb 10.26). Por isso, o versículo inicia pronunciando o juízo de Deus: “Ai deles!”, pois se enveredaram pelo caminho da apostasia.

1.12: Estes são manchas em vossas festas de fraternidade, banqueteando-se convosco e apascentando-se a si mesmos sem temor; são nuvens sem água, levadas pelos ventos de uma para outra parte; são como árvores murchas, infrutíferas, duas vezes mortas, desarraigadas;

Estes. Isto é, os descritos nos vs. 4, 8, 10 e 11.

são manchas. Ora, os apóstatas são como manchas, isto é, são repreensíveis e abomináveis.

em vossas festas de fraternidade. Isto é, os apóstatas haviam se introduzido no meio do povo de Deus, e se infiltraram nas festas de fraternidade, isto é, nos momentos da reunião da comunhão dos santos e para partilha de uma rejeição, a qual o Apóstolo houvera mencionado (cf. 1Co 11.20-30). Por isso, os apóstatas se infiltraram e se tornaram como que manchas e imundice nas vestes da Igreja.

banqueteando-se convosco. Os apóstatas desfrutaram do banquete feito apenas para os fiéis, fazendo com que os fiéis se tornassem participes das práticas hediondas que cometeram. E a Escritura alerta que com estes não se deve comungar conjuntamente (cf. 2Jo 1.10).

e apascentando-se a si mesmos sem temor. Os apóstatas apascentam a si mesmos sem temor, isto é, sem o temor do Senhor na mente e no coração; pois, aqueles que deliberadamente se colocam contra o Senhor e Sua palavra, apascentam a si mesmo sem temor, ou seja, sem o conhecimento de Deus. Logo, são como guias cegos, guiando-se com cegueira espiritual, terminando evidentemente, caindo nos abismos calcinados pelos demônios.

são nuvens sem água. Por isso, os apóstatas são chamados de nuvens em água, isto é, inconstantes e sujeitos a qualquer manipulação diabólica.

levadas pelos ventos de uma para outra parte. Eles são levados de uma parte para outra, por qualquer vento de doutrina (cf. Ef 4.14), assim como as nuvens sem água.

são como árvores murchas. Além de serem descritos como nuvens sem água, também são descritos como árvores murchas, isto é, árvores que não tem raiz saudável pois não tem contato direto com os nutrientes necessários para crescerem, isto é, não tem comunhão com Deus e nem conhecimento de Sua palavra.

infrutíferas. Por isso, são árvores infrutíferas; árvores que não dão fruto; logo, são como árvores sem vida.  

duas vezes mortas. Tão infrutíferas que é como se houvessem sido duas vezes mortas; e a descrição de uma árvore duas vezes mortas, é para demonstrar a maldição de Deus sobre a árvore, tal como aconteceu no caso da figueira estéril (cf. Lc 13.6-9).

desarraigadas. Estas árvores infrutíferas são desarraigadas, isto é, não possuem raízes. Ora, uma árvore desarraigada, isto é, sem raiz, não frutifica. A bênção da frutificação é reservada a árvore enraizada; mas a árvore sem raiz está sob a maldição de ser infrutífera.

1.13: ondas impetuosas do mar, que escumam as suas mesmas abominações, estrelas errantes, para os quais está eternamente reservada a negrura das trevas.

ondas impetuosas do mar. Os apóstatas também são como as onde impetuosas do mar, isto é, agitam de uma parte para a outra, produzindo caos na fé e naufrágios espirituais. Os ímpios são descritos de maneira semelhante como o mar bravo (cf. Is 57.20-21); logo, os apóstatas ao serem comparados com as ondas impetuosas do mar também são qualificados com os mesmos efeitos produzidos pelos ímpios.

que escumam as suas mesmas abominações. Os apóstatas são como ondas impetuosas, escumam abominações, isto é, dos mesmos emanam e provêm todo tipo de imundice espiritual e todo tipo de abominação a Deus. Enquanto que dos ímpios emana lodo e sujeira espiritual, dos apóstatas escumam abominações.

