Nota Preliminar.
Este escrito compõe-se de reflexões soltas, aqui
chamadas de digressões, dado seu caráter não-sistemático, simples e orgânico, a
partir de algumas indagações sobre assuntos filósofos, que foram feitas entre
março e setembro de 2020.
I
A definição da pergunta “que é o homem?”, passa
pelo entendimento do homem como um ser cultural, e amalgamado a isso como
sujeito e objeto da cultura; como sujeito, produz cultura, molda, cria,
estabelece e reestabelece padrões culturais; como objeto, é atingido
diretamente pela produção cultural, e por isso toda atividade cultural coloca o
homem como um ser aberto a outro, aberto ao mundo, o que estabelece um ponto de
contato entre o homem e o transcendente. Desta forma, a produção cultural, em
termos de mandato cultural, é uma realidade indubitavelmente humana. A cultura
sempre estabelece um ponto de tensão, uma busca, uma fé, um interesse pelo
supremo, como afirmara Paul Tillich; por isso, na e para a cultura o homem se
abre para a sua completude em todas as dimensões, sem nenhum reducionismo; bem
como na cultura, se esvai qualquer neutralidade em relação ao transcendente.
II
O homem, através da cultura, se mostra um ser aberto a
educação, posto esta ser uma necessidade fundamental; mas não somente a
educação, mas também ao direcionamento a produção cultural, a sua realização
neste mundo perante os outros e perante o sublime. Assim, a tarefa da educação é
proporcionar ao homem o entendimento desta realidade e assim elevá-los aos
ditames da alta cultura, da cultura que é estabelecida em ordem a verdade, a
bondade e a beleza; da mesma forma, como o homem tem múltiplas dimensões, a
cultura terá uma multiplicidade de manifestações, e na educação, o homem
aprende a respeitá-las e a tê-las como objetos de respeito e admiração.
A educação é um processo inerente a realidade
cultural, pois sem educação de qualidade não há desenvolvimento da cultura, e
assim, funda-se uma realidade humana livre, responsável, e comprometida com a
vida digna. Por isso, Tolkien chama a atividade humana na cultura de atividade
“subcriadora”; portanto, realizadora, promovedora da dignidade humana.
Se a cultura-educação é uma atividade criadora, logo é social e laboriosa, ou
seja, acontece no contato com o outro e com o mundo, bem como é transmitida com
esforço, labor. A educação é assim, a cultura também.
Por isso, a educação acontece quando respeita as
dimensões do homem em sua totalidade e trabalha, se esforça, para transmitir a
dignidade do homem em sua essência tanto na produção cultural quanto na
realização cultural. Por esta razão, é que Santo Agostinho diz: “com efeito,
de todos os milagres de que o homem é instrumento, o maior milagre é o próprio
homem” (De Civ. Dei, X, 2). O maior milagre da educação é a integração
da multiformidade da vida humana, pois como dissera Agostinho o maior milagre
do homem é o próprio homem.
Esta é uma tarefa magna da educação, o próprio homem
enquanto homem se realizando como homem, tendo a sua dignidade respeitada, e
assim produzindo cultura.
III
“O homem é um caniço pensante...”; ora, esta
sentença de Pascal sintetiza no que consiste a antropologia; o homem no
universo ocupa um lugar essencial e peculiar; devido a todo o paradoxo da vida,
Pascal elabora uma comparação entre o universo e o homem, ou seja, entre o
infinitamente grande e o infinitamente pequeno; assim o homem é como um caniço,
o menor da natureza, porém é maior do que o universo, porque pensa.
Com efeito, Pascal é um grande crítico do
racionalismo, que reduz tudo a mera explicação racional, a qual nada tem de
racional. Por isso, Pascal se utiliza da figura do caniço, que sintetiza toda a
debilidade humana; mas o homem é um caniço “pensante”, e o adjetivo
pensante é o que qualifica a dignidade do homem, tal como o próprio Pascal
afirma: “toda a nossa dignidade consiste pois, no pensamento”; e, para
Pascal, no caminho do pensar corretamente, o homem precisa da mente e do
coração, ou seja, “se elevar”. E ao se elevar, o homem passa a conhecer
sua condição ontológica.