estrelas errantes. Os apóstatas também são como estrelas errantes, isto é, como um cometa que surge no horizonte, mas que não possui direção duradoura. Ou seja, os apóstatas estão longe do caminho da verdade, já que não possuem direção segura e não estão de acordo com a verdade.

para os quais está eternamente reservada a negrura das trevas. Ora, para os apóstatas, mais uma vez descritos, está reservada a negrura das trevas, isto é, o justo juízo de Deus, a saber, o inferno.

V. 12-13: Os apóstatas são descritos novamente, mas agora através de figuras da natureza; a infiltração dos apóstatas na Igreja, é evidenciada através de cinco descrições: primeiro, apascentam a si mesmos sem temor, isto é, sem reverência e sem conhecimento da Palavra de Deus; segundo, são como nuvens sem água; terceiro, são como árvores infrutíferas; quarto, são como ondas impetuosas do mar; quinto, são como estrelas errantes.

1.14: E destes profetizou também Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: Eis que é vindo o Senhor com milhares de seus santos,

E destes. Isto é, dos que foram descritos nos vs. 4, 8, 10, 11, 12 e 13.

profetizou também Enoque. A respeito dos apóstatas, profetizou Enoque, aquele que andava com Deus (cf. Gn 5.24; Hb 11.5). Ora, a respeito da profecia de Enoque, se registra num livro apócrifo, sem valor revelacional, mas com valor literário e de informações históricas importantes, chamado Livro de Enoque. A profecia de Enoque descrita nesta epístola é a que também está descrita no Livro de Enoque (I Eno., 1.6).

o sétimo depois de Adão. Enoque foi o sétimo depois de Adão segundo a lista de Gn 5.1-24 e de 1Cr 1.1-3. A sétima geração, simbolizando a geração que alcançou testemunho agradável diante de Deus (cf. Hb 11.5), que alcançou a plenitude diante de Deus.

dizendo: Eis que é vindo o Senhor com milhares de seus santos. A profecia de Enoque é que o Senhor irá vir com milhares de seus santos, tantos os fiéis quanto os anjos (cf. Mt 24.31; 1Ts 3.13; 2Ts 1.7). A profecia de Enoque era a respeito de uma vinda do Senhor para executar e efetuar juízo; ora, na ordem das profecias esta profecia de Enoque refere-se a Segunda Vinda do Messias, pois, em Gn 3.15 há a profecia que refere-se a Primeira Vinda.

1.15: para fazer juízo contra todos e condenar dentre eles todos os ímpios, por todas as suas obras de impiedade que impiamente cometeram e por todas as duras palavras que ímpios pecadores disseram contra ele.

para fazer juízo contra todos. Ora, a profecia de Enoque refere-se ao juízo de Deus pelos atos de apostasia ocasionado pelos anjos caídos, que realmente ocorreu no dilúvio (cf. Gn 6-7), e que acontecerá no fim dos tempos no juízo final. O juízo de Deus é feito contra todos aqueles que praticam os atos apostasiosos. Somente os eleitos são livrados do dano da segunda morte (cf. Ap 2.11).

e condenar dentre eles todos os ímpios. Mas não somente contra todos, mas efetivamente e particularmente para condenar dentre eles os que são ímpios, pois estes são objeto do juízo de Deus.

por todas as suas obras de impiedade. O juízo de Deus contra os ímpios, é um justo juízo, pois, é juízo feito por causa das obras de impiedade praticadas pelos ímpios.

que impiamente cometeram. Os ímpios não somente praticaram obras más, mas suas obras de impiedade são obras que impiamente cometeram, isto é, deliberadamente e consciente se enveredaram pelo caminho da impiedade.

e por todas as duras palavras que ímpios pecadores disseram contra ele. E, além de praticarem obras ímpias, os apóstatas também se vociferavam contra aqueles que serviam a Deus; a apostasia faz com que os homens profiram palavras vis e infames contra os verdadeiros servos de Deus, tal como ocorrera com Enoque. Os ímpios pecadores proferem palavras duras, isto é, palavras de vaidade contra os servos de Deus. A dureza das palavras dos ímpios não está em serem repreensões severas, mas em serem palavras de inveja e movidas pelo engano diabólico.

V. 14-15: A profecia de Enoque tem quatro características peculiares: primeiro, é a primeira profecia sobre a Segunda Vinda; segundo, atesta o juízo de Deus sobre os ímpios; terceiro, demonstra a condenação dos ímpios por suas ações; quarto, demonstra a condenação dos ímpios por suas palavras. Ou seja, os ímpios são condenados justamente e sofrem o justo juízo de Deus devido as suas palavras ímpias e suas obras de impiedade.

1.16: Estes são murmuradores, queixosos da sua sorte, andando segundo as suas concupiscências, e cuja boca diz coisas mui arrogantes, admirando as pessoas por causa do interesse.

Estes. Isto é, os que foram mencionados nos vs. anteriores.

são murmuradores. Os ímpios também são murmuradores, ou seja, murmuram contra Deus e contra os homens.

queixosos da sua sorte. Os apóstatas são queixosos de sua sorte; com efeito, os apóstatas também são imbuídos da doutrina da retribuição, aquela segundo a qual os justos não podem sofrer e os ímpios devem sofrer; e, como todos aqueles que propugnam a doutrina da retribuição são presunçosos, então, aqueles que se queixam de sua sorte são orgulhos e soberbos, pois, segundo o Pregador, o mesmo sucede a todos os homens (cf. Ec 9.2-3a).

andando segundo as suas concupiscências. Os murmuradores e os queixosos de sua sorte, são pecadores contumazes, pois, andam segundo suas paixões; na verdade, são queixosos de sua sorte, mas na verdade, são frutos de suas próprias paixões pecaminosas.

e cuja boca diz coisas mui arrogantes. Os murmuradores proferem coisas arrogantes, isto é, suas palavras são ímpias e soberbas; por isso, diz a Escritura que a boca dos ímpios derriba uma cidade (cf. Pv 11.11). Pois, existem duas formas de arrogância: primeiro, a arrogância hipócrita, aquela que se não profere palavras arrogantes, mas que evidencia-se em obras de impiedade; segundo, a arrogância descarada, aquela que profere palavras arrogantes antes, durante ou após se ter cometido obras de impiedade; o texto refere-se ao segundo tipo, pois, os apóstatas proferem palavras arrogantes antes, durante e/ou após terem cometido obras de impiedade.

admirando as pessoas por causa do interesse. Os murmuradores também são interesseiros, isto é, movem em direção a algumas pessoas por causa do interesse carnal; por isso, a murmuração engendra no coração a luxuria, ou torna a luxuria a senhora do coração. Por isso, os apóstatas, ao serem murmuradores e proferirem palavras de arrogância descaradas, também são interesseiros e luxuriosos.

V. 16: Os apóstatas são aqui descritos a partir das paixões que possuem em suas almas; e as paixões dos apóstatas expressam o estado de alma completamente contrário a Deus que os apóstatas possuem; e, são descritos em cinco características: primeiro, são murmuradores; segundo, são queixosos e descontentes; terceiro, andam segundo suas paixões; quarto, dizem coisas arrogantes; quinto, são luxuriosos.