E esta condição para Pascal é de miséria. O homem
penetrando em si mesmo com sua razão sabe que não pode compreender tudo, que é
limitado. Isto leva o homem a uma compreensão racional e a uma relação consigo
mesmo (Kierkegaard), e nesta relação, por sua condição de conseguir pensar
sobre os mistérios da natureza, mas não conseguir penetrar nos mistérios da
própria existência, traz ao homem a angústia, tal como afirmara Kierkegaard.
Desta forma, esta dialética entre grandeza e pequenez
fora demonstrada pelos filósofos da seguinte maneira: em sua grandeza o homem
situa-se para a eternidade (cristianismo), mas em sua pequenez para o
tempo-espaço (Bruno); em sua grandeza o homem é o animal racional
(Aristóteles), mas em sua pequenez apenas um animal doente (Nietzsche); em sua
grandeza o homem é um caniço pensante (Pascal), mas em sua pequenez é uma
máquina (La Mettrie).
Estas definições defrontam-se com uma realidade
existencial profunda, começada pela verdade do “caniço” indo até a dignidade do
“pensante”. O universo é grande, mas não consegue pensar sobre esta grandeza;
em contrapartida o homem é pequeno, mas consegue pensar sobre a grandeza do
universo. E esta é uma peculiaridade da antropologia pascalina, que leva em
consideração ao formular a ideia de homem os paradoxos da condição humana.
IV
O conhecimento natural é um aio que guia até a
revelação, porém insuficiente sem a revelação no que tange aos assuntos
divinos. Na verdade, através da natureza o homem vê reflexos de um conhecimento
superior; este conhecimento superior provêm da revelação, que planifica,
exemplifica e fundamenta aquilo que vem do conhecimento natural apenas como
relances de algo superior e mais sublime; por isto, este conhecimento demonstra
sua superioridade em relação ao conhecimento natural, porém sem que o mesmo
seja negligenciado; pelo conhecimento natural pode-se de perceber que existe um
Deus, porém somente na revelação se conhece sobre a pessoalidade de Deus. Por
isso, há a aschesis, ou seja, o exercício da subida do conhecimento
natural ao revelado, a via do conhecimento natural até a revelação.
V
Paul Ricouer destaca, em sua filosofia da
hermenêutica, o que se chama caminho da “via longa” – isto é, o caminho da
conciliação entre a interpretação e os métodos das ciências. Ricouer fora
influenciado pelo existencialismo e pela fenomenologia, além é claro da teologia
de Barth e Bultmann, o que legou a ele características peculiares em sua forma
de interpretar o texto filosófico e a realidade.
No caminho da conciliação, Ricouer estabeleceu alguns
princípios, formando dois tópicos: o primeiro, no qual se tem a busca da
verdade, a ontologia da compreensão, formando o itinerário original a
interpretação da realidade; o segundo, a rigidez da demitologização científica,
do método crítico das ciências, formando o itinerário derivado da
interpretação.
Isto faz com que Ricouer atribua a interpretação o
conceito de símbolo; ou seja, o caminho da interpretação tem um sentido
direito, literal, e outro indireto, figurado; o segundo desvelado após o
primeiro; é uma expressão científica para a hermenêutica dos dois sentidos da
exegese bíblica.
VI
O problema ontológico, o de saber que entes existem e
como existem, é explicado por Russel em termos de um atributo geral de qualquer
objeto; para isto, é necessário que haja descrições definidas; as descrições
não são nomes que existem em si mesmos, mas algo que só existe dentro de um
contexto. Santo Agostinho dizia que se existe algo inefável que não pode ser
explicado totalmente, o pelo menos dizer que é inefável já torna este algo
entendível. Russel define as estruturas conceituais como algo que entra em
relação com o pensador, ou seja, com os possíveis objetos de pensamento; e
assim, o ser pertence a tudo o que pode ser levado em consideração seja como
ente real seja como ente de razão. Embora, o ato de ser esteja além das definições
propostas por Russel.