1.17: Mas vós, amados, lembrai-vos das palavras que vos foram preditas pelos apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo,

Mas vós. Ou seja, em contrapartida a tudo o que foi descrito do v. 4-16, os cristãos devem agir de forma diversa; o em contrário que os cristãos expressam, são luminares contra os efeitos terríveis das ações dos apóstatas.

amados. Os cristãos são chamados de amados, isto é, aqueles que são amados por Deus Pai e em Deus Pai através do Filho Amado de Deus. (ver o v. 1).

lembrai-vos das palavras. Os cristãos devem se lembrar da palavra de Deus, que tanto os alertara contra os apóstatas e sobre o juízo que os espera, quanto os ensina a como viver de modo a agradar a Deus. Se deve lembrar das palavras de Deus, tanto por causa da consciência quanto para manter a pureza no coração (cf. Sl 119.11).

que vos foram preditas pelos apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo. As palavras a que se refere Judas, são as proferidas pelos apóstolos, a doutrina dos apóstolos (cf. Ef 2.20). Pois, os apóstolos reiteradas vezes alertaram sobre os falsos mestres e os falsos profetas, os quais, procurariam se introduzir no meio da Igreja para tornarem a graça de Deus em libertinagem.

1.18: os quais vos diziam que, no último tempo, haveria escarnecedores que andariam segundo as suas ímpias concupiscências.

os quais vos diziam que. Os apóstolos também afirmaram sobre o que as Escrituras de antemão também afirmaram, tal como os exemplos evocados nesta epístola.

no último tempo. Isto é, no tempo do fim. Mas também em relação a todas as épocas onde a apostasia se torna mais corriqueira e incisiva.

haveria escarnecedores. A profecia é de que haveriam escarnecedores, ou seja, de que haveria homens ímpios que promoveriam e propagariam o escárnio, isto é, a zombaria contra tudo aquilo que concerne a Deus.

que andariam segundo as suas ímpias concupiscências. Os apóstatas, que também são escarnecedores, andam segundo suas ímpias paixões e desejos; as paixões dos apóstatas sempre são ímpias e movidas pelos desejos da impiedade, sempre embebidos pelo desejo de Satanás.

V. 17-18: As exortações dos apóstolos sempre foram para alertar contra os terríveis efeitos dos apóstatas no meio da Igreja, causando males e adoecendo o corpo de Cristo. Por isso, Judas procura trazer a lembrança da Igreja a doutrina apostólica concernente aos apóstatas e ímpios, que sempre procuram destruir a graça de Deus e tornar a Igreja sujeita a libertinagem moral e a falta de fidelidade doutrinária.

1.19: Estes são os que causam divisões, sensuais, que não têm o Espírito.

Estes. Isto é, os que foram mencionados nos versículos anteriores (vs. 4-16). Mas, retomado a exortação dos vs. 17-18, os apóstatas agora são demonstrados em seus efeitos espirituais. E, os dois efeitos demonstrados, ao se propagarem, tornam-se um câncer espiritual na vida eclesial. Ou, tal como Apóstolo afirma, os efeitos espirituais da apostasia roem como a gangrena (cf. 2Tm 2.17).

são os que causam. Ora, os apóstatas sempre causam efeitos terríveis; e os efeitos da apostasia sempre são hediondos, libertinos, corruptores e luxuriosos.

divisões. Os apóstatas causam divisões, isto é, destroem a unidade onde haveria haver unidade.

sensuais. Os apóstatas são sensuais; e há dois tipos de sensualidade: uma boa, no relacionamento de um marido com sua mulher, e da mulher com seu marido; e uma ruim, a sensualidade que perverte a ordem da natureza e muda o estado natural. Além disso, sensuais também tem o sentido de embrutecidos, aqueles que ficaram com o entendimento embrutecido, e se tornaram tal como um animal irracional (cf. Sl 73.22). A sensualidade tira o entendimento (cf. Os 4.11), e, por isso, os sensuais são transtornados (cf. Os 4.14).

que não têm o Espírito. Os apóstatas, por serem dominados por paixões ímpias e por serem sensuais, não tem o Espírito; ora, a maior evidência de apostasia é a falta da ação do Espírito Santo. A apostasia vitupera a ação do Espírito Santo.

V. 19: Os apóstatas possuem três características espirituais: primeiro, causam divisões onde não deveria haver divisões, já que são movidos pela ação dos demônios; segundo, são sensuais, dominados pelo espírito da sensualidade; terceiro, não tem o Espírito Santo em seus corações. Logo, pela descrição espiritual dos apóstatas, se percebe que os mesmos não são cristãos, mas são ímpios e tem sua vontade movida por demônios.

* V. 8-19: A descrição dos apóstatas nestes versículos é apresentada de forma variada; e Judas, faz dez descrições diversas: primeiro, descreve a natureza dos apóstatas (v. 8); segundo, fornece um exemplo de respeito as autoridades (v. 9); terceiro, descreve os efeitos morais e intelectuais da apostasia (v. 10); quarto, evoca exemplos históricos das consequências da apostasia (v. 11); sexto, faz comparações os efeitos das ações dos apóstatas com elementos da natureza (v. 12-13); sétimo, evoca o exemplo da profecia de Enoque (v. 14-15); oitavo, faz outras descrições da natureza dos apóstatas (v. 16); nono, traz a lembrança a exortação dos apóstolos sobre os apóstatas (v. 17-18); décimo, descreve as características espirituais dos apóstatas (v. 19).

§ 3. Exortação à edificação da fé (1.20-23).

1.20: Mas vós, amados, edificando-vos a vós mesmos sobre a vossa santíssima fé, orando no Espírito Santo,

Mas vós. A descrição no mesmo sentido da do v. 17; em contrapartida aos apóstatas, que são sensuais e não tem o Espírito, os cristãos devem seguir o caminho da piedade, com radicalidade ainda maior em tempos de apostasia tal como a descrita anteriormente.

amados. Os cristãos são amados, isto é, amados por Deus em Cristo através do Espírito.

edificando-vos a vós mesmos. A fé verdadeira busca edificação em Deus e em Sua palavra, fortificando-se e fortalecendo-se no Senhor e na força de seu poder (cf. Ef 6.10).

sobre a vossa santíssima fé. A fé verdadeira é santíssima, porque tem por objeto a verdade primeira, Deus, que é Super-Santo, e por se estabelecer diante dEle e no relacionamento com Ele, o qual requer santidade (cf. Sl 93.5b; Hb 12.14). A fé é santíssima por seu objeto, seu princípio e sua órbita.

orando no Espírito Santo. Em contrapartida aos apóstatas que não têm o Espírito Santo, os cristãos são chamados a orar no Espírito Santo, isto é, a orar com Ele e na dependência dEle. Orar no Espírito, é orar crendo que o Espírito intercede pelos fiéis com gemidos inexprimíveis e que os ajuda a orar corretamente (cf. Rm 8.26).

1.21: conservai a vós mesmos no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, para a vida eterna.

conservai a vós mesmos. Os cristãos devem se conservar; do mesmo modo como o Senhor os conserva, tal como fora afirmado no v. 1, os cristãos também devem buscar se conservar e preservar a fé incólume, tanto na doutrina quanto na vida cotidiana. A conservação é obra da graça, mas é buscada com temor e tremor pelos eleitos, sempre dependentes desta graça para serem conservados.

no amor de Deus. E o meio de conservar-se a si mesmo incontaminado do mundo, é o conservar-se no amor de Deus; o amor de Deus não somente salva, mas também protege, educa, repreende e conserva. A conservação da fé e do coração é eficaz no amor de Deus.

esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo. A conservação da fé, passa pela firmeza da esperança, que tal como diz a Escritura é tal qual âncora firme (cf. Hb 6.19); por isso, os eleitos esperam a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, tanto no sentido da volta do Senhor, quanto no sentido da paciência em esperar pelo livramento dEle em momentos de tribulação e sofrimento. A exortação a conservar-se a si mesmo, tem por base o amor de Deus, e tem por fundamento a correta apreensão sobre o que se deve esperar, para ordenar a vontade ao devido fim.

para a vida eterna. Os eleitos esperam a vida eterna, isto é, a vida na comunhão total e plena com Deus na glória; pois, só esperam pela vida eterna aqueles que usufruem nesta vida da graça, que é a antessala da glória. Por isso, uma das características do hábito da graça dos fiéis nesta vida, é estar fundamentado na viva esperança (cf. 1Pe 1.3), a qual não decepciona (cf. Rm 5.5).