VII
Kant dissera que Aristóteles descobriu tudo o que era
necessário em relação a lógica; assim, ele mesmo definira a lógica como uma
doutrina baseada nos princípios a priori; por isso, pode-se pensar em
algumas questões: o que Kant entendia por lógica? Como Kant aplicava a lógica
em relação ao todo do conhecimento? A resposta a estas duas questões descortina
o núcleo dos erros teoréticos do sistema kantiano.
VIII
As tendências hermenêuticas, compreendidas a partir da
contribuição de Gadamer, a partir de quando a hermenêutica fora definitivamente
aferida no status de disciplina por si, tende a se tornar cada vez mais amplas
no bojo de todas as ciências; pode-se aperfeiçoar as linhas hermenêuticas
existentes, bem como estabelecer novas perspectivas para áreas do conhecimento
que ainda não tenham conceitos gerais de interpretação no seu âmbito
particular; de certa forma, num âmbito mais universal, tem-se teorias hermenêuticas
que vão sendo encaixadas no âmbito restrito de cada área do saber.
E isto é valoroso, pois a cada nova descoberta e/ou
avanço cultural há a possibilidade de novas perspectivas hermenêuticas, já que
a experiência da verdade, ou o desvelar da verdade, transcende o método
cientifico, posto não existir apenas a verdade científica, mas a verdade num
prisma abrangente, o qual quando observado tem suas características
particulares, as quais estão sujeitas a universalidade da verdade.
Pois, por exemplo, existe verdade na linguagem,
verdade nas artes, verdade na filosofia, verdade na ciência, etc., as quais
estão sujeitas a Verdade Primeira, da qual emanam. Desta forma, há a
possibilidade da aplicação do conceito do todo para as partes e das partes para
o todo; mas para isso, na multiplicidade da manifestação da verdade, há se ter
a Verdade, da qual provém tudo o que é verdadeiro, e para a qual toda
multiplicidade da verdade aponta.
IX
A verdade que está inserida na linguagem, isto é, a
verdade do que é dito corretamente e genuinamente; ou a verdade do que é belo;
ou a verdade do amor pelo saber; ou a verdade da observação e experimentação; etc.;
todas as manifestações da verdade apontam para a Verdade Primeira, a verdade
eterna, a qual não é uma coisa, mas uma Pessoa, a saber, Jesus Cristo, “em
quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência” (Cl
2.3).
X
A compreensão sobre o belo é um dos temas mais
significativos da vida humana; não se vive sem a experiência de beleza, pois a
alma humana tende ao belo assim como as aves para voar.
Aristóteles dissera que o belo é um prazer despertado
nas faculdades pensantes; é a expressão deste prazer de forma racional, através
de algum meio “artístico”; e esta expressão, se for verdadeira, sempre se
manifesta no caminho da ordem, da simetria, da integridade, do resplendor.
Pois, o belo se coaduna com o conceito de bem, tanto que os gregos
costumeiramente os afirmavam em conjunto, com o conceito de kalokagathía
(beleza-bondade).
Platão diz no “Filebo” que “a potência do
bem refugia-se na natureza no belo”; realmente, o belo é a fortaleza do
bem, e o bem é a ação do belo; e este belo que advém e transforma-se em
elemento racional, que tem em si ação (o bem), e que expressa a verdade,
tornar-se-á em obra de arte; e se a mesma transcender o meio, a moda e o
momento histórico, configurar-se-á, como dizia Hippolyte Taine, como patrimônio
da humanidade.
Assim, a compreensão do belo é algo imprescindível
para a cultura filosófica, bem como é um elemento necessário à nossa cultura
desencantada. Dostoiévski profetizara que a “beleza salvará o mundo”. E
esta é uma esperança natural que todos os homens de bem devem possuir.
XI
A bioética num mundo que cada vez mais se desenvolve
tende a se encaixar em todos os prismas do desenvolvimento
científico-filosófico; isto demonstra que cada esfera do saber humano tem de
ter uma ética ligada a vida; uma ética que pontifique o caminho de atuação
frente aos desenvolvimentos científicos, mas que não fira a dignidade humana.
Pois, os pensadores hodiernos, diante de tantos avanços científicos, terão na
bioética uma disciplina que os ajudará a trilhar os caminhos da ciência sem
desvincular-se e nem ultrapassar os limites da dignidade humana.
***
E termina aqui este escrito. Laudate Deo!