1.22: E apiedai-vos de alguns que estão duvidosos;

E apiedai-vos. Isto é, tende piedade e misericórdia; mas, o apiedar-se de alguém, é ser movido pelo Espírito para que os mais fracos na fé sejam ajudados a se fortalecerem; na verdade, é procurar ajudar os que necessitam de piedade, não os que necessitam de justiça. Por isso, piedade aos que necessitam de piedade; justiça aos que necessitam de justiça.

de alguns. Ora, somente alguns, e não todos, são aqueles de quem se deve apiedar; pois, com todos se deve usar de misericórdia, mas apenas de alguns, isto é, dos que realmente precisam, se deve apiedar.

que estão duvidosos. E aqueles de quem se deve apiedar, são os que estão duvidosos, seja pela fraqueza do intelecto, seja pela falta de conhecimento, seja pela fraqueza da vontade. A dúvida, pode surgir, mas não se engendrar no coração, senão se transforma em incredulidade. Mas, os que se encontram duvidosos, por qual motivo for, devem ser ajudados e destes se deve apiedar.

1.23: e salvai alguns, arrebatando-os do fogo; tende deles misericórdia com temor, aborrecendo até a roupa manchada da carne.

e salvai alguns. Ora, entre os que estão duvidosos, os cristãos devem procurar salvá-los, isto é, encaminhá-los no caminho da salvação.

arrebatando-os do fogo. O encaminhar no caminho da salvação, é comparado ao retirar alguém do fogo; no caso aqui, do fogo do inferno.

tende deles misericórdia. Destes se deve ter misericórdia; pois, pela ação dos apóstatas muito se tornam duvidosos e fracos na fé; assim, destes se deve ter misericórdia e piedade com entranhas de amor.

com temor. E, se deve ter misericórdia com temor, isto é, no temor do Senhor; pois, misericórdia sem o temor do Senhor, se torna falsa misericórdia. A verdadeira misericórdia é com temor e tremor, em palavras e ações.

aborrecendo até a roupa manchada da carne. E, a evidência do temor na misericórdia, é o aborrecimento até da roupa que foi contaminada, isto é, se até a roupa for contaminada, até essa deve ser aborrecida; pois, ao se trabalhar com os duvidosos e com aqueles que devem ser salvos do fogo, pode se incorrer em pecado ou em manchas pecaminosas. Por isso, ao procurar salvar os outros, se deve manter irrepreensível diante do Senhor.

V. 20-23: Em contrapartida ao que fora afirmado nos versículos anteriores, Judas passa a descrever quais devem ser as características dos cristãos em meio a tamanhas apostasias; e, evoca oito características: primeiro, edificar a fé; segundo, orar no Espírito Santo; terceiro, conservar a si mesmo no amor de Deus; quarto, esperar a vinda do Senhor; quinto, apiedar-se dos duvidosos; sexto, salvá-los do fogo do inferno; sétimo, ter misericórdia com temor; oitavo, guardar-se incontaminado. Ou seja, Judas evoca as características da verdadeira religião.

§ 4. Doxologia (1.24-25).

1.24: Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar e apresentar-vos irrepreensíveis, com alegria, perante a sua glória,

Ora. Ou seja, diante das características que os cristãos devem ter diante da apostasia, Judas volta-se agora ao tema central de sua epístola, a saber, a soberania da Santíssima Trindade.

àquele que é poderoso. A descrição volta-se ao Deus Todo-Poderoso, o Deus soberano que faz o que quer e quando quer (cf. Sl 135.6).

para vos guardar de tropeçar. Ele é tão poderoso, que pode guardar os eleitos de tropeçar, isto é, os guardar dos tropeços em meio a influência hedionda dos apóstatas.

e apresentar-vos irrepreensíveis. O poder de Deus é tão grande, que Ele pode guardar os eleitos irrepreensíveis. Ora, o Espírito é poderoso para guardar os eleitos para apresentá-los irrepreensíveis diante de Deus.

com alegria. E o poder de Deus atua nos eleitos a fim de lhes outorgar a alegria, que é fruto do Espírito (cf. Gl 5.22). E, ao declarar esta palavra, não somente demonstra o efeito glorioso da graça, mas o próprio modo como os fiéis hão de haver-se com Deus, a saber, com alegria.

perante a sua glória. Ora, o objetivo do Espírito em guardar e conservar os fiéis, é mantê-los na alegria de Deus, para os apresentar na glória; pois, como diz o adágio escolástico, a graça é o começo da glória, então, a alegria, nesta vida, é a antessala do gozo da presença de Deus na eternidade.

1.25: ao único Deus, Salvador nosso, por Jesus Cristo, nosso Senhor, seja glória e majestade, domínio e poder, antes de todos os séculos, agora e para todo o sempre. Amém!

ao único Deus. Ora, a este Deus glorioso, o Deus único e verdadeiro (cf. Dt 6.4), que é poderoso para guardar os eleitos e os apresentar irrepreensíveis com alegria perante Sua glória, a este, somente a Ele, se deve prestar honra e glória.

Salvador nosso. Deus é o Salvador (cf. Is 43.3, 11). Portanto, a Ele pertence a salvação.

por Jesus Cristo, nosso Senhor. E, é o nosso Salvador, por intermédio de Jesus Cristo, nosso Senhor. Ora, o Deus Trino atua na obra da salvação, e no ofício régio na vida dos eleitos.

seja glória e majestade. Ao Deus único e verdadeiro, seja glória e majestade; são termos que expressam efusiva adoração, pois, somente a Ele pertencem a glória e a majestade, pois, Ele é o Rei da Glória (cf. Sl 24.7-10); ora, o Senhor da Graça, é também o Rei da Glória; donde, a graça ser proveniente dEle, e a glória ser a visão beatífica dEle. Portanto, a graça e a glória dizem respeito a Ele.

domínio e poder. Ao Deus único, também sejam o domínio e o poder; são termos para descrever a soberania absoluta de Deus; a Ele pertence o domínio e todo o poder (cf. Sl 62.11; Ap 4.11, 5.13).

antes de todos os séculos, agora e para todo o sempre. Ora, a doxologia de Judas, conclui-se com uma declaração de profunda convicção, ao declarar que a Deus sejam glória e majestade, domínio e poder, por todos os tempos: antes do tempo, no tempo, e depois do tempo; ou seja, de eternidade a eternidade; pois, Ele é de eternidade a eternidade (cf. Sl 90.2).

Amém! A conclusão da doxologia termina com o assim seja litúrgico, o fim adequado a toda oração e a toda expressão de adoração e louvor; isto é, tudo que Judas afirmou em sua doxologia, se confirma com o Amém, diante de Deus e diante dos homens; diante de Deus, que aceita a confissão sincera de lábios que o adoram (cf. Hb 13.15); diante dos homens, para ensiná-los o conteúdo da verdadeira adoração.

V. 24-25: A doxologia de Judas, certamente uma das mais belas de todo a Escritura, apresenta três pressupostos teológicos: primeiro, a certeza da perseverança dos eleitos como efeito da graça (v. 24); segundo, a confissão na soberania de Deus como parte da vida piedosa (v. 25); terceiro, as características da verdadeira adoração (v. 25).

***

E termina aqui este comentário menor a epístola de Judas. Bendito seja Deus por Sua Santa Palavra. Amém. 


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